quarta-feira, 25 de março de 2026

Para além do capital: rumo a uma teoria da transição (Parte III), de István Mészáros

Editora: Boitempo

ISBN: 978-85-7559-145-1

Tradução: Paulo Cezar Castanheira e Sérgio Lessa

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 1104

Sinopse: Ver Parte I

 


O segundo aspecto mais importante desses acontecimentos, pelos quais se pagará muito caro, diz respeito a “afastar o terreno natural das fundações de qualquer indústria” e à transformação do “luxo” em necessidade, tanto para os indivíduos como para seu sistema de reprodução sociometabólica. O lado positivo, potencialmente emancipador e universal desse processo, constitui a maior realização histórica do sistema do capital. Contudo, esta só ocorrerá não apenas com o fim das restrições naturais originais, mas com o abandono de quaisquer medidas e padrões humanamente significativos, trocados, como medida única, pelo sucesso ou fracasso na expansão do capital. Acontece que não são apenas as necessidades legítimas que são historicamente criadas — o “vale tudo” é adotado como princípio orientador da produção (e do julgamento de valor em geral), limitado pela única cláusula implícita de que tudo o que for praticado deve contribuir para a expansão do capital.

Com isso, abre-se a possibilidade — na verdade, a necessidade — da busca de “soluções” arbitrárias e manipulativas para os novos problemas e contradições emergentes na vida econômica e social. As consequências negativas são visíveis em relação aos consumidores e ao sistema produtivo. Com relação aos indivíduos, prepondera a criação e manipulação de “apetites artificiais’, já que a “administração da demanda” deve estar subordinada aos imperativos do valor de troca que se expande. Se as necessidades reais dos indivíduos couberem nos limites desse valor de troca de maneira vantajosa para o sistema (com sua necessidade de bens produzidos em massa para serem distribuídos com a eficácia máxima no mercado global), elas podem ser correspondidas ou pelo menos consideradas legítimas; se assim não for, deverão ser frustradas e substituídas por qualquer coisa produzida em conformidade com o imperativo da expansão do capital.

A utilização predatória dos recursos renováveis e não renováveis e o correspondente desperdício em escala monumental é o corolário fatal dessa maneira alienada de se relacionar com a necessidade humana individual. No que se refere à influência desse mesmo fato no sistema produtivo em si, descobrimos que a série de carências historicamente criadas (e dos bens correspondentes, não importando sua artificialidade) estão incorporadas num quadro reprodutivo altamente ampliado, com dificuldade cada vez maior de garantir a exigida continuidade da produção e das necessárias “realização” e “valorização” do capital em escala sempre crescente.

Com o desenvolvimento das forças produtivas subordinado ao critério único da expansão do capital, as determinações rigorosamente naturais retrocedem e dão lugar a um novo conjunto. A eliminação dos novos “luxos” estruturalmente incorporados (difundidos, generalizados) do referencial da produção existente levaria ao colapso de todo o sistema de produção. Pois, enquanto o processo de produção dado segue suas próprias determinações, multiplicando a riqueza divorciada dos desígnios humanos conscientes, os produtos desse processo reificador e alienado devem ser impostos aos indivíduos como “apetites” destes — no interesse do processo de reprodução dominante, sem se levar em conta as consequências a um prazo mais longo. Assim, “afastar o terreno natural das fundações de qualquer indústria” não nos livra da necessidade, mas nos impõe cruelmente e difunde universalmente um novo tipo de necessidade, na escala mais ampla possível, colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade e não apenas o altamente ampliado sistema do capital.”

 

 

