terça-feira, 8 de março de 2022

Dicionário analítico do Ocidente medieval (Volume I, Parte II) – Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt (Orgs.)

Editora: UNESP

ISBN: 978-85-393-0685-5

Tradução (coord.): Hilário Franco Júnior

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 754

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Sinopse: Ver Parte I




“Em suma, a melhor definição “da” fronteira medieval parece-me ser aquela de Pierre Toubert: “A fronteira jamais é linear, a não ser por abstração: ela é uma zona. Ela é estática apenas na aparência. Ela é sempre a resultante de um movimento e apenas materializa no espaço um precário estado de equilíbrio [...] . O movimento que cria ou sustenta uma fronteira é constituído pela intervenção de numerosos componentes de diferentes ordens (demográficos, econômicos, linguísticos, religiosos, geopolíticos etc.) [...]. A fronteira nunca é um obstáculo ou uma simples barreira, mas uma membrana viva ou [...] um ‘órgão periférico.’ [...] A fronteira parece, muitas vezes, produzir, talvez, 'gêneros de vida específicos', como o do 'soldado-camponês'. Ela cria, em todo caso, um estilo de vida cujos caracteres fundamentais são a violência e o desrespeito às normas e aos mecanismos de enquadramento social que prevalecem nas zonas centrais. O mundo da fronteira é assim, por excelência o do out law”.” (Jacques Le Goff)

 

 

“Enfim, o que a cidade representa para o cristianismo medieval? O cristianismo, que se implantou inicialmente nas cidades antigas e assimilou os camponeses (pagam) aos pagãos, reencontrou-se nas cidades medievais? A cidade episcopal da Alta Idade Média foi a prefiguração, o núcleo, da cidade medieval? Ou o cristianismo do primeiro milênio ruralizou-se a ponto de ter tido dificuldades para se reurbanizar? Ou, ainda, o cristianismo criou, antes do século X, modelos ideológicos ou concretos que constituíram as estruturas que acolheriam o urbanismo medieval? A cidade medieval foi a cidade de Deus? O mosteiro, “cidade refúgio”, foi um modelo para a cidade da Idade Média?

A maioria dos grandes medievalistas do século XX interessados pelas cidades medievais insistiu na separação entre a cidade antiga e a cidade medieval, mas eles não estão de acordo nem quanto à época dessa ruptura, nem, sobretudo, sobre as causas da aparição e desenvolvimento das cidades medievais. O belga Henri Pirenne e o francês Maurice Lombard concordaram quanto à grande importância das conquistas árabes que se seguiram, no século VII, ao nascimento do Islã, mas atribuíram a elas consequências opostas para a cidade cristã ocidental. Para Pirenne, o fechamento do Mediterrâneo, resultado das conquistas árabes dos séculos VI e VIII, estancou o grande comércio, a economia monetária e provocou a morte da antiga rede urbana. Quando ocorreu a retomada do século X, foi ou a partir dos subúrbios recém-criados para o renascente comércio, ou a partir de criações ex nihilo. Maurice Lombard, por sua parte, tomando posição oposta às teses de Pirenne, atribui a retomada do grande comércio e da circulação monetária à demanda econômica do mundo muçulmano, justamente o estímulo comercial que suscita o nascimento da cidade medieval. Por outro lado, alguns historiadores insistem em afirmar a continuidade urbana entre a Antiguidade e a Idade Média. Adrian Verhulst, por exemplo, assegura que em Bruges, Antuérpia, Gand e Tournai, como em Cambrai ou Arras, a cidade antiga tinha sobrevivido durante a Alta Idade Média e que, a partir do século IX, o renascimento urbano manifestou-se não sob a influência do comércio internacional, mas a partir do alargamento do raio local da atividade econômica dos núcleos pré-urbanos de origem antiga.

Do mesmo modo, colocando a pergunta: “Mercadores ou tecelões?”, Charles Verlinden afirma: “A indústria é a causa primeira da transformação demográfica da qual o nascimento e desenvolvimento das cidades flamengas são a consequência. O comércio ali nasceu da indústria, e não o contrário”.

De fato, é difícil privilegiar o comércio ou o artesanato mais do que um outro aspecto do novo conjunto econômico que engloba a comercialização do excedente da produção agrícola, o aumento da quantidade dos materiais disponíveis para o artesanato (lã, matérias para tingimento, couro, ferro), a criação de feiras e mercados para as trocas próximas e distantes, os progressos da economia monetária com a cunhagem de moedas e a multiplicação de cambistas que se transformarão pouco a pouco em banqueiros. Mas todo esse conjunto leva ao progresso urbano. E sobretudo o aumento da produção agrícola e o desenvolvimento do artesanato urbano explicam – o que o comércio não pode fazer – o crescimento demográfico, sem o qual dificilmente se teria produzido o grande movimento de povoamento urbano.

Não se deve também, no nascimento da cidade medieval, negligenciar o papel dos lugares estáveis nascidos da vontade de proteger os produtos do crescimento agrícola da zona rural vizinha, ou os resultados das trocas comerciais. Tais lugares fortificados (castra) estiveram – sob impulso ou da aristocracia guerreira, ou dos condes, ou dos reis, ou mesmo algumas vezes de certos mosteiros – na origem de núcleos urbanos, de burgos de onde saíram as cidades. Esse foi especificamente o caso das regiões periféricas que entraram tardiamente na Cristandade, como a Hungria e a Polônia, onde esses núcleos urbanos fortificados foram mais tarde chamados em eslavo de grod, gorad, grall, brad, ou gard. Mesmo nas regiões há muito tempo cristãs, como a Gália, que viria a se tornar a França, os “burgos fortificados” (Vendôme é um exemplo disso) estiveram na origem de novas cidades, no contexto do progresso econômico, rural, comercial, artesanal (A. Chedeville). Tal processo ocorreu paulatinamente, na longa duração, mesmo conhecendo uma certa aceleração por volta do ano I000 e no século XI.

A cidade medieval é, antes de mais nada, uma sociedade da abundância, concentrada num pequeno espaço em meio a vastas regiões pouco povoadas. Em seguida, é um lugar de produção e de trocas, onde se articulam o artesanato e o comércio, sustentados por uma economia monetária. É também o centro de um sistema de valores particular, do qual emerge a prática laboriosa e criativa do trabalho, o gosto pelo negócio e pelo dinheiro, a inclinação para o luxo, o senso da beleza. É ainda um sistema de organização de um espaço fechado com muralhas, onde se penetra por portas e se caminha por ruas e praças, e que é guarnecido por torres. Mas também é um organismo social e político baseado na vizinhança, no qual os mais ricos não formam uma hierarquia e sim um grupo de iguais – sentados lado a lado – que governa uma massa unânime e solidária. Em contraste com o tempo tradicional, enquadrado e ritmado pelos regrados sinos da Igreja, essa sociedade laica urbana conquistou um tempo comunitário, em que sinos laicos indicam a irregularidade das chamadas à revolta, à defesa, à ajuda (J. Rossiaud).

Se a economia foi decisiva na gênese da cidade medieval, o que também a caracterizou foi a criação, lenta, mas sancionada por atos e acontecimentos decisivos, de novas instituições, as instituições urbanas medievais, como bem viu Henri Pirenne. Essas instituições, aliás, frequentemente tiveram como finalidade, ou em todo caso como consequência, permitir eu proteger a atividade econômica urbana e reconhecer a importância dos meios econômicos e sociais, que são seus principais atores: artesãos e sobretudo mercadores. Esses atos assumiam a forma de outorga, pelo poder senhorial ou público (conde, rei, bispo) do direito de mercado, de feiras, de supressão de taxas sobre as mercadorias e as trocas. Esse fenômeno foi chamado de “obtenção de franquias” ou de “liberdades urbanas”. Seu ponto culminante foi a conquista, pelos citadinos, de uma autonomia institucional e política denominada “comuna”. O “movimento comunal”, sobre o qual muitas vezes se concentrou a atenção dos historiadores, especialmente os do século XIX, está longe de ter sido geral, e o sistema que ele estabeleceu só pode ser definido como “democrático” por uma ilusão anacrônica. O direito de “burguesia” foi conquistado apenas por uma minoria. A autonomia urbana, muitas vezes, só foi conseguida pelo conjunto dos cidadãos ou por uma parte deles, graças a pressões que podiam ir até a revolta e o emprego da força. (...)

Nas cidades mais ou menos autônomas, ao lado dos mercadores e dos artesãos, firmam-se pessoas dedicadas às leis de todo tipo, especialistas do direito dos quais se beneficiam a cidade e os notários. A escrita triunfa cedo nas cidades. (...)

Entre o s séculos XI e XIV, a cidade medieval, modelada pelas novas atividades, pelos novos grupos dominantes, pelos novos poderes, oferece pouco a pouco uma nova imagem, material e simbólica, que desempenha um grande papel na formação do imaginário urbano. É uma cidade vertical dentro de seus muros, eriçada de campanários de igrejas e de torres de casas ricas e poderosas, uma “Manhattan” que afirma seu poder e se eleva em direção a Deus. O bairro e, mais ainda, a rua são elementos essenciais da paisagem urbana, e a rua delimita um espaço público e um espaço privado. É um permanente canteiro de obras onde se individualizam jardins, cemitérios e pontes.

A cidade, lugar de múltiplas solidariedades, exerce uma função de promoção social, de integração e, cada vez mais no final da Idade Média, também de exclusão, de marginalização. Ela acolhe doentes para os quais constrói hospitais, e também viajantes, peregrinos. Comporta uma multiplicidade de centros, mas em breve um novo lugar torna-se um centro essencial, se não o centro da cidade por excelência: o mercado. Enfim, quando se constitui um governo laico urbano, aparecem novos monumentos, novos “pontos quentes” da cidade: mercados cobertos, prefeitura, torre de vigia. Lá se encontram os instrumentos do novo poder urbano: as balanças, os pesos e medidas, os registros e os cofres com cartas e privilégios, o relógio que ressoa o tempo dos burgueses.

A cidade domina os campos circundantes e um território mais ou menos vasto, além dos subúrbios, ele mesmo mais ou menos extenso, sobre o qual ela exerce maiores ou menores poderes jurídicos, econômicos, políticos.” (Jacques Le Goff)

 

 

“Cultura e mentalidade urbanas

Graças às canções de gestas e aos romances cortesãos do século XII, podem-se distinguir diversos tipos de comportamento, aliás frequentemente misturados.

O primeiro é o do desprezo e do medo. O beneditino Guiberto de Nogent, no começo do século XII, exclama: “Comuna, palavra nova, palavra detestável!”. No Percival, de Chrétien de Troyes, a moça nobre que socorre Gauvain lança aos citadinos revoltados que querem formar uma comuna: “Ralé, gentalha enraivecida, gente suja! Que diabos disseram a vocês para vir aqui?”

O segundo é o da cobiça. Longe de desdenhar as cidades, os guerreiros são atraídos pelas suas belezas e suas riquezas. Mas se o fazem é para explorá-las sem mudar seu tipo de vida. As cidades são, para eles, lugares de cobranças e exações econômicas, de alegria e bases de atividade guerreira: lugares de defesa, centros de organização de torneios, bases de expedições guerreiras. É a cidade-presa, uma mulher a ser conquistada.

No entanto, há também uma idealização. A cidade não é só bela, boa e rica, ela é também o lugar de coabitação harmoniosa entre as classes, especialmente cavaleiros e burgueses, sob a égide do rei. É a utopia social urbana. Ora, com exceção da Itália, onde, para grande escândalo de um Oto de Freising, os nobres estão lado a lado com artesãos e mercadores, os guerreiros mantêm-se afastados das cidades no século XII. Os textos que possuímos sugerem uma oposição fundamental com respeito à residência: as cidades para mercadores e burgueses, os castelos e as florestas para barões e cavaleiros.

Também para outros, clérigos ou intelectuais urbanos, a cidade é maravilhosa. O louvor às cidades torna-se um gênero literário e as cidades adquirem origens míticas. Aos santos padroeiros, acrescentam-se heróis fundadores, a partir do modelo de Rômulo e Remo, fundadores de Roma, amamentados pela loba. Se as maravilhas de Roma, celebradas no século XII pelo mestre Gregório, são maravilhas antigas, as de Milão, louvadas pelo pedagogo Bonvesino de la Riva no século III, são bem modernas, contemporâneas.

Na ordem das representações, a cidade não ocupa, na Idade Média, o mesmo lugar que na Antiguidade. Se, fisicamente, como pensava Marc Bloch, cidade e campo não estavam rigorosamente separados na Antiguidade, mentalmente a oposição entre elas era muito forte. Do lado da cidade (urbs) e de seus habitantes (os cives) estavam a cultura, a polidez, as boas maneiras – origem das palavras “urbano”, “urbanidade”, “civilidade”, “civilização”. Do lado do campo (rus) e de seus habitantes (os rustici), a grosseria, a incultura, a selvageria, lembradas nas palavras “rústico”, “rusticidade”, “rustre”.1 O sistema de valores que se liga ao espaço é diferente na Idade Média. Apesar do acentuado desprezo ao camponês, expresso pela palavra “vilão”, e do renascimento, sobretudo na Baixa Idade Média, de uma oposição entre “civilidade” (termo que aparece em meados do século XIV) e “rusticidade” (um pouco mais tardio, em torno de I380) os confrontos entre valores essenciais são outros. Eles opõem, de um lado, todo o mundo habitado, cultivado e construído, e, do outro, cidades, aldeias, castelos, campos e o universo inculto, o mundo ambíguo e inquietante que os homens da Idade Média chamam às vezes de “deserto”, retomando o termo e a ideologia que ele possui no Oriente monástico, deserto que no Ocidente cristão é a “floresta”. Diante da ordem feudal ou burguesa, ele é a desordem.

A grande oposição medieval dos sistemas de valores situa-se entre “cortesia” e “vilania”. A cidade, como tal, não produz modelos éticos para o conjunto da sociedade. Os burgueses esforçam-se para imitar e assimilar os modelos aristocráticos, para serem probos (prud’hommes) e corteses, o que é particularmente verdadeiro na Itália.

Não se deve exagerar, a partir da cidade, a originalidade e a força da burguesia medieval na sociedade feudal. Se é correto dizer que a cidade, pela divisão do trabalho e pelo impulso dado à economia monetária introduziu no modo de produção feudal um fermento que com o tempo iria destruí-lo, não se deve esquecer que a especialização profissional talvez tenha começado com os ministeriales dos grandes domínios dos senhores eclesiásticos e laicos; não se deve esquecer que a “revolução” do moinho atingiu tanto os campos quanto as cidades; que o sistema senhorial sucedeu ao sistema dominial, tão bem adaptado à economia monetária e ao setor urbano; que o essencial sempre repousara na produção agrícola; que o burguês, ao lado dos ganhos mercantis e da especulação imobiliária na cidade, tem como único desejo investir no campo e comprar feudos. Se é verdade que os burgueses abalaram o sistema de valores feudal (hierárquico, guerreiro e perdulário), instaurando uma ordem algo igualitária, sobretudo no século XII e princípios do XIII, ou melhor, uma hierarquia mais horizontal que vertical – adorando o lucro e a contabilidade, aspirando à paz e à segurança, fazendo do espaço urbano um espaço de liberdade (Stadtluft macht frei, “o ar da cidade traz a liberdade”, diziam os alemães) ou de liberdades, no plural, quer dizer de privilégios –, não é menos verdade que os burgueses completaram o modo de impostos feudal por formas de taxação urbana que se acomodaram muito bem com as relações de produção feudal e se esforçaram para assimilar o sistema de valores cavaleiresco e aristocrático. Os artistas ligados aos meios nobiliários procuram, por sua vez, no momento em que parece haver um confronto entre a sociedade cavaleiresca e a sociedade burguesa, apagar essa oposição. Nos romances cortesãos, cidade e castelo são muitas vezes sinônimos, por contraposição às terras baixas, aos campos, à floresta.

Não creio que tenha havido um sistema urbano medieval. Mas acredito que houve, no interior do sistema feudal, um fenômeno urbano original, importante, que apresenta características comuns em toda a parte e que, inscrito no espaço e no funcionamento do sistema feudal, estabeleceu uma “rede” urbana.

A originalidade desse fenômeno urbano em nenhum lugar aparece melhor que na área da cultura, apesar do peso dos modelos nobres. Existiu uma cultura urbana medieval. Essa cultura é, evidentemente, tributária do cristianismo. O cristianismo leva para a cidade uma doutrina ambígua. Se há uma teologia da cidade no cristianismo, ela oscila entre a negação e a afirmação. De um lado, Henoc, Sodoma, Babel, Babilônia. Do outro, Jerusalém, a cidade de Deus. Mesmo a Jerusalém terrestre é suspeita. E as relações da Jerusalém celeste com a cidade terrestre refletem toda a ambiguidade da escatologia cristã. Entretanto, do Gênesis ao Apocalipse, a Bíblia manifesta uma crescente urbanização do Além, substituindo o Paraíso, o jardim dos primeiros tempos, pela cidade dos últimos tempos.

Nos rincões do Ocidente, o mosteiro tinha feito surgir um novo modelo urbano. Com efeito, o mosteiro “constituía uma cidade com uma nova concepção: associação, ou melhor, fraternidade de homens com aspirações comuns, reunidos não apenas durante cerimônias ocasionais, mas para uma permanente coabitação” (L. Mumford).

No entanto, mesmo se, como pensa Georges Duby, a arquitetura cisterciense do século XII prefigura a arquitetura urbana da época gótica, é essencialmente contra a cultura monástica que vai se instalar uma cultura urbana nos séculos XII e XIII. De forma mais ampla, a cidade terá que lutar contra as tradições que a Igreja havia adquirido durante a Alta Idade Média, quando ela estava – apesar da rede das cidades episcopais – profundamente ruralizada. Aliás, paradoxalmente, quando a Igreja se aproveitar com atraso do grande desenvolvimento urbano e do espetacular crescimento demográfico das cidades, será para estender até elas uma estrutura rural, a da paróquia, que se multiplica no espaço urbano na virada dos séculos XII e XIII.

Durante o século XII, vê-se a Igreja hesitar e tentar cristianizar a cidade a partir das velhas estruturas desta. A hesitação é marcada pela oscilação entre o louvor às novas Jerusaléns e a condenação às novas Babilônias. A cidade cujo crescimento e renome são mais espetaculares, Paris, é particularmente objeto dessas atitudes contraditórias. São Bernardo acorre gritando para os mestres e estudantes que começam a povoar a Montanha Santa Genoveva: “Fujam do meio da Babilônia, fujam e salvem suas almas. Voltem-se todos juntos para as cidades do recolhimento (isto é, os mosteiros)”. O abade Filipe de Harvengt, por outro lado, escreve para um jovem discípulo: “Impelido pelo amor à ciência, você está em Paris, encontrou essa Jerusalém que tantos desejam”. E os goliardos, esses estudantes errantes, fazem coro: “Paris, paraíso na terra, rosa do mundo, bálsamo do universo”.

A novidade urbana é, sem dúvida, ruidosa na ordem escolar e intelectual. Em face das igrejas monásticas isoladas nos seus rincões rurais ou florestais e de recrutamento nobiliário, as velhas escolas dos capítulos catedralícios e dos mosteiros urbanos tentam inicialmente satisfazer as necessidades que deram origem ao crescimento urbano. No século XII, as escolas episcopais de Laon, e depois de Chartres, de Saint-Victor de Paris e enfim de Notre-Dame de Paris esforçaram-se por adaptar o ensino tradicional da Igreja às novas realidades urbanas. Seu sucesso é efêmero. O movimento leva para as novas escolas urbanas mestres que com frequência receberam apenas as ordens menores, para poder desfrutar dos privilégios de clérigos sem estar sujeitos à disciplina dos padres e dos monges – é o caso de Abelardo. Eles ensinam para estudantes que lhes pagam pelas novas técnicas intelectuais baseadas na dialética, nas rationes (razões), e que se formam pela discussão, a disputatio, que é o fundamento de um novo método científico, a escolástica. Assim, no canteiro urbano aparece um novo trabalhador, um novo profissional, um mercador de palavras (dizem seus inimigos) ao lado do mercador de bens, que na virada dos séculos XII ao XIII agrupam-se nas novas corporações ou universidades.

No centro dessa nova atividade intelectual estão a troca, função essencial da cidade, e a discussão pública, na qual se distinguem também os heréticos, que sabem utilizar maravilhosamente o novo espaço urbano para organizar seus encontros. No fim do século XII, Estêvão de Tournai, abade de Sainte-Geneviève, que está em posição privilegiada para observar a efervescência escolar, enche-se de indignação: “Violando as constituições sagradas, discutem-se publicamente os mistérios da divindade, a encarnação do Verbo [...]. A indivisível Trindade é cortada e posta em pedaços nas esquinas. Tantos erros quanto doutores, tantos escândalos quanto auditórios, tantas blasfêmias quanto praças públicas”.

A praça pública, que não se confunde sempre com o mercado, é realmente o cadinho, o lar da cultura urbana, lugar de trocas, lugar de criação. Isso não é verdadeiro só para a cultura erudita dos clérigos, mas também para a cultura popular dos leigos, que em sua grande maioria são camponeses recentemente urbanizados. Essa cultura é em primeiro lugar cômica, satírica, paródica. Longe do choro silencioso dos monges, das piadas pesadas dos gabs senhoriais das quais as canções de gestas e os romances cortesãos nos trouxeram o eco, o riso popular abafado nos campos vem soar nas praças públicas das cidades.

Se a cidade medieval torna-se o lugar de um folclore urbanizado, um espaço de charivaris, de gritos de trabalho, de festas, onde é frequentemente difícil distinguir o eco do campo da criação popular urbana, esse interesse da cidade pelo folclore do campo não foi bem recebido por todos os citadinos. Em fins do século XIII, Adão de la Halle deixa transparecer em O jogo da folhagem sua preocupação com a presença provocante, em pleno coração do teatro da cidade, de fadas e da velha bruxa de Dame Douce, portadoras de uma cultura selvagem e zombeteira.

Mas, no século XIII, a Igreja encontra a cidade. Primeiro na teologia, na qual a metáfora urbana floresce (é o caso de uma importante passagem da Suma de Guilherme de Auvergne, bispo de Paris de I230 a I250, em que ele tenta sistematizar os sete sacramentos a partir da imagem da cidade) e na qual São Tomás de Aquino e seus discípulos, a maioria mestres parisienses, emprestam de Aristóteles a sua ideia do homem como “animal político”, isto é, urbano. Mas sobretudo no coração do próprio tecido urbano, pois, com a criação das Ordens Mendicantes – ordem de religiosos urbanos que dão as costas para a vida monástica para se instalar nas cidades e cujos conventos, numa rede copiada da rede urbana, logo se tornam um dos “pontos quentes” da cidade –, aparece um novo comportamento religioso e um apostolado especificamente urbano. A partir do final do século XII, os leigos e as mulheres também ingressam na religiosidade urbana e fornecem santos e santas. Foi o caso do mercador Homebon, canonizado em Cremona por Inocente III, em II99. Na Itália central, as santas urbanas são cada vez mais numerosas nos séculos XIII e XIV, como Miquelina de Pesaro, terciária franciscana morta em I356, venerada pela família senhorial dos Malatesta, por famílias de notáveis da cidade e festejada como “padroeira da pátria”. Homens e sobretudo mulheres ligados às Ordens Mendicantes destacam-se numa posição intermediária entre a condição laica e o estado religioso, participando de ordens terceiras, florescentes nas cidades italianas. Em Flandres e nas regiões vizinhas, outro grande polo de florescimento urbano, multiplicam-se as beguinas, a mais célebre das quais é Maria de Oignies, que se tornou beguina reclusa em I207. As mulheres, de forma geral, impõem-se na sociedade urbana, especialmente nas atividades econômicas: não é raro ver mulheres como chefes de empresa.

 

O citadino

Se há “um homem medieval”, um dos seus principais tipos é o citadino. “O que há de comum entre o mendigo e o burguês, o cônego e a prostituta, todos eles citadinos? Entre o habitante de Florença e o de Montbrisson? Entre o novo citadino da primeira fase de crescimento e seu descendente do século XV? Suas condições são diferentes, da mesma forma que suas mentalidades, mas o cônego forçosamente cruza com a prostituta, o mendigo e o burguês. Uns e outros não podem se ignorar e se integram no mesmo pequeno universo de povoamento denso que impõe formas de sociabilidade desconhecidas nas aldeias, uma forma de vida específica, com uso diário de dinheiro e, para alguns, uma abertura obrigatória para o mundo” (J. Rossiaud).

O citadino é um homem acostumado com a diversidade e a mudança. Ele vive no meio de vizinhos e amigos, numa “privacidade alargada”. É membro de uma ou diversas confrarias. Também está integrado na comunidade urbana pela participação em numerosas festas que ela organiza, e nas quais se manifesta sua personalidade. É um “cidadão cerimonial”. Se não consegue sempre atingir a cortesia, ele se sobressai por sua civilidade e suas boas maneiras.

A cidade elaborou, sobretudo, uma cultura comunitária feita para as novas coletividades urbanas, cultura forjada pela escola, pela praça pública, pela caverna, pelo teatro, pela pregação, mas que também contribuiu para a emancipação do casal e do indivíduo. Ali se vê a estrutura familiar mudar com a evolução do dote, que no meio urbano se constitui essencialmente de bens móveis e dinheiro. A cidade é uma pessoa, feita de pessoas que ela modela. O citadino, e mais especificamente o mercador medieval, é um “homem dessa rede que liga os diferentes centros urbanos entre si”, “um homem aberto para o exterior, receptivo às influências trazidas pelas estradas que desembocam na sua cidade vindas de outras cidades; um homem que, graças a essa abertura e a essas contribuições contínuas, cria, ou pelo menos desenvolve e enriquece, suas funções psicológicas e, num certo sentido por meio da confrontação, toma nitidamente consciência do seu eu...” (M. Lombard).

 

A cidade em crise a caminho da modernidade

As cidades foram as primeiras atingidas pela crise econômica proveniente de uma relativa superprodução, da interrupção progressiva do crescimento demográfico, da instabilidade monetária e das perturbações do comércio oriental ligadas ao avanço dos turcos em direção a Bizâncio e a Cristandade. Mas as cidades também tinham suas forças e seus trunfos, que lhes permitiram reagir melhor que o campo.

As calamidades dos séculos XIV e XV não pouparam as cidades. Os habitantes de Toulouse, por exemplo, suportaram, entre I4I0 e I483, seis severos períodos de fome, seis pestes ou epidemias, oito grandes incêndios ou inundações, operações militares ou agressões de bandidos durante vinte anos e duas importantes revoltas sociais. Das quatro pontes sobre o rio Garonne que existiam no final do século XIII, só uma subsistiu, os subúrbios desapareceram, perdeu-se um terço da população.

A guerra era quase endêmica durante esse período. Na França (Guerra dos Cem Anos); na Itália, sujeita a terríveis conflitos armados entre as cidades e a numerosas operações militares nos Estados da Igreja; na Península Ibérica, devastada pelas guerras civis; na Inglaterra, no século XV, quando da Guerra das Duas Rosas... As cidades tiveram de construir novas muralhas ou consertar as antigas, o que arruinou suas finanças e impôs aos citadinos pesadas cargas fiscais, que aumentaram o descontentamento dos habitantes menos ricos, sobre os quais aquelas cobranças pesavam mais.

Foi o tempo das grandes revoltas sociais urbanas. Desde o período I260-I280, greves e motins haviam estourado, especialmente na França setentrional, em Flandres e nas regiões vizinhas. Nos séculos XIV e XV, ocorreram verdadeiras rebeliões e sublevações urbanas, fomentadas sobretudo pelos trabalhadores, mas com a participação de burgueses ou mesmo de nobres. É o caso de Bruges em I302; da Flandres marítima e depois de Gand, com Jacó Van Artevelde de I337 até I345; de Paris em I357 (em I358 com Estêvão Marcel, de novo com os maillotins2 em I382, e ainda com o açougueiro Caboche em I4I3); em Florença, com a grande sublevação dos operários têxteis (os Ciompi) em I378; em Londres e em outros pontos da Inglaterra com a revolta dos trabalhadores, conduzidos pelo tecelão Wat Tyler em I38I. Essas revoltas são dirigidas tanto contra o rei quanto contra os ricos, os poderosos burgueses que controlam as instituições urbanas.

Com efeito, a crise econômica exaspera as tensões sociais entre ricos e pobres, os “gordos” e os “magros”, o popolo grasso e o popolo minuto, como se diz na Itália. As corporações fecham-se, os conflitos são quase constantes entre as corporações superiores e as corporações inferiores, os mercadores e os artesãos. Os marginais multiplicam-se, sobretudo numa grande cidade como Paris: desempregados de longo tempo, vagabundos, sem-teto, delinquentes e prostitutas, entre os quais a fronteira é flutuante.

Os judeus são um caso à parte. Mais e mais urbanizados e dedicados a certas profissões e à usura por estarem excluídos do trabalho da terra, desde o século XI, são vítimas de perseguições que podem culminar em um pogrom. No século XIV, eles são expulsos da França e da Inglaterra, massacrados na Alemanha em I348 como vítimas expiatórias da peste, cada vez mais confinados na Europa meridional num apartheid urbano que dá origem aos guetos, salvo em limitados oásis de tolerância, como o Condado Venaissin e os Estados Pontifícios, a Provença ou a Polônia. Na Península Ibérica de fins do século XV, eles são convertidos à força ou expulsos.

De maneira geral, a topografia social urbana, o zoneamento urbano, está cada vez mais de acordo com a estratificação social, criando bairros de estrangeiros, de pobres, de marginais. A repressão urbana contra os desempregados e os criminosos cresce, sem grande sucesso.

A sorte das cidades é diferente conforme seu tamanho ou seu contexto político. As grandes cidades afirmam-se sempre mais. Algumas se ampliam e consolidam sua influência sobre seus territórios.” (Jacques Le Goff)

I Grosseiro, boçal. [N.T.]

2 Nome dado aos parisienses que, na sua revolta contra a opressão fiscal utilizaram como arma o maillet, um tipo de maça. [N.T.]

 

 

“É pela associação de um “corpo” e de uma “alma” que a tradição ocidental comumente define a pessoa humana. Essa associação, sua estrutura binária, os termos que a constituem, parecem fatos a tal ponto evidentes que nós os projetamos voluntariamente e sem maior precaução sobre outras culturas ou sobre períodos históricos diferentes. Mas é no mínimo arriscado prejulgar o caráter universal de tais categorias e da natureza de sua relação. Mesmo no Ocidente, nada autoriza, a priori, afirmar que a oposição de corpo e alma, radicalizada por certas correntes da moral religiosa ou – por razões diversas – pela filosofia cartesiana, seja sempre e em todo lugar igualmente traçada. Somente a constatação, sem dúvida feita por todos os homens, da finitude de sua existência corporal – traída pelos sinais de envelhecimento, a evidência da morte, a alteração irredutível do cadáver, a dissolução das carnes – e, inversamente, o reconhecimento por cada um da faculdade que tem de transcender seus limites pelas faculdades de sua “alma” (o pensamento, a memória, o sonho, a crença), podem ser considerados características universais. Mas cada cultura atribui tais observações à sua própria concepção de pessoa, a seu próprio sistema.” (Jean-Claude Schmitt)

 

 

Corpus e anima

As palavras corpus e anima são citadas sem cessar nos textos medievais , em relação e , em geral, em oposição uma à outra. Essas palavras designam ora em sentido próprio os componentes da pessoa humana, ora são objeto de usos metafóricos que devemos igualmente levar em consideração. Elas dizem respeito também a níveis de discurso variados: pertencem, pode-se dizer, à linguagem cotidiana e, a esse título, encontrarão equivalentes imediatos nas línguas vernáculas. Têm um papel central na tradição psicofisiológica que, desde a Antiguidade, atravessa toda a Idade Média. Sobretudo, são objeto de comentários teológicos e éticos em número realmente ilimitado, uma vez que sua relação informa sobre o drama da existência humana tal como a concebiam os autores medievais. Essas concepções são produto de tradições culturais diferentes e muitas vezes divergentes, algumas das quais anteriores ao cristianismo, ao qual se fundiram, sejam elas oriundas do paganismo greco-romano ou da herança veterotestamentária. Pode-se atribuir a primeira síntese a São Paulo: foi ele que lançou as bases de uma representação cristã das relações entre corpo e alma e, portanto, da pessoa humana. Tal representação virá a evoluir, mas a pregnância das definições originais ainda se verifica ao longo de toda a Idade Média.

Na tradição platônica, a alma não é criada, ela preexiste por toda a eternidade ao corpo no qual encontra uma habitação provisória. Tal concepção alimenta uma forte desvalorização da existência carnal e terrestre, rebaixada ao escalão de aparência ilusória da qual o homem deve buscar fugir se aspira a viver em conformidade com os impulsos superiores da alma. Vale dizer que essas ideias não poderão ser recebidas sem modificação pelo cristianismo medieval, uma vez que contradizem a noção cristã de criação por Deus de cada alma individual. Mas compreende-se também a atração que exerceram sobre as correntes ascéticas que, desde Orígenes (I85-252), não cessaram de atravessar a cultura cristã e que puderam conduzir, contra o ideal de medida própria à moral comum, a expressões mais radicais, às vezes julgadas heterodoxas, de “desprezo do corpo”.

Além disso, a influência, em parte concorrente, da filosofia de Aristóteles sobre o pensamento cristão revela uma outra tentativa de síntese, correspondendo a uma concepção mais dinâmica e, se se ousar dizer assim, mais igualitária do corpo e da alma: para Aristóteles, “a alma é a forma do corpo”, fórmula frequentemente comentada e da qual é verossímil que se possa encontrar eco em Santo Agostinho quando este afirma que “a alma é uma substância racional criada para reger um corpo” (De quantitate anime, XIII, 22). As partes, as necessidades e o movimento “naturais” desse corpo são cada vez mais levados em conta, a ponto de, no século XIII, tornarem-se objeto de observação empírica e de ciência.

Se a filosofia greco-romana, em seus diferentes componentes, legou à Idade Média uma terminologia de categorias que permite pensar a relação entre alma e corpo, a tradição judaico-cristã permitiu inscrever essa relação em seu grande mito universal do devir da humanidade, do Gênesis à ressurreição dos mortos e ao Juízo Final, passando pela paixão de Cristo, que chancela seu sentido cristão. Nesse quadro, cada destino individual tem seu lugar, aventura indissociável de um corpo e de uma alma que tendem à salvação. A dupla relação do corpo e da alma como do singular e do universal permite, com efeito, definir a singularidade do pensamento cristão, uma vez que cada homem é portador das consequências da falta original, embora recebendo a faculdade de se libertar para vir a ser o artífice principal de sua salvação.” (Jean-Claude Schmitt)

 

 

“Contudo, nos últimos séculos da Idade Média, o coração é mais o substituto da alma do que sua sede. A esse título, não é oposto ao corpo, mas à carne. Tomás de Celano conta, por exemplo, como primeiro São Francisco recebeu em seu “coração”, na pequena igreja de São Damiano, a marca do crucifixo, que se manifesta mais tarde em sua “carne” pela aparição dos estigmas. Não é, pois, um elemento isolado que se modifica, mas toda uma relação. A oposição entre alma e corpo tende a ceder lugar à oposição entre o coração e a carne, que se firma de outra maneira, mais afetiva e mais ambivalente: o coração é mais carnal que a alma, a carne é um valor, tanto quanto a matéria.

Assim, a dialética do corpo e da alma evolui em todos o s níveis em que ela é observada: nas “práticas” do corpo e da alma, nas imagens de sua relação, nas categorias do pensamento racional ou ainda nas metáforas que lhe dão uma abrangência mais geral.” (Jean-Claude Schmitt)

 

 

“O cavaleiro cortesão continua, antes de tudo , um guerreiro que deve demonstrar todas as virtudes guerreiras, deve brilhar em todos os exercícios militares e, de forma geral, nos esportivos Ao mesmo tempo, porém, não pode mais ser inculto e analfabeto, não saber ler e escrever. A curialitas rejeita a oposição fundamental entre clerici-litterati e milites-illitterati. Certamente, o perfeito cavaleiro não vai às escolas para aprender o latim e as artes liberais. Entretanto, é bom que ele saiba ler e escrever, que se enriqueça de certa cultura, a fim de que os clérigos o louvem não por ser um litteratus, mas pelo menos suficientemente letrado (satis litteratus), quase letrado (quasi litteratus). Proeza e saber ainda representavam pouco. A curialitas exige, igualmente, certa maneira de ser, certo modo de viver. É preciso saber conduzir-se bem, não simplesmente demonstrar virtude e piedade, mas estar de acordo com as boas maneiras, “saber dizer e fazer”, saber portar-se de acordo com os usos e modos da corte. À mesa, por exemplo, onde não existem guardanapos e as taças são, frequentemente, comuns a dois comensais, é necessário limpar a boca antes de beber. Mas como? Na toalha? Não! Alguns recomendavam limpar com a mão. Outros condenavam esse uso. Para esses, a elegância estava em limpar na manga. Do mesmo modo, para assoar. Nem toalha nem com os dedos, mas na manga. Assim, a curialitas também se definia por alguns manuais de comportamento que davam até conselhos de higiene. Ser cortês era também limpar as unhas.

Para exprimir a perfeição dessas boas maneiras, uma palavra aparece constantemente: elegantia. Conhecia-se a polidez de um cortesão pela elegância de seus modos (elegantia morum). Somente ele sabia verdadeiramente comer, beber, falar, jogar xadrez, combater com a lança, enfim, sobretudo, conduzir-se com as mulheres. Foi Gaston Paris quem, em I883, primeiramente falou de “amor cortês”. Desde então, a erudição obstinou-se em definir com precisão o que tinha sido o amor cortês. Sem muito sucesso, aparentemente. Primeiro, porque os diferentes gêneros literários – épica, lírica etc. – não dão dele a mesma imagem. Depois, porque a pesquisa talvez não tenha formulado aos textos as questões relevantes. Uma coisa é certa: o amante cortês deve se submeter à sua dama e servi-la. São questões secundárias perguntar se amor cortês e casamento são compatíveis, se o amor cortês condena amar uma dama socialmente inacessível, se o amor cortês deve parar nos beijos e renunciar à realização do desejo. Afinal, nada impede o amor conjugal e o amor carnal de serem corteses. O que torna o amor cortês, é a elegância do amante, sua delicadeza – os historiadores diziam com razão, havia dois séculos: sua galanteria. O amante cortês respeita as regras de um código amoroso; sua conduta está de acordo com a boa educação. Conduzir-se bem no amor é, junto com comer bem e vestir-se bem, um dos aspectos da curialitas. E, por definição, somente um cortesão sabe praticar essa arte de amar, enquanto um camponês, como diz André Capelão, fará amor “naturalmente, como um cavalo e um burro” (naturaliter, sicut equus et mulus).

A cortesia, em geral, e o amor cortês, em particular, são a síntese de contribuições bastante diversas. Já se observou a influência da Bíblia e do Cântico dos cânticos, da literatura de Ovídio, da poesia carolíngia, da literatura dos Espelhos feita para os príncipes desde o século IX. Notou-se também a influência de fontes contemporâneas. O serviço amoroso é um reflexo do serviço vassálico. A exaltação da dama é paralela à glorificação da Virgem, ou da mulher como desejou Roberto de Arbrissel ao fundar Fontevraud. O essencial talvez, nessa síntese, é que os clérigos desempenharam nela um papel primordial. A cortesia é um modelo fornecido pelos clérigos aos cavaleiros, para lhes mostrar como bem conduzir-se, particularmente com as damas.

Os cavaleiros, os clérigos e as damas foram, portanto, os três pilares dessa cultura tão original que foi a cultura das cortes nos séculos XI e XII. Mais precisamente, ouvintes, inspiradores ou autores, eles explicam os traços originais da literatura desse tempo, que no essencial não era uma literatura monástica, e sim uma literatura de corte. Para a edificação dos senhores e das damas da corte, sábios clérigos escreveram em latim a vida de santos, obras históricas, Espelhos. A dificuldade era que o público ao qual se dirigiam raramente sabia ler e mais raramente ainda entendia o latim. Era necessário, portanto, dizer-lhe na sua língua o que havia sido escrito em latim. Pouco adiantava, já que o assunto deixava o público impassível. Mais que as vidas de santos, aquele público preferia ouvir as proezas de Rolando ou de Artur. Assim, clerical e cavaleiresca, a literatura da corte era escrita e oral, latina e vernácula, e os gêneros e temas tratados seguiam os gostos e as modas de seu público.

E onde melhor do que nesse paraíso de cortesia o jovem cavaleiro teria podido aprender, ao mesmo tempo, a arte da lança e as boas maneiras? As escolas formavam os clérigos, as cortes formavam os cavaleiros. Quando atingiam a adolescência, o conde de Guines mandava seus filhos à corte do conde de Flandres, seu senhor, para que aprendessem a arte de combater e as boas maneiras (moribus erudiendus et militaribus officiis diligenter... introducendus). A corte era o centro de formação pedagógica da nobreza.

Ela realizava bem seu papel, pois, sendo itinerante, deslocava-se de uma residência a outra, construída segundo suas necessidades e seu feitio. Esses palácios e castelos deviam garantir a segurança do senhor e da corte, permitir sua vida cotidiana. Ora, se em tempos comuns um senhor estava acompanhado por algumas dezenas de pessoas, em outras ocasiões, seus cortesãos podiam ser algumas centenas. Nos seus grandes dias, a corte imperial contava com mais de mil pessoas. O centro da residência era, então, uma grande sala, mais ou menos vasta, mais ou menos luxuosa, a única que permitia esse momento essencial da vida cortesã que era a festa da corte.

A festa da corte obedecia, inicialmente, ao calendário litúrgico. A reunião mais importante era, tradicionalmente, a de Pentecostes. A festa da corte também tinha uma função política. Permitia ao senhor aparecer com todo o seu fausto (decus, nitor = glória, magnificência), cercado de todos os seus vassalos. A távola redonda do rei Artur transforma todos os seus vassalos em iguais. Mas ela é uma utopia que contradiz a realidade. De fato, desde a época feudal, a corte era uma sociedade hierarquizada, atenta à minúcia da precedência. Festa do senhor, a festa da corte era, entretanto, mais ainda a festa da cavalaria, à qual devia trazer alegria e prazeres. A cerimônia da investidura de novos cavaleiros e o torneio eram incluídos na principal parte da festa. O primeiro torneio historicamente conhecido data de I095. Sua grande época foi a segunda metade do século XII. O local preferido era a França do norte, onde ocorria talvez um torneio a cada quinze dias. O torneio, que levava os cavaleiros à prática das armas, sob o olhar atento das damas, resumia toda cortesia.

Se muitos celebraram a corte como o lugar ideal onde se podia desenvolver a curialitas, outros a amaldiçoaram. Sobretudo os clérigos que tinham vivido na corte do rei Henrique II, da Inglaterra (II54-II89), como João de Salisbury ou Gautier Map. Para eles, longe de ser um local de cortesia, a corte era um lugar de ódio e de inveja, de ambição e de bajulação. Era um lugar de desordem, no qual os clérigos que não residiam em suas dioceses perdiam sua alma , e os cavaleiros suas virtudes. Muitos poucos, na verdade, preocupavam-se em se tornar cavaleiros letrados (milites litterati). Incitando-os a agradar as mulheres, a usar cabelos compridos e anelados, vestes de seda e sapatos de bico levantado, a corte com muita frequência fazia deles milites effeminati. A corte pode nos parecer um meio ideal onde ocorriam as mais proveitosas fusões, mas, para aqueles clérigos formados segundo as claras distinções que a reforma gregoriana havia introduzido, ela era o lugar de todas as desordens, onde clérigos não eram mais clérigos, cavaleiros não eram mais cavaleiros, homens não eram mais homens. Para eles, a corte era um inferno.” (Bernard Guenée)

 

 

“No cristianismo medieval, Deus não é somente objeto de crença, mas também objeto de um discurso articulado, racional. Em sentido próprio, tal discurso é a teologia. A palavra vem da filosofia grega pagã, mais precisamente de Platão (República, II, I8, 379a), com o sentido de “discurso sobre os deuses”. Para Aristóteles, a teologia é a “filosofia primeira”, que trata do divino. Para Plutarco, ela coroa toda a filosofia. Por intermédio dos neoplatônicos, a noção passa para os Pais da Igreja, gregos e latinos.

A denúncia pelos Pais da Igreja e pelos concílios de desvios heterodoxos que ameaçam a Igreja dos primeiros séculos leva à primeira elaboração da teologia cristã. Todas aquelas heresias punham em causa a nova noção de Deus: o dogma da Trindade, a afirmação da dupla natureza divina e humana, do Cristo. O arianismo, por exemplo, é condenado no Concílio de Niceia (325), que define o Cristo como sendo da mesma substância do Pai. Em 43I, a teologia dá um importante passo quando o Concílio de Éfeso atribui a Maria o título de Theotokos, “Mãe de Deus”, para manifestar que seu Filho é, ao mesmo tempo, Deus e homem. No século V ainda, na parte oriental do Império, os monofisitas pretendem reconhecer apenas uma única natureza, a humana, no Cristo pregado na cruz. Dessa vez, é o Concílio de Calcedônia (45I) que os condena. Da sua parte, os pelagianos atribuem um tal valor ao livre-arbítrio do homem que este torna-se como que independente de Deus. Santo Agostinho opõe-se a eles sublinhando o papel fundamental da graça divina, que dá ao homem a possibilidade de adquirir, por seus méritos, o direito à salvação. Ele estabelece também os fundamentos do debate sobre a predestinação e as obras, que ressurgirá sobretudo a partir do século XII (Santo Anselmo) e de maneira ainda mais candente no momento da Reforma Protestante.

Os Pais da Igreja desenvolveram um discurso teológico argumentado e sistemático não somente para refutar as diversas heresias trinitárias, mas também para confrontar os cismáticos. O desacordo teológico com Bizâncio concerne, em primeiro lugar, à questão de saber se o Espírito procede do Pai e do Filho (Filioque), como pretende a Igreja Romana, ou somente do Pai, como afirma Bizâncio. São tais conflitos que engendraram, estimularam e permitiram afinar a teologia cristã.” (Jean-Claude Schmitt)

Dicionário analítico do Ocidente medieval (Volume I, Parte I), de Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt (Orgs.)

Editora: UNESP

ISBN: 978-85-7665-361-5

Tradução (coord.): Hilário Franco Júnior

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 754

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Sinopse: Com o objetivo de não apenas fornecer informações, mas traduzir o constante desenvolvimento da história da Idade Média, os historiadores franceses Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt se lançaram na empreitada de organizar o Dicionário analítico do Ocidente medieval, publicado agora no Brasil pela Editora Unesp. Guia para percorrer a Idade Média, as centenas de verbetes convidam o leitor a pensar no passado e analisá-lo, servindo como ferramenta para se pensar os caminhos que levaram a civilização ocidental aos dias de hoje.

“Este dicionário é ‘analítico’ porque põe em destaque todo um sistema de noções que dá conta do sistema medieval, conjunto complexo, aberto, sem qualquer determinismo estrito que constitua um todo, uma civilização”, escrevem Le Goff e Schmitt. “Os autores quiseram informar sobre uma época bastante extensa (dez séculos, se considerarmos todo o tempo que separa a Antiguidade tardia do Renascimento, ainda muito medieval), mas principalmente demonstrar as significações desse período, explicá-lo. Isso foi feito mediante cerca de sessenta noções, de dez a quinze páginas cada uma, constituindo uma série de verbetes que, apesar de sua densidade, são abertos e claros.”

Escrito por 66 medievalistas de nove nacionalidades, a obra se compõe de dois volumes que, dado seu caráter de dicionário, não impõe uma ordem obrigatória de leitura. “Ele conseguiu integrar os métodos e as conquistas das recentes renovações da História desde a criação, na França, da revista dos Annales, fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre em 1929”, explicam os autores.

“Não é preciso entender os princípios básicos da teoria da gravitação para andar com os pés no chão, ou os mecanismos da fisiologia para sentir sono e fome, mas, para melhor exercer seu papel político, social, econômico e cultural, é importante que cada cidadão das democracias ocidentais do século XXI conheça a trajetória histórica de sua sociedade e a de outras com as quais ela se relaciona mais intimamente”, anota o coordenador da equipe de tradução do texto, Hilário Franco Júnior. Os volumes contam ainda com cadernos com ilustrações coloridas sobre os temas abordados.

A obra monumental sobre a Idade Média organizada por Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt, que agora sai em nova edição revista, deslinda o complexo sistema de noções que constitui o tema do medievo. Organizada em forma de dicionário, traz verbetes que seguem três linhas magnas de orientação: o traçado de uma história do imaginário sobre a Idade Média; a busca de uma Antropologia histórica, ou seja, a história em diálogo com as ciências sociais; e o olhar desconfiado sobre noções pétreas sobre um período repleto de problemáticas que, em grande parte, ainda tentamos solucionar.


