terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Por Marx (Parte III), de Louis Althusser

Editora: Unicamp

ISBN: 978-85-268-1232-1

Opinião: ★★☆☆☆☆

Páginas: 216

Sinopse: Ver Parte I


“É preciso perceber e defender esse princípio com intransigência, para não lançar o marxismo nas confusões de que ele nos livra, ou seja, num tipo de pensamento para o qual só existe um único modelo de unidade: a unidade de uma substância, de uma essência ou de um ato; nas confusões gêmeas do materialismo “mecanicista” e do idealismo da consciência. Se, por precipitação, se assimilar a unidade estruturada de um todo complexo à unidade simples de uma totalidade; se se considerar o todo complexo como o puro e simples desenvolvimento de uma única essência ou substância originária e simples, então cai-se, no melhor dos casos, de Marx em Hegel, e no pior, de Marx em Haeckel! Mas, fazendo isso, sacrifica-se justamente a diferença específica que distingue Marx de Hegel: a que separa radicalmente o tipo de unidade marxista do tipo de unidade hegeliano, ou a totalidade marxista da totalidade hegeliana. O conceito de “totalidade” é hoje em dia um conceito de grande consumo: passa-se quase sem visto de Hegel a Marx, da Gestalt a Sartre, e assim por diante, invocando uma mesma palavra, a “totalidade”. A palavra permanece a mesma, porém, o conceito muda, às vezes radicalmente, de um autor a outro. Assim que se define esse conceito, termina a tolerância. A “totalidade” hegeliana não é, com efeito, esse conceito maleável que se imagina) é um conceito perfeitamente definido e individualizado por seu papel teórico. A totalidade marxista é também, por seu lado, definida e rigorosa. Essas duas “totalidades” têm em comum apenas: (1) uma palavra; (2) certa concepção vaga da unidade das coisas; (3) inimigos teóricos. Em contrapartida, quase não têm relação em sua essência mesma. A totalidade hegeliana é o desenvolvimento alienado de uma unidade simples, de um princípio simples, ele mesmo momento do desenvolvimento da Ideia; ela é, portanto, rigorosamente falando, o fenômeno, a manifestação de si desse princípio simples, que persiste em todas as suas manifestações, logo, na própria alienação que prepara sua restauração. Ainda aí, não se trata de conceitos sem consequências. Pois essa unidade de uma essência simples, ao se manifestar em sua alienação, produz este resultado: que todas as diferenças concretas que figuram na totalidade hegeliana, inclusive as “esferas” visíveis dentro dessa totalidade (a sociedade civil, o Estado, a religião, a filosofia etc.), todas essas diferenças são negadas tão logo afirmadas; visto que elas não são mais do que os “momentos” da alienação do princípio interno simples da totalidade, que se realiza negando as diferenças alienadas que ele coloca; ainda mais, essas diferenças são, como alienações – fenômenos – do princípio interno simples, todas igualmente “indiferentes”, ou seja, praticamente iguais diante dele, portanto iguais entre si, e é por isso que em Hegel nenhuma contradição determinada jamais é dominante.43 Isso quer dizer que o todo hegeliano possui uma unidade de tipo “espiritual” em que: todas as diferenças são colocadas apenas para serem negadas, logo indiferentes; elas nunca existem por si mesmas; elas têm apenas a aparência de uma existência independente; sem jamais manifestar mais do que a unidade do princípio simples interno que se aliena nelas, elas são praticamente iguais entre si, como fenômeno alienado desse princípio.

É, portanto, afirmar que a totalidade hegeliana: (1) não é realmente mas aparentemente articulada em “esferas”; (2) que ela não tem por unidade sua complexidade mesma, ou seja, a estrutura dessa complexidade; (3) que ela é então desprovida dessa estrutura com dominante, que é a condição absoluta que permite a uma complexidade real ser unidade, e ser realmente o objeto de uma prática, propondo-se transformar essa estrutura: a prática política. Não é um acaso se a teoria hegeliana da totalidade social jamais fundou uma política, se não existe e não pode existir política hegeliana.

Não é tudo. Se toda contradição o é de um todo complexo estruturado com dominante, não se pode considerar o todo complexo fora de suas contradições, fora da relação de desigualdade fundamental entre elas. Dito de outro modo, cada contradição, cada articulação essencial da estrutura e a relação geral das articulações dentro da estrutura com dominante constituem igualmente condições de existência do próprio todo complexo. Essa proposição é de primeiríssima importância, pois significa que a estrutura do todo – logo, a “diferença” das contradições essenciais e sua estrutura com dominante – é a própria existência do todo; que a “diferença” das contradições ( que haja uma contradição principal etc., e que cada contradição tenha um aspecto principal) componha uma unidade com as condições de existência do todo complexo. Claramente, essa proposição implica que as contradições “secundárias” não são o puro fenômeno da contradição “principal”, que a principal não é a essência da qual as secundárias seriam outros tantos fenômenos; seriam tão bem seus fenômenos que praticamente a contradição principal poderia existir sem as secundárias, ou sem esta e aquela dentre elas, ou poderia existir antes delas, ou depois.44 Ela implica, ao contrário, que as contradições secundárias são essenciais à própria existência da contradição principal, que elas constituem realmente a condição de existência dela, assim como a contradição principal constituí a condição de existência delas. Tome-se o exemplo deste todo complexo estruturado que é a sociedade. As “relações de produção” não são aí o puro fenômeno das forças produtivas, são também sua condição de existência; a superestrutura não é o puro fenômeno da estrutura, é também sua condição de existência. Isso decorre do próprio princípio, enunciado anteriormente por Marx: que em nenhum lugar existe uma produção sem sociedade, ou seja, sem relações sociais; que a unidade, além da qual é impossível remontar, é a de um todo no qual, se as relações de produção têm efetivamente por condição de existência a própria produção, a produção tem ela mesma por condição de existência sua forma: as relações de produção. Que não haja engano aqui: esse condicionamento de existência das “contradições” umas pelas outras não anula a estrutura com dominante que reina sobre as contradições e nelas (no caso, a determinação em última instância pela economia). Esse condicionamento não desemboca, em sua aparente circularidade, na destruição da estrutura de dominação que constitui a complexidade do todo e sua unidade. Muito pelo contrário, ele é, no interior mesmo da realidade das condições de existência de cada contradição, a manifestação dessa estrutura com dominante que constitui a unidade do todo.45 Essa reflexão das condições de existência da contradição no interior de si mesma, essa reflexão da estrutura articulada com dominante que constitui a unidade do todo complexo no interior de cada contradição, eis o traço mais profundo da dialética marxista, aquele que tentei apreender recentemente com o conceito de “sobredeterminação”.46

