quinta-feira, 26 de junho de 2025

Estado e política em Marx (Parte I), de Emir Sader

Editora: Boitempo

Opinião: ★★★☆☆

ISBN: 978-85-7559-375-2

Páginas: 120

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Sinopse: O século XXI segue permeado por um dos maiores enigmas da teoria social: de que forma as elites, minoritárias, conseguem manter seu poder político? Este é o cerne da análise realizada pelo sociólogo Emir Sader em Estado e política em Marx, escrito nos densos anos 1960 como sua dissertação de mestrado em filosofia, e agora publicada pela Boitempo. Sader aventura-se a decifrar elementos indispensáveis para a compreensão desse fenômeno central no capitalismo contemporâneo, analisando o lugar da instância política nas formações sociais concretas. Nas palavras do sociólogo, ‘não se trata de uma homenagem àquela juventude, mas de um reconhecimento de que o texto tem coerência e méritos para se candidatar à atualidade’.

Num relato histórico, que passa pelas formações sociais pré-capitalistas, o autor usa a teoria de Marx para captar a essência do que faz o capitalismo ser o que é nos tempos modernos, como se difere dos sistemas anteriores e de que forma se perpetua no poder, analisando as três relações chaves de sua existência: a política, a economia e o Estado. Sader reavalia o posicionamento do Estado dentro dos jogos de poder, em particular sua relação com as classes dominantes. Chama a atenção sua crítica ao que considera uma visão voluntarista do Estado, que o considera apenas instrumento usado pelas classes dominantes, ignorando sua inteiração com outros meios sociais. ‘Quando a análise leva em consideração apenas o topo da pirâmide social, o caráter específico do Estado e da política se esconde; bem como o papel que possuem de referência a toda a sociedade e que justifica sua existência social’, conclui.

Estado e política em Marx se mantém atual por relacionar a crise da política como forma emancipadora dos homens à crise da teoria política como reflexão sobre os fundamentos das relações de poder na sociedade. Sader toma pela raiz os temas que estruturam a política como prática social, recuperando a riqueza que ela desfrutou nos clássicos do pensamento moderno — em Marx, em primeiro lugar —, condição para reinventar a própria política e, com ela, a democracia e o socialismo.



Afora o aspecto das referências explícitas ou não na obra de Marx, uma dificuldade maior se põe a partir daí: aquela que afeta o objeto dessas obras. Não sendo precedidas por um esclarecimento sobre o nível de análise em que se colocam – à exceção dos prefácios e introdução de O capital –, possibilitam a confusão a respeito do seu nível de objetividade. Quando tomamos duas obras como O capital e O 18 de brumário e nos detemos no papel que se reserva nelas ao Estado, percebemos como aquela diferenciação torna-se indispensável. Na introdução à Crítica da economia política, encontramos “o plano a adotar”, exposto por Marx, “para o estudo da economia política”:

1) as determinações universais abstratas, que, por essa razão, correspondem mais ou menos a todas as formas de sociedade [...] 2) as categorias que constituem a articulação interna da sociedade burguesa e sobre as quais se baseiam as classes fundamentais. Capital, trabalho assalariado, propriedade fundiária. As suas relações recíprocas. Cidade e campo. As três grandes classes sociais. A troca entre elas. Circulação. Sistema de crédito (privado). 3) Síntese da sociedade burguesa na forma do Estado. Considerada em relação a si mesma. As classes “improdutivas”. Impostos. Dívida pública. Crédito público. A população. As colônias. Emigração.[1]

Para o esquema de O capital, que visa centralmente à compreensão das “categorias que constituem a articulação interna da sociedade burguesa”, a abstração das formas históricas de existência da sociedade capitalista, em que esse modo de produção aparece sempre mesclado de sobrevivência de outras formações sociais, conduz a uma função distinta do Estado. Na análise dessa “articulação interna”, o papel do Estado não é essencial, uma vez que sua função remonta à gênese daquela estrutura, à fase da ascensão e instauração do capitalismo, da qual a centralização política em torno do Estado é uma das condições. O caráter dessa abordagem transparece mais claramente na distinção subjacente, explicitada por Marx nos Grundrisse:

As condições e os pressupostos do devir, da gênese do capital, supõem precisamente que ele ainda não é, mas só devém; logo, desaparecem com o capital efetivo, com o próprio capital que, partindo de sua efetividade, põe as condições de sua efetivação. [...] Se, por conseguinte, os pressupostos do devir do dinheiro em capital aparecem como pressupostos externos dados para a gênese do capital –, da mesma forma o capital enquanto tal, tão logo é posto, cria seus próprios pressupostos [...].[2]

O capital detém-se sobre o mecanismo de criação desses pressupostos, considerando o Estado apenas na qualidade de condição do devir do capitalismo que, uma vez dada, abre campo para o próprio capital colocar “as condições de sua efetivação”. Dentre essas, não se situa o Estado porque, uma vez produzida a centralização da estrutura social, o modo de produção capitalista encarrega-se ele mesmo de reproduzir essa unificação através da criação contínua de um mercado mundial único, e cada vez mais extenso. Posto em funcionamento esse mecanismo, o requisito da unificação social é reassumido pelas próprias relações de produção capitalistas. Quando a análise recai sobre esse nível, é justificável, portanto, que o papel do Estado seja postergado, já que seu interesse se relaciona com a “síntese da sociedade burguesa” que ele encarna. Enquanto essa “síntese” é reproduzida e acentuada pelas relações de produção, ao Estado compete a representação desse processo, a reprodução de sua “forma”. Vale dizer: quando todas as condições de gênese do capital são dadas – como supõe Marx em O capitalas relações econômicas ganham autonomia, dispensando a intervenção de mecanismos políticos de apropriação e reprodução[3]. A uma estrutura social dessa ordem, como veremos mais adiante, é que corresponde a ideologia do laissez-faire, em que o Estado pode dispensar sua intervenção direta porque o mecanismo social é autorreprodutor.

Em uma obra histórica como O 18 de brumário de Luís Bonaparte, a forma de encarar a política e o Estado se dá em outro contexto: a França de meados do século passado – como de resto qualquer conjuntura concreta – é um produto da conjunção do modo de produção capitalista – já hegemônico –, permeado de “sobrevivências” pré-capitalistas, que deforma o quadro de funcionamento do sistema construído em O capital. Este, além de pressupor todas as suas condições de gênese, ainda solicita a ausência de obstáculos à expansão do mercado – tanto de investimentos quanto de consumo – paralela à necessidade de multiplicação da produção. O plano histórico não reproduzindo esses requisitos, o capital não se põe ainda em condições de reproduzir ele mesmo “as condições de sua efetivação”, deixando espaço para a inserção das formas políticas que supram suas lacunas. E o peso dessas formas estará em relação direta com a posição dos requisitos para que as relações de produção se autorregenerem. Em O 18 de brumário é a força insuficiente do capital industrial que possibilita a distorção do desenvolvimento capitalista francês, representado principalmente pelo predomínio da aristocracia financeira antes de 1848, e pelo fato de a massa da população ser composta por pequenos proprietários rurais. O apelo ao governo bonapartista só pode ser compreendido a partir das raízes que possui nessa insuficiência do processo capitalista francês. O maior ou menor grau de preenchimento dos requisitos de instauração do sistema determina a autonomia que seu funcionamento possui diante das condições que o geraram; daí a função dos mecanismos políticos, incluindo-se o Estado.

Uma classificação das formas de Estado no mundo moderno teria de partir necessariamente de uma análise das condições de transição de um modo de produção a outro; o Estado liberal correspondendo a uma autodeterminação completa do capitalismo, que dispensaria intervenções externas ao mecanismo econômico; o Estado nos países subdesenvolvidos, cuja força é correlata à incapacidade de acumulação de capital pela burguesia desses países; o Estado bonapartista, o Estado militarista etc. Quanto mais inexistentes as condições de acumulação primitiva em um país, maior será a indistinção entre esse período e o da reprodução autônoma de capital, inscrevendo mais a fundo as intervenções estatais e as crises políticas na sua história.”

