quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A redução sociológica: Introdução ao estudo da razão sociológica (Parte II), de Alberto Guerreiro Ramos

Editora: Ubu

ISBN: 978-85-7126-157-0

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 256

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Sinopse: Ver Parte I



O sociólogo, como qualquer especialista em ciências sociais, está sempre condicionado, em sua especulação, por um a priori de caráter existencial, tenha ou não consciência disso. Decorre o fato de que sua consciência se elabora invariavelmente a partir do trato com os objetos e as pessoas do mundo particular em que vive. Não existe um eu acósmico ou a-histórico capaz de postar-se diante do mundo, livre de condicionamentos. O eu e a consciência do eu brotam do “nós” que os antecede lógica e historicamente. A consciência ingênua não percebe a implicação recíproca do ser humano e do mundo. Resíduo de ingenuidade se encontra na atitude do cientista que acredita numa ciência imune de condicionamentos. Ao refletir sobre os supostos da atividade científica, ver-se-á que está implicada numa teia de relações complexas que constituem o mundo tal como aparece ao cientista que nele vive. Não se toma aqui posição de caráter idealista, nem se retorna à querela entre o idealismo e o realismo. As concepções do conhecimento, de um lado, como determinação do objeto pelo sujeito e, de outro, como determinação do sujeito pelo objeto não são as únicas possíveis no domínio da gnosiologia. O conhecimento, descritivamente, é uma relação entre a consciência cognoscente e o objeto, na qual se verifica reciprocidade de influência, fato esse que não foi visto pelas antigas teorias gnosiológicas. No plano histórico-social, essa reciprocidade de influências permite compreender a ideia de mundo, que torna inteligíveis as relações entre o sujeito e o objeto. O mundo não é uma coleção de objetos que possamos contemplar do lado de fora. Estamos necessariamente no mundo e por ele somos constituídos. O homem é ser-no-mundo, não, porém, como um par de sapatos está numa caixa, mas enquanto suas ações implicam o mundo, ou uma visão prévia do mundo (Weltanschauung).

São de capital importância, no presente estudo, os esclarecimentos que nos oferece o conceito contemporâneo do mundo.2 A atual teoria filosófica do mundo é tributária das indagações de pensadores alemães a respeito do que são as visões do mundo. É comum a esses pensadores o ponto de vista de que a visão do mundo não é adquirida por esforço intelectual nem pode ser exposta como se explica uma doutrina ou um sistema de ideias. A visão do mundo, apesar disso, é sistema porque é configuradora de atos e de ideias, tem organicidade. Mas não é puramente intelectual e, por isso, não se pode neutralizar seu efeito condicionador sobre a atividade científica. Porque nos integramos na totalidade do mundo “de modo não intelectual”3 é que nossa existência supõe um a priori histórico social. Não aceitamos uma visão de mundo como esposamos uma doutrina ou nos convertemos a uma religião. Vivemos necessariamente a visão de mundo de nossa época e de nossa nação. Jaspers a entende como um ponto de vista não escolhido: “Impõe-se a mim, na situação histórica concreta em que me encontro, não escolhi tal corpo, tal país, tal caráter…”.4 Eis porque Dilthey afirmava que é a vida a “raiz última” da visão do mundo. É a partir de um engajamento vital que as coisas adquirem sentido para nós. E o alcance de nossa relação vital cotidiana não é algo cuja eliminação fosse de desejar. Nada para o homem teria sentido se não pudesse ser referido a um engajamento vital. Este é, portanto, condição para que as coisas tenham sentido. Em Jaspers, essa condição de possibilidade do conhecimento é sustentada: “é porque estou certo de estar vivo que posso elaborar uma teoria da vida, porque estou ligado à minha paisagem por mil laços históricos e afetivos que posso edificar uma física da natureza, porque estou integrado a grupos sociais que posso constituir uma sociologia”.5

E em um escrito autobiográfico, dizia o filósofo alemão: “vi claramente que o estudo dos filósofos anteriores servia de muito pouco se não ia acompanhado da própria realidade. Só partindo desta, compreendemos as questões dos pensadores, de sorte que possamos ler seus textos como se fossem atuais, como se todos os filósofos fossem contemporâneos”.6

Reflexões como essas pertencem ao domínio do que Dilthey chamava de “filosofia da filosofia” ou do que atualmente se pode considerar como redução filosófica da filosofia.

Tenha ou não consciência disso, o homem não é um termo isolado da realidade histórico-social. Esta é uma totalidade em que está implicado.7 Todo fazer humano implica uma “interpretação” das coisas que manipula, como todo teorizar é extensão do fazer ao nível da representação. Não é, pois, legítimo extremar a distinção entre teoria e prática. Ambas têm sua raiz comum no que Heidegger chama de “cuidado” (Sorge).8 Decerto, sob pena de constituir um flatus vocis, o impulso para teorizar jamais é gratuito, origina-se na ocupação. Supor que o homem teoriza primeiro e age depois é incorrer em erro. O homem não se esgota no pensar, é também sentir e querer. O pensar é apenas um aspecto particular da vida, que consiste em converter em objeto determinado conteúdo do agir humano. A nova teoria, resultante do esforço de pensar, era, no agir humano, uma virtualidade. É precisamente a reflexão que torna explícita e exprime, de modo elaborado, a virtualidade implícita no agir humano. A pergunta famosa “quem educa o educador?” só tem uma resposta: a sociedade, e não outro educador. E assim se desfaz a polaridade entre teoria e prática. Por que a sociedade? Porque é um fenômeno total. É pressuposto essencial da categoria de totalidade a ideia de implicação. O verdadeiro educador sabe que só conseguirá levar a efeito a pedagogia que lhe possibilitem as condições sociais determinadas em que vive. Tem a consciência da implicação do homem no mundo. (...)

O homem não é apenas um “ser-no-mundo”, é também um “ser-do-mundo”, em determinada forma histórica particular. Em seus estudos sociológicos ou antropológicos sobre as regiões subdesenvolvidas, o europeu pode utilizar a categoria de “ser-no-mundo”, mas muitos aspectos da realidade ficam fora do seu alcance, que só podem ser percebidos à luz do ponto de vista da comunidade humana universal, ou na medida em que se verifique no observador um compromisso sistemático com as virtualidades do mundo sobre o qual incide a sua especulação.

Nos países periféricos, é a adoção sistemática de um ponto de vista universal orientado para o futuro que possibilita a redução sociológica. É o imperativo de acelerar, de modo historicamente positivo, a transformação de contextos subdesenvolvidos que impõe ao cientista de países periféricos a exigência de assimilar não mecanicamente o patrimônio científico estrangeiro. Essa exigência se torna particularmente aguda quando, naqueles países, se deflagram impulsos concretos de ordenação própria ou de articulação interna. Enquanto permanecem ordenados ou articulados para fora, referidos a um centro dominante que lhes é exterior, carecem da condição mesma que os habilitaria à prática da redução. Esta, no caso, surge como pormenor da reação global de um país situado no âmbito de dominação de outro mais poderoso, no sentido de obter capacidade autodeterminativa. Nesses países periféricos, a sociedade não está fundada segundo critérios próprios, é algo a fundar,9 e, por isso, a assunção, o engajamento, abre para o intelectual um horizonte de infinitas possibilidades.”

2 Para uma tentativa de definição de visão de mundo, vide a contribuição de Lucien Goldmann, em L’homme et l’histoire: Actes du VIe Congrès des sociétés de philosophie de langue française. Paris: PUF, 1952.

3 “Estamos em contato com a totalidade do mundo de maneira não intelectual”; Jean Wahl, Traité de métaphysique. Paris: Payot, 1953, p. 660. Interpretando a ideia de mundo, escreve ainda J. Wahl: “O ser que nós somos […] não pode ser separado daquilo em que nós somos, e que é o mundo”; Ibid., p. 659.