Para entender esse ponto, passemos pelo desvio de um conceito familiar. Quando Lenin diz que “a alma do marxismo é a análise concreta de uma situação concreta”; quando Marx, Engels, Lenin, Stalin, Mao explicam que “tudo se deve às condições”; quando Lenin descreve as “circunstâncias” próprias da Rússia de 1917; quando Marx (e toda a tradição marxista) explicam com mil exemplos que, conforme o caso, é esta ou aquela contradição que domina etc., eles apelam para um conceito que pode parecer empírico: essas “condições” são as condições existentes e, ao mesmo tempo, as de existência de um fenômeno considerado. Ora, esse conceito é essencial ao marxismo justamente porque não é um conceito empírico: a constatação do que existe ... É, ao contrário, um conceito teórico, fundado na essência mesma do objeto: o todo complexo sempre-já-dado. Essas condições não são outra coisa, com efeito, do que a existência em seu papel e em sua essência do todo em um “‘momento” determinado, no “momento atual” do homem político, ou seja, a relação complexa de condições de existência recíprocas entre as articulações da estrutura do todo. É por isso que é teoricamente possível e legítimo falar das “condições”, como daquilo que permite compreender que a Revolução, “na ordem do dia”, não eclode e não triunfa senão aqui, na Rússia, na China, em Cuba; em 1917, em 1949, em 1958, e não em outro lugar; nem num outro “momento”; que a revolução, comandada pela contradição fundamental do capitalismo, não tenha triunfado antes do Imperialismo e tenha triunfado nessas “condições” favoráveis que foram justamente os pontos da ruptura histórica, esses “elos mais fracos”: não a Inglaterra, a França, a Alemanha, mas a Rússia “atrasada” (Lenin), a China e Cuba (ex-colônias, terras de exploração do Imperialismo). Se é teoricamente permitido falar de condições sem cair no empirismo ou na irracionalidade do “é assim” e do “acaso”, é porque o marxismo concebe as “condições” como a existência (real, concreta, atual) das contradições que constituem o todo de um processo histórico. É por isso que Lenin, invocando as “condições existentes” na Rússia, não caía no empirismo: ele analisava a própria existência do todo complexo do processo do Imperialismo na Rússia, em seu “momento atual”.

Mas se as condições não são senão a existência atual do todo complexo, elas são suas próprias contradições, refletindo cada uma em si a relação orgânica que mantém com as outras na estrutura com dominante do todo complexo. É porque cada contradição reflete em si (em suas relações específicas de desigualdade com as outras contradições, e na relação de desigualdade específica entre seus dois aspectos) a estrutura com dominante do todo complexo em que ela existe – portanto, a existência atual desse todo; portanto, suas “condições” atuais –, que ela constitui um todo com elas: assim, fala-se das “condições de existência” do todo ao falar das “condições existentes”.

Será ainda necessário voltar a Hegel para mostrar que nele, finalmente, as “circunstâncias” ou as “condições” não são, também elas, senão fenômeno, portanto evanescentes, visto que elas nunca exprimem, sob essa forma de “contingência” batizada “existência da Necessidade”, senão a manifestação do movimento da Ideia; e é exatamente por isso que as “condições” não existem verdadeiramente em Hegel, visto que se trata, sob o pretexto da simplicidade se desenvolvendo em complexidade, de uma pura interioridade, cuja exterioridade é apenas o fenômeno. Que a “relação com a natureza”, por exemplo, para o marxismo, faça organicamente parte das “condições de existência”; que ela seja um dos termos, o principal, da contradição principal (forças produtivas – relações de produção); que ela seja, como a condição de existência delas, refletida nas contradições “secundárias” do todo e de suas relações; que as condições de existência sejam, portanto, um absoluto real, o dado-sempre-já-dado da existência do todo complexo, que as reflete na sua própria estrutura – eis o que é totalmente alheio a Hegel, que recusa, ao mesmo tempo, o todo complexo estruturado e suas condições de existência, dando-se de antemão uma pura interioridade simples. É por isso que, por exemplo, a relação com a natureza, as condições de existência de toda sociedade humana desempenham em Hegel apenas o papel de um dado contingente, do “inorgânico” do clima, da geografia (a América, esse “silogismo cujo termo médio, o istmo do Panamá, é muito estreito”!), o papel do famoso “é assim!” (expressão de Hegel diante das montanhas), designando a Natureza material que deve ser “superada” (aufgehoben!) pelo Espírito que é sua “verdade”... Sim, quando reduzidas assim à natureza geográfica, as condições de existência são a própria contingência que será absorvida, negada-superada pelo Espírito que é sua livre necessidade, e que existe já na Natureza, na forma mesma da contingência (que faz com que uma pequena ilha produza um grande homem!). É porque as condições de existência, naturais ou históricas, nunca são para Hegel senão a contingência, que elas não determinam em nada a totalidade espiritual da sociedade: a ausência das condições (no sentido não empírico, não contingente) está necessariamente ligada, em Hegel, à ausência de estrutura real do todo, à ausência de uma estrutura com dominante, de uma determinação fundamental e dessa reflexão das condições na contradição que sua “sobredeterminação” representa.

