quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A redução sociológica: Introdução ao estudo da razão sociológica (Parte III), de Alberto Guerreiro Ramos

Editora: Ubu

ISBN: 978-85-7126-157-0

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 256

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Sinopse: VerParte I




 

Com a sua “redução”, Husserl, que não foi propriamente existencialista, mas precursor dessa corrente, pretendeu superar a oposição entre o materialismo e o idealismo na esfera da gnosiologia. A realidade objetiva não é negada, como o faz o idealismo subjetivo consequente. Apenas o filósofo abstrai do caráter exterior ao sujeito dessa realidade, “suspende” ou “põe entre parênteses”, como dizem os fenomenólogos, a questão de um mundo material independente do sujeito consciente. As coisas objetivas passam a ser focalizadas exclusivamente no fluxo da atividade consciente, que as apreende e incorpora a si mesma, “reduzidas” a fenômenos da consciência. Esta, por sua vez, deixa de ser estudada como substância que se basta a si mesma, à maneira do velho idealismo, sendo substituída pelos “estados” ou “atos” de consciência, que se sucedem sem descontinuidade como consciência disto ou daquilo. Não se trata simplesmente da influência recíproca entre sujeito e objeto, fato que o sr. Guerreiro Ramos julga não ter sido “visto pelas antigas teorias gnosiológicas” [p. 102] e, entretanto, muito antes de Husserl, foi uma questão dialeticamente tratada por Hegel e Marx. A fenomenologia pretende evitar todos os relativismos possíveis na distinção entre sujeito e objeto para atingir a certeza filosófica absoluta através da fusão integral entre o sujeito, que só é consciência do objeto, e objeto, que não pode ser descrito senão como “objeto da consciência”. Essa fusão ou confusão é carregada de “intencionalidade”, tanto por parte do ato consciente para com o seu objeto como deste para com aquele. Ambos são possíveis somente coexistindo. O filósofo desiste de analisar, abandona os processos discursivos de raciocínio, os conceitos e as categorias, tudo enfim que leva o pensamento a distinguir sujeito de objeto, a seccionar conceitualmente a realidade e pretender atingir a sua essência de modo mediato. O pensamento não deve se voltar mais do que para os dados imediatos da consciência, visando não mais do que descrevê-los intuitivamente no seu fluxo subjetivo unitário e total. A essência absoluta seria atingida nessa simples descrição do imediato da experiência subjetiva, ou seja, dos fenômenos da consciência (vale observar que estes são considerados muito além dos simples dados empíricos, sensoriais).

Teremos aí, de fato, a superação do materialismo e do idealismo na gnosiologia?

Na verdade, Husserl não fez mais do que adaptar o idealismo subjetivo a certas circunstâncias contemporâneas decorrentes do progresso científico em nossa época: em primeiro lugar, a impossibilidade do idealismo objetivo, exceto em sua forma expressamente religiosa; em segundo lugar, a impossibilidade de um idealismo subjetivo consequente até o fim, isto é, até o solipsismo. Daí porque Husserl e outros tenham procurado “completar” o idealismo subjetivo com uma espécie de “pseudo-objetividade”, como diz Georges Lukács.

O ponto de partida de Husserl é o mesmo de Descartes: Ego cogito. Mas enquanto Descartes, mesmo por uma via racionalista, partiu dessa primeira evidência existencial para evidências do mundo objetivo, Husserl segue em direção oposta e se enclausura na subjetividade, pois somente dentro dela, “reduzindo-a” o mais que se pode, concebe a possibilidade legítima de apreender o objeto do conhecimento. O mundo objetivo se transforma assim no “mundo da consciência”. As coisas não são vistas fora de nós, mas de dentro de nós, introspectivamente.

Esse é o “terceiro caminho” filosófico que não conduz a algo propriamente original, mas ao mesmo velho idealismo. Daí a afirmar com razão Lukács, tratando precisamente de Husserl:

Existirá um “terceiro caminho”, fora do idealismo e do materialismo? Para aquele que considere a questão de modo sério, no espírito dos grandes filósofos do passado, desdenhando as frases vazias de certos pensadores modernos, a resposta não pode ser senão negativa. Não há, com efeito, senão duas possibilidades: primado da existência sobre a consciência ou, inversamente, primado da consciência sobre a existência. Os sistemas filosóficos em voga, que se orientam para o “terceiro caminho”, põem habitualmente a correlação da existência e da consciência, proclamando que uma não poderia existir sem a outra. Com essa afirmação, chega-se a expulsar o idealismo pela porta para fazê-lo voltar pela janela, uma vez que, admitindo que a existência não pode existir sem a consciência, abandona-se o materialismo segundo o qual a existência é independente da consciência.3

