quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A história da arte (Parte V), de E. H. Gombrich

Editora: LTC

ISBN: 978-85-7126-157-0

Tradução: Álvaro Cabral

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 688

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Sinopse: Ver Parte I


Na pintura ou escultura, as convenções do “estilo” desempenham um papel menos preponderante e, por conseguinte, seria lícito pensar que a ruptura na tradição afetou menos essas artes; mas não foi esse o caso. A vida de um artista nunca fora isenta de dificuldades e angústias, mas uma coisa pode ser dita a favor dos “bons tempos antigos”: nenhum artista necessitava perguntar-se por que viera a este mundo. Em alguns aspectos, seu trabalho estava tão bem definido quanto o de qualquer outra vocação. Havia sempre retábulos a fazer, retratos a pintar; as pessoas queriam comprar quadros para seus salões, ou encomendavam murais para suas residências de verão e seus palacetes. O artista podia trabalhar em todas essas linhas de acordo com normas mais ou menos estabelecidas de antemão. Ele fornecia os artigos que o freguês esperava. É verdade que poderia produzir uma obra anódina ou realizá-la tão superlativamente bem que o trabalho em mãos nada mais era do que o ponto de partida para uma obra-prima transcendente. Mas a sua posição na vida estava mais ou menos assegurada. Foi justamente esse sentimento de segurança que os artistas perderam no século XIX. A ruptura na tradição abrira-lhes um campo ilimitado de opções. Incumbia ao artista plástico decidir se queria pintar paisagens ou cenas dramáticas do passado, se preferia temas inspirados em Milton ou nos clássicos, se adotava a maneira comedida da ressurreição clássica de David ou a maneira fantástica dos mestres românticos. Mas, quanto mais ampla se tornava a gama de opções, menos provável era que o gosto do artista coincidisse com o do público. Aqueles que compram quadros têm usualmente uma certa ideia em mente. Querem adquirir algo muito semelhante ao que viram alhures. No passado, essa demanda era facilmente satisfeita pelos artistas porque, embora suas obras diferissem muito no método artístico intrínseco, todas as obras de um determinado período se assemelhavam mutuamente em vários aspectos. Agora que essa unidade de tradição tinha desaparecido, as relações do artista com o seu cliente tornavam-se frequentemente difíceis. O gosto de cliente estava fixado numa direção; o artista não se sentia obrigado a satisfazer tais imposições. Caso se via forçado a fazê-lo por falta de dinheiro, sentia estar fazendo “concessões”, perdia seu amor-próprio e a estima dos outros. Se decidia ouvir apenas sua voz interior e rejeitar qualquer encomenda que não se harmonizasse com a sua ideia de arte, corria o perigo de passar fome. Assim, desenvolveu-se uma profunda brecha no século XIX entre aqueles artistas cujo temperamento ou convicções lhes permitiam obedecer às convenções e satisfazer a demanda do público e aqueles que se orgulhavam de seu isolamento autodeterminado. O que tornava as coisas piores era que a Revolução Industrial e o declínio do artesanato, a ascensão de uma nova classe média que frequentemente carecia de tradição, e a produção de bens vulgares e pretensiosos frequentemente mascarados de “Arte”, tinham acarretado a deterioração do gosto do público.

A desconfiança era geralmente mútua entre os artistas e o público. Para o homem de negócios bem-sucedido, um artista era pouco melhor do que um impostor que exigia preços absurdos por algo a que dificilmente se poderia chamar trabalho honesto. Entre os artistas, por outro lado, tornou-se um reconhecido passatempo “chocar o burguês”, obrigá-lo a sair de sua complacência e deixá-lo perplexo e bestificado. Os artistas começaram a ver-se como uma raça à parte, deixavam crescer longas cabeleiras e barbas, vestiam-se de veludo, usavam chapéus de abas largas e, em vez de gravata, o largo nó esvoaçante à lavallière; de um modo geral, enfatizavam seu desdém pelas convenções do “homem público”. Esse estado de coisas estava longe de ser estável, mas talvez fosse inevitável. E cumpre reconhecer que, embora a carreira de um artista estivesse eivada de armadilhas sumamente perigosas, as novas condições também tinham suas compensações. As armadilhas são óbvias. O artista que vendia sua alma e se mostrava complacente com o gosto daqueles que careciam de educação estética estava perdido. O mesmo acontecia ao artista que dramatizava a sua situação, que se considerava um gênio pelo simples fato de não encontrar compradores. Mas a situação só era desesperada para os débeis de caráter. Pois a vasta gama de opções, e a independência dos caprichos do cliente, que fora conquistada por tão alto preço, também tinham suas vantagens. Pela primeira vez, tornou-se verdade que a arte era um perfeito meio para se expressar a individualidade — desde que o artista tivesse uma individualidade a expressar.

