sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne

Editora: Clube de Literatura Clássica

ISBN: 978-65-87036-28-1

Tradução: Teotônio Simões

Opinião: ★★★★☆

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Páginas: 550

Sinopse: Londres, 1872. Ao sentir-se desafiado por seus companheiros de clube, o gentleman inglês Phileas Fogg aposta que é capaz de dar a volta ao mundo em apenas 80 dias, arriscando todo o seu dinheiro. Homem misterioso, de poucas palavras e rotina inabalável, Fogg inicia a viagem no mesmo dia, levando consigo apenas seu empregado recém-contratado, o francês Jean Passepartout, e uma bolsa.

A volta ao mundo em 80 dias é uma incrível aventura pelos mais diversos locais, culturas e situações. De Londres a Yokohama e de lá para Nova York, passando por Bombaim, Hong Kong, São Francisco e outras cidades, em barcos, trens, elefante e trenó a vela, Verne leva nossos heróis – aos quais se juntarão o inspetor Fix e a deslumbrante Ms. Alda – a enfrentar tempestades marítimas, fanáticos religiosos, sabotagens e ataques de índios e de lobos famintos.



“Com os hábitos negligentes dos americanos, pode-se dizer que, quando eles se põem a ser prudentes, é loucura não o ser.”

 

 

“A dois, a própria miséria é ainda suportável.”

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Lorde, de João Gilberto Noll

Editora: Record

ISBN: 978-85-01-10235-5

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 128

Sinopse: No aeroporto de uma Inglaterra gelada, um escritor brasileiro não sabe o que o aguarda. Recebera de um homem misterioso um convite, as passagens, a oferta de hospedagem e embarcara. Em Lorde, João Gilberto Noll, com seu estilo consagrado pela crítica, constrói um personagem que transita pelas ruas, hospitais, hotéis, estabelece relações passageiras com desconhecidos, e, como diz, apenas trocou a solidão que vivia no Brasil pela solidão que vive na Inglaterra. Neste livro, o autor expõe com primor as divagações de um sujeito que experimenta o desconhecido para se descobrir.



“Para onde iríamos depois?, fiz menção de perguntar. No fundo eu sabia que ele se encarregaria de tudo até determinado ponto, e que tudo o que estivesse por fazer seria, não digo para o meu bem, mas se evidenciaria como o mais sensato, aquilo que deveria ser feito sob pena de eu não aguentar o tranco vindouro, pois dele viria o caminho até que eu pudesse, não, não dispensá-lo, isso jamais, mas me ater a alguma autonomia que seria sempre limitada, isso também sei, já que estava agora num país onde eu nunca estivera antes e, principalmente, me faltava a juventude para aderir a ele sem mais.”

 

 

“Passando por um salão de beleza unissex resolvi entrar. A moça me ofereceu uma revista. Eu meditava sobre o castanho-claro que queria para o meu ralo cabelo encimado por uma careca ainda provida de penachos. Sentei e a cabeleireira da Malásia perguntou se queria cortar muito. Respondi que precisava de uma tintura. E apontei para a foto de um rapaz colada na parede. Apresentava o tom com que eu sonhava.

Podia arrancar o pano preso ao meu pescoço e sair dali, desistir de me artificializar mais. Mas não: repeti, é esse tom que eu quero, por favor…

A tinta escorria pelas minhas têmporas fazendo uma meleca desgraçada misturada à minha maquiagem. Crostas de base ruíam, despencando sobre o pano alvo que ela me colocara de proteção. Se era humilhante? Eu não sabia mais com exatidão o teor dessa palavra. As coisas já não me ofendiam o suficiente. Estar de guarda ao redor do meu amor-próprio não era mais necessário porque eu desconfiava seriamente de que eu já não trazia o mesmo homem.”

 

 

“E não seria esta a solução para os nossos males? Atirarmo-nos à faina diária como boas formigas… Tendo um bom sono de brinde…”

 

 

