quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A história da arte (Parte II), de E. H. Gombrich

Editora: LTC

ISBN: 978-85-7126-157-0

Tradução: Álvaro Cabral

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 688

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Sinopse: Ver Parte I


(Clicando sobre as imagens, pode-se observá-las em seu tamanho original.)


“É costume iniciar um novo capítulo com Giotto; os italianos estavam convencidos de que uma época inteiramente nova tinha começado com o aparecimento desse grande pintor. Veremos que eles estavam certos. Mas, apesar de tudo isso, talvez seja útil recordar que não existem novos capítulos nem novos começos, e que isso nada diminui a grandeza de Giotto, se considerarmos que os seus métodos devem muito aos mestres bizantinos, e seus objetivos e concepções aos grandes escultores das catedrais do Norte.

As mais famosas obras de Giotto são murais ou afrescos (assim chamados porque tinham que ser pintados na parede enquanto o emboço ainda estava fresco, isto é, úmido). Por volta de 1306, ele cobriu com histórias inspiradas na vida de Jesus e da Virgem as paredes de uma pequena igreja de Pádua, na Itália setentrional. Por baixo, pintou personificações de virtudes e vícios, como as que tinham sido por vezes colocadas nos pórticos das catedrais setentrionais.

A Fig. 134 mostra-nos a imagem da Fé pintada por Giotto, uma matrona segurando uma cruz numa das mãos e um pergaminho na outra. É fácil ver a semelhança entre essa nobre figura e as obras dos escultores góticos. Mas não é uma estátua. É uma pintura que produz a ilusão de uma estátua em redondo. Vemos o escorço do braço, a modelação da face e do pescoço, as sombras profundas nas pregas flutuantes das vestes. Nada que se parecesse com isso tinha sido feito em mil anos. Giotto redescobrira a arte de criar a ilusão de profundidade numa superfície plana.

Para Giotto, essa descoberta não era apenas um estratagema a ser exibido como tal. Ela capacitou-o a modificar toda a concepção da pintura. Em vez de usar os métodos de escrita pictórica, pôde criar a ilusão de que a história sagrada estava acontecendo diante de nossos próprios olhos. Para tanto, já não era suficiente examinar as representações mais antigas da mesma cena ou adaptar esses modelos consagrados pelo tempo a um novo uso. Giotto preferiu seguir o conselho dos frades que exortavam os fiéis, em seus sermões, a visualizar mentalmente, quando liam a Bíblia e as lendas dos santos, como teria sido a cena da família de um carpinteiro em fuga para o Egito ou do Senhor sendo pregado na cruz. Não descansou enquanto não reformulou tudo isso em seu pensamento: como se portaria um homem, como agiria, como se impressionaria, se participasse de tais eventos? Ainda mais: como se apresentariam aos nossos olhos tais gestos, movimentos e atitudes?

Podemos aferir melhor a extensão dessa revolução se compararmos um dos afrescos de Giotto em Pádua (Fig. 135) com um tema semelhante na miniatura do século XIII (Fig. 131). O tema é o velório em torno do corpo morto do Cristo, com a Virgem abraçando seu Filho pela última vez. Na miniatura, como o leitor recordará, o artista não estava interessado em representar a cena como poderia ter acontecido. Variou o tamanho das figuras de modo a encaixá-las bem na página, e se tentarmos imaginar o espaço entre as figuras no primeiro plano e S. João no fundo — com Jesus e a Virgem no meio — apercebemo-nos sem esforço de que tudo está espremido e de que o artista não se importou com os problemas de espaço. Foi a mesma indiferença pelo lugar real onde a cena estava ocorrendo que levou Nicola Pisano a representar diferentes episódios dentro de um só quadro. O método de Giotto é completamente diferente. A pintura, para ele, é mais do que um substitutivo para a palavra escrita. Parece que testemunhamos o evento real como se fosse representado num palco. Comparemos o gesto convencional de luto de S. João na miniatura com o movimento exaltado de S. João na pintura de Giotto, o corpo inclinado para a frente e os braços bem abertos num gesto apaixonado. Se tentarmos imaginar aqui a distância entre as figuras agachadas no primeiro plano e S. João, sentimos imediatamente que existe ar e espaço entre elas, e que todas podem se movimentar. Essas figuras em primeiro plano mostram até que ponto a arte de Giotto era inteiramente nova sob todos os aspectos. Recordemos que a arte cristã primitiva tinha revertido à antiga ideia oriental de que, para se contar claramente uma história, todas as figuras tinham que ser completamente mostradas, quase como se fazia na arte egípcia. Giotto abandonou essas ideias. Não precisava de artifícios tão simples. Ele prova-nos de uma forma tão convincente como cada figura reflete a dor profunda gerada pela trágica cena que não podemos deixar de pressentir a mesma aflição nas figuras agachadas cujos rostos estão escondidos de nós.

