quinta-feira, 28 de maio de 2026

É possível unir o Brasil? (Parte II), de Helder Maldonado

Editora: Planeta

ISBN: 978-85-422-4024-5

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 144

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Sinopse: Ver Parte I



“Marçal pode até ficar inelegível, como o próprio Jair ficou depois da infinidade de crimes que cometeu durante a eleição de 2024, o que lhe rendeu quase um processo por dia durante a campanha. Mas causou um estrago na até então inabalável liderança do ex-presidente. E é jovem. Se ficar de fora dos próximos páreos, tem chance de lucrar muito com aqueles que aderiram à figura dele em 2024, seja na venda de cursos, seja de palestras.

E não foram só os paulistanos. A milhares de quilômetros da capital de São Paulo foram vistas caminhonetes adesivadas e cidadãos com os bonés azuis com a letra M, versão brasileira do boné vermelho da campanha de Trump em 2020, este último com a frase “Make America great again” [Faça a América ser grande de novo]. Ou seja: ele registrou uma marca e atraiu muitos CEOs de MEI. E não está sozinho nessa atualização da direita, o que eu chamo de segunda onda do bolsonarismo.

Os pastores, os espalhadores de fake news que cresceram dentro do YouTube e os olavistas podem ser substituídos em breve por representantes do ecossistema de influenciadores com boa oratória, conhecedores do vocabulário e trejeitos de crentes e que ainda prometem que te farão ricos com as dicas infalíveis vendidas em seus cursos.

Muita gente já é atraída por esse combo. Afinal, ele é mesmo mais atraente do que o bolsonarismo puramente ideológico. Porque este último não promete nenhum caminho, mesmo que falso, para atingir a prosperidade. Uma vez que o próprio Bolsonaro só prosperou à custa do Estado, ele nem sabe ensinar um caminho para fora da pobreza que não passe por ingressar nas Forças Armadas.

Marçal não. Ele é bem-sucedido, mesmo que ninguém saiba muito bem como adquiriu sua fortuna. Isso deixa a promessa de êxito financeiro mais abrangente, mais democrática e tangível até mesmo para quem não tem a menor condição de gerir um pequeno negócio, o que chamaremos aqui da cultura do bolo de pote ou a vida brasileira extremamente improvisada.

Ocorre que, ao mesmo tempo que o evangelicalismo é considerado um desdobramento separatista de alguma das várias subdivisões do judaísmo e tem um passado em comum com o catolicismo, o indivíduo neopentecostal brasileiro com pretensões proféticas como Marçal atua como alguém que varia entre o anacronismo, o delírio, o cosplay e a picaretagem comum. (...)

Marçal encarna o opressor que cada oprimido hospeda em si, nas palavras de Paulo Freire. Toda a cartilha que ele encena para seu gado escancara o que Gilles Deleuze e Félix Guattari falavam sobre as relações entre desejo e capitalismo: o que Marçal quer destravar nas pessoas é que os explorados e desfavorecidos desejem sinceramente oprimir, mesmo que a realização desse desejo esteja em contradição com seus próprios interesses.

Por trás da conversa sobre prosperidade e riqueza, o que se tem é apenas paranoia, medo e um desejo de fuga a todo custo, mesmo que seja dando um tiro no próprio pé.

O Reverendo Moon do Cerrado não é professor, palestrante, pastor ou mesmo coach. Ele é apenas a dominatrix do neoliberalismo: agora você está apanhando como nunca, mas quem sabe um dia, se você destravar seu mindset, chegue a sua vez de torturar os outros.”

 

 

“Informações da investigação mostram dois pontos importantes sobre esse assunto: funcionários públicos fardados agiram com o objetivo de dar um golpe de Estado, com direito à morte por envenenamento de Lula, Alckmin e Xandão, identificados como Jeca, Joca e Juca.

E o segundo ponto é o seguinte: a anistia de 1964 perpetuou a sensação de poder e a certeza da impunidade entre militares. Não jogar generais na cadeia para inaugurar um novo capítulo em nossa história, com a desculpa de que o melhor seria uma conciliação, é abrir brecha para repetir o que ocorreu no passado.

E o golpe não permaneceu apenas no campo da imaginação, que fique claro. Ele apenas foi mal executado. Afinal, se tivesse sido bem executado, hoje eu e mesmo você seríamos apenas camisas de saudades eternas, após termos sido delatados por vizinhos ou parentes, porque, sim, aquele teu primo fã do Partido Novo iria entregar você sem dó.

A nossa sorte é que, apesar do poder bélico e conhecimento técnico de combate, os militares brasileiros são burros e, depois do olavismo e bolsonarismo, se transformaram em personagens de humor involuntário de comédia pastelão estilo Top Gang. São tão patéticos que é difícil acreditar que muitos deles ocupem cargos da elite militar e sejam considerados as pessoas mais inteligentes de suas famílias.

Áudios divulgados com exclusividade pelo Fantástico na noite de 24 de novembro de 2024 mostram como parte dos 37 indiciados pela tentativa de golpe de Estado se comportavam entre o fim do segundo turno e a posse de Lula.155 A trama sórdida e nefasta é também levemente engraçada, mas só porque não tivemos nossas unhas arrancadas pelo general Heleno com um grifo.

Mario Fernandes, único general que conseguiu a proeza de ser preso como civil na nossa história, instigou a todo momento que se rasgasse a Constituição, que não se respeitasse o resultado das urnas e que a democracia fosse ignorada. Em 4 de novembro de 2022, ele fala: “Tá na cara que houve fraude, tá na cara, não dá mais para a gente aguardar essa porra”.156 A fonte de Mario? Provavelmente a mesma que seu tio motorista de aplicativo acessou naquele dia, repassou no grupo de família e causou discórdia generalizada entre parentes.

