segunda-feira, 11 de maio de 2026

A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais (Parte III), de Vladimir Safatle

Editora: Ubu

ISBN: 978-85-7126-250-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 240

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“Esse processo foi impulsionado pelo fato de a nova versão da indústria cultural ser mais pervasiva. Sua presença, composta de microacessos dispersos durante todos os momentos do dia, em qualquer ambiente que seja, permite uma conexão muito mais contínua do que os antigos rádios, televisões e jornais. Em 2024, por exemplo, um brasileiro passava em média 9 horas e 13 minutos por dia on-line, configurando a segunda maior média mundial, atrás apenas da África do Sul, sendo que desse tempo 3 horas e 37 minutos diários eram dedicados apenas às redes sociais.13 Os números mostram uma nova estrutura material de circulação da comunicação com uma capacidade estruturalmente maior para interferir de maneira disciplinar em nossa vida. A tecnologia se dispersa assim no espaço social, como uma espécie de dissolução da especificidade dos meios no interior da vida.14 Os meios não exigem mais um espaço específico de interação, como as antigas televisões e telas de cinema. Eles se colam cada vez mais a nossa mobilidade cotidiana.

Essa completa adesão ao aparato que faz com que nos tornemos a imagem de nós mesmos, esse culto pela atrofia de nossas linguagens até o ponto de só restar a linguagem da razão econômica, de seus investimentos, de seus retornos, de seus anglicismos, esse culto que, no fundo, é uma adesão ao mais forte, a quem venceu. Essa funcionalização de si feita com alegria e desespero só podia mesmo ter consequências políticas catastróficas, como um elemento fundamental para o advento de uma nova psicologia. Uma psicologia mais abertamente autoritária, uniforme, rígida, mais incapaz de lidar com o que não se submete à contabilidade, à visibilidade unidimensional e espetacular.

Essa adesão imanente à indústria cultural ganha ainda mais centralidade se aceitarmos que estamos diante não apenas de um meio de comunicação, mas de uma forma de organização política em escala internacional. Se ela produz uma subjetividade que lhe é adequada, então não será surpresa descobrir que tal subjetividade tem sua própria gramática política.

Vários foram os estudos que insistiram como boa parte das estruturas políticas da extrema direita global são “partidos digitais”.15 Em países como o Brasil e a Argentina, a extrema direita necessita parasitar partidos já existentes, pois sua estrutura de mobilização e adesão é basicamente digital. Essa forma de organização política serve-se de tendências das redes digitais em criar espaços, ao mesmo tempo com menos mediações, com contato mais direto entre topo e base de organizações políticas e com identificações a partir de traços identitários muito fortes. Alguns autores veem nisso a expressão imediata do potencial autoritário de tais estruturas de comunicação, pois elas dinamitariam a representação, a constituição de espaços comuns de embates nos quais as mesmas regras de ocupação e expressão são pretensamente seguidas por todos os oponentes.16 No entanto, seria o caso de lembrar como tais características das redes sociais apenas aprofundam uma dinâmica imanente à organização social presente na indústria cultural. Ela acrescenta à extrema personalização da política, à ilusão da quebra de distância que já existia no funcionamento normal da indústria cultural, a possibilidade de interação em mão dupla que os media anteriores desconheciam ou conheciam em níveis apenas rudimentares.

Ao aprofundar tais tendências, as plataformas de comunicação permitem uma intervenção na subjetividade em que modo de vida e organização política se fundem de maneira determinante. Há uma politização da vida em todas suas dimensões, que esperávamos ser possível apenas em situação de reconciliação social e emancipação coletiva. Só que agora essa politização marcha contra nós.”

13 Ver Relatório Digital 2024, We are Social and Meltwater. Ver, a esse respeito, principalmente Bruna Della Torre, “Plattform-Neofaschismus. Digitale Kulturindustrie und die extreme Rechte”. WestEnd. Neue Zeitschrift für Sozialforschung, V. 21, n. 2, 2024; e Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs, 2020 [ed. bras.: A era do capitalismo de vigilância, trad. George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021].

14 Ver S. Zuboff, op. cit.

15 Ver Christian Fuchs, Digital Fascism: Media, Communication and Society, V. 4. New York: Routledge, 2022.

16 Um exemplo nesse sentido é Joseph Vogl, Capital and Ressentiment. New York: Polity, 2022.

 

 

“Na verdade, isso aponta para uma nova estrutura psíquica hegemônica. Costumamos acreditar que nossa socialização produz tendencialmente personalidades unitárias, com disposições coerentes de comportamento, reprimindo todo afeto contrário ao que constitui nossos ideais, recalcando para fora da consciência tudo o que poderia significar contradição. Não por acaso a forma clássica dos sintomas psíquicos são contradições em que um polo é deslocado para “outra cena”, para uma instância psíquica diversa (o inconsciente), enquanto outro permaneceria na consciência. Nesse modelo de aparelho psíquico, tais conteúdos mentais recalcados e reprimidos poderiam ser integrados paulatinamente através do alargamento do horizonte de compreensão da consciência.

No entanto, encontramos atualmente a generalização de outra forma de organização psíquica, caracterizada por uma clivagem no interior do próprio Eu, ao invés de uma cisão entre instâncias psíquicas. Tudo se passa assim como se fosse possível ter duas ideias contraditórias ao mesmo tempo no Eu e continuar a funcionar. Ao invés das representações contraditórias serem agenciadas através de destinos distintos (uma representada, outra recalcada), temos nesse caso as duas representações representadas na consciência, criando uma dinâmica de ação que passa continuamente de uma a outra. Esse modelo organiza os conflitos psíquicos através de um modo de negação inicialmente identificado em casos de perversão.25 O que Adorno percebeu vendo o casamento da realeza holandesa era, na verdade, apenas um exemplo de uma nova configuração de agenciamentos de conflitos psíquicos que ficaria cada vez mais prevalente em nossas sociedades.

De fato, uma análise empírica dos produtos recentes da indústria cultural demonstra a prevalência desse esquema. Personagens de contos de fadas que não mais se reconhecem e criticam os próprios papéis, peças publicitárias que zombam da linguagem publicitária, celebridades e representantes políticos que se autoironizam em programas televisivos. Esses são modelos extremamente recorrentes. O que havíamos esquecido é como a ironia é um elemento constituinte do autoritarismo. Como dizia Saint-Just, “Esse que brinca na cabeça do poder tende à tirania”, pois uma normatividade que funciona de forma cínica é aquela que traz em si mesma sua própria negação, a consciência de seu próprio impasse, a figura de sua própria crítica, mas sem que tal contradição lhe impeça de continuar a funcionar como sempre funcionou. Diferente de uma dinâmica propriamente dialética, na qual a explicitação da contradição internalizada permite a metamorfose das formas e figuras da consciência, o cinismo é a forma mais perfeita de uma dialética travada, cuja explicitação da contradição é apenas uma forma de consciência estacionária.

Isso significa que as pessoas são conscientes do caráter impotente das enunciações que elas mesmas sustentam, mas tais enunciados devem continuar a ser ditos, devem continuar a circular misturando seriedade e ironia, como se estivéssemos em uma situação de ironização absoluta das condutas. E não por acaso descobre-se que as figuras atuais de lideranças autoritárias são, em sua grande maioria, “cômicas”, “paródicas”. Muitas delas vieram ou passaram longas temporadas no universo da comunicação de massa, com seus personagens que jogam deliberadamente com a própria caricatura e estereotipia, que riem de si mesmos a todo momento, que nos fazem a todo momento ficar em dúvida se estão falando a sério ou não. Pois a comicidade cínica é uma formação bem-sucedida de compromisso. Ela permite preservar comportamentos os mais brutais ao mesmo tempo que abre uma distância possível entre enunciado e enunciador, entre discurso recebido e posição do receptor.26 E seria o caso de lembrar que a forma mais acabada do autoritarismo é o poder soberano de quem decide quando se deve levar suas enunciações a sério e quando ele está “apenas brincando”.