[1] Karl Marx, Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858 – Esboços da crítica da economia política (São Paulo/Rio de Janeiro, Boitempo/Editora Uerj, 2011), p. 61.

[2] Ibidem, p. 377-8.

[3] Vale notar que as passagens com referência histórica e política direta em O capital, tais como a “acumulação primitiva” e as relações históricas entre indústria e comércio, abordam as condições da gênese do sistema, e não sua estrutura interna.

 

 

Criticar a filosofia política clássica não significa simplesmente aprofundar-se em sua problemática para demonstrar a insuficiência de seus métodos. Trata-se de questionar o seu próprio objeto, retomando, a partir daí, seu campo real e a problemática que lhe deve corresponder. A crítica da filosofia política tem seu fundamento, então, na constituição do objeto da política. Contrariamente ao procedimento das vulgarizações dentro do marxismo, que reduzem essa ruptura às diferenças do método, a questão da continuidade ou não de objeto e de problemática é que possui papel central.

O estatuto do objeto do político é a chave da compreensão para determinar o caráter preciso dessa ruptura. Compreender o lugar do político é determinar sua independência relativa em uma estrutura de produção, o tipo de dependência/autonomia que mantém com a totalidade das relações de um modo de produção. Contudo, para além da mera constatação, o que importa é a determinação do fundamento das diferenças de ritmo e de autonomia desse nível em relação aos demais. Da mesma forma que o tempo da economia se constitui paralelamente ao papel particular que a produção desempenha em cada uma de suas formas, o político terá seu ritmo definido conforme as relações que entretenha com os momentos da produção – circulação, distribuição, consumo – em cada modo de produção.”

 

 

Quando Marx se preocupou com uma periodização da história conforme os modos de produção – isto é, desde A ideologia alemã –, marcou sua ruptura com todas as formas de historicismo, porque cada maneira de combinação entre os trabalhadores diretos e os meios de produção configura uma nova forma de organização social, que, por sua vez, instaura novas categorias e articulações na história dos homens. A relação entre proprietários dos meios de produção e produtores estende-se por toda a estrutura social, atribuindo aos conceitos novas determinações: desde os de proprietário, produção, trabalhador, até os de sociedade, política, economia.

As diferentes combinações possíveis entre a força de trabalho e os meios de produção são a fonte última de onde surgem as categorias históricas que mais imediatamente compõem as relações sociais: senhor feudal, servo da gleba, escravo, capitalista, operário, todas são noções traduzíveis na linguagem das relações entre aqueles elementos. As análises históricas encontram assim seu objetivo, seu material, nas categorias geradas pelas relações de produção. Sua forma de respeitar a distinção entre os modos de produção é focalizar os indivíduos nas suas exatas determinações sociais, não tomando o escravo por servo da gleba, ou o artesão por operário. Pelo fato de se deparar com formas combinadas de modos de produção, esse respeito é o único critério pelo qual se pode distinguir até que momento vale uma denominação, qual sua extensão temporal e conceitual. As formas de combinação dos modos de produção impedem que essa determinação se possa fazer a priori, já que, embora sempre um desses modos seja predominante, seu grau de desenvolvimento implica diferenças nas categorias que produz. Em uma economia colonial, por exemplo, o fato de ele existir em função da produção para o mercado externo não é suficiente para substituir necessariamente as relações feudais no setor da economia de subsistência. O caráter predominante da produção para o mercado é o ponto de referência mais geral; seu grau de desenvolvimento será o responsável pela precisão a respeito das condições de relação social entre os indivíduos no interior dessa estrutura social particular que é o mundo colonial.

As análises políticas de Marx não se iniciam por diferenciações sobre o modo de produção vigente, mas elas se fazem sempre sob seu pano de fundo. O centro de referência da vida política na França, Alemanha ou Inglaterra é o caráter que a revolução burguesa ganhou em cada um desses países: o atraso ou avanço da revolução, as condições de desenvolvimento do processo de transformações a que a burguesia se propôs. E a revolução burguesa é uma síntese das condições de instauração e desenvolvimento do modo de produção capitalista, com todos os diferentes aspectos que o acompanham. É um conceito que integra todas as condições – empíricas ou estruturais – que o capitalismo enfrenta, e que, portanto, nasce da distinção do modo de produção burguês, para só então introduzir suas formas de transição.

As condições de instalação do modo de produção capitalista serão mais ou menos atendidas conforme o momento e o lugar na estrutura social geral em que se dê. Seu total atendimento – como pressupõe O capital – ou a sobrevivência de formas pré-capitalistas gerarão condições distintas de reprodução do sistema. Em um país onde as relações capitalistas tenham se imposto com total hegemonia, as condições da apropriação serão eminentemente econômicas, reservando papel secundário à política, pelo menos até que o próprio desenvolvimento daquelas relações gere suas crises posteriores. Nos países subdesenvolvidos e coloniais, por outro lado, onde a incapacidade de criação das condições de acumulação primitiva é um problema estrutural, as diferentes formas de intervenção da política, quer através do Estado – elemento indispensável nos mecanismos de reprodução desses países –, quer através da política imperialista em geral, têm papel central.

As formas políticas, jurídicas e ideológicas são, portanto, solicitadas a se inserir no vazio que se abre nas condições capitalistas de reprodução, tirando, da maior ou menor extensão desse espaço, sua força. Mas isso vale também para as diferenças entre o papel que tais condições desempenham nos vários modos de produção, pois, uma vez que cada um deles se funda em formas distintas de articulação entre os meios de produção e a força de trabalho, as relações jurídicas solicitadas precisam ser diversas. Sua integração a cada modo de produção é possibilitada pela combinação dos elementos da produção, sob a condição de que essas formas se revistam conforme as solicitações de autorregeneração da estrutura social. A separação característica ao capitalismo, entre proprietários dos meios de produção e vendedores da força de trabalho, requisita, como condições de sua existência, relações jurídicas que tomem, a uns e a outros, como indivíduos livres e iguais, bem como solicitam politicamente relações entre produtores diretos e apropriadores de mais-valor, sob a forma dissimuladora de cidadãos. As relações de produção capitalistas cedem então um lugar determinado ao político, ao preço de que ele preencha nessas relações as condições de sua reprodução como estrutura social. É conforme esse mesmo raciocínio que, pela simples análise das relações de produção que caracterizam uma sociedade comunista – abolição da separação entre força de trabalho e meios de produção e, consequentemente, da separação entre produção social e apropriação privada –, Marx se autoriza a afirmar nela a desaparição tanto do Estado quanto da própria vida política.”

 

 

“Se no capitalismo serão apenas as formas ideológicas que esconderão a referência social já no processo produtivo – pela predominância do valor de troca –, nas sociedades pré-capitalistas a presença do social só se dá no plano da circulação, já que a produção para a troca é lateral e não se põe como sua finalidade. A substantivação que o comércio adquire significa exatamente que é ele que dá consistência social às formas particulares de produção, correspondendo ao predomínio da produção para o uso, porque a produção existe sob essa forma – não determina a partir de si o caráter das relações sociais, papel que é dado pelo processo de troca. É apenas na troca que o capital e a mercadoria existem como tais: é pela troca que os indivíduos, enquanto portadores de mercadorias, ganham dimensão social. Como o lucro comercial advém do logro, o lugar que se ocupa na troca é que determina socialmente o papel do indivíduo ou da comunidade. A função de veículo para a troca de mercadorias, dentro desses modos de produção, traduz-se, para os proprietários de produtos excedentes, em veículo que conduz da particularidade à sociabilidade.