A fama de Giotto espalhou-se rapidamente. O povo de Florença orgulhava-se dele. Interessava-se por sua vida e contava anedotas sobre sua argúcia, seus ditos de espírito e sua destreza. Também isso era uma novidade. Nada de parecido acontecera antes. É claro, tinha havido mestres que gozavam da estima geral e eram recomendados de mosteiro para mosteiro, ou de bispo para bispo. Mas, de um modo geral, as pessoas não achavam necessário preservar os nomes desses mestres para a posteridade. Consideravam-nos como hoje consideramos um bom marceneiro ou alfaiate. Os próprios artistas tampouco estavam muito interessados em adquirir fama ou notoriedade. Com bastante frequência, nem sequer assinavam suas obras. Ignoramos os nomes dos mestres que fizeram as esculturas de Chartres. Estrasburgo ou Naumburgo. Sem dúvida, eram apreciados no seu tempo, mas outorgaram a honra à catedral para que haviam trabalhado. Também a este respeito o pintor florentino Giotto inicia um capitulo inteiramente novo na história da arte. Dos seus dias em diante, a história da arte, primeiro na Itália e depois em outros países, também, passou a ser a história dos grandes artistas.”

131. O sepultamento de Cristo, c. 1250-1300

De um saltério manuscrito de Bonmont; Biblioteca municipal, Besançon

 

134. Giotto di Bondone, , c. 1305

Detalhe de um afresco; Cappella dell’Arena, Pádua

 

135. Giotto di Bondone, A lamentação de Cristo, c. 1305

Afresco; Cappella dell’Arena, Pádua.

 

136. Detalhe da fig. 135

 

 