Assim, não será surpreendente descobrir, por exemplo, que uma das aparições mais inacreditáveis de Javier Milei em sua campanha era junto de sua ex-namorada, Fátima Florez, uma comediante conhecida por fazer imitações de políticos, em especial de Cristina Kirchner. Em um programa de talk show no estilo “na mesa da minha cozinha com os astros”, ela fala com ele como se fosse Cristina, ironizando o próprio embate político. Trump, por sua vez, ficou conhecido por programas televisivos em que fazia o papel de si mesmo em um nível ainda maior de autocaricatura. Muito antes de se tornar presidente, era alguém que estava cotidianamente nas televisões norte-americanas participando de esquetes de humor, de propagandas de chicken wings no meio de um conjunto de dançarinos fantasiados de frangos. Antes de qualquer coisa, Trump é alguém que sempre praticou a autoderrisão, e isso é fundamental. Da mesma forma, Bolsonaro ficou conhecido nacionalmente graças a sua participação em programas televisivos de humor. Antes de todos eles, Berlusconi passou à história por sua persona na qual se misturavam sarcasmo, derrisão e autoritarismo. Nada disso é coincidência. Antes, tais figuras autoritárias explicitam a função central do cômico na estabilização do poder. (...)

Nesse sentido, um erro de análise clássico aqui é levar o discurso do fascismo contemporâneo a sério demais, e nesse ponto encontramos um elemento novo em relação ao integralismo. Se no integralismo havia essa crença tipicamente classe média em seus próprios delírios de semiformação, agora é melhor entender que o discurso é feito para não ser levado a sério, pois a inconsistência é uma virtude, é uma arma. A inconsistência garante a liberdade soberana da ação. Em uma situação de guerra, a coerência é um defeito, pois não permite adaptar-se continuamente a um espaço de ação sempre em mutação e surpresa. Já a inconsistência permite a construção de uma espécie de espaço transicional onde a verdade dos fatos pode ser suspensa em nome da verdade do desejo, como fazemos nos jogos que inventamos.

O humor se torna assim uma peça central do poder, pois se trata de operar a identificação com tais lideranças de forma “cínica”, no sentido de identificações que se colocam como “mera aparência” e que, dessa forma, permitem que os discursos mais violentos circulem, produzam efeitos, sem que os agentes se autodescrevam como efetivamente implicados. Algo fundamental para sustentar as estruturas violentas da personalidade sem exigir o preço próprio a uma ética da convicção. Tudo isso nos mostra como a indústria cultural é a linguagem natural da extrema direita – e talvez não seja mero acaso que ela volte a crescer exatamente no momento em que a crítica cultural não pareça mais fazer sentido para amplos setores do campo progressista, fascinados pela obrigação de organizar lutas sociais como lutas contra-hegemônicas. E seria ainda o caso de lembrar que quanto maior a descrença, maior a violência. A crença enquadra a violência em rituais e normas, ela dá formas e limites à violência autorizada. Já a descrença autoriza a violência e em quaisquer de suas formas e intensidades. A violência que conhecemos hoje não é a violência da crença, mas a da descrença. A pior e mais agressiva de todas. O que temos são crentes da descrença. Crentes que sabem muito bem a fragilidade de suas crenças, por isso se aferram a elas com muito mais desespero e surdez.

Esse é um ponto central, porque os modelos de adesão e crença modificaram-se brutalmente em nossas sociedades. Não estamos mais diante das estruturas clássicas da hipocrisia burguesa que prega valores universalistas enquanto esconde interesses particulares, que cria instituições “democráticas” mas faz da democracia e de suas instituições algo para grupos específicos e para regiões demarcadas, que faz exortações morais mas exige apenas a preservação de aparências. Essa estrutura da hipocrisia pede um discurso de duplo nível no qual o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado não coincidem. Eu falo algo, mas meus reais interesses são contrários à minha enunciação. Por isso, em situações dessa natureza, faz-se necessário não desmascarar os verdadeiros interesses do sujeito do enunciado, seu lugar real.

No entanto, diferente da hipocrisia, o cinismo não é um discurso de duplo nível. Antes, ele é uma forma de explicitação dos interesses do poder, de transparência que tem o efeito de um “falar franco” no qual a resignação pode aparecer como realismo maduro. Não precisamos mais esconder que não iremos governar para todos. Dizemos que iremos governar para todos com o ar de uma suprema ironia. Agora, falamos isso com a cumplicidade desafiadora de quem diz: “As palavras precisam mudar de sentido porque, sejamos francos, agora não há mais sociedade para todos. ‘Todos’ é agora os que sobrarão depois do grande expurgo, ‘todos’ é todos os que parecem conosco”.

Nesse sentido, seria o caso de tomar com um grão de sal a associação da extrema direita a um discurso no qual a mentira, o engodo e a desinformação seriam os elementos constituintes de sua força ou mesmo a aproximação da extrema direita a um “sistema delirante” de crenças partilhado por seus eleitores.28 Assim, não faltam as demonstrações de indignação diante da facilidade com que eleitores e eleitoras de extrema direita aceitaram as proposições as mais inverossímeis, as trucagens as mais primárias. Mas seria o caso de parar de acusar a extrema direita de mentir sistematicamente e começar a se perguntar o inverso, a saber, o que ela fala de verdadeiro?

Acreditar na força central da mentira é ver seus eleitores como portadores de alguma forma de déficit cognitivo de base, como se tivessem certa facilidade estrutural para serem enganados. Melhor seria, no entanto, entender que os eleitores de extrema direita admitem que a existência de uma posição de extrema direita já é, em si, a expressão de uma verdade, de uma decisão de dizer as coisas como elas realmente são, de falar francamente. Diante disso, o resto é a ampliação, o “exagero” necessário para fazer com que todos entendam a gravidade da situação. Se esse “exagero” é ou não factualmente verdadeiro, isso não retiraria em nada sua validade como alerta, como antecipação do que poderia realmente ocorrer. Ou seja, não, eleitores e eleitoras de extrema direita não estão sendo enganados, nem estão em um delírio partilhado. Eles sabem muito bem o que fazem, e continuam a fazê-lo porque, para eles, mesmo que as informações partilhadas não sejam exatamente um fato, são a expressão da tendência que poderia em algum momento se tornar realidade. Essa é uma maneira de lembrar de que não se trata de fornecer a versão correta dos fatos e esperar que isso tenha efeito de dissuasão. A verdade é uma força política fundamental e continuaremos a errar sistematicamente de alvo enquanto não entendermos a capacidade da extrema direita em enunciar, nas entrelinhas, proposições verdadeiras. O que mostra a natureza do problema que nos espera.”

25 O exemplo paradigmático dessa estrutura de negação, conhecida clinicamente como Verleugnung, foi fornecida por Sigmund Freud, “O fetichismo”, in Obras completas, V. 17, trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, pp. 302–10.