Esse papel central do comércio nas sociedades pré-capitalistas encontra seu correspondente na função que a política desempenha. As relações políticas têm em comum com as relações de troca o fato de se abstraírem igualmente da produção, tomando os indivíduos como cidadãos, desligados de suas funções de indivíduos que produzem. A vida política também significa um contato entre os homens no plano da generalidade, que não inclui os seus papéis privados. À justaposição das mercadorias pelo comércio socializa-se o objeto, na qualidade de mercadoria, e os indivíduos, como proprietários das mercadorias, só se tornam seres sociais dentro dele. Paralelamente, é a política que doa aos indivíduos a qualidade de seres sociais, através da qualidade de cidadãos. O comércio articula as formas de produção exteriormente, sem consideração das condições dessa produção; à política cabe a organização dos indivíduos, abstraindo-se das condições que os produzem como indivíduos, articulando-os exteriormente às suas condições privadas. Os laços que unem os cidadãos na política são tão incólumes aos seus papéis privados quanto o desconhecimento que as mercadorias têm em relação às condições particulares de sua produção como coisas. Enquanto o capital comercial parece ser a função por excelência do capital, o comércio e a política se constituem nos eixos em torno dos quais se constrói a sociabilidade. Porém, são formas de relações sociais que não incorporam as condições privadas dos indivíduos, e que antes tiram daí sua vida e sua força. Enquanto é a circulação que articula o processo social de mercadorias, é na política que os indivíduos encontram o lugar por excelência de sua existência social.

Isto já bastaria para determinar destinos similares ao processo de troca e às relações políticas, através dos diversos modos de produção. Mas suas relações estreitas vão mais longe: quando o capital comercial não foi ainda submetido à hegemonia no capital industrial, ele tem de encontrar seu motor no próprio processo da circulação. Como vimos, esse motor é o logro, o comprar barato e vender caro – em suma, a violência, nas suas formas mais ou menos abertas. As formas políticas de apropriação são então predominantes em todas as formas sociais pré-capitalistas: tanto nas relações de apropriação entre países – nas relações coloniais, por exemplo – como nas relações de trabalho – na escravidão ou na servidão. Nos modos de produção em que o lucro comercial é central, está igualmente reservado papel básico à política. Desta forma, a localização do político, sua eficácia e sua autonomia têm sua sorte ligada diretamente à função que o mecanismo de trocas desempenha em cada modo de produção. As alterações essenciais têm seu marco na instauração hegemônica do capitalismo, recolocando a estrutura social em funcionamento conforme as leis que rompem abruptamente com todos os modos de produção anteriores.”

 

 

Conforme propicia a consolidação da produção em moldes capitalistas, o Estado prepara seu próprio esvaziamento, já que luta contra as formas sociais pré-capitalistas, nas quais a apropriação política sempre tinha presença importante. Nas relações escravistas, por exemplo, “mesmo a parte da jornada de trabalho em que o escravo apenas repõe o valor de seus próprios meios de subsistência, em que, portanto, ele trabalha, de fato, para si mesmo, aparece como trabalho para seu senhor. Todo seu trabalho aparece como trabalho não pago”[17]. Nas relações feudais de trabalho, “o trabalho do servo para si mesmo e seu trabalho forçado para o senhor da terra se distinguem, de modo palpavelmente sensível, tanto no espaço como no tempo”[18]. O trabalho assalariado, por outro lado, esconde a divisão entre o trabalho excedente e o trabalho necessário, sendo o responsável pela imanência da vida econômica no capitalismo. Tanto o trabalho pago como o não retribuído aparecem como pagos, exatamente ao contrário do trabalho escravo. A introdução das relações capitalistas de trabalho representa, pois, o fim das formas palpáveis de apropriação política, fornecendo a base material que sustenta a ideologia da liberdade e da igualdade; tudo o que contribui para a instauração dessas relações colabora para o enfraquecimento das relações políticas. É o que ocorre com o Estado, cujo fortalecimento desempenhou o papel de requisito histórico do capitalismo, particularmente na luta contra o feudalismo, mas cujo papel dentro da estrutura capitalista modificou-se. O Estado continuou essencial às relações de produção capitalistas; porém, como essas relações se autorregeneram economicamente, quanto mais elas logram esse seu intento, mais reservam às relações políticas funções ideológicas, esvaziadas de eficácia real, similares às das relações jurídicas e morais. O papel reservado ao político, conforme a estrutura que o capitalismo se pretende, é o de um nível de superestrutura. Para a marcha ordinária dos negócios, o trabalhador pode ser confiado às “leis naturais da produção”. O papel da violência passa a se constituir em “reserva” do sistema, marginal ao seu mecanismo normal.

As relações entre o comércio e a indústria, e entre a política e as relações econômicas, são formas de manifestação das relações entre os modos de produção tomados na estrutura de seu funcionamento e seu encadeamento histórico. Centrados no capitalismo, como ponto de vista privilegiado que ilumina os modos de produção anteriores, percebemos como a cronologia evidenciava um papel do comércio e da política que não coincide com sua função dentro do capitalismo, mas cuja atividade exatamente prepara o advento da hegemonia da indústria e das relações econômicas. Esse imbricamento entre os dois planos necessita da existência, na história, de momentos que representem uma ruptura decisiva na evolução cronológica, porque significa a passagem à outra estrutura de modo de produção. Na evolução política da França, analisada por Marx, O 18 de brumário desempenha esse papel; a política e o Estado veem redefinirem-se seus lugares na estrutura social a partir desse instante. Ele marca a passagem da determinação da vida social pela contradição entre os interesses burgueses contra os feudais para sua determinação pelas contradições de classes inerentes ao capitalismo, que opõem burgueses e proletários.

A mudança de papel que ocorre com a política e com o Estado advém das diferenças que se estabelecem nas formas de oposição aos interesses feudais ou aos proletários. O domínio feudal assentava-se em relações políticas, tanto na dependência do servo da gleba para com o senhor feudal, mediada pela posse da terra, como nas relações de comércio, em que a apropriação política era central. A forma de combate às relações feudais encontrava o seu campo dentro mesmo da luta política pela quebra dos privilégios locais pelo poder do Estado; a burguesia teve de combater com as armas que seu adversário havia escolhido.

Em todas as formações sociais pré-capitalistas – escravistas e medievais – o político ligava-se, por isso, estreitamente à vida econômica da comunidade. A ausência de separação radical entre a força de trabalho e os meios de produção impossibilitava uma vida política desligada das relações econômicas, já que não existia ainda o cidadão – indivíduo tomado exclusivamente como ser social, independentemente de sua relação com os meios de produção. Portanto, o político ainda não existia como um nível específico, com lógica interna própria, estrutura e práticas autonomizadas, paralelamente ao fato de o indivíduo não ter funções distintas enquanto homem político e enquanto participante da estrutura econômica da sociedade.

O capitalismo encontra seu fator de propulsão na esfera econômica, através da separação entre meios de produção e força de trabalho, que propicia o não pagamento do trabalho excedente. As relações políticas já não se situam no centro desse mecanismo, sendo solicitadas a desempenhar papel diverso: trata-se da função ideológica de assentar-se sobre as relações econômicas de produção, valendo-se da separação dos indivíduos em relação aos meios de produção para organizá-los socialmente desligados de seus lugares junto aos instrumentos de trabalho. Surge, assim, o conceito do “propriamente político”, fundado na separação entre os meios de produção e a força de trabalho; a consideração desses fatores unidos, através da venda da capacidade de trabalho em troca do salário, determina o lugar que os indivíduos ocupam na estrutura de produção da sociedade; a possibilidade de consideração dos homens apenas como seres que participam da produção através do mecanismo de trocas dá chance de aparição e autonomia ao político.”

[17] Idem, O capital, Livro I, cit., p. 610.

[18] Idem.

 

 

A produção pressupõe a circulação em forma desenvolvida. Ao se desenvolver, a produção gera igualmente a circulação, ao mesmo tempo em que se reproduz. O fato de pressupor a circulação ganha seu lugar definido ao lado da afirmação de que a produção engloba a circulação desenvolvida em seu processo único.