 

O poder da Igreja

A peça essencial do sistema não foi o Paraíso, mas o Inferno. A Igreja Católica, para incitar os fiéis a trabalhar por sua salvação, apresenta-lhes mais o medo do Inferno do que o desejo do Paraíso. Diante da morte, eles temiam menos a própria morte do que o Inferno. Assim se instala, apesar de algumas nuanças, um cristianismo do medo. Essas práticas mostram como a Igreja medieval utiliza o Além para assentar sua dominação sobre os cristãos e justificar a ordem do mundo pela qual ela vela. Em seu ensinamento sobre o Juízo Final, ela dá um papel essencial, como porteiro do Paraíso, a São Pedro, o chefe da Igreja. Sobretudo, em sua pastoral, ela põe em evidência, notadamente na pregação, a função do Além criado por Deus para corrigir as desigualdades e as injustiças da sociedade terrena. Lembrando que todos os homens são irmãos, filhos de Deus, e a seus olhos desiguais apenas por sua fé e seu comportamento, ela acalmava os excessos dos poderosos e dos maus daqui de baixo, mas sobretudo a impaciência dos pobres e dos oprimidos, pela evocação dos misericordiosos. Assim se explica por que, desde Santo Agostinho, a Igreja combateu tão energicamente todos os revolucionários e reformadores que apelaram para o advento da terra de santos que fará reinar a justiça no fim dos tempos, durante o longo período do Milênio de que fala o Apocalipse. Ela condenou os milenaristas como heréticos. O Além foi, assim, em outra visão da história que tinha suas referências escriturais, mais um elemento nas lutas ideológicas da Idade Média.

 

Nova geografia do Além: um terceiro lugar, o Purgatório

O Além cristão bipolar permaneceu sem modificações até o século XII. Grandes mudanças religiosas e sociais levaram então ao nascimento de uma nova sociedade que transformou sua visão do mundo não somente Aqui, mas também no Além. Santo Agostinho havia dividido os homens em quatro categorias: os “completamente bons”, destinados ao Paraíso; os “completamente maus”, enviados ao Inferno; os “não totalmente bons” e os “não totalmente maus”, dos quais não se sabia muito bem a sorte que Deus lhes reservava. Imaginou-se que os defuntos que pela ocasião da morte só estavam carregados de pecados “leves” desfaziam-se deles sofrendo “penas purgatórias” por meio de um “fogo purgatório”, semelhante ao fogo do Inferno e situado em “lugares purgatórios”. A localização desses lugares continuava muito vaga. O papa Gregório Magno, em fins do século VI, imaginou que eles poderiam se encontrar na terra, mas a solução mais frequente foi distinguir no Inferno uma geena inferior, o Inferno propriamente dito, de onde não se saía nunca, e uma geena superior, de onde se poderia, depois de um tempo mais ou menos longo de suplícios e purgação, subir ao Paraíso. Na segunda metade do século XII, inventou-se um lugar independente para esses eleitos sob sursis, o Purgatório. Esse foi o “terceiro lugar do Além”, intermediário entre o Paraíso e o Inferno, lugar que desaparecerá no Juízo Final, esvaziado de seus habitantes, todos elevados ao Céu. O tempo de estadia no Purgatório dependia de três fatores. Ele era, primeiro, proporcional à quantidade de pecados (chamados doravante “veniais”, isto é, remissíveis, por oposição aos pecados mortais, irremissíveis para evitar o fogo do Inferno) dos quais o defunto estava carregado no momento de sua morte. Dependia, em seguida, dos “sufrágios” (preces, esmolas, missas) que os vivos, parentes ou amigos, pagavam para abreviar o tempo de purgatório de certas “almas”. Por fim, a Igreja, mediante pagamento em dinheiro, podia obter para certos defuntos o perdão integral ou parcial de seu tempo restante de purgatório. Tais foram as “indulgências”, que a Igreja tornou objeto de um comércio cada vez maior a partir do século XIII. O Purgatório, enfim, era de sentido único: não se saía dele senão para ir ao Paraíso, não se podia “retroceder” para o Inferno.

Foi grande a importância desse terceiro lugar, que esvaziava parcialmente o Inferno e substituía o sistema binário do Além por um sistema mais complexo e mais flexível, adequado à evolução dos “estados” sociais na terra e que foi largamente difundido pelos frades das Ordens Mendicantes criadas no começo do século XIII (dominicanos, franciscanos). Ele assegurou o triunfo do julgamento individual no momento da morte e, completando o sistema da confissão individual obrigatória para todos os vivos ao menos uma vez por ano, determinado pelo IV Concílio de Latrão (I2I5), contribuiu grandemente para a afirmação do indivíduo em relação aos grupos e às ordens, o que caracteriza o fim da Idade Média. O Purgatório transformou as estruturas e os comportamentos sociais do Aqui. Esteve na origem de uma matematização dos pecados e das penitências que engendrou, nesse tempo de desenvolvimento do comércio e dos mercadores, uma “contabilidade do Além”. Enfim, aumentou consideravelmente o poder da Igreja (que no século XIII fez da existência do Purgatório um dogma) sobre os mortos, estendendo ao Além do Purgatório, por intermédio dos sufrágios e das indulgências, que dependiam dela, um poder de jurisdição que anteriormente pertencia apenas a Deus.” (Jacques Le Goff)

 

 

“A submissão, amansamento ou adestramento individuais de certos animais selvagens aconteceu durante toda a Idade Média, mas a verdadeira domesticação estendeu-se por milênios e ainda está em curso, com a constituição de espécies ou de raças diferentes das primitivas.” (Robert Delort)

 

 

“A reflexão sobre a significação do anjo da guarda individual é retomada no final do século XIV pelos sermões de Ludolfo da Saxônia, Vicente Ferrer e João Gerson, e termina com o reconhecimento da primeira festa solene dos anjos da guarda pela bula pontifícia de I5I8, a pedido do bispo de Rodez, Francisco de Estaing. Assim, a devoção aos anjos da guarda, individuais ou coletivos, aparece como o legado essencial da angelologia medieval à piedade moderna.

Em Gerson, tal devoção ainda está ligada à ascensão mística, de acordo com a perspectiva dionisina; todavia, parece que o anjo surge mais frequentemente como uma resposta à necessidade de proteção. Dois aspectos destacam-se nessa figura: o guardião-combatente e o guia da alma. O primeiro traço, mais precoce, se enraíza na função guerreira de São Miguel e ocupa seu lugar na visão do mundo como teatro de um combate sem trégua entre anjos e demônios. A onipresença angélica parece fazer eco à onipresença do Diabo. É difícil não vislumbrar, por trás da “explosão demográfica dos anjos” nas iluminuras e nas margens dos livros de horas, suportes da piedade das elites laicas, uma resposta aos medos e angústias da salvação. O universo angélico fornecia uma inesgotável reserva de intercessores e a visão reconfortante de um universo povoado de espíritos benfazejos.

O anjo-guia ganha importância em razão da insistência da pastoral sobre a salvação pessoal. Miguel permanece o modelo do guardião e guia da alma, embora a ele se junte o arcanjo Rafael, promovido a patrono dos viajantes no século XV. Desde a década de I330, a Peregrinação da alma, de Guilherme de Digulleville, valoriza a dupla formada pela atina e seu anjo da guarda. No fim do século XV, A arte de bem morrer põe em cena o anjo e o demônio ao redor do leito do moribundo. A morte é o momento-chave do combate terrestre entre os dois campos: o anjo é aquele que prepara o agonizante, que orienta seus pensamentos, que lhe permite frustrar as últimas artimanhas do demônio. A devoção ao protetor individual é tanto mais forte quanto mais se dissemina a crença nos imensos poderes do demônio, posta em relevo por uma poderosa iconografia. Satã não parece mais ligado à sua natureza angélica, e sim ter adquirido uma tal autonomia que surge como rival de Deus.

A devoção ao anjo da guarda provocou práticas ilícitas, mesmo porque a própria Igreja atribuía aos anjos possibilidades de ação concreta. A invocação das potências celestes para fins utilitários e a transmissão de conhecimentos por parte dos anjos caracterizam a “arte angélica”, suscetível de bloquear o caminho dos ardis do demônio. A devoção ao anjo da guarda insere-se na consciência da assimilação escatológica dos homens aos seres celestes, estes representando o estado espiritual esperado por aqueles. Os monges não têm mais o monopólio da “angelidade”, pois os leigos doravante acedem a ela por meio de sua participação na liturgia e de sua vida devota. Além disso, o próprio conteúdo da noção de vida angélica se alarga: atribui-se aos anjos atividades intelectuais ou materiais, embora a imitação dos anjos não se reduza à de sua função contemplativa e litúrgica. Essa evolução é inseparável do interesse marcadamente crescente pelos anjos inferiores, quer dizer, pelos anjos ativos, em contato permanente com o universo físico e com os homens.

Mas a relação com o anjo toma, desde o século XV, uma coloração sentimental que enfraquece seriamente sua significação. O movimento dinâmico que une o Céu e a terra é concebido mais como um vai-e-vem de anjos da guarda, conselheiros e intercessores aos quais se solicita ajuda, do que como participação gradual na luz divina. Em tal esquema, a hierarquia angélica se esbate e os anjos superiores, serafins, querubins e tronos, não têm mais lugar.

A respeito da imagem de anjo, os visionários do século XV quase não se afastam de seus predecessores do XIII: Francisca Romana e Margarida Kempe viam seus anjos da guarda sob o aspecto de uma criança, à qual a primeira delas atribui a idade de 9 anos, o que é uma maneira nova de afirmar que ele pertence ao último dos coros celestes. Parece que se assiste a um processo de rejuvenescimento do ser angélico, que toma a forma de uma “feminização” ou de uma “infantilização”. De início homem jovem, o anjo passa a ser visto depois como andrógino, adolescente, criança e nenê. De fato, o século XV cria a imagem do putto, esse sincretismo entre o anjo e o Cupido antigo, que veio a ser uma das representações mais correntes do ser celeste nos séculos XVI e XVII. O rejuvenescimento do sobrenatural estaria relacionado com a própria ideia de Renascimento? É a mitologia greco-latina que é solicitada nesse processo, mais do que as bases bíblicas, apesar da alusão evangélica aos anjos das crianças (Mateus I8, I0). A imagem sincrética do putto associou-se ao fenômeno de crescimento quantitativo da presença angélica nos manuscritos, para empobrecer singularmente o peso espiritual do ser angélico.

Por detrás de uma aparência de uniformidade doutrinal, abalada, porém, por heresias ou influências estrangeiras, percebe-se uma gradual modificação do sistema angelofânico da tradição cristã ocidental. Essa evolução é caracterizada pelo distanciamento do substrato bíblico, sobre o qual se havia desenvolvido a dimensão teofânica do anjo. A imitação de Cristo, na sua natureza humana e sofredora, suplantou a imitação dos anjos, concebida primeiro de modo litúrgico e contemplativo, depois em termos de integração de estados espirituais hierarquizados e de participação na luz divina. A “antropologia angélica” não desapareceu, mas abriu-se a novas formas, respondendo às necessidades dos leigos. Em compensação, o declínio do anjo como forma de manifestação do Cristo e como potência mediadora ressalta o desmoronamento do sentido teofânico bíblico. À “angelidade” do homem sucedeu progressivamente a humanidade do anjo. O processo parece correspondente ao de Cristo. Tornado confidente, conselheiro e intercessor, o anjo experimenta sentimentos humanos e adota as atitudes do devoto. As tendências opostas da iconografia do fim da Idade Média, atribuindo ao ser celeste uma corporeidade etérea, luminosa e feminina, ou, ao contrário, a pesada corporeidade do puttto, traduzem certa ruptura na tradição. O fim da hegemonia do modelo monástico, centrado sobre a imitação dos anjos, a diversificação das vias espirituais nascida da evolução da sociedade medieval, a pressão das heresias, as tendências ao sincretismo intelectual ou artístico, explicam em boa medida a amplitude da transformação da figura angélica e a sobrevivência do anjo da guarda, que permanece sozinho, face a face com o homem, após a Idade Média. Assim, os anjos aparecem como reveladores das inflexões e das mutações do cristianismo ocidental; exprimem sua tonalidade particular.” (Philippe Faure)

 

 

“A longa prática das assembleias da Igreja

Quer tenham escrupulosamente cumprido seu dever dominical – desde 506, um concílio realizado em Agde tornou a missa obrigatória aos domingos – ou preferido ignorar a convocação do sino, os cristãos da época medieval viveram num tempo marcado por exortações a fazer uma pausa em suas ocupações e se dirigir a Deus. Inspirado na sucessão das estações, o calendário litúrgico contribuía para transcender o curso regular dos dias e colocava os heróis epônimos locais em um “panteão” com as dimensões do universo católico.

Ainda que os dados quantitativos sobre comparecimento à missa sejam muito raros e de exploração delicada, é certo que a participação ativa dos fiéis na refeição eucarística perdeu importância enquanto era exaltado o papel sacrificial e consagratório do celebrante, a ponto de ser considerado um ato meritório a recitação solitária das preces do cânone por parte de um único religioso. Contudo, mesmo no crepúsculo da Idade Média, a missa nunca deixou de ser uma ocasião de reunião e a igreja paroquial um lugar de afirmação de identidade. Prova da crescente vontade de associar os vivos e os mortos conhecidos dos assistentes à comemoração da paixão do Cristo, é a insistência nos dois. mementos, o rápido desenvolvimento das missas votivas, a inclusão nas preces da homilia de pedidos ditados pelo pertencimento a uma entidade política e a introdução do ritual da paz. Este último, onde a troca do beijo na boca foi substituída pela circulação de um objeto destinado a ser beijado, veio contrabalançar o uso da prece para os amigos, a qual supunha, pelo menos implicitamente, a maldição dos inimigos.

A construção de uma igreja para nela celebrar a missa constituiu um acontecimento, se não fundador, pelo menos fundamental na história das comunidades rurais. Antes que se estabelecesse a rede de paróquias, a partir do século X, os cristãos da Idade Média formaram células de vida ao redor dos corpos de seus ancestrais. Não se tem certeza se a implantação dos cemitérios precedeu ou seguiu a dos edifícios de culto, mas o esquema da aldeia organizada em torno de sua igreja-necrópole prevaleceu em todo o Ocidente. A instalação de pias batismais no santuário conferindo-lhe a categoria de igreja paroquial implantou um sistema no qual cada fiel era ritualmente introduzido, desde seu nascimento, no seio de uma comunidade por muito tempo confundida com a sociedade.

Enquanto se formavam as paróquias, a ordem clerical impunha-se como uma das componentes maiores do mundo medieval e se apropriava da própria noção de Igreja. A separação entre clérigos, únicos habilitados a entrar no coro, e a massa de leigos, abrigados no resto do edifício, caracterizavam aqueles locais. Dotado de uma estrutura piramidal, o clero, entretanto, nem sempre obedeceu aos impulsos de cima para baixo. Até o fim do século XI, o exercício da colegialidade episcopal prevaleceu sobre a primazia romana. Mais tarde, após um período de relativo equilíbrio, a monarquia pontifical desenvolveu-se e finalmente superou um período de terríveis dificuldades, durante as quais as assembleias conciliares apareceram como rivais do papa no exercício da soberania. Mas, quer tenham servido ou não ao desenvolvimento do poder pontifical (tanto do papa quanto do bispo), as reuniões de clérigos de todos os escalões – deado, diocese, província, região, circunscrição política ou mundo cristão – foram uma constante na vida da Igreja medieval. Teoricamente aceitos para assistir a essas reuniões, os leigos só foram em geral lá representados por seus chefes políticos.

No primeiro Concílio de Niceia (325), vemos que a celebração de assembleias conciliares era considerada um costume. A tradição fixou em oito o número dessas reuniões excepcionais, qualificadas de ecumênicas e convocadas pelo imperador do Oriente, que de Niceia ao IV Concílio de Constantinopla, em 869, trouxeram respostas precisas às controvérsias dogmáticas e disciplinares que agitavam a Cristandade. Após a ruptura com a ortodoxia (I054), a Igreja latina reatou por conta própria esse modo de resolução de antagonismos. Os canonistas revalorizaram então o antigo princípio Quod omnes tangit ab obnmibus debet tractari (“aquilo que concerne a todos deve ser tratado por todos”), essencial para o desenvolvimento de todo corpo social e político. Na assembleia de todos os bispos, sucessores dos apóstolos, eles viam a Igreja reunida e visitada pelo Espírito Santo. Buscava-se também a unanimidade para cada decisão e, inversamente, eram vistos como cismáticos aqueles que se abstinham intencionalmente de participar da celebração ou que se recusavam a aplicar os decretos firmados naquela ocasião. Somente os bispos deliberavam e votavam, as demais pessoas convocadas desempenhavam um papel de assistência ou de conselho.

Ostentando ou não a etiqueta de ecumênicos (apesar da ausência quase total das Igrejas orientais), todas as grandes assembleias conciliares que se seguiram à de Latrão I (II23) tiveram uma grande repercussão no Ocidente, seja porque tomaram decisões políticas plenas de consequências (deposição do imperador Frederico II em Lyon I, em I245), seja porque envolveram um grande número de pessoas (segundo as estimativas, entre 800 e I.200 padres em Latrão IV, em I2I5), seja porque duraram vários anos, o recorde pertencia ao Concílio de Basileia (I43I-I449), que se colocou como verdadeiro parlamento da Igreja.

Contrariamente a vários concílios gerais, com frequência reunidos por iniciativa do poder laico, o caráter eclesiástico dos concílios reunidos pelo bispo metropolitano em uma província eclesiástica não precisa ser demonstrado. A antiga disciplina, codificada pelo Concílio de Latrão IV, determinava a organização de um concílio, mesmo que sua celebração fosse anual, com o objetivo de corrigir abusos e regulamentar os costumes. Além dos bispos da província, o arcebispo convidava os principais dignitários eclesiásticos, tanto regulares como seculares, para sessões de aproximadamente uma semana. A instituição parece ter funcionado notavelmente no século XIII. Ela ocupou um lugar de destaque no pensamento dos reformadores dos séculos posteriores: eles viam nela tanto um eficaz instrumento de purificação moral como um contrapeso necessário às pretensões absolutistas da cúria romana.

As decisões das assembleias conciliares das épocas antigas sempre constituíram uma referência de grande autoridade. Fielmente compiladas em épocas nas quais a escrita era rara, elas formam o coração das coleções canônicas e, por conseguinte, o fundo insubmersível do direito da Igreja. A legislação pontifical, com o reforço das “falsas decretais” isidorianas, tendia a substituí-lo, mas sempre precisou se harmonizar com esse antigo e venerável patrimônio que funcionava por meio de um colegiado. Em especial, a nomeação dos bispos pela assembleia de clérigos e de fiéis da cidade era vista como regra. Na prática diocesana, ocorreu uma dupla evolução: os procedimentos que, como a aclamação, eram os mais aptos a camuflar as imposições foram, progressivamente, eliminados em benefício da escolha feita por um grupo restrito de homens de boa reputação. Ao mesmo tempo, a composição desse colégio eleitoral tendeu a se manter, excluindo todos aqueles que não fossem cônegos da catedral. Nos séculos XII e XIII, esses últimos desempenharam plenamente seu papel de grandes eleitores, beneficiando-se da tranquilidade de seu claustro para organizar escrutínios quando não chegavam a um acordo sobre um nome: cada um exprimia então, oralmente ou por escrito, sua opinião para escrutinadores designados pelo conjunto dos votantes, os quais contabilizavam em seguida os votos e proclamavam os resultados. Os cônegos encontraram-se, de facto, desprovidos de suas prerrogativas a partir do final do século XIII, diante das pressões conjugadas dos príncipes e do papa; os recursos apresentados na cúria pelos perdedores das votações favoreceram as intervenções pontificais, a tal ponto que se caminhou quase imperceptivelmente em direção a um regime centralizador, visto, no entanto, como de exceção.” (Helène Millet)

 

 

“Em um Império que soube manter até seus últimos momentos escolas laicas muito semelhantes às do inundo greco-romano, e que se proclamará sempre romano, o fato de seu programa escolar do enkykliospaideusis (“educação geral”), do qual o cristianismo apenas expurgou os traços pagãos demasiadamente visíveis, não reservar qualquer lugar à geografia – mesmo nos períodos de apogeu cultural dos séculos IX-X ou dos séculos XIII-XV – não nos deve surpreender: trata-se de um saber que permanece implícito, que se evita o máximo possível reproduzir porque é “técnico”, como a estenografia ou o direito, estes também excluídos e considerados pouco dignos. Ana Comneno, que conhece bem o Ocidente, pede desculpas a seu leitor quando se vê obrigada a dar algumas informações a respeito dos “bárbaros” ou simplesmente citar seus nomes. Se os bizantinos são os homens mais cultos da Idade Média, eles possuem também uma cultura cujos contornos foram enrijecidos pela cristianização, pois o povo romano considera-se duplamente privilegiado, tanto por sua velha cultura grega quanto por ter sido eleito por Deus. Também não é casual que os gregos medievais comecem a fornecer verdadeiros ensinamentos sobre o mundo exterior no momento em que, conscientes de certa esclerose de seu sistema educativo, soberanos dos séculos XIII ao XV, como Andrônico II, João Cantacuzeno e Manuel II Paleólogo, dotam o Império de um ensino superior parcialmente inspirado na experiência universitária ocidental e cuja qualidade levará Enéas Sílvio Piccolomini, o futuro papa Pio II, a dizer que ninguém podia se considerar verdadeiramente culto antes de ter completado sua educação em Constantinopla.”

 

 

“O direito de fortificar, ligado ao poder de comando, o ban, é um direito público, regalista. Mas, consideremos que o castelo tenha sido construído sem autorização de príncipe, em terras patrimoniais do castelão, ou que este tenha recebido delegação da autoridade pública; o fato é que o ban (e com ele a polícia e a justiça) foi usurpado pelo detentor do castelo. Michel Bur mostrou que a primeira idade feudal é revolucionária em relação ao regime anterior: o castelo – e especialmente o castelo de colina – é o instrumento dessa revolução; ele enraíza o poder no solo. É ao redor do castelo que gravitam os vassalos – todos os feudos do reino da França dependem da torre do Louvre –, é do castelo que vem e pesa a autoridade sobre os habitantes rurais. É então natural que a colina, elemento topográfico, mais estável que as construções, tenha se tornado o símbolo do poder. Sobre a colina abandonada em benefício de um novo castelo, frequentemente se continuou a produzir a justiça senhorial. Explica-se dessa forma o furor dos senhores do sul da França em recortar os relevos em forma de colina. (...)

Em todos os casos, o resultado da atração exercida pelo castelo é a concentração do hábitat camponês em detrimento das aglomerações anteriores, menores e dispersas. Aliás, o fenômeno é geral, ou largamente presente em todo o Ocidente, e o agrupamento se dá mesmo na ausência do castelo. Mas não na ausência do senhorio. O impulso do movimento de concentração dos hábitats que acompanha, pelo menos na cronologia, o estabelecimento do regime feudal, não deve ser buscado na opressão, nem no medo das guerras ou das invasões (sarracenas, por exemplo), nem nas vantagens econômicas. É a necessidade de ordem, mesmo sendo uma ordem dura e severa, a necessidade de paz civil, mesmo se permanece precária, que leva os homens a se reunir sob a dominação senhorial e, então, frequentemente sob a proteção das defesas castrenses.” (Jean-Marie Pesez)

 

 

“Na França, em compensação, Igreja e cavalaria relacionaram-se desde cedo, em razão do enfraquecimento do poder real nos séculos X e X. A Igreja tentou controlar a ordem pública e impregnar a cavalaria com seus ideais e ritos, sem consegui-lo totalmente.