Se insisto a tal ponto nessa “reflexão”, que propus chamar “sobredeterminação”, é porque é preciso absolutamente isolá-la, identificá-la e dar-lhe um nome, para prestar contas teoricamente de sua realidade, que tanto a prática teórica quanto a prática política do marxismo nos impõem. Tentemos delimitar bem esse conceito. A sobredeterminação designa, na contradição, a qualidade essencial seguinte: a reflexão, na própria contradição, de suas condições de existência, ou seja, de sua situação na estrutura com dominante do todo complexo. Essa “situação” não é unívoca. Ela não é nem só sua situação “de direito” (a que ela ocupa na hierarquia das instâncias em relação à instância determinante: a economia na sociedade), nem só sua situação “de fato” (se ela é, no estágio considerado, dominante ou subordinada), mas a relação dessa situação de fato com essa situação de direito, ou seja, a própria relação que faz dessa situação de fato uma “variação” da estrutura, com dominante, “invariante” da totalidade.

Se assim for, é preciso então admitir que a contradição deixa de ser unívoca (as categorias deixam de ter, de uma vez por todas, um papel e um sentido fixos), visto que reflete em si, em sua própria essência, sua relação com a estrutura desigualitária do todo complexo. Mas é preciso acrescentar que, deixando de ser unívoca, ela não se torna “equívoca” por isso, produto da primeira pluralidade empírica a chegar, à mercê das circunstâncias, e dos “acasos”, seu puro reflexo, como a alma de tal poeta não é mais do que essa nuvem que passa. Muito pelo contrário, deixando de ser unívoca, logo, determinada de uma vez por todas, assegurada em seu papel e sua essência, ela se revela determinada pela complexidade estruturada que lhe designa seu papel, como – se me perdoarem esta palavra horrorosa! – complexamente-estruturalmente-desigualitariamente-determinada... Confesso que preferi uma palavra mais curta: sobredeterminada.

É esse tipo muito particular de determinação (essa sobredeterminação) que dá à contradição marxista sua especificidade e permite dar conta teoricamente da prática marxista, seja ela teórica ou política. Só ela permite compreender as variações e as mutações concretas de uma complexidade estruturada tal como uma formação social (a única a que a prática marxista se refere verdadeiramente até agora), não como variações e mutações acidentais produzidas por “condições” externas sobre um todo estruturado fixo, suas categorias e a ordem fixa destas (o mecanicismo é esse mesmo), mas como outras tantas reestruturações concretas inscritas na essência, o “jogo” de cada categoria; na essência, o “jogo” de cada contradição; na essência, o “jogo” das articulações da estrutura complexa com dominante que se reflete nelas. É preciso dizer ainda mais uma vez que, doravante, sem assumir, sem pensar, depois de tê-lo identificado, esse tipo muito particular de determinação, é impossível pensar a possibilidade da ação política, da própria prática teórica; ou seja, muito precisamente a essência do objeto (da matéria-prima) da prática política e teórica, ou seja, a estrutura do “momento atual” (político ou teórico) ao qual se aplicam tais práticas. É preciso acrescentar que, sem conceber essa sobredeterminação, é impossível dar conta teoricamente da simples realidade seguinte: do prodigioso “trabalho” de um teórico, seja ele Galileu, Spinoza ou Marx, e de um revolucionário, Lenin e todos os seus irmãos, dedicando seus sofrimentos, quando não sua vida, a resolver estes pequenos “problemas”...: elaborar uma teoria “evidente”, fazer a revolução “inevitável”, realizar em sua própria “contingência” (!) pessoal a Necessidade da História, seja ela teórica ou política, onde, em breve, o futuro viverá muito naturalmente seu “presente”.

Para tornar esse ponto mais preciso, retomemos os próprios termos de Mão Tsé-tung. Se todas as contradições estão submetidas à grande lei da desigualdade; se, para ser marxista e poder agir politicamente (e, acrescentarei, para poder produzir na teoria), é preciso a todo custo distinguir o principal do secundário entre as contradições e seus aspectos; se essa distinção é essencial à prática e à teoria marxista – é, observa Mao, que ela é requerida para encarar a realidade concreta, a realidade da história que os homens vivem, para prestar contas de uma realidade onde reina a identidade dos contrários, ou seja: (1) a passagem, em condições determinadas, de um contrário no lugar do outro,47 a mudança dos papéis entre as contradições e seus aspectos (chamaremos de .deslocamento a esse fenômeno de substituição); (2) “a identidade” dos contrários numa unidade real (chamaremos de condensação a esse fenômeno de “fusão”). É, com efeito, a grande lição da prática que, se a estrutura com dominante permanece constante, o emprego dos papéis muda aí: a contradição principal torna-se secundária, uma contradição secundária toma seu lugar, o aspecto principal torna-se secundário, o aspecto secundário torna-se principal. Há sempre uma contradição principal e contradições secundárias, mas elas trocam de papel na estrutura articulada com dominante, a qual permanece estável. “Não há absolutamente dúvida nenhuma” – diz Mao Tsé-tung – “de que, em cada uma das diversas etapas do desenvolvimento do processo, só existe uma contradição principal que desempenha o papel dirigente”. Mas essa contradição principal produzida por deslocamento não se torna “decisiva”, explosiva, a não ser por condensação (por “fusão”). É ela que constitui o “elo decisivo” que é preciso apreender e puxar para si na luta política, como diz Lenin (ou na prática teórica...), para que venha toda a corrente, ou, para empregar uma imagem menos linear, é ela que ocupa a posição nodal estratégica que é preciso atacar para “desmembrar a unidade” existente.” Ainda aqui não se deve deixar-se levar pelas aparências de uma sucessão arbitrária de dominações, pois cada uma constitui uma etapa do processo complexo (base da “periodização” da história) e é porque lidamos com a dialética de um processo complexo que lidamos com esses “momentos” sobredeterminados e específicos que são as “etapas”, os “estágios”, os “períodos”, e com essas mutações de dominação específica que caracterizam cada etapa. A nodalidade do desenvolvimento (estágios específicos) e o nódulo específico da estrutura de cada estágio são a existência e a realidade mesma do processo complexo. Aí está o que funda a realidade, decisiva na e para a prática política (e muito evidentemente também para a prática teórica), dos deslocamentos da dominação e das condensações das contradições, de que Lenin nos dá um exemplo tão claro e tão profundo em sua análise da Revolução de 1917 – o ponto de “fusão” das contradições, nos dois sentidos do termo: o ponto em que se condensam (“fundem”) várias contradições tais que ele se torna o ponto de fusão (crítico), o ponto da mutação revolucionária, da “refundação”. (...)