Paralelamente a isso, as relações econômicas capitalistas pressupõem relações políticas sob forma desenvolvida, mesmo porque a história daquelas passa pelo desenvolvimento destas, da mesma forma que a gênese do capital passa pela exposição do mecanismo de trocas. O desenvolvimento das relações econômicas e políticas constitui-se, pois, em um processo único de produção e reprodução do sistema, compondo as relações de produção.

Contudo, a realização do político (que a filosofia política vê) no mundo moderno só seria possível se as relações de produção capitalistas fossem relações fechadas sobre si mesmas, isto é, se as condições da circulação sempre comandassem seu mecanismo, não fazendo do capitalismo um sistema que reproduz as condições de sua realização, mas sempre sob uma forma ampliada, condenando-se a uma expansão contínua. Na medida em que, por exemplo, o capitalismo não produz mercado consumidor no mesmo ritmo de expansão em que amplia a produção, isto é, na medida em que algum dos mecanismos que solicitam uma contínua expansão da produção não encontra correspondentes no consumo, o sistema já não está reproduzindo todas as condições necessárias à sua existência. As crises apontam exatamente para as contradições entre um sistema que produz seus pressupostos, mas que, pela separação entre produção social/apropriação privada que o funda, não reproduz homogeneamente as condições de produção e de apropriação. A produção tende a uma contínua expansão, já que, conforme a fórmula sintética do Manifesto Comunista, “a burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção”[22], mas as condições de apropriação não são multiplicadas pelo mesmo mecanismo. Ao contrário, a tendência é a de aceleramento da contradição entre a produção – cada vez mais socializada – e a apropriação – crescentemente privatizada.

Nesse vácuo reintroduzem-se as soluções políticas dentro do capitalismo. Lenin consegue caracterizar o imperialismo como “etapa superior do capitalismo”, como fenômeno já encravado no coração das relações de produção capitalistas, exatamente por esses clarões que se abrem nas condições de reprodução do funcionamento do sistema. As crises capitalistas não se produzem pela impureza do funcionamento histórico do esquema capitalista; elas encontram sua origem na própria forma de se estruturar esse esquema, tendo obrigatoriamente que se restabelecer sob forma expandida. A fase imperialista já não distingue então entre as necessidades puramente econômicas ou políticas do capitalismo: trata-se da reprodução das condições de funcionamento das relações de produção que, pelas necessidades de expansão do mercado, por exemplo, não se determinam exclusivamente como condições de uma ordem ou outra. Como relações de produção baseadas na divisão de classes e na apropriação radical do trabalho alheio, elas já não discerniam entre um mecanismo econômico e as relações políticas; em um sistema assim constituído, a política está tão presente como as condições que produzem a divisão em classes. As relações econômicas e políticas reencontram-se como condições de um mesmo processo: reprodução dos pressupostos das relações de produção, fulcro da existência e subsistência do capitalismo. Lukács observa o fenômeno ao nível da ideologia, afirmando: “É porque a ideia, abertamente expressa, da luta de classes aparece duas vezes na história da ideologia burguesa”[23]. São os momentos em que o político intervém mais abertamente, tendo em vista a produção das condições históricas solicitadas pelo modo de produção capitalista: o período “heroico” da ascensão burguesa, e seu “período final de crise e desagregação”, a etapa imperialista. Essa etapa apresenta uma peculiaridade política que passa a defini-la.

A autonomia da vida econômica buscada pelo capitalismo é o centro em torno do qual ele redefine sua concepção sobre as esferas que o compõem. Nas formações sociais pré-capitalistas, vimos como o político se apresentava como contrapartida de uma produção ainda não organizada em função da troca: as formas de apropriação políticas do logro e a violência funcionavam como mola propulsora dos vários sistemas. A falta de continuidade entre a produção de utilidades e de mercadorias era preenchida pelo comércio e pela política, que se tornavam o nexo entre os dois níveis.

Quando os rumos da mercadoria se imprimem a toda a estrutura social, o campo de ação do político muda: de um lado, ele continua a se ligar às formas não capitalistas de apropriação, no grau em que as condições de acumulação primitiva não tiverem sido preenchidas. De outro lado, o político abrange as relações propriamente capitalistas, nas quais a produção de classes sociais contraditórias e as dificuldades de reprodução social das relações capitalistas abrem o novo campo de relações de conflito que corresponderá ao capitalismo. No primeiro nível, teríamos os fenômenos pré-capitalistas e, no outro, os que se produzem pelo desenvolvimento do próprio capitalismo, caracterizado pelas crises. A “lei do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo”, inerente ao sistema, encarregou-se de eliminar a distância histórica entre os dois planos, fazendo de uns fenômenos requisitos de existência dos outros, sob a forma do subdesenvolvimento e/ou colonialismo e mundo desenvolvido. A “etapa imperialista” corresponde à interligação dos dois planos, fazendo os destinos do capitalismo decidirem-se cada vez mais no nível político, pois as possibilidades de reprodução do sistema fazem apelo a formas não econômicas de apropriação.

Procuramos assim encaminhar à compreensão de que, ao preço de uma crítica exaustiva e radical da concepção do que seja a política, Marx extraiu uma nova noção da política. Essa nova noção possui, da anterior, apenas o nome, já que seu objeto, os elementos que o habitam e as relações que o entretêm são totalmente outros. Falar de política marxista é abrir todo o campo das relações de estrutura dentro do capitalismo, deter-nos na sua compreensão mais radical. Vale dizer que seu entendimento passa, como momento necessário, pela crítica da política enquanto teoria e prática ideológicas. Ao mesmo tempo, o caráter ideológico dessa política tem seu fundamento obrigatório na análise do objeto da política, em todas as suas extensões. Se a política, no sentido marxista, não tem nada a ver com o instintivo, o espontâneo, é precisamente porque ela representa a consciência limite de uma estrutura que nega a política afirmando-a, e se afirma enquanto patrocina sua negação pela política. A política marxista enfeixa a síntese dessa estrutura, na medida em que acompanha os rastros da constituição de suas contradições, colocando-se então em condições teóricas e práticas de superá-las.”

[22] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista (São Paulo, Boitempo, 1998), p. 43.

[23] György Lukács, El asalto a la razón (México, Fondo de Cultura Económica, 1959), p. 114. Aqui em tradução livre.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Anne e a Casa dos Sonhos, de Lucy Maud Montgomery

Editora: Ciranda Cultural

ISBN: 978-65-550-0198-3

Tradução: Rafael Bonaldi

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 256

Sinopse: Sob o sol de Green Gables, onde tudo começou, Anne e Gilbert selam o relacionamento e assumem um futuro juntos. Em Four Winds uma oportunidade profissional aguarda Gilbert e rodeada de árvores e um riacho está a casa dos sonhos de Anne. Lá, conhecerão o capitão Jim e a Leslie Moore, vizinhos com histórias surpreendentes para compartilharem com o casal, que passará por momentos difíceis e alegres em seu primeiro ano de casado.



“Cada alegria traz consigo a sombra de um pesar.”

 

 

“Já Anne estava tão feliz que quase chegava a ter medo. Os deuses, segundo as antigas superstições, não gostavam de ver os mortais alegres demais. E, certamente, alguns seres humanos também não.”

 

 

“– Se não fossem os sonhos, seria melhor sermos enterrados de uma vez.”

 

 

“Não podemos deixar os sentimentos assumirem o leme da nossa vida. Não, não; naufrágios seriam muito frequentes se fizéssemos isso. Só existe uma bússola na qual podemos confiar para definir nosso curso: o que é certo a fazer.”