Na Itália, particularmente em Florença, a arte de Giotto modificara toda a concepção de pintura. A velha maneira bizantina pareceu subitamente rígida e superada. Contudo, seria errôneo imaginar que a arte italiana separou-se do resto da Europa de um dia para o outro. Pelo contrário. As ideias de Giotto ganharam influência nos países ao norte dos Alpes, ao passo que os ideais dos pintores góticos do Norte também começaram a ter efeito sobre os mestres meridionais. Foi particularmente em Siena, outra cidade toscaria e grande rival de Florença, que o gosto e o estilo desses artistas do Norte causaram uma impressão muito profunda. Os pintores de Siena não romperam com a anterior tradição bizantina de um modo tão abrupto e revolucionário quanto Giotto em Florença. O seu grande mestre da geração de Giotto. Duccio, tentou — e fê-lo com êxito — insuflar nova vida às antigas formas bizantinas, em vez de as rejeitar inteiramente. O painel para um altar reproduzido na fig. 144 foi obra de dois mestres mais jovens da escola de Duccio: Simone Martini (1285?-1344) e Lippo Memmi (falecido em 1347?). Mostra em que grau os ideais e a atmosfera geral do século XIV tinham sido absorvidos pela arte de Siena. A pintura representa a Anunciação — o momento em que o Arcanjo Gabriel chega do Céu para saudar a Virgem, e podemos ler as palavras que saem de sua boca: “Ave gratia plena”. Em sua mão esquerda segura um ramo de oliveira, símbolo da paz; a mão direita está erguida, como se ele estivesse prestes a falar. A Virgem estava lendo. A aparição do anjo colheu-a de surpresa. Ela encolhe-se num movimento de temor e humildade, enquanto olha para o mensageiro do Céu. Entre os dois está um vaso com açucenas, símbolo de virgindade, e no alto do arco ogivado central vemos a pomba, símbolo do Espírito Santo, cercada de querubins de quatro asas. Esses mestres compartilhavam da predileção dos artistas franceses e ingleses das Figs. 139 e 140 por formas delicadas e um estado de espírito lírico. Compraziam-se nas curvas suaves das roupagens fluentes e na graça sutil dos corpos delgados. Toda a pintura se assemelha, de fato, a um preciso trabalho de ourives, com suas figuras destacando-se de um fundo dourado, tão habilmente organizado que forma um padrão admirável. Não nos cansamos de admirar o modo como essas figuras são encaixadas no complicado formato do painel; a maneira como as asas do anjo são enquadradas pelo arco ogivado da esquerda, e a figura da Virgem se retrai para ficar emoldurada pelo arco da direita, enquanto que o espaço vazio entre as duas figuras é preenchido pelo vaso e a pomba que paira acima dele. Os pintores tinham aprendido essa arte de ajustar as figuras a um padrão através da tradição medieval. Tivemos antes ocasião de admirar o processo pelo qual os artistas medievais dispunham os símbolos das histórias sagradas de forma a obterem um arranjo satisfatório. Mas sabemos que procederam assim por ignorarem o formato e as proporções reais das coisas e esquecerem completamente problemas de espaço. Não era esse o método dos artistas de Siena. Talvez achemos suas figuras um pouco estranhas, com seus olhos oblíquos e bocas curvadas. Mas bastará examinarmos alguns detalhes para ver que os ensinamentos de Giotto não tinham, em absoluto, caído em poço sem fundo. O vaso é um vaso real, num chão real de pedra, e podemos dizer exatamente onde ele se encontra em relação ao anjo e à Virgem. O banco onde a Virgem está sentada é um banco de verdade, recuando em direção ao plano de fundo, e o livro que ela segura não é apenas o símbolo de um livro, mas um genuíno livro de orações, com luz incidindo sobre ele e com sombra entre as páginas, o que deve ter sido estudado pelo artista com base num livro de orações em seu gabinete de trabalho.”

 

139. Virgem e Menino, c. 1324-39; dedicada por Joan de Evreux em 1339

Prata dourada, esmalte e pedras preciosas, altura 69cm; Louvre, paris.

 

140. Cristo no Templo; caçada com falcão; c. 1310

Página do Saltério da Rainha Mary; British Library, Londres

 

141. Simone Martini & Lippo Memmi, A anunciação, 1333

Parte de um altar feito para a Catedral de Siena; têmpera sobre madeira; Uffizi, Florença

 

144. Paul e Jean de Limbourg: Maio, c. 1410

Página das “Três Riches Heures”, pintado para o Duque de Berry; Musée Condé, Chantilly

 

 

A palavra renascença significa nascer novamente ou ressurgir, e a ideia de tal renascimento ganhou terreno na Itália desde o tempo de Giotto. Quando as pessoas desse período queriam elogiar um poeta ou um artista, diziam que sua obra era tão boa quanto a dos antigos. Giotto fora exaltado assim como um mestre que tinha liderado um verdadeiro ressurgimento da arte: as pessoas queriam significar com isso que a arte de Giotto era tão boa quanto a daqueles famosos mestres cujas obras encontravam louvadas nos autores antigos da Grécia e de Roma. Não surpreende que essa ideia se tornasse popular na Itália. Os italianos estavam perfeitamente cônscios de que, num passado distante, a Itália, tendo Roma por capital, fora o centro do mundo civilizado, e que seu poder e glória se dissipara quando as tribos germânicas, godos e vândalos, invadiram o país e desmantelaram o Império Romano. A ideia de um renascimento associava-se na mente dos romanos à ideia de uma ressurreição da “grandeza de Roma”. O período entre a idade clássica, para a qual voltavam os olhos com orgulho, e a nova era de renascença, que aguardavam com esperança, era meramente um melancólico interregno. “O Período Intermédio”. Assim, a ideia de uma renascença foi responsável pela ideia de que o período interposto era uma Idade Média — e ainda usamos essa terminologia. Como os italianos culpavam os godos pela queda do Império Romano, começaram a se referir à arte desse período intermediário como arte gótica, com o que pretendiam significar bárbara — tal como hoje falamos do vandalismo quando nos referimos à destruição inútil de belas coisas.