Mario também garante que teve uma reunião com o Mito, que, como mentor, sugeriu que o envenenamento de Lula não ocorresse no dia 12 de dezembro, pois o foco no evento de diplomação restringiria a tentativa de meter um chumbinho na cachaça do Nine. Durante a conversa que teve com o presidente, Mario mencionou que o dia 12, pela diplomação do vagabundo, seria uma restrição. “Mas aí, na hora, eu disse: pô, presidente, mas o quanto antes… A gente já perdeu tantas oportunidades.”157

Repare que Fernandes é um general. E, mesmo sem ter apoio irrestrito das Forças Armadas, ele atua de forma bastante empoderada, talvez sendo o testa de ferro perfeito para o ex-presidente: imbecil e destemido.

Não que o resto do Exército discordasse dele, mas o apoio oficial não veio. A vontade de que um golpe acontecesse era real, mas sabemos que são um bando de cansados que preferem simplesmente preservar seus gordos salários e benefícios, mesmo tendo que aturar o Lula na presidência de novo. E, como já dissemos, a manutenção de acampamentos de patriotários em frente aos quartéis era uma estratégia para segurar o apoio popular e o clima favorável para um golpe.

Afinal, em qualquer circunstância que um civil ouse obstruir uma calçada de quartel, ele vai no mínimo levar uma cacetada no joelho para ficar esperto. Mas, naquele momento, não: deixaram acampamentos montados por meses, com cinquentões tocando sucessos do BRock 80 em caixas de som com alto-falantes estourados – mesmo que as letras de protesto das músicas tenham sido interpretadas de maneira totalmente equivocada.

Vamos abrir aspas para o que general Mario Fernandes disse sobre essa situação em 2022: “Talvez seja isso que o alto-comando, que a defesa quer. O clamor popular, como foi em 1964. Nem que seja para inflamar as massas, para que ela se mantenha nas ruas”.158

Participantes não identificados baixam ainda mais o nível da conversa. Um deles diz estar pronto para morrer pelo plano, enquanto outro confessa que não adianta contar com militares éticos para o golpe e que eles precisam se juntar ao que ele classifica como “rataria”.159

Em 12 de dezembro, data em que se deu a diplomação, fica ainda mais nítido o baixo nível dos envolvidos. Naquele dia, houve tentativa de invadir o prédio da Polícia Federal, além de civis terem incendiado carros e ônibus nas ruas de Brasília.

Um oficial do Exército perdeu a paciência nessa data, porque reconheceu que o prazo estava curto e que, se não fosse feito nada até 31 de dezembro, eles perderiam de fato essa luta. “O senhor me desculpe a expressão, nas quatro linhas é o caralho, quatro linhas da constituição é o caralho. Nós estamos em guerra, eles estão vencendo, está quase acabando e eles não deram um tiro por incompetência nossa.”160

Se esses diálogos já parecem falas de um filme, os rastros deixados deveriam ser usados como inspiração de cenas agora que Hollywood voltou a fazer filmes ironizando a falta de inteligência de policiais e militares. A minuta do golpe simplesmente foi impressa no Palácio do Planalto em papel timbrado com a palavra “secreto” escrita em marca d’água.161

Mario Fernandes ainda cometeu o descuido de não apagar o documento do armazenamento em nuvem, com fotos suas participando, todo sorridente, de manifestações que pediam intervenção federal. Sem intimidade com a tecnologia, ele imaginou que bastaria resetar o celular e trocar de aparelho para apagar os rastros, mas ignorou que deixou o upload de fotos e vídeos sincronizado com o armazenamento em nuvem.162

Já o major Rafael de Oliveira, que chegou a sondar o entorno da casa de Alexandre de Moraes para matar o ministro,163 rodou por um descuido de cabaço. Ao fotografar um documento de terceiro para adquirir uma linha de celular sem os seus dados, deixou o polegar aparecer e os papiloscopistas descobriram que o dedo era de Rafael, que aliás podia ter tirado a foto do documento em cima de uma superfície plana para evitar esse enrosco.164

No entanto, assim como o deputado federal Carlos Jordy, que visitou um cabaré de Uber com dinheiro público165 quando podia ter colocado um endereço aproximado para não se comprometer, percebemos que nem inteligência para a ilicitude esses caras têm. E olha que eles se acham a nata da malandragem.

Para finalizar com cereja em cima da merda essa história, Guilherme Marques de Almeida, ex-comandante de operações psicológicas do Exército, simplesmente desmaiou ao ouvir o “toc toc toc” da Polícia Federal na sua casa.166

O que esses documentos revelam é importante para reforçar que quem ainda se atreve a fazer uma falsa simetria entre bolsonarismo e petismo muito provavelmente é um mau-caráter que neste momento apenas lamenta que o plano tenha dado errado.”

155 VINICIOS BETIOL. Reportagem completa do Fantástico com os áudios dos bolsonaristas golpistas planejando a execução do Lula, do Alckmin e do Alexandre de Moraes. [...]. 24 nov. 2024. X: @vinicios_betiol. Disponível em: https://x.com/vinicios_betiol/status/1860854885689766368. Acesso em: 7 abr. 2025; FANTÁSTICO: áudios exclusivos mostram militares falando sobre trama golpista. G1, 24 nov. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/11/24/fantastico-audios-exclusivos-mostram-militares-falando-sobre-trama-golpista.ghtml. Acesso em: 7 abr. 2025.