 

 

“Quando uma grande paixão toma posse da alma, todos os outros sentimentos ficam espremidos em um canto.”

sexta-feira, 13 de junho de 2025

As confissões (Parte II), de Jean-Jacques Rousseau

Editora: Nova Fronteira

ISBN: 978-85-209-4301-4

Opinião: ★★★☆☆

Prefácio e tradução: Wilson Lousada

Páginas: 624

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Sinopse: Ver Parte I



“É uma coisa muito singular que minha imaginação nunca se mostre muito agradavelmente senão quando minha situação é a menos agradável possível e que, ao contrário, é menos sorridente quando tudo ri ao redor de mim. Minha má cabeça não pode sujeitar-se às coisas. Ela não saberia embelezar, ela quer criar. Os objetos reais ali se reproduzem mais ou menos como são; ela só sabe ornar os objetos imaginários. Se quero descrever a primavera, é preciso que esteja no inverno; se quero escrever sobre uma bela paisagem, é preciso que esteja cercado por muros; e disse cem vezes que se algum dia fosse metido na Bastilha, ali faria um quadro da liberdade.”

 

 

“Enquanto, assim dividido entre o trabalho, o prazer e a instrução, eu vivia no mais doce repouso, a Europa não estava tão tranquila quanto eu. A França e o imperador acabavam de declarar-se guerra: o rei da Sardenha tinha se metido na querela e o exército francês manobrava no Piemonte para entrar no ducado de Milão. Passou uma coluna por Chambéri e entre outras o regimento de Champagne, cujo coronel era o senhor duque de la Trimouille, ao qual fui apresentado, e que, me prometendo muitas coisas, seguramente jamais tornou a pensar em mim. Nosso jardinzinho ficava precisamente no alto do bairro pelo qual entravam as tropas e eu me apaixonei pelo resultado dessa guerra como se ela muito me interessasse. Até aí não havia pensado em saber dos negócios políticos; e pus-me então a ler os jornais pela primeira vez, mas com tanta parcialidade pela França que meu coração batia de alegria diante de suas menores vantagens e suas derrotas me afligiam como se me atingissem pessoalmente. Se tal capricho fosse passageiro, nem me daria ao trabalho de falar nele; porém enraizou-se de tal modo em meu coração, sem razão nenhuma, que quando, em Paris, tomei atitude de antidéspota e republicano feroz, sentia a despeito de mim mesmo, uma predileção secreta por aquela mesma nação que achava servil e por aquele governo que eu fingia criticar. O que havia de engraçado era que me envergonhava duma simpatia tão contrária às minhas máximas e não ousava confessá-la a ninguém; censurava os franceses por seus defeitos enquanto meu coração sangrava mais do que o deles. Sou, seguramente, o único que, vivendo num país que o tratava bem e que eu adorava, se revestiu ali mesmo de um falso ar de desprezo. Finalmente tal simpatia foi tão desinteressada de minha parte, tão forte, tão constante, tão invencível que, mesmo depois de ter saído do reino, depois que o governo, os magistrados, os autores me perseguiram à vontade, depois que se tornou moda cumular-me de injustiças e ultrajes, não pude curar-me de minha loucura. Amo-os a despeito de mim mesmo embora me maltratem.

Durante muito tempo procurei a razão dessa parcialidade e não pude encontrá-la a não ser na ocasião em que a vi nascer. Uma crescente paixão pela literatura francesa prendia-me aos livros franceses, aos autores desses livros e ao país desses autores. No momento exato em que desfilavam sob meus olhos os soldados franceses, eu lia os grandes capitães de Brantôme. Tinha a cabeça cheia dos Clisson, Bayard, Lautrec, Coligny, Montmorency, la Trimouille e afeiçoava-me a seus descendentes como aos herdeiros de seus méritos e sua coragem. A cada regimento que passava, julgava rever aquelas famosas tropas negras que outrora haviam feito tantas proezas no Piemonte. Finalmente aplicava ao que via as ideias que bebia naqueles livros: minhas leituras contínuas, e sempre tiradas da mesma nação, nutriam minha afeição por ela e deram-me uma paixão cega que coisa nenhuma conseguiu ultrapassar. Tive ocasião depois, em minhas viagens, de observar que essa impressão não era particularmente minha e que agindo mais ou menos em toda terra, na parte da nação que gostava de ler e que cultivava as letras, ela equilibrava o ódio geral que inspira o ar superior dos franceses. Os romances, mais do que os homens, fazem com que as mulheres de todos os países se apeguem à França; suas obras-primas dramáticas prendem a juventude aos seus teatros. A celebridade de Paris para ali atrai multidões de estrangeiros que, quando podem, voltam entusiasmados. Finalmente o excelente gosto de sua literatura submete-lhe todos os espíritos cultos; e na guerra tão infeliz de que estão saindo, vi seus autores e seus filósofos sustentarem a glória do nome francês, glória que fora empanada por seus guerreiros.”

 

 

“Segundo minha opinião, a ociosidade não é menor flagelo na sociedade do que a solidão. Nada restringe mais o espírito, nada engendra mais insignificâncias, mais mexericos, mais malícia, amofinações, mentiras, que ficarmos eternamente fechados num quarto, tendo como única ocupação a necessidade de falarmos continuadamente. Quando todos estão ocupados, só falamos quando há alguma coisa a dizer; mas quando nada fazemos é absolutamente preciso tagarelar sempre; e eis de todos os constrangimentos o mais incômodo e o mais perigoso. Ouso mesmo ir mais longe e mantenho que para tornarmos um círculo verdadeiramente agradável, é preciso não só que cada qual faça alguma coisa, como que seja algo que exija um pouco de atenção. Um trabalho de dar nós, é o mesmo que não fazer nada; e precisamos tantos cuidados para entreter uma mulher que faz um trabalho de nós como aquele que fica de braços cruzados. Mas quando ela borda, é diferente: ocupa-se o bastante para não notar os intervalos de silêncio. O que há de chocante, de ridículo é ver, durante esse tempo, uma dúzia de magrelas levantar-se, assentar-se, ir, vir, fazer piruetas sobre os calcanhares, revirar duzentas vezes as estatuetas da chaminé e fatigar a imaginação para manter um inesgotável fluxo de palavras: bela ocupação! Essas pessoas, façam o que façam, sempre serão pesadas aos outros e a si mesmas. Quando estava em Motiers ia fazer redes em casa de minhas vizinhas; quando frequentava a sociedade, sempre tinha que trazer no bolso um bilboquê e ficava jogando todo o tempo para dispensar-me de falar quando nada tinha a dizer. Se todos fizessem o mesmo, os homens seriam menos maus, seu trato seria mais seguro e, penso, mais agradável. Enfim que os engraçados riam se quiserem, mas sustento que a única moral à altura do século presente é a moral do bilboquê.”

 

 

“Gozar a vida!, será uma sorte talhada para o homem? Ah!, se algum dia, um só em minha vida, tivesse gozado em sua plenitude todas as delícias do amor, não creio que minha frágil existência pudesse suportar: morreria durante o feito.”

 

 

“Se há na vida sentimento delicioso, é o que experimentamos ao sermos útil uns aos outros.”

 

 

““Em geral, os que creem imaginam Deus como eles mesmos são: os bons o julgam bom, os maus o julgam mau; os devotos, biliosos e cheios de ódio, só veem o inferno porque desejariam maldizer todo o mundo; as almas doces e amantes quase não creem no inferno.”

 

 

“A verdadeira felicidade não se descreve, sente-se e se sente tanto mais quanto menos se pode descrevê-la, porque não é o resultado de uma reunião de fatos e sim dum estado permanente.”

 

 

“Nada demonstra melhor as verdadeiras inclinações dum homem do que a qualidade de suas amizades.”

 

 

Nunca houve para mim um meio-termo entre tudo e nada.”

 

 

“Sempre o disse e senti, a verdadeira alegria não se descreve.”

 

 

“Enquanto eu filosofava sobre os deveres do homem, um acontecimento veio obrigar-me a refletir mais sobre os meus. Thérèse engravidou pela terceira vez. Sincero demais para comigo mesmo, intimamente muito altivo para querer desmentir meus princípios com minhas ações, pus-me a examinar o destino de meus filhos e as minhas relações com Thérèse, sob as leis da natureza, da justiça e da razão, e sob as daquela religião pura, sã, eterna como seu autor, que os homens mancharam, fingindo querer purificá-la e da qual só conseguiram fazer, por meio de suas fórmulas, uma religião de palavras, visto como pouco custa prescrever o impossível quando nos dispensamos de pô-lo em prática.

