Editora: Boitempo
ISBN: 978-85-7559-145-1
Tradução: Paulo
Cezar Castanheira e Sérgio Lessa
Opinião: ★★★☆☆
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Páginas: 1104
Sinopse: Obra de maior
envergadura do filósofo húngaro István Mészáros, Para além do capital, fruto de duas décadas de trabalho intenso, é
uma das mais aguçadas reflexões críticas sobre o capital em suas formas,
engrenagens e mecanismos de funcionamento. Influenciada por Marx, Lukács e Rosa
Luxemburgo, a obra de Mészáros é o desenho crítico e analítico mais ousado
contra o capital e suas formas de controle social.
Enquanto elaborava sua última
obra, Ontologia do ser social, Lukács disse que gostaria de retomar o projeto
de Marx e escrever O Capital de nossos dias, promovendo uma atualização da obra
de Marx. Coube a Mészáros contribuir para a realização de parte dessa
empreitada. Em Para além do capital,
Mészáros empreende uma demolidora crítica do capital e realiza uma das mais
instigantes e densas reflexões sobre a sociabilidade contemporânea e a lógica
que a preside.
Para ele, capital e
capitalismo são fenômenos distintos e a identificação conceitual entre ambos
fez com que todas as experiências revolucionárias vivenciadas neste século,
desde a Revolução Russa até as tentativas mais recentes de constituição
societal socialista, se mostrassem incapacitadas para superar o sistema de
metabolismo social do capital. O capitalismo seria uma das formas possíveis da
realização do capital, uma de suas variantes históricas.
Mészáros define o sistema de
metabolismo social do capital como poderoso e abrangente, tendo seu núcleo
formado pelo tripé capital, trabalho e estado - três dimensões fundamentais do sistema
materialmente construídas e inter-relacionadas -, sendo impossível superar o
capital sem a eliminação do conjunto dos elementos que compreende este sistema.
Não tendo limites para expansão, o sistema de metabolismo social do capital
mostra-se incontrolável. Fracassaram tanto as tentativas efetivadas pela
socialdemocracia quanto a alternativa de tipo soviético.
O sistema do capital seria
assim essencialmente destrutivo em sua lógica, constatação que levou Mészáros a
desenvolver a tese da taxa de utilização decrescente do valor de uso das
coisas. Expansionista, destrutivo e incontrolável, o capital assume cada vez
mais a forma de uma crise endêmica e permanente, com a perspectiva de uma crise
estrutural cada vez mais profunda. Com a irresolubilidade da sua crise
estrutural fazendo emergir, na sua linha de tendência já visível, o espectro da
destruição global da humanidade, a única forma de evitá-la seria através da
atualização histórica da alternativa societal, da ofensiva socialista.
O livro apresenta ainda um
conjunto de teses centrais, que incluem a questão feminina (efetiva emancipação
da mulher nas diversas formas de opressão) e também a temática ambiental.
Mészáros realiza uma síntese inspirada em Marx, mas que é também tributária da
matriz ontológica de Lukács e, por outro lado, da radicalidade da crítica da
economia de Rosa Luxemburgo, que o inspira da mesma forma.
“Na verdade, a ordem
existente demonstra-se insustentável, não apenas devido às crescentes
“disfunções” socioeconômicas resultantes da imposição diária de suas
desumanidades sobre milhões de “infelizes”, mas também em razão do esvaziamento
espetacular das mais caras ilusões relativas ao irreversível poder
estabilizador socioeconômico da vitória do mundo capitalista avançado sobre o
inimigo de ontem.
A consciência desta insustentabilidade ajuda a manter a esperança de uma
mudança estrutural básica, apesar de todos os empecilhos e desilusões amargas
do passado recente. Encher buracos cavando buracos cada vez maiores — o que tem
sido a maneira predileta de solucionar os problemas na presente fase do
desenvolvimento — é algo que não pode continuar indefinidamente. Descobrir uma
saída do labirinto das contradições do sistema do capital global por meio de
uma transição sustentável para uma ordem social muito diferente é, portanto,
mais imperativo hoje do que jamais o foi, diante da instabilidade cada vez mais
ameaçadora.”
“Naturalmente, o pilar central desta concepção — a afirmação da
“complexa interdependência de cada um em relação a todos” — era uma mistificação ideológica:
um meio de fechar o círculo da sociedade de mercado, da qual não se poderia
fugir. Pois, se fosse realmente verdade que a compulsão inseparável da
natureza do capital — longe de universal e de modo algum necessariamente
permanente — resultava da complexa interdependência dos indivíduos
como indivíduos, nada se poderia fazer. Para alterar esta condição, seria
preciso inventar um mundo radicalmente diferente deste em que vivemos.
Entretanto, o “avanço dialético” que racionaliza e legitima a conclusão
apologética hegeliana é, na verdade, pseudodialético. O particular
personalista não pode ser mediado pelo universal de Hegel, porque este
só existe como ficção conceitual, útil apenas para si mesmo. A verdadeira
universalidade em nosso mundo realmente existente não pode emergir sem a
superação das contradições antagônicas da relação entre capital e trabalho
em que os indivíduos particulares estão inseridos e pela qual são dominados.
Em Hegel, este problema é resolvido — ou
melhor, contornado — com a ajuda de uma dupla ficção. Primeiro, com a ajuda do
postulado lógico abstrato que liga diretamente o particular ao universal
(inexistente) e convenciona idealisticamente que, “ao ganhar e produzir para
seu próprio gozo, cada homem está eo ipso produzindo e ganhando para
deleite de todos os demais*. E, segundo, com a ajuda de uma mudança
mistificadora, pela qual ele inverte o significado da compulsão. Depois de
inventar completamente seus dois termos de referência — isto é, de um lado, a
particularidade eo ipso de gozo-produção-harmoniosamente-recíprocos e,
de outro, a universalidade com a misteriosa capacidade de eliminar conflitos —
e após equiparar o “capital permanente universal” à determinação axiomática da
interdependência dos indivíduos entre si, ele tira a compulsão de onde
ela realmente está: ou seja, dos imperativos produtivos e distributivos que
emanam do próprio capital, na qualidade de modo de controle sociometabólico
historicamente específico. Desta maneira oculta-se o fato de que o capital
é uma relação de propriedade — o meio de produção alienado
incorporado na propriedade privada ou estatal — historicamente criada (e
historicamente transcendível) que é contraposta a cada produtor e governa a
todos. Em função da mudança hegeliana, a compulsão é convenientemente
convertida de opressiva realidade histórica em virtude atemporal, com
base na condição indiscutível e ontologicamente inalterável de que a raça
humana é feita de indivíduos particulares. O que desaparece nesta espécie de
“avanço dialético” é a realidade objetiva das classes sociais antagonistas e a
subordinação sem cerimônia de todos os indivíduos a uma ou a outra delas.
Subordinação que impõe um tipo de compulsão a que todos devem obedecer no mundo
real não apenas como indivíduos particulares, mas como indivíduos de
uma classe particular.
Certamente a relação produtiva entre sujeitos trabalhadores particulares
(como indivíduos sociais realmente existentes) deve ser mediada em todas as
formas concebíveis de sociedade. Sem o que a “totalidade agregativa” dos
indivíduos ativos em qualquer tempo determinado na história jamais poderia
coalescer em um todo social sustentável. Na verdade, a especificidade histórica
de uma forma de mediação dada, através da qual os indivíduos se reúnem em um
todo social mais ou menos entrelaçado, por meio de agrupamentos historicamente
dados e respectivos corolários institucionais, tem importância seminal. É
precisamente esta especificidade mediadora das inter-relações reprodutivas dos
indivíduos — praticamente inevitável — que define, em última análise, o caráter
fundamental dos diversos modos de intercâmbio social historicamente
contrastantes.
O caso é que — não devido às inalteráveis determinações ontológicas, mas
como resultado da divisão do trabalho historicamente gerada e mutável, que
continua prevalecendo sob todas as formas concebíveis do domínio do capital —
os indivíduos são mediados entre si e combinados em um todo social antagonicamente
estruturado por meio do sistema estabelecido de produção e troca. Este
sistema é regido pelo imperativo do valor de troca em permanente expansão a que
tudo o mais — desde as necessidades mais básicas e mais íntimas dos indivíduos
até as variadas atividades produtivas materiais e culturais em que eles se
envolvem — deve estar rigorosamente subordinado: é o imencionável tabu
ideológico das formas e estruturas realmente assumidas pela perversa mediação
institucional e material sob o sistema do capital que faz Hegel ir atrás do
postulado da mediação direta da individualidade particular graças a uma
fictícia universalidade abstrata, de modo a extrair dela com miraculosa
destreza o “capital permanente universal” como entidade inteiramente
des-historicizada.”
“A concepção de Hegel de “Sujeito-Objeto idêntico” era um corolário
necessário de tudo isto, pois a única determinação coesiva que ele poderia
oferecer para manter sob controle as forças centrífugas da sociedade civil (em
suas próprias palavras, infinita) — nos limites de um sistema concebido
do ponto de vista do capital — era a pseudomediação realizada pela “astúcia da
Razão” subordinando a si todos os indivíduos. O Sujeito-Objeto idêntico, como
verdadeira força motriz histórica, tinha de realizar seu próprio projeto,
produzindo e perpetuando, por meio da instrumentalidade escolhida de indivíduos
particulares, sua própria ordem — já estabelecida —, além da qual não poderia
haver nada racionalmente concebível.