156 TALENTO, Aguirre et al. Áudios revelam articulação golpista: ‘É guerra civil agora ou depois’. UOL, 25 nov. 2024. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/11/25/novos-audios-revelam-articulacao-golpista-e-guerra-civil-agora-ou-depois.htm. Acesso em: 7 abr. 2025.

157 NÃO há dúvida de que Bolsonaro conhecia “minuta do golpe”, diz Moraes. CNN Brasil, 26 mar. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/nao-ha-duvida-de-que-bolsonaro-conhecia-minuta-do-golpe-diz-moraes/. Acesso em: 7 abr. 2025.

158 LOPES, Anna Júlia. Em áudio, Mario Fernandes faz referência a clamor popular, “como foi em 64”, para adesão das Forças; ouça. CNN Brasil, 25 nov. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/em-audio-mario-fernandes-faz-referencia-a-clamor-popular-como-foi-em-64-para-adesao-das-forcas-ouca/. Acesso em: 7 abr. 2025; GENERAL golpista comemorou atos de vandalismo de bolsonaristas durante diplomação de Lula: “agora vai rolar sangue”. Brasil 247, 25 nov. 2024. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/general-golpista-comemorou-vandalismo-de-bolsonaristas-durante-diplomacao-de-lula-agora-vai-rolar-sangue. Acesso em: 7 abr. 2025; JEFF NASCIMENTO. “Então, tem q ser antes. Tem que acontecer antes, como nós queremos, dentro de um estado de normalidade. [...]”.19 nov. 2024. Bluesky: @jnascim.info. Disponível em: https://bsky.app/profile/jnascim.info/post/3lbce7j5j6s26. Acesso em: 7 abr. 2025.

159 GALZO, Weslley. Militar pediu reunião de Bolsonaro ‘só com a ralaria’ para propor tese de fraude na urna; veja falas. Estadão, 20 nov. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/militar-pediu-reuniao-de-bolsonaro-so-com-a-rataria-para-propor-tese-de-fraude-na-urna-veja-falas/. Acesso em: 23 maio 2025.

160 JARDIM, Lauro. Impacientes com Bolsonaro, militares alvos da PF usavam palavrões: ‘Quatro linhas é o c…’. Blog do Lauro Jardim, 19 nov. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2024/11/impacientes-com-bolsonaro-militares-alvos-da-pf-usavam-palavroes-quatro-linhas-e-o-c.ghtml. Acesso em: 7 abr. 2025.

161 WILLIAM DE LUCCA. No dia 06/12/22, o general Mário Fernandes imprimiu o plano de sequestro e assassinato de Lula, Alckmin e Moraes [...], 19 nov. 2024. X: @delucca. Disponível em: https://x.com/delucca/status/1858861733651100137. Acesso em: 7 abr. 2025.

162 CAPPELLI, Paulo. General preso por Moraes esqueceu fotos comprometedoras na nuvem. Metrópolis, 23 nov. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas/paulo-cappelli/general-preso-por-moraes-esqueceu-fotos-comprometedoras-na-nuvem-veja. Acesso em: 7 abr. 2025.

163 CAPPELLI, Paulo. Militar foi até a casa de Moraes para prendê-lo, aponta PF. Metrópoles, 20 nov. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas/paulo-cappelli/militar-foi-ate-a-casa-de-moraes-para-prende-lo-aponta-pf. Acesso em: 15 abr. 2025.

164 ORTEGA, Pepita. Digital em foto e B.O. de batida de carro levaram PF a ‘kid preto’ que tramou morte de Moraes. Terra, 20 nov. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/digital-em-foto-e-bo-de-batida-de-carro-levaram-pf-a-kid-preto-que-tramou-morte-de-moraes,48f0b0bb9db4cfeb70949e68a77201dbxk7z21jq.html. Acesso em: 7 abr. 2025.

165 CÂMARA paga Uber em nome de Carlos Jordy para ida a “casa de entretenimento adulto”. Congresso em Foco, 24 out. 2024. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/8299/camara-paga-uber-em-nome-de-carlos-jordy-para-ida-a-casa-de-entretenimento-adulto. Acesso em: 7 abr. 2025.

166 MILITAR indiciado com Bolsonaro desmaiou quando PF bateu em sua porta. UOL, São Paulo, 23 nov. 2024. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/11/23/militar-indiciado-com-bolsonaro-desmaiou-ao-ser-alvo-de-operacao-da-pf.htm. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

 

“Uma chapa formada pelos ex-rivais Lula e Geraldo Alckmin e que, ao assumir, recebeu de braços abertos Simone Tebet – que foi favorável ao impeachment de Dilma Rousseff – como ministra do Planejamento não pode ser encarada como um projeto de esquerda puro-sangue nem em um país como os Estados Unidos, onde o político mais distante da direita é, com boa vontade, um cosplay do João Campos, prefeito do Recife.

A questão é que o movimento concorrente dessa coalizão na atualidade é um grupo que acusa os inimigos de fazerem justamente o que eles cometem: separar a sociedade em guetos nos quais certos grupos devem ser marginalizados e exterminados. O próprio Jair Bolsonaro nunca escondeu que pensa assim ao ameaçar metralhar a petralhada do Acre,171 lamentar que a ditadura tenha matado pouco172 ou alegar que o certo é a minoria se dobrar à maioria ou simplesmente desaparecer.173

Essa mentalidade contaminou parte da população que, em nenhuma hipótese, aceita que o país seja unido em suas infinitas diferenças e defende uma nação que seja apenas cristã, heterossexual, conservadora, de direita e cidadã de bem, seja lá o que isso signifique na prática.