“Ao contrário do que imagina muita gente da esquerda, a tecnologia e a ciência não podem ser consideradas antídotos plausíveis. Quem acredita que sejam costuma projetar quadros idealizados de meios técnicos supostamente existentes e conhecimento científico ainda não realizado como a base material de um futuro socialista de abundância. Pode parecer boa retórica política (a condenação indignada das falhas existentes), mas está muito longe de ser uma teoria bem fundamentada. A verdade realista é que a ciência e a tecnologia existentes estão profundamente incrustadas nas determinações que hoje prevalecem na produção, por meio das quais o capital impõe à sociedade as condições necessárias de sua existência instável. Em outras palavras, a ciência e a tecnologia não são jogadores bem treinados e em boa forma que, sentados nos bancos de reservas, ficam à espera do chamado dos treinadores socialistas esclarecidos para virar o jogo. Em seu modo real de articulação e funcionamento, estão inteiramente implicadas num tipo de progresso simultaneamente produtivo e destrutivo. Esta condição não pode ser consertada separando-se o lado produtivo do lado destrutivo para seguir apenas o primeiro. A ciência e a tecnologia não sairão de sua situação extremamente problemática por qualquer “experiência em pensamento”, por mais bem intencionada que seja — pela qual elas só participariam em investimentos produtivos e se recusariam a ter qualquer coisa a ver com a dimensão destrutiva de tais investimentos —, mas somente se forem radicalmente reconstituídas como formas da prática social. Também não se deve esquecer que os imensos recursos materiais (e humanos) exigidos para transformar em realidade as projeções científicas e tecnológicas — na escala visada — não são algo com que se possa contar na forma de ilimitada abundância, como se emergisse diretamente das forças criativas da ciência e da tecnologia, como Palas Atena outrora surgiu completamente armada da cabeça de Zeus. Fazê-lo seria evitar o problema, admitindo sem questionamento o que não pode ser admitido sem violar a lógica. Ao contrário, esses recursos (que hoje não existem) só poderiam ser produzidos com uma base socioeconômica radicalmente diferente, para além do desperdício incorrigível do capital no nível de desenvolvimento hoje atingido.

Além do mais, a transformação dos meios pretensamente técnicos de sua escala, hoje, talvez, seletivamente viável (somente em poucos países privilegiados), para a escala global, requerido para a solução positiva otimistamente hipostasiada de nossos problemas não é apenas uma questão de quantidade, como imaginaram os socialdemocratas da Segunda Internacional (até os do tipo de Bebel) e outros em seu rastro, quando projetaram os efeitos universalmente benéficos da produção capitalista assim que praticada em “grande escala”. Sob as condições regidas pelos princípios orientadores do capital é muito tentador procurar respostas para a insuficiência material simplesmente postulando o aumento das quantidades produzidas, ou defender o oposto exato, quando as consequências negativas da cega expansão do capital se tornam tão óbvias que não podem mais ser ignoradas. Essas respostas em geral se exaurem em falsas dicotomias, como “crescimento versus não crescimento” e “economia de escala versus deseconomia de escala”. O verdadeiro erro no campo socioeconômico não é a deseconomia de escala. Aqui estamos preocupados é com a utilização dilapidadora dos recursos materiais e humanos —, em outras palavras, com a imperdoável deseconomia dos recursos desperdiçados, que podem ser aplicados (e, sob o domínio do capital, realmente se aplicam) a qualquer escala, da menor à maior.

Evidentemente, na estrutura do sistema do capital, a escala sempre maior é uma condição agravante. Portanto, é inevitável que sob o domínio do capital a ciência e a tecnologia a serviço da produção em massa sejam grandes produtoras de um desperdício sem preço. Não obstante, a grande escala não é, em si ou por si, a causa do problema, nem sua simples inversão (se isso fosse possível, o que não é) poderia indicar uma saída. Ignorar esta verdade simples só pode levar a miragens do tipo “o pequeno é bonito” (small is beautiful) que, se levadas a sério, serviriam apenas para levar a humanidade à miséria que acompanha a adesão a práticas produtivas quixotescas.

Ao contrário, a realização dos objetivos socialistas globalmente difundidos na devida escala é inconcebível sem a dialética da quantidade e da qualidade em todo o complexo das relações da reprodução social em que estão integradas a ciência e a tecnologia. Até nas ciências físicas há uma barreira quantitativa que deve ser superada — aparentemente com dificuldades proibitivas — antes que se passe da fase experimental da tecnologia da fusão nuclear (já realizada em pequena escala) à produção da energia de fusão em escala total. Há dificuldades quando ciência e tecnologia não oferecem espontaneamente solução para as questões espinhosas com que se deparam, mas as dificuldades são muito maiores quando elas mesmas são parte do problema a superar! Em sua articulação atual ambas estão estruturalmente subordinadas aos imperativos da reprodução do sistema do capital, que certamente não pode impor seu desperdício e sua destrutividade a toda a humanidade sem que elas tenham um papel bastante ativo no processo. Conceber outra forma de ciência e tecnologia hoje em dia é substituí-las na imaginação por uma forma existente que, na verdade, primeiro teria de ser (e só poderia ser) criada, no quadro de uma ordem sociometabólica socialista — e isto, para poder continuar sustentando, de maneira absolutamente falaciosa, que as forças positivas dessa ciência e dessa tecnologia já estão a nosso dispor e poderiam felizmente constituir aqui e agora a base produtiva de uma ordem socialista de reprodução.