Lukács adotou a concepção hegeliana como ponto de partida filosófico. Este
foi o ponto de contato pelo qual ele desejava mediar sua recém-descoberta
mensagem socialista para todos os que ainda viam o mundo através das lentes da
filosofia burguesa clássica. Compreensivelmente, diante das circunstâncias
dadas pelo turbilhão revolucionário e pós-revolucionário, a questão da força
histórica era proeminente entre as preocupações de Lukács em História
e consciência de classe. Para transmitir esta mensagem, ele
teve de rejeitar não apenas o conto de fadas da compulsão benevolente de Hegel,
mas também sua visão da absoluta impossibilidade de fugir das determinações da
“sociedade civil”. Ao mesmo tempo, Lukács também teve de transformar o sujeito
supraindividual num sujeito coletivo transindividual em pleno controle de seu
próprio destino, sem o que a superação esperada da “tragédia no reino do ético”
não seria convincente. Não obstante, é estranho que Lukács tenha pensado que
poderia encontrar uma solução satisfatória para as questões teóricas e práticas
pertinentes em termos de sua própria versão do “Sujeito-Objeto idêntico da
história”.
No prefácio de 1967 para
História
e consciência de classe, Lukács admitiu que seus esforços
resultavam apenas em “ser mais hegeliano do que Hegel ”30.
Foi um diagnóstico generosamente correto. Como resultado do “incorrigível
substitucionismo” típico de História e consciência de classe, o
Sujeito-Objeto idêntico de Lukács terminou sendo uma entidade supraindividual
totalmente abstrata e sollen (ou seja, “carregada de dever ser”) —
ainda que secular: o Partido, escrito com maiúscula, sacralizado e hipostasiado
como portador de um imperativo moral.
Na verdade, a problemática hegeliana do Sujeito-Objeto idêntico — como
concepção reprodutora da hierarquia — não poderia ser mais estranha ao modo de
controle sociometabólico socialista. Como veremos no capítulo 19, a contraimagem
marxiana e os critérios de viabilidade para a regra do capital diziam respeito
ao estabelecimento de mediações materiais e institucionais adequadas entre os
indivíduos no quadro de um sistema comunal altamente produtivo, e não à
invenção de um novo sujeito supraindividual. O projeto socialista tinha de
visar a restituição dos poderes alienados do controle sociometabólico
aos produtores associados, no contraste mais rigoroso possível em relação ao substitucionismo
cada vez maior e, no final, totalmente petrificado e ainda violentamente
superposto que tiveram de enfrentar no sistema stalinista.
A verdadeira tragédia (e não apenas “no reino do ético”) foi que, sob as
circunstâncias de revoluções derrotadas por toda parte, exceto na Rússia — o
que inevitavelmente também significou o isolamento da única revolução
sobrevivente —, se negaram cruelmente as condições históricas para o
desenvolvimento bem-sucedido dos termos materiais e
institucionais exigidos pelo modo socialista da alternativa metabólica ao
domínio do capital como empreendimento global. Abriram-se totalmente as
portas, não somente para a estabilização do sistema do capital seriamente
abalado no Ocidente, mas também para a emergência, na Rússia
pós-revolucionária, de uma nova forma de “personificação do capital”, que
poderia operar um ritmo forçado de extração do trabalho excedente em nome da
revolução e para o propósito declarado da necessária “acumulação socialista”,
justificada pela promessa de ultrapassar em pouco tempo os principais países
capitalistas na produção per capita de ferro gusa, aço e carvão como
medida do sucesso socialista. Como estrutura de comando desse novo gênero de
controle sociometabólico, o Partido teria de pairar acima de todos como
regulador da extração politicamente compulsória do trabalho excedente, com
todos os seus corolários culturais/ideológicos. Com isso, o Estado foi
reforçado e, mais do que nunca, centralizado na forma de Partido-Estado, em vez
de dar início ao próprio “encolhimento”, conforme previsto no projeto
socialista original.
A teorização representativa da situação pós-revolucionária, que Lukács
introduziu em História
e consciência de classe, surgira das novas restrições e
circunstâncias históricas. Sua obra de modo algum previa e muito menos se
identificava favoravelmente com as soluções stalinistas que vieram a prevalecer
mais tarde. Muito pelo contrário, História e consciência de classe
apresentou um quadro idealizado das possibilidades inerentes aos fatos que
ocorriam. Lukács na verdade procurou criar soluções que deveriam prevalecer não
apenas sobre a inércia material sufocante mas, o que para ele era bem mais
importante, também sobre os riscos do descarrilamento e da burocratização — os métodos
firmemente rejeitados do “partido da espécie antiga” —, definindo a raison
d’être do Partido em termos de um rigoroso preceito moral.