E mente quem defende que não existe impacto na realidade das pessoas quando um líder político defende a aniquilação dos adversários. Declarações incendiárias são exibições de comando e servem para intimidar os oponentes. E o eleitor copia esse estilo na vida prática. Apesar de até agora alguns poderosos terem sido responsabilizados pelos atos que tinham o objetivo final de desestabilizar a nação após a vitória de Lula, inúmeros anônimos estão na cadeia desde 8 de janeiro.174 E muitos outros ainda vão para trás das grades por tomar parte num embate que tem como objetivo nem tão oculto assim prejudicar a classe da qual eles fazem parte.

Num curto período de tempo, descobrimos que integrantes do Exército queriam matar Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, mas reutilizando munições não rastreáveis.175 Também soubemos que o doidinho de bairro clássico que atende pelo nome de Tiü França se suicidou com fogos de artifício em frente ao STF na tentativa de promover um atentado contra Xandão.

Não demorou muito e em 10 de janeiro de 2025 a Polícia Civil do Distrito Federal revelou que um grupo que se organizava na deep web pretendia usar explosivos, granadas e um fuzil .50 Barrett – com capacidade bélica para derrubar helicópteros – em um atentado contra Lula e Moraes.176

Antes de 2024 chegar ao fim, na última semana do ano, um suspeito de terrorismo foi preso na Bahia quando se encaminhava para Brasília.177 Na capital federal, um homem estacionou um carro no quartel do comando-geral da Polícia Militar do Distrito Federal e assumiu que teria dispositivos que detonariam tanto a sede da PM como a da Polícia Federal da capital.178

Isso não vai parar enquanto continuarmos a fingir que não existe um grupo político que pretende reorganizar completamente o pacto social brasileiro, como era previsto e imaginado por Olavo de Carvalho, que continua a ser o principal guru do bolsonarismo.

Essa ideia se dá no nível global, com executivos de redes sociais dinamizando ainda mais a tendência a criar comunidades supranacionais em que o senso de pertencimento se dá por meio da liberdade de espalhar mentiras em prol de uma suposta liberdade de expressão.

Elon Musk, ao comprar o Twitter e transformá-lo em X, fez justamente esse movimento, que tem como objetivo enfraquecer o pacto social das nações e fortalecer a internacional fascista nas redes.

Se no passado a ideia de internacionalização de objetivos foi de comunistas, hoje não é mais. E, se os comunistas nunca tiveram força para tanto, hoje, organizada entre governos e redes sociais, a extrema direita tem uma chance única de repetir o que já ocorreu no início do século passado por meio do esfacelamento da institucionalidade e de tentativas constantes de sabotagem.

O retorno de Trump à presidência dos Estados Unidos tende a reforçar esse movimento, que perdeu um pouco de força enquanto o senil e bélico Joe Biden esteve à frente da Casa Branca, ajudando a detonar a Palestina.

Sabendo que a tendência atual é essa, Mark Zuckerberg seguiu os passos de Elon Musk, para surpresa de zero pessoas, já que a cena final do filme A rede social mostra que ele sempre foi exatamente isto: um homem poderoso preso em uma enorme insegurança, e sempre em busca de validação.

O CEO da Meta redefiniu as políticas de checagem de fatos no Instagram, WhatsApp e Facebook. E aproveitou para copiar Elon Musk e intimidar nossas instituições – mas, assim como Musk, ele precisou mudar o tom depois que a AGU respondeu que, no Brasil, o “libera geral” para postagem e conteúdo discriminatório e racista não iria prosperar.179

As tentativas de cisão acontecem a todo momento, partindo de poderosos como Musk e Zuckerberg ou pela arraia-miúda que superestima seus próprios poderes, como o finado Clezão180 e a Dona Fátima de Tubarão,181 pessoas condenadas pelos ataques de 8 de janeiro.

Sem uma resposta institucional organizada, em sintonia com a coletividade e a sociedade, não manteremos o Brasil sequer funcional, imagine unido.”

171 “FUZILAR a petralhada”: Zanin envia à Justiça Eleitoral pedido de investigação contra Bolsonaro. Carta Capital, 9 ago. 2023. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/fuzilar-a-petralhada-zanin-envia-a-justica-eleitoral-pedido-de-investigacao-contra-bolsonaro/. Acesso em: 15 abr. 2025.

172 ONZE vezes em que Bolsonaro ofendeu vítimas da ditadura. Congresso em Foco, 30 jul. 2019. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/25400/onze-declaracoes-de-bolsonaro-em-defesa-da-ditadura. Acesso em: 23 maio 2025.

173 ARAUJO, Pedro Zambarda de. “Ou as minorias se adequam ou desaparecem”: o VÍDEO profético de Bolsonaro anunciando o caos. Diário do Centro do Mundo, 17 maio 2020. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/ou-as-minorias-se-adequam-ou-desaparecem-o-video-profetico-de-bolsonaro-anunciando-o-caos/. Acesso em: 23 maio 2025.

174 CURY, Teo. Quantas pessoas foram presas pelos atos de 8 de janeiro de 2023? CNN Brasil, 8 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/quantas-pessoas-foram-presas-pelos-atos-de-8-de-janeiro-de-2023/. Acesso em: 15 abr. 2025.

175 RODRIGUES, Mateus et al. Veja documento em que militares golpistas planejam matar Moraes, Lula e Alckmin por tiro ou veneno. G1, Brasília, 19 nov. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/11/19/veja-documento-em-que-militares-golpistas-planejam-matar-lula-e-alckmin-por-tiro-ou-veneno.ghtml. Acesso em: 15 abr. 2025.

176 MAIA, Elijonas. Nova ameaça com granada contra Lula e Moraes foi feita na deepweb. CNN Brasil, 10 jan. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/nova-ameaca-com-granada-contra-lula-e-moraes-foi-feita-na-deepweb/. Acesso em: 15 abr. 2025.