“Ao chegar do outro lado, me virei. Lá continuava ele, parado perto dos portões do Parlamento, o guarda se aproximando mais. De súbito começa a andar, me vê a metros e metros de distância, e vem em minha direção, a assobiar. Vem outro, um cara meigo que jamais se viu. Parece ter se esquecido de que está encalacrado, que escolheu o sujeito errado para o papel que lhe tinha reservado. Mas não vai dar o braço a torcer tão fácil assim, vai retomar o plano e saberá dizer enfim a que veio, até o ponto em que isso não desfizer o seu poder de ação. Agora dirá o que pensa do jeito como o verdadeiro inglês deve ser: um ilusionista da polidez. É, é isso?, eu tenho vontade de perguntar, mas me vem antes a ideia de fruir até o fim aquela situação cavalheiresca do inglesinho até que ele me pague mais uma parcela da minha subsistência, como gosta de dizer. Vamos andando à beira do Tâmisa, às vezes sentamos em bancos que ficam em patamares mais elevados para se apreciar melhor a paisagem. Ele já não parece um dos guardiões incontestes da cidade. Aparenta me seguir dessa vez. Dá a pinta de ter perdido qualquer rota, nem sabe onde está. Sentamos nesses bancos com patamares mais altos. Pego a mão dele. Digo, esse aí é o Tâmisa. Olha a lua lá. Aproximo as mãos e beijo a dele. Desconfio de sua bonomia nada escancarada. Daqui a pouco ele se descontrola e mostra quem é mesmo que manda ali. Solto a mão dele, ponho-a em cima da sua perna, dou um tapinha nela. E me afasto para a ponta do banco. Começo até a desconfiar de que esse homem perdeu a argamassa que o mantinha durão, esquisito, oblíquo. Vai ver iniciou a cair de amores por mim, só isso, e quer tão só me acompanhar, para que mais? Vai ver é o rapaz da minha vida e chega só agora, quando nem o espelho mais quero olhar. Isso acontece, à beira do Tâmisa, e com um puta luar. Quem disse que não? Algum recalcado aí afirma que duas bichas à beira do Tâmisa em pleno enlevo é coisa de morrer de rir? Pois, olha, vou pegar de novo a mão dele e ele não vai dar um pio, apenas entrefechar os olhos e aceitar. Mas, claro, não faço nada disso, não quero perder a perspectiva relutante que deve haver em casos assim. Perspectiva relutante de ambos os lados, viu? De lá e cá. E, claro, começa a chuviscar em Londres.”

 

 

“Alguém me pediu as horas do meu lado no caminho e levei um susto, pensei que fosse o velho hindu e que eu teria mesmo de aceitá-lo. Ainda olhei para trás, imaginei que ele estivesse me seguindo. Eu perdera o velho hindu na multidão. E precisava prosseguir sozinho — o que já me era um vício, para os que ainda não perceberam, ou mais: um estado natural. Ter alguém ao meu lado o tempo todo, alguém com quem conversar, emitir opiniões, discutir a paisagem, os acontecimentos ao redor, os longínquos, sacrificar as emoções, poupar a relação, tudo isso me representava normalmente um extravio não de mim mesmo mas de uma perspectiva que me tomara inteiro para não se perder. Que perspectiva era essa assim tão zelosa de si mesma?”

sábado, 24 de janeiro de 2026

A vida não é útil, de Ailton Krenak

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-359-3369-7

Pesquisa e organização: Rita Carelli

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 128

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Sinopse: Um dos mais influentes pensadores da atualidade, Ailton Krenak vem trazendo contribuições fundamentais para lidarmos com os principais desafios que se apresentam hoje no mundo: a terrível evolução de uma pandemia, a ascensão de governos de extrema-direita e os danos causados pelo aquecimento global.

Crítico mordaz à ideia de que a economia não pode parar, Krenak provoca: “Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro”. Para o líder indígena, “civilizar-se” não é um destino. Sua crítica se dirige aos “consumidores do planeta”, além de questionar a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.

Se, em meio à terrível pandemia de covid-19, sentimos que perdemos o chão sob nossos pés, as palavras de Krenak despontam como os “paraquedas coloridos” descritos em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, que já vendeu mais de 50 mil cópias no Brasil e está sendo traduzido para o inglês, francês, espanhol, italiano e alemão.

A vida não é útil reúne cinco textos adaptados de palestras, entrevistas e lives realizadas entre novembro de 2017 e junho de 2020.



Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade — que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições —, foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.”

 

 

“Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: “Vão logo, esqueçam a gente aqui!”. Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos.

Parece que a ideia de concentração de riqueza chegou a um clímax. O poder, o capital entraram em um grau de acúmulo que não há mais separação entre gestão política e financeira do mundo. Houve um tempo em que existiam governos e revoluções. Na América Latina houve muitas; o México, nos séculos XIX e XX, foi um verdadeiro laboratório delas. Hoje essa cultura de revoluções, de povos que se movem e derrubam governos, criam outras formas de governança, não tem mais sentido. Nem na América Latina, nem na África, nem em continente nenhum. Isso porque os governos deixaram de existir, somos governados por grandes corporações. Quem vai fazer a revolução contra corporações? Seria como lutar contra fantasmas. O poder, hoje, é uma abstração concentrada em marcas aglutinadas em corporações e representada por alguns humanoides.”