Se eu me enganava em meus resultados, nada é mais surpreendente do que a segurança com que me entregava. Se eu fosse desses homens maus de nascença, surdos à doce voz da natureza, no peito dos quais jamais germina o verdadeiro sentimento de justiça e de humanidade, aquela dureza seria muito simples; mas aquele calor de coração, aquela viva sensibilidade, aquela facilidade de entregar-me à amizade, aquela força com que as amizades me subjugam, aquele cruel desgosto quando me é preciso rompê-las, aquela bondade inata para com os meus semelhantes, aquele ardente amor ao grandioso, ao verdadeiro, ao belo, ao justo; aquela aversão por toda espécie de mal, aquela impossibilidade de odiar, de aborrecer, e mesmo de desejar mal; aquela ternura, aquela emoção doce e viva que experimento ao ver tudo o que é virtuoso, generoso, amável: tudo isto poderá harmonizar-se na mesma alma com a depravação que faz calcar aos pés, sem escrúpulos, o mais doce dos deveres? Não, sinto-o e digo-o em voz alta, não é possível. Nunca, num só instante de sua vida, Jean-Jacques pode ser um homem sem sentimentos, sem entranhas, um pai desnaturado. Pude enganar-me, porém não ficar empedernido. Se expuser minhas razões, direi demais. Já que conseguiram seduzir-me, seduzirão muitos outros: não quero expor os jovens que me possam ler a que se deixem arrastar pelos mesmos erros. Contentar-me-ei em dizer que foram tais, que ao entregar meus filhos à educação pública, por não poder educá-los eu mesmo, destinando-os a ser operários e camponeses em vez de aventureiros e cavalheiros de indústria, julguei agir como cidadão e como pai, e considerava-me como um membro da república de Platão. Mais de uma vez, desde então, os gemidos de meu coração me disseram que me havia enganado; mas, longe de minha razão me dizer o mesmo, frequentemente bendisse o céu por tê-los resguardado desse modo do destino do pai e daquele que os ameaçava quando me visse obrigado a abandoná-los. Se os tivesse deixado nas mãos de madame d’Épinay ou nas de madame de Luxembourg, que, por amizade, por generosidade, ou por qualquer outro motivo, deles quiseram se encarregar mais tarde, teriam sido os meus filhos mais felizes, teriam sido educados como homens honrados, pelo menos? Ignoro-o, mas tenho certeza de que os levariam a odiar, talvez até a trair seus pais: cem vezes mais valera que não os tivesse conhecido.

Meu terceiro filho foi, portanto, posto na Roda, assim como os primeiros, e o mesmo aconteceu com os outros dois que se seguiram, pois foram cinco ao todo os filhos que tive. Tal arranjo me pareceu tão bom, tão sensato, tão legítimo, que se não me gabei abertamente, foi apenas por consideração a Thérèse; porém disse-o a todos aqueles a quem havia confessado nossas ligações: disse-o a Diderot, a Grimm; falei sobre ele, mais tarde, com madame d’Épinay, e depois ainda a madame de Luxembourg, e isso livremente, francamente, sem nenhuma espécie de necessidade, e podendo facilmente esconder o fato a todo mundo; pois la Gouin era uma mulher honesta, muito discreta e com a qual contava perfeitamente. O único de meus amigos com quem tive necessidade de me abrir foi com o médico Thierry, que cuidou da minha pobre tia num dos partos em que passou bem mal. Numa palavra, não fiz nenhum mistério de minha conduta, não só porque nunca soube esconder nada de meus amigos, como porque, na verdade, nada via de mal no que fazia. Bem pesadas as coisas, escolhi o melhor para os meus filhos, ou pelo menos aquilo que julgava ser o melhor. Teria querido mais ainda: preferia ter sido educado e criado como eles o foram.

Enquanto fazia desse modo as minhas confidências, madame le Vasseur também as fazia por seu lado, porém com objetivos menos desinteressados. Eu as havia levado, a ela e a filha, à casa de madame Dupin que, por amizade a mim, tinha tido mil bondades para com elas. A mãe pô-la ao corrente do segredo da filha. Madame Dupin, que é boa e generosa, e a quem ela não dizia quanto, apesar da modicidade de meus recursos, eu me esforçava para prover a tudo, procurava, por seu lado, diminuir as necessidades com uma liberalidade que, por ordem de madame le Vasseur, Thérèse sempre me ocultou durante minha estadia em Paris, e cuja confissão só me veio a fazer na Ermitage, depois de vários desafogos de coração. Eu não sabia que madame Dupin, que nunca me deixou perceber qualquer coisa, estivesse tão ao par de tudo; também ignoro se madame de Chenonceaux, sua nora, o sabia; mas madame de Francueil, sua enteada, não o ignorava e não pôde calar-se. No ano seguinte tocou-me no assunto, quando eu já havia deixado sua casa. Isso me forçou a escrever-lhe uma carta, que encontrarão em meus papéis, e na qual exponho as razões que podia dar sem comprometer madame le Vasseur e sua família; pois os mais fortes determinantes daí partiam, e calei-os.2

Tenho plena confiança na discrição de madame Dupin e na amizade de madame de Chenonceaux; tinha-a na de madame de Francueil, que além disso morreu muito antes que meu segredo fosse divulgado. Só poderia ter sido espalhado pelas mesmas pessoas a quem eu o havia confiado, e só o foi efetivamente depois de minha ruptura com elas. São julgados só por esta ação: sem querer desculpar-me da reprovação que mereço, prefiro ser apontado como culpado a receber a acusação que a perversidade deles merece. Minha culpa é grande, mas é um erro: negligenciei meus deveres, mas o desejo de prejudicar não entrou em meu coração, e as entranhas paternas não saberiam falar poderosamente pelos filhos que nunca viram: mas trair a confiança da amizade, violar o mais santo de todos os pactos, publicar os segredos vertidos em nosso seio, desonrando por prazer o amigo que enganamos e que nos respeita ainda ao nos deixar, não são faltas apenas, são baixezas morais e torpezas.3

Prometi-lhes a minha confissão e não minha justificação, por isso ponho ponto final no assunto. Cabe-me não faltar à verdade, ao leitor cabe ser justo. Não lhe pedirei nada mais.”

2 Essas razões, as mais determinantes, que só deixa entrever aqui, são positivamente explicadas no livro IX e principalmente em suas Réveries: “O certo é que foi o medo de um destino, para meus filhos, mil vezes pior e quase inevitável por qualquer outro caminho, que mais influiu em minha decisão... Não estando em condições de educá-los pessoalmente, ter-me-ia sido preciso, em minha situação, que a mãe os criasse, o que os tornaria mimados, e educados por sua família, que deles teria feito monstros. Ainda estremeço só em pensar.” (Oitavo Passeio).

Já vimos anteriormente a ideia odiosa que nos dá de todos os indivíduos dessa família; e o que vai acrescentar em breve, o roubo da sua roupa branca, só contribuirá para confirmá-la.

Para não termos que voltar nessas notas a um assunto tão triste, vamos, resumindo, colocar os leitores a par de alguns fatos que a ele se ligam, pondo-os na altura de determinarem o grau de indulgência ou de severidade com que devem fazer seu julgamento.

Primeiro, pela ideia que nos dá Rousseau no seu VII livro, das pessoas com que lidava nos primeiros tempos de sua ligação com Thérèse le Vasseur e o efeito que sobre ele causou o modo daqueles companheiros pensarem e viverem, fica bem provado que, se foi cinco vezes culpado por abandonar os filhos, não foram as mesmas causas que determinaram os cinco abandonos sucessivos. No abandono dos dois primeiros, seguiu Rousseau o exemplo dado por homens tão divertidos, tão amáveis, que via e ouvia diariamente em casa de la Selle, sua hospedeira. Resolveu-se a fazê-lo, nos diz ele alegremente, como aqueles amigos faziam em caso semelhante.