Sabemos hoje que essas ideias dos italianos tinham pouca base, de fato. Eram, na melhor das hipóteses, um quadro rudimentar e muito simplificado do curso real dos acontecimentos. Vimos que cerca de setecentos anos separaram os godos do surgimento da arte a que hoje chamamos gótica. Também sabemos que o ressurgimento da arte, após o choque e a agitação da Idade das Trevas, deu-se gradualmente e que o próprio período gótico presenciou a grande arrancada desse ressurgimento. Talvez possamos entender a razão pela qual os italianos estavam menos conscientes desse gradual progresso e desenvolvimento da arte do que os povos que viviam mais para o norte. Vimos que, durante parte da Idade Média, os italianos ficaram para trás, pelo que as inovações de Giotto causaram neles uma tremenda impressão, sendo vistas como o renascimento de tudo o que era nobre e grande em arte. Os italianos do século XIV acreditavam que a arte, ciência e erudição tinham florescido no período clássico, que todas essas coisas tinham sido destruídas pelos bárbaros do Norte e que lhes cumpria a missão de ajudar a reviver o glorioso passado e, portanto, a inaugurar uma nova era.

Em nenhuma cidade esse sentimento de confiança e esperança era mais intenso do que em Florença, berço de Dante e de Giotto. Foi nessa próspera cidade de mercadores, nas primeiras décadas do século XV, que um grupo de artistas se dispôs deliberadamente a criar uma nova arte e a romper com as ideias do passado.

O líder desse grupo de jovens artistas florentinos foi um arquiteto, Filippo Brunelleschi (1377-1446). Brunelleschi estava empregado na conclusão da Catedral de Florença. Era uma catedral gótica e Brunelleschi tinha dominado inteiramente as invenções técnicas que faziam parte da tradição gótica. A sua fama, com efeito, assenta parcialmente num feito em traça e construção que teria sido impossível sem o seu conhecimento dos métodos góticos de construir abóbadas. Os florentinos desejavam que sua catedral fosse coroada por um imponente zimbório, mas nenhum artista era capaz de cobrir o imenso espaço entre os pilares em que o zimbório deveria assentar, até que Brunelleschi inventou um método para realizar isso (Fig. 146). Quando foi chamado a projetar novas igrejas ou outros edifícios, decidiu abandonar inteiramente o estilo tradicional e adotar o programa daqueles que ansiavam por um renascimento da grandeza romana. Consta que ele viajou para Roma e mediu as ruínas de templos e palácios, fazendo esboços de suas formas e ornamentos. Jamais foi sua intenção copiar literalmente esses antigos edifícios. Dificilmente eles poderiam ser adaptados às necessidades da Florença quatrocentista. O que Brunelleschi tinha em mira era a criação de um novo processo de construção, em que as formas da arquitetura clássica fossem livremente usadas para criar novos modos de harmonia e beleza.

O que continua sendo o aspecto mais surpreendente da realização de Brunelleschi é o fato de ter realmente conseguido concretizar seu programa. Durante cerca de quinhentos anos, os arquitetos da Europa e das Américas seguiram em sua esteira. Sempre que vamos às nossas cidades e aldeias, encontramos edifícios em que são usadas formas clássicas, como colunas e frontões. Somente no século atual os arquitetos começaram a questionar o programa de Brunelleschi e rebelaram-se contra a tradição renascentista na construção, tal como ele se revoltou contra a tradição gótica. Entretanto, muitas casas que estão sendo construídas agora, mesmo as que não têm colunas ou adornos semelhantes, ainda preservam alguns remanescentes da forma clássica, nas medidas e proporções da construção, ou no formato de molduras de portas e caixilhos de janelas. Se Brunelleschi queria criar a arquitetura de uma nova era, certamente conseguiu.