4 Cf. Mikel Dufrenne e Paul Ricoeur, Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947, p. 102. Ponto de vista semelhante é o de G. Gusdorf: “O mundo humano é uma consciência do mundo, a perspectiva de uma consciência situada no tempo sobre a situação que lhe é dada. Mas uma dificuldade nova intervém aqui: o que caracteriza a visão do mundo, no sentido de estilo de vida comum à época, é não ser reconhecida como tal. Impõe-se antes à maneira de um inconsciente coletivo; é a lista de preço dos valores que cada sociedade fornece a todos os seus membros, por força de uma espécie de pedagogia imanente. Reconheço sempre o pressuposto cultural do outro, enquanto o meu me escapa de ordinário, meus preconceitos sendo a forma mesma que a evidência reveste a meus olhos. Mas a concepção de mundo, própria de outro, será desnaturada por uma descrição que a transfira para a ordem da consciência, modificando assim sua significação existencial”; G. Gusdorf, Traité de métaphysique. Paris: A. Colin, 1956, p. 350.

5 M. Dufrenne e P. Ricoeur, Karl Jaspers et la philosophie de l’existence, op. cit., p. 74.

6 Karl Jaspers, Balance y perspectiva [Rechenschaft und Ausblick], trad. Fernando Vela. Madrid: Revista de Occidente, 1953, p. 251. “A condição substancial de nossa verdade” – diz Jaspers nesse livro – “é a apropriação de nossa base histórica”; Ibid., p. 247.

7 Seria necessário tematizar a noção de implicação, implícita na ideia do homem como ser-no-mundo. É à luz dessa noção que se tornam claras as relações entre teoria e prática. É necessário verificar até que ponto, antes de Heidegger, já Karl Marx considerava a teoria e a prática à luz da implicação. O autor pensa que é possível demonstrar que Marx, numa terminologia distinta da de Heidegger, concebia, a seu modo, o homem como ser-no-mundo. Para ele, “as circunstâncias fazem o homem como os homens fazem as circunstâncias”. Seu modo de conceber a educação parece basear-se na ideia de implicação recíproca do homem e do mundo. As indicações desse ponto de vista em Marx se encontram em suas “Teses sobre Feuerbach” e em A ideologia alemã. Nesse livro, diz Marx: “A produção das ideias, das representações, da consciência está, em primeiro lugar, imediatamente implicada na atividade material e no comércio material dos homens e é a língua da vida real”; Idéologia allemande, oeuvres philosophiques, trad. Jules Molitor. Paris: A. Costes, 1937, p. 157.

8 Vide Martin Heidegger, Ser e tempo. Vide também Carlos Astrada, La revolución existencialista. Buenos Aires: Nuevo Destino, 1952.

9 Há, por fazer, toda uma sociologia da “fundação” e do “fundamento”. É tarefa de grande urgência para o esclarecimento da transmutação por que passa uma sociedade nacional, como a brasileira.

 

 

LEI DO CARÁTER SUBSIDIÁRIO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA ESTRANGEIRA

Essa lei pode ser enunciada do seguinte modo: À luz da redução sociológica, toda produção científica estrangeira é, em princípio, subsidiária. (...)

A redução só se torna possível, portanto, quando, na sociedade em que vive o sociólogo, aqueles fatores operam efetivamente, prevalecendo, de modo objetivo, sobre o condicionamento exógeno. Somente naquelas sociedades em que se gera uma prática coletiva (práxis), é que se pode liquidar a ociosidade do trabalho intelectual e, portanto, do trabalho sociológico. Em tais condições, a própria sociedade coloca diante do sociólogo as tarefas que deve empreender. Essas tarefas deixam de ser arbitrariamente selecionadas pelo gosto individual do sociólogo e passam a ser determinadas pela comunidade. O caráter ocioso da especulação sociológica nos países coloniais transparece no fato de não ter exigências próprias, mas obedecer às variações das correntes estrangeiras. Trata-se de fenômeno que pertence ao domínio da sociologia da moda. É a prática da redução que converte o sociólogo de consumidor (colecionador) de ideias em produtor de ideias. A produção sociológica estrangeira, para o sociólogo que fundamenta sua especulação na prática social, não vale como paradigma ou modelo, mas apenas como subsídio. (...)

Redução é precisamente o contrário de repetição. A mera repetição analógica de práticas e estudos contraria a essência da atitude científica, porque perde de vista a particularidade constitutiva de toda situação histórica.”

