sexta-feira, 10 de julho de 2026

O nome da rosa (Parte II), de Umberto Eco

Editora: Record

ISBN: 978-85-01-11582-9

Tradução: Aurora Fornoni Bernardini, Homero Freitas de Andrade

Opinião: ★★★★★

Páginas: 592

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: É impossível pensar em O nome da rosa sem considerar seu extraordinário sucesso global, tanto para a crítica quanto para o público. Trata-se de um desses raros fenômenos editoriais, um best-seller literário que transcende as fronteiras linguísticas.

Este é o primeiro romance de Umberto Eco, um dos mais importantes teóricos da comunicação de massa na atualidade. O autor utiliza um roteiro policial, no estilo de Conan Doyle, que se desenvolve na última semana de novembro de 1327, em um mosteiro franciscano da Itália medieval.

Neste mosteiro, paira a suspeita de heresia, e para a investigação, é enviado o frei Guilherme de Baskerville. Porém a delicada missão é interrompida por sete excêntricos assassinatos. A morte, em circunstâncias insólitas, de sete monges em sete dias e noites guia uma narrativa violenta, que encanta pelo seu caráter de humor e crueldade, malícia e sedição erótica.

Esses crimes fazem frei Guilherme atuar como um detetive. Ele busca prova, decifra símbolos secretos e manuscritos em códigos e trabalha arduamente no misterioso labirinto do mosteiro onde eventos extraordinários ocorrem durante a madrugada.

Um espetacular sucesso, O nome da rosa não é apenas uma narrativa de investigação de crimes, mas também uma fascinante crônica sobre a Idade Média.

Essa edição de luxo, revisada pela consagrada tradutora Ivone Benedetti, contém uma atualização da biografia de Umberto Eco, uma nota de revisão e um glossário com a tradução dos termos em latim utilizados pelo autor.



“Nada infunde mais coragem ao medroso que o medo alheio.”

 

 

Todo animal é triste após o coito.

(Máxima atribuída a Galeno de Pérgamo.)

 

 

Agora sei que estava sofrendo do contraste entre o apetite elícito intelectivo, no qual deveria ter-se manifestado o império da vontade, e o apetite elícito sensitivo, sujeito das paixões humanas. De fato, actus appetitus sensitivi in quantum habent transmutationem corporalem annexam, passiones dicuntur, non autem actus voluntatis[104]. E o meu ato apetitivo era justamente acompanhado de um tremor do corpo inteiro, de um impulso físico para gritar e me agitar. O doutor angélico diz que as paixões em si não são más, porém devem ser moderadas pela vontade guiada pela alma racional. Mas minha alma racional naquela manhã estava entorpecida pelo cansaço, que refreava o apetite irascível, que se volta para o bem e para o mal como termos de conquista, mas não refreava o apetite concupiscível, que se volta para o bem e para o mal conhecidos. Para justificar minha irresponsável leviandade de então direi, hoje, com palavras do doutor angélico, que estava indubitavelmente tomado de amor, que é paixão e lei cósmica, porque até a gravidade dos corpos é amor natural. E por tal paixão eu fora naturalmente seduzido, porque nessa paixão appetitus tendit in appetibile realiter consequendum ut sit ibi finis motus[105]. Pelo que naturalmente amor facit quod ipsae res quae amantur, amanti aliquo modo uniantur et amor est magis cognitivus quam cognitio[106]. De fato, agora eu via a moça melhor do que tinha visto na noite anterior, e a entendia intus et in cute[107], porque nela entendia a mim e em mim a ela mesma. Pergunto-me agora se aquilo que estava sentindo era amor de amizade, em que o semelhante ama o semelhante e quer apenas o bem do outro, ou amor de concupiscência, em que se quer o próprio bem e o carente quer apenas aquilo que o completa. E creio que de concupiscência tinha sido o amor da noite, no qual eu queria da moça algo que nunca tivera, enquanto naquela manhã eu não queria nada da moça, só queria seu bem e desejava que ela fosse subtraída à cruel necessidade que a obrigava a dar-se por um pouco de comida e que fosse feliz; não queria pedir-lhe mais nada, queria apenas continuar a pensá-la e a vê-la nas ovelhas, nos bois, nas árvores, na luz serena que envolvia de gáudio o recinto amuralhado da abadia.

Agora sei que a causa do amor é o bem, e aquilo que é bem se define por conhecimento, e só se pode amar aquilo que se aprendeu como bem, enquanto eu aprendera a moça, sim, como bem do apetite irascível, mas como mal da vontade. Contudo, naquele momento eu era vítima de tantos e tão contrastantes movimentos da alma porque o que eu sentia era semelhante ao amor santíssimo, justamente como o descrito pelos doutores: ele produzia em mim o êxtase no qual amante e amado querem a mesma coisa (e, por misteriosa iluminação, naquele momento eu sabia que a moça, onde quer que estivesse, queria as mesmas coisas que eu queria), e por ela eu sentia ciúme, mas não o ciúme ruim, condenado por Paulo na primeira epístola aos coríntios, que é principium contentionis[108] e não admite consortium in amato[109], mas o ciúme de que fala Dionísio em Dos nomes divinos, pelo qual se diz que mesmo Deus é ciumento propter multum amorem quem habet ad existentia[110] (e eu amava a moça justamente porque ela existia e, por ela existir, eu me sentia contente, e não com inveja). Eu era ciumento do modo como, para o doutor angélico, o ciúme é motus in amatum[111], ciúme de amizade que induz a mover-se contra tudo o que prejudica o ser amado (e eu outra coisa não fantasiava naquele instante, senão libertar a moça do poder de quem lhe estava comprando as carnes, conspurcando-a com suas paixões nefastas).

Agora sei, como diz o doutor, que o amor, quando excessivo, pode prejudicar o amante.”

104.os atos do apetite sensitivo, porquanto vêm acompanhados de transmutação corpórea, chamam-se paixões, que não são atos da vontade”. — Tomás de Aquino, Summa theologica, I, 20.

105.O apetite tende a conseguir realmente o que apetece para que nele esteja o fim do movimento.”. — Ibidem, I–II, q. 26.

106. “O amor faz que as próprias coisas que são amadas de algum modo se unam ao amante, e o amor é mais cognitivo que a Cognição”.

107. “interior e exteriormente”.

108. “origem de conflito”.

109. “comunhão com o (ser) amado”.

110.Por causa do muito amor que tem pelas coisas que existem”. — Tomás de Aquino, Summa Theologica, q. 28, art. 4, 3.

111.movimento para o (ser) amado”. — Tomás de Aquino, Summa Theologica, q. 28, art. 4, 3.

 

 

Dos frades que compunham o grupo falarei depois, quando tratar da reunião do dia seguinte. Mesmo porque falei pouquíssimo com eles, preso que estava pelo conselho que se estabeleceu imediatamente entre Guilherme, Ubertino e Miguel de Cesena.

Miguel era ardentíssimo em sua paixão franciscana (tinha por vezes os gestos e as inflexões de Ubertino em seus momentos de transporte místico), mas muito jovial em sua natureza terrena de homem das Romanhas, capaz de apreciar a boa mesa e feliz por se reencontrar com os amigos; sutil e evasivo, tornava-se de repente perspicaz e hábil como uma raposa, matreiro como uma toupeira, quando se tocava em problemas das relações entre os poderosos, capaz de grandes risadas, de férvidas tensões, de eloquentes silêncios, hábil em desviar o olhar do interlocutor quando a pergunta deste exigia mascarar, com a distração, a recusa da resposta.

Dele já disse alguma coisa, e eram coisas de que tinha ouvido falar, mas agora entendia melhor muitos de seus comportamentos contraditórios e das repentinas mudanças de desígnios políticos com que nos últimos anos deixara admirados seus próprios amigos e sequazes. Ministro geral da ordem dos frades menores, era, por princípio, o herdeiro de são Francisco, de fato herdeiro de seus intérpretes: precisava competir com a santidade e a sabedoria de um predecessor como Boaventura de Bagnoregio; garantir o respeito pela regra mas, ao mesmo tempo, as fortunas da ordem, tão vasta e poderosa; dar ouvidos às cortes e às magistraturas citadinas das quais a ordem obtinha, ainda que em forma de esmolas, doações e heranças, motivo de prosperidade e riqueza; e, ao mesmo tempo, cuidar para que a necessidade de penitência não arrastasse para fora da ordem os espirituais mais acesos, dissolvendo aquela esplêndida comunidade, de que era chefe, numa constelação de bandos de hereges. Precisava agradar ao papa, ao império, aos frades de vida pobre, a são Francisco, que decerto o vigiava do céu, ao povo cristão que o vigiava da terra. Quando João condenara todos os espirituais como hereges, Miguel não hesitara em entregar-lhe cinco dos frades mais insubmissos de Provença, deixando que o pontífice os mandasse à fogueira. Mas, percebendo que muitos na ordem simpatizavam com os sequazes da simplicidade evangélica (e não devia ser estranha a isso a ação de Ubertino), tinha providenciado para que o capítulo de Perúgia, quatro anos depois, adotasse as instâncias daqueles que tinham sido condenados. Naturalmente o fez procurando absorver nos moldes e nas instituições da ordem uma necessidade, que podia ser herética, e desejando que aquilo que a ordem desejava no momento fosse desejado também pelo papa. Mas, enquanto esperava convencer o papa, sem cujo consentimento não desejaria prosseguir, não desdenhara de aceitar os favores do imperador e dos teólogos imperiais. Ainda dois anos antes do dia em que o vi, ele ordenara a seus frades, no capítulo geral de Lyon, que só falassem da pessoa do papa com moderação e respeito (e isso poucos meses depois de o papa falar dos menoritas protestando contra “seus latidos, erros e insânias”). Mas agora estava à mesa, amicíssimo, com pessoas que falavam do papa com respeito menos que nulo.”

 

 

“Entendi naquele momento qual era o modo de raciocinar de meu mestre e pareceu-me demasiado diferente daquele do filósofo que raciocina com base nos princípios primeiros, de tal modo que seu intelecto assume quase os modos do intelecto divino. Compreendi que, quando não tinha resposta, Guilherme se propunha muitas delas, e diferentes entre si. Fiquei perplexo.

— Mas então — ousei comentar — estais ainda longe da solução…

— Estou pertíssimo — disse Guilherme —, mas não sei de qual.

— Então não tendes uma única resposta para vossas perguntas?

— Adso, se a tivesse ensinaria teologia em Paris.

— Em Paris eles têm sempre a resposta verdadeira?

— Nunca — disse Guilherme —, mas são muito seguros de seus erros.

— E vós — falei com impertinência infantil —, nunca cometeis erros?

— Frequentemente — respondeu. — Mas em vez de conceber um único erro, imagino muitos, assim não me torno escravo de nenhum.”

 

 

“— Não há argumentos melhores — perguntei a meu mestre, enquanto Alborea se encarniçava contra a barba do bispo de Caffa — para demonstrar ou negar a pobreza de Cristo?

— Podes afirmar ambas as coisas, meu bom Adso — disse Guilherme —, e não poderás jamais estabelecer com base nos evangelhos se Cristo considerava de sua propriedade, e em que medida, a túnica que vestia e que depois devia jogar fora quando estivesse gasta. E, se quiseres, a doutrina de Tomás de Aquino sobre a propriedade é mais ousada que a nossa, menoritas. Nós dizemos: não possuímos nada e temos tudo em uso. Ele dizia: podeis considerar-vos possuidores, contanto que, se a alguém faltar o que possuís, vós lhe concedais o uso, e por obrigação, não por caridade. Mas a questão não é se Cristo era pobre, é se a Igreja deve ser pobre. E pobre não significa tanto possuir ou não um palácio, mas manter ou abandonar o direito de legislar sobre as coisas terrenas.

— Então é por isso — eu disse — que o imperador aprecia tanto os discursos dos menoritas sobre a pobreza.

— De fato. Os menoritas fazem o jogo imperial contra o papa. Mas, para Marsílio e para mim, o jogo é duplo e gostaríamos que o jogo do império fizesse o nosso jogo e servisse à nossa ideia de governo humano.

— E vós ireis dizer isso quando falardes?

— Se disser, cumprirei minha missão, que era a de manifestar as opiniões dos teólogos imperiais. Mas se disser, minha missão falhará, porque eu deveria facilitar um segundo encontro em Avinhão, e não creio que João aceite que eu vá lá para dizer essas coisas.

— E daí?

— E daí estou preso entre duas forças contrastantes, como um asno que não sabe em qual dos dois sacos de feno comer. É que os tempos não estão maduros. Marsílio sonha com uma transformação impossível, agora, e Ludovico não é melhor que seus predecessores, ainda que por enquanto seja o único baluarte contra um miserável como João. Talvez eu venha a falar, a menos que esses aí acabem antes por se matar. Em todo caso, escreve, Adso, para que permaneçam ao menos traços do que está acontecendo hoje.

— E Miguel?

— Temo que perca seu tempo. O cardeal sabe que o papa não busca mediação, Bernardo Gui sabe que deverá fazer o encontro gorar; e Miguel sabe que irá a Avinhão de qualquer jeito, porque não quer que a ordem rompa relações com o papa. E arriscará a vida.

Enquanto assim falávamos — e na verdade não sei como podíamos ouvir um ao outro — a disputa tinha atingido o auge. Obedecendo a um sinal de Bernardo Gui, os arqueiros intervieram para impedir que as duas fileiras se engalfinhassem de verdade. Mas, tal qual assediantes e assediados de ambos os lados dos muros de uma cidadela, eles lançavam uns aos outros contestações e impropérios que aqui refiro a esmo, sem conseguir atribuir-lhes a paternidade, deixando claro que as frases não foram pronunciadas uma por vez, como teria ocorrido numa disputa em minha terra, mas à moda mediterrânea, uma acavalada à outra, como as ondas de um mar revolto.