A Fig. 147 mostra a fachada de uma pequena igreja que Brunelleschi construiu para a poderosa família dos Pazzi, em Florença. Vemos imediatamente que ela tem muito pouco em comum com qualquer templo clássico, mas ainda menos com as formas usadas pelos construtores góticos. Brunelleschi combinou colunas, pilastras e arcos à sua própria maneira para lograr um efeito de leveza e elegância que é diferente de tudo o que se construíra antes. Pormenores como a moldura da porta, com seu frontão clássico, revelam como Brunelleschi estudou cuidadosamente as antigas ruínas e edifícios como o Panteão (fig. 75, p. 120). Comparemos o modo como o arco é formado e penetra no andar superior com suas pilastras (meias colunas planas). Descortinamos ainda mais claramente o seu estudo de formas romanas quando entramos na igreja (Fig. 148). Nada nesse brilhante e bem proporcionado interior apresenta qualquer das características que os arquitetos góticos tinham em tão alto apreço. Não há janelões nem delgadas colunas. Em vez disso, a parede lisa e branca é subdividida por pilastras cinzentas, as quais transmitem a ideia de uma “ordem” clássica, embora não sirvam a qualquer função real na construção do edifício. Brunelleschi apenas as colocou para enfatizar a forma e proporção do interior.

Brunelleschi não foi apenas o iniciador da arquitetura da Renascença. Segundo parece, a ele se deve outra momentosa descoberta no campo da arte, a qual também dominou a arte de séculos subsequentes: a da perspectiva. Vimos que mesmo os gregos, que compreenderam o escorço, e os pintores helenísticos que eram engenhosos na criação da ilusão da profundidade (p. 114. Fig. 72), ignoravam as Íeis matemáticas pelas quais os objetos parecem diminuir de tamanho quando se afastam de nós. Recordemos que nenhum artista clássico poderia ler desenhado a famosa avenida de árvores afastando-se no quadro até desaparecer no horizonte. Foi Brunelleschi quem proporcionou aos artistas os meios matemáticos para solução do problema; e a sensação que isso causou entre os pintores deve ler sido imensa. A fig. 149 mostra uma das primeiras pinturas que foram produzidas de acordo com essas regras matemáticas. Trata-se de um mural numa igreja florentina e representa a Santíssima Trindade cora a Virgem e S. João sob a Cruz, e os doadores — um velho mercador e sua esposa — ajoelhados do lado de fora. O pintor que fez esse mural chamava-se Masaccio (1401-28), que significa “desajeitado”*. Deve ter sido um gênio extraordinário, pois sabemos que morreu com 28 anos incompletos e, por essa altura, já provocara uma verdadeira revolução na pintura. Essa revolução não consistiu apenas no estratagema técnico da pintura em perspectiva, embora isso, por si só, deva ter sido deveras espantoso enquanto foi novidade. Podemos imaginar a perplexidade dos florentinos quando esse mural foi exposto e parecia ter feito um buraco na parede, através do qual podiam ver uma nova capela no moderno estilo de Brunelleschi. Mas talvez ficassem ainda mais surpresos diante da simplicidade e grandiosidade das figuras que eram emolduradas por essa nova arquitetura. Se os florentinos esperavam algo na linha do Estilo Internacional, que estava tanto em moda em Florença como no resto da Europa, devem ter ficado desapontados. Em vez da graça delicada, viram figuras maciças: em lugar de curvas fluentes, sólidas formas angulares; e em vez de pormenores refinados, como flores e pedras preciosas, um túmulo sombrio com um esqueleto em cima. Mas se a arte de Masaccio era menos agradável à vista do que as pinturas a que estavam habituados, por outro lado, era bem mais sincera e comovente. Podemos depreender que Masaccio admirou a grandeza dramática de Giotto, embora não o imitasse. O simples gesto com que a Virgem aponta para seu Filho crucificado é tão eloquente e impressionante por constituir o único movimento em toda a solene pintura. Suas figuras, de fato, parecem estátuas. Foi esse efeito, mais do que qualquer outra coisa, que Masaccio intensificou pelo enquadramento em perspectiva em que suas figuras foram colocadas. Sentimos que quase podemos tocá-las, e essa sensação traz as figuras e sua mensagem para mais perto de nós. Os novos artifícios e descobertas da arte nunca foram um fim em si para os grandes mestres da Renascença. Usaram-nos sempre com o propósito de acercar ainda mais do nosso espírito o significado dos temas representados.

