sexta-feira, 12 de junho de 2026

A pequena Dorrit, de Charles Dickens

Editora: Pedra Azul

ISBN: 978-65-88494-31-8

Tradução: Andrea carvalho

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 880

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Sinopse: O mundo de Amy Dorrit era a Prisão dos Devedores de Marshalsea, em Londres, onde ela nasceu e cresceu. Filha de William Dorrit, um cavalheiro culto que estava preso por dívidas havia anos, a humilde e dedicada jovem trabalhava como costureira para uma excêntrica dama de Londres, Mrs. Clennam, mãe de Arthur Clennam, um generoso cavalheiro incomodado com as injustiças sociais da Inglaterra do século XIX. Sua história começa a mudar quando Arthur, desconfiado da súbita bondade e condescendência de sua severa mãe para com a tímida garota, começa a investigar o que está por trás daquele lugar. Como Arthur logo descobre, a escura sombra da prisão se estendia muito além de suas paredes.



“— E agora, Mr. Clennam, talvez possa lhe perguntar se já decidiu para onde ir depois daqui?

— Na verdade, não. Sou tão livre e desgarrado de todo lugar, que estou sujeito a ser levado para onde qualquer corrente determinar.

— É uma surpresa para mim, mas perdoe a minha liberdade ao dizer que não vá direto para Londres — disse Mr. Meagles em tom de conselheiro confidencial.

— Talvez eu vá.

— Ah! Mas eu quero dizer com anseio de ir.

— Eu não tenho vontades. Quero dizer — ele enrubesceu um pouco. — Treinado à força; quebrado, não curvado; marcado severamente com algo a respeito do qual nunca fui consultado e que nunca foi meu; levado de navio para o outro lado do mundo antes de ter a idade para tal, exilado até a morte do meu pai um ano atrás; trabalhando em um moinho que sempre odiei. O que há de se esperar de mim na metade da vida? Vontade, propósito, esperança? Todas essas chamas foram apagadas antes mesmo que eu tivesse aprendido a falar.

— Acenda-as novamente! — exclamou Mr. Meagles.

— Ah! É fácil dizer. Sou filho, Mr. Meagles, de pais severos. Sou o único filho de pais que pesavam, mediam e colocavam preço em tudo; para os quais nada que não pudesse ser pesado, medido ou ter um preço estipulado existia. Pessoas rigorosas, professores de uma religião dura. E essa mesma religião era um deprimente sacrifício de preferências e afinidades que nunca eram as próprias, oferecido como parte de uma barganha em troca da segurança de suas posses. Rostos austeros, disciplina implacável, penitência neste mundo e terror no próximo. Nada relacionado à graça ou à gentileza em lugar algum, e, em tudo, o vazio no meu coração amedrontado. Essa foi minha infância, se é que posso usar de forma tão incorreta a palavra para me referir a um começo de vida como aquele.”

 

 

“— Nós sempre começamos a perdoar um lugar assim que ele é deixado para trás. Ouso dizer que um prisioneiro começa a se tornar menos rancoroso em relação a sua prisão logo depois que o deixam sair.”

 

 

“O Escritório de Circunlocução era (como todos sabiam sem que precisasse ser dito) o departamento mais importante do governo. Nenhum negócio público de nenhum tipo poderia ser feito em momento algum sem a aquiescência do Escritório de Circunlocução. O seu dedo estava na cobertura dos maiores e dos menores bolos públicos. Era igualmente impossível fazer a coisa certa, por mais simples que fosse, ou desfazer a coisa errada, sem a autorização expressa do Escritório de Circunlocução. Se outra Conspiração da Pólvora33 tivesse sido descoberta meia hora antes de acenderem o fósforo, ninguém teria justificativa para salvar o parlamento até que houvesse meia fila de diretores, meio bushel34 de atas, várias sacolas de memorandos e um jazigo de família cheio de correspondência agramatical por parte do Escritório de Circunlocução.

Esse glorioso estabelecimento havia sido criado há muito tempo, quando pela primeira vez o princípio sublime que envolve a difícil arte de governar um país foi claramente revelado para os políticos. Era primordial estudar aquela brilhante revelação e carregar sua influência cintilante no conjunto de procedimentos oficiais. Qualquer coisa que fosse solicitada, o Escritório de Circunlocução estava de antemão ao lado de todos os departamentos públicos exercendo a arte de descobrir... como não-fazer.

Com essa delicada artimanha, com o tato com que invariavelmente empregava, com o engenho com que sempre atuou sobre ela, o Escritório de Circunlocução passou a estar acima de todos os departamentos públicos; e a condição pública passou a ser... o que era.