— O evangelho diz que Cristo tinha uma bolsa!

— Chega dessa bolsa que pintais até nos crucifixos! O que dizes então do fato de que Nosso Senhor, quando estava em Jerusalém, voltava toda noite a Betânia?

— E se Nosso Senhor queria ir dormir em Betânia, quem és tu para julgar sua decisão?

— Não, bode velho, Nosso Senhor voltava a Betânia porque não tinha dinheiro para pagar uma hospedaria em Jerusalém!

— Bonagratia, bode és tu! E o que comia Nosso Senhor em Jerusalém?

— E dirias então que o cavalo que recebe aveia do patrão para sobreviver tem a propriedade da aveia?

— Olha que estás comparando Cristo a um cavalo…

— Não, és tu que comparas Cristo a um prelado simoníaco da tua corte, receptáculo de excremento!

— É? E quantas vezes a Santa Sé precisou assumir processos para defender os vossos bens?

— Bens da igreja, não nossos! Nós os tínhamos como uso!

— Como uso para devorá-los, para construir belas igrejas com estátuas de ouro, hipócritas, vasos de iniquidade, sepulcros caiados, latrinas de vícios! Sabeis bem que é a caridade, e não a pobreza, o princípio da vida perfeita!

— Isso quem disse foi aquele glutão do vosso Tomás!

— Cuidado com o que dizes, ímpio! Aquele que chamas de glutão é um santo da sagrada Igreja romana!

— Santo uma ova, canonizado por João para fazer despeito aos franciscanos! Vosso papa não pode fazer santos porque é um herege. Ou melhor, é um heresiarca!

— Esta bela afirmação nós já conhecemos! É a declaração do fantoche da Baviera em Sachsenhausen, preparada por vosso Ubertino!

— Olha como falas, porco, filho da prostituta da Babilônia e de outras meretrizes mais! Tu sabes que naquele ano Ubertino não estava com o imperador, mas estava justamente em Avinhão, a serviço do cardeal Orsini, e o papa o estava enviando como mensageiro a Aragão!

— Eu sei, eu sei que fazia voto de pobreza à mesa do cardeal, como faz agora na abadia mais rica da península! Ubertino, se não estavas lá, quem sugeriu a Ludovico o uso de teus escritos?

— É culpa minha se Ludovico lê meus escritos? Certamente não pode ler os teus, pois és um iletrado!

— Eu, um iletrado? Era letrado o vosso Francisco, que falava com os gansos?

— Blasfemo!

— Blasfemo és tu, que praticas o ritual da criança no barril!

— Eu nunca fiz isso, e tu sabes disso!!!

— Claro que sim, tu e teus fraticelos, quando te enfiavas na cama de Clara de Montefalco!

— Que Deus te fulmine! Eu era inquisidor naquela época, e Clara já expirara em odor de santidade!

— Clara expirara em odor de santidade, mas tu aspiravas outro odor quando cantavas as matinas para as monjas!

— Continua, continua, a ira de Deus te atingirá como atingirá o teu patrão, que deu abrigo a dois hereges como aquele ostrogodo de Eckhart e aquele necromante inglês que chamais Branucerton!

— Veneráveis irmãos, veneráveis irmãos! — gritavam o cardeal Bertrando e o abade.”

 

 

“— Queria ser Artemidoro para interpretar corretamente teu sonho — disse Guilherme. — Mas me parece que mesmo sem a sapiência de Artemidoro é fácil compreender o que aconteceu. Nestes dias, meu pobre rapaz, viveste uma série de acontecimentos de que parece ter sido abolida toda e qualquer regra justa. E agora pela manhã aflorou em tua mente adormecida a lembrança de uma espécie de comédia na qual, embora com outras intenções, o mundo virara de cabeça para baixo. Inseriste nela tuas lembranças mais recentes, teus anseios e temores. Partiste das marginálias de Adelmo para reviver um grande carnaval em que tudo parece estar do lado errado, mas, tal como na Coena, cada um faz exatamente aquilo que fez na vida. E no fim te perguntaste, no sonho, qual é o mundo errado e o que quer dizer andar de cabeça para baixo. Teu sonho não sabia mais onde era o alto e onde o baixo, onde a morte e onde a vida. Teu sonho duvidou dos ensinamentos que recebeste.

— Não eu — respondi virtuosamente —, mas meu sonho. Então os sonhos não são mensagens divinas, são devaneios diabólicos e não contêm verdade alguma!

— Não sei, Adso — disse Guilherme. — Já temos tantas verdades nas mãos que no dia em que aparecesse alguém pretendendo extrair alguma verdade também de nossos sonhos, então estariam realmente próximos os tempos do Anticristo. No entanto, quanto mais penso em teu sonho, mais o acho revelador. Talvez não para ti, mas para mim. Perdoa-me se me apodero de teus sonhos para desenvolver minhas hipóteses, eu sei, é uma coisa vil, não deveria ser feita… Mas creio que tua alma adormecida compreendeu mais coisas que eu acordado nestes seis dias…

— Verdade?

— Acho teu sonho revelador porque coincide com uma de minhas hipóteses. Obrigado.

— Mas meu sonho era sem sentido, como todos os sonhos!

— Tinha outro sentido, como todos os sonhos. Deve ser lido alegórica ou anagogicamente…

— Como as escrituras?

— Um sonho é uma escritura, e muitas escrituras nada mais são que sonhos.”

 

 

“— Mas o que te assustou nesse discurso sobre o riso? Não eliminas o riso eliminando o livro.

