quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A história da arte (Parte III), de E. H. Gombrich

Editora: LTC

ISBN: 978-85-7126-157-0

Tradução: Álvaro Cabral

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 688

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: Ver Parte I



(Clicando sobre as imagens, pode-se observá-las em seu tamanho original.) 


 “Outro grande artista que foi a Roma (para uma peregrinação em 1450) foi Rogier van der Weyden (1400?-1464). Conhece-se muito pouco a respeito desse mestre, exceto que desfrutou grande fama e viveu na Flandres, a região meridional dos Países Baixos onde Jan van Eyck também trabalhara. A Fig. 179 mostra um grande retábulo que representa a descida da Cruz. Vemos que Rogier, como Jan van Eyck, podia reproduzir fielmente todos os detalhes, cada fio de cabelo e cada ponto de costura. Não obstante, o seu quadro não representa uma cena real. Ele colocou suas figuras numa espécie de palco com pouca profundidade, contra um fundo neutro. Se recordarmos os problemas de Pollaiuolo (p. 263, Fig. 171), poderemos apreciar a sabedoria da decisão de Rogier. Também ele linha que pintar um grande retábulo para ser visto de longe e exibir o tema sacro aos fiéis na igreja. Os contornos tinham que ser claros e satisfatórios como padrão. O quadro de Rogier preenche esses requisitos, sem parecer forçado e contrafeito como o de Pollaiuolo. O corpo do Cristo, que está voltado de frente para nós, forma o centro da composição. As carpideiras emolduram-no de ambos os lados. S. João, inclinado para diante, como Santa Maria Madalena, do outro lado, tenta em vão amparar a Virgem desfalecida, cujo movimento corresponde ao do corpo do Cristo descendo. A compostura serena dos anciãos forma um contraste eficaz com os gestos expressivos dos principais atores. Pois realmente parecem atores num drama sacro medieval ou num tableau vivant agrupado ou organizado por um inspirado diretor de cena que tivesse estudado as grandes obras do passado medieval e quisesse imitá-las usando seus próprios recursos de montagem. Destarte, ao traduzir as principais ideias da arte gótica para o novo estilo realista, Rogier van der Weyden prestou um grande serviço a arte setentrional. Poupou uma boa parte da tradição de desenho lúcido que de outro modo poder-se-ia ter perdido sob o impacto das descobertas de Jan van Eyck. Daí em diante, os artistas setentrionais tentaram, cada um a sua maneira, reconciliar as novas exigências impostas a arte e a sua antiga finalidade religiosa.”

 

171. Antonio Pollaiuolo: O martírio de São Sebastião, c. 1475

Retábulo; óleo sobre madeira, 291,5 X 202,3cm; Nattional Gallery, Londres

 

179. Rogier van der Weyden: A Descida da Cruz, c. 1435

Retábulo; óleo sobre madeira, 220 X 262cm; Prado, Madri

 

 

“O início do século XVI, il Cinquecento, constitui o mais famoso período da arte italiana e um dos maiores períodos de todos os tempos. Foi a época de Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo, de Rafael e Ticiano, de Correggio e Giorgione, de Dürer e Holbein no Norte, e de muitos outros mestres famosos. É-se tentado a perguntar por que foi que todos esses grandes mestres nasceram no mesmo período, mas tais perguntas são mais facilmente formuladas do que respondidas. Não se pode explicar a existência do gênio. É preferível apreciá-lo.”

 

 

Por singular infortúnio, as poucas obras que Leonardo completou em seus anos maduros chegaram até nós em péssimo estado de conservação. Assim, quando vemos o que resta do famoso mural de Leonardo da “Última Ceia” (Figs. 191-2), devemos tentar imaginar como seria contemplado pelos monges para quem foi pintado. O mural cobre uma parede de uma sala oblonga que era usada como refeitório pelos monges do mosteiro de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Deve-se visualizar como seria quando a pintura foi destapada e quando, lado a lado com as compridas mesas dos monges, apareceu a mesa do Cristo e Seus apóstolos. Nunca o episódio sacro fora apresentado tão perto e tão real. Era como se outra sala tivesse sido acrescentada à deles, na qual a Última Ceia assumia uma forma tangível. Como era pura a luz que inundava a mesa, e como acrescentava solidez e volume às figuras! Talvez os monges fossem primeiro impressionados pela veracidade e o realismo com que todos os detalhes estavam retratados, os pratos sobre a toalha, as pregas das vestes. Então, como agora, as obras de arte eram frequentemente julgadas pelos leigos de acordo com o grau de fidelidade à vida real. Mas essa só pode ter sido a primeira reação. Depois de terem admirado suficientemente essa extraordinária ilusão de realidade, os monges voltar-se-iam para o modo como Leonardo apresentara a história bíblica. Nada havia nessa obra que se assemelhasse às representações mais antigas do mesmo (ema. Nessas versões tradicionais, viam-se os apóstolos calmamente sentados a mesa numa fila — apenas Judas segregado do resto — enquanto Cristo administrava serenamente o Sacramento. O novo quadro era muito diferente de qualquer dessas pinturas. Há nele drama e excitação. Leonardo, como Giotto antes dele, revertera ao texto das Escrituras e esforçara-se por visualizar como teria sido a cena quando o Cristo disse: “‘Em verdade vos digo que um dentre vós me trairá’. E eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-Lhe: ‘Porventura sou eu, Senhor?’” (Mateus XXVI, 21-2). O Evangelho de S. João acrescenta: “Ora ali estava, conchegado a Jesus, um dos seus discípulos, aquele a quem Ele amava. A esse fez Simão Pedro sinal para que indagasse a quem Ele se referia” (João, XIII, 23-4). São essas interrogações e esses sinais que transmitem movimento à cena. Cristo acabou de pronunciar as palavras trágicas, e os que estão a Seu lado recuam horrorizados ao escutarem a revelação. Alguns parecem protestar seu amor a Jesus e sua inocência, outros discutem gravemente a quem o Senhor poderia referir-se, ainda outros parecem aguardar uma explicação para o que Ele disse. S. Pedro, o mais impetuoso de todos, precipita-se para S.