Entretanto, o Sujeito-Objeto idêntico de Lukács — o proletariado, com
seu “ponto de vista da totalidade” — no final terminou sendo não a classe dos
trabalhadores, mas o Partido. Dizia-se que a classe como tal era prisioneira de
sua “consciência psicológica”, algo que se opunha a sua “consciência imputada”
ou “atribuída”, sem a qual, na sua opinião, a revolução não poderia ter
sucesso. O substitucionismo de História e consciência de classe resultou
necessariamente deste diagnóstico. O dilema de Lukács — compartilhado por
muitos intelectuais na época solidários à revolução — tornou-se então: como
demonstrar a inevitável vitória do socialismo, apesar das fragilidades do “elo
mais fraco” e apesar da inércia ideológica dominante entre os trabalhadores. As
dificuldades que emergiam desta última foram enfatizadas pelo autor de História
e consciência de classe, que repetidamente explicava a importância das
consequências negativas do sucesso dos partidos reformistas da Segunda
Internacional na manipulação da “consciência psicológica” do proletariado31.
Como veremos na Parte II, Lukács apresentou uma garantia de vitória
socialista em termos filosófico-metodológicos e ideológicos. A categoria do
“Sujeito-Objeto idêntico” era uma parte essencial de sua solução. Pela própria
definição de sua natureza, o “Sujeito-Objeto idêntico da história” poderia
oferecer uma garantia axiomática de êxito, assim como na filosofia
hegeliana era absolutamente inconcebível imaginar outra coisa que não o sucesso
total para o empreendimento do Sujeito-Objeto idêntico, o Espírito do Mundo
autorrealizador. Lukács estipulou que a condição moral seria a única
necessária para o sucesso, insistindo em que o Partido teria de merecer
o papel historicamente atribuído a ele, lutando pela confiança da classe
trabalhadora e conquistando-a honestamente, o que poderia deter muito do que
via a seu redor em seus esforços contra algumas figuras do alto escalão do
partido húngaro e do Comintern.
No entanto, muito além do caráter axiomático do Sujeito-Objeto idêntico,
colocado por Lukács a serviço da transformação em força das fragilidades do
“elo mais fraco”, ele também precisava de Hegel por outras razões. Em Hegel ele
via as possibilidades últimas e também os limites insuperáveis da tradição
filosófica clássica burguesa. Contra esta, Lukács propôs a adoção
intelectualmente viável do “ponto de vista da totalidade” pelos pensadores
socialistas — possibilidade que, para ele, a lógica objetiva da própria
história negava até mesmo a Hegel, para não mencionar seus predecessores e
sucessores — como a prova da vitória socialista não apenas no domínio da
filosofia, mas no enfrentamento social fundamental entre o capital e o trabalho
em geral. Ao mesmo tempo, o dilema relativo à “consciência psicológica” da
classe trabalhadora foi também resolvido por Lukács em termos intelectuais e
ideológicos: ao projetar o sucesso ideológico do “trabalho da consciência sobre
a consciência”. Este trabalho teria de ser concebido pela ação do Partido,
definido por Lukács como a “encarnação visível e organizada da consciência de
classe”32 e como a “ética do proletariado”33. Esse tipo de
caracterização do Partido não foi oferecido como um fim em si, mas como a forma
possível de enfrentar o desafio histórico. Na visão de Lukács, expressa em História
e consciência de classe, a alternativa que havia à frente era grave, mas
simples. Desde que o Partido, em plena consciência de sua missão histórica,
pudesse realizar as exigências de seu preceito moral, seria possível encontrar
uma maneira de superar “a crise ideológica do proletariado”. De outro modo, a
humanidade tendia a precipitar-se no barbarismo.
Assim, a preocupação marxiana com as condições objetivas da alternativa
sociometabólica necessária foi abandonada em favor de um discurso
teórico-ideológico elevado. Ao mesmo tempo, a atuação supraindividual da
história foi trazida de volta por Lukács pela porta dos fundos na forma do
Partido, caracterizado por ele como “a mediação concreta entre os homens e a
história”34.
Desse modo, o autor de História e consciência de classe oferecia uma
garantia axiomática de sucesso, e também contornava a necessidade de indicar,
mesmo que em termos incompletos, as imprescindíveis mediações materiais e
institucionais que em seu devido tempo deveriam superar, no mínimo em
princípio, as restrições e contradições do sistema soviético
pós-revolucionário.”