— Claro que não. O riso é a fraqueza, a corrupção, a insipidez de nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o embriagado, mesmo a igreja em sua sabedoria admitiu o momento da festa, do carnaval, da feira, essa ejaculação diurna que descarrega os humores e reprimem outros desejos e outras ambições… Mas desse modo o riso fica como coisa vil, defesa para os simples, mistério dessacralizado para a plebe. Até o apóstolo dizia: em vez de vos abrasardes, casai-vos. Em vez de vos rebelardes contra a ordem desejada por Deus, ride e deleitai-vos com vossas imundas paródias da ordem, no fim da refeição, depois de esvaziardes jarras e garrafões. Elegei o rei dos tolos, perdei-vos na liturgia do asno e do porco, brincai e representai vossas saturnais de cabeça para baixo… Mas aqui, aqui… — Jorge batia agora o dedo na mesa, perto do livro que Guilherme tinha diante de si —, aqui a função do riso é invertida, ele é elevado ao nível da arte, para ele se abrem as portas do mundo dos doutos, ele se torna objeto de filosofia e de pérfida teologia… Ontem viste como os simples podem conceber e pôr em prática as mais torpes heresias, renegando as leis de Deus e as leis da natureza. Mas a Igreja pode suportar a heresia dos simples, que se condenam sozinhos, arruinados por sua ignorância. O inculto desatino de Dulcino e de seus pares nunca porá em crise a ordem divina. Pregará violência e morrerá pela violência, não deixará rastro, será consumido como se consome o carnaval, e não importa se durante a festa for produzida na terra, por pouco tempo, a epifania do mundo pelo avesso. Basta que o gesto não se transforme em desígnio, que esse vulgar não encontre um latim que o traduza. O riso liberta o aldeão do medo do diabo, porque na festa dos tolos até o diabo se mostra pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que se libertar do medo do diabo é sapiência. Quando ri, enquanto o vinho borbulha em sua garganta, o aldeão sente-se senhor, porque inverteu as relações de poder: mas este livro poderia ensinar aos doutos os artifícios argutos e — a partir de então — ilustres com que se pode legitimar a inversão. Então seria transformado em operação do intelecto aquilo que no gesto do aldeão ainda é, felizmente, operação do ventre. O fato de o riso ser próprio do homem é sinal dos nossos limites de pecadores. Mas deste livro quantas mentes corrompidas como a tua extrairiam o silogismo extremo de que o riso é a finalidade do homem! Por alguns instantes, o riso faz o aldeão esquecer o medo. Mas a lei se impõe por meio do medo, cujo nome verdadeiro é temor a Deus. E deste livro poderia partir a fagulha luciferina que atearia um novo incêndio no mundo inteiro: e o riso se afiguraria como arte nova, desconhecida até de Prometeu, para anular o medo. Para o aldeão que ri, naquele momento, a morte não lhe importa: mas depois, acabada a licenciosidade, a liturgia impõe-lhe de novo, de acordo com o desígnio divino, o medo da morte. E deste livro poderia nascer a nova e destrutiva aspiração a destruir a morte através da libertação do medo. E o que seremos nós, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais benéfico e afetuoso dos dons divinos? Durante séculos os doutores e os padres difundiram perfumadas essências de santo saber para redimir, através do pensamento daquilo que é elevado, a miséria e a tentação daquilo que é baixo. E este livro, justificando a comédia, a sátira e o mimo como remédios milagrosos que produziriam a purificação das paixões por intermédio da representação do defeito, do vício e da fraqueza, induziria os falsos doutos a tentar redimir (com diabólica inversão) o elevado por meio da aceitação do baixo. Deste livro derivaria o pensamento de que o homem pode querer na terra (como sugeria o teu Bacon a propósito da magia natural) a abundância própria do país da Cocanha. Mas é isso que não devemos e não podemos ter. Olha os jovens monges que se desavergonham na paródia histriônica da Coena Cypriani. Que transfiguração diabólica da sagrada escritura! Entretanto, ao fazê-lo, sabem que aquilo é ruim. Porém, no dia em que a palavra do Filósofo justificasse os jogos marginais da imaginação desregrada, oh, então realmente aquilo que estivesse na margem pularia para o centro, e se perderia qualquer vestígio do centro. O povo de Deus se transformaria numa assembleia de monstros arrotados pelos abismos da terra desconhecida, e nesse momento a periferia da terra conhecida se transformaria no coração do império cristão, os arimaspos subiriam ao trono de Pedro, os blêmias entrariam nos mosteiros, os anões barrigudos e cabeçudos estariam na guarda da biblioteca! Os servos a ditarem a lei, nós (mas tu também, então) obedientes, suspensas todas leis. Disse um filósofo grego (que teu Aristóteles cita aqui, cúmplice e imunda auctoritas) que se deve desmantelar a seriedade dos adversários com o riso e opor-se ao riso com a seriedade. A prudência de nossos padres fez a escolha: se o riso é o deleite da plebe, que a licenciosidade da plebe seja refreada, humilhada e intimidada com a severidade. E a plebe não tem armas para afiar o riso a ponto de torná-lo instrumento contra a seriedade dos pastores que devem conduzi-la à vida eterna e subtraí-la às seduções do ventre, da genitália, da comida, de seus sórdidos desejos. Mas, se um dia alguém, agitando as palavras do Filósofo, portanto falando como filósofo, levasse a arte do riso à condição de arma sutil, se a retórica do convencimento fosse substituída pela retórica da irrisão, se a tópica da paciente e salvadora construção das imagens da redenção fosse substituída pela tópica da impaciente desconstrução e da subversão de todas as imagens mais santas e veneráveis, oh, esse será também o dia de tua destruição e de toda a tua sabedoria, Guilherme!

— Por quê? Eu lutaria, minha argúcia contra a argúcia alheia. Seria um mundo melhor do que o mundo em que o fogo e o ferro em brasa de Bernardo Gui humilham o fogo e o ferro em brasa de Dulcino.

— Já estarias preso na trama do demônio. Combaterias do outro lado do campo do Armagedom, onde deverá ocorrer o embate final. Mas para esse dia a Igreja deve saber impor mais uma vez a regra do conflito. Não temos medo da blasfêmia, porque mesmo na maldição de Deus reconhecemos a imagem nervosa da ira de Jeová a amaldiçoar os anjos rebeldes. Não temos medo da violência de quem mata os pastores em nome de alguma fantasia de renovação, porque é a mesma violência dos príncipes que tentaram destruir o povo de Israel. Não temos medo do rigor do donatista, da loucura suicida do circuncelião, da luxúria do bogomilo, da pureza orgulhosa do albigense, da necessidade de sangue do flagelante, da vertigem do mal do irmão do livre espírito: conhecemo-los todos e conhecemos a raiz de seus pecados que é a mesma raiz de nossa santidade. Não temos medo deles e, sobretudo, sabemos como destruí-los, ou melhor, como deixar que se destruam sozinhos, levando arrogantemente ao zênite a vontade de morte que nasce dos abismos de seu nadir. Aliás, eu diria que a presença deles nos é preciosa, está inscrita no desígnio de Deus, porque seu pecado incita nossa virtude, sua blasfêmia encoraja nosso canto de louvor, sua penitência desregrada regra nosso gosto pelo sacrifício, sua impiedade faz resplandecer nossa piedade, assim como o príncipe das trevas, com sua rebelião e seu desespero, foi necessário para que melhor refulgisse a glória de Deus, princípio e fim de toda esperança. Mas, se um dia a arte da irrisão se tornasse aceitável, não mais como exceção plebeia, e sim como ascese do douto, consignada ao testemunho indestrutível da escritura, se um dia ela parecesse nobre e liberal, e não mais mecânica, se um dia alguém pudesse dizer (e ser ouvido) “eu rio da Encarnação”, então não teríamos armas para deter a blasfêmia, porque ela conclamaria as forças obscuras da matéria corporal, as que se afirmam no peido e no arroto, e o arroto e o peido arrogariam a si o direito que é só do espírito, de soprar onde quer!”