 

Igreja e cavalaria

O ideal de não violência praticado por Jesus e pelo cristianismo primitivo não sobreviveu, pelo menos na Igreja oficial, à chegada ao poder dos imperadores cristãos. Desde o século V, Santo Agostinho justifica o recurso à guerra empreendida por autoridades legítimas para proteger a “pátria” (logo assimilada à Cristandade e à Igreja) ou para recuperar um bem injustamente espoliado. Essa defesa da comunidade compete aos imperadores no Império Romano decadente, depois aos reis e aos príncipes no mundo “bárbaro” que o sucede no Ocidente. A proibição de derramar sangue persiste para os eclesiásticos e, sobretudo, os monges, que em vários campos aparecem como herdeiros e continuadores dos primeiros cristãos de quem perpetuam certos valores, particularmente os da não violência. A sociedade cristã, desde então, cinde-se em dois grupos de homens, cujos ideais não são mais os mesmos. Os monges e os clérigos, milites Dei, servem a Deus no mosteiro por meio da oração, ou no mundo por meio dos sacramentos; os leigos, milites saeculi, vivem no “século”, mantêm os primeiros ou protegem-nos. A essa divisão em dois estados, laico e eclesiástico, superpõe-se, a partir do século X, uma divisão funcional representando as três ordens que subsistirão até o fim da Idade Média e mesmo até a Revolução de I789: expressa-se pela célebre fórmula de Adalberon de Laon, no começo do século XI, segundo a qual a casa de Deus, que se crê una, está na verdade dividida em três, uns rezam, outros combatem, outros trabalham.

Existe, portanto, realmente, um 0rdo militum, uma ordem de guerreiros. Aos olhos da Igreja, sua importância cresce na proporção que dela necessita. Depois da era carolíngia, estabeleceu-se no Ocidente uma nova sociedade, denominada feudal, caracterizada pelo declínio do poder central, sobretudo na França, e pelo desenvolvimento dos principados, depois das castelanias (século X-XI). Doravante, a ordem pública está nas mãos dos castelões, assistidos por seus guerreiros. São eles que comandam, julgam e recebem as taxas. São eles que fazem reinar a ordem ou a desordem.

A Igreja, para defender seus membros e bens e para tentar refrear a violência desses guerreiros (milites), começa por brandir as armas espirituais de que dispõe: a privação dos sacramentos coletiva (interdito) ou individual (excomunhão). Do século X ao XII, com as instituições de paz, ela tenta induzir os guerreiros a prestar juramento de não atacar, roubar ou extorquir os que não podem se defender: eclesiásticos, mulheres nobres não acompanhadas, camponeses e camponesas, pobres e desprotegidos em geral. É a “paz de Deus”, de origem meridional (Le Puy, 975; Charroux, 989; Narbonne, 990 etc.); pouco depois, a “trégua de Deus” tenta subtrair à violência não somente os seres vivos, mas também as datas: festas solenes, dias santos, descanso semanal, depois estendido, em lembrança da paixão de Cristo, ao período da quinta-feira à noite à segunda de manhã. Pode-se comparar essa limitação voluntária imposta aos guerreiros a uma verdadeira ascese, porém insuficiente para assegurar a ordem. Testemunham-no a multiplicação de concílios e assembleias de paz. O objetivo dessas instituições de paz não é colocar a guerra fora da lei, sendo ela privada, mas reservar seu uso a um período limitado e a uma categoria determinada de indivíduos, que praticam entre eles esse esporte perigoso: os guerreiros profissionais. Trata-se de promulgar regras para eles, um código deontológico impregnado de valores cristãos.

A Igreja logo enfatiza o escândalo que constitui a guerra no interior da Cristandade. “Aquele que mata um cristão derrama o sangue de Cristo” (Narbonne, I054). Revezando-se com os mosteiros da Ordem Cluniacense, o papado esforça-se para empenhar os cavaleiros no combate contra os muçulmanos, na Espanha (Reconquista) ou na Terra Santa (cruzadas). O sermão de Urbano II em Clermont (I095) situa-se na linha direta das instituições de paz, e a primeira cruzada pode ser considerada como sua consequência lógica. O papa condena os guerreiros cristãos que se matam por algumas moedas, com risco para a alma; ao contrário, exalta os que, por Deus, deixam a família para libertar o sepulcro do Senhor. Os que viessem a morrer em tal expedição de peregrinação guerreira alcançavam infalivelmente as palmas do martírio. Os cavaleiros cruzados, como os mártires outrora e os monges recentemente, podem, portanto, ornar-se com o termo milites Christi. Mas a Cruzada não é a cavalaria! Os cavaleiros não são todos cruzados e quando dela participam, é por uma espécie de penitência, para remir os pecados de... sua cavalaria!

A Igreja conseguiu institucionalizar a Cruzada, mas não totalmente a cavalaria. A criação das ordens dos monges-guerreiros, templários ou hospitalários, testemunha essa derrota. Contudo, ela tentou por outras vias, em especial a liturgia do adubamento*. Para proteger-se, desde o século X os estabelecimentos eclesiásticos recrutaram guerreiros (milites ecclesiat) ou confiaram-se à proteção de senhores laicos, nomeados como defensores ou advogados (defensores, advocati). Foi por ocasião dessas investiduras de tipo vassálico, que a Igreja organizou rituais reunindo fórmulas de bênção das armas e estandartes, outrora reservados a reis e príncipes, por isso impregnados da antiga ideologia real de proteção das igrejas e dos fracos. O ordo de Cambrai (século XI) é o que melhor representa esses rituais. Essas fórmulas ainda estão em grande parte ausentes dos testemunhos que possuímos para o século XII de rituais de adubamento de cavaleiros “comuns”. Em compensação, no século XIII e mais ainda no XIV, elas invadem os rituais de adubamento e contribuem para introduzir no conjunto da cavalaria o antigo ideal régio de proteção da Igreja, da viúva” do órfão e dos fracos em geral.

Assim, a ideologia cavaleiresca agrega-se tardiamente à cavalaria. Além disso, trata-se aqui apenas da faceta religiosa dessa ideologia. Existe outra, aristocrática e laica, profana, que se mistura àquela para conferir à cavalaria a ética que lhe é própria.” (Jean Flori)

* Este termo técnico (adoubement) não está dicionarizado em português, mas o verbo adubar, nas acepções de “equipar”, “preparar”, “temperar”, decorre desses mesmos sentidos do francês adouber (significativamente surgido em I080, na Chanson de Roland, do qual derivou por volta de II50 aquele substantivo para indicar a cerimônia de entrega das armas e equipamento que fazia de alguém um cavaleiro. [HFJ]

 

 

Torneios e exercícios de cavalaria

O cavaleiro aprendiz, antes de ser adubado, serve “pelas armas”, quase sempre como escudeiro, a um senhor de seu parentesco, de preferência um tio materno, de posição superior à sua. Polindo-lhe as armas, esfregando-lhe os cavalos, assistindo-o nos combates, servindo-o à mesa e na caça, ele familiariza-se com o essencial da vida cavaleiresca. Desse modo, pode treinar para combate nos exercícios de quintaine, em que se procura atingir com a lança um manequim 0u um escudo, e de behourds, justas de treinamento mais próximas do combate real. Quanto aos cavaleiros, aperfeiçoam sua técnica em torneios, que surgem a partir de meados do século XI e se multiplicam no século seguinte, apesar das repetidas proibições da Igreja (Clermont, II30). Até o fim do século XII, esses torneios não se diferenciam das guerras verdadeiras, de que são réplica codificada. Como na guerra feudal, dois campos se opõem, em combates coletivos feitos de ataques compactos e de emboscadas destinadas a isolar do grupo alguns indivíduos, se possível bem-nascidos ou de prestígio, a fim de capturá-los para obter resgate ou desmontá-los para se apossar de seu cavalo. O objetivo, nos torneios como na guerra, consiste mais em acumular o saque e ampliar a glória do que em matar o adversário, mesmo que tais acidentes não sejam raros, tão completa é a semelhança entre torneios e combates guerreiros. É também a oportunidade para os cavaleiros pobres de atrair a atenção de algum patrono rico e entrar para sua “equipe”, a seu serviço. O prestígio da façanha cavaleiresca também pode ganhar os favores de uma rica viúva e, graças ao casamento, assegurar a promoção social do herói. Pelo menos esse é o sonho dos cavaleiros pobres.

Utilitários, mas prestigiosos desde a origem, os torneios tornam-se mais faustosos e menos perigosos com o decorrer do tempo, com o surgimento das armaduras e das armas “para diversão” (sem ponta de ferro) que, sem anular totalmente os riscos, distanciam, contudo, os torneios da verdadeira guerra. A proeza torna-se mais individual, mais teatral, e os grandes torneios “flamejantes” dos séculos XIV e XV tomam rumos suntuários: a nobreza procura neles se afirmar, tranquilizar e distrair ante a crescente ameaça econômica e social da burguesia.

Destinados a aumentar a coesão dos esquadrões de cavaleiros por meio de exercícios em conjunto, da camaradagem guerreira e dos prazeres compartilhados, os torneios contribuíram incontestavelmente para criar a mentalidade cavaleiresca e elaborar uma ética própria à cavalaria: culto da coragem e do heroísmo, respeito ao código deontológico que poupa, por interesse ou por ideal, o homem desarmado ou caído por terra; respeito à palavra dada; zelo pela reputação, ampliada pela bravura de uns e pela generosidade de outros.” (Jean Flori)

 

 

“Os romances de aventuras traduzem essa tendência. Tomam, inicialmente, a forma dos romances antigos, de que Eneias, Heitor ou Alexandre representam os heróis. Repõem a Antiguidade em moda e introduzem nas mentalidades elementos da moral laica, sobretudo um ideal novo, que também se encontra nos trovadores provençais: a cortesia que exalta as boas maneiras, o serviço à senhora, o amor dito “cortesão”, naturalmente adúltero, desprezando o casamento e desdenhando o ciúme. Pelo que já se disse, deve-se ver aí uma elaboração ideológica da pequena nobreza? É possível. Mas pode-se também sustentar que os príncipes e senhores usaram os modelos cortesãos em proveito próprio, para atrair os cavaleiros. Em troca, está claro que o ideal cortesão se opõe radicalmente à moral tradicional da Igreja: ele canta o amor sensual, o apelo aos favores da dama casada, a procura do luxo e da moda, o brilho dos tecidos, das riquezas e das cores, a bravura guerreira desinteressada, o porte imponente, a altivez, mesmo a arrogância aristocráticas. O fato de essas colorações cortesãs não terem cessado de impregnar as obras literárias diz muito da influência laica e mundana que se exerce sobre a mentalidade da cavalaria e penetra sua ideologia.

As origens célticas e míticas da “matéria da Bretanha” contribuem ainda mais para aumentar essa influência. Os romances arturianos exalam um perturbador perfume de maravilhoso pagão que a posterior cristianização de alguns de seus temas não dissipa totalmente. Eles idealizam um novo tipo de herói, o cavaleiro errante em busca de aventuras, força sobrenatural que, como o amor, o impele a ultrapassar, a dilatar ao máximo os limites do inacessível. Lancelote representa o modelo dessa cavalaria mundana. Nele reúnem-se as virtudes guerreiras dos heróis épicos e os valores corteses dos romances antigos. Esse ideal cavaleiresco, totalmente profano, de moral ambígua, marca profundamente as mentalidades dos escritores da Idade Média, de Chrétien de Troyes a Froissart.

Evidentemente, a Igreja opõe-se-lhe e condena-o. Mas é tal a aceitação desses romances pelo público, aristocrático ou não, que seria impossível refrear semelhante torrente; melhor tentar revertê-la. Assiste-se, então, à cristianização da maior parte dos temas arturianos. É assim que o Graal, profano no início, ganha cores religiosas, e que sua demanda se reveste de sentido eucarístico. Galaaz, piedoso, místico e puro, encarna a cavalaria “celestial”, cuja imagem a Igreja tenta impor à cavalaria “terrena” de Alexandre, Lancelote e Percival.

Ao mesmo tempo, começa a idealização da Cruzada e o ciclo épico de Godofredo de Bulhão populariza seu herói, o cavaleiro cruzado. Em meados do século XIII, o tema dos “Novos Bravos” faculta a elaboração de uma espécie de história santa da cavalaria, que, através da Antiguidade e de seus modelos (Heitor, Alexandre, César), liga os heróis da cavalaria cristã (Artur, Carlos Magno e Godofredo de Bulhão) aos da cavalaria bíblica (Josué, Davi e Judas Macabeu).