 

 

Estamos viciados em modernidade. A maior parte das invenções é uma tentativa de nós, humanos, nos projetarmos em matéria para além de nossos corpos. Isso nos dá sensação de poder, de permanência, a ilusão de que vamos continuar existindo. A modernidade tem esses artifícios. A ideia da fotografia, por exemplo, que não é tão recente: projetar uma imagem para além daquele instante em que você está vivo é uma coisa fantástica. E assim ficamos presos em uma espécie de looping sem sentido. Isso é uma droga incrível, muito mais perigosa que as que o sistema proíbe por aí. Estamos a tal ponto dopados por essa realidade nefasta de consumo e entretenimento que nos desconectamos do organismo vivo da Terra. Com todas as evidências, as geleiras derretendo, os oceanos cheios de lixo, as listas de espécies em extinção aumentando, será que a única maneira de mostrar para os negacionistas que a Terra é um organismo vivo é esquartejá-la? Picá-la em pedaços e mostrar: “Olha, ela é viva”? É de uma estupidez absurda.”

 

 

Na década de 1990 andei por outros lugares, depois voltei para Minas, para passar mais tempo aqui. E precisei restabelecer uma relação com este lugar onde as montanhas são feitas de vento: existem para serem comidas. Fiquei pensando no destino trágico do território que carrega este nome, Minas Gerais. Diamantina também, com mineradores entrando lá para tirar diamante, pedras preciosas — essa obsessão por furar o chão. O lugar onde estou é chamado de Quadrilátero Ferrífero. É de um mau gosto enorme dar um nome desses para um lugar. O que ele quer dizer? Que estamos ferrados. Duas barragens, uma em Mariana e outra em Brumadinho, derramaram ferro em cima da gente. O longo processo de desenvolvimento dessas tecnologias que nos enchem de orgulho também encheu os rios de veneno. Eu falei de esquartejar a Terra, mas nem será preciso: a maquinaria que esses caras enfiam nas montanhas, o que ocorreu na bacia do rio Doce — esse rio cauterizado pela lama da mineração —, é uma sondagem tão invasiva da Terra que já a dilacerou.”

 

 

Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável. Se quisermos, após essa pandemia, reconfigurar o mundo com essa mesma matriz, é claro que o que estamos vivendo é uma crise, no sentido de erro. Mas, se enxergarmos que estamos passando por uma transformação, precisaremos admitir que nosso sonho coletivo de mundo e a inserção da humanidade na biosfera terão que se dar de outra maneira. Nós podemos habitar este planeta, mas deverá ser de outro jeito. Senão, seria como se alguém quisesse ir ao pico do Himalaia, mas pretendesse levar junto sua casa, a geladeira, o cachorro, o papagaio, a bicicleta. Com uma bagagem dessas ele nunca vai chegar. Vamos ter que nos reconfigurar radicalmente para estarmos aqui. E nós ansiamos por essa novidade, ela é capaz de nos surpreender. Terá o sentido da poesia de Caetano Veloso na música “Um índio”: nos surpreenderá pelo óbvio. De repente, vai ficar claro que precisamos trocar de equipamentos. E — surpresa! — o equipamento que precisamos para estar na biosfera é exatamente o nosso corpo.”

 

 

O capitalismo quer nos vender até a ideia de que nós podemos reproduzir a vida. Que você pode inclusive reproduzir a natureza. A gente acaba com tudo e depois faz outro, a gente acaba com a água doce e depois ganha um dinheirão dessalinizando o mar, e, se não for suficiente para todo mundo, a gente elimina uma parte da humanidade e deixa só os consumidores. Uma espécie de Big Brother governando o mundo ao gosto do capitalismo. Algumas pessoas sugerem que quem sabe viver no mundo são os ricos, que a pobreza é responsável pela destruição do meio ambiente. Essa afirmação, além de ser racista e classista, é assassina. Porque alguém que está no lugar do rico dizendo que os pobres — que são 80% da população mundial — estão destruindo o planeta pode acabar sugerindo também que os pobres não precisam mais viver. A verdade é que nós não precisamos de nada que esse sistema pode nos oferecer, mas ele nos tira tudo o que temos. Quando um vereador aparece na sua comunidade dizendo que vai sanear é preciso desconfiar, pois, quando dizem isso, em geral, é conosco que querem desaparecer. Esse colonialismo está impregnado na cabeça do vereador, do prefeito, do governador, de tudo quanto é gente que tem o status de apertar algum botão, de abrir algum portão. Esses caras continuam a serviço da invasão.