Toda a história da teoria e da prática marxista confirma esse ponto. Não é somente como o efeito exterior da interação entre diferentes formações sociais existentes que a teoria e a prática marxistas encontram a desigualdade, mas no seio mesmo de cada formação social. E, no seio de cada formação social, não é somente na forma da simples exterioridade (ação recíproca entre a infraestrutura e a superestrutura) que a teoria e a prática marxistas encontram a desigualdade, mas numa forma organicamente interior a cada instância da totalidade social, a cada contradição. É “o economicismo” ( o mecanicismo), e não a verdadeira tradição marxista, que põe de uma vez por todas no lugar a hierarquia das instâncias, determina a cada uma sua essência e seu papel, e define o sentido unívoco de suas relações; é ele que identifica para sempre os papéis e os atores, não concebendo que a necessidade do processo consiste na permuta dos papéis “segundo as circunstâncias”. É o economicismo que identifica de antemão e para sempre a contradição-determinante-em-última-instância com o papel de contradição-dominante, que assimila para sempre este ou aquele “aspecto” (forças de produção, economia, prática...) com o papel principal, e tal outro “aspecto” (relações de produção, política, ideologia, teoria...) com o papel secundário, ao passo que a determinação em última instância pela economia se exerce justamente, na história real, nas permutas de papel principal entre a economia, a política, e a teoria etc. Engels o havia muito bem visto e indicado na sua luta contra os oportunistas da Segunda Internacional, que esperavam da eficácia unicamente da economia o advento do socialismo. Toda a obra política de Lenin atesta a profundidade deste princípio: que a determinação em última instância pela economia se exerce, segundo os estágios do processo, não acidentalmente, não por razões exteriores ou contingentes, mas essencialmente, por razões interiores e necessárias, por permutas, deslocamentos e condensações.

A desigualdade é, portanto, bem interior à formação social, porque a estruturação com dominante do todo complexo, este invariante estrutural, é ela mesma a condição das variações concretas das contradições que a constituem, logo, de seus deslocamentos, condensações e mutações etc. e, inversamente, porque tal variação é a existência desse invariante. O desenvolvimento desigual (ou seja, esses mesmos fenômenos de deslocamento e condensação que se podem observar no processo de desenvolvimento do todo complexo) não é, portanto, exterior à contradição, mas constitui sua essência mais íntima. A desigualdade que existe no “desenvolvimento” das contradições, ou seja, no próprio processo, existe, portanto, na essência da própria contradição. Se o conceito de desigualdade não estivesse associado a uma comparação externa de caráter quantitativo, eu diria de bom grado que a contradição marxista é “desigualmente determinada”, com a condição de que se aceite reconhecer sob essa desigualdade a essência interna que ela designa: a sobredeterminação.

Resta-nos ainda examinar um último ponto: o papel motor da contradição no desenvolvimento de um processo. O entendimento da contradição não teria sentido se não permitisse o entendimento desse motor.

O que se disse de Hegel permite compreender em que sentido a dialética hegeliana é motriz, e em que sentido o conceito é “autodesenvolvimento”. Quando a fenomenologia celebra, num texto belo como a noite, “o trabalho do negativo” nos seres e nas obras, a morada do Espírito na própria morte, a inquietude universal da negatividade desmembrando o corpo do Ser para engendrar o corpo glorioso desse infinito, do nada tornado Ser, o Espírito, todo filósofo treme em sua alma como diante dos Mistérios. No entanto, a negatividade só pode conter o princípio motor da dialética, a negação da negação, como a reflexão rigorosa dos pressupostos teóricos hegelianos da simplicidade e da origem. A dialética é negatividade como abstração da negação da negação, ela mesma abstração do fenômeno da restauração da alienação da unidade originária. É por isso que, em todo começo hegeliano, é o Fim que está em ação; é por isso que a origem nunca faz senão crescer em si mesma e produzir em si seu próprio fim, em sua alienação. O conceito hegeliano – “o que permanece no ser-outro o que ele é” – é assim a existência da negatividade. A contradição é, portanto, motriz em Hegel como negatividade, ou seja, como reflexão pura do “ser em si mesmo no ser outro”, logo, como reflexão pura do princípio da própria alienação: a simplicidade da Ideia.