30 Lukács,
History and Class Consciousness,
Londres, The Merlin Press, p. xxiii.
31 Segundo
Lukács: “Com a ideologia da socialdemocracia, o proletariado cai vitimado por
todas as antinomias da reificação” (Id., ibid., p. 297).
32 Id.,
ibid., p. 42.
33 Id.,
ibid.
34 Id.,
ibid., p. 318.
“É necessário insistir que o capital não é simplesmente uma “entidade
material” — também não é, como veremos na Parte III, um “mecanismo”
racionalmente controlável, como querem fazer crer os apologistas do
supostamente neutro “mecanismo de mercado” (a ser alegremente abraçado pelo
“socialismo de mercado”) — mas é, em última análise, uma forma incontrolável
de controle sociometabólico. A razão principal por que este sistema
forçosamente escapa a um significativo grau de controle humano é precisamente o
fato de ter, ele próprio, surgido no curso da história como uma poderosa — na
verdade, até o presente, de longe a mais poderosa — estrutura “totalizadora”
de controle à qual tudo o mais, inclusive seres humanos, deve se ajustar, e
assim provar sua “viabilidade produtiva”, ou perecer, caso não consiga se
adaptar. Não se pode imaginar um sistema de controle mais inexoravelmente
absorvente — e, neste importante sentido, “totalitário” — do que o sistema do
capital globalmente dominante, que sujeita cegamente aos mesmos imperativos a
questão da saúde e a do comércio, a educação e a agricultura, a arte e a
indústria manufatureira, que implacavelmente sobrepõe a tudo seus próprios
critérios de viabilidade, desde as menores unidades de seu “microcosmo” até as
mais gigantescas empresas transnacionais, desde as mais íntimas relações
pessoais aos mais complexos processos de tomada de decisão dos vastos
monopólios industriais, sempre a favor dos fortes e contra os fracos. No
entanto, é irônico (e bastante absurdo) que os propagandistas de tal sistema
acreditem que ele seja inerentemente democrático e suponham que ele
realmente seja a base paradigmática de qualquer democracia concebível. Por esta
razão, os editores e principais autores de The Economist de Londres
conseguem registrar por escrito com toda seriedade uma proposta segundo a qual
Não há alternativa para o mercado livre como forma de organização
da vida econômica. A disseminação da economia de livre mercado
gradualmente levará à democracia multipartidária, porque as pessoas que
têm a livre opção econômica tendem a insistir também na livre opção
política.2
O desemprego para incontáveis milhões, entre inúmeras outras bênçãos da
“economia de livre mercado”, pertence então à categoria da “livre opção
econômica”, da qual, no devido tempo, surgirão os frutos da “livre opção política”
— nada menos (e, certamente, nada mais) do que a “democracia multipartidária”.
Depois disso, naturalmente, viveremos todos felizes para sempre...”
2 The
Economist, 31 de dezembro de 1991, p. 12.
“A expansão desenfreada do capital desses últimos séculos abriu-se não
apenas em resposta a necessidades reais, mas também por gerar apetites imaginários
ou artificiais — para os quais, em princípio, não há nenhum limite, a não ser a
quebra do motor que continua a gerá-los em escala cada vez maior e cada vez
mais destrutiva — pelo modo de existência independente e pelo poder de consumo
autoafirmativo.”
“Nenhum sistema global deixa de ser explosivo e, em última análise,
autodestrutivo se for antagonicamente estruturado até o seu núcleo central. Em
outras palavras: ele não deixará de ser instável e essencialmente explosivo se,
como sistema abrangente de controle sociometabólico, for constituído de
microcosmos dilacerados pelo antagonismo interno devido a conflitos de
interesse irreconciliáveis, determinados pela separação radical entre produção
e controle, que é alienado dos produtores. A contradição absolutamente
insolúvel entre produção e controle tende a se afirmar em todas as esferas e em
todos os níveis do intercâmbio reprodutivo social, e inclui, naturalmente, sua
metamorfose na contradição entre produção e consumo bem como entre produção e
circulação.”
“A questão da “superestrutura legal e política” de que Marx fala só se
torna inteligível em termos da espessa materialidade e necessária articulação
do Estado moderno como estrutura de comando fundamental e sui generis. A
base comum de determinação de todas as práticas essenciais no interior da
estrutura do sistema do capital, desde a reprodutiva econômica direta até as
funções reguladoras mais mediadas do Estado, é o imperativo estrutural
orientado para a expansão do sistema a que se devem adaptar os diversos órgãos
sociais que atuam sob a regra do capital. De outra maneira, este singular
sistema de controle metabólico não sobreviveria, muito menos garantiria a
dominação global que obteve em seu desenvolvimento histórico.