O sr. Guerreiro Ramos se apoia, por conseguinte, num péssimo suporte filosófico, que, no plano dos princípios, tira a legitimidade de sua especulação sobre a atividade sociológica no Brasil. É verdade que o sr. Guerreiro Ramos tenta estabelecer uma distinção: “é preciso distinguir a intencionalidade do eu puro da intencionalidade do eu concreto, episódico, historicamente configurado. O eu puro só é sujeito do ponto de vista da redução transcendental. Para a redução sociológica, o sujeito é, porém, o eu concreto, inserido na comunidade” [p. 108].

Essa ressalva não é suficiente, porém, para resolver a questão. Continuamos no plano da subjetividade, sobre o qual é impossível lançar as bases de uma sociologia científica. Substituído o “eu puro” de Husserl pelo “eu concreto”, isso nos permitirá talvez apreender certos fatores sociais, ampliar relativamente o campo de observação, mas a premissa fundamental continua a ser a consciência individual sobre cuja perspectiva “intencional” são colocados os fatos sociais. E, embora o sr. Guerreiro Ramos faça também passageira objeção a respeito do relativismo, é inevitável que este se torne o seu princípio gnosiológico superior, desde quando fundamenta a pesquisa sociológica no eu individual, por mais conteúdo histórico concreto que lhe atribua. Não é casual, por isso, que considere Karl Mannheim, com sua “sociologia do saber”, um precursor do método de “redução”. Preocupado legitimamente em combater o espírito dogmático na Sociologia, que impede o estudo da sociedade brasileira nas suas ricas particularidades, o sr. Guerreiro Ramos acaba aceitando, do ponto de vista de princípios, um relativismo extremado demais para ser compatível com a ciência. E, assim, enquanto Husserl, com a sua “redução fenomenológica”, pretendia salvar alguns valores filosóficos absolutos, a mesma noção, transferida para o campo da Sociologia, produz um relativismo sem limites. O que não é senão a dialética da transformação no próprio contrário,

Poderão dizer-nos que a relatividade já penetrou todas as ciências, mesmo as mais exatas. Mas isso demonstra somente a superioridade do pensamento dialético, indispensável às ciências modernas. Uma coisa é a relatividade como elemento dialético necessário ao processo do conhecimento – o que não é concebido pelos dogmáticos – e outra coisa é o relativismo constituído em princípio gnosiológico supremo. Eis o que a respeito afirmou Lênin: “a dialética, como já o explicava Hegel, inclui, como um dos seus elementos, o relativismo, a negação, o ceticismo, mas não se reduz a isso; ela admite a relatividade de todos os nossos conhecimentos, nunca no sentido da negação da verdade objetiva, mas no sentido da relatividade histórica dos limites da aproximação de nossos conhecimentos em relação a essa verdade”.4

Que a transição do “eu puro” para “eu concreto” não altera substancialmente a situação se comprova com o largo emprego que o sr. Guerreiro Ramos faz das noções heideggerianas de “ser-no-mundo” (in-der-Welt-sein) a “ser-com-outro” (miteinandersein). Aqui já estamos em plena filosofia existencialista. Retomando temas de Kierkegaard e aplicando o método da fenomenologia, Heidegger “reduz” a existência ao imediatamente vivido pela consciência absolutamente pessoal, despojada de tudo o que lhe é estranho (o social, o racional). Mas essa “redução” deve ser praticada no “mundo” em que o ser (individual) se encontra. Qual é, porém, o caráter desse “mundo”? Novamente nos defrontamos com aquela espécie de “pseudo-objetividade” tão procurada pelo idealismo subjetivo atual. O sr. Guerreiro Ramos se encarrega de nos informar “o mundo – eis o que pensa Heidegger – não é mais o que se tem admitido na tradição filosófica, um conjunto de coisas ou realidades subsistentes, um dado externo ao homem”.