O maior escultor do círculo de Brunelleschi foi o mestre florentino Donatello (1386?-1466). Era quinze anos mais velho do que Masaccio, mas viveu muito mais tempo. A Fig. 151 mostra um de seus primeiros trabalhos. Foi encomendado pela guilda dos alfagemes e armeiros, cujo santo padroeiro. S. Jorge, representa; a estátua destinava-se a um nicho na parte exterior da igreja florentina de Or San Michele. Se recordarmos as estátuas góticas no exterior das grandes catedrais (p. 191, Fig. 127), compreenderemos como Donatello rompeu completamente com o passado. Essas estátuas góticas pairavam ao lado dos pórticos, em filas hieráticas e solenes, parecendo seres de outro mundo. O S. Jorge de Donatello finca-se com firmeza no chão, os pés resolutamente plantados na terra, como se estivesse decidido a não ceder um palmo de terreno. Seu rosto nada tem da beleza indefinida e serena dos santos medievais — é todo ele energia e concentração. Parece vigiar a aproximação do inimigo e medi-lo de alto a baixo, a mão pousada no escudo, toda a sua atitude tensa de desafiadora determinação. A estátua permaneceu famosa como retraio impar de vigor e coragem juvenis. Mas não é apenas a imaginação de Donatello que devemos admirar, a sua faculdade de visualizar o santo guerreiro de maneira tão vigorosa e convincente; toda a sua abordagem da arte da escultura mostra uma concepção completamente nova. Apesar da impressão de vida e movimento que a estátua transmite, seus contornos permanecem claros e sólidos como um rochedo. Tal como as pinturas de Masaccio, ela mostra-nos que Donatello quis substituir o sutil refinamento de seus predecessores por uma nova e sadia observação da natureza. Detalhes como as mãos e o cenho do santo demonstram uma completa independência dos modelos tradicionais. Provam um estudo original e deliberado das características reais do corpo humano. Pois esses mestres florentinos do começo do século XV já não se contentavam em repelir as antigas fórmulas transmitidas pelos artistas medievais. Tal como os gregos e romanos, a quem admiravam, começaram a estudar o corpo humano em seus ateliers e oficinas, pedindo a modelos ou a colegas artistas que posassem para eles nas atitudes requeridas. Esse novo interesse e esse novo método é que fazem a obra de Donatello parecer tão profundamente convincente.

Donatello adquiriu grande fama durante sua vida. Tal como Giotto, um século antes, era frequentemente chamado a outras cidades italianas a fim de lhes aumentar a beleza e a glória. A Fig. 155 reproduz um relevo em bronze por ele produzido para uma pia batismal em Siena cerca dez anos depois do S. Jorge, em 1427. A semelhança da pia batismal medieval da fig. 118 (p. 179), ilustra também uma cena da vida de S. João Batista. Mostra o tétrico momento em que a princesa Salomé pediu ao Rei Herodes, como prêmio por ter dançado para ele, a cabeça de S. João e a obteve. O nosso olhar penetra no régio salão do banquete e vai ainda mais longe, até à galeria dos músicos e a um lanço de escadas e salas ao fundo. O carrasco acabou de chegar e ajoelha-se ante o rei transportando numa bandeja a cabeça do santo. O rei recua e ergue as mãos horrorizado, crianças choram e fogem; a mãe de Salomé, que instigou o crime, é vista dirigindo-se ao rei, tentando explicar a ato. Há um grande vazio em torno dela, quando os convivas recuam. Um deles cobre os olhos com a mão, outros cercam Salomé, que parece ter nesse instante suspendido a dança. Não é necessário explicar detalhadamente que características são novas nessa obra de Donatello. São todas. As pessoas acostumadas às claras e graciosas narrativas da arte gótica, o modo de Donatello de contar uma história deve ter causado um choque. Não houve aqui o desejo de formar um padrão agradável e bem arrumado, mas, pelo contrário, o de produzir um efeito de súbito caos. Tal como as figuras de Masaccio, as de Donatello são ásperas e angulares em seus movimentos. Os gestos são violentos e não se vislumbre tentativa alguma de mitigar o horror da história. Para os seus contemporâneos, o quadro deve ter parecido quase perigosamente vivo.