 

 

Diz Wright Mills:

O fato de que a sociedade norte-americana não haja passado nunca por uma época feudal é de importância decisiva para o caráter de sua elite, assim como para a dita sociedade em geral, porque significa que nenhuma nobreza, nem aristocracia, criada antes da era capitalista sustentou uma longa oposição à alta burguesia; que essa burguesia monopolizou não só a riqueza, mas também o prestígio e o poder; que nenhum grupo de famílias nobres ocupou as posições mais altas e monopolizou os valores em geral tidos em grande estima e, desde logo, nenhum grupo o fez explicitamente, baseando-se em direito hereditário; significa, finalmente, que nem os altos dignitários da igreja, nem a nobreza cortesã, nem os poderosos latifundiários condecorados com atavios honoríficos, nem os monopolizadores dos altos postos militares se opuseram à burguesia enriquecida, nem fizeram resistência à sua elevação, em nome do nascimento e do privilégio.6

Essa elite não poderia ficar indiferente aos meios eficazes de condicionamento em massa das condutas. Em diversas formas, ostensivas ou discretas, administra complicado sistema de prêmios e castigos, cujo objetivo é a conservação social. Não são apenas técnicas sociais, como a propaganda, as “relações públicas”, as “relações humanas”, as únicas armas de autodefesa do vigente sistema norte-americano. A “conservação social” é, grosso modo, a essência da ideologia em que se fundamentam as ciências sociais nos Estados Unidos. Por exemplo, não constituem ciências, mas tecnologias sociais de índole conservadora, disciplinas como psicologia social, patologia social, problemas sociais, desorganização social, sociologia industrial, controle social, ecologia social e, ainda no domínio parassociológico, o serviço social. O propósito eminentemente “acomodativo” que Wright Mills denunciou na “patologia social”7 não é particularidade dessa disciplina, mas característica dominante da sociologia norte-americana. Na verdade, apenas dominante, e não exclusiva, tanto assim que Wright Mills e outros cientistas conseguem realizar, apesar de tudo, uma carreira universitária. Ademais, é curial afirmar-se que a sociologia norte-americana tem fraca consistência teórica, a qual, aliás, decorre também de fatores socioculturais globais. Enquanto a estrutura capitalista assegurar aos norte-americanos as condições de vida comparativamente altas de que desfrutam, a tendência a um esforço de radical teorização do social será neutralizada.

O pleno desenvolvimento que atingiram os Estados Unidos não estimula a formação, no campo das ciências sociais, de concepções dinâmicas. Na presente etapa do processo histórico-social norte-americano, há ainda possibilidades de conjurar os principais problemas que afloram à consciência coletiva. Esse é um dos motivos por que a sociologia norte-americana é uma disciplina essencialmente descritiva e tautológica, cujos profissionais, na maioria, não estão aplicados num trabalho de elaboração conceitual que ponha em questão a estrutura mesma dos Estados Unidos. A proliferação de estudos e pesquisas que realizam para chegar a conclusões óbvias (como é o caso dos chamados estudos de comunidade) não é fortuita. É uma das maneiras de ocupar considerável mão de obra de pessoas diplomadas pelas universidades que, de outra forma, poderiam aplicar o seu conhecimento para colocar em foco assuntos temerários. Em consequência, é legítimo afirmar que o caráter atual da sociologia norte-americana é historicamente necessário. Só se transformará, qualitativamente, quando a estrutura do país, pelo esgotamento de suas possibilidades, suscitar o aparecimento de problemas cuja resolução demande novo esquema de convivência social. A debilidade teórica e o relativo atraso da sociologia norte-americana são, assim, no presente, estruturais e justificados, do ponto de vista norte-americano. Por todas essas razões, a experiência sociológica desse país é, para nós, subsidiária.”