Tudo isso pode parecer um paradoxo a quem concebe a arte como um meio de “expressão”, e, até certo ponto, a ideia está certa. É óbvio que um artista egípcio tinha escassa oportunidade de expressar a sua personalidade. As regras e convenções do seu estilo eram tão rigorosas que havia muito pouco âmbito para uma livre escolha. A situação resume-se realmente no seguinte: onde não existe escolha, não existe expressão. Um simples exemplo deixará isso claro. Se dizemos que uma mulher “expressa sua individualidade” no modo como se veste, queremos significar que a escolha por ela feita indica suas fantasias e preferências. Basta observarmos uma pessoa conhecida comprando um chapéu e tentarmos apurar por que ela rejeita este e seleciona aquele. Sempre tem algo a ver como o modo como essa pessoa se vê a si mesma e quer que os outros a vejam, e cada um desses atos de escolha pode ensinar-nos acerca de sua personalidade. Mesmo que ela esteja de uniforme, ainda pode restar certa margem para “expressão” — embora muito menos, é óbvio. O estilo é tal uniforme. Sabemos, sem dúvida, que a esfera de trabalho disponível para o artista aumentou com o passar do tempo, e com isso, os meios à disposição dele para expressar sua personalidade. Todos nós sabemos que Fra Angélico era um tipo de homem diferente de Masaccio, ou que Rembrandt tinha um caráter diferente de Vermeer van Delft. Entretanto, nenhum desses artistas estava deliberadamente fazendo sua escolha, a fim de expressar sua personalidade. Só o fazia incidentalmente, tal como nos expressamos em tudo o que fazemos — seja ao acender um cachimbo ou ao correr para apanhar um ônibus. A ideia de que a verdadeira finalidade da arte era expressar a personalidade só poderia ganhar terreno quando a arte tivesse perdido todas as outras finalidades. Não obstante, do modo que as coisas tinham evoluído, isso era um enunciado verdadeiro e valioso. Pois o que as pessoas interessadas em arte passaram a procurar em exposições e estúdios já não era uma exibição de habilidade comum — a qual se tornara comum demais para justificar qualquer atenção; o que elas queriam era que a arte as pusesse em contato com homens com quem valeria a pena ter relações, homens cujo trabalho era testemunho de uma sinceridade incorruptível, artistas que não se contentavam em copiar efeitos de outros e não dariam uma única pincelada sem perguntarem a si mesmos se ela satisfazia à sua consciência artística. A esse respeito, a história da pintura no século XIX difere muito consideravelmente da história da arte que estivemos considerando até agora. Nos períodos anteriores, eram usualmente os mestres mais notáveis, artistas cuja habilidade era suprema, os que também recebiam as encomendas mais importantes e, portanto, se tornavam muito famosos. Pense-se em Giotto, Miguel Ângelo, Holbein, Rubens ou mesmo Goya. Claro que podiam ocorrer tragédias, e um pintor ser insuficientemente venerado em seu país, mas, de um modo geral, os artistas e seu público compartilhavam de certos pressupostos e, por conseguinte, concordavam também no tocante aos padrões de excelência. Só no século XIX se abriu realmente um abismo entre os artistas bem-sucedidos — os que contribuíam para a “arte oficial” — e os inconformistas, que eram principalmente apreciados depois da morte. O resultado é um estranho paradoxo. Até os historiadores de hoje sabem pouco a respeito da “arte oficial” do século XIX. É verdade que estamos quase todos familiarizados com alguns de seus produtos, os monumentos a grandes homens nas praças públicas, os murais em edifícios próprios da administração pública e os vitrais em igrejas e colégios, mas a maioria deles adquiriu para nós um ar tão cediço e desenxabido que não lhes prestamos mais atenção do que às gravuras calcadas sobre outrora famosas peças de exposição com que ainda deparamos em saguões de hotéis antiquados.