Não pode ser assim em Marx. Se lidamos apenas com processos de estrutura complexa com dominante, o conceito de negatividade (e os conceitos que ele reflete: negação da negação, alienação etc.) não pode servir para o entendimento científico dos desenvolvimentos desses processos. Assim como o tipo da necessidade do desenvolvimento não pode ser reduzido à necessidade ideológica da reflexão do fim sobre seu começo, igualmente o princípio motor do desenvolvimento não pode ser reduzido ao desenvolvimento da ideia em sua própria alienação. Negatividade e alienação são, portanto, conceitos ideológicos, que, para o marxismo, podem designar seu próprio conteúdo ideológico. Que o tipo hegeliano da necessidade e a essência hegeliana do desenvolvimento sejam rejeitados não significa absolutamente que estejamos, por essa razão, no vazio teórico da subjetividade, do “pluralismo”, ou da contingência. Muito pelo contrário, é com a condição de nos libertarmos dos pressupostos hegelianos que estaremos seguros de escapar verdadeiramente desse vazio. É, com efeito, porque o processo é complexo e possui uma estrutura com dominante que é possível prestar contas realmente de seu devir e de todos os aspectos típicos desse devir. (...)

Dizer que a contradição é motriz, em teoria marxista, é, portanto, dizer que ela implica uma luta real, afrontamentos reais situados em lugares precisos da estrutura do todo complexo; é, portanto, dizer que o lugar do enfrentamento pode variar conforme a relação atual das contradições na estrutura com dominante; é dizer que a condensação da luta num lugar estratégico é inseparável do deslocamento da dominância entre as contradições; que esses fenômenos orgânicos de deslocamento e de condensação são a própria existência da “identidade dos contrários”, até que eles produzam a forma globalmente visível da mutação ou do salto qualitativo que sanciona o momento revolucionário da refundação do todo. É, a partir daí, possível prestar contas da distinção capital para a prática política entre momentos distintos de um processo: “não antagonismo”, “antagonismo” e “explosão”. A contradição, diz Lenin, está sempre em ação, seja qual for o momento. Esses três momentos não são, portanto, senão três formas de existência da contradição. Caracterizarei de bom grado o primeiro como o momento em que a sobredeterminação da contradição existe na forma dominante do deslocamento (a forma “metonímica” daquilo que é identificado na expressão consagrada: “mudanças quantitativas” na história ou teoria); o segundo como o momento em que a sobredeterminação existe na forma dominante da condensação (conflitos de classe agudos no caso da sociedade, crise teórica na ciência etc.); e o último, a explosão revolucionária (na sociedade, na teoria etc.), como o momento da condensação global instável provocando o desmembramento e o remembramento do todo, ou seja, uma reestruturação global do todo sobre uma base qualitativamente nova. A forma puramente “acumulativa”, por mais que essa “acumulação” possa ser puramente quantitativa (a soma não é senão excepcionalmente dialética) aparece, portanto, como uma forma subordinada, da qual Marx nos deu um único exemplo puro, não metafórico, mas “excepcional” (uma exceção baseada nas suas próprias condições) no único texto d’O capital que constitui o objeto de um célebre comentário de Engels no Anti-Dühring (Livro I, cap. 12).”

43 Não se deve confundir a teoria de Hegel com o julgamento de Marx sobre Hegel. Por mais espantoso que isso possa parecer a quem o conhece por intermédio do julgamento de Marx, Hegel não é, na sua teoria da sociedade, o avesso de Marx. O princípio “espiritual” que constitui a unidade interna da totalidade hegeliana histórica não é de maneira nenhuma assimilável ao que figura em Marx na forma da “determinação em última instância pela economia”. Não se encontra em Hegel o princípio inverso: a determinação em última instância pelo Estado ou pela filosofia. É Marx que diz: na realidade, a concepção hegeliana da sociedade equivale a fazer da Ideologia o motor da História, porque é uma concepção ideológica. Mas Hegel não diz nada parecido. Não há para ele na sociedade, na totalidade existente, determinação em última instância. A sociedade hegeliana não é unificada por uma instância fundamental existente no interior dela mesma, ela não é nem unificada, nem determinada por uma de suas “esferas”, quer seja a esfera política, quer seja a filosófica ou a religiosa. Para Hegel, o princípio que unifica e determina a totalidade social não é tal “esfera” da sociedade, mas um princípio que não tem nenhum lugar nem corpo privilegiado na sociedade, pela razão de que ele reside em todos os lugares e em todos os corpos, Ele está em todas as determinações da sociedade, econômicas, políticas, jurídicas etc., e até nas mais espirituais. Tal como Roma: não é sua ideologia que a unifica e a determina, para Hegel, mas um princípio “espiritual” (ele mesmo momento do desenvolvimento da Ideia), que se manifesta em todas as determinações romanas, economia, política, religião, direito etc. Esse princípio é a personalidade jurídica abstrata. É um princípio “espiritual”, do qual o direito romano não é senão uma manifestação entre todas as outras. No mundo moderno, é a subjetividade, princípio igualmente universal: a economia é aí subjetividade, como a política, a religião, a filosofia, a música etc. A totalidade da sociedade hegeliana é feita de tal maneira que seu princípio é, ao mesmo tempo, imanente e transcendente a ela, mas que, enquanto tal, ele nunca coincide com nenhuma realidade determinada da própria sociedade. É por isso que a totalidade hegeliana pode ser dita afetada por uma unidade de tipo “espiritual”, onde cada elemento é pars totalis, e onde as esferas visíveis não são senão o desdobramento alienado e restaurado do dito princípio interno. Quer dizer que não é possível por nenhuma razão identificar (mesmo como seu avesso) o tipo de unidade da totalidade hegeliana com a estrutura de unidade da totalidade marxista.