6 C. Wright Mills, The Power Elite [A elite do poder]. New York: Oxford University Press, 1956.

7 Id., “The Professional Ideology of Social Pathologists”. American Journal of Sociology, v. 49, n. 2, set. 1943.

 

 

O que Aristóteles chamava hexis e os escolásticos habitus é uma aptidão inata, ou adquirida pelo treinamento. A cada ciência corresponde um habitus específico. O físico é menos uma pessoa que tenha lido muitos livros de física do que alguém apto a reagir diante dos fatos segundo determinadas regras e referências conceituais. Coisa semelhante se dirá de qualquer outro cientista. Dir-se-á também que o mero alfabetizado em sociologia, por mais exaustiva que seja a sua informação, não é sociólogo. Distinguindo a arte em hábito da arte em ato, imagina Jacques Maritain, em seu livro Art et scolastique, um enérgico aprendiz capaz de trabalhar quinze horas por dia na aquisição do conhecimento teórico e das regras de uma arte, mas no qual o habitus não germina. Esse esforço jamais fará dele um artista e não o impedirá de permanecer mais infinitamente afastado da arte do que a criança ou o selvagem portador de um simples dom natural. Redução é precisamente o contrário de repetição. A mera repetição analógica de práticas e estudos contraria a essência da atitude científica, porque perde de vista a particularidade constitutiva de toda situação histórica.”

 

 

As ciências não são imunes ao condicionamento histórico. Elas, também, e principalmente as sociais, variam historicamente e têm de ser examinadas à luz da reciprocidade das perspectivas. As ciências constituem, em cada período, um aspecto integrado numa totalidade de sentido. São tributárias da cosmovisão de cada período histórico e, consequentemente, não se podem pretender permanentemente válidas. Se é certo que a humanidade está entrando num novo período histórico, disso deve decorrer uma problematização dos quadros tradicionais do saber científico. Com efeito, estamos vivendo numa época em que o Ocidente não tem mais o monopólio do protagonismo ecumênico. Até bem pouco tempo, tinha o Ocidente o privilégio de ver os povos não ocidentais sem ser visto por esses últimos, e tal condição propiciava o alcance universal de seus pontos de vista. Hoje tais pontos de vista revelam-se precários. Novos centros de dominação se encontram em emergência. Povos até há pouco marginais na História libertam-se de sua antiga servidão e necessariamente uma nova imagem do mundo surge da tensão universal que promovem.”

(Situação atual da sociologia)

 

 

O pensar sociológico não é uma inovação essencial da sociedade europeia. Tem, ao contrário, uma velha tradição. Desde os mais remotos tempos, podemos dizer, com Othmar Spann, que a sociologia constitui uma parte essencial de toda filosofia e também, acrescentemos, da teoria política, da religião, da magia, do costume. A partir de diferentes formas de saber ao seu alcance, o pensar sociológico surgiu sempre, em toda cultura, nos períodos críticos, isto é, nos períodos em que se desfaz o consenso coletivo, em que os costumes são postos em questão e perdem a sua eficácia social; nos períodos em que o social aflora à consciência do homem. O momento sociológico é eminentemente esse em que o social, tornando-se problemático, aflora à esfera da consciência humana. Mas a consciência é, ela também, constituída pela realidade histórico-social e, por isso, o saber sociológico aparece sempre sob a forma do tipo de saber dominante em cada cultura. A sociologia possível numa cultura primitiva terá de ser revestida de magia; na cultura hindu e chinesa, terá de ser envolvida pela religião; no mundo grego, pela filosofia; no mundo ocidental tardio, terá de aspirar a ser uma física social.”

(Situação atual da sociologia)

 

 

Ao abordar a realidade social, não pode aquele que se dedica ao seu estudo prescindir de um aparelho conceitual previamente elaborado, isto é, de uma teoria da vida social, com as suas categorias básicas, os seus pontos de vista, os seus princípios e processos metodológicos daí decorrentes.1 Mesmo o pesquisador de espírito mais empírico já parte para o trabalho com um estoque qualquer de conceitos e julgamentos, ainda que somente para justificar o seu empirismo. A necessidade de instrumentos teóricos previamente elaborados para o estudo da realidade social não significa, entretanto – cumpre adverti-lo –, subordinação obrigatória a sistemas apriorísticos de qualquer ordem ou fixação das categorias teóricas em moldes imutáveis. Compreende-se que, refletindo a natureza dos fatos objetivos e aplicado a eles, o aparelho conceitual de mais elevado nível científico, precisamente porque o conhecimento atinge essências sempre mais profundas, não resiste à imposição de incorporar novas categorias ou de aplicar diferentes processos metodológicos. É o que nos dirá a história das ciências, se a ela recorrermos.”