Quando nasceu o terceiro, sua situação era outra. Já era autor, e autor famoso, meditava novas obras, filosofava sobre os deveres do homem, e sua ação desta vez, diz-nos ele mesmo, foi resultado duma resolução bem pesada e com seus motivos. “Se dissesse minhas razões, acrescenta ele, diria demais. Já que conseguiram seduzir-me, seduzirão muitos outros.” Essas razões são fáceis de perceber; e duvidamos que após um exemplo tão fatal, seja de temer sua sedução. Nosso filósofo, assim que entrou para a carreira das letras, sentiu-se chamado, ou melhor, empurrado pelo seu gênio para trabalhos e deveres de ordem mais elevada que não se conciliavam com as preocupações importunas e vulgares impostas a um pai sem fortuna pela necessidade de educar e criar os filhos. Encarregando a sociedade de criá-los e educá-los no estabelecimento destinado a isso mesmo, julgava-se ele em estado de indenizá-la amplamente com suas obras. Se realmente Rousseau teve esta ideia, não se trata mais de saber se, falando de modo geral, merece aprovação; sofreu a condenação a este respeito: mas, uma vez a ideia admitida, mais valeria que houvesse no mundo cinco pessoas a mais com o nome de Rousseau, criadas pelo próprio pai, e que Heloísa e Emílio não tivessem sido escritas; numa palavra, resta-nos saber se Rousseau, tendo-nos encarregado de seus filhos, nos deu efetivamente a compensação de que se gabava.

De resto, se Rousseau, culpado dentro do direito, se acha justificado deste modo, apressemo-nos a observar ainda que nunca teve para consigo mesmo esta espécie de justificação. Mesmo no auge da glória e quando recebia de todos os lados os tributos de reconhecimento e de admiração, o remorso agitava sua alma e influía em sua conduta privada. Os leitores verão a prova disso no livro XII e na passagem de Emílio que vem citada em nota nessa ocasião. (N.T.)

3 No tempo em que Rousseau morava em Paris, o ter enviado sucessivamente seus cinco filhos à casa de caridade era, no quarteirão em que residia, fato notório. Eis o que diz a esse respeito aquele que se encarregou, no Jornal enciclopédico, da obra de Ginguené sobre as Confissões na época de sua publicação, em 1791: “O acaso levara-me a morar na rua Grenelle-Saint-Honoré, bem em frente à casa onde Rousseau ocupava o terceiro andar. Um cabeleireiro tinha loja naquela casa e tornou-se meu fornecedor. Sempre evitei a conversa com homens dessa profissão e, no momento de ajeitar os cabelos, raramente deixava de me munir com um livro. Porém foi exatamente esta precaução que me traiu. Um belo dia estava eu com um dos volumes de M. Rousseau, e eis que o meu cabeleireiro vem me dizer que era um homem muito conhecido, e que ele era amigo da governante, a quem muito lamentava, visto que os filhos que tinha com o patrão eram barbaramente mandados para os Enfants-Trouvés. Não acreditei, etc., etc.” (Extraído dos jornais de agosto de 1791.) (N.T.)

 

 

“Pouco custa prescrever o impossível quando nos dispensamos de pô-lo em prática.”

 

 

A impaciência de ir para l’Ermitage não me deixou esperar pela primavera; e assim que minha casa ficou pronta, tratei de mudar-me com grande algazarra do partido holbáquico que em voz alta predizia que eu não suportaria três meses de solidão e que dentro em pouco me veriam, envergonhado, voltar para viver em Paris como eles. Quanto a mim, que há quinze anos me via fora de meu elemento, achando-me prestes a volver ao campo, nem prestava atenção às zombarias. Desde que me lançara no mundo, contra minha vontade, não tinha cessado de chorar as minhas queridas Charmettes e a doce vida que ali tinha levado. Sentia-me talhado para o sossego do campo; era-me impossível viver feliz noutros lugares: em Veneza, metido nos negócios públicos, na dignidade duma espécie de representação, no orgulho de projetos ambiciosos; em Paris, no turbilhão da grande sociedade, na sensualidade das ceias, no esplendor dos espetáculos, cercado pelos fumos da glória, os meus bosques, meus regatos, meus solitários passeios, sempre vinham me distrair com sua lembrança, contristando-me, arrancando-me suspiros e anseios. Todos os trabalhos a que tinha podido submeter-me, todos os projetos de ambição que, por acessos, tinham me entusiasmado não visavam a outra coisa senão chegar um dia àqueles benditos lazeres campestres que naquele momento eu me gabava de alcançar. Sem ter chegado a um bem-estar fácil, que sempre achara ser o único meio de obter o que desejava, eu julgava, devido à minha situação especial, poder dispensá-lo e alcançar o mesmo fim por um caminho completamente diferente. Não tinha um vintém de renda: mas tinha um nome e meus dons; era sóbrio e fugira às necessidades mais dispendiosas, a todas as exigências da opinião. Além disso, apesar de preguiçoso, sabia ser laborioso quando o queria ser; e minha preguiça era mais a dum homem independente do que a dum mandrião, pois só gostava de trabalhar quando tinha vontade de fazê-lo. O meu trabalho como copista de música não era brilhante nem lucrativo: porém era certo. Sabiam que eu estava satisfeito com ele por ter tido a coragem de escolhê-lo. Podia contar que trabalho não me faltaria e que daria para eu viver, se trabalhasse bem. Os dois mil francos que me restavam dos lucros de Devin du village e de meus outros escritos concorriam para que vivesse sem apertos; e várias obras que tinha me prometiam, sem nada pedir aos editores, suplementos suficientes para trabalhar à vontade, sem me exceder e mesmo gozando os prazeres dos passeios. Meu pequeno lar, composto de três pessoas, todas trabalhando e sendo úteis, não era de manutenção dispendiosa. Finalmente todos os meus recursos, em proporção aos meus desejos e minhas necessidades, razoavelmente podiam prometer-me uma vida de felicidade duradoura naquela que meus pendores me fizeram escolher.

Poderia escolher somente o lado lucrativo, e em vez de sujeitar minha pena à cópia de música, podia devotá-la inteiramente aos escritos que, com o voo que eu empreendera e que me sentia em estado de sustentar, dariam para eu viver na abundância e até na opulência, por pouco que tivesse querido reunir minhas habilidades de autor ao cuidado de publicar bons livros. Todavia eu sentia que escrever para ganhar o pão teria, bem depressa, abafado o meu gênio e matado meu talento, pois estes residiam mais em meu coração do que na pena, e minha inspiração nascera simplesmente dum modo de pensar elevado e altivo, única condição que podia nutri-la. Nada de vigoroso, nada de grande pode partir duma pena completamente venal. A necessidade, talvez a avidez, ter-me-ia feito escrever depressa de preferência a escrever bem. Se a necessidade do sucesso não me tivesse mergulhado nas cabalas, ter-me-ia impelido a dizer coisas que agradassem à multidão em vez das úteis e verdadeiras; e de autor ilustre passaria a garatujador de papel. Não, não: sempre senti que a carreira de escritor não era profissão e só podia ser ilustre e respeitável, enquanto não fosse obrigação. É muito difícil pensar com nobreza quando nos preocupamos em ganhar para viver. Para poder, para ousar dizer grandes verdades, não se deve contar com o seu sucesso. Dava meus livros ao público com a certeza de ter falado para o bem comum, sem nenhuma preocupação pelo resto. Se a obra era refugada, tanto pior para aqueles que dela não queriam tirar proveito. Quanto a mim, não precisava de sua aprovação para viver. O meu trabalho de copista dava para viver se meus livros não se vendessem; e eis precisamente o que contribuía para que eles se vendessem.”

 

 

“Uma vez que escondemos qualquer coisa de alguém que amamos, em breve não temos mais escrúpulos em guardar segredo a respeito de tudo.”