 

 

— Naquele rosto devastado pelo ódio à filosofia, vi pela primeira vez o retrato do Anticristo, que não vem da tribo de Judas, como querem seus anunciadores, nem de um país distante. O Anticristo pode nascer da própria piedade, do excessivo amor a Deus ou à verdade, assim como o herege nasce do santo, e o endemoninhado, do vidente. Teme, Adso, os profetas e os que estão dispostos a morrer pela verdade, pois costumam levar consigo à morte muitíssima gente, frequentemente antes deles mesmos e às vezes em seu lugar.”

O nome da rosa (Parte I), de Umberto Eco

Editora: Record

ISBN: 978-85-01-11582-9

Tradução: Aurora Fornoni Bernardini, Homero Freitas de Andrade

Opinião: ★★★★★

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Sinopse: É impossível pensar em O nome da rosa sem considerar seu extraordinário sucesso global, tanto para a crítica quanto para o público. Trata-se de um desses raros fenômenos editoriais, um best-seller literário que transcende as fronteiras linguísticas.

Este é o primeiro romance de Umberto Eco, um dos mais importantes teóricos da comunicação de massa na atualidade. O autor utiliza um roteiro policial, no estilo de Conan Doyle, que se desenvolve na última semana de novembro de 1327, em um mosteiro franciscano da Itália medieval.

Neste mosteiro, paira a suspeita de heresia, e para a investigação, é enviado o frei Guilherme de Baskerville. Porém a delicada missão é interrompida por sete excêntricos assassinatos. A morte, em circunstâncias insólitas, de sete monges em sete dias e noites guia uma narrativa violenta, que encanta pelo seu caráter de humor e crueldade, malícia e sedição erótica.

Esses crimes fazem frei Guilherme atuar como um detetive. Ele busca prova, decifra símbolos secretos e manuscritos em códigos e trabalha arduamente no misterioso labirinto do mosteiro onde eventos extraordinários ocorrem durante a madrugada.

Um espetacular sucesso, O nome da rosa não é apenas uma narrativa de investigação de crimes, mas também uma fascinante crônica sobre a Idade Média.

Essa edição de luxo, revisada pela consagrada tradutora Ivone Benedetti, contém uma atualização da biografia de Umberto Eco, uma nota de revisão e um glossário com a tradução dos termos em latim utilizados pelo autor.


 

Os homens de outrora eram belos e altos (agora são crianças e anões), mas esse fato é apenas um dos muitos a testemunhar a desventura de um mundo que vai envelhecendo. A juventude já nada mais quer aprender, a ciência está em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros cegos e os fazem precipitar-se nos abismos, os pássaros se lançam antes de alçar voo, o asno toca lira, os bois dançam, Maria já não ama a vida contemplativa e Marta já não ama a vida ativa, Lia é estéril, Raquel tem olhos lúbricos, Catão frequenta lupanares. Tudo está desviado do próprio caminho. Sejam dadas graças a Deus por eu naqueles tempos ter adquirido de meu mestre a vontade de aprender e o sentido do caminho reto, que se conserva mesmo quando a vereda é tortuosa.”

 

 

“Tanta é a força da verdade que, tal como o bem, ela é autodifusiva.”

 

 

“Meus mestres de Melk haviam dito com frequência que é muito difícil para um nórdico entender claramente os acontecimentos religiosos e políticos da Itália.

A península, onde, mais que em qualquer outro país, o clero ostentava poder e riqueza, tinha gerado, pelo menos dois séculos antes, movimentos de homens inclinados a uma vida mais pobre, em polêmica com os padres corruptos, dos quais recusavam até os sacramentos, reunindo-se em comunidades autônomas, malvistas ao mesmo tempo pelos aristocratas, pelo império e pelas magistraturas citadinas.

Por fim aparecera são Francisco e difundira um amor à pobreza que não contradizia os preceitos da igreja, e, por obra dele, a igreja acolhera o apelo daqueles antigos movimentos em favor da severidade dos costumes e os purificara dos elementos de desordem que neles se aninhavam. Deveria seguir-se a isso uma época de brandura e santidade, porém a ordem franciscana, à medida que crescia e atraía para si homens mais insignes, ia se tornando poderosa demais e ligada a negócios terrenos, e muitos franciscanos quiseram reconduzi-la à pureza de outrora. Coisa bastante difícil para uma ordem que, no tempo em que eu estava na abadia, já contava com mais de trinta mil membros espalhados pelo mundo. Mas assim é, e muitos daqueles frades de são Francisco opunham-se à regra que a ordem adquirira, dizendo que ela estava assumindo os modos daquelas instituições eclesiásticas para cuja reforma tinha nascido. E que isso já acontecera nos tempos em que Francisco estava vivo, e que as palavras e os propósitos dele tinham sido traídos.

Muitos deles redescobriram, então, o livro de um monge cisterciense que escrevera em princípios do século XII de nossa era, chamado Joaquim, a quem era atribuído o dom da profecia… Ele previra o advento de uma nova era, na qual o espírito de Cristo, havia muito corrompido por obra de seus falsos apóstolos, realizar-se-ia de novo sobre a Terra. E a todos parecera claro que ele estava falando, sem saber, da ordem franciscana.

Com isso muitos franciscanos tinham-se alegrado bastante, parece que até demais, tanto que em meados do século, em Paris, os doutores da Sorbonne condenaram as proposições daquele abade Joaquim e o fizeram porque na universidade os franciscanos (e os dominicanos) estavam se tornando demasiado populares e por demais ouvidos, e pretendia-se eliminá-los como hereges. O que depois não se fez, e foi um grande bem para a Igreja, porque permitiu que fossem divulgadas as obras de Tomás de Aquino e de Boaventura de Bagnoregio, que sem dúvida não eram hereges. Por aí se vê que em Paris também as ideias estavam confusas, ou alguém queria confundi-las em seu interesse próprio. E este é o mal que a heresia faz ao povo cristão, tornando obscuras as ideias e levando todos a se tornarem inquisidores em benefício próprio. Depois, tudo o que vi na abadia me levou a pensar que frequentemente são os inquisidores que criam os hereges. E não apenas no sentido de que imaginam haver hereges quando não os há, mas no sentido de que reprimem com tanta veemência a degeneração herética que impelem muitos a participar da heresia por ódio a eles. Na verdade, um círculo imaginado pelo demônio, que Deus nos proteja.”

 

 

Percorremos de volta a nave central e saímos. Eu continuava perturbado pela conversa com Ubertino.

— É um homem… estranho — ousei dizer.

— É, ou foi, em muitos aspectos, um grande homem. Mas justamente por isso é estranho. Apenas os pequenos homens parecem normais. Ubertino poderia ter-se tornado um dos hereges que ele contribuiu para condenar à fogueira, ou um cardeal da Santa Igreja Romana. Esteve pertíssimo de ambas as perversões. Quando falo com Ubertino, tenho a impressão de que o inferno é o paraíso visto do outro lado.

Não entendi o que estava querendo dizer:

— De que lado? — perguntei.