Talvez haja uma razão para essa frequente desatenção. Ao falarmos sobre a pintura de Copley retratando Carlos I enfrentando o Parlamento (p. 483, Fig. 315), mencionei que seu esforço para visualizar um dramático momento da história o mais exatamente possível causou uma impressão duradoura, e que por todo um século muitos artistas despenderam muito trabalho em tais quadros de costume históricos mostrando homens famosos do passado — Dante, Napoleão ou George Washington — em algum dramático momento decisivo em suas vidas. Devo ter acrescentado que tais pinturas dramatizadas geralmente alcançaram grande sucesso em exibições mas não tardaram a perder seu apelo. Nossas ideias sobre o passado tendem a mudar muito rapidamente. Os costumes elaborados e os cenários logo parecem não-convincentes, e os gestos heroicos parecem “afetados”. É muito provável que chegue um tempo em que essas obras sejam redescobertas, quando será novamente possível discriminar entre o realmente ruim e o meritório. Pois é óbvio que nem toda essa arte era tão vazia e convencional quanto somos hoje propensos a considerá-la. E, no entanto, é provável que continue sendo sempre verdadeiro que, desde a Grande Revolução, a palavra Arte adquiriu para nós um significado diferente e que a história da arte no século XIX nunca venha a ser a história dos mestres de maior êxito e mais bem-pagos desse período. Vemo-la antes como a história de um punhado de homens solitários que tiveram a coragem e a persistência de pensar por si mesmos, de examinar convenções sem temor e em termos críticos, criando assim novas possibilidades e perspectivas para a arte.”

 

315. John Singleton Copley. Carlos I exigindo a entrega dos cinco membros da Câmara dos Comuns atingidos por impeachment, 1641, 1785.

Óleo sobre tela, 233,4 X 312cm; Biblioteca Pública, Boston, Massachusetts

 

 

Vimos ao longo desta história da arte como todos somos propensos a julgar pinturas mais pelo que sabemos do que pelo que vemos. Recordemos como os artistas egípcios achavam inconcebível representar uma figura sem mostrar cada parte desde o seu ângulo mais característico (p. 61). Eles sabiam com que “se parecia” um pé, um olho, ou uma mão, e reuniam todas essas partes para formar um homem completo. Representar uma figura com um braço escondido da vista do espectador, ou um pé distorcido pelo escorço, parecia-lhes inominável. Lembremos terem sido os gregos que lograram romper com esse preconceito e passaram a admitir o escorço em pinturas (p. 81, Fig. 49). Lembremos ainda como a importância do conhecimento subiu novamente ao primeiro plano nos primórdios da arte cristã e medieval (p. 137, Fig. 87) e assim permaneceu até à Renascença. Mesmo então a importância do saber teórico sobre que aspecto o mundo devia ter foi aumentada e não diminuída através das descobertas da perspectiva científica e da ênfase sobre a anatomia (pp. 229-30). Os grandes artistas de períodos subsequentes tinham feito descoberta sobre descoberta, o que lhes permitiu criar um quadro convincente do mundo visível, mas nenhum deles desafiara seriamente a convicção de que cada objeto na natureza tem sua forma e cor fixadas definitivamente e reconhecíveis com facilidade numa pintura. Pode-se dizer, portanto, que Manet e seus seguidores provocaram uma revolução na reprodução de cores que é quase comparável à revolução na representação de formas causada pelos gregos. Eles descobriram que, se olharmos a natureza ao ar livre, não vemos objetos individuais, cada um com sua cor própria, mas uma brilhante mistura de matizes que se combinam em nossos olhos ou, melhor dizendo, em nossa mente.

Essas descobertas não foram efetuadas de uma vez, e nem todas por um só homem. Mas até as primeiras pinturas de Manet em que ele abandonou o método tradicional de sombras suaves, em favor de contrastes fortes e duros, causaram um clamor de protestos entre os artistas conservadores. Em 1863, os pintores acadêmicos recusaram-se a mostrar as obras de Manet na exposição oficial — o Salão dos Artistas Franceses. Seguiu-se uma onda de agitação que levou as autoridades a exibirem todas as obras condenadas pelo júri numa exposição especial que recebeu o nome de “Salão dos Recusados”. O público afluiu principalmente para rir dos pobres e desiludidos principiantes que se haviam recusado a aceitar o veredicto de seus superiores. Esse episódio marcou a primeira fase de uma batalha que duraria cerca de trinta anos. É difícil concebermos hoje a violência dessas contendas entre artistas e críticos, tanto mais quando os quadros de Manet nos impressionam por serem essencialmente aparentados das grandes pinturas de períodos anteriores, como as de Frans Hals (p. 417, Fig. 317). De fato, Manet negou violentamente que quisesse ser um revolucionário. Procurou deliberadamente inspirar-se na grande tradição dos mestres do pincel que os Pré-Rafaelitas haviam rejeitado, a tradição iniciada pelos grandes venezianos Giorgione e Ticiano, continuada triunfantemente na Espanha por Velázquez (pp. 407-10, Figs. 264-7) e consolidada no século XIX por Goya. Foi claramente uma das pinturas de Goya (p. 486, Fig. 317) que estimulou Manet a pintar um grupo semelhante num balcão e a explorar o contraste entre a luz plena do exterior e a sombra que engole as formas no interior (Fig. 334). Em 1869, porém, Manet levou essa exploração muito mais longe do que Goya fizera sessenta anos antes. Ao contrário de Goya, as cabeças das damas de Manet não estão modeladas à maneira tradicional, como descobriremos se compararmos ambas com a “Mona Lisa” de Leonardo (p. 301, Fig. 193), o retrato feito por Rubens de sua filha (p. 400, Fig. 257) ou “Miss Haverfield”, de Gainsborough (p. 469, Fig. 306). Por mais diferentes que esses pintores fossem em seus métodos, todos eles queriam criar a impressão de corpos sólidos, e faziam-no através do jogo entre luz e sombra. Comparadas com as desses quadros, as cabeças de Manet parecem planas. A dama de pé ao fundo não tem sequer um nariz propriamente dito. Podemos imaginar muito bem por que semelhante tratamento pareceu ser pura ignorância aos que não estavam a par das intenções de Manet. Mas o fato é que, ao ar livre, e sob a luz plena do dia, as formas redondas parecem planas, por vezes, quais meras manchas coloridas. Era esse efeito que Manet queria explorar. A consequência é que, quando nos colocamos diante de um de seus quadros, ele parece mais imediatamente real do que qualquer antigo mestre. Temos a ilusão de estar realmente face a face com esse grupo no balcão. A impressão geral propiciada pelo lodo não ê plana, mas, pelo contrário, de real profundidade. Uma das razões para esse impressionante efeito é a cor vigorosa do parapeito do balcão. As grades estão pintadas em verde-claro, que corta a composição de lado a lado, independentemente das regras tradicionais de harmonias de cores. O resultado é que esse parapeito parece destacar-se para diante da cena, a qual, portanto, recua atrás dele.”