A condição material necessária para afirmar com sucesso o imperativo
estrutural expansionista do capital é a constante extração do trabalho
excedente de uma forma ou de outra, de acordo com as mudanças das
circunstâncias históricas. No entanto, devido à determinação centrífuga
dos constituintes reprodutivos econômicos do capital, sem levar em conta seu
maior ou menor tamanho (chegando até as gigantescas corporações transnacionais
quase monopolistas), eles são incapazes de realizar por si sós o imperativo
estrutural do capital, pelo fato de lhes faltar a determinação coesiva
essencial para a constituição e o funcionamento sustentável de um sistema
sociometabólico. É este inexistente princípio coesivo ordenador dos
constituintes econômicos básicos que é conceituado, até mesmo pelos maiores
pensadores que enxergam o mundo do ponto de vista do capital, como a misteriosa
“mão invisível” de Adam Smith e a “astúcia da Razão” de Hegel. É assim que surge a mitologia do mercado,
não apenas como regulador suficiente, mas até como regulador global
ideal do processo sociometabólico. Mais tarde, essa visão é levada ao
extremo, atingindo seu clímax nas teorias grotescamente explicativas do século
XX, na forma da ideologia de “reduzir as fronteiras do Estado” quando as
transformações que realmente ocorrem apontam na outra direção. No entanto, o
papel diversificado do mercado nas diferentes fases de desenvolvimento do
sistema do capital, desde os intercâmbios limitados até o mercado mundial
completamente realizado, é totalmente incompreensível sem relacioná-lo ao outro
lado da mesma equação: a dinâmica igualmente variável do Estado como estrutura
de comando político totalizadora.
Portanto, considerar as unidades reprodutivas econômicas diretas do
sistema do capital como “base material” sobre a qual se erige a “superestrutura
do Estado” é uma simplificação autocontraditória, que leva à hipóstase de um
grupo de poderosos “capitães de indústria” — expressões mecânicas
grosseiramente determinadas da base material — como verdadeiros controladores
da ordem estabelecida. Pior ainda, essa concepção não é apenas mecânica e
reducionista, ela também não consegue explicar como uma “superestrutura”
totalizadora e produtora de coesão poderia surgir de uma “base econômica” da qual
está completamente ausente. Na verdade, em vez de uma explicação plausível do
funcionamento do sistema do capital, ela oferece apenas o mistério de uma
“superestrutura atuante” que surge de uma ausência material estruturalmente
essencial, de modo que corrija os defeitos de todo o sistema, quando se admite
que o próprio sistema seja diretamente determinado por sua base material. Se
fosse apenas uma questão de discussões acadêmicas autodevoradoras, tudo isso
poderia ser deixado de lado com toda segurança. Infelizmente não é. A
interpretação mecânica do relacionamento entre a “base material” do capital e
sua “superestrutura legal e política” pode ser — e realmente tem sido —
traduzida, nas condições das sociedades pós-revolucionárias, como seu reverso autoilusório,
segundo o qual o controle político voluntarista da ordem pós-capitalista,
depois da transferência da propriedade para o “Estado socialista”, representa a
superação da base material do capital.
Na verdade, o Estado moderno pertence à materialidade do sistema do
capital, e corporifica a necessária dimensão coesiva de seu imperativo
estrutural orientado para a expansão e para a extração do trabalho excedente. É
isto que caracteriza todas as formas conhecidas do Estado que se articulam na
estrutura da ordem sociometabólica do capital. Precisamente porque as unidades
econômicas reprodutivas do sistema têm um caráter incorrigivelmente centrífugo
— caráter que, há longo tempo na história, tem sido parte integrante do
incomparável dinamismo do capital, ainda que em certo estágio de
desenvolvimento ele se torne extremamente problemático e potencialmente
destrutivo —, a dimensão coesiva de todo o sociometabolismo deve ser
constituída como uma estrutura separada de comando político totalizador.
Como prova da substantiva materialidade do Estado moderno, realmente
descobrimos que, em sua condição de estrutura de comando político totalizador
do capital, ele não está menos preocupado em assegurar as condições da extração
do trabalho excedente do que com as próprias unidades reprodutivas econômicas
diretas, embora, naturalmente, ofereça à sua própria maneira sua contribuição
para um bom resultado. Entretanto, o princípio estruturador do Estado moderno,
em todas as suas formas — inclusive as variedades pós-capitalistas —, é o seu
papel vital de garantir e proteger as condições gerais da extração da
mais-valia do trabalho excedente.