Longe da projetada fartura garantida pela tecnologia, o futuro hoje não pode prometer mais do que o domínio permanente de algum tipo de escassez na humanidade — caso se consiga romper em termos qualitativos com as práticas dominantes da reprodução e, entre elas, com as que prevalecem na ciência e tecnologia. Se nos esquecermos desta verdade desconcertante, não poderemos sequer dar início à difícil tarefa de criar uma agenda socialista sintonizada com as necessidades de nossa difícil situação histórica.

O círculo vicioso da escassez artificialmente criada e imposta só poderá ser quebrado com uma reorientação qualitativa das práticas produtivas em direção a uma grande melhoria do índice, hoje desastrosamente baixo, de utilização de serviços, de bens e da capacidade produtiva (material, instrumental e humana), para a qual tanto devem ser canalizados os recursos da humanidade como ocorrer redefinição funcional da ciência e da tecnologia para esses objetivos emancipadores. Também é inconcebível realizar essa reorientação e essa redefinição necessárias dentro dos limites estruturais do sistema do capital, pois essa é uma tarefa que, além de um planejamento racional e abrangente de todos os recursos materiais e humanos (algo de que o capital é incapaz, pelas razões mencionadas), exige uma maneira radicalmente diferente de regular, pelos próprios indivíduos, o intercâmbio social entre os indivíduos, o que, pela primeira vez, permitirá um planejamento verdadeiro. É isso que oferece uma perspectiva em que a ciência e a tecnologia ainda a serem produzidas sejam partes de uma solução emancipadora viável, advertindo-nos a não confundir uma potencialidade abstrata — que pode permanecer para sempre uma potencialidade não realizada sem uma boa reorientação qualitativa do estilo de vida e das práticas produtivas da sociedade — com uma realidade já dada, quando faltam até mesmo as condições de transformar a potencialidade abstrata em concreta nos terrenos relevantes. Neste contexto, devemos também lembrar que não temos um cronograma folgado para a necessária transformação da potencialidade em realidade. Isto deve acontecer com a agravante de uma enorme urgência.

Outrora os defensores do sistema do capital podiam louvar com certa justificativa seu poder de “destruição produtiva”, inseparável da dinâmica positiva do progresso. Esta visão estava muito bem alinhada com o constante aumento da escala de operações do capital, verdadeiramente uma forma de “destruição produtiva”. A invasão pelo capital de tudo o que poderia ser invadido ou usurpado — ou seja, antes que o sistema tivesse de superar a si mesmo da maneira que já examinamos — deu sustentação à ideia da "destruição produtiva”, ainda que sempre mais problemática conforme aumentava a escala. A destruição envolvida poderia ser generosamente lançada como parte inevitável dos “custos da produção” e da reprodução ampliada, se a constante ampliação da escala das operações do capital trouxesse o benefício adicional do deslocamento das contradições do sistema. No entanto, as coisas ficaram muito piores com a consumação da ascensão histórica do capital e a ativação dos limites absolutos do sistema. Sem outras possibilidades de invasão na escala requerida, o fator destrutivo dos “custos totais da produção” — a ser enfrentado dentro de limites progressivamente restritivos — torna-se cada vez mais desproporcional e em última análise proibitivo. Historicamente passamos da prática de “destruição produtiva” da reprodução do capital para uma fase em que o aspecto predominante é o da produção destrutiva cada vez maior e mais irremediável.

Ainda que as personificações do capital não o admitam, não é muito difícil perceber que nenhuma reprodução sociometabólica pode subsistir assim indefinidamente.”

 

 

Dadas as condições estabelecidas de hierarquia e dominação, a causa histórica da emancipação das mulheres não pode ser atingida sem se afirmar a demanda pela igualdade verdadeira que desafia diretamente a autoridade do capital, prevalecente no “macrocosmo” abrangente da sociedade e igualmente no “microcosmo” da família nuclear. No fundo, esta não deixa de ser profundamente autoritária devido às funções que lhe são atribuídas num sistema de controle metabólico dominado pelo capital, que determina a orientação de indivíduos particulares por meio de seu sistema incontestável de valores. Este autoritarismo não é mera questão de relacionamentos pessoais mais ou menos hierárquicos entre os membros de famílias específicas. Mais do que isso, diz respeito ao imperativo absoluto de proporcionar o que se espera do tipo de família historicamente evoluído, imposto pela indispensável subordinação do “microcosmo” específico de reprodução às exigências tirânicas de todo o processo reprodutivo. A verdadeira igualdade dentro da família só seria viável se pudesse reverberar por todo o “macrocosmo” social — o que, evidentemente, não é possível. Esta é a razão fundamental pela qual o tipo de família dominante deve estar estruturado de maneira apropriadamente autoritária e hierárquica. Deixando de se adaptar aos imperativos estruturais gerais do modo de controle estabelecido — conseguindo afirmar-se nos ubíquos “microcosmos” da sociedade, na validade e no poder de autorrealização dos intercâmbios humanos baseados na verdadeira igualdade —, a família estaria em direta contradição ao ethos e as exigências humanas e materiais necessárias para assegurar a estabilidade do sistema hierárquico de produção e de reprodução social do capital, prejudicando as condições de sua própria sobrevivência.

Na causa da emancipação das mulheres, podem-se avaliar as implicações de longo alcance do questionamento direto à autoridade do capital, quando se tem em mente o fato de não se conceber que o sistema de valor estabelecido prevalecesse nas condições do presente, e menos ainda pudesse ser transmitido (e internalizado) por sucessivas gerações de indivíduos, sem o envolvimento ativo da família nuclear hierárquica, articulada em plena sintonia com o princípio antagônico que estrutura o sistema do capital. A família está entrelaçada às outras instituições a serviço da reprodução do sistema dominante de valores, ocupando uma posição essencial em relação a elas, entre as quais estão as igrejas e as instituições de educação formal da sociedade. Tanto isso é verdade que, quando há grandes dificuldades e perturbações no processo de reprodução, manifesta de maneira dramática também no nível do sistema geral de valores — como a crescente onda de crimes, por exemplo —, os porta-vozes do capital na política e no mundo empresarial procuram lançar sobre a família o peso da responsabilidade pelas falhas e “disfunções” cada vez mais frequentes, pregando de todos os púlpitos disponíveis a necessidade de “retornar aos valores da família tradicional” e aos “valores básicos”. As vezes tentam encerrar essa necessidade até mesmo na forma de leis quixotescas, procurando jogar nos ombros dos pais (na forma de sanções financeiras punitivas) a responsabilidade pelo “comportamento antissocial” dos filhos. (Mais um exemplo característico da tentativa de se resolver problemas brincando com os efeitos e consequências, por jamais conseguir tratar das causas subjacentes...)

Tudo isso indica uma profunda crise que afeta todo o processo de reprodução do sistema de valores do capital, prenunciando conflitos e batalhas, estando entre estes a luta pela emancipação das mulheres e sua demanda de igualdade significativa — um elemento de crucial importância. Como o modo de funcionamento do capital em todos os terrenos e todos os níveis do intercâmbio societário é absolutamente incompatível com a necessária afirmação prática da igualdade substantiva, a causa da emancipação das mulheres tende a permanecer não integrável e no fundo irresistível, não importa quantas derrotas temporárias ainda tenha de sofrer quem luta por ela.”

 

 

Com certeza, não é possível ao tempo histórico — que emana da dinâmica das interações sociais — fluir em ritmo uniforme. Dadas as enormes variações de intensidade dos conflitos e determinações sociais, podem-se experimentar intervalos históricos nos quais tudo parece levar a uma paralisia completa, que teimosamente se recusa a se mover por um prolongado período de tempo. E, da mesma forma, a erupção e a intensificação de conflitos estruturais podem resultar na concatenação mais inesperada de eventos aparentemente incontroláveis, que realizam em poucos dias mais do que se realizou nas décadas anteriores.”