João, que se senta à direita de Jesus. Ao segredar algo ao ouvido de S. João. empurra inadvertidamente Judas para diante. Judas não está segregado do resto e, no entanto, parece isolado. É o único que não gesticula nem faz perguntas. Inclina-se para a frente e ergue os olhos com desconfiança ou cólera, um contraste dramático com a figura do Cristo, calmo e resignado em meio a esse crescente alvoroço. Quanto tempo teria sido necessário para que os primeiros espectadores se apercebessem da arte consumada pela qual toda essa dramática movimentação foi controlada? Apesar da excitação causada pelas palavras de Jesus, nada existe de caótico no quadro. Os doze apóstolos parecem dividir-se muito naturalmente em quatro grupos de três, ligados mutuamente por gestos e movimentos. Há tanta ordem nessa variedade, e tanta variedade nessa ordem, que ninguém pode esgotar inteiramente o jogo harmonioso entre movimento e contra-movimento. (...)

Com efeito, para além de questões técnicas como a segurança do desenho e a composição, devemos admirar a profunda intuição de Leonardo sobre a natureza íntima do comportamento e das reações dos homens, e o poder de imaginação que o capacitou a colocar a cena ante os nossos olhos. Uma testemunha ocular diz-nos que viu frequentemente Leonardo trabalhando em “A Última Ceia”. Subia no andaime e aí ficava de pé, dias inteiros, os braços cruzados, apenas olhando criticamente o que já tinha feito, antes de dar outra pincelada. Foi o resultado desse pensamento que ele nos legou e, mesmo em seu estado deteriorado, “A Última Ceia” continua sendo um dos grandes milagres produzidos pelo gênio humano.

Existe outro trabalho de Leonardo que talvez seja ainda mais famoso do que “A Última Ceia”. Referimo-nos ao retrato de uma dama florentina cujo nome era Lisa, “Mona Lisa” (Fig. 193). Uma fama tão grande quanto a da “Mona Lisa” de Leonardo não é uma bênção completa para uma obra de arte. Ficamos tão habituados a vê-la em postais e até em publicidade, que se torna difícil olhá-la com olhos isentos como a pintura feita por um homem real, retratando uma mulher real, de carne e osso. Mas vale a pena esquecer o que sabemos, ou acreditamos saber, sobre o quadro, e examiná-lo como se fôssemos as primeiras pessoas a fixar os olhos nele. O que logo nos impressiona é o grau surpreendente com que Lisa parece viva. Ela parece realmente olhar para nós e possuir um espírito próprio. Como um ser vivo, parece mudar ante os nossos olhos e estar um pouco diferente toda vez que voltamos a olhá-la. Até mesmo em fotografias do quadro sentimos esse estranho efeito, mas diante do original, no Museu do Louvre, em Paris, a sensação é quase sobrenatural. Por vezes, ela parece zombar de nós; outras vezes, temos a impressão de surpreender uma sombra de tristeza em seu sorriso. Tudo isso tem um ar algo misterioso, e assim é; muito frequentemente, é esse o efeito de uma grande obra de arte. Não obstante. Leonardo certamente sabia como obteve esse efeito, e por que meios. O grande observador da natureza sabia mais sobre a forma como usamos os nossos olhos do que qualquer pessoa do seu tempo ou antes dele. Leonardo viu claramente o problema que a conquista da natureza tinha criado para os artistas — um problema não menos intricado do que a combinação de desenho correto e composição harmoniosa. As grandes obras dos mestres italianos do Quattrocento que seguiram o caminho apontado por Masaccio têm uma coisa em comum: as suas figuras parecem algo duras, quase de madeira. O estranho é a responsabilidade por esse efeito não caber claramente à falta de paciência ou de conhecimentos. Ninguém podia ser mais paciente em sua imitação da natureza do que Van Eyck (p. 241, Fig. 158); ninguém podia saber mais sobre desenho e perspectiva corretos do que Mantegna (p. 258, Fig. 169). E no entanto, apesar de toda a grandeza e imponência de suas representações da natureza, as suas figuras parecem mais estátuas do que seres vivos. A razão pode ser que quanto mais conscienciosamente copiamos uma figura linha por linha, detalhe por detalhe, menos podemos imaginar que ela se movesse e respirasse. É como se o pintor a tivesse enfeitiçado subitamente, e a forçasse a manter-se imóvel para sempre, como os personagens de A Bela Adormecida. Os artistas haviam tentado vários métodos para superar essa dificuldade. Botticelli, por exemplo (p. 265, Fig. 172.), procurou enfatizar em seus quadros o cabelo ondulante e as roupagens esvoaçantes de suas figuras, para fazê-las parecer menos rígidas em seus contornos. Mas só Leonardo encontrou a verdadeira solução para o problema. O pintor deve deixar ao espectador algo para adivinhar. Se os contornos não são desenhados com a maior firmeza de traço, se a forma é deixada um pouco indefinida, como desaparecendo numa sombra, essa impressão de secura e rigidez será evitada. Essa é a famosa invenção de Leonardo a que os italianos chamam sfumato — um lineamento esbatido e cores adoçadas que permitem a uma forma fundir-se com outra e deixar sempre algo para alimentar a nossa imaginação.

Se voltarmos agora à “Mona Lisa” (Fig. 194), poderemos entender algo de seu misterioso efeito. Vemos que Leonardo empregou o seu sfumato com suprema deliberação. Quem tiver alguma vez tentado desenhar ou rabiscar um rosto sabe que aquilo a que chamamos expressão repousa principalmente em duas características: os cantos da boca e os cantos dos olhos. Ora, foram justamente essas partes as que Leonardo deixou deliberadamente indistintas, fazendo com que se esfumassem num sombreado suave. Por isso é que nunca estamos muito certos quanto ao estado de espírito realmente refletido na expressão com que a “Mona Lisa nos olha. Sua expressão parece ser sempre esquiva. Claro que não é apenas a indefinição que produz esse efeito. Há muito mais por trás dela. Leonardo fez uma coisa deveras audaciosa, a que talvez só se arriscaria um pintor de sua consumada mestria. Se observarmos cuidadosamente o quadro, vemos que os dois lados não se irmanam. Isso é por demais óbvio na fantástica paisagem onírica do fundo. O horizonte do lado esquerdo parece estar muito mais baixo do que o do lado direito. Por conseguinte, quando focalizamos o lado esquerdo do ombro, a mulher parece ser mais alta ou estar mais ereta do que se focalizarmos o lado direito. E seu rosto parece também mudar com essa mudança de posição porque os dois lados tampouco condizem inteiramente. Mas com todos esses requintados estratagemas, Leonardo poderia ter produzido uma engenhosa peça de malabarismo em vez de uma grande obra de arte, se não soubesse exatamente até onde podia ir e não contrabalançasse seus audaciosos desvios da natureza com uma representação quase milagrosa de carne viva. Vejam a maneira como ele modelou a mão, ou as mangas com suas minúsculas pregas. Leonardo podia ser tão laborioso quanto qualquer de seus precursores na paciente observação da natureza. Só que ele já não era meramente o fiel escravo da natureza. Muitos séculos antes, no passado remoto, as pessoas tinham olhado para retratos com reverência por pensarem que, ao ser preservada a imagem real, o artista podia de algum modo preservar a alma da pessoa por ele retratada. Agora, o grande cientista, Leonardo, tinha convertido em realidade alguns dos sonhos e temores desses primeiros fazedores de imagens. Ele conhecia a fórmula mágica que infundia vida nas cores espalhadas por seu extraordinário pincel.”

 

158. Jan van Eyck: Os esponsais dos Almofini, 1434

Óleo sobre madeira, 81,8 X 59,7cm; National Gallery, Londres

 

159. Detalhe da Fig. 158.

 

169. Andrea Mantegna: São Tiago a caminho de sua execução, c. 1455

Afresco; destruído; antiga igreja dos Ermitãos, Pádua

 

172. Sandro Botticelli: O nascimento de Vênus, c. 1485

Têmpera sobre tela, 172,5 X 278,5cm; Uffizi, Florença

 

191. O refeitório do mosteiro de Sta. Maria delle Grazie, Milão, com a última ceia, de Leonardo da Vinci na parede do fundão

 

192. Leonardo da Vinci: A última ceia, 1495-8

Têmpera sobre emboço, 460 x 880cm; refeitório do mosteiro de Sta Maria delle Grazie, Milão

 

193. Leonardo da Vinci: Mona Lisa, c. 1502

Óleo sobre madeira, 77 x 53cm. Louvre, Paris

 

194. Detalhe da Fig. 193

 

 

O segundo grande florentino cuja obra tornou tão famosa a arte italiana do século XVI (II Cinquecento) foi Miguel Ângelo Buonarroti (1475-1564). Miguel Ângelo era 23 anos mais jovem do que Leonardo e sobreviveu-lhe 45 anos. Em sua longa vida, testemunhou uma completa mudança na posição do artista. Em certa medida, foi ele mesmo quem provocou essa mudança. Em sua juventude. Miguel Ângelo foi treinado como qualquer outro artífice. Garoto de treze anos foi aprendiz durante três anos na atarefada oficina de um dos principais mestres do final do Quattrocento florentino, o pintor Domenico Ghirlandajo (1449-94). Ghirlandajo foi um daqueles mestres cujas obras nos comprazem mais pelo modo como espelham a vida colorida do período do que pela grandeza do seu gênio. Sabia como contar de forma agradável a história sagrada, como se ela tivesse acabado de ocorrer entre os ricos cidadãos florentinos do círculo Medici, os quais eram seus clientes. A fig. 193 representa o nascimento da Virgem Maria, e vemos os parentes de sua mãe. Santa Ana, chegando para visitar e felicitar. Olhamos o interior de um elegante apartamento dos fins do século XV, e presenciamos a visita formal de prósperas damas da sociedade. Ghirlandajo demonstrou saber como dispor seus grupos eficientemente e como proporcionar prazer aos olhos. Mostrou compartilhar do gosto de seus contemporâneos pelos temas de arte antiga, pois teve o cuidado de desenhar um relevo de crianças dançando, à maneira clássica, no fundo do quadro.

Nessa oficina, o jovem Miguel Ângelo pôde certamente aprender todos os recursos técnicos do oficio, uma técnica sólida de pintura de afrescos e o completo domínio da arte de desenhar. Mas, até onde nos é dado saber, Miguel Ângelo não gostou do tempo que passou na firma desse bem-sucedido pintor. Suas ideias sobre arte eram muito diferentes. Em vez de adquirir a maneira desenvolta de Ghirlandajo, seu estilo fácil e complacente, preferiu dedicar-se ao estudo da obra dos grandes mestres do passado, de Giotto, Masaccio, Donatello, e dos escultores gregos e romanos cujas obras pôde ver na coleção dos Medici. Tentou penetrar nos segredos dos escultores antigos, que sabiam como representar a beleza do corpo humano em movimento, com todos os seus músculos e tendões. Tal como Leonardo, não se contentou em aprender as leis da anatomia em segunda mão, por assim dizer, através da escultura antiga. Fez suas próprias pesquisas de anatomia humana, dissecou cadáveres e desenhou de modelos, até que a figura humana deixou de ter para ele quaisquer segredos. Mas, ao contrário de Leonardo, para quem o homem era apenas um dos muitos e fascinantes enigmas da natureza, Miguel Ângelo empenhou-se com incrível obstinação de propósito em dominar esse problema, mas dominá-lo a fundo. O seu poder de concentração e sua tenaz memória devem ter sido tão extraordinários que em pouco tempo não havia postura nem movimento que lhe fosse difícil desenhar. De fato, as dificuldades apenas pareciam atraí-lo. Atitudes e ângulos que muitos grandes artistas do Quattrocento hesitariam em introduzir em suas pinturas, com receio de não os reproduzirem de forma convincente, apenas estimulavam a sua ambição artística; e não tardou em correr a notícia de que esse jovem artista não só igualava os renomados mestres da antiguidade clássica, mas realmente os suplantava. Chegaria o tempo em que jovens artistas passam vários anos em escolas de Belas-Artes estudando anatomia, o nu, perspectiva e todos os recursos e ardis da arte de desenhar. E hoje muitos repórteres esportivos ou especialistas em cartazes, profissionais despretensiosos, podem ter adquirido facilidade invejável no desenho de figuras humanas de todos os ângulos. Assim, talvez não nos seja fácil entender a tremenda admiração que a extraordinária habilidade e os conhecimentos de Miguel Ângelo despertaram no seu tempo. Com trinta anos feitos, ele era geralmente reconhecido como um dos mais notáveis mestres da época, igualando-se, à sua maneira, ao gênio de Leonardo. A cidade de Florença honrou-o encomendando a ele e a Leonardo que cada um pintasse um episódio da história florentina numa parede da Câmara dos Vereadores. Foi um momento espetacular na história da arte quando esses dois gigantes competiram pela conquista dos louros, e toda Florença assistiu com excitação ao progresso dos preparativos de ambos. Infelizmente, as obras nunca foram concluídas. Leonardo regressou a Milão e Miguel Ângelo recebeu um chamado que ainda mais acendeu o seu entusiasmo. O Papa Júlio II queria a sua presença em Roma a fim de erigir um túmulo para ele que fosse digno do Sumo Pontífice do Cristianismo. Temos conhecimento dos ambiciosos planos desse magnânimo, mas implacável governante da Igreja, e não ê difícil imaginar quão fascinado Miguel Ângelo deve ter ficado por trabalhar para um homem que possuía os meios e a férrea vontade de concretizar os mais audaciosos planos. Com a autorização do Papa, ele viajou imediatamente para as famosas pedreiras de mármore de Carrara, a fim de selecionar aí os blocos onde iria esculpir um gigantesco mausoléu. O jovem artista ficou profundamente impressionado pela vista de todas essas rochas de mármore, as quais pareciam esperar pelo seu cinzel para se converterem em estátuas como jamais o mundo vira. Permaneceu mais de seis meses nas pedreiras, comprando, selecionando e rejeitando, seu espírito fervilhando de imagens. Queria libertar as figuras do miolo das pedras onde estavam adormecidas. Mas quando regressou a Roma e começou a trabalhar, não tardou em descobrir que o entusiasmo do Papa esfriara bastante. Sabemos hoje que uma das principais razões para a vacilação do Papa era que o seu plano de um túmulo entrara em conflito com o projeto que era ainda mais caro ao seu coração: o projeto de uma nova igreja de S. Pedro. Pois o túmulo tinha sido originalmente destinado ao antigo edifício e, se este ia ser demolido, onde seria alojado o mausoléu? Miguel Ângelo, em seu infinito desapontamento, desconfiou de motivos diferentes. Farejou intriga e temeu até que seus rivais, sobretudo Bramante, o arquiteto da nova igreja de S. Pedro, o quisessem envenenar. Num acesso de medo e cólera, deixou Roma e voltou a Florença, donde escreveu uma rude carta ao Papa dizendo que, se o quisesse de volta, que fosse procurá-lo.

O que houve de extraordinário nesse incidente foi o Papa não ter perdido a calma e, pelo contrário, iniciou negociações formais com as autoridades de Florença, a fim de persuadirem o jovem escultor a voltar a Roma. Todos os envolvidos pareciam concordar em que os movimentos e planos desse jovem artista eram tão importantes quanto qualquer delicada questão de Estado. Os florentinos temiam inclusive que o Papa pudesse voltar-se contra eles se continuassem dando abrigo ao desertor. Portanto, o maioral da cidade de Florença persuadiu Miguel Ângelo a voltar ao serviço de Júlio II, e deu-lhe uma carta de recomendação em que dizia que a sua arte não tinha igual em toda a Itália, talvez no mundo inteiro, e que se fosse tratado com gentileza “realizaria coisas que assombrariam o mundo”. Pelo menos uma vez, uma nota diplomática falou a verdade. Quando Miguel Ângelo voltou a Roma, o Papa fê-lo aceitar outra encomenda. Havia uma capela no Vaticano que tinha sido construída pelo Papa Sisto IV e por isso era chamada Sistina (Fig. 196). As paredes dessa capela tinham sido decoradas pelos mais famosos pintores da geração anterior — Botticelli, Ghirlandajo e outros. Mas a abóbada ainda estava em branco. O Papa sugeriu a Miguel Ângelo que a pintasse. Miguel Ângelo fez tudo o que podia para esquivar-se a essa encomenda. Disse não ser realmente um pintor, mas um escultor. Estava convencido de que essa ingrata encomenda lhe fora endossada através das intrigas de seus inimigos. Quando o Papa se manteve inabalável, Miguel Ângelo começou a elaborar um modesto esquema de doze apóstolos em nichos, e a contratar ajudantes de Florença para o auxiliarem na pintura. Mas, de súbito, fechou-se na capela, não deixou ninguém acercar-se dele e começou a trabalhar sozinho num plano que, na verdade, continuou “assombrando o mundo” desde o instante em que foi revelado.

É muito difícil a qualquer mortal comum imaginar como foi possível a um ser humano realizar o que Miguel Ângelo realizou em quatro anos de trabalho solitário nos andaimes da capela papal (Fig. 198). O mero esforço físico de pintar esse gigantesco afresco no teto da capela, de preparar e esboçar as cenas em detalhe e transferi-las para o teto, já era suficientemente fantástico. Miguel Ângelo tinha de deitar-se de costas e pintar olhando para cima. De fato, habituou-se de tal modo a essa posição acanhada que até quando recebia uma carta durante esse período tinha que a colocar sobre a cabeça e dobrar-se para trás a fim de a ler. Mas a proeza física de um homem para cobrir esse vasto espaço sem ajuda nada é em comparação com a façanha intelectual e artística. A riqueza de novas invenções, a mestria infalível de execução em todos os detalhes e, sobretudo, a grandeza das visões que Miguel Ângelo revelou aos vindouros proporcionaram à humanidade uma nova ideia do poder do gênio.

Vemos frequentemente ilustrações de detalhes dessa obra hercúlea e jamais nos cansamos de olhá-las. Mas a impressão gerada pelo conjunto, quando se entra na capela, é ainda muito diferente da soma de todas as fotografias que possam ser vistas. A capela lembra uma ampla e alta sala de reuniões, com uma abóbada rasa. Na parte superior das paredes vemos uma série de pinturas das histórias de Moisés e do Cristo, à maneira tradicional dos precursores de Miguel Ângelo. Mas, quando erguemos os olhos para o alto, parece que penetramos num mundo diferente. É um mundo de dimensões sobre-humanas. Nos arcos abobadados que se levantam entre as cinco janelas de cada lado da capela, Miguel Ângelo colocou imagens gigantescas dos profetas do Antigo Testamento que falaram aos judeus sobre a vinda do Messias, alternando com imagens das Sibilas que, de acordo com uma velha tradição, profetizaram a vinda do Cristo aos pagãos. Pintou-os como homens e mulheres pujantes, em posturas de profunda meditação, lendo, escrevendo, discutindo ou como se estivessem escutando uma voz interior. Entre essas filas de figuras descomunais, no teto propriamente dito, Miguel Ângelo pintou a história da Criação e de Noé. Mas, como se essa imensa tarefa não satisfizesse o seu impulso irresistível de criar sempre novas imagens, encheu a moldura entre essas pinturas com uma avassaladora multidão de figuras, algumas delas como estátuas, outras como jovens de grande vigor e beleza sobrenatural, segurando grinaldas e medalhões que continham ainda mais histórias. E até isso é apenas a peça central. Para além dela, nos arcos e diretamente por baixo deles, pintou uma sucessão interminável de homens e mulheres em infinita variação — os ancestrais do Cristo, conforme enumerados na Bíblia.

Ao ver essa profusão de figuras numa reprodução fotográfica, talvez, desconfiemos de que o teto deve parecer superpovoado e em desequilíbrio. Nada disso. Uma das grandes surpresas, quando se entra na Capela Sistina, é descobrir como o teto é simples e harmonioso quando o olhamos meramente como uma peça de soberba decoração — como são discretos e suaves os seus esquemas de cores, e como é límpido todo o arranjo. Desde que foi limpo de suas muitas camadas de poeira e fuligem das velas nos anos 1980 as cores foram reveladas fortes e luminosas, uma necessidade se o teto tinha que ficar visível em uma capela com tão poucas e estreitas janelas. (Este é um ponto raramente considerado por aqueles que admiram essas pinturas na forte luz elétrica que agora se projeta para o teto.)

A Fig. 197 mostra um setor do trabalho, que vai de um lado ao outro do teto, e que exemplifica o modo como Miguel Ângelo distribuía as figuras flanqueando as cenas da Criação. Numa extremidade está o profeta Daniel segurando um grosso volume, que um menino ajuda apoiar em seus joelhos, e voltando-se um pouco de lado para tomar notas do que leu. Na extremidade oposta está a Sibila “Persa”, uma velha em trajes orientais, segurando o livro perto dos olhos — igualmente absorta em suas pesquisas nos textos sagrados. Os bancos de mármore em que ambas as figuras se sentam foram ornamentados com estátuas de crianças brincando e, acima delas, estão, de cada lado, dois nus que alegremente se aprestam a prender um medalhão no teto. Essas surpreendentes figuras exibem todo o domínio e mestria de Miguel Ângelo desenhando o corpo humano em qualquer posição e de qualquer ângulo. São jovens atletas com musculaturas maravilhosas, torcendo-se e voltando-se em todas as direções concebíveis, mas sem perderem nunca a elegância. Não há menos de uma vintena deles no teto, cada um mais magistral do que o último, e não resta dúvida de que muitas ideias que iriam ganhar vida no mármore de Carrara povoavam agora a mente de Miguel Ângelo ao pintar o teto da Sistina. Podemos sentir como ele se comprazia em sua estupenda mestria, e como a sua decepção e fúria por ser impedido de continuar trabalhando no material de sua predileção o estimularam ainda mais a demonstrar aos seus inimigos, reais ou suspeitos, que, se o forçavam a pintar... bem, ele lhes mostraria do que era capaz!

Sabemos com que minúcia Miguel Ângelo estudou todos os detalhes e com que esmero preparou cada figura em seus desenhos. A fig. 199 mostra uma folha de seu caderno de esboços, no qual estudou as formas de um modelo para uma das Sibilas. Vemos a ação recíproca dos músculos como jamais alguém observara e retratara desde os mestres gregos. Mas, se provou ser insuperável nesses famosos “nus”, demonstrou ser infinitamente mais do que um virtuose nas ilustrações de temas bíblicos que formam o centro da composição. Aí vemos o Senhor dando vida, com gestos poderosos, a plantas, corpos celestes, animais e ao homem. Não é exagerado dizer que a imagem de Deus Pai — tal como tem vivido no espírito de gerações após gerações, não só de artistas, mas também de gente humilde que provavelmente nunca ouviu falar em Miguel Ângelo — foi modelada e ganhou forma através da influência direta e indireta dessas grandes visões em que Miguel Ângelo ilustrou o ato da criação. Talvez o mais famoso e mais impressionante dentre eles seja o da criação de Adão em um dos grandes campos (Fig. 200). Artistas anteriores a Miguel Ângelo já tinham pintado Adão deitado no chão e sendo chamado à vida por um simples toque da mão de Deus, mas nenhum deles se aproximara sequer de expressar a grandeza do mistério da criação com tamanha simplicidade e forca. Nada existe no quadro que desvie a atenção do tema principal. Adão está deitado no chão, com toda a beleza e vigor que convém ao primeiro homem; do outro lado. Deus Pai aproxima-se, transportado e amparado por Seus anjos, envolto num amplo e majestoso manto soprado pelo vento como uma vela panda, e sugerindo a facilidade e rapidez com que Ele flutua no vazio. Quando estende Sua mão, nem mesmo tocando no dedo de Adão, quase vemos o primeiro homem despertar, como que de um profundo sono, e fixar os olhos no rosto paternal do seu Criador. É um dos maiores milagres da arte como Miguel Ângelo logrou fazer do toque da Mão Divina o centro e o foco do quadro, e como nos fez ver a ideia de onipotência através do desembaraço e da força desse gesto de criação.”

 

193. Leonardo da Vinci: Mona Lisa, c. 1502

Óleo sobre madeira, 77 X 53cm; Louvre, Paris

 

195. Domenico Ghirlandajo: Nascimento da Virgem, 1491

Afresco; Igreja de Sta. Maria Novella, Florença.

 

196. Capela Sistina, Vaticano.

Vista geral do interior.

 

197. Miguel Ângelo: detalhe do Teto da Capela Sistina

Detalhe do teto da Capela Sistina.

 

198. Miguel Ângelo: Teto da Capela Sistina, 1508-12

Afresco, 13,7 X 39m; Vaticano

 

199. Miguel Ângelo: Estudo para a sibilia Líbia no Teto da Capela Sistina, c. 1510

Giz vermelho em papel camurça, 28,9 x 21,4cm; Metropolitan Museum of Art, Nova York

 

200. Miguel Ângelo: A criação de Adão

Detalhe da Fig. 198

 

 

As maiores pinturas de Rafael parecem ser realizadas com tão pouco esforço que usualmente não as associamos à ideia de trabalho árduo e inexorável. Para muitos, ele é simplesmente o pintor de doces Madonas que se tornaram tão conhecidas que por pouco deixaram de ser apreciadas como pinturas. Pois a visão de Rafael da Virgem Maria foi adotada por gerações subsequentes do mesmo modo que a concepção de Miguel Ângelo do Deus Pai. Vemos reproduções baratas dessas obras em quartos humildes e podemos concluir que pinturas com tanto atrativo geral devem certamente ser um pouco “óbvias”. De fato, sua evidente simplicidade é fruto de uma reflexão profunda, planificação cuidadosa e imensa sabedoria artística (pp. 34-5, Figs. 17-18). Uma pintura como a “Madonna del Granduca” (Fig. 203) de Rafael é verdadeiramente “clássica” no sentido de que serviu a incontáveis gerações como modelo de perfeição, à semelhança do que ocorrera com a obra de Fídias e Praxíteles. Não precisa explicação. Nessa acepção, é realmente “óbvia”. Mas, se a compararmos com as inúmeras representações do mesmo tema que a precederam, sentimos que todas elas tentaram alcançar a simplicidade que Rafael atingiu em sua pintura. Percebe-se o que Rafael ficou devendo a beleza calma dos tipos de Perugino, mas que diferença existe entre a regularidade algo vazia do mestre e a plenitude de vida do discípulo! O modo como a face da Virgem é modelada e se esbate na sombra, a forma como Rafael nos faz sentir o volume do corpo envolto no manto que flui livremente, a maneira firme e terna como segura o Menino Jesus — tudo isso contribuiu para o efeito de equilíbrio impecável. É como se não pudesse ser de outra maneira, como se existisse assim desde o início dos tempos.

Depois de alguns anos em Florença, Rafael foi para Roma. Aí chegou provavelmente em 1508, na época em que Miguel Ângelo estava começando a trabalhar na Capela Sistina. Júlio II não tardou em achar também trabalho para esse jovem e cordial artista. Pediu-lhe que decorasse as paredes de várias salas do Vaticano que tinham passado a ser conhecidas como stanze (aposentos). Rafael demonstrou seu domínio do desenho perfeito e da composição equilibrada numa série de afrescos nas paredes e tetos dessas salas. Para se apreciar toda a beleza dessas obras, é necessário passar algum tempo nas salas e sentir a harmonia e diversidade do plano total, em que um movimento responde a um movimento, e uma forma a outra forma. Retiradas de seu contexto e reduzidas em seu tamanho, elas tendem a parecer frígidas, pois as figuras individuais, que se nos apresentam em tamanho natural quando olhamos os afrescos face a face, são facilmente absorvidas pelos grupos. Inversamente, quando retiradas de seu contexto como ilustrações de “detalhe”, essas figuras perdem uma de suas principais funções — a de formarem parte de graciosa melodia do plano em seu todo.

Isso se aplica menos a um afresco menor (fig. 204) que Rafael pintou na residência de verão (hoje chamada a Farnesina) de um rico banqueiro, Agostino Chigi. Como tema, escolheu um verso de um poema do florentino Ângelo Poliziano, que também ajudara a inspirar “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli. Esse poema descreve como o informe gigante Polifemo canta uma canção de amor a Galatéia, bela ninfa marinha, e como ela desliza sobre as ondas num carro puxado por dois golfinhos, rindo dessa insólita e rude canção, enquanto o alegre séquito de outras ninfas e divindades marinhas dança e toca em redor dela. O afresco de Rafael mostra Galatéia com seus alegres companheiros. A imagem do gigante iria aparecer em outro lugar do salão. Por mais que se olhe para esse encantador e festivo quadro, descobrir-se-ão sempre novas belezas em sua rica e intricada composição. Cada figura corresponde a alguma outra figura, cada movimento responde a um contramovimento. Observamos esse método no retábulo de Pollaiuolo (p. 263, Fig. 171). Mas como sua solução parece rígida e insípida em comparação com a de Rafael! Para começar, os meninos com arcos e flechas de Cupido que visam o coração da ninfa: não só os que estão à direita e esquerda ecoam os movimentos recíprocos, mas o menino que nada ao lado do carro corresponde ao que está voando no topo do quadro. O mesmo ocorre com o grupo de divindades marinhas que volteiam em torno da ninfa. Há duas nas margens, que sopram em búzios, e dois pares à frente e atrás, que se entregam a jogos amorosos. Mas o que é admirável' é que todos esses movimentos diversos são, de algum modo, refletidos e absorvidos na própria figura de Galatéia. Seu carro vinha sendo impelido da esquerda para a direita, seu véu esvoaçando para trás, mas, ao escutar a estranha canção de amor, Galatéia volta-se e sorri, e todas as linhas do quadro, desde as flechas dos pequenos deuses do Amor até às rédeas que ela segura, convergem para seu belo rosto, no centro do quadro (fig. 200). Mediante esse recurso artístico, Rafael tinha conseguido realizar movimento constante em todo o quadro, sem deixar que ele se tornasse caótico ou desequilibrado. É por essa mestria suprema no arranjo de suas figuras, esse consumado talento em composição, que os artistas têm admirado Rafael desde então. Assim como se considerou que Miguel Ângelo atingiu o zênite no domínio do corpo humano. Rafael foi visto como o artista que realizou o que a geração mais antiga se empenhara esforçadamente em conseguir: a perfeita e harmoniosa composição de figuras movimentando-se livremente.

Havia outra qualidade na obra de Rafael que era admirada por seus contemporâneos e por gerações subsequentes; a pura beleza de suas figuras. Quando concluiu a “Galatéia”. Rafael foi indagado por um cortesão onde encontrara um modelo de tamanha beleza. Respondeu que não copiava qualquer modelo especifico, mas preferia seguir uma “certa ideia” formada em seu espírito. Rafael, portanto, à semelhança de seu mestre Perugino, abandonara, em certa medida, a reprodução fiel da natureza que tinha sido a ambição de tantos artistas do Quattrocento. Usou deliberadamente um tipo imaginado de beleza regular. Se voltarmos ao tempo de Praxíteles (p. 102, Fig. 62), recordaremos como o que chamamos uma beleza “ideal” decorreu de uma lenta aproximação de formas esquemáticas da natureza. O processo foi agora invertido. Os artistas procuraram aproximar a natureza da ideia de beleza que tinham formado quando observavam as estátuas clássicas; por outras palavras, eles “idealizaram” o modelo. Era uma tendência não isenta de perigos, visto que, se o artista “aperfeiçoar” deliberadamente a natureza, a sua obra poderá facilmente tornar-se amaneirada ou insípida. Mas, se atentarmos uma vez mais para a obra de Rafael, vemos que ele, de qualquer modo, pôde idealizar a natureza sem qualquer perda de vitalidade e sinceridade no resultado final. Nada existe de esquemático ou calculado na graciosidade de Galatéia. Ela habita um mundo mais brilhante de amor e beleza — o mundo dos clássicos tal como era concebido pelos seus admiradores na Itália quinhentista.

Foi por essa realização que Rafael permaneceu famoso ao longo dos séculos. Talvez aqueles que associam seu nome apenas a belas Madonas e figuras idealizadas do mundo clássico possam ficar surpreendidos ao verem o retrato dá Rafael do seu grande patrono, o Papa Leão X, da família Médici, na companhia de dois cardeais (Fig. 206). Nada há de idealizado nessa cabeça levemente balofa do Papa míope, que acaba de examinar um velho manuscrito (algo semelhante, no estilo e período, aos Saltérios da Rainha Mary, p. 211, Fig. 140). Os veludos e damascos, em seus vários e ricos tons, aumentam a atmosfera de pompa e poder, mas podemos perfeitamente imaginar que esses homens não estão tranquilos. Aqueles eram tempos conturbados, pois no mesmo período em que esse retrato foi pintado Lutero tinha atacado o Papa pela forma como levantava dinheiro para a nova Igreja de S. Pedro. Acontece que foi o próprio Rafael a quem Leão X encarregou de levar avante esse empreendimento após a morte de Bramante e, assim, ele também se tornara arquiteto, projetando igrejas, residências de verão e palácios; e estudando as ruínas da antiga Roma. Ao invés de seu rival Miguel Ângelo, porém, Rafael dava-se bem com as pessoas e pôde manter em pleno funcionamento uma atarefada oficina. Graças às suas qualidades sociáveis, os humanistas e dignitários da corte papal fizeram-no seu companheiro. Falava-se até que fora feito cardeal quando morreu no dia de seu 37º aniversário, quase tão jovem quanto Mozart, tendo acumulado em sua curta vida uma espantosa diversidade de realizações artísticas. Um dos mais famosos humanistas de seu tempo, o Cardeal Bembo, escreveu o epitáfio para o seu túmulo no Panteão de Roma:

Aqui jaz Rafael; enquanto viveu, a Mãe natureza

Temia ser por ele vencida; agora que está morto,

Ela receia morrer também.

 

62. Praxíteles: Hermes com o jovem Dioniso, c. 340 a.C.

Mármore, altura 213cm; Museu Arqueologico, Olímpia

 

140. Cristo no Templo; caçada com falcão, c. 1310

Página do saltério da rainha Mary; British Library, Londres

 

171. Antonio Pollaiuolo: O martírio de São Sebastião, c. 1475

Retábulo; óleo sobre madeira, 291,5 X 202,6cm; National Gallery, Londres

 

200. Miguel Ângelo: A criação de Adão

 

202. Perugino: Aparição da Virgem a S. Bernardo, c. 1490-4

Retábulo; óleo sobre madeira, 173 X 170cm; Alte Pinakothek, Munique

 

203. Rafael: Madonna del Granduca, c. 1505

Óleo sobre madeira, 84 X 55cm; Palazzo Pitti, Florença

 

204. Rafael: A ninfa Galateia, c. 1512-14

Afresco, 295 X 225cm; Villa Farnesina, Roma

 

205. Detalhe da Fig. 204

 

206. Rafael: Papa Leão X com dois cardeais, 1518.

Óleo sobre madeira, 154 X 119cm; Uffizi, Florença