Como parte constituinte da base material do sistema abrangente do
capital, o Estado deve articular sua superestrutura legal e política segundo
suas determinações estruturais inerentes e funções necessárias. Sua
superestrutura legal e política pode assumir as formas parlamentarista,
bonapartista ou até de tipo soviético pós-capitalista, além de muitas outras,
conforme exijam as circunstâncias históricas específicas. Além disso, mesmo
dentro da estrutura da mesma formação socioeconômica (por exemplo,
capitalista), pode deixar de cumprir suas funções, digamos, em uma rede legal e
política liberal-democrática e passar a adotar uma forma abertamente ditatorial
de legislação e dominação política; e também neste aspecto pode avançar e
recuar. Em relação a esses problemas, basta pensarmos na Alemanha antes, sob e
depois de Hitler, ou nas mudanças do Chile de Allende para o estabelecimento do
regime de Pinochet e a “restauração da democracia”, deixando Pinochet e seus
aliados no controle militar. Esse tipo de mudança seria inconcebível se o
Estado como tal fosse apenas uma “superestrutura”. Tanto na Alemanha como no
Chile, a base material capitalista permaneceu estruturalmente a mesma durante
todas as transformações históricas, de avanço ou recuo, por que passaram as
respectivas superestruturas legais e políticas. A crise significativa no
complexo social geral dos países envolvidos (dos quais os Estados em questão
eram um constituinte material de peso), com suas ramificações internacionais
(onde, mais uma vez, a materialidade dos respectivos Estados teve grande
influência), tinha de levar a esses fatos. (...)
Sem a emergência do Estado moderno, o modo espontâneo de controle
metabólico do capital não pode se transformar num sistema dotado de microcosmos
socioeconômicos claramente identificáveis — produtores e extratores dinâmicos
do trabalho excedente, devidamente integrados e sustentáveis. Tomadas em
separado, as unidades reprodutivas socioeconômicas particulares do capital são
não apenas incapazes de coordenação e totalização espontâneas, mas
também diametralmente opostas a elas, se lhes for permitido continuar
seu rumo disruptivo, conforme a determinação estrutural centrífuga de sua
natureza. Paradoxalmente, é esta completa “ausência” ou “falta” de coesão
básica dos microcosmos socioeconômicos constitutivos do capital — devida, acima
de tudo, à separação entre o valor de uso e a necessidade humana
espontaneamente manifesta — que faz existir a dimensão política do controle
sociometabólico do capital na forma do Estado moderno.
A articulação do Estado, aliada aos imperativos metabólicos mais
internos do capital, significa simultaneamente a transformação das forças
centrífugas disruptivas num sistema irrestringível de unidades produtivas,
sistema possuidor de uma estrutura de comando viável dentro dos tais
microcosmos reprodutivos e também fora de suas fronteiras. Irrestringível (ao
longo de sua ascensão histórica) porque a própria estrutura de comando está
aparelhada para maximizar as potencialidades dinâmicas dos próprios microcosmos
reprodutivos materiais, independentemente de suas implicações e possíveis
consequências numa escala mais longa de tempo. Portanto, enquanto se puder
manter tal dinâmica expansionista, não há necessidade do Leviatã
hobbesiano. John Stuart Mill e
outros sonham ingenuamente com a permanência de seu Estado liberal idealizado
até mesmo quando aguardam a chegada do “Estado estacionário de riqueza”1 e dos controles que devem ser “aceitos”
pela sociedade devido às inevitáveis restrições da economia. Ingenuamente,
porque não se tem necessidade de temer as devastadoras consequências que surgem
das unidades sociometabólicas disruptivamente centrífugas, somente enquanto as
saídas e os recursos disponíveis para a acumulação proporcionarem campo
suficiente para “resolver” os conflitos das forças em luta pelo contínuo
aumento das apostas, mas, assim como ao imaginário jogador de roleta, com
seu “método imbatível” de dobrar a aposta depois de cada rodada perdida, isso
exige uma bolsa inesgotável. Assim, tornando a escala das operações exigidas
cada vez maior, ao mesmo tempo em que se permite ao conjunto do sistema
“crescer a partir das dificuldades e disfunções sentidas” (como agora
imagina-se que façamos, não apenas com relação à astronômica dívida global mas,
autocontraditoriamente, também em relação ao próprio processo de acumulação,
que já dá mostras de esgotamento), é possível adiar o momento de os jogadores
dominantes colocarem as cartas na mesa. É assim que se redefine de maneira
viável o significado do bellum omnium contra omnes hobbesiano no sistema
do capital, presumindo-se que não haja limites para a expansão global.
Redefinição que só permanece sustentável enquanto não se afirma com firmeza
peremptória a verdade singela de que não existe uma bolsa inesgotável.