 

 

Na realidade, a emancipação do trabalho do jugo do capital é inseparável da necessidade de substituir e superar a divisão social do trabalho, hierárquica e antagônica. Isto não pode ser realizado pelo ato político de abolir a dominação jurídica do capitalista sobre o trabalho, pois a estrutura objetiva da divisão social do trabalho herdada — a articulação material de produção existente — permanece basicamente inalterada na sequência de qualquer revolução socialista, mesmo sob as mais favoráveis condições históricas e relações de poder. Ao se negar politicamente a forma capitalista específica de propriedade privada, por meio da “expropriação dos expropriadores” e da concomitante instituição da propriedade estatal, persistem ainda — no importantíssimo processo de trabalho da sociedade — muitas das condições substantivas do metabolismo socioeconômico, mesmo que a “personificação do capital” (Marx) em uma base hereditária tenha sido proscrita naquelas circunstâncias, apesar de não haver nenhuma garantia de que assim permaneça.

A enorme importância deste fato se refere diretamente às alavancas práticas disponíveis para controlar efetivamente a operação das condições de produção. O fetichismo da mercadoria e a forma jurídica duplamente mistificadora em que se articulam nas esferas política e legal as determinações materiais do capital que governam o sociometabolismo ofuscam, de forma inacreditável, estas questões. Pois, na realidade, o capital é, ele próprio, essencialmente um modo de controle, e não meramente um direito de controle legalmente codificado. Isto é verdadeiro independentemente do fato de que, sob as condições históricas específicas da sociedade capitalista, o direito de exercer controle sobre a produção e a distribuição seja “constitucionalmente” atribuído a um número limitado de indivíduos, na forma de direitos hereditários de propriedade bem protegidos pelo Estado.

Do ponto de vista do capital, visto como modo de controle, a questão importante não é a sua forma contingente, é a necessidade de uma expropriação da mais-valia que-assegure-a-acumulação. De uma forma ou de outra, sua forma contingente deve ser modificada — mesmo nos parâmetros estritamente capitalistas — no curso da inexorável autoexpansão do capital, de acordo com as variações de intensidade e escopo da acumulação de capital possível na prática sob as circunstâncias históricas dadas. Sendo assim, a questão da dominação do capital sobre o trabalho, junto com as modalidades concretas de sua superação, devem se tornar inteligíveis em termos das determinações material-estruturais das quais emergem as várias possibilidades de intervenção pessoal no processo de reprodução social. Pois, por mais paradoxal que possa parecer, o poder objetivo da tomada de decisão, e a correspondente autoridade não escrita (ou não formalizada) do capital na qualidade de modo de controle real, precede a autoridade estritamente delegada (isto é, os imperativos objetivos do próprio capital estritamente delegados e apenas contingentemente codificados) dos próprios capitalistas.

Nesse sentido, enfrentar a questão do direito dos capitalistas de dominar o trabalho — um direito que pode ser instantaneamente “tirado” ou “abolido” pela ditadura do proletariado, ou até mesmo restaurado mais tarde por meio de algum tipo de intervenção contrarrevolucionária — há de resultar apenas em mudanças muito limitadas na estrutura da sociedade transicional. O verdadeiro alvo da transformação emancipatória é a completa erradicação do capital como modo de controle totalizante do próprio sociometabolismo reprodutivo, e não simplesmente o deslocamento dos capitalistas da condição historicamente específica de “personificações do capital”. O fracasso, qualquer que seja a razão, em efetuar a erradicação estrutural objetiva do próprio capital dos processos reprodutivos em andamento, mais cedo ou mais tarde deve criar um intolerável vácuo no controle metabólico vital da sociedade. Isto exigiria o estabelecimento de novas formas de “personificação”, visto que a articulação estrutural socioeconômica de controle em vigor continua a ser marcada pelas características objetivas da divisão social hierárquica de trabalho herdada, cuja natureza mais íntima demanda algum tipo de personificação iníqua.

Não é necessário dizer que só é possível procurar por respostas viáveis para estes pesados limites materiais no âmbito da estrutura de uma teoria realista da transição, teoria que parta da premissa de que o “radicalmente novo” da “nova forma histórica” antecipada não é concebível sem o doloroso empreendimento de uma reestruturação material totalmente abrangente das relações produtivas e distributivas da sociedade. Empreendimento que envolve, por sua vez, o estabelecimento prático das formas necessárias de mediação material por meio das quais no devido tempo a erradicação do capital do processo sociometabólico se torna viável.”