44 Esse mito de origem é ilustrado pela teoria do contrato social “burguês”, que, em Locke, por exemplo, essa pura joia teórica, define uma atividade econômica no estado de natureza anterior (de direito ou de fato, pouco importa) às suas condições jurídicas e políticas de existência!

45 Marx nos dá, na Introdução..., a mais bela demonstração da invariância da estrutura com dominante na aparente circularidade dos condicionamentos, quando analisa a identidade da produção, do consumo, da distribuição por meio da troca. Capaz de dar ao leitor a vertigem hegeliana ... – “nada mais simples então”, diz Marx, “para um hegeliano, do que colocar a produção e o consumo como idênticos” (p. 158), mas é enganar-se inteiramente. “O resultado a que chegamos não é o de que a produção, a distribuição, a troca, o consumo são idênticos, mas que eles são todos os elementos de uma totalidade, diferenciações no interior de uma unidade”, na qual é a produção, na sua diferença específica, que é determinante. “Uma produção determinada determina portanto um consumo, uma distribuição, uma troca determinados; ela regula igualmente as relações recíprocas determinadas desses diferentes momentos. A bem dizer, a produção, também ela, sob a forma exclusiva, é, por seu lado, determinada pelos outros fatores” (p. 164).

46 Não forjei esse conceito. Como o indicara, tomei-o emprestado de duas disciplinas existentes: no caso, a linguística e a psicanálise. Ele possui aí uma “conotação” objetiva dialética e – particularmente em psicanálise – formalmente assaz aparentada ao conteúdo que designa aqui, para que esse empréstimo não seja arbitrário. É preciso necessariamente uma palavra nova para designar uma precisão nova. Pode-se decerto forjar um neologismo. Pode-se também “importar” (como diz Kant) um conceito assaz aparentado para que sua domesticação (Kant) seja fácil. Esse “parentesco” poderia, ademais, permitir, por sua vez, um acesso à realidade psicanalítica.

47 Sobre a contradição, pp. 56-57.

 

 

“Marx professa sempre uma filosofia do homem: “Ser radical é pegar as coisas pela raiz; ora, para o homem, a raiz é o próprio homem[...]” (1843). Mas o homem não é então liberdade-razão senão porque ele é inicialmente “Gemeinwesen”, “ser comunitário”, um ser que só se realiza teoricamente (ciência) e praticamente (política) em relações humanas universais, tanto com os homens quanto com seus objetos (a natureza exterior “humanizada” pelo trabalho). Ainda aqui, a essência do homem funda a história e a política.

A história é a alienação e a produção da razão na desrazão, do homem verdadeiro no homem alienado. Nos produtos alienados de seu trabalho (mercadorias, Estado, religião), o homem, sem o saber, realiza a essência do homem. Essa perda do homem, que produz a história e o homem, supõe uma essência preexistente definida. No fim da história, esse homem, que se tornou objetividade inumana, terá apenas de reaver, como sujeito, sua própria essência alienada na propriedade, na religião e no Estado, para se tornar homem total, homem verdadeiro.

Essa nova teoria do homem funda um novo tipo de ação política: a política de uma reapropriação prática. O apelo à simples razão do Estado desaparece. A política não é mais simples crítica teórica, edificação da razão pela imprensa livre, mas reapropriação prática de sua essência pelo homem. Pois o Estado, como a religião, é o homem, mas o homem despossuído; o homem está cindido entre o cidadão (Estado) e o homem civil, duas abstrações. No céu do Estado, nos “direitos do cidadão”, o homem vive imaginariamente a comunidade humana de que é privado na terra dos “direitos do homem”. Assim, a revolução não será mais somente política (reforma liberal racional do Estado), mas “humana” (“comunista”), para restituir ao homem sua natureza alienada na forma fantástica do dinheiro, do poder e dos deuses. A partir de então, essa revolução prática será a obra comum da filosofia e do proletariado, pois, na filosofia, o homem é afirmado teoricamente; no proletariado, ele é negado praticamente. A penetração da filosofia no proletariado será a revolta consciente da afirmação contra sua própria negação, a revolta do homem contra suas condições inumanas. Então, o proletariado negará sua própria negação e tomará posse de si no comunismo. A revolução é a própria prática da lógica imanente à alienação: é o momento em que a crítica, até então desarmada, reconhece suas armas no proletariado. Ela fornece ao proletariado a teoria do que ele é: o proletariado lhe fornece em compensação sua força armada, uma única e mesma força onde cada um se alia apenas consigo mesmo. A aliança revolucionária do proletariado e da filosofia é, portanto, ainda aqui, selada com a essência do homem.”

 

 

“A partir de 1845, Marx rompe radicalmente com toda teoria que funda a história e a política numa essência do homem. Essa ruptura única comporta três aspectos teóricos indissociáveis:

(1) formação de uma teoria da história e da política fundada em conceitos radicalmente novos: conceitos de formação social, forças produtivas, relações de produção, superestrutura, ideologias, determinações em última instância pela economia, determinação específica dos outros níveis etc.;

(2) crítica radical das pretensões teóricas de todo humanismo filosófico;

(3) definição do humanismo como ideologia.

Nessa nova concepção, tudo se encaixa também rigorosamente, mas é um novo rigor: a essência do homem criticada (2) é definida como ideologia (3), categoria que pertence à nova teoria da sociedade e da história (1).

A ruptura com toda antropologia ou todo humanismo filosóficos não é um detalhe secundário: ela é constitutiva da descoberta científica de Marx.