26 Rodrigo Nunes descreveu essa mesma lógica a partir do uso de trolls pela extrema direita em R. Nunes, Do transe à vertigem: Ensaio sobre o

28 Esse é meu ponto de discordância com André Singer, “Regime autocrático e viés fascista: Um roteiro exploratório”. Lua Nova, n. 116, 2022, com quem partilho uma série de convergências já explicitadas em nossos textos comuns.

 

 

“Gostaria de terminar insistindo na importância da discussão sobre o cinismo para a compreensão da ressurgência da teologia como elemento fundamental de mobilização dos novos fascismos mundiais. Muitos gostariam de ver em tal ressurgência alguma expressão de regressão social, de retorno a um arcaísmo obscurantista que exporia a incapacidade das massas em assumir as consequências da modernização social. Mas devemos compreendê-la sob fundo de descrença. Não falamos de vínculos orgânicos à religião e seus sistemas de crenças, mas de conversões de populações precarizadas seduzidas por encontrar um dos poucos vínculos comunitários que não foram destruídos e negados pela lógica neoliberal. Tais vínculos têm força real de proteção social e de assistência, além de fornecer o enquadre simbólico para uma ordem social em guerra, já que a guerra (contra o mal, contra a degradação moral, contra o colapso das hierarquias “naturais”) é fator de constituição dessa forma de laço religioso. Ou seja, longe de uma questão de crença em sistemas de valores, temos na verdade a adesão a aparatos sociais de segurança e mobilização.

Poderíamos nos perguntar por que logo a religião foi a estrutura comunitária preservada pelo neoliberalismo. Uma das respostas possíveis é que relações teológico-políticas têm como uma característica principal confundir governo e luta contra o mal. Todas as vezes que o mal é invocado no campo político, voltamos à teologia. Afinal, contra o mal não há negociação, há luta de vida ou morte, há vitória e esconjuração. Contra o mal há essa violência absoluta que é própria da teologia em exercício. Não há um conceito secular de mal, ele sempre foi e será um conceito teológico. Nesse sentido, em todo lugar onde o “mal” for mobilizado, em relação ao outro e em relação a si, estaremos no interior de relações de hierarquia e de valoração que pedem uma operação de natureza teológica-política. Assim, governar terá para nós o sentido de lutar contra o mal que habita ou que espreita nosso corpo social. Um mal que tem como expressão mais bem-acabada a insubmissão. O mal nunca foi uma questão de crueldade e violência, até porque não existe bem que não permita a crueldade contra aqueles que não acreditam no bem que defendemos. O mal fundamental sempre será ignorar as hierarquias necessárias.

Em um horizonte social em decomposição, recorrer ao discurso sobre o mal se torna um dispositivo precioso para paralisar insubmissões potenciais e fortalecer defesas narcísicas combalidas. No entanto, notemos como não estamos diante de bolsões de resistências à modernização, mas de um fenômeno interno às consequências da modernização e sua precarização social.”

 

 

“Por isso, eu tenderia a inverter os fatores e terminar este longo ensaio dizendo que, se o fascismo, de certa forma, aparece como uma resposta realista às crises que marcam nosso tempo, se ele aparece talvez como a única resposta realista, então não deveríamos temer afirmar que só um irrealismo delirante pode nos salvar. Há momentos históricos nos quais o delírio é a única saída consequente. Os escravizados haitianos que, no final do século XVIII, rebelaram-se contra forças coloniais infinitamente superiores às suas deliraram sua liberdade. Tanto que precisaram pedir a ajuda de rituais vodus para começar a história de sua libertação.35 No entanto, ao final, o delírio venceu. Foi assim várias vezes em vários lugares e será assim várias vezes e em vários lugares. A história é prenhe de momentos em que o delírio vence. Aquelas e aqueles que deliraram nesses momentos históricos não foram habitar nuvens, mas acabaram por aprender a lutar de outra forma, dando corpo ao impossível, falando outras gramáticas e empurrando suas épocas para além dos limites do que então era a realidade. Uma realidade muito embebida em catástrofe para merecer outra coisa que a aceleração do seu desabamento. Toda verdadeira transformação revolucionária começou como um delírio, porque sobre os próximos passos da longa história de nossas lutas por emancipação nada sabemos. E há de se entender a segurança delirante que esse desamparo é capaz de criar. Nada saber do futuro é poder imaginar tudo criar. Ou se quiserem, e isso significa a mesma coisa, é entender que, como dizia Jacques Lacan, “viver sem esperança é viver sem medo”.

De toda forma, seria o caso de se perguntar para onde nos levaram os apóstolos do realismo que ainda colonizam a prática e o pensamento das esquerdas. O realismo deles, suas políticas de tentativa de gestão mais humana das crises terminais do Capital, apenas gerou ao fim uma espiral de frustração social e de sentimento de impotência que acabou por acelerar a emergência do fascismo.36 Seus cálculos que deviam retardar a ascensão fascista apenas a aceleraram. Eles não têm lição alguma a nos dar. França, Estados Unidos, Itália, Chile, Argentina, Reino Unido, Brasil, a história é praticamente a mesma: depois da gestão dita responsável de uma esquerda realista veio o fascismo, ou veio a lenta preparação dramática para ele ou sua consolidação final como uma espada que ficará sobre nossa cabeça por tempo indeterminado. Como disse no começo deste ensaio, de agora em diante, o único jogo possível é uma revolução contra outra.

Que cada um termine o raciocínio como achar que deve.”

35 C. L. R. James, Os jacobinos negros, trad. Afonso Teixeira Filho. São Paulo: Boitempo, 2004.

36 A constituição acurada dessa lógica foi fornecida por Daniel Feldmann e Fábio Santos, O médico e o monstro: Uma leitura dos progressismos latino-americano e seus opostos. São Paulo: Elefante, 2021.

 

 

“Falo isso porque nosso presente está diante de uma catástrofe dessa natureza. A catástrofe da qual estou falando está associada a um lugar chamado Gaza. Gostaria de começar por lembrar que há vários sentidos do sintagma, tão usado atualmente, “todo pensamento é pensamento a partir de um lugar”. Afinal, devemos necessariamente particularizar lugares ou devemos mostrar como certos lugares específicos nos permitem apreender a totalidade funcional do sistema social do qual fazemos parte? Um pensamento a partir de lugares tem sua força normativa restrita ao lugar de onde emerge?

Alguns acreditam que devemos assumir uma limitação do pensamento como condição de ponto de vista. Como se eu estivesse necessariamente vinculado ao lugar que ocupo e isso definiria meu ponto de vista, um lugar que outro não poderia ocupar, ou um lugar que limita minhas pretensões de falar para todos e quaisquer. A isso, alguns chamam de “pensamento situado”. Mas devemos entender de outra forma a ideia de que “todo pensamento é pensamento a partir de um lugar”, pois cabe a todo pensamento pensar a partir da capacidade de se deixar afetar por certos lugares que funcionam como sintomas da totalidade social. Há lugares que são como sintomas, no sentido de espaço onde uma contradição global se explicita, uma verdade expulsa retorna, fazendo o corpo social inteiro claudicar. Um sintoma é o que nos faz não conseguir mais desviar, porque faz emergir algo que só poderá ser ignorado à condição de se criar um dispositivo de “não querer saber”, um sistema de silenciamento e apagamento que sempre fracassa – e quanto mais fracassa, mais violento se torna.

Se assim for, “todo pensamento é pensamento a partir de um lugar” não é necessariamente uma proposição que determina que só quem está em certo lugar (geográfico, social) pode pensar certas situações. Antes, ele nos lembra que há lugares que todo e qualquer pensamento que aspire a um conteúdo de verdade não pode ignorar, não pode se desviar. Há aquilo que poderíamos chamar de uma “universalidade de combate”, que consiste em se associar a um lugar do qual não viemos, habitados por pessoas que não têm nossas identidades sociais nem partilham necessariamente nossas formas de vida. No entanto, sabemos que a possibilidade de uma humanidade por vir, e creio que essa ideia faz cada vez mais sentido, depende de nos associarmos a elas e pensarmos a partir de seus lugares. Para a nossa época, esse lugar é Gaza.

Alguém poderia começar questionando o significado dessa excepcionalidade dada a Gaza, mesmo que estejamos diante do maior massacre de civis em todo o século XXI: 68 mil pessoas até agora, mas temos informações que nos falam em 200 mil pessoas. A desinformação e o assassinato de jornalistas foi prática normal durante toda essa guerra. Enquanto todas as guerras combinadas entre 2019 e 2022 mataram 12 193 crianças, ao menos 12 300 crianças foram mortas apenas nos quatro primeiros meses da Guerra em Gaza. Em setembro de 2025, toda a população de Gaza estava em condição de “fome catastrófica”, o mais elevado grau de fome segundo o Sistema de Segurança Alimentar Integrado (IPC). “Este é o maior número de pessoas já registrado de vítimas de fome catastrófica em qualquer lugar em qualquer tempo”, segundo palavras do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A fome de populações civis se tornou uma arma de guerra que lembra os piores momentos do colonialismo europeu.

Mas não é essa magnitude que faz de Gaza o ponto de partida de todo pensamento que queira pensar a catástrofe que marca nosso tempo. Afinal, poderíamos entrar naquele exercício macabro e desprovido de sentido de comparar extermínios e genocídios. A esse respeito, eu só poderia aqui fazer minhas as palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares que, diante da contraposição entre genocídios que visa apenas limitar nossa capacidade de sentir o intolerável quando ele está diante de nossos olhos, afirmou em um texto memorável: “As dores não são comparáveis, elas são a mesma”.1 Sim, é verdade. Não há motivo para comparar a dor porque, até segunda ordem, não há em supermercados balanças de intensidades de dor, medidores de gritos, termostatos de explosões de edifícios. Não se compara o que é o mesmo.

Na verdade, o que faz de Gaza esse ponto de partida do pensamento de nossa época é a conjunção entre quatro processos: repetição, dessensibilização, des-historização e vazio legal. Seria o caso então de falar de cada um deles por entender que não são apenas reações ao que vem de Gaza, mas dispositivos globais de governo a serem aplicados, em escala indefinida, contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Ou seja, Gaza diz respeito a todos nós porque estamos diante de uma espécie de Laboratório Global para novas formas de governo. Como já vimos em outros momentos da história, práticas e dispositivos de violência estatal e sujeição desenvolvidas em locais periféricos específicos são paulatinamente generalizados em situações de crise. Quando pensadoras como Berenice Bento afirmam existir uma “palestinização do mundo”,2 há de se tomar essas palavras a sério.

Permitam-me recuperar uma análise macro-histórica já apresentada no início deste livro. Como insisti anteriormente, estamos diante de uma conjunção inédita de crises que não têm como passar dentro do sistema capitalista que as gerou: crise ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. Crises que tendem, em larga medida, a se estabilizar, tornando-se o regime normal de governo, como a longa crise política das instituições da democracia liberal nos últimos vinte anos ou a longa crise econômica, presente no horizonte de justificação das políticas econômicas de nossos países e instituições desde 2008. Essas crises não impediram a preservação dos fundamentos da gestão econômica neoliberal, nem o aprofundamento de sua lógica de concentração e de silenciamento de lutas sociais. Antes, podemos mesmo dizer que elas forneceram o solo ideal para a realização de tais processos. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma mutação de nossas formas de governabilidade, pois estas podem cada vez mais normalizar o uso de medidas excepcionais, violentas e autoritárias no interior de processos de gestão social, já que estamos em situação de medo contínuo.

Como vimos, diante de uma situação dessa natureza, algumas possibilidades se colocam diante de nós. Uma delas é a transformação estrutural das condições que geraram tal sistema de crises conexas, outra é a generalização do paradigma da guerra como forma de estabilização da crise. A segunda opção, a que nos parece atualmente a mais natural, exige a generalização da lógica da guerra infinita como paradigma de governo. Afinal, a guerra infinita permite uma espécie de corrida para a frente que nunca termina, na qual a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Diante da decomposição social, a guerra permite uma forma de coesão, enquanto naturaliza, repete e generaliza níveis de violência e indiferença inaceitáveis em outra situação. Isso ajuda a entender por que, neste momento histórico, não há sequer órgãos de mediação multilateral, como a ONU. Gaza marcou o fim de fato das Nações Unidas como instância vinculante, já que mesmo uma exigência de cessar-fogo de seu Conselho de Segurança é recebida pelo Estado de Israel com uma indiferença soberana. Até mesmo a afirmação da ONU de que estamos diante de um genocídio é recebida com uma cínica indiferença internacional.

Como afirmei anteriormente, o fato fundamental a respeito do paradigma da guerra infinita é a reorganização da sociedade civil a partir da lógica da guerra. Isso significa uma forma de gestão social baseada na militarização das subjetividades. Esse processo tem como seu ponto de inflexão a operação macabra que vemos agora todos os dias e que consiste em fazer as pessoas não sentirem Gaza. Este é o verdadeiro experimento social: dessensibilizar sujeitos em relação a catástrofes, levar pessoas a não mais se indignarem nem agirem para impedi-la. Como se devêssemos nos preparar para o que será a normalidade generalizada de nossas sociedades na fase terminal do capitalismo. Se isso for possível, então Gaza será apenas o primeiro capítulo de uma implosão social generalizada.”

1 Luiz Eduardo Soares, “As palavras apodrecem”. A Terra é Redonda, fev. 2024.

2 Berenice Bento, “Defensores de Israel usam antissemitismo como instrumento de chantagem”. Folha de S. Paulo, 18 jan. 2024.

 

 

“Como se não bastasse, não posso alegar direito de defesa quando lido com reações vindas de um território que ocupei ilegalmente. Contrariamente ao que acreditam alguns, há lei internacional e ela diz claramente o que deve ser feito. O direito internacional reconhece à Palestina o estatuto jurídico de “território ocupado”, ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 da ONU há mais de cinquenta anos. Ou seja, a melhor defesa é respeitar a lei internacional e devolver os territórios ocupados. No entanto, em Gaza, a lei deixa de ter força de lei. Na verdade, deixar um povo sem lei, sem Estado, sem cidadania é uma prática de construção de vazios jurídicos que nos remete ao núcleo de colonialismo insuperável de nossas sociedades modernas, que continuam coloniais. A questão central é: “contra quem?”. Pode-se falar da permanência do colonialismo porque estamos diante de um poder soberano que decide quando a lei vige e quando a lei é suspensa, em que território ela se aplica e em que território ela é impotente. A isso, alguns chamam de “democracia”. No entanto, isso é apenas a partilha de uma geografia da lei típica das relações coloniais.