Assim, pois, quando se diz que o homem é um “ser-no-mundo”, de modo algum se afirma que a essência do homem, como dizia Marx, é o conjunto das relações sociais, que o ser humano está na dependência do meio social que o cerca e no qual ele se integra objetivamente. Ao contrário, continuamos por inteiro no plano da subjetividade. O “mundo” é a trama não objetiva da consciência individual com os “outros”, isto é, com os outros indivíduos. Mais uma vez, sujeito e objeto se confundem e só existem coexistindo. Além disso, o “mundo” é um a priori do conhecimento, um “sistema de referências” que predetermina para o indivíduo a perspectiva intencional da sua percepção da vida social. Por isso, os mesmos fatos não poderiam ser vistos da mesma maneira, com igual “intencionalidade”, por um francês e por um alemão, por um brasileiro e por um americano. E por isso também Spencer tem sentido para os ingleses, Comte para os franceses, Max Weber para os alemães, e assim por diante.

Se as palavras não são para tergiversar, aí temos o puro idealismo a que, afinal, se reduzem todas as chamadas filosofias da “existência”. O resultado de sua aplicação à sociologia não será outro: subjetivização radical das relações sociais (em cuja crítica não devemos passar à objetivação absoluta tentada por Durkheim) e relativismo à outrance. A verdade objetiva se torna uma impossibilidade, o que nos impõe substituir a ciência por um qualquer sucedâneo especulativo pragmático. Mas isso absolutamente não nos levará àquele iluminado conhecimento da realidade social brasileira, que tantos buscam, inclusive o sr. Guerreiro Ramos. A partir de tais premissas filosóficas, se formos coerentes com elas, o esforço para assimilar categorias cientificamente aplicáveis à vida social em nosso país se desviará pelos caminhos mais contraditórios, podendo chegar ao absurdo.

Na verdade, o que salva o sr. Guerreiro Ramos e os demais existencialistas do ISEB é que, sob a influência de uma “determinante objetiva” no trato das questões nacionais, não são e não podem ser coerentes com as suas premissas filosóficas. Mas essa é apenas uma salvação pela metade.”

3 G. Lukács, Existentialisme ou marxisme? [Existencialismo ou marxismo?] Paris: Nagel, 1948, pp. 76-77.

4 V. Lénine, Matérialisme et empiriocriticisme. Moscou: Editions en Langues Étrangères, 1952, p. 149.

 

 

Não estenderemos a análise a outras noções da filosofia existencialista – como a de “projeto” – a que se recorre fartamente em A redução sociológica. Limitamo-nos a assinalar este fenômeno bem brasileiro: ideólogos da burguesia de um país subdesenvolvido, a qual ainda tem um papel progressista a desempenhar, aceitam como padrão espiritual a filosofia decadente da burguesia imperialista. O existencialismo constitui, precisamente, o ponto culminante da linhagem irracionalista e niilista, que prevalece na filosofia burguesa da época do imperialismo. Não foi de maneira alguma casual a receptividade que encontrou na Alemanha de Hitler.

Não teremos aí, por ventura, mais uma manifestação daquela “mentalidade colonial” que o sr. Guerreiro Ramos com tanta razão combate?

Os intelectuais da burguesia republicana do século passado transplantaram da Europa para o Brasil o positivismo, filosofia característica de uma burguesia que passara já de revolucionária a conservadora. É desnecessário insistir aqui no que isso encerrava de “servidão intelectual”. Nos meados do nosso século, a burguesia brasileira é mais forte e tem à sua frente, ao lado de outras forças sociais, tarefas mais elevadas, mais amadurecidas do que no século passado. Por sua vez, a burguesia da Europa Ocidental, com o imperialismo, atingiu o máximo da degradação reacionária. E é justamente o produto ideológico dessa degradação – o existencialismo – que certa parte dos intelectuais burgueses do presente transplanta para o nosso país. Novamente – e em proporções muito mais graves – a mesma “servidão intelectual”.

O sr. Guerreiro Ramos poderá dizer que não se trata de simples transplantação, mas de assimilação através da “redução sociológica”. Somos de opinião, porém, que nada tão estéril no terreno da teoria do que esse esforço para acondicionar os autores existencialistas e deles extrair a superestrutura ideológica de um movimento que, mesmo dentro de marcos burgueses, se volta para a emancipação nacional e o progresso social.