Ela significa que, num único e mesmo ato, Marx rejeita a problemática da filosofia anterior e adota uma problemática nova. A filosofia anterior idealista (“burguesa”) repousava, em todos os seus domínios e desenvolvimentos (“teoria do conhecimento”, concepção da história, economia política, moral, estética etc.), sobre uma problemática da natureza humana (ou da essência do homem). Essa problemática foi, durante séculos, a evidência mesma, e ninguém sonhava em questioná-la, mesmo em suas modificações internas.

Essa problemática não era vaga nem imprecisa: era, ao contrário, constituída por um sistema coerente de conceitos precisos, estreitamente articulados uns aos outros. Ela implicava, quando Marx a enfrentou, os dois postulados complementares definidos por ele na sexta tese sobre Feuerbach:

(1) que existe uma essência universal do homem;

(2) que essa essência é o atributo dos “indivíduos considerados isoladamente” que são seus sujeitos reais.

Esses dois postulados são complementares e indissociáveis. Ora, sua existência e sua unidade pressupõem toda uma concepção empirista-idealista do mundo. Para que a essência do homem seja atributo universal, é preciso efetivamente que sujeitos concretos existam, como dados absolutos: o que implica um empirismo do sujeito. Para que esses indivíduos empíricos sejam homens, é preciso que eles tragam em si toda a essência humana, se não de fato, ao menos de direito: o que implica um idealismo da essência. O empirismo do sujeito implica, portanto, o idealismo da essência e reciprocamente. Essa relação pode se inverter em seu “contrário” – empirismo do conceito, idealismo do sujeito. A inversão respeita a estrutura fundamental dessa problemática, que permanece fixa.

Pode-se reconhecer nessa estrutura-tipo não só o princípio das teorias da sociedade (de Hobbes a Rousseau), da economia política (de Petty a Ricardo), da moral (de Descartes a Kant), mas também o próprio princípio da “teoria” idealista e materialista (pré-marxista) “do conhecimento” ( de Locke a Feuerbach, passando por Kant). O conteúdo da essência humana ou dos sujeitos empíricos pode variar (como se vê de Descartes a Feuerbach); o sujeito pode passar do empirismo ao idealismo (como se vê de Locke a Kant): os termos e sua relação variam apenas no interior de uma estrutura-tipo invariante, que constitui essa problemática mesma: a um idealismo da essência responde sempre um empirismo do sujeito (ou a um idealismo do sujeito, um empirismo da essência).

Ao rejeitar a essência do homem como fundamento teórico, Marx rejeita todo esse sistema orgânico de postulados. Ele expulsa as categorias filosóficas sujeito, empirismo, essência ideal etc. de todos os domínios em que elas reinavam. Não só da economia política (rejeição do mito do homo economicus, ou seja, do indivíduo com faculdades e necessidades definidas, na condição de sujeito da economia clássica); não só da história (rejeição do atomismo social e do idealismo político-ético); não só da moral (rejeição da ideia moral kantiana); mas também da própria filosofia: visto que o materialismo de Marx exclui o empirismo do sujeito (e seu inverso: o sujeito transcendental) e o idealismo do conceito (e seu inverso: o empirismo do conceito).

Essa revolução teórica total somente tem condições de recusar os antigos conceitos porque os substitui por conceitos novos. Marx funda efetivamente uma nova problemática, uma nova maneira sistemática de colocar questões ao mundo, novos princípios e um novo método. Essa descoberta está contida imediatamente na teoria do materialismo histórico, na qual Marx propõe não só uma nova teoria da história das sociedades, mas, ao mesmo tempo, implícita porém necessariamente, uma nova “filosofia” com implicações infinitas. Assim, quando Marx substitui na teoria da história o velho par indivíduos-essência humana por novos conceitos (forças produtivas, relação de produção etc.), ele propõe de fato, simultaneamente, uma nova concepção da “filosofia”. Ele substitui os antigos postulados (empirismo-idealismo do sujeito, empirismo-idealismo da essência) que estão na base, não só do idealismo, mas também do materialismo pré-marxista, por um materialismo dialético-histórico da práxis: ou seja, por uma teoria dos diferentes níveis específicos da prática humana (prática econômica, prática política, prática ideológica, prática científica) em suas articulações próprias, fundada nas articulações específicas da unidade da sociedade humana. Resumindo, digamos que Marx substitui o conceito “ideológico” e universal da “prática” feuerbachiana por uma concepção concreta das diferenças específicas que permite situar cada prática particular nas diferenças específicas da estrutura social.

Para compreender o que Marx traz de radicalmente novo, é preciso então tomar consciência não só da novidade dos conceitos do materialismo histórico, mas também da profundidade da revolução teórica que eles implicam e anunciam. É com essa condição que é possível definir o estatuto do humanismo: rejeitando suas pretensões teóricas e reconhecendo sua função prática de ideologia.”

 

 