 

49. A despedida do guerreiro, c. 510-500 a.C.

Vaso no estilo de “figuras vermelhas”, assinado por Eutímides; altura 60cm; Staatliche Antikensammlungen und Glyptothek, Munique

 

87. O milagre dos Pães e dos Peixes, c. 520 d.C.

Mosaico; basílica de Santo Apolinário, o Novo, Ravena

 

193. Leonardo da Vinci: Mona Lisa, c. 1502

Óleo sobre madeira, 77 x 53cm. Louvre, Paris

 

257. Peter Paul Rubens: Cabeça de uma criança, provavelmente a filha do artista, Clara Serena, c. 1616

Óleo sobre tela, montado em madeira, 33 X 26,3cm. Sammlungen des Fürsten von und zu Liechtenstein.

 

264. Diego Velázquez: Papa Inocêncio X, 1649-50

Óleo sobre tela, 140 X 120cm; Galleria Doria Pamphili, Roma

 

265. Detalhe da Fig. 266

 

266. Diego Velázquez: Las meninas, 1656

Óleo sobre tela, 318 X 276cm; Prado, Madri

 

267. Diego Velázquez: Príncipe Filipe Próspero da Espanha, 1659

Óleo sobre tela, 128,5 X 99,5cm; Kunsthistorisches Museum, Viena

 

306. Thomas Gainsborough: Miss Haverfield, c. 1780

Óleo sobre tela, 127,6 X 101,9cm; Wallace Collection, Londres

 

317. Francisco Goya: Grupo num balcão, c. 1810-15

Óleo sobre tela, 194,8 X 125,7cm; Prado, Metropolitan Museum of Art, Nova York

 

334. Édouard Manet: O balcão, 1868-9

Óleo sobre tela, 169 X 125cm; Musée d’Orsay, Paris

 

 

Van Gogh estava certo em dizer que o método por ele escolhido podia ser comparado ao do caricaturista. A caricatura sempre foi “expressionista”, pois o caricaturista joga com o retrato de sua vítima e distorce-o para expressar justamente o que sente a respeito de seu semelhante. Enquanto essas distorções da natureza navegaram sob a bandeira do humor, ninguém as considerou difíceis de entender. A arte humorística era um campo em que tudo se permitia, porque as pessoas não a encaravam com os mesmos preconceitos reservados à Arte com A maiúsculo. Mas a ideia de uma caricatura séria, de uma arte que deliberadamente muda a aparência das coisas, não para expressar um sentido de superioridade, mas talvez um sentimento de amor, ou admiração, ou medo, provou ser, de fato, um empecilho, como Van Gogh previra. Contudo, nada existe de incoerente nisso. É a pura verdade que nossos sentimentos acerca das coisas dão colorido ao modo como as vemos e, ainda mais, às formas que recordamos. Todos nós teremos experimentado como um mesmo lugar parece diferente quando estamos alegres e quando estamos tristes.