 

 

A perspectiva histórica de estender globalmente e, sob condições favoráveis, melhorar imensuravelmente as realizações da “revolução enclausurada no elo mais fraco da cadeia” — uma perspectiva que já foi compartilhada pelos partidos comunistas, assim como por muitos outros movimentos políticos na esquerda — agora pertence inevitavelmente ao passado. Todavia, o desafio de “adquirir uma compreensão clara da natureza do capital” em todas as suas formas, incluindo a necessidade de se compreender a natureza contraditória de suas formações estatais, é hoje ainda muito maior. Em larga medida, isso se deve à exaustão histórica da perspectiva — e por suas negações mais ou menos diretas — que por tantos anos manteve seu poder orientador, mas que agora o perdeu completamente, pois sete décadas de desenvolvimento só puderem sublinhar dolorosamente que, como coloca Marx,

a forma econômica específica pela qual o trabalho excedente não pago é sugado dos produtores diretos determina a relação dos governantes e governados, já que ela emerge diretamente da própria produção e, por sua vez, reage sobre ela como elemento determinante.107

Nesse sentido, as razões para o trágico fracasso histórico de mais de sete décadas de poder soviético devem ser buscadas, para que sejam evitadas no futuro, tanto na modalidade experimentada de “sugar o trabalho excedente não pago dos produtores diretos” como na dura realidade do historicamente conhecido Estado pós-revolucionário como “elemento determinante”. Este, ao invés de liberar as forças de tomada de decisão autônomas, pelas quais, no devido tempo, o Estado poderia “fenecer”, impôs implacavelmente à sociedade o sistema do capital pós-capitalista de extração do trabalho excedente, perpetuando, com consequências desastrosas, uma “relação de governantes e governados”. Obviamente, não pode haver socialismo na totalidade dos países, muito menos num único país, se tal estrutura de determinações socioeconômicas e políticas sobreviver.”

107 Marx, O capital, vol. 3, p. 772.

 

 

O fato é que, muitos anos antes, a emergência e a consolidação de vários fatores importantes já apontavam na mesma direção. Para resumir em uma sentença: a transição para o socialismo se tornou incomparavelmente mais complicada tendo em vista o fato de que o capital, em resposta ao desafio apresentado pelo desenvolvimento do movimento socialista, adquiriu uma “nova racionalidade” como uma forma de autodefesa e um modo de contra-atuar ou neutralizar os ganhos do seu adversário. Apesar de esta nova racionalidade não ter significado, nem poder significar, a eliminação da “irracionalidade” e do “caráter anárquico” do capital, notados por Marx, ela estendeu significativamente os limites anteriores. Deve ser realçado, contudo, que estas características nunca foram tratadas pelo próprio Marx como determinações absolutas — ao contrário de alguns de seus seguidores — mas como fatores relativos e tendenciais, que afetavam a relação das partes com o todo, assim como a contradição entre as medidas imediatas e suas consequências de longo prazo. Nesse sentido, nunca se negou que o capital fosse capaz de racionalidade parcial e de curto prazo; apenas a possibilidade de uma integração bem-sucedida e duradoura das determinações parciais em um todo abrangente, o que evidentemente é uma questão de limites.

 

 

“O específico de Hegel foi que, vivendo em uma conjuntura histórica que exibia uma forma aguda de explosão dos antagonismos sociais — da Revolução Francesa às guerras napoleônicas e à aparição do movimento da classe trabalhadora como uma força hegemônica que visa seu próprio modo de controle sociometabólico como uma alternativa radical ao já existente —, ele tinha que enfrentar abertamente as muitas contradições que permaneceram ocultas de seus antecessores. Se Hegel foi mais inventivo em sua filosofia do que aqueles antecessores, foi porque, em larga medida, tinha que ser muito menos “inocente” na tentativa de abranger e integrar no seu sistema uma ordem muito maior de problemas e contradições com que eles nem sequer poderiam sonhar. Se, ao fim, ele só conseguiu realizá-lo de um modo lógico/abstrato, frequentemente circular/definicional e intelectualizado, isto se deveu primariamente aos tabus insuperáveis do “ponto de vista econômico-político” da burguesia. O que ele teve que pagar, por compartilhar este ponto de vista, foi a fusão mistificadora das categorias da lógica com as características objetivas do ser, tentando conjurar o impossível, a saber, a “conciliação” final das contradições antagônicas da realidade sócio-histórica percebida.”