177 PINHEIRO, Mirelle et al. Veja momento da prisão de homem que confessou planejar atentado no DF. Metrópoles, 29 dez. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/veja-momento-da-prisao-de-homem-que-confessou-planejar-atentado-no-df. Acesso em: 15 abr. 2025.

178 VASCONCELOS, Thalita; BARRETO, Hugo. Homem em surto ameaça explodir quartel da PM e superintendência da PF. Metrópoles, 28 dez. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/distrito-federal/operacao-antibomba-mobiliza-pmdf-apos-homem-ameacar-explodir-quartel. Acesso em: 23 maio 2025.

179 CAPELLI, Paulo. PF aponta que “patriota” morto na Papuda invadiu Câmara; veja fotos. Metrópoles, 26 mar. 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas/paulo-cappelli/pf-aponta-que-patriota-morto-na-papuda-invadiu-camara-veja-fotos. Acesso em: 23 maio 2025.

180 QUEM era Cleriston Pereira da Cunha, preso do 8/1 que morreu na Papuda. UOL Notícias, Brasília, 21 nov. 2023. Seção: Últimas Notícias/Agência Estado. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2023/11/21/quem-era-cleriston-pereira-da-cunha-preso-no-8-de-janeiro-que-morreu-na-papuda.htm. Acesso em: 23 maio 2025.

181 POR QUE Fátima de Tubarão foi condenada pelo STF? Entenda. UOL Notícias, São Paulo, 5 nov. 2024. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2024/11/05/por-que-fatima-de-tubarao-foi-condenada-pelo-stf-entenda.htm. Acesso em: 23 maio 2025.

É possível unir o Brasil? (Parte I), de Helder Maldonado

Editora: Planeta

ISBN: 978-85-422-4024-5

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 144

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Sinopse: Em É possível unir o Brasil?, Helder Maldonado mergulha nas fraturas históricas e culturais de um país que, há muito, deixou de acreditar no mito da “brasilidade cordial”. Com ironia e lucidez, o autor desmonta a fantasia de uma nação alegre e harmoniosa – uma herança ideológica que vai de Gilberto Freyre à Rede Globo – e revela o que sempre sustentou o Brasil real: um projeto de dominação interna, que transformou indígenas, negros, pobres e nordestinos nos próprios “inimigos nacionais”.

Do declínio do futebol como símbolo de unidade à fragmentação cultural da era digital, Maldonado mostra como a promessa de um “país de todos” se esfarela diante da desigualdade, do ressentimento e da nostalgia de um passado que nunca existiu. Mas, entre o deboche e o desalento, há também um gesto de afeto: o reconhecimento de que, mesmo entre ruínas, o Brasil ainda pulsa contraditório, vibrante e impossível de resumir.

Misturando ensaio, crônica e sátira política, o livro é uma reflexão contundente sobre o que significa, hoje, ser brasileiro – e se ainda há algo capaz de nos unir além da própria desilusão.



“É por isso que a resposta para a pergunta que dá nome a este livro é: depende. Para unir o Brasil, a direita que se diz democrática precisaria primeiro parar de fingir que há equivalência entre os dois lados. O fingimento foi adotado por algumas figuras públicas em 2018, como o multimilionário João Amoêdo, que demorou quatro anos para notar quão nocivo o bolsonarismo era para o Brasil. Ou pelo próprio Lula, ao criar um governo de coalizão em que coube uma figura como André Fufuca, do União Brasil, no Ministério do Esporte – no lugar que antes havia sido de Ana Moser.

Em resumo: para garantir a governabilidade e uma frente amplíssima, Lula topou tirar uma medalhista olímpica do Ministério do Esporte para nomear um sujeito que nunca praticou atividade física antes (pelo menos publicamente) e que, ainda por cima, é filiado a um partido coalhado de bolsonaristas.5

Esse foi o meio que Lula encontrou de sinalizar a tentativa de união até mesmo com aqueles que vão tentar derrubá-lo na primeira oportunidade. Se vai dar certo no longo prazo, é um debate ainda em aberto.”

5 FARFAN, Tainá; SOARES, Jussara; SILVA, Brenda. Após entrada de Fufuca no governo, PP se posiciona contra algumas bandeiras de Lula. CNN Brasil, 20 set. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/apos-entrada-de-fufuca-no-governo-pp-se-posiciona-contra-algumas-bandeiras-de-lula/. Acesso em: 22 maio 2025.

 

 

Um País Que Sempre Se Odiou (Em Segredo)

Antonio Candido dizia que o mito do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda é mal-compreendido, porque na realidade não pressupõe a bondade do cidadão brasileiro, e sim o predomínio de comportamentos de aparência afetiva.6

Para atualizar o conceito, poderíamos dizer que o cidadão de bem não é de fato alguém determinado a fazer o bem, mas alguém que sustenta um conjunto de valores em público que vende a ilusão de ser um sujeito trabalhador, religioso, conservador e correto. No sigilo, porém, esse indivíduo trai a mulher com garotas de programa e travestis, gabarita o Código Penal, participa de algum trambique, é caloteiro e só vai à igreja para mostrar que adquiriu uma nova SUV e exibir os dentes de porcelanato parcelados em doze vezes.

Aqueles que fingem espanto diante do país dividido ignoram que, em maior ou menor grau, as coisas não eram tão diferentes antes. E os requintes de crueldade representam mais o Brasil que o futebol e o samba. A história por aqui é marcada por violência, tortura e conflitos. Guerras civis permearam esses cinco séculos, mas ganharam nomes menos impactantes, como Revolta ou Inconfidência. Quando falamos nisso, aliás, é importante dizer que os embates entre povo, elites locais e governo sempre terminam com alguma cena que seria proibida para menores de dezoito anos em filmes da Netflix.