A nova arte da perspectiva aumenta ainda mais a ilusão de realidade. Donatello deve ler começado por se perguntar: “Como teriam acontecido as coisas quando a cabeça do santo foi trazida para o salão?” Ele empenhou-se em representar um palácio clássico como aquele em que o evento poderia ter ocorrido, e escolheu tipos romanos para as figuras ao fundo (Fig. 153). Percebe-se nitidamente que, de fato, nessa época, Donatello, como seu amigo Brunelleschi, tinha iniciado um estudo sistemático dos remanescentes romanos para ajudá-lo a concretizar o renascimento da arte. É inteiramente errado, porém, imaginar que esse estudo da arte grega e romana causou a “Renascença”. A verdade é quase o oposto. Os artistas em redor de Brunelleschi ansiavam com tanta veemência por uma renovação da arte que se voltaram para a natureza, a ciência e os remanescentes da antiguidade a fim de realizarem seus novos objetivos.”

* Na verdade, seu nome era Tommaso di ser Giovanni, sendo II Masaccio o apelido que afinal o imortalizou (N. do T)

 

72. Paisagem, século I d.C.

Pintura mural; Villa Albani, Roma

 

75. Interior do Panteão, Roma, c. 130 d.C.

Pintura de G. P. Pannini; Statens Museum for Kunst, Copenhague

 

118. Reiner van Huy: Pia batismal, 1107-18

Latão, altura 87 cm; igreja de S. Bartolomeu, Liège

 

126. Pórtico do transepto norte da Catedral de Chartes, 1194

 

127. Melquisedeque, Abraão, Moisés e Davi, 1194

Detalhe da Fig. 126

 

146. Filippo Brunelleschi: Zimbório da Catedral de Florença, c. 1420-36.

 

147. Filippo Brunelleschi: Capela Pazzi, Florença, c. 1430.

 

148. Filippo Brunelleschi: Interior da Capela Pazzi, Florença, c. 1430.

 

149. Masaccio: A Santíssima Trindade com a Virgem, S. João e doadores, c. 1425-8

Afresco, 667 X 317cm: igreja de Santa Maria Novella, Florença

 

150. Detalhe da Fig. 151.

 

151. Donatello: S. Jorge, c. 1415-16

Mármore, altura 209cm; Museo Nazionale del Bargello, Florença

 

152. Donatello: O festim de Herodes, c. 1423-7

Bronze dourado, 60x60 cm; relevo na pia bastimal, catedral de Siena

 

153. Detalhe da Fig. 152

 

154. Claus Sluter, Os profetas Daniel e Isaías, 1396-1404

Da fonte de Moisés; calcário, altura (excluindo a base) 360cm; Chartreuse de Champmol, Dijon

 

155. Jan van Eyck: O retábulo de Gand com as folhas fechadas, 1432

Óleo sobre painel, cada painel 146,2 X 51,4cm; catedral de S. Bavão, Gand

155.2 Jan van Eyck: o retábulo de Gand com as folhas fechadas, 1432
 


156. Encarte.

O retábulo de Gand aberto

 

 