Por isso, seria o caso de deplorar com todo o vigor os acadêmicos e as acadêmicas que se dizem guardiães do pensamento pós-colonial e que se calaram vergonhosamente diante de uma típica catástrofe colonial, que fizeram declarações protocolares, que parecem mais indignados diante de problemas pronominais do que diante de corpos enterrados sob escombros de bombas. Quem quiser pensar criticamente deve estar disposto a não colocar seus interesses pessoais diante dos engajamentos necessários. Eu realmente desconfio que o pós-colonialismo de alguns termina nos limites do Comitê de diversidade do Magazine Luiza. E seria o caso de reconhecer a coerência profunda e a honestidade intelectual desses acadêmicos e acadêmicas que sofreram as piores retaliações e estigmatizações por demonstrar solidariedade ao drama palestino em um momento no qual a solidariedade se tornou uma das armas mais raras.

A meu ver, creio que algumas dessas pessoas entenderam que nessas horas a filosofia deve funcionar como um freio de emergência. Conhecemos este fragmento de Walter Benjamin: “Marx diz que as revoluções são a locomotiva da história universal. Mas talvez as coisas se passem de maneira diferente. Talvez as revoluções sejam o gesto de acionar o freio de emergência por parte do gênero humano que viaja nesse vagão”.6 Em um momento no qual ficam cada vez mais claras as relações orgânicas entre os últimos anteparos da civilização ocidental e o extermínio, os últimos anteparos da democracia e a catástrofe, vale a pena lembrar como os verdadeiros gestos revolucionários são os que decidem puxar o freio de emergência.”

6 Walter Benjamin, O anjo da história, trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 230.

A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais (Parte II), de Vladimir Safatle

Editora: Ubu

ISBN: 978-85-7126-250-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 240

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Aqui, podemos retomar nosso problema inicial e esclarecer como o paradigma da guerra infinita opera oferecendo uma resposta ao sistema de crises conexas que marca nossa época. Em suas várias inflexões, podemos dizer que ela se assenta em certa forma de realismo que consiste em dizer que não há como modificar as bases de reprodução material da sociedade. Por isso, as crises conexas nas quais nos encontramos não impulsionarão uma superação ou mesmo uma transformação estrutural do capitalismo. O realismo fascista é aquele que afirma não haver dia seguinte a tais crises. Ou seja, não haverá um dia que olharemos para trás e diremos: “Enfim, a crise ecológica passou” ou “Enfim, a crise econômica passou”. Do ponto de vista interno ao capitalismo, diante de crises dessa natureza, ele não se reforma, a não ser que forças ligadas ao sistema de lutas operárias o obriguem a tanto, e elas não estão na ordem do dia. Na verdade, em situações como essa, o capitalismo acelera. Ele aprofunda suas ilusões de extração infinita de valor da terra e do trabalho, independentemente dos custos de tal ilusão. Como dizia Marx, nessas ocasiões, as forças produtivas se mostram claramente como forças destrutivas.

Como se tivesse uma consciência precisa do que é possível esperar no interior do capitalismo, a extrema direita acaba por fornecer um diagnóstico “realista”. Ele consiste em dizer, nas entrelinhas: não há como continuar gerindo as crises do sistema capitalista a partir do próprio sistema. No entanto, como não há alternativa possível, o que resta é salvar uma parte da sociedade e deixar o resto perecer, expulsar o resto de nossas fronteiras, deportá-los em massa, deixá-los na mais absoluta miséria, submetê-los à máxima espoliação através do aumento exponencial da violência policial, da precariedade de suas vidas, da guerra de raças. Ou seja, a lógica é a da explicitação da guerra civil que teve na guerra fascista sua realização mais bem-acabada.

A possibilidade de fazer parte dessa parcela da sociedade a ser salva é o que mobiliza o setor da população que hoje adere à extrema direita. Seja através da preferência nacional, seja através do discurso do empreendedorismo com o seu “quem trabalhar duro irá se salvar” ou da “liberdade” para sobreviver e burlar as regras que pretensamente nos impediriam de crescer, seja, em outros casos, através do discurso religioso dos escolhidos, o que sempre está em questão é a partilha entre quem será salvo e quem será sacrificado. Nesse processo, são os pontos mais frágeis da coesão social que se tornam os alvos. Alliez e Lazzarato perceberam muito bem como o processo de acumulação primitiva e suas intensificações periódicas não poderiam ser pensados apenas a partir do eixo da relação capital / trabalho, mas mobilizando uma multiplicidade de guerras (contra mulheres, de raça, de subjetividades, de civilização, de sexualidades, contra a natureza).52 Verónica Gago e Luci Cavallero lembram, por exemplo, o lugar central de certo “antifeminismo de Estado” na fascistização neoliberal da reprodução material. Trata-se de compreender a acumulação primitiva como mobilizadora tanto do trabalho pago quanto do trabalho gratuito (como o trabalho doméstico e o trabalho escravo, que nunca desapareceu do horizonte concreto do capitalismo), tanto do trabalho quanto dos pontos de alteridade que são convites à segregação e à espoliação. O espaço doméstico deve virar espaço de financeirização, de aprendizado da hierarquia e de aceitação da sujeição. Não é estranho então perceber como são nessas zonas de tensionamento que tendencialmente se exprime a partilha entre os que serão protegidos e os que serão predados.

Nesse sentido, o realismo da extrema direita atual é a constatação de que a sociedade se tornou muito pequena, de que “não há sociedade para todos”. De fato, não há e essa é a verdade que sustenta a política de ressurgência do fascismo. Mas, em vez dessa proposição provocar o desejo de outra sociedade mobilizando a luta por transformações estruturais, ela produz a adaptação cínica ao existente.”

52 Éric Alliez e Maurizio Lazzarato, Guerras e capital, trad. Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Ubu Editora, 2021, p. 83.

 

 

“A opção pela violência contra o “próximo da fila” não vem de uma incompreensão do sistema de causas e efeitos da espoliação econômica, como se estivéssemos diante de pessoas estúpidas, com limitações cognitivas evidentes.23 Ela vem de um cálculo racional de meios de fins sobre o que pode garantir mais facilmente nossa sobrevivência, mesmo que esse cálculo seja catastrófico.24

Esse é apenas um exemplo de como a crítica da ideologia não deve se ver como um setor das denúncias das ilusões da falsa consciência. Nesse caso, o modelo da ideologia aparece como o de uma limitação cognitiva da consciência. Na verdade, a ideologia age quando nos tornamos realistas por completo, ou seja, absolutamente colados à realidade atual, como se qualquer movimento para fora dessa realidade fosse “pura ideologia”, fosse dramaticamente impossível. Quando nos colamos a uma realidade que só pode se perpetuar pelo sofrimento social cada vez maior, todo cálculo racional se torna uma naturalização da violência e da irracionalidade. Nesse sentido, a crítica da ideologia precisa inverter seus sinais e partir dos modos de adesão à literalidade, das formas de aceitação das exigências em agir de forma realista no interior de um cenário totalmente irrealista. Ou seja, a crítica da ideologia deve, paradoxalmente, tornar-se uma “crítica do realismo”, porque, em uma situação como a atual, o realismo é apenas a racionalidade do pior.

De toda forma, tais considerações nos mostram como o ressentimento consegue explicar ações derivadas de circuitos de violência e de falta de solidariedade social. Ou seja, estamos no nível dos efeitos, das reações catastróficas a um horizonte de desagregação da ação política, mas não estamos falando de causas do comportamento político. Por isso, não faz sentido agir politicamente sobre o ressentimento, no entanto é possível agir sobre suas causas e escutar o diagnóstico social que o ressentimento explicita.