— Pois é — admitiu Guilherme —, trata-se de saber se há lados e se há um todo.”

 

 

“— Uma abadia é sempre um lugar onde os monges estão em luta entre si para apoderar-se do governo da comunidade. Em Melk também, mas talvez como noviço não tenhas tido jeito de perceber. Mas na tua terra conquistar o governo de uma abadia significa conquistar um lugar de onde se trata diretamente com o imperador. Nestas terras, a situação é diferente, o imperador está distante, mesmo quando desce até Roma. Não há uma corte, sequer a papal, agora. Há cidades, terás percebido isso.

— Claro, e fiquei impressionado. A cidade na Itália é coisa diferente da cidade de minha terra… Não é só um lugar para morar: é um lugar para decidir, todos estão sempre na praça, os magistrados cidadãos contam mais que o imperador ou o papa. É como se fossem… vários reinos…

— E os reis são os mercadores. E a arma deles é o dinheiro. O dinheiro, na Itália, tem função diferente da que tem no teu país ou no meu. Lá, o dinheiro circula por todo lugar, mas grande parte da vida ainda é dominada e regulada pela troca de bens, galinhas, gavelas de trigo, podadeiras, carroças, e o dinheiro serve para obter esses bens. Terás notado que na cidade italiana, ao contrário, os bens servem para obter dinheiro. E mesmo os padres, os bispos e até as ordens religiosas precisam lidar com o dinheiro. É por isso, naturalmente, que a rebelião contra o poder manifesta-se como chamamento à pobreza, e rebelam-se contra o poder os que são excluídos da relação com o dinheiro, e cada chamamento à pobreza suscita muita tensão e muitas controvérsias, e a cidade inteira, do bispo ao magistrado, sente como inimigo quem prega demais a pobreza. Os inquisidores sentem cheiro do demônio sempre que alguém reage contra o cheiro do esterco do demônio. E então compreenderás também o que Aymaro está pensando. Uma abadia beneditina, nos tempos áureos da ordem, era o lugar de onde os pastores controlavam o rebanho de fiéis. Aymaro quer que se volte à tradição. Ocorre que a vida do rebanho mudou, e a abadia só poderá voltar à tradição (à glória, ao poder de antigamente) se aceitar o novo costume do rebanho, tornando-se diferente. E, uma vez que hoje aqui não se domina o rebanho com armas ou com o esplendor dos ritos, mas com o controle do dinheiro, Aymaro quer que todo o estabelecimento da abadia e a própria biblioteca se tornem fábrica, e fábrica de dinheiro.”

 

 

“— A biblioteca é testemunha da verdade e do erro — disse então uma voz às nossas costas. Era Jorge. Uma vez mais fiquei assombrado (mas muito ainda deveria me impressionar nos dias seguintes) com o modo inopinado com que o velho aparecia de improviso, como se nós não o víssemos e ele estivesse nos vendo. Perguntei-me também o que afinal fazia um cego no scriptorium, mas dei-me conta, em seguida, que Jorge estava sempre onipresente em todos os lugares da abadia. E com frequência ficava no scriptorium, sentado numa cadeira perto da lareira, e parecia acompanhar tudo o que acontecia na sala. Uma vez o ouvi perguntar de seu posto em voz alta: “Quem está subindo?”, virando-se para Malaquias que, com os passos abafados pela palha, se dirigia à biblioteca. Os monges todos o tinham em grande apreço e recorriam frequentemente a ele, lendo-lhe trechos de difícil compreensão, consultando-o sobre algum escólio ou pedindo-lhe esclarecimentos sobre como representar um animal ou um santo. E ele fixava o vazio com seus olhos apagados, como se fitasse páginas que tinha vívidas na memória e respondia que os falsos profetas são ataviados como bispos, com rãs a lhes saírem da boca, ou quais eram as pedras que deveriam adornar as muralhas da Jerusalém celeste, ou que, nos mapas, os arimaspos devem ser representados perto da terra do Preste João, recomendando que não exagerassem na sua monstruosidade, o que os tornaria sedutores, pois bastava representá-los como emblemas: reconhecíveis, mas não concupiscíveis, nem repelentes a ponto de provocar o riso.

Uma vez o ouvi aconselhando um escoliasta sobre como interpretar a recapitulatio nos textos de Ticônio conforme o pensamento de santo Agostinho, para que se evitasse a heresia donatista. Outra vez o ouvi dar conselhos sobre como, comentando, distinguir hereges de cismáticos. Ou ainda dizer a um estudioso perplexo qual livro precisaria procurar no catálogo da biblioteca e mais ou menos em que fólio encontraria menção dele, assegurando-lhe que o bibliotecário decerto o entregaria, pois se tratava de obra inspirada por Deus. Por fim, de outra vez, ouvi-o dizer que certo livro não devia ser procurado, que existia no catálogo, é verdade, mas fora estragado pelos ratos cinquenta anos antes e se pulverizaria sob os dedos de quem o tocasse agora. Ele era, em suma, a própria memória da biblioteca e a alma do scriptorium. Às vezes admoestava os monges que ouvia conversando: “Apressai-vos a deixar testemunho da verdade, pois os tempos estão próximos”, e aludia à vinda do Anticristo.

— A biblioteca é testemunha da verdade e do erro — havia dito Jorge, então.

— É verdade, Apuleio e Luciano eram culpados de muitos erros — disse Guilherme, mas, sob o véu de suas ficções, esta fábula contém até que boa moral, porque ensina como se paga pelos próprios erros; além disso, acho que a história do homem transformado em asno alude à metamorfose da alma que cai em pecado.

— Pode ser — disse Jorge.

— Porém agora compreendo por que Venâncio, durante aquela conversa de que me falou ontem, estava tão interessado nos problemas da comédia; de fato, mesmo as fábulas desse tipo podem ser comparadas às comédias dos antigos. Ambas não falam de homens que existiram de verdade, como as tragédias, mas, conforme diz Isidoro, são ficções: “fabulae poetae a fando nominaverunt quia non sunt res factae sed tantum loquendo fictae[52]

Logo de início não entendi por que Guilherme tinha entrado nessa douta discussão, justamente com um homem que parecia não gostar de tais assuntos, mas a resposta de Jorge me mostrou quanto meu mestre tinha sido sutil.

— Naquele dia não se discutiam comédias, mas apenas o caráter lícito ou não do riso — disse Jorge franzindo o cenho.

E eu me lembrava muito bem que, quando Venâncio se referira àquela discussão, justamente no dia anterior, Jorge tinha afirmado não se lembrar dela.

— Ah — disse Guilherme com indiferença — achei que tínheis falado das mentiras dos poetas e dos enigmas argutos…

— Falava-se do riso — disse Jorge secamente. — As comédias eram escritas pelos pagãos para levar os espectadores ao riso, e nisso faziam mal. Jesus Nosso Senhor nunca contou comédias nem fábulas, mas apenas límpidas parábolas que nos instruem alegoricamente sobre como alcançar o paraíso, e assim seja.