 

 

“Tudo parecia concorrer para me tirar de meu devaneio doce e louco. Não estava curado de meu ataque quando recebi um exemplar do poema sobre a ruína de Lisboa, que supus me ter sido enviado pelo autor. Isso me pôs na obrigação de lhe escrever e de falar-lhe de sua obra. Fi-lo por intermédio de uma carta, que foi publicada muito tempo depois, sem o meu consentimento, como ficará explicado mais abaixo. Admirado por ver aquele pobre homem, acabrunhado, por assim dizer, pela prosperidade e pela glória, declamar no entanto, e amargamente, contra as misérias desta vida e sempre achar que tudo andava mal, formei o insensato projeto de fazer com que ele compreendesse, provando-lhe que tudo andava bem. Voltaire, sempre parecendo crer em Deus, realmente nunca acreditou senão no diabo, já que seu pretenso Deus não passa dum ser malfazejo que, segundo ele, só acha prazer em causar aborrecimentos. O absurdo desta doutrina, que salta aos olhos, é principalmente revoltante num homem que acumulou bens de toda espécie, que, no meio da felicidade, procurou fazer seus semelhantes desesperarem, pintando-lhes a imagem pavorosa e cruel de todas as calamidades que não o atingiram. Com mais autoridade do que ele para levar em conta e pesar os males da vida humana, deles fiz um exame imparcial e provei-lhe que, de todos aqueles males, não havia um só de que a providência não fosse desculpada e que não tivesse sua origem mais no abuso que o homem fazia de suas faculdades, do que na própria natureza. Naquela carta, tratei-o com todo o respeito, com toda a consideração, toda atenção e, posso dizer, com todo respeito possível. Entretanto, sabendo-o dono dum amor-próprio extremamente irritável, não lhe mandei esta carta diretamente e sim enviei-a ao doutor Tronchin, seu médico e seu amigo, com plenos poderes para entregá-la ou destruí-la, segundo achasse mais conveniente. Tronchin entregou a carta. Voltaire me respondeu, em poucas linhas, que, estando doente e sendo ele mesmo o enfermeiro, adiava para outra ocasião a resposta e não disse palavra sobre a questão. Tronchin, mandando-me a carta, juntou-lhe uma, onde deixava transparecer pouca estima por aquele que lhe havia entregue.

Nunca publiquei nem mesmo mostrei estas duas cartas, por não gostar de fazer ostentação de pequenos triunfos desta espécie; porém elas estão em originais nas minhas coleções (maço A, nos 20 e 21). Depois, Voltaire publicou aquela resposta que me havia prometido, mas que não me endereçou diretamente. É ela simplesmente o romance de Cândido, sobre o qual não posso falar porque não o li.”

 

 

“Muito tempo hesitei sobre a maneira pela qual deveria conduzir-me junto dela, como se o verdadeiro amor deixasse bastante razão para seguir deliberações.”

 

 

“Assim que me vi só, voltei a mim; sentia-me mais calmo depois de ter falado (me declarado): o amor quando conhecido por aquela que o inspira se torna mais suportável.”

 

 

“As mulheres conhecem a arte de esconder o ódio, principalmente quando é um ódio forte.”

 

 

“É no campo que aprendemos a amar e a servir à humanidade: na cidade só aprendemos a desprezá-la!”

 

 

“Se é uma desgraça alguém enganar-se na escolha de seus amigos, não é outra menos cruel despertar dum erro tão doce.”

 

 

“Minhas piores culpas foram as da omissão: raramente fiz o que não devia fazer e desgraçadamente com mais raridade ainda fiz o que eu tinha necessidade de fazer.”

 

 

“A princípio eu começara por interessar-me muito por madame du Deffand, a quem a perda da visão a tornava, para mim, digna de comiseração: mas sua maneira de viver, tão contrária à minha, cuja hora de despertar quase que era a hora em que ela ia deitar-se; sua ilimitada paixão pelos homens espirituosos; a importância que dava, por bem ou por mal, aos menores escritos sem importância que apareciam; o despotismo e o arrebatamento de suas máximas; sua preocupação excessiva pró ou contra todas as coisas, que não lhe permitia discutir as coisas sem convulsões; seus incríveis preconceitos, sua invencível obstinação, o extravagante entusiasmo a que a levava a perseverança em opiniões apaixonadas; tudo isso me afastou depressa dos cuidados que desejava prestar-lhe. Fui me afastando; ela o percebeu: foi o bastante para enfurecê-la; e apesar de eu sentir o quanto era para recear uma mulher com tal temperamento, preferi ainda assim expor-me ao flagelo de seu ódio do que ao de sua amizade.”

 

 

Tinha com que me distrair em viagem, entregando-me às reflexões que se apresentavam sobre tudo o que acabava de me suceder; porém não era essa a disposição de meu espírito nem os desejos de meu coração. É admirável a facilidade com que, passado o mal, por mais recente que seja, eu o esqueço. Quanto mais a previsão me amedronta e perturba quando o vejo desenhar-se no futuro, tanto mais sua lembrança me volta fracamente e se extingue com facilidade assim que o mal acontece. Minha imaginação cruel, que sem cessar se atormenta pensando nas desgraças que ainda não existem, afasta-me da que aconteceu e me impede de recordar as que já passaram. Contra aquilo que já não existe não há mais precauções a tomar e é inútil preocupação. De certo modo, esgoto minha infelicidade antecipadamente: quanto mais sofri ao prever um acontecimento, mais facilidade tenho em esquecê-lo; ao passo que ao contrário, incessantemente ocupado com a minha felicidade passada, dela me lembro e a rumino, por assim dizer, a ponto de gozá-la de novo quando quero. É a esta feliz disposição, sinto, que devo nunca ter conhecido aquele humor rancoroso que fermenta num coração vingativo para recordação contínua das ofensas recebidas, e que se atormenta a si mesmo com todo o mal que desejaria causar a seu inimigo. Naturalmente arrebatado, experimentei a cólera, o próprio ódio nos primeiros impulsos; porém nunca um desejo de vingança criou raízes dentro de meu peito. Ocupo-me muito pouco com as ofensas para me ocupar muito com quem me ofendeu. Só penso no mal que recebi por causa daquele que ainda posso vir a receber; e se estivesse seguro de que não mais me faria mal, seria imediatamente esquecido aquele que mo causasse. Pregam-nos muito o perdão às ofensas: é uma virtude muito bela sem dúvida, mas que não ponho em uso. Ignoro se meu coração saberá dominar o ódio, pois nunca experimentei tal sentimento e penso muito pouco em meus inimigos para ter o mérito de perdoá-los. Não direi até que ponto, para me atormentar, eles mesmos se atormentaram. Estou à sua mercê, têm eles todo o poder, dele usam. Só há uma única coisa acima de seu poderio e a que eu os desafio: é, preocupando-se comigo, obrigarem-me a preocupar-me com eles.”

 

 

Espíritos sem cultura e sem luzes não conhecem outro objeto de estima senão a reputação, o poder e o dinheiro, estão até bem longe de supor que se deve algum respeito aos talentos e que há certa desonra em ultrajá-los.”

 

 

“Sempre gostei apaixonadamente da água e ao vê-la fico num devaneio delicioso, apesar de ser sempre sem objetivo. Nunca deixei, logo ao despertar, quando o tempo estava bonito, de correr para a colina para aspirar o ar saudável e fresco da manhã e para descansar os olhos nas tranquilas águas daquele lago que com seus rios e montanhas encantavam a minha vista. Não descubro homenagem mais digna à Divindade do que aquela muda admiração excitada pela contemplação de suas obras e que não se exprime por ações. Compreendo por que os que moram em cidades, e só veem paredes, ruas e crimes, têm pouca fé; porém não posso compreender por que os camponeses, e principalmente os que vivem solitários, podem deixar de tê-la. Pois suas almas extasiadas não se elevam cem vezes por dia ao Autor das maravilhas que têm debaixo dos olhos?”