Ignoramos que um dos nossos feriados, o Dia de Tiradentes, em 21 de abril, celebra um acontecimento de extrema violência. Inconfidentes mineiros rebelados contra o aumento da carga tributária, que afetava principalmente a classe média, foram condenados à morte em praça pública a mando da Coroa portuguesa, em 1792. O dentista, militar e minerador Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, foi enforcado por contestar o aumento dos impostos.

Outra data eivada de sangue é 20 de novembro, que celebra a Consciência Negra e que a partir de 2024 passou a ser feriado nacional. Esse foi o dia da morte de Zumbi, em 1695. Conhecido popularmente como Zumbi dos Palmares, esse líder quilombola pernambucano incomodou as autoridades locais ao lutar pela emancipação de seu povo. O resultado da subversão foi a eliminação do revolucionário, que teve a cabeça cortada pelo capitão Furtado de Mendonça. Sua cabeça foi salgada e entregue ao governador Melo e Castro, um troféu a ser ostentado como na comemoração de uma copa do mundo, uma medalha olímpica. O sertanista que caçou Zumbi recebeu de Dom Pedro II um prêmio de 50 mil réis pela façanha.

Se hoje em dia abrimos um portal de notícias e deparamos com a polícia rodoviária federal utilizando o porta-malas de uma viatura como câmara de gás improvisada para matar um homem que estava conduzindo sua moto sem habilitação,7 tendemos a perguntar: como foi que o Brasil ficou tão violento?

A resposta, infelizmente, é: não ficou, sempre foi. Nós é que esquecemos e normalizamos as violências cotidianas. Tomamos cerveja e assamos churrasco no dia em que uma figura histórica foi decapitada, teve a cabeça salgada e cujo assassino ainda recebeu um prêmio em dinheiro do imperador por ter metido a faca no pescoço de alguém que lutava para emancipar negros.

O Brasil sempre se odiou, mesmo que em segredo ou dissimuladamente. Fingimos muito bem que o problema começou agora, porque aderimos à tática de deixar embaixo de escombros históricos as tragédias que antecederam nossa geração, sempre anistiadas para não melindrar os verdadeiros culpados.”

6 MANZATTO, Rômulo. O Prefácio de Antonio Candido a Raízes do Brasil. Economia & História: difusão de ideias econômicas. Informações Fipe, nov. 2020, p. 105-107. Disponível em: https://downloads.fipe.org.br/publicacoes/bif/bif482-105-108.pdf. Acesso em: 22 maio 2020.

7 FÉLIX, Thiago. Relembre o caso de Genivaldo, morto asfixiado em carro da PRF. CNN Brasil, 26 nov. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/juri-do-caso-genivaldo-morto-asfixiado-em-carro-da-prf-ocorre-hoje-relembre/. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

 

Ter um Porsche é uma das maneiras de se distinguir, porque o novo rico é um aspirante social, que quer mostrar para a ralé que venceu. Mesmo que muitas vezes só ocupe essa posição confortável temporariamente ou por mero acaso, depois de montar um negócio surpreendentemente bem-sucedido, por conseguir contatos que lhe facilitam o acesso a locais aos quais ele jamais penetraria, por ter aplicado golpes ainda não descobertos, por ter praticado crimes, por ter recebido uma herança ou simplesmente porque teve a sorte de ganhar um prêmio na loteria. (...)

Há os que se adaptam melhor e não deixam o progresso financeiro subir à cabeça, mas quem quer se encaixar em todos os estereótipos do novo rico puro-sangue será corroído por esses cacoetes. Que frequentemente são alvo de piada, como se viu com o Rei do Camarote em 2013.

Em uma sociedade dominada por influencers em ternos atochados e barba de minoxidil que vivem de vender cursos e querem te convencer de que são ricos posando ao lado de carrões alugados enquanto mostram Rolex falsos nos vídeos, ser uma caricatura ambulante é o novo normal para quem quer aparentar ser o que não é.

Se falei sobre a distinção da elite, não estava passando pano para ricaços. A questão é que o código de conduta deles é outro, e a discrição é a melhor linha de ação. A aristocracia se envolve em muitos crimes também, mas geralmente dá preferência à corrupção em conluio com governos e rombos financeiros.

Basta assistir ao documentário Democracia em vertigem para perceber que a diretora, Petra Costa, demonstra uma enorme culpa cristã pelo fato de sua família, dona da construtora Andrade Gutierrez, estar envolvida pelas falcatruas que tornaram Brasília o que é.33

Para nós, que andamos por aí com carros usados financiados, ter um Porsche parece ser indicativo de ter grana demais. Mas nenhum desses proprietários e assassinos em potencial chegará perto de saber o que é riqueza de verdade.

Sabe o que é realmente ter dinheiro até o fim da vida sem se preocupar em trabalhar? É ser como Narcisa Tamborindeguy, que estudou na Sorbonne quando o acesso era mais restrito do que é hoje. A família materna de Narcisa era tão, mas tão rica que suas fazendas acumulavam 30 quilômetros de praias, englobando todo o litoral das cidades de Campo dos Goytacazes, São João da Barra e Quissamã.34

Esses motoristas de Porsche são o que chamo de dublê de rico. Se fossem milionários de verdade, mesmo com mau gosto, morariam em alguma mansão neoclássica cheia de colunas jônicas e portas de 20 metros de altura, como a da casa do Gusttavo Lima, imóvel símbolo da arquitetura greco-goiana.