— Pergunto-me — disse Guilherme — por que sois tão contrário a se pensar que Jesus alguma vez riu. Acho que o riso é bom remédio, como os banhos, para curar os humores e outras afecções do corpo, em especial a melancolia.

— Os banhos são boa coisa — disse Jorge —, e o próprio aquinate os aconselha para remover a tristeza, que pode ser má paixão, quando não está voltada para um mal que possa ser extinguido através da audácia. Os banhos restituem o equilíbrio dos humores. O riso sacode o corpo, deforma os traços fisionômicos, torna o homem semelhante ao macaco.

— Os macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua racionalidade — disse Guilherme.

— Também a palavra é sinal da racionalidade humana, e com a palavra se pode blasfemar contra Deus. Nem tudo que é próprio do homem é necessariamente bom. O riso é sinal de estultice. Quem ri não acredita naquilo de que está rindo, mas tampouco o odeia. Portanto, rir do mal significa não estar disposto a combatê-lo e rir do bem significa desconhecer a força com a qual o bem é difusivo de si. Por isso a Regra diz que o décimo grau da humildade é aquele em que o monge não está sempre pronto a rir, porque está escrito: “stultus in risu exaltat vocem suam”[53].

— Quintiliano — interrompeu meu mestre — diz que o riso é para ser reprimido no panegírico, por dignidade, mas deve ser encorajado em muitos outros casos. Tácito louva a ironia de Calpúrnio Pisão; Plínio, o Jovem, escreveu: às vezes rio, brinco, jogo: sou homem.

— Eram pagãos — replicou Jorge. — A Regra diz: “havemos de excluir sempre e em todo lugar a trivialidade, as frivolidades e as truanices, e não permitamos absolutamente que o monge abra a boca para conversas desse gênero”.

— Porém, quando o verbo de Cristo já tinha triunfado sobre a terra, Sinésio de Cirene diz que a divindade soube combinar harmoniosamente cômico e trágico, e Élio Esparciano diz que o imperador Adriano, homem de elevados princípios e de espírito naturaliter cristão, soube mesclar momentos de alegria com momentos de gravidade. E, por fim, Ausônio recomenda dosar com moderação o sério e o jocoso.

— Mas Paulino de Nola e Clemente de Alexandria nos puseram em guarda contra essas tolices, e Sulpício Severo diz que são Martinho nunca foi visto por ninguém sob o domínio da ira nem da hilaridade.

— Porém lembra do santo algumas respostas espiritualiter salsa[54] — disse Guilherme.

— Eram prontas e doutas, não ridículas. Santo Efrém escreveu uma parênese contra o riso dos monges, e em De habitu et conversatione monachorum recomenda-se evitar obscenidades e gracejos como se fossem veneno de áspides!

— Mas Hildeberto disse: “admittenda tibi joca sunt post seria quaedam”,[55] sinal de que às vezes é necessário temperar o excesso de seriedade com algo mais leve. E João de Salisbury autorizou uma modesta hilaridade. E finalmente o Eclesiastes, do qual citastes o trecho a que se refere vossa Regra, onde se diz que o riso é próprio do estulto, admite ao menos um riso silencioso, do ânimo sereno.

— O ânimo é sereno somente quando contempla a verdade e se deleita com o bem realizado; e da verdade e do bem não se ri. Eis por que Cristo não ria. O riso é incentivo à dúvida.

— Mas às vezes é justo duvidar.

— Não vejo razão para isso. Quando se duvida deve-se recorrer a uma autoridade, às palavras de um padre ou de um doutor, e acaba a razão para a dúvida. A mim me pareceis embebido de doutrinas discutíveis, como as dos lógicos de Paris. Mas são Bernardo soube bem intervir contra o castrado Abelardo, que queria submeter todos os problemas ao crivo frio e sem vida de uma razão não iluminada pelas escrituras. Certamente quem aceita essas ideias perigosíssimas pode também apreciar o jogo do ignorante que ri daquilo cuja verdade única se deve saber, e nada mais, verdade que já foi dita de uma vez por todas. Assim, rindo, o ignorante diz implicitamente “Deus non est”[56].

— Venerável Jorge, pareceis injusto quando tratais Abelardo por castrado, porque sabeis que incorreu nessa triste condição por perversidade alheia…

— Por seus pecados. Pela arrogância de sua confiança na razão do homem. Desse modo a fé dos simples foi escarnecida, os mistérios de Deus foram eviscerados (ou tentaram, tolos os que o tentaram), questões que diziam respeito às coisas altíssimas foram tratadas temerariamente, zombou-se dos padres porque tinham considerado preferível que tais questões fossem postas de lado, em vez de solucionadas.

— Não concordo, venerável Jorge. Deus quer que exercitemos nossa razão em muitas coisas obscuras sobre as quais a escritura nos deixou livres para decidir. E, quando alguém vos propõe acreditar numa proposição, deveis primeiro examinar se ela é aceitável, porque nossa razão foi criada por Deus, e aquilo que agrada à nossa razão não pode deixar de agradar à razão divina, da qual sabemos, contudo, apenas aquilo que, por analogia e frequentemente por negação, inferimos dos procedimentos de nossa razão. E então vedes que às vezes, para minar a falsa autoridade duma proposição absurda que repugna à razão, até o riso pode ser um instrumento justo. O riso serve amiúde também para confundir os maus e fazer refulgir sua estultice. Conta-se que são Mauro, posto pelos pagãos em água fervente, queixou-se de que o banho estava muito frio; o governador pagão pôs tolamente a mão na água para verificar e queimou-se. Bela ação a do santo mártir que ridicularizou os inimigos da fé.

Jorge soltou uma risota:

— Mesmo nos episódios narrados pelos pregadores encontram-se muitas invenções. Um santo imerso em água fervente sofre por Cristo e contém seus gritos, não fica pregando peças pueris aos pagãos!

— Estais vendo? — disse Guilherme. — Essa história vos parece repugnar à razão e vós a acusais de ridícula! Ainda que tacitamente e controlando os lábios, estais rindo de algo e quereis que eu também não o leve a sério. Rides do riso, mas rides.

Jorge fez um gesto de contrariedade:

— Brincando com o riso me arrastastes a discursos vãos. Mas vós sabeis que Cristo não ria.

— Não estou certo disso. Quando convidava os fariseus a jogar a primeira pedra, quando perguntava de quem era a efígie na moeda para pagar como tributo, quando brincava com as palavras e dizia “Tu es petrus”, creio que dizia coisas argutas, para confundir os pecadores, para infundir coragem aos seus. Falava com argúcia também quando disse a Caifás: “Tu o disseste”. E sabeis muito bem que, no momento mais aceso da luta entre cluniacenses e cistercienses, os primeiros acusaram os segundos, para torná-los ridículos, de não usarem bragas. E em Speculum Stultorum conta-se que o asno Brunello se pergunta o que aconteceria se à noite o vento levantasse os cobertores, e o monge visse suas partes pudendas…

Os monges ao redor riram, e Jorge enfureceu-se:

— Estais arrastando esses confrades a uma festa de loucos. Sei que entre os franciscanos é costume cativar as simpatias do povo com tolices desse gênero, mas sobre esses ludi[57] vos direi o que diz um verso que ouvi de um de vossos pregadores: tum podex carmen extulit horridulum[58].

