quinta-feira, 26 de março de 2026

Titus Andronicus, de William Shakespeare

Editora: Nova Aguilar

ISBN: 978-85-210-0115-7

Tradução: Barbara Heliodora

Opinião: ★★★☆☆

Link para compra: Clique aqui

Páginas: 117

Sinopse: Titus Andronicus é uma das peças shakespearianas mais emblemáticas por trazer a violência ao seu extremo. Mas não é a violência carnal o que mais incomoda, mas a violência psíquica, emocional. Esta peça retrata o mais viscerais dos sentimentos humanos, fala de vingança, fala de ódio, fala da ganância pelo poder, e fala sobre angústias e sobre o luto. É uma peça que nos faz olharmos para nos mesmos, pensar o mundo externo e como nós interagimos com os outros. Ela nos faz mergulhar no mais profundo dos nossos pensamentos e sentimentos. Nas palavras do personagem Aaron: “e tem uma coisa aí dentro, conhecida como consciência”. Boa leitura e boa reflexão.



155    Com honra e paz aqui durmam, meus filhos.

Defensores de Roma, aqui repousem,

A salvo dos acasos deste mundo.

Aqui não há traição, não cresce o mal,

Aqui não nascem drogas más ou ventos.

160   Sem ruído, só sono eterno e quieto;

Em paz e em honra repousem, meus filhos.”

 

 

58     “Pranto não aplaca o sofrimento”

 

 

Titus

Ouçam, senhores! Tribunos, esperem!

Por pena deste velho que, em moço,

Gastou-se em guerra enquanto aqui dormiam,

Por todo o sangue que eu perdi por Roma,

5 Pelas noites geladas de vigília,

Pelas amargas lágrimas que veem

Correndo pelas rugas do meu rosto,

Tenham piedade desses condenados,

Meus filhos, menos vis do que se julga.

10 Por outros vinte e dois nunca chorei,

Porque morreram nos braços da honra.

 

(Titus se deita, os juízes passam por ele, deixando-o para trás.)

 

Mas por estes escrevo aqui no pó

Minha tristeza e as lágrimas da alma.

Que o meu pranto mate a sede da terra;

15      Que o sangue de meus filhos a enrubesçam.

 

(Saem todos, menos Titus.)

 

Ah, terra, eu te darei muito mais chuva

Que a que ora cai destas duas velhas urnas,

Ou que as chuvas que traz Abril, o jovem;

Nas secas do verão te molharei;

20     No inverno a neve hei de derreter,

Eterna primavera em ti farei,

Se não beberes o sangue de meus filhos.

 

(Entra Lucius, de arma em punho.)

 

Reverendos tribunos! Anciãos!

Soltem meus filhos, livrem-nos da morte,

25     Para que eu diga, que nunca chorei,

Venci a oradores com meu pranto!

 

Lucius

Meu nobre pai, o seu lamento é vão:

Nenhum tribuno o ouve, já se foram.

Contou suas tristezas para as pedras.

 

Titus

30     Lucius, eu quero implorar por seus irmãos

Inda uma vez. Tribunos, eu lhes peço…

 

Lucius

Meu bom senhor, nenhum tribuno o ouve.

 

Titus

Não importa, rapaz: se eles me ouvissem,

Não iam reparar; se reparassem,

35     Não iam ter piedade; mas imploro

Mesmo sem esperança.

Conto por isso minha dor às pedras,

Que embora não ecoem meu sofrer

São, mesmo assim, melhores que os tribunos,

40     Já que não interrompem minha história.

Quando choro, aos meus pés, com humildade,

Recebem o meu pranto, choram junto;

E se usassem os negros véus do luto,

Roma não teria tribunos melhores.

45 Pedra é suave, o tribuno é pedra;

O silêncio da pedra não ofende,

A língua do tribuno ordena a morte.”

 

 

Titus

Minha única mão levanto aos céus,

E até o chão curvo a fraca ruína.

 

(Ajoelha-se.)

 

Se algum poder tem pena de quem chora,

A esse eu clamo.

(Lavínia se ajoelha.)

 

O quê? ’Stá de joelhos?

210    Faz bem, querida; o céu irá ouvir-nos,

Ou com suspiros o escureceremos,

Nublando o Sol, como fazem, às vezes,

As nuvens que o abraçam em seu seio.

 

Marcus

Irmão, fale de coisas mais sensatas,

215    E não se entregue assim a tais extremos.

 

Titus

Não é imensa a minha dor sem fundo?

Seja sem fim também minha paixão.

 

Marcus

Mas que a razão comande os seus lamentos.

 

Titus

Se não teve razão tanta miséria,

220   Não posso dar limite à minha dor.

Quando o céu chora, não inunda a terra?

Não enlouquece o mar o uivo do vento,

Ameaçando o céu com o rosto inchado?

E você pede razão para o que eu faço?

225   Sou o mar. E os suspiros dela sopram.

Ela é o céu que chora, e eu a terra:

Meu mar se agita com os seus suspiros,

Minha terra com seu perene pranto

Pelo dilúvio transborda e se afoga.

230   Eu não posso engolir as suas dores,

Como um ébrio eu preciso vomitá-las.

Deem-me licença, então, pois o que perde

Com língua amarga alivia o estômago.”

 

 

Será que um homem bom pode gemer

Sem que os céus o escutem compassivos?

125    Marcus, ajude nessa sua insânia

Quem tem no coração mais cicatrizes

Que marcas do inimigo em seu escudo,

Porém tão justo que ele não se vinga.”

Nenhum comentário: