Editora: LTC
ISBN: 978-85-7126-157-0
Tradução: Álvaro Cabral
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 688
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Sinopse: A História da Arte é um dos mais famosos
e populares livros sobre arte já publicados. Durante 45 anos, permaneceu
incomparável como uma introdução a todo o assunto, das mais antigas pinturas em
cavernas à arte experimental de hoje. Leitores de todos os tempos e das mais
diversas origens encontram em Ernst Gombrich um verdadeiro mestre, que combina
o conhecimento e a sabedoria a um talento excepcional para comunicar seu
profundo amor pelas obras de arte que descreve. A História da Arte deve sua duradoura popularidade à objetividade e
simplicidade do texto, sem mencionar a habilidade do autor para apresentar uma
narrativa fluente. Ele descreve como sendo seu objetivo trazer alguma ordem
compreensível à riqueza de nomes, períodos e estilos que preenchem as páginas
com as obras mais ambiciosas. Além disso, Gombrich usa sua percepção da
psicologia das artes visuais para nos fazer ver a história da arte como uma
tela contínua e uma mudança de tradições, em que cada obra reflete o passado e
aponta para o futuro. Trata-se de uma corrente viva, que ainda liga o nosso
tempo à era das Pirâmides.
(Clicando sobre as imagens, pode-se observá-las em seu tamanho original.)
“Cada geração está, em algum ponto, em
revolta contra os padrões de seus pais; cada obra de arte deriva seu atrativo
para as pessoas do seu tempo não só do que faz mas também do que deixa de
fazer. Quando o jovem Mozart chegou a Paris, deu-se conta — conforme escreveu
ao pai — de que todas as sinfonias em grande voga, ali, terminavam com um
rápido finale; assim, decidiu
surpreender sua plateia com uma lenta introdução no último movimento. Esse é um
exemplo trivial, mas revela o sentido em que uma apreciação histórica de arte
deve caminhar. O impulso para ser diferente pode não ser o mais elevado ou o
mais profundo fator no equipamento do artista, mas é raro estar totalmente
ausente. E a apreciação dessa diferença intencional propicia amiúde a mais
fácil abordagem da arte do passado. Tentei fazer dessa constante mudança de
propósitos a chave da minha narrativa e mostrar como cada obra está
relacionada, por imitação ou contradição, com o que se passou antes. Mesmo
correndo o risco de ser enfadonho, reportei-me, para fins de comparação, a
obras que mostram a distância colocada pelos artistas entre si e seus
precursores. Há uma armadilha nesse método de apresentação, que espero ter
evitado, mas não devo deixar de assinalá-la. Refiro-me à interpretação ingênua
e errônea da constante mudança na arte como um progresso contínuo. É verdade
que todo artista sente ter superado a geração que o precedeu e, do seu ponto de
vista, ter feito progressos em relação a tudo o que se conhecia antes. Não
podemos alimentar a esperança de entender uma obra de arte sem compartilhar
desse sentimento de libertação e triunfo que o artista experimenta quando
avalia as próprias realizações. Mas devemos compreender que cada ganho ou
avanço numa direção acarreta uma perda em outra, e que esse avanço subjetivo,
apesar da sua importância, não corresponde a um incremento objetivo em valores
artísticos.”
“Nada existe realmente a que se possa dar o
nome Arte. Existem somente artistas. Outrora, eram homens que apanhavam terra
colorida e modelavam toscamente as formas de um bisão na parede de uma caverna;
hoje, alguns compram suas tintas e desenham cartazes para os tapumes; eles
faziam e fazem muitas outras coisas. Não prejudica ninguém chamar a todas essas
atividades arte, desde que conservemos em mente que tal palavra pode significar
coisas muito diferentes, em tempos e lugares diferentes, e que Arte com A
maiúsculo não existe. Na verdade, Arte com A maiúsculo passou a ser algo de um
bicho-papão e de um fetiche. Podemos esmagar um artista dizendo-lhe que o que
ele acaba de fazer pode ser muito bom no seu gênero, só que não é “Arte”. E
podemos desconcertar qualquer pessoa que esteja contemplando com prazer um
quadro, declarando que aquilo de que ela gosta não é Arte, mas algo muito
diferente.”
- Figuras soltas:
5. Mellozo da Forli: Anjo, c. 1480
Detalhe de um afresco; Pinacoteca, Vaticano
6. Hans Memling: Anjo, c. 1490
Detalhe de um altar; óleo sobre madeira; Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antuérpia
7. Guido Remi: Cristo coroado com espinhos, c. 1639-1640
Óleo sobre tela, 62 X 48cm; Louvre, Paris.
Detalhe de um crucifixo; têmpera sobre madeira; Uffizi,
Florença
Aquarela e guache
sobre papel, 25 X 22,5cm; Albertina, Viena.
“Não existe maior obstáculo à fruição de grandes obras de arte do que a
nossa relutância em descartar hábitos e preconceitos. Uma pintura que
representa um tema conhecido de um modo inesperado é muitas vezes condenada sem
outra razão melhor do que “não parece bem”. Quanto mais vezes tivermos visto
uma história representada em arte, mais firmemente nos convencemos de que ela
deve ser sempre representada de forma semelhante. A respeito de temas bíblicos,
em especial, os sentimentos são suscetíveis de se manifestarem com veemência.
Embora saibamos todos que as Escrituras nada nos dizem sobre a aparência física
de Jesus, e que Deus não pode ser visualizado em forma humana, e apesar de
sabermos terem sido os artistas do passado que criaram pela primeira vez as
imagens a que nos acostumamos, algumas pessoas, no entanto, ainda são propensas
a pensar que o afastamento dessas formas tradicionais equivale a uma blasfêmia.
De
fato, foram usualmente aqueles artistas que leram as Escrituras com a maior
devoção e atenção os que tentaram formar em suas mentes um quadro inteiramente
original dos incidentes da História Sagrada. Procuraram esquecer todas as
pinturas que tinham visto e imaginar como as coisas deviam ter sido quando o
Menino Jesus foi deitado na manjedoura e os pastores vieram adorá-Lo, ou quando
um pescador começou a pregar o Evangelho. Aconteceu repetidamente que tais
esforços de um grande artista para ler um antigo texto com olhos inteiramente
novos chocaram e irritaram pessoas irrefletidas. Um “escândalo” típico desse
gênero estourou em torno de Caravaggio, artista italiano muito audacioso e revolucionário
que trabalhou por volta de 1600.
Recebeu
a encomenda de pintar um quadro de São Mateus para o altar de uma igreja de
Roma. O santo deveria ser representado a escrever o Evangelho e, para mostrar
que os evangelhos eram a palavra de Deus, teria que ser representado um anjo
inspirando a escrita. Caravaggio, que era então um jovem artista muito
imaginativo e decidido, pensou longamente sobre o que deveria ter sido a
situação de um velho e pobre trabalhador, um simples publicano, quando teve
subitamente que se sentar para escrever um livro. E, assim, pintou um quadro de
São Mateus (fig. 15), calvo e descalço, os pés sujos de terra e poeira,
agarrando desajeitadamente o enorme volume e franzindo ansiosamente o cenho,
sob a tensão da inabitual tarefa de escrever. Ao lado do santo pintou um jovem
anjo, que parece ter acabado de chegar das alturas e gentilmente guia a mão do
trabalhador como uma professora pode fazer com uma criança. Quando Caravaggio
entregou o quadro à igreja em cujo altar-mor seria colocado, as pessoas
escandalizaram-se com o que consideraram ser uma falta de respeito pelo Santo.
A pintura não foi aceita e Caravaggio teve que tentar de novo.
Manteve-se,
dessa vez, rigorosamente de acordo com as ideias convencionais da época sobre o
aspecto que um anjo e um santo deviam ter (fig. 16). O resultado ainda é um bom
quadro, pois Caravaggio empenhou-se arduamente em torná-lo vivo e interessante,
mas não podemos deixar de sentir que o novo trabalho foi menos vigoroso, menos
honesto e sincero do que o anterior.”
Retábulo; óleo sobre
tela, 223 X 183cm; destruído; antes no Kaiser-Friedrich; Museum Berlim
Retábulo; óleo sobre
tela, 296,5 X 195cm; igreja de S. Luigi dei Francesi, Roma.
“Vejamos uma das famosas Madonas de Rafael: “A Virgem do Prado”, por
exemplo (fig. 17). É bela, sem dúvida, e encantadora; as figuras estão
admiravelmente desenhadas e a expressão da Virgem, pousando suavemente os olhos
nas duas crianças, é inesquecível. Mas se observarmos os esboços de Rafael para
o quadro (fig. 18), começaremos a perceber não serem essas as coisas que mais o
preocuparam. Para ele, tais aspectos eram pontos pacíficos. O que Rafael
procurou repetidamente conseguir foi o equilíbrio correto entre as figuras, uma
relação certa que culminasse no todo mais harmonioso. No rápido esboço do canto
esquerdo, pensou em deixar o Menino Jesus caminhar, olhando para trás e para
cima, na direção do rosto de Sua Mãe, enquanto se afastava. E tentou diferentes
posições para a cabeça da Mãe, em resposta ao movimento do
Menino. Depois, decidiu dar a volta a Jesus e permitir que Ele erguesse
diretamente os olhos para a Mãe. Tentou ainda outro arranjo, introduzindo dessa
vez um pequeno S. João; mas, em lugar de o Menino Jesus olhar para ele, pô-lo
olhando para fora do quadro. Depois, outra tentativa e, aparentemente, o
artista impacientou-se, ensaiando a cabeça do Menino Jesus em muitas posições
diferentes. Havia numerosas folhas deste gênero em seu caderno de esboços, nas
quais buscou repetidamente como equilibrar essas três figuras da melhor
maneira. Mas, se voltarmos agora a olhar para o quadro final, vemos que
conseguiu, ao fim e ao cabo, a solução certa. Tudo no quadro parece estar em
seu lugar apropriado, a postura e a harmonia que Rafael obteve, através de seu
trabalho árduo, parecem tão naturais e sem esforço que mal lhe prestamos
atenção. Entretanto, é justamente essa harmonia que torna a beleza da madona
mais bela e a doçura das crianças mais doce.
É fascinante observar um artista
esforçando-se por realizar o equilíbrio certo, mas se lhe fôssemos perguntar
por que fez isto e mudou aquilo talvez ele não fosse capaz de nos explicar. O
artista não obedece a quaisquer regras fixas. Ele simplesmente pressente o
caminho que deve seguir. Ê verdade que alguns artistas ou críticos, em certos
períodos, tentaram formular leis de sua arte: mas verificou-se sempre que
artistas medíocres não conseguiam coisa alguma quando tentavam aplicar essas
leis, ao passo que os grandes mestres podiam transgredi-las e, apesar disso,
realizar uma nova espécie de harmonia em que ninguém pensara antes. Quando o
grande pintor inglês Sir Joshua
Reynolds explicou a seus alunos da Royal Academy que o azul não devia ser posto
no primeiro plano de uma pintura, mas reservado para os fundos distantes, para
as colinas que se desvanecem gradualmente no horizonte, o seu rival
Gainsborough — segundo reza a história — resolveu provar que tais regras
acadêmicas eram usualmente absurdas. Pintou então o famoso “Menino de Azul”
(Fig. 18,1), cujo traje azul, no primeiro plano central do quadro, se destaca
principalmente contra o castanho cálido do fundo.”
Óleo sobre madeira, 113 X 88cm; Kunslhistorisches Museum,
Viena
Folha de um caderno de esboços; pena e tinta sobre papel;
36,2 X 24,5cm; Albertina, Viena.
(Não consta essa imagem
no livro)
“Para nós, esses relevos e pinturas murais fornecem um quadro
extraordinariamente vigoroso da vida no Egito há milhares de anos. E, no
entanto, olhando-os pela primeira vez, é muito provável que os achemos bastante
insólitos e nos causem uma certa perplexidade. A razão é que os pintores
egípcios tinham um modo de representar a vida real muito diferente do nosso.
Talvez isso se relacione com a finalidade diferente que tinha de ser servida
por suas pinturas. O que mais importava não era a boniteza, mas a inteireza. A
tarefa do artista consistia em preservar tudo o mais clara e permanentemente
possível. Assim, não se propuseram bosquejar a natureza tal como se lhes
apresentava sob qualquer ângulo fortuito. Eles desenhavam de memória, de acordo
com regras estritas que asseguravam que tudo o que tinha de entrar no quadro se
destacaria com perfeita clareza. O método do artista, de fato, assemelhava-se
mais ao do cartógrafo do que ao do pintor. A fig. 34 demonstra-o num exemplo
simples, representando um jardim com um tanque. Se tivéssemos que desenhar tal
motivo, ponderaríamos primeiro sob que ângulo o focalizar. A forma e as
características das árvores somente poderiam ser vistas dos lados, a forma do
tanque somente seria visível se fosse vista de cima. Os egípcios não tinham
tais escrúpulos ao abordar o problema. Desenhavam simplesmente o tanque como se
fosse visto de cima e as árvores de lado. Os peixes e pássaros no lago, por
outra parte, dificilmente seriam reconhecíveis se vistos de cima, de modo que
foram desenhados de perfil.
Numa
cena tão simples, podemos facilmente entender o procedimento do artista. Um
método semelhante é usado com frequência pelas crianças. Mas os egípcios eram
muito mais consistentes em sua aplicação desses métodos do que as crianças
jamais o foram. Tudo tinha que ser representado desde o seu ângulo mais
característico. A fig. 35 mostra o efeito que essa ideia teve na representação
do corpo humano. A cabeça era mais facilmente vista de perfil, de modo que eles
a desenharam lateralmente. Mas, se pensamos no olho humano, é como se fosse
visto de frente que usualmente o consideramos. Portanto, um olho de frente era
plantado na vista lateral da face. A metade superior do corpo, os ombros e o
tronco, são melhor vistos de frente, pois desse modo vemos como os braços estão
ligados ao corpo. Mas braços e pernas em movimento veem-se muito mais
claramente de lado. Essa é a razão pela qual os egípcios, nessas imagens, nos
parecem tão estranhamente planos e contorcidos. Além disso, os artistas
egípcios achavam difícil visualizar um pé ou outro visto de um plano exterior.
Preferiam o contorno claro desde o dedão para cima. Portanto, ambos os pés são
vistos de dentro e o homem no releve parece ter dois pés esquerdos. Não se deve
supor que os artistas egípcios pensavam que os seres humanos tinham essa
aparência. Seguiam meramente uma regra que lhes permitia incluir tudo o que
consideravam importante na forma humana. Talvez essa rigorosa adesão à regra
tivesse algo a ver com a finalidade mágica da representação pictórica. Pois
como poderia um homem com seu braço “posto em perspectiva” ou “cortado” levar
ou receber as oferendas requeridas ao morto?”
Madeira, altura, 115cm;
Museu Egípcio, Cairo
Encontrado em Beni
Hassan; de um desenho baseado no original, publicado por Karl Lepsius, Denkmäller, 1842
“Os egípcios haviam desenhado principalmente
o que sabiam existir, os gregos o que
viam; na Idade Média, o
artista aprendeu a expressar também na sua obra o que sentia.
Não
se pode fazer jus a qualquer obra de arte medieval sem ter em mente esse
propósito. Pois esses artistas não pretendiam criar uma semelhança convincente
com a natureza ou realizar belas coisas: queriam comunicar a seus irmãos de fé
o conteúdo e a mensagem da história sagrada.”
“Hoje
não é fácil imaginar o que uma igreja significava para as pessoas desse
período. Somente em algumas velhas aldeias do interior podemos ter ainda um
vislumbre de sua importância. A igreja era, com frequência, o único edifício de
pedra em toda a redondeza; era a única construção de considerável envergadura
muitas léguas em redor e seu campanário era um ponto de referência para todos
os que chegavam de longe. Aos domingos e durante o culto, todos os habitantes
da cidade podiam encontrar-se ali, e o contraste entre o edifício grandioso,
com suas pinturas, suas talhas e esculturas, e as casas primitivas e humildes
em que essas pessoas passavam a vida devia ter sido esmagador. Não admira que
toda a comunidade estivesse interessada na construção dessas igrejas e se
orgulhasse de sua decoração. Mesmo do ponto de vista econômico, a construção de
um mosteiro, que levava anos, devia transformar uma cidade
inteira. A extração de pedra e seu transporte, a ereção de andaimes adequados,
o emprego de artífices itinerantes, que traziam histórias de terras distantes,
tudo isso constituía um acontecimento nesses tempos longínquos.
A
Idade das Trevas não apagara, em absoluto, a memória das primeiras igrejas, as
basílicas, e as formas que os romanos haviam usado em sua construção. O plano
fundamental era usualmente o mesmo — uma nave central levando a uma abside ou
coro, e duas ou quatro naves colaterais. Às vezes, esse plano simples era
enriquecido por um certo número de adições. Alguns arquitetos gostavam da ideia
de construir igrejas na forma de uma cruz, e por isso acrescentaram uma galeria
transversal entre o coro e a nave, a que se deu o nome de transepto. A
impressão geral criada por essas igrejas normandas ou românicas é, contudo,
muito diferente das velhas basílicas. Nas primeiras basílicas clássicas tinham
sido usadas colunas que sustentavam “entablamentos” retos. Nas igrejas
românicas e normandas, encontramos geralmente arcos redondos (semicirculares)
assentes em maciços pés-direitos. A impressão geral causada por essas igrejas,
interna e externamente, é de uma robustez compacta. Há poucas
decorações, as janelas são escassas, mas as paredes e torres sem quebras
lembram-nos as fortalezas medievais (fig. 111). Essas poderosas e quase
desafiadoras montanhas de pedra erigidas pela Igreja em terras de camponeses e
guerreiros que só recentemente haviam sido convertidos de seu modo de vida
pagão parecem expressar a própria ideia da Igreja Militante — isto é, a ideia
de que aqui na Terra é tarefa da Igreja combater as forças das Trevas até que a
hora do triunfo desponte no dia do juízo final.”
Uma igreja românica
A igreja na cidade
medieval
“Acabamos de comparar a arte do período românico com a arte de Bizâncio e
mesmo do Oriente antigo. Mas existe um aspecto em que a Europa sempre diferiu
profundamente das concepções artísticas orientais. Com efeito, no Oriente,
esses estilos duraram milhares de anos e não parecia haver razão alguma para
que mudassem. O Ocidente jamais conheceu essa imobilidade. Foi sempre
irrequieto, em busca de novas soluções e de novas ideias. O estilo românico não
sobreviveu sequer ao século XII. Ainda mal os artistas tinham conseguido
construir com êxito as abóbadas de suas igrejas e disposto suas estátuas de uma
nova e majestosa maneira, quando uma ideia revolucionária fez com que as
igrejas normandas e românicas parecessem desgraciosas, pesadas e obsoletas. A
nova ideia nasceu na França setentrional. Era o princípio do estilo gótico. No
início, poderíamos chamar-lhe principalmente uma invenção técnica, mas, em seus
efeitos e repercussões, tornou-se muito mais do que isso. Foi a descoberta de
que o método de abobadar uma igreja por meio de arcos transversais podia ser
desenvolvido muito mais sistematicamente e com objetivos muito mais ambiciosos
do que os arquitetos normandos haviam sequer sonhado. Se era verdade que os
pilares bastavam para sustentar os arcos da abóbada entre os quais as outras
pedras eram usadas como mero enchimento, então todas as paredes maciças entre
os pilares eram realmente supérfluas. Tudo o que se precisava era de pilares
finos e “costelas” estreitas nas arestas da abóbada. Qualquer coisa de permeio
podia ser dispensada sem perigo de desabamento da estrutura. Não havia
necessidade de pesadas paredes de pedra — pelo contrário, podiam ser abertas
grandes janelas. Tornou-se o ideal dos arquitetos construir igrejas quase à
maneira como construímos hoje estufas para plantas. Só que
eles não tinham esquadrias de aço ou longarinas de ferro — tinham que as
construir de pedra e isso exigia uma grande soma de cálculos cuidadosos.
Entretanto, desde que os cálculos fossem corretos, era possível construir uma
igreja de um tipo inteiramente novo; uma edificação de pedra e vidro como
jamais o mundo vira. Essa é a ideia dominante das catedrais góticas, a qual foi
desenvolvida no norte da França durante a segunda metade do século XII.
O
princípio de cruzamento de “nervuras” não era bastante para esse estilo revolucionário
de construção gótica. Foi necessário um certo número de outras invenções
técnicas para tornar possível o milagre. Os arcos redondos do estilo românico,
por exemplo, eram inadequados aos objetivos dos construtores góticos. A razão é
a seguinte: se recebo a tarefa de fechar o vão entre dois pilares com um arco
semicircular, só existe uma maneira de o fazer. A abóbada atingirá sempre uma
determinada altura, nem mais nem menos. Se eu quisesse alcançar uma altura
maior, teria que fazer o arco mais profundo. Nesse caso, a melhor solução não é
ter um arco redondo, mas unir dois segmentos de arco. Foi essa a ideia do arco
ogival. Sua grande vantagem é que pode ser variado a vontade, mais achatado ou
mais pontiagudo segundo as exigências da estrutura.
Havia
mais um aspecto a ser considerado. As pesadas pedras da abóbada não exercem
apenas pressão para baixo, mas também para os lados, à maneira de um arco
retesado. Também aqui o arco ogival constituiu um aperfeiçoamento em relação ao
arco redondo, mas, de qualquer modo, os pilares não eram por si só suficientes
para suportar essa pressão de dentro para fora. Nas naves laterais abobadadas
isso não representou grande dificuldade. Contrafortes (ou botaréus) podiam ser
construídos do lado de fora. Mas o que se poderia fazer com a alterosa nave
central? Era preciso mantê-la em sua forma desde o lado de fora, passando sobre
os telhados das naves laterais. Para isso, os construtores tiveram que
introduzir os “arcobotantes”, os quais completam a armação externa da abóbada
gótica (Fig. 122). Uma igreja gótica parece estar suspensa entre essas
estruturas mais delgadas de pedra como uma roda de bicicleta — que não se
deforma em virtude de seus finos raios — suporta a sua carga. Em ambos os
casos, é a distribuição uniforme de peso que torna possível reduzir o material
necessário à construção, cada vez mais, e sem pôr em perigo a solidez do todo.
Seria um erro, entretanto, considerar essas
igrejas principalmente como proezas de engenharia. O artista cuidou de que sentíssemos
e fruíssemos o arrojo do plano de suas criações. Olhando para um templo dórico
(pág. 83, Fig. 50), percebemos a função da colunata que suporta o peso do teto
horizontal. Postados no interior de uma catedral gótica (Fig. 123), faz-se-nos
entender a complexa interação de trações e pressões que mantém a grandiosa
abóbada em seu lugar. Não existem paredes cegas ou pilares maciços em parte
alguma. Todo o interior parece ter sido tecido de delicados fustes e nervuras;
sua rede cobre a abóbada e desce ao longo das paredes da nave para se reunir no
capitel dos diversos pilares, que são formados por um feixe de varas de pedra.
As próprias janelas são cobertas por essas linhas entrelaçadas, conhecidas como
“rendilhado”, na parte superior da ogiva (Fig. 124).
As
grandes catedrais, as igrejas próprias dos bispos (cathedra = trono do
bispo), do final do século XII e início do século XIII foram quase sempre
concebidas numa escala tão imponente e arrojada que poucas, se algumas
porventura houve, foram completadas exatamente como planejadas. Mas, apesar
disso, e depois das numerosas alterações que sofreram no decorrer do tempo,
continua sendo uma experiência inesquecível entrar nesses vastos interiores,
cujas próprias dimensões parecem apequenar tudo o que seja meramente humano e
trivial. Ê difícil imaginar a impressão que essas construções devem ter causado
naqueles que só conheciam as estruturas pesadas e sombrias do
estilo românico. Essas igrejas mais antigas, com sua força e poder, talvez
transmitissem algo daquela “igreja militante” e guerreira que oferecia abrigo
contra as investidas do mal. As novas catedrais davam aos fiéis o vislumbre de
um mundo diferente. Eles teriam ouvido falar, em sermões e cânticos, da
Jerusalém Celestial com seus portões de pérolas, suas joias de incalculável
preço, suas ruas de ouro puro e cristal transparente (Apocalipse, XXI). Agora,
essa visão descera do Céu a Terra. As paredes dessas igrejas não eram frias e
intimidativas. Eram formadas de vitrais polícromos, que refulgiam como rubis e
esmeraldas. Os pilares, nervuras e rendilhados despediam cintilações douradas.
Tudo o que era pesado, terreno e trivial foi eliminado. Os fiéis entregues à
contemplação de toda essa beleza podiam sentir que estavam mais próximos de
entender os mistérios de um reino além do alcance da matéria.
Mesmo
quando vistos de longe, esses milagrosos edifícios pareciam proclamar as
glórias celestes. A fachada de Notre Dame de Paris é talvez a mais perfeita de
todas (fig. 125). Tão lúcida e tão desembaraçada é a disposição dos pórticos e
janelas, tão ágil e gracioso o rendilhado do trifório, que esquecemos o peso
dessa montanha de pedra e toda a estrutura parece elevar-se ante os nossos
olhos como uma miragem.
Há
uma sensação análoga de leveza e imponderabilidade nas esculturas que ladeiam
os pórticos como anfitriões celestes. Enquanto que o mestre românico de Arles (Fig.
115, p. 176) fez suas figuras de santos parecerem sólidos pilares firmemente
encaixados na moldura arquitetônica, o mestre que trabalhou
para o pórtico norte da catedral gótica de Chartres (Figs. 126, 127) fez cada
uma de suas figuras ganhar vida. Elas parecem movimentar-se e olhar solenemente
umas para as outras, e a fluidez de suas vestes indica, uma vez mais, que
existe um corpo por baixo. Cada uma das figuras está claramente assinalada e
deve ser reconhecível por qualquer pessoa que conheça o Antigo Testamento. Não
temos dificuldade em reconhecer Abraão, o ancião com seu filho Isaac pronto
para ser sacrificado. Também podemos reconhecer Moisés, porque segura as tábuas
onde estão gravados os Dez Mandamentos e a coluna com a serpente bronzeada por
meio da qual ele curou os israelitas. O homem do outro lado de Abraão é
Melquisedeque, Rei de Salém, sobre quem lemos na Bíblia (Gênesis, XIV, 18) que
era “sacerdote do Deus Altíssimo” e “trouxe pão e vinho” para receber Abraão
depois de uma batalha vitoriosa. Na teologia medieval ele era considerado,
portanto, o modelo do sacerdote que administra os sacramentos, sendo por isso
que Melquisedeque é assinalado por um cálice e o turíbulo do oficiante. Dessa
maneira, quase todas as figuras que se aglomeram nos pórticos das grandes
catedrais góticas estão assinaladas por um emblema, para que o seu significado
e mensagem possa ser entendido e meditado pelos fiéis. Em conjunto, elas formam
uma consubstanciação dos ensinamentos da Igreja tão completa quanto as obras
discutidas no capítulo precedente. E, no entanto, sentimos que o escultor
gótico meteu ombros à sua tarefa possuído de um novo espírito. Para ele, essas
estátuas não são apenas símbolos sagrados, lembretes solenes de uma verdade
moral. Cada uma delas deve ter constituído para o artista uma figura autônoma,
diferente de seus vizinhos em sua atitude e tipo de beleza, e imbuída de
dignidade individual.
A
catedral de Chartres ainda pertenceu, em grande parte, ao final do século XII.
Depois do ano de 1200, grande número de novas e magníficas catedrais brotaram
na França e também nos países vizinhos, notadamente na Inglaterra, Espanha e
Renânia alemã. Muitos dos mestres ocupados nessas novas
edificações tinham aprendido seu mister enquanto trabalhavam nas primeiras
construções desse tipo, mas todos eles procuraram enriquecer as realizações de
seus predecessores.
A
fig. 129, da catedral gótica de Estrasburgo, construída em princípios do século
XIII, mostra a nova abordagem desses escultores góticos. Representa a morte da
Virgem. Os doze apóstolos cercam seu leito, Santa Maria Madalena ajoelha-se
junto ao leito. Cristo, no centro, está recebendo em Seus braços a alma da
Virgem. Vemos que o artista ainda está preocupado em preservar algo da solene
simetria do período anterior. Podemos imaginar que ele esboçou o grupo de
antemão, a fim de dispor as cabeças dos apóstolos em torno do arco; os dois
apóstolos curvados sobre a cabeceira e os pés do leito correspondem um ao
outro, com a figura do Cristo no centro. Mas o artista já não se contentou com
um arranjo puramente simétrico, como foi preferido pelo mestre do século XII da
pág. 181, Fig. 120. Ele quis, nota-se nitidamente, insuflar vida em suas
figuras. Podemos observar a expressão de dor nas belas faces dos apóstolos, o
cenho carregado e o olhar intenso de preocupação. Três deles erguem as mãos
para o rosto, no gesto tradicional de aflição e luto. Ainda mais expressivas
são a face e a figura de Maria Madalena, agachada junto ao leito e torcendo as
mãos; e é maravilhoso ver como o artista logrou contrastar a fisionomia dela
com a expressão serena e bem-aventurada no rosto da Virgem. As roupagens já não
são os invólucros vazios e os rolos puramente ornamentais que vemos nos
primeiros trabalhos medievais. Os artistas góticos quiseram entender a fórmula
antiga para corpos vestidos que lhes fora transmitida. Talvez se voltassem, em
busca de esclarecimento, para os remanescentes das obras pagãs em pedra,
túmulos e arcos triunfais romanos, dos quais podiam ser vistos muitos na
França. Assim recuperaram a perdida arte clássica de deixar que a estrutura do
corpo se mostrasse sob as dobras da roupagem. O nosso artista, de fato, está
orgulhoso de sua habilidade em dominar essa difícil técnica. O modo como os pés
e as mãos da Virgem e a cabeça do Cristo aparecem sob o pano revela-nos que
esses escultores góticos já não estavam apenas interessados no que representavam,
mas lambem nos problemas de como representá-lo. Uma vez mais, como no tempo do
grande despertar na Grécia, eles começaram a observar a natureza, não tanto para
copiá-la, mas, sobretudo, para aprender com ela como fazer uma figura ter um
aspecto convincente. Contudo, existe uma vasta diferença entre a arte grega e a
arte gótica, entre a arte do templo e a da catedral. Os artistas gregos do
século V a.C. estavam principalmente interessados em como realizar a imagem de
um belo corpo. Para o artista gótico, todos esses métodos e estratagemas eram
tão só um meio para um fim, que era contar uma história sagrada de um modo mais
comovente e mais convincente. Não a conta apenas por contar, mas para nos
transmitir uma mensagem, e para alívio e edificação dos fiéis. A atitude do
Cristo olhando para a Virgem agonizante era claramente mais importante para o
artista do que a habilidosa reprodução de seus músculos.”
Um templo dórico
Relevo em mármore do sarcófago de Junius Bassus; cripta
de São Pedro, Roma
Detalhe da Fig. 115
De um calendário manuscrito; Württembergische
Landesbibliothek, Stuttgart
Vista aérea mostrando a forma de cruz e os arcobotantes
Um interior gótico
Janelões de uma
igreja gótica
Uma catedral gótica
Detalhe da Fig. 126
Detalhe da Fig. 128

















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