Todavia, poderia ser um completo equívoco considerar simplesmente ser o
próprio Estado idêntico à estrutura de comando do sistema do capital. O capital
é um modo de controle sociometabólico historicamente específico, cuja estrutura
de comando deve ser adequada em todas as esferas e em todos os níveis, por não
poder tolerar absolutamente nada acima de si. Uma das principais razões pelas
quais o sistema soviético desmoronou foi o fato de a estrutura de comando
político de sua formação de Estado ter ultrapassado em muito seus limites.
Ela tentou em vão substituir a si mesmo pela estrutura de comando
socioeconômica do sistema do capital pós-revolucionário em sua integridade,
assumindo de modo voluntarista a regulação política de todas as funções
produtivas e distributivas, para a qual estava absolutamente desaparelhada.
Bem antes do fim da “perestróika” de Gorbachev e da catastrófica implosão do
sistema soviético, argumentei o seguinte, em O poder da ideologia:
O Estado capitalista é absolutamente incapaz de
assumir as funções reprodutivas substantivas das estruturas materiais
reguladoras, a não ser em extensão mínima e em situação extrema de emergência.
E nem se espera que o faça em circunstâncias normais. Diante de sua
constituição intrínseca, o Estado não poderia controlar o processo de trabalho
ainda que seus recursos fossem centuplicados, dada a ubiquidade das
estruturas produtivas particulares que teriam de estar sujeitas a seu poder de
controle necessariamente limitado. Tragicamente em relação a isso, o fracasso
das sociedades pós-capitalistas deve ser atribuído em boa parte à tentativa de
atribuir essas funções de controle metabólico a um Estado político central,
embora, na realidade, o Estado em si não seja adequado à realização da
tarefa que envolve, de um ou outro modo, as atividades da vida cotidiana de
cada indivíduo (p. 451).
O que está em questão aqui é o fato de que o capital é seu próprio
sistema de comando, de que é parte integrante a dimensão política, ainda
que de modo algum parte subordinada. Mais uma vez, vemos aqui a
manifestação prática de uma reciprocidade dialética.
O Estado moderno — na qualidade de sistema de comando político
abrangente do capital — é, ao mesmo tempo, o pré-requisito necessário da
transformação das unidades inicialmente fragmentadas do capital em um sistema
viável, e o quadro geral para a completa articulação e manutenção
deste último como sistema global. Neste sentido fundamental, o Estado —
em razão de seu papel constitutivo e permanentemente sustentador — deve ser
entendido como parte integrante da própria base material do capital. Ele
contribui de modo significativo não apenas para a formação e a consolidação de
todas as grandes estruturas reprodutivas da sociedade, mas também para seu
funcionamento ininterrupto.
No entanto, este inter-relacionamento íntimo também se mantém quando
visto pelo outro lado, pois o Estado moderno em si é totalmente inconcebível
sem o capital como função sociometabólica. Isto dá às estruturas materiais
reprodutivas do sistema do capital a condição necessária, não apenas para a
constituição original, mas também para a sobrevivência continuada (e para as
transformações históricas adequadas) do Estado moderno em todas as suas
dimensões. Essas estruturas reprodutivas estendem sua influência sobre todas as
coisas, desde os instrumentos rigorosamente repressivos/materiais e as instituições
jurídicas do Estado, até as teorizações ideológicas e políticas mais mediadas
de sua raison d’etre e de sua proclamada legitimidade.
Em razão dessa determinação recíproca, devemos falar de uma
correspondência estreita entre, por um lado, a base sociometabólica do sistema
do capital e, por outro, o Estado moderno como estrutura totalizadora de
comando político da ordem produtiva e reprodutiva estabelecida. Para os
socialistas, esta é uma reciprocidade desafiadora e desconfortável. Ela põe em
relevo o fato acautelador de que qualquer intervenção no campo político — mesmo
quando visa a derrubada radical do Estado capitalista — terá influência muito
limitada na realização do projeto socialista. E, pelo lado oposto, o corolário
desse mesmo fato acautelador é que, precisamente porque têm de enfrentar a
força da reciprocidade autossustentada do capital sob suas dimensões
fundamentais, os socialistas jamais deverão esquecer ou ignorar — embora o
esquecimento proposital deste fato tenha sido a razão da tragédia de setenta
anos da experiência soviética — que não existe a possibilidade de superar a
força do capital sem permanecer fiel à preocupação marxista com o
“encolhimento” do Estado.”
1 Ver
Livro IV, capítulo VI, dos Princípios de economia política, com algumas de
suas aplicações na filosofia social, de John Stuart Mill.

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