Editora: Nova Aguilar
ISBN: 978-85-210-0115-7
Tradução: Barbara
Heliodora
Opinião: ★★★☆☆
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Páginas: 117
Sinopse: Titus Andronicus é uma das peças
shakespearianas mais emblemáticas por trazer a violência ao seu extremo. Mas
não é a violência carnal o que mais incomoda, mas a violência psíquica,
emocional. Esta peça retrata o mais viscerais dos sentimentos humanos, fala de
vingança, fala de ódio, fala da ganância pelo poder, e fala sobre angústias e
sobre o luto. É uma peça que nos faz olharmos para nos mesmos, pensar o mundo
externo e como nós interagimos com os outros. Ela nos faz mergulhar no mais
profundo dos nossos pensamentos e sentimentos. Nas palavras do personagem
Aaron: “e tem uma coisa aí dentro, conhecida como consciência”. Boa leitura e
boa reflexão.
155 “Com honra e paz aqui durmam, meus
filhos.
Defensores
de Roma, aqui repousem,
A
salvo dos acasos deste mundo.
Aqui
não há traição, não cresce o mal,
Aqui
não nascem drogas más ou ventos.
160 Sem ruído, só sono eterno e quieto;
Em
paz e em honra repousem, meus filhos.”
58 “Pranto não
aplaca o sofrimento”
“Titus
Ouçam,
senhores! Tribunos, esperem!
Por
pena deste velho que, em moço,
Gastou-se
em guerra enquanto aqui dormiam,
Por
todo o sangue que eu perdi por Roma,
5
Pelas noites geladas de vigília,
Pelas
amargas lágrimas que veem
Correndo
pelas rugas do meu rosto,
Tenham
piedade desses condenados,
Meus
filhos, menos vis do que se julga.
10
Por outros vinte e dois nunca chorei,
Porque
morreram nos braços da honra.
(Titus
se deita, os juízes passam por ele, deixando-o para trás.)
Mas
por estes escrevo aqui no pó
Minha
tristeza e as lágrimas da alma.
Que o
meu pranto mate a sede da terra;
15 Que o sangue de meus filhos a enrubesçam.
(Saem
todos, menos Titus.)
Ah,
terra, eu te darei muito mais chuva
Que a
que ora cai destas duas velhas urnas,
Ou
que as chuvas que traz Abril, o jovem;
Nas
secas do verão te molharei;
20 No inverno a neve hei de derreter,
Eterna
primavera em ti farei,
Se
não beberes o sangue de meus filhos.
(Entra
Lucius, de arma em punho.)
Reverendos
tribunos! Anciãos!
Soltem
meus filhos, livrem-nos da morte,
25 Para que eu diga, que nunca chorei,
Venci
a oradores com meu pranto!
Lucius
Meu
nobre pai, o seu lamento é vão:
Nenhum
tribuno o ouve, já se foram.
Contou
suas tristezas para as pedras.
Titus
30 Lucius, eu quero implorar por seus irmãos
Inda
uma vez. Tribunos, eu lhes peço…
Lucius
Meu
bom senhor, nenhum tribuno o ouve.
Titus
Não
importa, rapaz: se eles me ouvissem,
Não
iam reparar; se reparassem,
35 Não iam ter piedade; mas imploro
Mesmo
sem esperança.
Conto
por isso minha dor às pedras,
Que
embora não ecoem meu sofrer
São,
mesmo assim, melhores que os tribunos,
40 Já que não interrompem minha história.
Quando
choro, aos meus pés, com humildade,
Recebem
o meu pranto, choram junto;
E se
usassem os negros véus do luto,
Roma
não teria tribunos melhores.
45
Pedra é suave, o tribuno é pedra;
O
silêncio da pedra não ofende,
A
língua do tribuno ordena a morte.”
“Titus
Minha
única mão levanto aos céus,
E até
o chão curvo a fraca ruína.
(Ajoelha-se.)
Se
algum poder tem pena de quem chora,
A
esse eu clamo.
(Lavínia
se ajoelha.)
O
quê? ’Stá de joelhos?
210 Faz bem, querida; o céu irá ouvir-nos,
Ou
com suspiros o escureceremos,
Nublando
o Sol, como fazem, às vezes,
As
nuvens que o abraçam em seu seio.
Marcus
Irmão,
fale de coisas mais sensatas,
215 E não se entregue assim a tais extremos.
Titus
Não é
imensa a minha dor sem fundo?
Seja
sem fim também minha paixão.
Marcus
Mas
que a razão comande os seus lamentos.
Titus
Se
não teve razão tanta miséria,
220 Não posso dar limite à minha dor.
Quando
o céu chora, não inunda a terra?
Não
enlouquece o mar o uivo do vento,
Ameaçando
o céu com o rosto inchado?
E
você pede razão para o que eu faço?
225 Sou o mar. E os suspiros dela sopram.
Ela é
o céu que chora, e eu a terra:
Meu
mar se agita com os seus suspiros,
Minha
terra com seu perene pranto
Pelo
dilúvio transborda e se afoga.
230 Eu não posso engolir as suas dores,
Como
um ébrio eu preciso vomitá-las.
Deem-me
licença, então, pois o que perde
Com
língua amarga alivia o estômago.”
“Será que um homem bom pode gemer
Sem
que os céus o escutem compassivos?
125 Marcus, ajude nessa sua insânia
Quem
tem no coração mais cicatrizes
Que
marcas do inimigo em seu escudo,
Porém
tão justo que ele não se vinga.”
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