Não há, por isso, por que aceitar como benfazejo para a cultura brasileira o fato de que o ISEB tenha iniciado a sua coleção de textos de filosofia contemporânea com a tradução de uma obra de Karl Jaspers; Razão e antirrazão em nosso tempo. Ao contrário de “genuína obra de filosofia”, como afirma o sr. Vieira Pinto, nela temos o exemplo, se é possível dizer, integral do mau filosofar. Os grandes idealistas alemães da época clássica, sobretudo Kant e Hegel, nem sempre foram coerentes, mas possuíam dignidade intelectual para respeitar a verdade dos conceitos. Os seus sistemas são, por isso, marcos elevados na história do pensamento, e não frutos pecos da arte de sofismar. Essa dignidade intelectual não existe em muitos idealistas modernos como Jaspers. Com espantosa sem-cerimônia, que somente um sofista se permitiria, apropria-se do imenso prestígio que é inerente à Razão em nosso tempo e o transfere, qual mágico de circo, para o irracionalismo ansioso de salvação metafísica. A razão não é a Razão da ciência moderna, pois se encontra acima e além da ciência (esta deve ser aceita e mesmo respeitada, porém conformada com a sua limitação, com a sua impotência), a Razão é o inapreensível, o não conceitual, adquire-se por uma decisão misteriosa, voltada para o Ser absoluto e supra-histórico. E assim julga Jaspers possível convencer-nos de que, ao contrário do geralmente admitido, o irracional é que é a verdadeira Razão, o grau mais alto do conhecimento. Não surpreende, por isso, que, inversamente, considere o marxismo uma espécie de magia.

Tão absurda inversão de conceitos o próprio existencialismo não havia atingido.

Que proveito poderá haver em infiltrar no pensamento progressista brasileiro uma componente irracional?

Essa é a responsabilidade que assumem os ideólogos do ISEB.

Voltamos à questão original: onde encontrar a teoria sociológica adequada ao estudo científico do devenir essencial da sociedade brasileira, com tudo o que ela tem de próprio, de particular?

O sr. Guerreiro Ramos se refere à “instância de enunciados gerais que constituem o núcleo central do raciocínio sociológico”. Mas eis os autores dos quais julga deva ser extraído esse núcleo de enunciados gerais: Karl Marx, Comte, Spencer, Georg Simmel, F. Tönnies, Max Weber, Max Scheler, Durkheim, Gabriel Tarde, Vilfredo Pareto e outros… [p. 118] A isso se acrescentam esforços especiais para combinar o existencialismo com o marxismo. O ecletismo não se detém aí diante de qualquer limite. Seria esse um dos piores pontos de partida para chegar a uma teoria sociológica íntegra e correta.

Certo, também seria muito mau optar pelo dogmatismo, como ponta oposta de um dilema. Pensadores de diferente orientação teórica podem contribuir, embora em grau desigual, para o acervo das verdades científicas. Este ou aquele aspecto da realidade objetiva pode se refletir com relativa fidelidade, com maior ou menor refração, mesmo numa teoria falsa no seu conjunto ou por seus princípios. Se bem que em proporções mais limitadas do que nas Ciências Naturais, isso não deixa de ocorrer no campo das Ciências Sociais. Daí não se segue, todavia, qualquer justificação da indiferença teórica. Muito mais do que os empíricos e os ecléticos, contribuíram para a histórica do pensamento os sábios que aspiraram à coerência teórica e souberam realizá-la no plano superior dos conhecimentos de sua época. Engels muitas vezes ridicularizou a estreiteza empírica das Ciências Naturais do seu tempo, demonstrando como ao avanço delas era indispensável o pensamento teórico. E dizia ainda que os cientistas que desprezam a Filosofia (entendida como teoria do pensamento) não estavam menos escravizados a ela, “mas infelizmente na maioria dos casos à pior filosofia”…5

Para atingir a coerência teórica no terreno da sociologia, é preciso abandonar duas ideias caras ao sr. Guerreiro Ramos e a outros professores do ISEB: as ideias da ideologia do desenvolvimento e da sociologia nacional.

Elaborar a “ideologia do desenvolvimento”, a “ideologia do progresso nacional” e até mesmo a “filosofia do desenvolvimento” – essa a aspiração anunciada há dois anos pelo sr. Álvaro Vieira Pinto. “Não se trata aqui” – dizia então – “de defender nenhum interesse particular ou de grupo, mas de exprimir o interesse geral da sociedadebrasileira, o interesse nacional.”6 O sr. Guerreiro Ramos, por sua vez, tem-se referido à “ideologia global da nação”, e o sr. Roland Corbisier, numa conferência, afirmando que o nacionalismo devia ser essa ideologia global, explicava que a ela cabia “traduzir os interesses e as expectativas da burguesia industrial, da lavoura de base tecnológica (ou seja, dos agricultores capitalistas – J. G.), do proletariado e da classe média esclarecida”.