Milton Santos, que era uma estrela distinta no debate da globalização, dizia que ela tinha implicações na vida cotidiana, na cultura, na organização do mundo do trabalho e, inclusive, na ideia de riqueza e pobreza, e colocava em questão o próprio paradigma do capitalismo: sabia que um outro mundo não poderia ser a repetição deste. Mas, para muita gente, na epistemologia ocidental, a ideia de outro mundo é apenas um outro mundo capitalista consertado: você pega este mundo, leva para a oficina, troca o chassi, o para-brisa, arruma o eixo e bota para rodar mais uma vez. Um mundo velho e canalha fantasiado de novo. Definitivamente, eu não estou a fim de contribuir para pagar essa conta: para mim, não vale o conserto.”

 

 

“Ou você ouve a voz de todos os outros seres que habitam o planeta junto com você, ou faz guerra contra a vida na Terra.”

 

 

“Não tivemos capacidade crítica para pensar as consequências de uma crise sanitária nos grandes centros urbanos, e preciso confessar que tenho dó de quem vive nessas metrópoles. Muitas pessoas vivem sozinhas nesses centros, deixamos de ser sociais porque estamos num local com mais 2 milhões de pessoas.”

 

 

Neste momento, estamos sendo desafiados por uma espécie de erosão da vida. Os seres que são atravessados pela modernidade, a ciência, a atualização constante de novas tecnologias, também são consumidos por elas. Essa ideia me ocorre a cada passo que damos em direção ao progresso tecnológico: que estamos devorando alguma coisa por onde passamos. Aquela orientação de pisar suavemente na terra de forma que, pouco depois de nossa passagem, não seja mais possível rastrear nossas pegadas está se tornando impossível: nossas marcas estão ficando cada vez mais profundas. E cada movimento que um de nós faz, todos fazemos. Foi-se a ideia de que cada um deixa sua pegada individual no mundo; quando eu piso no chão, não é o meu rastro que fica, é o nosso. E é o rastro de uma humanidade desorientada, pisando fundo. Um nenenzinho no colo da mãe balança a perninha e afunda o chão. Porque esse neném, para circular no mundo que vivemos hoje, vai usar produtos de higiene, fraldas, tecidos, materiais que, em algum lugar, estão comendo a Terra. Involuntariamente ele já está predando o planeta.

Eu ganhei uma plantinha maravilhosa que produz umas folhinhas que você pode colher, lavar, botar um azeite ou limão em cima e comer. Ela é cheia de proteínas, se chama moringa (Moringa oleifera). Então, minha planta de moringa estava crescendo lá no quintal, e um dia, do meio para o final da tarde, as formigas a acharam. Quando eu olhei, não tinha mais nenhuma folha: tinham comido todas, ficou só o talo. Aquilo me deu uma chateação com aquelas formigas… Pois nós estamos fazendo a mesma coisa com o planeta, do meio-dia para o fim da tarde a gente termina de comê-lo. A ecologia nasceu da preocupação com o fato de que o que buscamos na natureza é finito, mas o nosso desejo é infinito, e, se o nosso desejo não tem limite, então vamos comer este planeta todo.”

 

 

“Acho gravíssimo as escolas continuarem ensinando a reproduzir esse sistema desigual e injusto. O que chamam de educação é, na verdade, uma ofensa à liberdade de pensamento, é tomar um ser humano que acabou de chegar aqui, chapá-lo de ideias e soltá-lo para destruir o mundo. Para mim isso não é educação, mas uma fábrica de loucura que as pessoas insistem em manter. Talvez essa parada por causa da pandemia faça muita gente repensar por que mandam seus filhos para um reduto chamado escola e o que acontece com eles lá. Os pais renunciaram a um direito, que deveria ser inalienável, de transmitir o que aprenderam, a memória deles, para que a próxima geração possa existir no mundo com alguma herança, com algum sentimento de ancestralidade. Hoje, quem fala em ancestralidade é um místico, um pajé, uma mãe de santo, porque as “pessoas de bem” saíram de um MBA em algum lugar e não vão ficar falando esse tipo de coisa. São como uns ciborgues que estão circulando por aí, inclusive administrando grandes grupos educacionais, universidades e toda essa superestrutura que o Ocidente ergueu para manter todo mundo encurralado.”

 

 

Eu sempre olhei essas grandes cidades do mundo como um implante sobre o corpo da Terra. Como se, não satisfeitos com a beleza dela, pudéssemos fazê-la diferente do que ela é. A gente deveria é diminuir a investida sobre seu corpo e respeitar sua integridade. Quando os índios falam: “A Terra é nossa mãe”, os outros dizem: “Eles são tão poéticos, que imagem mais bonita!”. Isso não é poesia, é a nossa vida. Estamos colados no corpo da Terra, quando alguém a fura, machuca ou arranha, desorganiza o nosso mundo.