Entre os primeiros artistas a explorarem essas possibilidades ainda mais do que Van Gogh estava o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944). A fig. 367 mostra uma litografia por ele feita em 1895, a que deu o nome de “O Grito”. Pretende expressar como uma súbita excitação transforma todas as nossas impressões sensoriais. Todas as linhas parecem conduzir a um único foco da gravura — a cabeça gritante. E como se todo o cenário participasse de toda a angústia e excitação desse grito. O rosto da pessoa que grita está distorcido, de fato, como o de uma caricatura. Os olhos arregalados e as faces encovadas lembram a cabeça de um morto. Alguma coisa terrível deve ter acontecido, e a gravura é tanto mais inquietante porque nunca saberemos o que esse grito significou.

O que perturba o público a respeito da arte expressionista talvez seja menos o fato de a natureza ter sido distorcida do que o resultado implicar o distanciamento da beleza. Que o caricaturista mostre a fealdade do homem é ponto pacífico; no fim de contas, é esse o objetivo de seu trabalho. Mas que pessoas que pretendem ser artistas sérios esqueçam que, se tiverem de alterar a aparência das coisas, devem idealizá-las e não as enfear, foi profundamente ressentido. Entretanto, Munch poderia ter replicado que um grito de angústia não é belo, que seria uma falta de sinceridade olhar apenas o lado agradável da vida. Pois os expressionistas sentiam tão fortemente o respeito do sofrimento humano, pobreza, violência e paixão, que estavam inclinados a pensar que a insistência na harmonia e beleza em arte somente nascera de uma recusa em ser sincero. A arte dos mestres clássicos, como Rafael ou Correggio, parecia-lhes insincera e hipócrita. Eles queriam enfrentar os fatos nus e crus da nossa existência, e expressar sua compaixão pelos deserdados da sorte e pelos feios. Tornou-se quase um ponto de honra dos expressionistas evitar qualquer coisa que cheirasse a “boniteza” e “polimento”, e chocar o “burguês” em sua complacência real ou imaginada.

Não que a artista alemã Käthe Kollwitz (1867-1945) tenha criado suas gravuras e desenhos principalmente no interesse de criar uma sensação. Ela se identificava muito profundamente com os pobres e os oprimidos, cuja causa queria patrocinar. A Fig. 368 faz parte de uma série de ilustrações dos anos de 1890 inspiradas em uma peça que tratava dos apuros dos trabalhadores têxteis silesianos em um período de desemprego e revolta social. Na verdade, a cena da criança moribunda não ocorre na peça, mas vem se somar à comoção da composição. Quando a série foi eleita para receber uma medalha de ouro, o ministro encarregado advertiu o Imperador em relação a aceitar essa recomendação “em vista do tema da obra e de sua execução naturalista, inteiramente carente de elementos de abrandamento ou de conciliação”. Era isto, claro, exatamente o que Käthe Kollwitz pretendia. Ao contrário de Millet (p. 509, Fig. 331), que em sua "Respigadeiras" queria que sentíssemos a dignidade do trabalho, ela não via outro caminho senão a revolução. Não é de admirar que seu trabalho tenha inspirado muitos artistas e propagandistas no Leste comunista, onde se tornou muito mais conhecido do que no Ocidente.”

 

331. Jean-François Millet: As respigadeiras, 1857

Óleo sobre tela, 83,8 X 111cm; Musée d’Orsay, Paris

 

367. Edward Munch: O grito, 1895

Litogravura, 35,5 X 25,4cm

 

368. Käthe Kollwitz: Necessidade, 1893-1901

Litogravura, 15,5 X 15,2cm

 

 

“Ouvimos que quando o pintor belga René Magritte (1898-1967) viu pela primeira vez uma reprodução de sua pintura sentiu, como escreveu depois, “que ela representava um completa ruptura com os hálitos mentais de artistas que são prisioneiros do talento, do virtuosismo e de todas as pequenas especialidades estéticas: era uma nova visão...” Ele seguiu essa direção ao longo da maior parte de sua vida, e muitas de suas imagens oníricas, pintadas com meticulosa precisão e exibidas com títulos confusos, são memoráveis precisamente porque inexplicáveis. A Fig. 389, pintada em 1928, chama-se “Tentando o impossível”. Ela quase poderia servir de motto a este capítulo. Afinal, vimos (p. 562) que foi o sentimento de que havia um chamariz na demanda de que os artistas deviam simplesmente pintar o que viam que os dirigiu para a sempre desconhecida e nova experimentação. O artista de Magritte (e trata-se de um autorretrato) tenta a tarefa padrão das academias, a pintura de um nu, mas se dá conta de que o que ele está fazendo não é copiar a realidade, e sim criar uma nova, muito como fazemos em nossos sonhos. Como o fazemos, não sabemos. (...)