“Convencionou-se dizer que a ideologia pertence à região “consciência”. Que não haja engano sobre essa denominação, que permanece contaminada pela problemática idealista anterior a Marx. Na verdade, a ideologia tem muito pouco a ver com a “consciência”, supondo que esse termo tenha um sentido unívoco. Ela é profundamente inconsciente, mesmo quando se apresenta (como na “filosofia” pré-marxista) numa forma refletida. A ideologia é efetivamente um sistema de representações, mas essas representações não têm, no mais das vezes, nada a ver com a “consciência”; elas são, no mais das vezes, imagens, ‘eventualmente conceitos, mas é antes de tudo corno estruturas que elas se impõem à imensa maioria dos homens, sem passar por sua “consciência”. São objetos culturais percebidos-aceitos-suportados, que atuam funcionalmente sobre os homens por um processo que lhes escapa. Os homens “vivem” sua ideologia corno o cartesiano “via” ou não via – se não estava olhando para ela – a Lua a duzentos passos: de maneira nenhuma como uma forma de consciência, mas como um objeto do seu “mundo” – como seu próprio “mundo”. O que se quer dizer, todavia, quando se diz que a ideologia diz respeito à “consciência” dos homens? Primeiro, que se distingue a ideologia das outras instâncias sociais, mas também que os homens vivem suas ações, comumente atribuídas pela tradição clássica à liberdade e à “consciência”, na ideologia, mediante e pela ideologia; em suma, que a relação “vivida” dos homens com o mundo, inclusive com a História (na ação ou inação política), passa pela ideologia, ou melhor, é a própria ideologia. É nesse sentido que Marx dizia que é na ideologia (como lugar das lutas políticas) que os homens tomam consciência de seu lugar no mundo e na história; é no interior dessa inconsciência ideológica que os homens conseguem modificar suas relações “vívidas” com o mundo e adquirir essa nova forma de inconsciência específica que se chama “consciência”.

A ideologia se refere, portanto, à relação vivida dos homens com seu mundo. Essa relação, que não se mostra “consciente” senão sob a condição de ser inconsciente, parece, da mesma maneira, não ser simples senão sob a condição de ser complexa, de não ser uma relação simples, mas uma relação de relações, uma relação de segundo grau. Na ideologia, os homens exprimem, com efeito, não suas relações com suas condições de existência, mas a maneira pela qual vivem sua relação com suas condições de existência, o que supõe simultaneamente relação real e relação “vivida”, “imaginária”. A ideologia é, então, a expressão da relação dos homens com seu “mundo”, ou seja, a unidade (sobredeterrninada) de sua relação real e de sua relação imaginária com suas condições de existência reais. Na ideologia, a relação real está inevitavelmente investida na relação imaginária: relação que mais exprime uma vontade (conservadora, conformista, reformista ou revolucionária), até mesmo uma esperança ou uma nostalgia, do que descreve uma realidade.

É nessa sobredeterminação do real pelo imaginário e do imaginário pelo real que a ideologia é, em seu princípio, ativa, que ela reforça ou modifica a relação dos homens com suas condições de existência, nessa relação ela mesma imaginária. Decorre daí que essa ação jamais pode ser puramente instrumental: os homens que se serviriam de uma ideologia corno de um puro meio de ação, de uma ferramenta, encontram-se presos nela, tornados por ela no momento mesmo em que se servem dela, e acreditam ser seus senhores incontestes.

Isso é perfeitamente claro no caso de uma sociedade de classes. A ideologia dominante é então a ideologia da classe dominante. Mas a classe dominante não mantém com a ideologia dominante, que é a sua ideologia, uma relação exterior e lúcida de utilidade ou de astúcia puras. Quando a “classe ascendente”, burguesa, desenvolve, no decurso do século XVIII, uma ideologia humanista da igualdade, da liberdade e da razão, ela dá à sua própria reivindicação a forma da universalidade, corno se assim ela quisesse alistar do seu lado, formando-os para esse fim, os próprios homens que ela não libertará senão para os explorar. Aí está o mito rousseauniano da origem da desigualdade: os ricos fazendo aos pobres o “discurso mais refletido” já concebido, para convencê-los a viver sua servidão como sua liberdade. Na verdade, a burguesia deve crer no seu mito, antes de convencer dele os outros, e não só para os convencer, pois o que ela vive em sua ideologia é essa relação imaginária com suas condições de existência reais, a qual lhe permite simultaneamente agir sobre si (dar-se consciência jurídica e moral, e as condições jurídicas e morais do liberalismo econômico) e sobre os outros (seus explorados e futuros explorados: os “trabalhadores livres”) a fim de assumir, preencher e suportar seu papel histórico de classe dominante. Na ideologia da liberdade, a burguesia vive assim exatamente sua relação com suas condições de existência; ou seja, sua relação real (o direito da economia capitalista liberal), mas investida por uma relação imaginária (todos os homens são livres, inclusive os trabalhadores livres). Sua ideologia consiste nesse jogo de palavras sobre a liberdade, que revela tanto a vontade burguesa de mistificar seus explorados (“livres”!) para mantê-los sob controle, pela chantagem da liberdade, quanto a necessidade da burguesia de viver sua própria dominação de classe como a liberdade de seus próprios explorados. Assim como um povo que explora outro não poderia ser livre, igualmente uma classe que se serve de uma ideologia está, também, submetida a ela. Quando se fala da função de classe de uma ideologia, é preciso, portanto, compreender que a ideologia dominante é efetivamente a ideologia da classe dominante, e que ela lhe serve não só para dominar a classe explorada, mas também para se constituir ela mesma como classe dominante, fazendo-a aceitar como real e justificada sua relação vivida com o mundo.”

 

 

“Para nós, o “real” não é uma palavra de ordem teórica: o real é o objeto real, que existe, independentemente de seu conhecimento, mas que não pode ser definido senão por seu conhecimento. Nessa segunda relação, teórica, o real forma uma unidade com os meios de seu conhecimento; o real é sua estrutura conhecida ou a conhecer, é o objeto mesmo da teoria marxista, esse objeto demarcado pelas grandes descobertas teóricas de Marx e de Lenin, esse campo teórico imenso e vivo, em constante desenvolvimento, onde doravante os acontecimentos da história humana podem ser dominados pela prática dos homens, porque estão submetidos à sua apreensão conceitual, ao seu conhecimento.”

 

 

“O recurso à moral, profundamente inscrito em toda ideologia humanista, pode desempenhar o papel de um tratamento imaginário dos problemas reais.”

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