Cada indivíduo dessa civilização que veio para saquear o mundo indígena é um agente ativo dessa predação. E estão crentes de que estão fazendo a coisa certa. Talvez o que incomode muito os brancos seja o fato de o povo indígena não admitir a propriedade privada como fundamento. É um princípio epistemológico. Os brancos saíram, num tempo muito antigo, do meio de nós. Conviveram com a gente, depois se esqueceram quem eram e foram viver de outro jeito. Eles se agarraram às suas invenções, ferramentas, ciência e tecnologia, se extraviaram e saíram predando o planeta. Então, quando a gente se reencontra, há uma espécie de ira por termos permanecido fiéis a um caminho aqui na Terra que eles não conseguiram manter.”

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Anne de Ingleside, de Lucy Maud Montgomery

Editora: Ciranda Cultural

ISBN: 978-65-550-0210-2

Tradução: Rafael Bonaldi

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 336

Sinopse: Em Ingleside, a vida é bem agitada, cheia de descobertas dos cinco filhos de Anne. Com um sexto a caminho, ela não poderia estar mais assoberbada, até que a inconveniente tia Mary Maria faz uma inoportuna visita. Gilbert está sempre ocupado com o trabalho e Anne atarefada com os filhos, o que a leva a pensar que o amor do marido esfriou. Mas Anne está disposta a reacender o amor que existe entre eles desde a infância.

 


– Todos cresceram – disse Diana, com um suspiro. – Quando olho para o jovem Fred! Todos mudaram... Só você que não. Você não muda, Anne. Como se mantém tão magra? Olhe para mim!

– Você ganhou ares de matrona – riu Anne. – Todavia conseguiu escapar das garras da velhice, por ora, Di. Quanto a eu não ter mudado... Bem, a senhora H. B. Donnell concorda com você. Ela me disse no funeral que não pareço nem um dia mais velha. Já a senhora Harmon Andrews discorda. Ela disse: “Minha nossa, Anne, como o tempo passou para você!”. A beleza está nos olhos de quem vê ou na consciência. O único momento em que sinto que estou ficando velha é quando vejo as fotos nas revistas, os heróis e as heroínas estão começando a parecer jovens demais para mim, mas não se preocupe, Di. Amanhã voltaremos a ser garotas. É o que eu vim lhe dizer. Vamos tirar um fim de tarde para revisitarmos todos os nossos fantasmas, cada um deles. Passearemos pelos campos e atravessaremos o velho e frondoso bosque repleto de samambaias. Nada parece impossível na primavera, sabe? Deixaremos de nos sentir maternais e seremos tão imprudentes quanto a senhora Lynde ainda acha que sou no fundo do coração dela. Não é nada divertido ser sensata o tempo inteiro, Diana.”

 

 

Anne já tinha voltado a ser ela mesma quando a senhorita Cornelia se foi. No entanto, ela sentou-se pensativamente diante da lareira por algum tempo, não contara tudo para a senhorita Cornelia e nunca havia contado nada daquilo para Gilbert. Eram tantas miudezas...

– Tão miúdas que não posso reclamar delas – pensou Anne. – Ainda assim, são as miudezas que abrem buracos na trama da vida, como traças, arruinando-a.”

 

 

– Não precisamos ser econômicos na nossa imaginação, graças a Deus.”

 

 

– Tenho que ir andando. Creio que uma ninhada de perus vai sair dos ovos ainda hoje. Gostei muito do nosso papo e gostaria de poder ficar mais. Ser uma viúva é muito solitário. Um homem pode não ser lá grande coisa, mas faz falta quando parte.”

 

 

Diga o que quiser, mas é melhor aguentar os pesares com a barriga cheia do que vazia.”

 

 

– A única coisa que eu tinha contra o senhor Dawson eram as orações excessivamente longas nos funerais. Eram tão exaustivas que as pessoas chegavam a ficar com inveja do morto.”

 

 

“É possível acreditar em qualquer coisa à noite.”

 

 

“– Ah, não acho que ela esteja muito gorda – disse Anne, caridosamente. – E certamente é uma mulher muito bonita.

– Mais ou menos. E os traços do rosto perderam um pouco do viço... Tem a mesma idade que a sua, mas parece dez anos mais velha.

– E você falando com ela sobre juventude eterna!

Gilbert mostrou um sorriso culpado.

– Foi preciso dizer amabilidades. A civilização não pode existir sem um pouco de hipocrisia.”