Muitos dos surrealistas estavam profundamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud, segundo o qual, quando nossos pensamentos em estado vígil ficam entorpecidos, a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. Pois essa ideia fez os surrealistas proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta. Podiam admitir que a razão pode dar-nos a ciência, mas afirmavam que só a não-razão pode dar-nos a arte. Essa teoria não é tão nova quanto possa parecer. Os antigos referiam-se à poesia como uma espécie de “divina loucura” e autores românticos como Coleridge e De Quincey realizaram deliberadamente experiências com ópio e outras drogas a fim de expulsarem a razão e deixarem a imaginação prevalecer. Também os surrealistas procuravam ansiosamente sondar estados mentais em que o profundamente oculto no inconsciente pode vir à superfície. Estavam de acordo com Klee em que um artista não pode planejar seu trabalho, mas deve deixá-lo crescer. O resultado pode parecer monstruoso a quem o avalia de fora; mas, se descartar seus preconceitos e deixar a fantasia correr solta, talvez consiga compartilhar do estranho sonho do artista.

Não penso que essa teoria esteja certa; nem corresponde realmente às ideias de Freud. Contudo, a experiência de pintar imagens oníricas foi certamente válida. Nos sonhos, com frequência experimentamos a estranha sensação de que pessoas e objetos se fundem e trocam de lugar. Nosso gato pode ser ao mesmo tempo nossa tia, e o nosso jardim ser a África. Um dos principais pintores surrealistas, o espanhol Salvador Dali (1904-89), que passou muitos anos nos Estados Unidos, tentou imitar essa confusão fantástica da nossa vida onírica. Em alguns dos seus quadros, misturou fragmentos surpreendentes e disparatados do mundo real — pintados com a mesma detalhada precisão com que Grant Wood pintava suas paisagens — e dá-nos a sensação obsessiva de que deve existir algum nexo nessa loucura aparente. Ao olhar com atenção para a Fig. 391, por exemplo, descobrimos que a paisagem onírica no canto superior direito — a baía com suas ondas, a montanha com seu túnel — representa ao mesmo tempo a cabeça de um cão, cuja coleira é também um viaduto ferroviário sobre o mar. O cão paira em pleno ar — a parte média do seu corpo é uma fruteira com peras, a qual, por sua vez, se converte no rosto de uma mulher cujos olhos são formados por estranhas conchas marinhas, numa praia repleta de intrigantes aparições. Como num sonho, algumas coisas — por exemplo, a corda e o pano — destacam-se com inesperada clareza, enquanto outras formas permanecem vagas e evanescentes.

Um quadro como esse faz-nos compreender, definitivamente, por que os artistas do século XX não se satisfizeram em representar simplesmente “que veem”. Adquiriram uma profunda consciência dos muitos problemas que se escondem nessa exigência. Sabem que o artista que quer “representar” uma coisa real (ou imaginada) não começa por abrir os olhos e ver o que se passa à sua volta, mas por usar cores e formas na construção da imagem pretendida. A razão por que esquecemos frequentemente essa simples verdade é que, na maioria das pinturas do passado, cada forma e cada cor significavam sempre uma coisa na natureza — as pinceladas castanhas representavam troncos de árvores, os pontos verdes eram folhas. O modo de Dali fazer cada forma representar muitas coisas ao mesmo tempo pode concentrar a nossa atenção nos muitos significados possíveis de cada cor e de cada forma — de maneira semelhante àquela em que um trocadilho bem-feito nos faz compreender a função da palavra e seu significado. A concha marinha de Dali, que também é um olho, sua fruteira que também é a fronte e o nariz de uma mulher, podem remeter os nossos pensamentos para o primeiro capítulo deste livro, para o deus asteca da chuva Tlaloc, cujas feições são formadas por cobras cascavéis (p. 52, Fig. 30).

E no entanto, se realmente nos dermos o trabalho de esmiuçar o antigo ídolo, como é enorme a diferença em espírito, apesar de toda a possível semelhança de método! Ambas as imagens podem ter emergido de um sonho; mas pressentimos que Tlaloc foi o sonho de todo um povo, a figura de pesadelo do poder terrível que controlava o destino da coletividade; o cão e a fruteira de Dali refletem o sonho impalpável de uma pessoa, para a qual não temos a chave que o decifre. Seria claramente injusto responsabilizar o artista por essa diferença; ela decorre das circunstâncias inteiramente distintas em que as duas obras foram criadas.”