Os porscheiros são apenas mais um sintoma do capitalismo tardio, de dinheiro feito na internet, em esquemas ilícitos ou empresinhas mambembes que cresceram tão rápido quanto o ego frágil de quem ainda se ressente de um passado de fodidez severa e que aposta que para não voltar a esse lugar é preciso passar por cima de todos.35 Nem que seja com o próprio Porsche.”

33 A FAMÍLIA de Petra: herança da Andrade Gutierrez e pai deputado do PMDB. Veja, 17 jan. 2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/a-familia-de-petra-heranca-da-andrade-gutierrez-e-pai-deputado-do-pmdb/. Acesso em: 7 abr. 2025.

34 NARCISA. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre, [s. d.]. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Narcisa. Acesso em: 22 maio 2025.

35 BITTENCOURT, Julinho. Pai do playboy do Porsche é denunciado pela ex-mulher por tortura, agressão e ameaça. Fórum, 24 abr. 2024. Disponível em: https://revistaforum.com.br/brasil/2024/4/24/pai-do-playboy-do-porsche-denunciado-pela-ex-mulher-por-tortura-agresso-ameaa-157822.html. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

 

Em matéria especial, a jornalista Juliana Gragnani, da BBC News Brasil, mostrou que o agronegócio e membros do governo Bolsonaro financiaram ou participaram de palestras que reforçavam o terraplanismo. Um dos queridinhos daquele momento era o meteorologista Ricardo Felício, professor de Geografia da USP, para quem o tema aquecimento global foi uma maneira que os países de primeiro mundo encontraram para congelar o desenvolvimento de nações como o Brasil. Decolonial ele, não é mesmo?

Quem dera. Era apenas um tiozão negacionista climático com diploma. Em palestras para fazendeiros de soja, cafeicultores, sindicatos rurais, faculdades ligadas à agronomia e empresas de fertilizantes, os negacionistas climáticos têm uma agenda bem clara e parecida: absolver ruralistas da interferência nas mudanças climáticas.41

Em resumo, tem ricaço pagando cientista para ouvir o que quer sobre o próprio negócio, depois de ficar ofendido por ter sido acusado de colaborar com o aquecimento global. E com isso é aberto um novo portal de estudo sobre masculinidade frágil e a dificuldade em ouvir críticas. Entre os contratantes dessas palestras estava a Aprosoja do Mato Grosso, braço da entidade que se aliou a Sérgio Reis para tentar dar um ultimato ao STF em 7 de setembro de 2021.42 Lembra? Felício se tornou mais conhecido após dar uma entrevista no programa do Jô Soares em 2012 na qual negava o efeito estufa.43 E, como não existem limites para o negacionismo, em seu canal no YouTube esse professor chamou a pandemia de “fraudemia” e declarou que as vacinas causam danos maiores que a covid-19. As falas revoltaram os alunos da USP, que também acusaram o professor de não comparecer às aulas,44 o que, pensando bem, era uma grande vantagem para os estudantes. Anos antes, em 2018, ele concorreu ao cargo de deputado federal pelo PSL, mas não conseguiu se eleger num pleito que deu espaço até mesmo para a Carla Zambelli.45

41 GRAGNANI, Juliana. Agronegócio banca palestras que espalham mito de que aquecimento global pelo homem é fraude. BBC News Brasil, 18 nov. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59310009. Acesso em: 7 abr. 2025.

42 JUNQUEIRA, Caio. Presidente da Aprosoja é alvo de operação da PF. CNN Brasil, 20 ago. 2021. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/presidente-da-aprosoja-e-alvo-de-operacao-da-pf/. Acesso em: 7 abr. 2021.

43 JÔ SOARES - Aquecimento global uma farsa - Ricardo Felicio. YouTube, 2012. 1 vídeo (16min39s). Publicado pelo canal J.A. Puente. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bOV1gZsxERg. Acesso em: 7 abr. 2025.

44 SATIE, Anna. USP: alunos dizem que professor de vídeos negacionistas não aparece na aula. UOL, 26 ago. 2021. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/08/26/ricardo-augusto-felicio-usp-sindicancia.htm. Acesso em: 7 abr. 2021.

45 RESULTADOS eleições 2018: Prof. Ricardo Felicio - Deputado Federal - São Paulo. Gazeta do Povo, 7 out. 2018. Disponível em: https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/resultados/municipios-sao-paulo/deputado-federal-candidato-prof-ricardo-felicio-1727/. Acesso em: 15 abr. 2025.

 

 

Você mesmo já deve ter deparado com essa arrogância por aí quando criticou o agro em alguma rede social. Se não, faça o teste. Não vai demorar muito para aparecer alguém da área dizendo que, se ele não plantar, você não come. Ou até pior: pode surgir um liberal criado em apartamento, que nunca pisou descalço nem na área social do condomínio, que advoga pro bono para milionários na internet.

O governo de Jair Bolsonaro se distinguiu das outras experiências de direita que tivemos no Brasil porque compreendeu melhor que o país se tornou uma mistura de narco e agroestado não oficial, principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Essa nem tão recente configuração do nosso país teve seu pontapé inicial nos anos 1980, com agricultores, pecuaristas e traficantes do Sul e Sudeste que subiram o mapa para desbravar a Amazônia Legal e o Matopiba por meio de garimpo, grilagem, desmatamento49 e importação de pasta-base de cocaína, aproveitando a logística fronteiriça que facilita esse empreendimento altamente lucrativo.

Não é à toa, também, que os integrantes desses setores foram tão gratos ao governo do Jair, que ajudou a desburocratizar o Ibama e órgãos reguladores, o que iniciou um processo de “libera geral” para o garimpo, minou o sistema de multas para quem cometesse crimes ambientais e deu um empurrãozinho, mesmo que sem querer, para o desenvolvimento de uma nova e pujante área na economia nacional: o narcogarimpo.”