Nesse tempo, outros pintores nas cidades ao norte e ao sul de Florença tinham absorvido a mensagem da nova arte de Donatello e Masaccio, e estavam talvez ainda mais ansiosos por tirar dela o máximo proveito do que os próprios florentinos. É o caso de Andrea Mantegna (1431-1506), que trabalhou primeiro na famosa cidade universitária de Pádua e depois na corte dos Duques de Mântua, ambas no Norte da Itália. Numa igreja paduana, muito perto da capela onde Giotto pintou seus famosos afrescos, Mantegna pintou uma série de murais ilustrando a lenda de S. Tiago. A igreja foi seriamente danificada por bombardeios durante a II Guerra Mundial, e a maior parte dessas maravilhosas pinturas de Mantegna foi destruída. É uma triste e irrecuperável perda, pois esses murais pertenciam indubitavelmente às maiores obras de arte de todos os tempos. Uma delas (Fig. 169) mostrava S. Tiago sendo escoltado para o local de sua execução. Tal como Giotto ou Donatello. Mantegna tentou imaginar claramente como teria sido a cena na realidade, mas os padrões do que ele chamava realidade tinham-se tomado muito mais severos e exigentes desde os tempos de Giotto. O que importava a Giotto era o significado íntimo da história — como homens e mulheres se movimentariam e comportariam numa dada situação. Mantegna, por seu turno, também se interessava pelas circunstâncias externas. Sabia que S. Tiago tinha vivido no tempo dos Imperadores romanos e estava ansioso por reconstituir a cena tal como poderia ter realmente acontecido. Fizera, para esse fim, um estudo especial de monumentos clássicos. A porta da cidade pela qual S. Tiago acaba de ser levado é um arco triunfal romano e os soldados da escolta vestem todos roupas e armaduras de legionários romanos, tal como as vemos representadas em monumentos clássicos autênticos. Não é apenas nesses detalhes de vestuário e ornamentação que a pintura nos recorda a escultura antiga. Toda a cena é insuflada pelo espírito da arte romana em sua rigorosa simplicidade e austera grandeza. Com efeito, as diferenças entre os afrescos florentinos de Benozzo Gozzoli e as obras de Mantegna que foram pintadas aproximadamente durante os mesmos anos dificilmente poderiam ser mais pronunciadas. Na alegre pompa de Gozzoli reconhecemos um retorno ao gosto do Estilo Internacional gótico. Mantegna, por outro lado, prossegue o caminho onde Masaccio parou. Suas figuras eram tão esculturais e impressionantes quanto as de Masaccio, utiliza a nova arte da perspectiva com transbordante avidez, mas não a explora como Uccello o fez, para exibir o novo efeito que podia ser conseguido através dessa mágica. Mantegna preferiu usar a perspectiva para criar o palco em que suas figuras parecem movimentar-se como seres tangíveis e sólidos. Distribui-as como um talentoso diretor teatral poderia ler feito, de modo a transmitir o significado do momento e o desenrolar do episódio. Podemos ver o que está acontecendo: a procissão que escolta S. Tiago parou por um momento porque um dos perseguidores se arrependeu e se lançou aos pés do santo, para receber a sua bênção. O santo voltou-se calmamente para abençoar o homem, enquanto os soldados romanos aguardam e observam, um deles impassível, o outro erguendo as mãos num gesto expressivo que parece significar também estar ele impressionado. A curvatura do arco emoldura essa cena e separa-a do torvelinho da multidão que a ela assiste e é empurrada pelos guardas.”

169. Andrea Mantegna: São Tiago a caminho de sua execução, c. 1455

Afresco; destruído; antiga igreja dos Ermitãos, Pádua

 

 

“Entre os artistas florentinos da segunda metade do século XV que lutaram por uma solução para essa questão encontrava-se o pintor Sandro Botticelli (1446-1510). Um de seus quadros mais famosos não representa uma lenda cristã, mas um mito clássico: “O Nascimento de Vênus” (Fig. 172). Os poetas clássicos tinham sido conhecidos durante toda a Idade Média, mas somente no período da Renascença, quando os italianos tentaram apaixonadamente reconquistar a antiga glória de Roma, os mitos clássicos se tornaram populares entre os leigos educados. Para esses homens, a mitologia dos admirados gregos e romanos representava algo mais do que alegres e bonitas histórias da carochinha. Estavam tão convencidos da sabedoria superior dos antigos que acreditavam estar contida nessas lendas clássicas alguma verdade profunda e misteriosa. O cliente que encomendou a pintura de Botticelli para a sua casa de campo era membro da rica e poderosa família dos Medici. Ou ele mesmo ou um dos seus eruditos amigos explicou provavelmente ao pintor o modo como os antigos tinham representado Vênus surgindo do mar. Para esses letrados, a história de seu nascimento era o símbolo do mistério através da qual a mensagem divina de beleza veio ao mundo.”

 

172. Sandro Botticcelli: O nascimento de Vênus, c. 1485

Têmpera sobre tela, 172,5 X 278,5cm; Uffizi, Florença

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