 

30. Tlaloc, o deus da chuva asteca, séculos XIV-XV

Pedra, altura 40cm; Museum für Völkerkunde, Staatliche Museen, Berlim

 

389. René Magritte: Tentando o impossível, 1928

Óleo sobre tela, 105,6 X 81cm; coleção particular

 

391. Salvador Dalí: Aparição de rosto e fruteira numa praia

Óleo sobre tela, 114,2 X 143,7cm; Wadsworth Atheneum, Hartford, Connecticut

 

 

“Para produzir uma pérola perfeita, a ostra necessita de um pedaço de matéria, um grão de areia ou uma lasca em torno da qual a pérola possa formar-se. Sem esse núcleo, poderá crescer como massa informe. Se quisermos que os sentimentos do artista, no tocante a formas e cores, cristalizem-se numa obra perfeita, ele necessitará também desse núcleo — uma tarefa definida à qual possa aplicar seus dons.

Sabemos que, no passado mais distante, todas as obras de arte ganharam forma em torno de um núcleo vital. Era a comunidade quem fixava ao artista suas tarefas — fossem elas a fabricação de máscaras rituais ou a construção de catedrais, a pintura de retratos ou a ilustração de livros. Importa comparativamente pouco se temos afinidades com todas essas tarefas ou não; não temos necessariamente que aprovar a caça ao bisão por artes mágicas, a glorificação de guerras criminosas ou a ostentação de riqueza e poder, para admirar as obras de arte que foram outrora criadas para servir tais fins. A pérola cobre completamente o núcleo. É segredo do artista realizar sua obra tão superlativamente bem que quase esquecemos indagar com que propósito foi feita, pela admiração pura que o modo como a fez em nós suscita. Estamos todos familiarizados com essa mudança de ênfase em casos mais triviais. Se dizemos de um garoto de escola que ele é um artista em “contar vantagem” ou que converteu a “cola” numa arte, queremos significar precisamente isso — que o menino releva tal engenho e imaginação no cumprimento de seus propósitos indignos que somos forçados a admirar sua habilidade, por muito que reprovemos os seus motivos. Foi um momento decisivo na História da Arte quando a atenção das pessoas se fixou de tal modo no processo pelo qual os artistas desenvolveram a pintura e a escultura, até convertê-las em Belas-Artes, que se esqueceram de dar aos artistas tarefas mais definidas. Sabemos que o primeiro passo nessa direção foi dado na época helenística (pp. 108-111), outro na Renascença (pp. 287-8). Mas por mais surpreendente que isso possa parecer, esse passo não privou ainda pintores e escultores daquele núcleo vital de uma tarefa, capaz por si só de incendiar a imaginação deles. Mesmo quando os empregos estáveis se tornaram mais raros, restou uma infinidade de problemas para o artista, na solução dos quais ele pôde exibir sua mestria. Quando esses problemas não eram fixados pela comunidade, eram-no pela tradição. Foi a tradição da feitura de imagens que carregou em sua corrente, por assim dizer, aqueles indispensáveis grãos de areia das tarefas. Sabemos que foi mais por uma questão de tradição do que por qualquer necessidade inerente que a arte teve que reproduzir a natureza. A importância dessa exigência na história da arte, desde Giotto (p. 201) até aos impressionistas (p. 519), não reside no fato — como por vezes se pensou — de ser a '“essência” ou o “dever” da arte imitar o mundo real. Tampouco é verdade, creio eu, que essa exigência seja inteiramente irrelevante. Pois, como vimos, forneceu justamente o tipo de problema insolúvel que desafia a engenhosidade do artista e o leva a realizar o impossível. Vimos frequentemente, além disso, como cada solução de um desses problemas, por mais excitante que fosse, deu origem a novos problemas alhures, proporcionando aos mais jovens a oportunidade de mostrar o que podiam fazer com cores e formas. Pois até mesmo o artista que se revolta contra a tradição depende dela para o estímulo que dá direção aos seus esforços.

Foi por essa razão que tentei contar a História da Arte como a história de uma continua elaboração e mudança de tradições, em que cada obra se refere ao passado e aponta para o futuro. Pois não existe aspecto desta história mais maravilhoso do que este: que uma cadeia viva de tradição ainda vincula a arte dos nossos dias à da era das pirâmides. As heresias de Akhnaton (p. 67), a agitação turbilhonante da Idade das Trevas (p. 157), a crise da arte no período da Reforma (p. 374) e a ruptura na tradição na época da Revolução Francesa (p. 476), foram outras tantas ameaças a essa continuidade. O perigo foi, com frequência, muito real. No fim de contas, as artes declinaram e morreram, como é sabido, em países e civilizações inteiras, quando o último elo se rompeu. Mas, de uma forma ou de outra, o desastre final foi sempre evitado em algum lugar. Quando as antigas tarefas desapareceram, outras surgiram que proporcionaram aos artistas aquele sentido de direção e de desígnio sem o qual não podem criar grandes obras.”