É verdade que como não-fazer era o grande estudo e propósito de todos os departamentos públicos e de todos os políticos em torno do Escritório de Circunlocução. É verdade que todo novo primeiro-ministro que surgia alegando que algo precisava ser feito, tão logo era eleito, fazia uso de suas principais faculdades para descobrir como não-fazer. É verdade que todo homem eleito, que havia expressado sua fúria em palanques reclamando que aquilo não havia sido feito, e que havia pedido para os amigos do ilustre cavalheiro de interesse oposto, sob pena de impeachment, dizerem que havia afirmado que aquilo precisava ser feito, e que havia prometido que aquilo seria feito, começava a maquinar a respeito de como aquilo não seria feito assim que uma eleição geral terminava. É verdade que os debates nas duas Câmaras do Parlamento, durante toda a sessão, tendiam uniformemente à morosa deliberação sobre como não-fazer. É verdade que o discurso real na abertura de tal sessão dizia praticamente: “lordes e cavalheiros, os senhores têm um trabalho importante para fazer. Por favor, retirem-se para os seus respectivos aposentos e reflitam sobre como não-fazer”. É verdade que o discurso real no fechamento dessa mesma sessão dizia praticamente: “lordes e cavalheiros, ao longo de vários árduos meses, com grande lealdade e patriotismo, os senhores buscaram descobrir como não-fazer. E os senhores conseguiram. Pois então, com a bênção de Deus sobre a colheita (natural, não política), eu agora os dispenso”. Tudo isso é verdade, mas o Escritório de Circunlocução ia além ao seguir adiante mecanicamente, todos os dias, mantendo essa maravilhosa e infinitamente capaz roda da ciência de governar, o como não-fazer, em movimento. Ele caía em cima de qualquer funcionário público mal aconselhado que planejasse fazer, ou que parecesse estar, por qualquer acidente inesperado, em remoto perigo de fazer uma minuta, um memorando, uma carta de instruções que o aniquilaria. Era esse espírito de eficiência nacional do Escritório de Circunlocução que o havia levado gradualmente a estar relacionado a tudo. Mecânicos, filósofos naturais, soldados, marinheiros, peticionários, memorialistas, pessoas com denúncias, pessoas que queriam evitar denúncias, pessoas que queriam corrigir denúncias, negociantes, negociados, pessoas que não conseguiam ser recompensadas por mérito, pessoas que não conseguiam ser punidas por mérito, eram todos indiscriminadamente enfiados debaixo dos papéis de folha de almaço do Escritório de Circunlocução.”

33. A Conspiração da Pólvora de 1605 foi uma tentativa de assassinato contra o rei Jaime I da Inglaterra por parte de um grupo provinciano de católicos ingleses liderados por Robert Catesby. O plano era explodir a Câmara dos lordes durante a cerimônia de abertura do parlamento, sendo um prelúdio para uma revolta popular em que a filha de Jaime seria colocada como rainha de um governo católico. (N.E.)

34. Unidade de medida que em volume equivale a 35,24 litros. (N.E.)

 

 

“— Escute, então. Eu sou uma mulher. Não sei nada sobre a filantropia filosófica. Mas sei o que vi, aqui neste mundo onde me encontro. E lhe digo o seguinte, meu amigo, existem pessoas, homens e mulheres, infelizmente, que não têm bondade nenhuma. Existem pessoas que precisam ser abominadas sem concessão. Existem pessoas que precisam ser tratadas como inimigas da raça humana. Existem pessoas que não têm coração humano, e precisam ser esmagadas como monstros e tiradas do caminho. Mas são poucas, espero.”

 

 

“— É como sempre digo para a mãe, se somos obrigados a olhar para alguma coisa, que seja para algo bonito!”

 

 

A vida é assim, você vê, minha querida, apesar de não quebrarmos, envergamos.”

 

 

Há certa intimidade que dispensa palavras.”

 

 

“A cadeira de rodas trazia recordações e devaneios, assim como qualquer lugar que se torna o habitat de um ser humano. Retratos de ruas demolidas e de casas reformadas, como costumavam ser na época em que aquela que ocupava a cadeira estava familiarizada com elas; imagens de pessoas como haviam sido no passado, sem que se levasse muito em consideração o tempo decorrido desde que foram vistas. Havia provavelmente muitas outras coisas na longa rotina daqueles dias tenebrosos que a remetiam ao passado. Parar o relógio da existência no momento em que somos pessoalmente capturados por ela, supor que a humanidade é acometida pela mesma imobilidade quando somos levados à estagnação, ser incapaz de medir as mudanças, além da nossa visão, por meio de qualquer padrão maior do que aquele atrofiado da nossa existência uniforme e contraída, são sintomas da enfermidade de muitos inválidos e da falta de saúde mental de quase todos os reclusos.”

 

 

— A maioria dos homens acaba se desapontando na vida de um jeito ou de outro; e somos todos influenciados por nossos desapontamentos. Mas, no fim, este é um mundo bom e querido, e eu o amo!”

 

 

O pior tipo de cálculo realizado no universo cotidiano é feito pelos aritméticos enfermos que estão sempre focados na regra de subtração no tocante aos méritos e sucessos dos outros e nunca na adição dos deles próprios.”

 

 

“Não há como jogar com a verdade sem a dedicação de tempo e cuidado, seja lá qual for o jogo, sem deixar as coisas ainda piores.”

 

 

“— Precisamos de farsas, todos gostamos delas, não poderíamos seguir adiante se elas não existissem. Um pouco de farsa, alguma rotina e tudo segue de maneira admirável se deixarmos a coisa em paz.”

 

 

“— Em verdade, em verdade, viajantes já viram muitos ídolos monstruosos em muitos países, mas nenhum olho humano jamais viu imagens mais ousadas, repugnantes e chocantes da natureza divina do que aquelas que nós, criaturas do pó, criamos, a nossa imagem e semelhança, a partir das nossas terríveis paixões.”