49 FAZENDEIROS jogam agrotóxico sobre Amazônia para acelerar desmatamento. Jornal do Brasil, 19 nov. 2021. Disponível em: https://www.jb.com.br/pais/2021/11/1034144-fazendeiros-jogam-agrotoxico-sobre-amazonia-para-acelerar-desmatamento.html. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

 

Enquanto a Globo insiste em louvar o agro, a gente precisa ter uma atitude incisiva ao apontar que esse é um dos segmentos mais problemáticos para o país. Seus representantes são tão arrogantes que se consideram os responsáveis por alimentar o mundo. Você já deve ter ouvido o papo de que, se o agro não planta, a cidade não janta.

Sim, e, se a cidade não desenvolve tecnologia, vocês não têm colheitadeira, maquinário nem agrotóxico. Coloquem dois bois puxando uma carroça para arar suas terras então. Mas é aquilo: assumir que são dependentes de ciência e tecnologia, que não são e nunca foram desenvolvidas por eles, já seria pedir demais. É melhor aguardar atitudes mais simples, como meter o correntão em dois tratores e derrubar florestas para plantar soja e construir um Centro de Tradições Gaúchas (CTG).

A vitória de Lula, mais do que marcar o retorno de um projeto ideologicamente diferente daquilo que eles desejam, não é benquista pelo agro por um motivo muito simples: com o Jair era mais fácil destruir, explorar, assediar e ser uma ameaça permanente aos seus subordinados e ao meio ambiente.

Só que o Brasil não pode nem deve ser submisso a essa arrogância criminosa com pitadas de psicopatia que nos torna reféns de monocultura, extrativismo e chantagens que vão adiar eternamente a tomada de decisão sobre uma reforma agrária.”

 

 

“Perceba que nesses últimos quatro anos parte da imprensa passou por cima de valores, de convicções e da moralidade em busca de uma figura, qualquer que fosse, que pudesse encabeçar um projeto ultraliberal capaz de atender aos anseios desses grupos empresariais e de seus patrocinadores. O desespero é tão grande que até mesmo Bolsonaro serviu enquanto foi conveniente.

O problema é que, simultaneamente, os mesmos grupos fingem não saber como se deu a escalada da extrema direita no Brasil toda vez que as coisas saem do controle, como no fatídico 8 de janeiro.

Não sei se devo contar ou apontar dedos, mas, quando naturalizou figuras como Bolsonaro, Moro, Guedes e generais entreguistas, a imprensa colaborou para que a situação do Brasil se tornasse incontrolável.

As baratas não voltarão tão cedo ao bueiro de onde saíram.”

 

 

Assim como os X-Men são odiados pelo mundo que juraram proteger, os bolsonaristas odeiam o país que juraram proteger. Tropicália, Modernismo, Desenvolvimentismo, Cinema Novo, Carnaval, Amazônia, Samba, povos indígenas, religiões afro, Funk? Tudo lixo cultural da pior qualidade criado por comunistas e bandidos vagabundos.

Não importa o reconhecimento em nível internacional que cada um desses movimentos tenha: o patriotismo por aqui é sui generis, e o quarentão de bandana surdo funcional jamais reconhecerá que Villa-Lobos, João Gilberto e Os Mutantes são melhores que o Iron Maiden, mesmo que o Bruce Dickinson em pessoa emitisse esse tipo de opinião.

Mas não é tão difícil compreender por que o ideal de Brasil construído no modernismo, no varguismo, no lulismo e até mesmo na ditadura ficou pelo caminho, virou peça de museu ou só é celebrado por uma parcela ínfima da sociedade que frequenta sarau no Sesc.

Com o crescimento do fascismo e uma dominação evangélica da cultura brasileira, apela-se muitas vezes para um passado idealizado, no qual o carnaval era respeitoso e não havia putaria, a música era de qualidade, a TV não tinha lacração, o Brasil era cristão, o preto era honesto e não vivia pendurado em programas sociais e o indígena era um guerreiro, e não um encostado que espera cesta básica da Funai e passa o dia apostando no Tigrinho. Nada disso é verdade. São ecos de uma nostalgia que só aconteceu no desejo da pessoa.

Mas junte essa tendência de admirar um passado inexistente para reagir contra a modernidade com a influência norte-americana sobre os padrões de patriotismo e cultura e, então, teremos uma criatura disforme que toma as ruas em micaretas ostentando a bandeira do Brasil, mas sem se esquecer também das flâmulas dos Estados Unidos e de Israel.

O Brasil para o patriota que odeia tudo que é brasileiro não pode ser um Brasil influenciado pelas culturas ameríndia e africana, que são de segunda classe na visão deles. Há que ser uma cópia mimeografada dos Estados Unidos principalmente. O que só pode ser possível se atrelado a um apagamento sistêmico e histórico das culturas das minorias no país.131 (...)

Eles não amam o Brasil. Batem continência para a bandeira norte-americana, adorariam ser governados pelo Trump, andar em enormes caminhonetes e ter macarrão com queijo para o jantar. No fim, subvertem o aforismo de Samuel Johnson, que diz que o último refúgio do canalha é o patriotismo. Por aqui, é sempre o primeiro.”

131 GARIGHAN, Grégorie. Epistemicídio e o apagamento estrutural do conhecimento africano. UFRGS, Jornal da Universidade, 20 maio 2021. Disponível em: https://www.ufrgs.br/jornal/epistemicidio-e-o-apagamento-estrutural-do-conhecimento-africano/. Acesso em: 7 abr. 2025.