Deixe-me dar um exemplo para explicar o que tenho em mente. Em A angústia do precariado,25 o sociólogo Ruy Braga apresenta o resultado de uma pesquisa feita com trabalhadores brancos de comunidades rurais na Pensilvânia que se converteram ao trumpismo. O que se depreende desse trabalho é uma imagem dos trabalhadores muito distinta das que circulam atualmente: precarizados e empobrecidos, percebem que as promessas progressistas não resultam em transformações efetivas que lhes garantam qualidade mínima de vida.

Exemplar é a história que Braga relata dos trabalhadores de uma indústria papeleira fechada na Pensilvânia por ser muito poluente e que, ao ser reaberta sob o comando de uma administração alinhada com as exigências ecológicas, viu a qualidade e a quantidade dos empregos decair. Quando o Partido Democrata aparece na região acenando com “empregos verdes”, os trabalhadores preferem as promessas de defesa de empregos da America first de Trump, porque entendem que os “empregos verdes” foram apenas uma maneira de jogar nas costas deles os custos da transição ecológica e suas precarizações. A experiência que tiveram nesse sentido lhes fez avaliar que a opção trumpista lhes dava mais segurança. Ou seja, trata-se de uma escolha racional que não pede mobilização de nenhuma hipótese psicológica como o ressentimento para ser compreendida. Sua racionalidade pode ser sobrevivencialista e distópica, mas nem por isso é menos racional. O que simplesmente mostra como ações racionais estão longe de nos assegurar boas escolhas por si sós.

Seria o caso de terminar este ponto insistindo como o ressentimento não é patológico e se tornou racional em um cenário de impotência das políticas progressistas em efetivamente garantir melhores condições estáveis em um horizonte terminal de decomposição generalizada. A única forma de efetivamente combatê-lo é modificando o horizonte de expectativas e de ações sociais tendo em vista a retomada de processos de transformação revolucionária, mas isso está cada vez mais fora da pauta e temo que o uso atualmente extensivo das temáticas da regressão e do ressentimento é apenas uma maneira adotada por acadêmicos para compensar sua descrença e disposição de engajamento em qualquer processo emancipatório de características revolucionárias.”

23 Como vemos em colocações completamente equivocadas, como “o fascismo continua operando no seio das sociedades democráticas porque quem se vê prejudicado pela lógica da concentração econômica não pode juntar os pontos de sua cadeia causal” (E. Illouz, op. cit., p. 15). Colocações como essa são politicamente catastróficas e ignoram que quem se vê prejudicado pela lógica da concentração econômica pode muito bem conseguir juntar os pontos, mas não encontra ninguém no final da linha que seja efetivamente capaz de mudar a situação e fazer algo com os pontos juntados. Por isso, tal sujeito entende como mais racional agir seguindo a lógica do ressentimento e do cinismo.

24 Por isso, é difícil concordar com Rahel Jaeggi, para quem o ressentimento deve ser compreendido a partir de uma lógica da regressão social, isso no sentido de reações defensivas que não confrontam os problemas postos, mas procuram criar a ilusão de ser possível preservar uma situação já completamente arruinada. Ou seja, denegações que procuram evitar o teste de realidade que obrigaria o ressentido a confrontar efetivamente as causas de sua angústia (R. Jaeggi, “Modes of Regression: The Case of Ressentiment”. Critical Times, V. 5, n. 3, dez. 2022). Assim, por exemplo, a autora lembra como a abolição do politicamente correto ou a expulsão de imigrantes não irá trazer os empregos de volta aos trabalhadores empobrecidos porque efetivamente nada poderá trazê-los de volta. No entanto, se esse for o caso, insisto que é absolutamente racional voltar sua violência contra o próximo da fila ou o trabalhador ao lado que pode ser expulso da vida social por já ser objeto de preconceitos arraigados. É catastrófico, porém racional, ao menos no sentido de cálculo entre meios e fins. Se nada irá trazer nossos empregos de volta, então melhor preparar-se para uma guerra civil permanente. Ou seja, a retração dos horizontes de transformação social irá sempre produzir, necessariamente, ressentimento como uma reação desesperada e final. Longe de ser uma regressão, a reação é uma escolha racional em um horizonte socioeconômico totalmente irracional. É uma decisão racional de se adaptar a uma sociedade irracional.

25 Ruy Braga, A angústia do precariado. São Paulo: Boitempo, 2023, p. 78.

 

 

“Gostaria de defender que essa extensão da racionalidade econômica produziu dois fenômenos fundamentais: a restrição das gramáticas do Eu a uma única gramática totalizante decalcada da economia e a ampliação das demandas de decisão e responsabilidade individuais em um momento em que o Eu não encontra mais apoio social algum, em que as relações elementares de solidariedade entraram em decomposição. Esses dois fenômenos acabam por impulsionar a crise psíquica que tentei descrever.”

 

 

“Daí uma afirmação central para entendermos o que realmente estava em jogo na emergência do conceito de pulsão de morte:

Há dentro de nós, paralelamente ao desejo de perseverar, um desejo de transformação, sendo que este último significa que um conteúdo representacional é diluído em um material semelhante a ele, proveniente de tempos passados e que, portanto, deve se transformar à custa do indivíduo em um desejo típico, ou seja, um desejo da espécie, o que é projetado para fora pelo indivíduo como obra de arte […]. Porém, por outro lado, o que significa essa diluição para a partícula do Eu senão a morte?28

Lembrar desse contexto originário é, a meu ver, uma maneira de sermos mais críticos em relação ao uso do conceito de pulsão de morte para dar conta da especificidade do regime de violência no fascismo. O uso político do conceito esconde uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de impor julgamentos morais a problemas políticos. Afinal, estaríamos em uma luta de defesa das “forças da vida” contra as “tendências da morte”, da construção democrática frágil e desencantada contra a pura destruição de si e do outro. Nesse contexto, é difícil imaginar que vamos ter algo mais do que uma luta com ares teológicos, com todos os problemas que isso implica. Mais interessante seria lembrar como a pulsão de morte nos mostra que a destruição é desejada por ser um dispositivo fundamental de devir e que de nada serve uma crítica política que se coloca contra tendências políticas específicas por estas serem “destrutivas”. Até porque toda verdadeira política emancipatória é, em algum sentido, “destrutiva”.

Parece que entramos em uma contradição, visto que este capítulo havia começado por insistir na necessidade de especificarmos a violência fascista a partir de seu desejo de autodestruição. Aparentemente, temos agora uma proposição contrária, já que o desejo de autodestruição não é especificidade de uma experiência política, mas é geral à necessidade de transformação estrutural. Na verdade, criei esse movimento textual para insistir que, mesmo admitindo que há destinos da pulsionalidade que podem se realizar como destrutividade bruta e direta, seria necessário não se contentar com o fantasma da pura aniquilação e se perguntar o que há de positivo nessa procura fascista de autodestruição do povo. Essa verdadeira teologia da defesa da vida travestida de luta política que normalmente aparece quando o termo “pulsão de morte” é convocado nos impede de colocar a verdadeira questão analítica: o que o Estado fascista procura preservar através do suicídio? Quais são os horizontes normativos positivos de seu desejo de catástrofe? E, para tanto, os usos políticos da pulsão de morte não nos servirão de nada. De fato, precisamos nos voltar ao polo contrário, ao sistema de ideais do Eu, aos elementos fundamentais dos mecanismos de autopreservação do Eu. Afinal, por mais paradoxal que possa parecer, a violência fascista nasce das formas de preservação do Eu, não das dinâmicas libidinais de sua decomposição. Não é excesso de destrutividade que caracteriza a violência fascista, mas, paradoxalmente, excesso de preservação. É uma questão de como os sonhos de autopreservação produzem monstros. Ou seja, o alvo da crítica está simplesmente de cabeça para baixo.”

 

 

“As máscaras da virilidade são máscaras que caem a todo momento, e os que as usam sabem bem como elas estão continuamente a cair.

Essa é uma maneira psicanalítica de descrever a contradição estruturante da posição masculina: ser ao mesmo tempo o centro de poder e a expressão da impossibilidade de que ele seja exercido sem a consciência angustiante de sua carência, impostura e fraqueza. Há situações nas quais tal contradição faz do falo um semblante que nos lembra como ninguém pode falar do poder identificando-se completamente com seu lugar. Em outras, sujeitos buscam criar condições sociais para a emergência de outro gozo.19 Mas há também situações nas quais essa contradição é negada através da identificação com a representação fantasmática de um lugar soberano de exceção, de estar acima da lei ou de ser a própria figura da lei. Porque é típico das fantasias masculinas a imagem de uma exceção para quem as máscaras da virilidade não caem a todo momento. Quando a preservação defensiva de tal fantasia ocorre, não é difícil encontrar subjetividades que irão celebrar a execução e o extermínio, tenderão a se organizar como milícias, confundirão liberdade com autoarmamento, produzirão identificações com a virilidade vazia dos fracos armados com todos os traços produzidos por lógicas de identificação com o agressor.

Apoiada pela crise psíquica produzida pela ordem neoliberal e seu aumento exponencial de sofrimento, a militarização da subjetividade nos explica como a brutalização social e a violência fascista não precisam ser compreendidas como regressões, como ressentimento ou um tipo específico de personalidade autoritária. Elas são expressões de um colapso psíquico produzido pela ordem socioeconômica que fragiliza sujeitos ao mesmo tempo que exige deles o fortalecimento de seus foros de decisão e deliberação. Nesse contexto, um traço estruturante da formação normal da personalidade se torna o eixo de impulsionamento da explicitação e intensificação da violência social.

Nesse sentido, o fascismo funciona como uma espécie de terapia de grupo. Ele permite uma resposta de grupo à crise psíquica que marca nossa época, produzindo uma singular adaptação a suas condições. Como a possibilidade de construção de um corpo social marcado pela igualdade e solidariedade está fora do horizonte político real, o realismo fascista fornece outro corpo social, um corpo paranoico, reduzido, mas bélico, militar. Forma do corpo individual, como também forma do corpo social. Forma essa que permite aos sujeitos adaptarem a reconstrução de determinado padrão de laço social em um horizonte terminal onde a lógica da guerra infinita se impõe.”

19 Desenvolvi essa questão no capítulo 3 de V. Safatle, Maneiras de transformar mundos: Lacan, política, emancipação. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

 

 

““Toda vez que ouço a palavra ‘cultura’, saco meu revólver.” Todos conhecem essa frase erroneamente atribuída a Joseph Goebbels. Ela parece sintetizar uma pretensa rejeição da cultura pelo fascismo, uma pretensa preferência pelo obscurantismo e pelas relações de força. No entanto, seria o caso de lembrar que, na verdade, essa frase aparece, de uma forma um pouco diferente (“Quando ouço cultura, eu destravo minha Browning”), em uma peça de teatro do dramaturgo Hanns Johst intitulada Schlageter. Encenada em 1933, ela contava a história de Albert Leo Schlageter, militante nazista condenado à morte pelo exército francês por sabotagem e transformado, em uma operação de mistificação política, no “primeiro soldado do Terceiro Reich”. Ou seja, a crítica da cultura era, na verdade, a citação de uma obra da cultura, de uma peça de teatro cujo autor posteriormente será reconhecido pelo Reich, ocupando cargos importantes da administração das artes.

Lembro esse fato porque estamos acostumados a falar do fascismo e de suas variantes contemporâneas que agora nos assombram como força política animada pela desconsideração pelas artes. No entanto, a extrema importância dada pelo fascismo ao campo da cultura é evidente, suas batalhas culturais são processos constituintes centrais de suas lutas. Alguns podem ver nisso manobras diversionistas que visam desviar a atenção de desmontes econômicos e preservação de interesses de classe, mas gostaria de insistir que se trata de lutas absolutamente centrais. Creio que perderemos dimensões fundamentais do fenômeno fascista se não o compreendermos como uma batalha pelo cultivo dos afetos e pela produção do horizonte sensível da política. Como dizia Plínio Salgado, nosso representante primevo do fascismo local: “Revolução é movimento da cultura e do espírito […]. Não se trata de ofensiva contra um governo, contra uma classe, trata-se de uma ofensiva contra uma civilização”.1

Por isso, é correto afirmar que o fascismo não tem um projeto de governo, no sentido de um conjunto de dispositivos de garantia da governabilidade e de preservação de estabilidade normativa. Mas isso não ocorre por incompetência gerencial. O fascismo não tem projeto de governo porque tem algo maior; um verdadeiro projeto de sociedade. Como insisti várias vezes no decorrer deste ensaio, o objetivo real é a transformação estrutural da sociedade. Não por acaso, as primeiras ações da extrema direita no poder são normalmente contra universidades, escolas e o campo da cultura. Porque é necessário reorientar as formas de reprodução material das sensibilidades, ela precisa recompor radicalmente os circuitos sociais de afetos e nada mais urgente do que levar tal luta para os campos da formação social, para as instituições da cultura e da pedagogia.

No cerne de posições dessa natureza, e elas não são apenas apanágio do fascismo histórico, há a compreensão da política como uma questão de produção de estruturas de sensibilidade e de afetos. Sociedades se reproduzem determinando o que é possível sentir e o que não é possível sentir, o que a sensibilidade reconhece e o que ela recalca, os corpos que nos afetarão e os corpos que nos serão completamente indiferentes. A ordem sensível é o fundamento da imaginação social, de seus limites e formas. E o controle da imaginação e da sensibilidade é o fundamento de todo e qualquer poder.

Por ter consciência disso, as questões culturais são tão centrais para o fascismo. Como lembra muito bem o historiador Johann Chapoutot, o fascismo é animado por uma revolução cultural, por uma forma própria de se conectar ao pretenso grande legado da cultura ocidental.2

1 Plínio Salgado, “Palavra nova dos tempos novos”, in Obras completas, V. 7. São Paulo: Editora das Américas, 1955, p. 219.

2 Ver Johann Chapoutot, La Révolution culturelle nazi. Paris: Gallimard, 2017 [ed. bras.: A revolução cultural nazista, trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Da Vinci, 2022].

 

 

“Mas se a sociedade de consumo pode ser descrita por Pasolini como o verdadeiro fascismo é porque, para além dessas dinâmicas de estereotipia e homogeneização, o que realmente lhe chamava a atenção eram os efeitos de indiferença, dessensibilização e anestesia que paulatinamente constituíam um novo circuito de afetos. Essa era a verdadeira padronização brutalmente totalitária do mundo.

Uma das características fundamentais de uma sociedade do consumo, ou seja, sociedade na qual o consumo é a matriz central de organização dos comportamentos sociais e das formas de socialização, é que uma mesma lógica de acesso e disponibilização imediata seja aplicada a todas as esferas da totalidade social. Isso significa, entre outras coisas, indiferenciar informação e entretenimento, trabalho e tempo livre,10 produção e diversão, imagem documental e meme, assim como estabelecer apenas um regime de visibilidade que reorganiza o interesse em tal zona de indiferenciação. Todas essas esferas sociais serão organizadas pela visibilidade do que tem certa noção espetacularizada de “impacto”, do que “provoca”, do que se entrega rapidamente e se submete sem restos a um código unitário. Consolida-se assim um regime unificado de imagem e formas de afecção que produz a dessensibilização genérica. Uma informação de massacre é apresentada com a mesma intensidade, ritmo e emoção que imagens de filme de ação. Um dado sobre economia aparece logo após cenas de amor a animais domésticos. A última negociação de uma emenda no Senado vem logo abaixo da notícia da última cirurgia plástica feita por uma celebridade de quinze minutos. Ao final, tudo acaba por compor um fluxo indiferenciado.

Tal indiferenciação sustenta-se objetivamente na estrutura monopolista da indústria cultural, que longe de ser um conceito obsoleto, como alguns nos tentaram levar a crer, talvez nunca tenha sido tão atual.11 Pois talvez nenhuma outra época como a nossa conseguiu realizar tão claramente o princípio segundo o qual: “Tudo está tão estreitamente justaposto que a concentração do espírito atinge um volume tal que lhe permite passar por cima da linha de demarcação entre as diferentes firmas e setores técnicos. A unidade implacável da indústria cultural atesta a unidade em formação da política”.12 Se a unidade da indústria cultural atesta a unidade em formação da política é porque a primeira impulsiona a segunda. A imaginação política se deixa facilmente colonizar pelo regime de imagens e de afecções produzido pela indústria cultural. Assim, acaba por submeter-se à indiferença como dado operacional do sistema. Indiferença essa que é indissociável da função que a abstração desempenha nos modos de valorização e circulação do capitalismo.

A forma da organização econômica interfere, de maneira decisiva, na forma de circulação social da linguagem. Uma economia monopolista, na qual o gerenciamento da informação e do lazer são dois dossiês dispostos na mesma mesa de reuniões, tende a submeter toda produção de conteúdo à mesma forma, toda experiência sensível à mesma abstração de valor. Isso principalmente quando são os mesmos meios que fazem circular as mensagens distintas, até porque, como sabemos há décadas, os meios definem a estrutura das mensagens. Ou seja, tal dinâmica monopolista não diz respeito apenas à propriedade dos meios, mas também à padronização das linguagens e à convergência das gramáticas.

Essa unidade total tem várias funções: uma delas é permitir que o caráter dramático de decisões e violências políticas se dilua na generalização de formas de espetáculo e entretenimento. Assim, por exemplo, a prisão de imigrantes no solo dos Estados Unidos como se fossem bandidos periculosos, toda a brutalidade social tipicamente fascista que faz do estrangeiro o portador da degradação de nosso equilíbrio e conciliação, pode ser apresentada em vídeos de Instagram patrocinados pela própria Casa Branca nos quais se ouvem músicas de reggae e há corte de câmera típico de filmes de ação. Ou seja, o objetivo de comunicação aqui é impedir qualquer distinção entre entretenimento e ação política. Essa zona de indistinção é fundamental para a irrealização da violência, sua transformação em algo que parece já termos visto milhares de vezes em nossos momentos de entretimento. Não há mais distinção alguma entre informação e entretenimento em um mundo onde o próprio poder de Estado molda suas ações como se estivesse rodando um seriado policial. O mundo se torna assim uma enorme indústria. No caso, uma enorme indústria cultural que irrealiza a violência da política ao mesmo tempo que a aprofunda, pois ao fornecer um enquadre de entretenimento a ações políticas violentas, tiramos sua dimensão trágica e acrescentamos uma tonalidade cômica. Como se o riso viesse agora do próprio poder.

É importante lembrarmos isso porque, durante certo tempo, foi vendida a ideia de que, contrariamente a tal convergência monopolista, havíamos entrado em uma era mais democrática da comunicação. Não estávamos mais submetidos a sistemas nos quais poucos falam e muitos escutam, como era o caso na era dos broadcastings, das televisões nacionais controladas por poucas famílias ou dos monopólios de comunicação com poucos grupos que detinham, em uma mesma região, jornais, revistas, rádios, televisões. Agora, havíamos entrado em um modelo no qual todo receptor era um emissor em potencial, um produtor potencial de conteúdo. Graças a essa nova configuração da produção da comunicação, as opiniões se multiplicariam, as formas seriam mais plurais e os telefones celulares se tornariam uma verdadeira ágora grega saudavelmente descontrolada, livre e polimórfica. Nesse universo de cada vez menos mediações, seria possível construirmos nossas próprias redes, conectando-nos globalmente com quem julgássemos relevante. Ou seja, cada sujeito se tornaria um gestor de suas próprias redes.

No entanto, a passagem do modelo de broadcasting ao modelo atual de plataforma, streamings e redes sociais implicou, na verdade, o aprofundamento da estrutura monopolista da comunicação. Circulação (de informação, de dinheiro, de produtos culturais), desenvolvimento de tecnologia, produção de conteúdo são atualmente processos completamente interligados em um consórcio de não mais do que oito empresas com atuação global (Meta, Google, Amazon, Microsoft, Apple, PayPal, X, Nvidia). Não houve momento algum no mundo em que apenas oito empresas, todas no mesmo território nacional, podiam ter uma intervenção tão imediata em esferas tão ordinárias da interação social entre indivíduos como telefonar para amigos, publicizar opiniões políticas, enviar fotos para uma namorada, comprar produtos on-line, utilizar cartões de crédito. E a partir de certo momento, começamos a receber todos os dias propagandas da Casa Branca em nosso Instagram e tweets assinados pelo presidente Donald Trump, sem que nunca tenhamos pedido tanta deferência.

É fato que, principalmente, durante o período entre os anos setenta e noventa do século passado, nem todos os lugares da indústria cultural pareciam idênticos, nem tudo parecia estar igualmente perto do centro. Dinâmicas temporárias de margem puderam se constituir, algo como a versão cultural das “zonas autônomas temporárias”, permitindo complexificações formais, circulações setorizadas de produções e desconstruções de padrões de previsibilidade. Esses lugares, é verdade, existiram por um tempo curto, e ainda existem. Porém, são frágeis em sua capacidade de contraposição à dinâmica neutralizadora da indústria cultural hegemônica, da mesma maneira como são frágeis as produções autônomas em relação à organização monopolista do capitalismo. As margens passam muito rapidamente ao centro, mas existem, nem que seja por um tempo.

Isso, no entanto, não muda o fato de estarmos atualmente diante de espaços ainda mais controlados, unificados e monopolizados do que aqueles que tínhamos anteriormente. Os espaços digitais gostam de se apresentar como esferas de interação livres de regulação e controle, como a realização perfeita dos ideais de liberdade de expressão. Mas o desenvolvimento tecnológico não caminhou para uma sociedade mais aberta.”

10 Ver, nesse sentido, o ensaio premonitório de Theodor Adorno, “Tempo livre”, in Educação e emancipação, trad. Wolfgang Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

11 A melhor crítica ao conceito de indústria cultural foi feita por Paolo Virno, A Grammar of the Multitude: For an Analysis of Contemporary Forms of Life. New York: Semiotext(e), 2004. Procurei fazer uma crítica dessa crítica em V. Safatle, Em um com o impulso: Experiência estética e emancipação social. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.

12 T. Adorno e Max Horkheimer, Dialética do esclarecimento, trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991, p. 116.