 

 

“É tão leviano ser “a favor da arte moderna” quanto ser “contra ela”. A situação em que ela se desenvolveu é fruto tanto de nossas próprias ações como dos artistas. Certamente existem hoje pintores e escultores vivos que honrariam qualquer época. Se não lhes pedimos que façam qualquer coisa em especial, que direito temos de censurá-los se a sua obra parece obscura e despida de qualquer propósito?

O público em geral fixou-se na noção de que um artista é um sujeito que deve produzir Arte como um sapateiro produz sapatos. Quer dizer com isso que o artista deve produzir o gênero de pinturas ou esculturas que eles viram antes rotuladas como Arte. Podemos compreender essa vaga exigência, mas, infelizmente, esse é o único tipo de trabalho que o artista não pode realizar. O que foi feito antes já não mais apresenta qualquer problema. Não existe aí, tarefa alguma que possa meter o artista em brios. Mas os críticos e os intelectuais são igualmente culpados, às vezes, de um equívoco semelhante. Também pedem ao artista que produza Arte; também são propensos a considerar pinturas e estátuas como espécimes para futuros museus. A única tarefa que impõem ao artista é a criação de “algo novo”; se o ponto de vista deles prevalecesse, cada obra representaria um novo estilo, um novo “ismo”. Na ausência de quaisquer missões concretas, até os artistas modernos mais talentosos sucumbem, por vezes, a essas exigências. As suas soluções para o problema de como ser original são, por vezes, de uma sutileza e brilhantismo que não pode ser desprezado, mas, a longo prazo, isso dificilmente constitui uma tarefa que mereça ser levada a cabo. Essa, creio eu, é a razão fundamental pela qual os artistas modernos se voltam frequentemente para várias teorias, novas e velhas, sobre a natureza da arte. Não é provavelmente mais verdadeiro afirmar que “arte é expressão” ou que “arte é construção” do que era dizer que “arte é a imitação da natureza”. Mas qualquer dessas teorias, até a mais obscura, pode conter aquele proverbial grão de verdade que seria útil para a formação da pérola.

Eis-nos, enfim, de volta ao nosso ponto de partida. Não existe realmente essa coisa conhecida como Arte. Existem somente artistas — isto é, homens e mulheres que são favorecidos pelo maravilhoso dom de equilibrar formas e cores até estarem “corretas” e, mais raro ainda, que possuem aquela integridade de caráter que jamais se contenta com meias soluções, mas está disposta a rechaçar todos os efeitos fáceis, todos os êxitos superficiais, em nome do esforço, da angústia e do tormento do trabalho sincero. Acreditamos que os artistas nascerão sempre. Mas se haverá ou não arte vai depender, também, em não pequeno grau, de nós mesmos, que somos o público. Por indiferença ou interesse, por preconceito ou compreensão, poderemos, todavia, decidir a questão. Nós é que temos de cuidar para que o fio da tradição não se rompa e prevaleçam oportunidades para o artista adicionar as suas ao precioso colar de pérolas que é a nossa herança do passado.”

 

 

“Nem todos os artistas que hoje desfrutam desse recém-descoberto direito à diversidade aceitariam o rótulo de “Pós-Modernos”. Por essa razão é que preferi falar de um “estado de espírito alterado” em vez de um novo estilo. É sempre enganador pensar que os estilos se seguem uns aos outros como “soldados em desfile”. Reconheço que os leitores e os autores de livros talvez preferissem um arranjo tão cômodo, mas hoje se reconhece, de um modo geral, que os artistas têm o direito de seguir seus próprios caminhos. Assim, já não é tão verdadeiro quanto era em 1966 que “se alguém precisa hoje de um campeão, é o artista que se esquiva aos gestos rebeldes” (p. 610). Um notável exemplo é o pintor Lucian Freud (nascido em 1922), que nunca rejeitou o estudo dos cenários naturais. Sua tela “Duas plantas” (Fig. 403) pode nos lembrar a aquarela “Ervas”, de 1502 (p. 345, Fig. 221), de Albrecht Dürer. Ambas as obras mostram o artista cativado pela beleza de plantas muito comuns, mas, enquanto a aquarela de Dürer era um estudo para uso particular, o vasto óleo de Freud, uma obra pronta e acabada, hoje se encontra exposta na Tate Gallery, em Londres.”

 

221. Albrecht Dürer: Ervas, 1503.

Aquarela, pena e tinta, lápis e tinta sobre o papel, 40,3 X 31,1cm. Albertina, Viena

 

403. Lucian Freud: Duas plantas, 1977-80

Óleo sobre tela, 149,9 X 120 cm; Tate Gallery, Londres

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