1: Publicado originalmente na revista Estudos Sociais, n. 3-4, set.-dez. 1958, pp. 335-52. [N.E.]

 

 

Já diante dos sociólogos brasileiros, que desejam dar “funcionalidade”, como se expressa aquele professor do ISEB, à sua ciência, se apresenta o imperativo de ascender audaciosamente no plano teórico, a fim de captar os processos fundamentais e as necessidades históricas de nossa sociedade. Ascender no plano teórico significa elaborar os critérios, na esfera das categorias, dos princípios metodológicos e da temática, que conduzam à interpretação da realidade social brasileira com objetivo de transformá-la.

Essa tarefa, para ser cumprida, exige o que o sr. Guerreiro Ramos denomina, por motivos filosóficos, que deveremos analisar, de “redução sociológica”. Visa esta, segundo o seu autor, dar às Ciências Sociais no Brasil um ponto de vista nacional, substituindo a “assimilação literal e passiva dos produtos científicos importados” por um “procedimento metódico que procura tornar sistemática a assimilação crítica” [p. 73]. Não se trata, frisa o autor, de isolar os estudos sociológicos brasileiros de tudo o que, nesse terreno, se faz fora de nosso país. O caráter universal da ciência não é negado, e o sr. Guerreiro Ramos se refere a uma “instância de enunciados gerais que constituem o núcleo central do raciocínio sociológico” [p. 118].

O que é necessário é que a sociedade brasileira tenha, nos estudos sociais, uma função “centrípeta”, e não “reflexa”, de acordo com as exigências do novo processo histórico. Por esse motivo, em vez de simplesmente transplantada, através da cópia ou da imitação, a produção sociológica estrangeira deverá ser “reduzida” aos critérios nacionais, isto é, submetida ao procedimento da depuração crítica, do qual poderão resultar categorias e conceitos adequados ao estudo em profundidade da realidade social do nosso país.

A “redução sociológica” só pode ser praticada, frisa a obra que estamos comentando, por aqueles que assumem um “compromisso” com a sociedade em que vivem, que se põem numa atitude de “engajamento” sistemático para com as necessidades geradas pelo seu meio nacional. Aquele que prefere ser “neutro” diante dessas necessidades não poderá, pelo menos de modo sistemático e consciente, “reduzir” a elas, às particularidades de sua sociedade, as categorias e os princípios metodológicos das Ciências Sociais. O autor tocou aqui num preconceito muito difundido pela sociologia universitária: o preconceito do “desinteresse”, da “imparcialidade” das Ciências Sociais. Sucumbir diante dele, num país que luta para se emancipar, é aceitar a “servidão intelectual”, é não transcender da “condição de copista e repetidor”.

O sr. Guerreiro Ramos formula na sua obra o que considera as “leis da redução sociológica”. Mais apropriado, segundo pensamos, seria falar de princípios metodológicos. Enumeremos, porém, aquelas “leis”: lei do comprometimento (adoção sistemática de uma posição de engajamento ou de compromisso consciente com o seu contexto); lei do caráter subsidiário da produção científica estrangeira; lei da universalidade dos princípios gerais da ciência; e lei das fases (a razão dos problemas de uma sociedade particular é sempre dada pela fase em que tal sociedade se encontra).

Até aqui nos detivemos no comentário do que chamaríamos de “núcleo racional” de uma obra, que nos parece típica da atual produção ideológica do ISEB. Serão, no entanto, suficientes essas ideias para dar solução ao problema proposto? Veremos que elas apenas se aproximam da solução, sem atingi-la. Ficam a meio caminho e, por isso, contêm a possibilidade de desvios e recuos inaceitáveis, que anulariam o avanço já conseguido. Daí porque a própria A redução sociológica não se “reduza” somente àquele “núcleo racional”, nem este se apresente em estado puro, de fácil identificação. Ao racional se mistura o irracional, e a este último também é indispensável referir-se para a indispensável crítica.”

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