A reprimenda era um pouco forte demais, Guilherme fora impertinente, mas agora Jorge o acusava de soltar peidos pela boca. Perguntei-me se aquela resposta severa não significaria um convite, da parte do monge ancião, a sairmos do scriptorium. Mas vi Guilherme, tão combativo um pouco antes, usar agora de grande mansuetude.

— Peço-vos perdão, venerável Jorge — disse. — Minha boca traiu meus pensamentos, não queria faltar-vos com o respeito. Talvez o que dizeis seja certo, e eu estava errado.”

52. “foram chamadas de fábulas de poeta, do verbo falar, porque não são coisas feitas, mas fingimentos verbais”. — Isidoro de Sevilha, Etimologias, 1.40.1.

53.O estulto eleva a voz quando ri”. — Regra de são Bento, Décimo grau de humildade, citação de Eclesiástico, 21, 23.

54. “espiritualmente divertidas”.

55. “deves admitir as brincadeiras depois de algumas coisas sérias”.

56. “Deus não existe”.

57. “jogos, brincadeiras”.

58. “Então o ânus produziu um canto áspero”.

 

 

“Berengário deixava-se consumir — agora muitos monges sabiam disso — por insana paixão por Adelmo, a mesma paixão cujos nefastos resultados a cólera divina castigara em Sodoma e Gomorra. Assim se exprimiu Bêncio, talvez por consideração à minha pouca idade. Mas quem passou a adolescência num mosteiro, mesmo mantendo-se casto, já ouviu falar de tais paixões e, às vezes, até precisou defender-se das insídias de quem era escravizado por elas. Mongezinho que era eu em Melk, acaso já não tinha recebido de um velho monge bilhetes com versos que de costume os leigos dedicam às mulheres? Os votos monacais nos mantêm afastados da cloaca de vícios que é o corpo da mulher, mas frequentemente nos conduzem para muito perto de outros erros. Enfim, acaso posso esconder de mim mesmo que minha velhice ainda hoje é agitada pelo demônio meridiano, quando, no coro, me ocorre demorar os olhos sobre o rosto imberbe de um noviço, puro e fresco como uma menina?”

 

 

“Acordei quando quase soava a hora da refeição vespertina. Sentia-me entorpecido pelo sono, porque o sono diurno é como o pecado da carne: quanto mais se teve, mais se gostaria de ter, contudo nos deixa infelizes, satisfeitos e insatisfeitos ao mesmo tempo.”

 

 

“— Mas por que o evangelho nunca diz que Cristo ria? — perguntei, sem nenhuma boa razão. — O que Jorge diz é verdade?

— Legiões já se perguntaram se Cristo riu ou não. A coisa não me interessa muito. Acho que nunca riu porque, onisciente como devia ser o filho de Deus, sabia o que faríamos nós, cristãos.”

 

 

“Pelo que entendi, uns trinta anos antes, ele tinha se agregado a um convento de menoritas na Toscana e lá vestira o hábito de são Francisco, sem se ordenar. Ali, acho, aprendera o pouco de latim que falava, misturando-o com os falares de todos os lugares em que, pobre e sem pátria, tinha estado e de todos os companheiros de vagueação que encontrara, desde os mercenários da minha terra até os bogomilos dálmatas. Ali adotara a vida de penitência, conforme dizia (penitenziagite, citava-me com olhos inspirados, e novamente ouvi a fórmula que deixara Guilherme curioso), mas, ao que parece, também os menoritas com quem estava tinham ideias confusas, porque, escandalizados com o cônego da igreja vizinha, acusado de roubos e outras abominações, saquearam-lhe igreja e casa e o fizeram rolar escada abaixo, de modo que o pecador morreu. Por isso, o bispo enviou soldados, os frades se dispersaram, e Salvatore vagou muito tempo pela alta Itália com um bando de fraticelos, ou melhor, de menoritas mendicantes sem nenhuma lei nem disciplina.

Dali foi parar na região de Tolosa, onde viveu uma estranha história, enquanto se inflamava com a narrativa que ouvia dos grandes cometimentos dos cruzados. Uma massa de pastores e humildes, em grande multidão, reuniu-se um dia para atravessar o mar e combater contra os inimigos da fé. Foram chamados de pastorinhos. Na verdade, queriam fugir daquela sua terra maldita. Havia dois chefes, que lhes inspiraram falsas teorias: um sacerdote que fora privado de sua igreja por motivo de conduta e um monge apóstata da ordem de são Bento. Estes tinham levado aqueles simplórios a perder a tal ponto o juízo que atrás deles corriam, em bandos, até mesmo rapazes de dezesseis anos que, contrariando a vontade dos pais, tinham abandonado os campos e, levando consigo apenas um bornal e um bastão, sem dinheiro, seguiam-nos como um rebanho e formavam grande massa. Já não seguiam a razão nem a justiça, mas apenas a força e sua vontade. O fato de estarem juntos, livres finalmente e com uma obscura esperança de terras prometidas deu-lhes uma espécie de embriaguez. Percorriam as aldeias e as cidades agarrando tudo, e, se um deles fosse detido, os outros assaltavam as prisões e o libertavam. Quando entraram na fortaleza de Paris para soltar alguns companheiros que os senhores tinham mandado prender, como o preboste de Paris tentasse opor resistência, jogaram-no pelos degraus daquela prisão. Depois formaram uma tropa no prado de Saint-Germain, mas ninguém teve coragem de enfrentá-los. Então se dirigiram para a Aquitânia e depredavam e matavam todos os judeus dos guetos por onde passavam…

— Por que os judeus? — perguntei a Salvatore. E ele me respondeu:

— E por que não?

E explicou-me que a vida inteira tinha aprendido com os pregadores que os judeus eram inimigos da cristandade e acumulavam os bens que lhes eram negados. Perguntei-lhe se não era verdade, porém, que os bens eram acumulados pelos senhores e pelos bispos, através dos dízimos, e que portanto os pastorinhos não estavam combatendo seus verdadeiros inimigos. Respondeu-me que, quando os verdadeiros inimigos são fortes demais, é preciso escolher inimigos mais fracos. Está explicado — pensei — por que os simples são assim chamados. Somente os poderosos sabem sempre com muita clareza quem são seus verdadeiros inimigos. Os senhores não queriam ver seus bens postos em risco pelos pastorinhos, e foi grande sorte a sorte deles quando os chefes dos pastorinhos insinuaram a ideia de que muitas das riquezas estavam com os judeus.”