Nas sociedades divididas em classes, as ideologias são sistemas de ideias que refletem a realidade social do ponto de vista dos interesses de determinadas classes. Podem classes socialmente contrapostas aceitar uma ideologia única, global?

A sociedade brasileira possui, na verdade, na atual etapa do seu processo histórico um interesse geral: o de se emancipar nacionalmente da opressão imperialista norte-americana. Esse interesse geral desperta, estimula e fortalece a autoconsciência nacional, que é comum a todo o povo brasileiro. Desse interesse geral surgiu o movimento nacionalista, ou seja, uma aliança política, que abrange o proletariado, os camponeses, a burguesia e outras forças sociais. É utópico, porém, como fazem alguns professores do ISEB, extrapolar a aliança política para o plano da ideologia. Se o interesse geral é a questão principal dessa fase, entretanto não elimina as contradições de classe, e estas se refletem inevitavelmente nas contradições ideológicas. A aspiração a formular, pretensamente acima das classes, a ideologia global para uma nação dividida em classes constitui, consciente ou inconscientemente, genuína aspiração burguesa. O seu objetivo social consiste em ganhar para a ideologia da burguesia aquelas massas cuja ação o sr. Vieira Pinto, como nacionalista e como democrata, sabe e proclama indispensável ao desenvolvimento nacional. A esse objetivo não pode deixar de se opor o proletariado consciente, que possui a sua ideologia própria, muito mais avançada, voltada, além da emancipação nacional, para o socialismo e a sociedade sem classes. Daí porque o proletariado, aliando-se à burguesia na luta pela emancipação nacional, não só deverá permanentemente defender-se do agravamento da exploração capitalista como empenhar-se, no seu papel de força de vanguarda, por um curso consequente da revolução anti-imperialista e antifeudal.

As mesmas considerações são válidas para a ideia de uma sociologia nacional. Do ponto de vista teórico, parte das premissas idealistas e relativistas, que já examinamos acima. Do ponto de vista do seu conteúdo de classe, é também uma ideia burguesa.

O sr. Guerreiro Ramos reclama do sociólogo uma atitude engagé para com a sua sociedade nacional. Essa posição se encontra, sem dúvida, acima da falsa imparcialidade pretendida principalmente pelos seguidores da sociologia norte-americana. Apesar, porém, das possibilidades que encerra, aquela tese do sociólogo isebiano é falsa, em virtude da estreiteza específica (de classe) que o leva a focalizar, com bastante acuidade, a contradição nacional e, ao mesmo tempo, a subestimar as contradições entre as classes sociais. Mas é no terreno destas que o sociólogo deve tomar partido com o máximo de consciência. A objetividade científica – que a pseudoimparcialidade não consegue salvaguardar – não depende aí diretamente do partidarismo como tal, mas do caráter social do partidarismo, ou seja, do caráter da força social cujo ponto de vista é adotado pelo sociólogo. O papel dessa força social na etapa histórica dada condicionará decisivamente, embora sem determinar em toda a linha (o que seria impossível), o grau de objetividade do trabalho sociológico. Naturalmente, não cabe esquecer, como o faz o raciocínio mecanicista vulgarizador do marxismo, que o processo do conhecimento tem suas características específicas, o seu movimento relativamente autônomo. O norte-americano Lewis Morgan chegou a descobrir e esboçar o materialismo histórico independente de Marx e por um caminho bem diverso.7 Nem por isso deixaremos de reconhecer as grandes linhas de classe quando comparamos Marx a Comte e Spencer e verificamos a imensa superioridade científica do ponto de vista proletário do primeiro.”

5 Friedrich Engels, Dialectics ofNature. Moscou: Foreign Languages Publishing House, 1954, pp. 58, 273, 279, ss.

6 Álvaro Vieira Pinto, Ideologia e desenvolvimento nacional. Rio de Janeiro: ISEB, 1956, p. 43.

7 F. Engels, Obras escogidas de Marx y Engels, t. 2, Moscou: Ediciones en Lenguas Extranjeras, 1952, pp. 157 e 475.

 

 

“(…) O cosmopolitismo – essa espécie de regime colonial do espírito que transforma o filho de um país num emigrado virtual, vivendo estéril, no ambiente fictício de uma civilização de empréstimo.”

(Euclides da Cunha, Contrastes e confrontos. Porto: [Chardron,] 1923, p. 178)

 

 

Convém advertir, lealmente, que, no contexto de países subindustrializados, a referência enfática ao “problema do desenvolvimento econômico e social equilibrado” pode prestar-se a interpretações sibilinas e encorajar a sabotagem de programas governamentais de industrialização, sabotagem em que se aplicam habitualmente círculos do patronato interessados na conservação de anacrônicas estruturas latifundiárias. A nós latino-americanos, asiáticos e africanos, aquela expressão lembra o clamor que, em certos meios retrógrados de nossos países, se tem levantado contra a industrialização, sob o pretexto de que promove desequilíbrios, de que distorce o sistema econômico. Não tem faltado mesmo, para dar curso a essas teses, o apoio de nacionais e estrangeiros, que exibem títulos de sociólogos e economistas. Ocorre-me relatar que, há quase duas décadas, quando o governo brasileiro tomou a iniciativa de criar Volta Redonda, hoje ainda a nossa maior unidade siderúrgica, conhecido economista de fama internacional declarou, na imprensa do meu país, que a considerava “criminosa”.”

 

 

“A riqueza material não tem méritos intrínsecos. Só importa onde e quando esteja a serviço do homem.”

 

 

“As grandes personalidades, como Rui Barbosa, jamais podem ser interpretadas definitivamente. À luz de toda nova perspectiva, apresentam um significado singular. A história do que quer que seja, de um homem eminente, dum povo, duma civilização jamais se conta, em nenhuma hipótese, para sempre. A motivação especial de cada autor e de cada época impõe a revisão incessante do que aconteceu. O sentido do passado não pode revelar-se em exposição final, porque permanentemente o constitui o ponto de vista do presente e do futuro.”

(Alberto Guerreiro Ramos, “Prefácio”, in ISAÍAS ALVES, Vocação pedagógica de Rui Barbosa, 1959.)

 

 

Desde os anos 1960, foram-se dissolvendo os elementos internos (industrialização, populismo, democracia) e externos (descolonização afro-asiática, “Era de Ouro” do capitalismo, presença internacional da URSS) que davam certa concretude – direta ou indiretamente – àquele projeto de capitalismo nacional autodeterminado, isebiano. Os frequentes golpes de Estado (1964, 2016) e a consolidação do neoliberalismo foram sua pá de cal. Passados quase sessenta anos, tamanho é o desmonte nacional que a própria ideia de uma ciência ou de uma ideologia brasileira fica parecendo algo anacrônico, quando não tragicômico.

Mas é interessante que seja justamente neste momento de caos, mais ou menos bem disfarçado e administrado, que surjam os “novos bárbaros” com suas exigências. Povos originários, negros, gente que nunca foi ouvida querendo falar! Isso é bom e saudável, pois oxigena o debate intelectual. É mais fácil ver aí o lado problemático, é verdade. Ao se abrir a caixa de Pandora não se verá apenas o povo servil e resiliente de outrora. Outras coisas pulularão. Entre elas, outros referenciais políticos e teóricos: feminismo negro, decolonial, epistemologias do Sul, teorias do extremo Sul, pós-colonial, pluriverso. A própria ideia de ciência parece abalada. Deve-se admitir que, neste contexto, muitas vezes, tendem-se a exacerbar posicionamentos e forçar novidades. É o pós do pós, fingindo recomeçar do zero, fazendo tábula rasa do passado. Esse sim é um problema teórico e político. Ao se imaginarem como algo novo, muitos jovens militantes vêm forçando as diferenças, rompendo o vínculo das lutas comuns, tornando o caminho coletivo a seguir sempre mais longo e irrealizável.

Seria possível fazer diferente? Em princípio, sim, reestabelecendo as pontes entre o ontem e o hoje. Mas para isso seria necessário impor-se contra a lógica mercantilista e modernizante que muitas vezes acaba por predominar no trabalho intelectual. Seria necessário mergulhar nas razões das lutas do passado, buscando o que havia ali de essencial, e voltar ao tempo presente, descobrindo outras leituras e possibilidades interpretativas que sirvam aos impasses de nossa época. Um trabalho para quem tem fôlego e paciência para fazer ciência em ato (e não em hábito).”

(Muryatan S. Barbosa —Posfácio)

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