Trata-se de uma tentativa de recuperação ideológica. Ao longo da sua história, a cavalaria não deixou de venerar valores que a Igreja oficial condenava. Esta podia, sem dúvida, aprovar a fidelidade vassálica ou monárquica, as virtudes do companheirismo, a exaltação da coragem moral e física dos guerreiros cristãos colocando a espada a serviço da pátria e da Cristandade. Mas a essas virtudes sempre se misturaram aspectos mais aristocráticos, mais claramente profanos, como a busca exacerbada da façanha guerreira, a preocupação com a glória e o nome, o sentido excessivo de honra e linhagem facultando a faide, a vingança, os costumes mundanos da cortesia, sua exaltação do amor como valor supremo, seu desprezo pelo casamento etc. A própria liberalidade era ambígua. Aliás, ela é antes uma virtude aristocrática que cavaleiresca: a nobreza proporciona jantares, oferece torneios e festas suntuosas, cede cavalos e armas, ouro e prata, vestimentas e tecidos preciosos. Contrariamente à burguesia “cúpida”, que acumula, a nobreza dilapida, resplandece. Ela redistribui as riquezas, mas os cavaleiros são, na verdade, os primeiros, mesmo os únicos beneficiários das generosidades ostentatórias. Porque generosidade não é caridade, e dádiva não é esmola.

Todos esses valores profanos, aristocráticos e mundanos misturam-se ao ideal de luta pela fé cristã ou de proteção das igrejas, das viúvas e dos órfãos, que a Igreja tentava havia muito tempo imputar à cavalaria como sua missão particular, transferida dos reis. Sem recusá-la, a cavalaria do século XI ao XIV, fabricou uma ideologia muito mais complexa, multiforme, cambiante e fascinante.” (Jean Flori)

 

 

“A história desenrola-se sempre nos lugares, no espaço. Tanto quanto às datas e aos tempos, o historiador deve estar atento a essa característica fundamental da história.

Mas o espaço não é um continente inerte, mais ou menos valorizado, mais ou menos orientado; é mais do que um quadro, é diferente de um quadro no qual a história se desenrolaria em relativa independência. O espaço produz a história tanto quanto é modificado e construído por ela. Entre os elementos espaciais que estruturam a evolução dos conjuntos históricos, nada há de mais revelador dessa interação e dessas transformações que a relação entre centro (s) e periferia (s), e a observação de sua evolução dentro de seus limites.

Uma sociedade, uma civilização, tem seus limites, é um todo. Uma periferia na Idade Média é uma história de ocupação e exploração do solo, portanto de demografia e de economia, de urbanização, de sistema social e político: em situações-limite, feudalismo e Estado. É uma história militar: conquista e defesa são os elementos essenciais do fenômeno periférico; uma história tecnológica: a introdução, o encontro, a combinação das técnicas militares, agrícolas e artesanais são aspectos capitais das situações periféricas; uma história da religião: a conversão é um elemento fundamental, a criação de bispados, as formas de evangelização, o comportamento das ordens religiosas, as práticas litúrgicas; uma história da cultura: confluência da escrita e da oralidade dos repertórios artísticos, difusão de estilos; uma história dos costumes: encontro de hábitos vestimentares e alimentares (que se tornam, na periferia, a Europa do vinh0 e da cerveja, a Europa das gorduras vegetais e das gorduras animais?); uma história, enfim, do imaginário: há um lugar que mais faça sonhar que um limite, uma frente, um horizonte, uma fronteira?

Numa perspectiva de “antropologia territorial”, a história das relações segundo as realidades concretas e as representações entre centro e periferia na Idade Média abarca todo o campo histórico e geográfico da sociedade do Ocidente medieval.

As relações centro/periferia podem, como em todos os outros períodos, exprimir-se por movimentos centrípetos e/ou centrífugos. Durante a maior parte da Idade Média, o essencial desses movimentos é centrífugo. Das regiões centrais há mais tempo romanizadas e cristianizadas, eles partem em direção às periferias. Mas, durante o primeiro período, do século V ao X, o principal movimento foi centrípeto, designado pelos termos “invasão”, “deslocamento de povos” ou “migrações”. As periferias penetram em direção ao centro. Essas migrações, vindas de periferias próximas ou longínquas, foram complexas. A instalação dos francos na Gália, por exemplo, situa-se num longo processo de aculturação recíproca entre francos e galo-romanos, iniciado no século II e só encerrado por volta do século VII. Aculturação bem-sucedida, apesar das fases de violência, guerras e destruição, uma vez que ela acaba em uma verdadeira fusão entre as duas populações, sob o impulso da Igreja, dos chefes bárbaros e das elites sociais eclesiásticas e laicas. As periferias não evoluem apenas de forma brutal por meio de invasões mais ou menos repentinas e maciças, mas são constituídas de infiltrações de longa duração.

Uma periferia revelou-se de particular importância, a periferia oriental. Não somente porque ela é um objeto de desenvolvimentos e de confrontos especialmente fortes entre germanos e bálticos, germanos e eslavos, germanos e húngaros, mas porque foi a mais aberta, a que acabou por fim por colidir com a periferia de dois outros conjuntos de sociedades e de duas civilizações que a bloquearam. Um primeiro contato negativo a aprofundou, no coração da Europa, uma cisão fundamental que ainda hoje é uma linha divisória interna capital, aquela que separa a Europa marcada pela Cristandade latina daquela marcada pela Cristandade grega, a Europa de Roma e a de Bizâncio. Ela acentuou a fronteira entre a parte ocidental e a parte oriental do Império Romano. Do lado de cá, na Cristandade latina, a Polônia, o Estado tcheco e a Eslováquia (a grande aposta da missão de Cirilo e Metódio), a Hungria, a Eslovênia e a Croácia; do lado de lá, as regiões ocidentais do antigo império russo e soviético, e a própria Rússia, a Romênia, a Bulgária, a Sérvia, a Macedônia e a Grécia.

O outro choque foi com o Islã. Ele compreendeu dois aspectos. Um foi o retorno para os territórios cristãos, impulsionado pelo centro, de uma periferia mediterrânea conquistada pelos muçulmanos nos séculos VII e VIII, ao passo que a periferia da África do Norte, a periferia de Agostinho, tão importante nos primeiros séculos do cristianismo, era definitivamente perdida. Essa periferia meridional, incluindo a Itália do Sul, a Sicília e a Península Ibérica, foi objeto de uma reconquista particularmente ativa e vitoriosa na Península Ibérica nos séculos XI e XII (a Reconquista propriamente dita) e completada pela tomada total do reino muçulmano de Granada em I492. Ela permaneceu uma periferia de um tipo especial. Em compensação, a conquista de uma periferia longínqua de além-mar, a Terra Santa de Jerusalém, nos séculos XII e XIII, encerrou-se com uma reconquista muçulmana.

Não se deve esquecer uma Europa periférica interior com o seu universo de florestas e pântanos, as periferias em volta de cada cidade, de quase cada aldeia, de cada mosteiro, de cada castelo.” (Jacques Le Goff)

As crônicas de Nárnia: A última batalha, de C.S.Lewis

Editora: Martins Fontes

ISBN: 978-85-7827-069-8

Tradução: Paulo Mendes Campos

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 124

Sinopse: Ver Parte I



– Bem – disse Tirian –, daqui vamos para o Norte. Por sorte, a noite está estrelada, e nossa jornada agora será bem mais curta, pois esta manhã nos desviamos muito, ao passo que agora iremos direto. Se formos interpelados, mantenham a calma; farei o possível para falar como um detestável, cruel e orgulhoso lorde calormano. Se eu puxar a espada, Eustáquio, faça o mesmo; e você, Jill, coloque-se atrás e fique com o arco a postos. Mas se eu gritar “Para casa”, então fujam para a torre. E, quando eu tiver dado o sinal de retirada, não tentem lutar – nem um golpe sequer –, pois esse tipo de falsa bravura em guerras já arruinou muitos planos excelentes.”

 

 

“– Ninguém deve chamar o demônio sem saber o que está fazendo.”

 

 

De qualquer forma, a gente se sente bem melhor depois de tomar uma decisão.”

 

 

“– Uma morte nobre é um tesouro que ninguém é pobre demais para comprar.”

 

 

– Você, Eustáquio, controle-se e não fique aí xingando feito um moleque de rua! Um guerreiro nunca diz palavrões. Palavras corteses e golpes duros são sua única linguagem.”

 

 

– Como disse um poeta, “um inimigo nobre é a melhor dádiva depois de um amigo nobre”.”

 

 

“Existe certo tipo de felicidade e assombro que faz a gente ficar séria. É bom demais para se estragar com piadinhas.”

 

 

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Três maneiras de escrever para crianças

 

 

“Quando escrevemos longamente sobre crianças vistas pelos olhos de adultos, o sentimentalismo tende a se introduzir, ao passo que a realidade da infância, tal como todos nós a vivemos, tende a se excluir. Ora, todos nós nos lembramos de que nossa infância, tal como a vivemos, era infinitamente diferente de como os adultos a viam. Foi por isso que, quando perguntaram a Sir Michael Sadler qual sua opinião sobre uma nova escola experimental, ele respondeu: “Não vou dar nenhuma opinião sobre nenhum desses experimentos enquanto as crianças não crescerem para nos dizer o que realmente aconteceu.”

 

 

“Inclino-me quase a afirmar como regra que uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim. As boas permanecem. Uma valsa da qual você só gosta enquanto está dançando não é uma boa valsa.”

 

 

“O conto de fadas é acusado de dar às crianças uma falsa impressão do mundo em que vivem. Na minha opinião, porém, nenhum outro tipo de literatura que as crianças poderiam ler lhes daria uma impressão tão verdadeira. As histórias infantis que se pretendem “realistas” tendem muito mais a enganar as crianças. Quanto a mim, nunca achei que o mundo real pudesse ser igual aos contos de fadas. Acho que eu esperava que escola fosse igual às histórias da escola. As fantasias não me enganavam, as histórias de escola, sim... Todas as histórias em que as crianças passam por aventuras e sucessos que são possíveis, no sentido de que não rompem as leis da natureza, mas quase infinitamente improváveis, tendem muito mais que os contos de fadas a criar falsas expectativas.

Quase o mesmo argumento responde à popular acusação de escapismo, embora a questão, nesse caso, não seja tão simples. Será que os contos de fadas ensinam as crianças a se recolher num mundo em que todos os desejos se realizam – numa “fantasia” no sentido técnico-psicológico do termo – em vez de enfrentar os problemas do mundo real? Bem, é aqui que o problema se torna sutil. Mais uma vez, vamos comparar o conto de fadas com a história escolar ou qualquer outra história que seja rotulada como “Livro para Meninos” ou “Livro para Meninas” em vez de “Livro Infantil”. Não há dúvida de que ambos despertam desejos e os satisfazem imaginariamente. Temos vontade de passar através do espelho, de chegar ao país das fadas. Também temos vontade de ser aquele aluno ou aluna imensamente popular e bem-sucedido, de ser o menino ou a menina de sorte que descobre a trama do espião ou monta o cavalo que nenhum caubói consegue domar. Os dois anseios, porém, são muito diferentes. O segundo, especialmente quando voltado para algo tão próximo como a vida escolar, é voraz e extremamente sério. Sua realização no nível imaginário é de fato compensadora: nós a buscamos, fugindo das decepções e humilhações do mundo real, e somos mandados de volta a ele com uma insatisfação nem um pouco divina. Trata-se sempre de lisonjear o ego. O prazer consiste em imaginar-se objeto de admiração. O outro anseio, o anseio pelo país das fadas, é muito diferente. Em certo sentido, a criança não anseia pelo país das fadas da mesma maneira que o garoto anseia por ser o herói da sexta série. Será que alguém supõe que ele, de fato e prosaicamente, anseia pelos perigos e desconfortos de um conto de fadas? – que seu desejo é de fato que houvesse dragões na Inglaterra contemporânea? De jeito nenhum. Seria muito mais verdadeiro dizer que o país das fadas desperta no menino um anseio por algo que ele não sabe o que é. Comove-o e perturba-o (enriquecendo toda a sua vida) com a vaga sensação de algo que está além de seu alcance, e, longe de tornar insípido ou vazio o mundo exterior, acrescenta-lhe uma nova dimensão de profundidade. O menino não despreza as florestas de verdade por ter lido sobre florestas encantadas: a leitura torna todas as florestas de verdade um pouco encantadas. Trata-se de um tipo especial de anseio. O menino que lê a história “escolar” do tipo que tenho em mente deseja o sucesso e fica infeliz (quando termina o livro) porque esse sucesso lhe escapa; o menino que lê o conto de fadas simplesmente deseja e sente-se feliz no próprio ato de desejar. Sua mente não esteve concentrada nele mesmo, como acontece frequentemente nas histórias mais realistas.”