 

 

Em agudo contraste com seu significado original, é graças a seu radical desvirtuamento que o conceito capitalista de “propriedade” pode exercer um papel vital na legitimação das — a priori julgadas e materialmente fixadas, além de salvaguardadas legal/politicamente — relações de produção estabelecidas e do modo dominante de apropriação (e expropriação) a elas correspondentes. Pois:

Originalmente, propriedade não significava mais que a relação de um ser humano com suas condições naturais de produção como pertencentes a ele, como suas, e pressupostas junto com o seu próprio ser, relações com tais condições como pressupostos naturais de seu eu, que formam apenas, por assim dizer, seu corpo ampliado. Ele realmente não se relaciona com suas condições de produção, mas antes tem uma dupla existência, tanto subjetivamente, como ele próprio, como objetivamente nestas condições naturais não orgânicas de sua existência. ... Propriedade originalmente significava — em sua forma asiática, eslava, clássica antiga, germânica — a relação do sujeito que trabalha (que produz ou que se autorreproduz) com as condições de sua produção ou reprodução enquanto pertencentes a ele. Ela terá diferentes formas, portanto, dependendo das condições de sua reprodução. A própria produção visa à reprodução do produtor dentro de suas condições objetivas de existência e em conjunto com elas.6

O modo capitalista de reprodução social não poderia estar mais distante desta determinação original de produção e propriedade. Sob o comando do capital, o sujeito que trabalha não mais pode considerar as condições de sua produção e reprodução como sua própria propriedade. Elas não mais são os pressupostos autoevidentes e socialmente salvaguardados do seu ser, nem os pressupostos naturais do seu eu como constitutivos da “extensão externa de seu corpo”. Ao contrário, elas agora pertencem a um “ser estranho” reificado que confronta os produtores com suas próprias demandas e os subjuga aos imperativos materiais de sua própria constituição. Assim, a relação original entre o sujeito e o objeto da atividade produtiva é completamente subvertida, reduzindo o ser humano ao status desumanizado de uma mera “condição material de produção”. O “ter” domina o “ser” em todas as esferas da vida. Ao mesmo tempo, o eu real dos sujeitos produtivos é destruído por meio da fragmentação e da degradação do trabalho à medida que eles são subjugados às exigências brutalizantes do processo de trabalho capitalista. Eles são reconhecidos como “sujeitos” legitimamente existentes apenas como consumidores manipulados de mercadorias. Na verdade, eles se tornam tanto mais cinicamente manipulados — como fictícios “consumidores soberanos” — quanto maior a pressão da taxa decrescente de utilização.

Naturalmente, em tais circunstâncias e determinações, os seres humanos produtivamente ativos não podem ocupar, como seres humanos, seu lugar legítimo nas equações do capital, e muito menos ser considerados, nos parâmetros do sistema do capital, como a verdadeira finalidade da produção. A relação social mercantilizada e reificada entre os sujeitos produtivos e seu controlador agora independente — que, como questão de direitos materialmente constituídos e legalmente impostos, age como o único proprietário das condições de produção e autorreprodução dos trabalhadores — apresenta-se de maneira mistificada e impenetrável. Igualmente, a tarefa da reprodução social e do intercâmbio metabólico com a natureza é definida de modo fetichizado como a reprodução das condições objetivadas/alienadas de produção, das quais o ser humano que sente e padece nada mais é senão uma parte estritamente subordinada, enquanto um “fator material de produção”. E já que o sistema produtivo estabelecido, sob a regência do capital, não pode reproduzir a si próprio, a menos que possa fazê-lo em uma escala sempre crescente, a produção deve não apenas ser considerada a finalidade da humanidade, mas — enquanto um modo de produção ao qual não pode haver alternativa — deve ser tomada como premissa que a finalidade da produção é a multiplicação sem fim da riqueza.”

6 Marx, Grundrisse, pp. 491-5.

 

 

A grande inovação do complexo militar-industrial para o desenvolvimento capitalista é obliterar efetivamente na prática a distinção literalmente vital entre consumo e destruição. Esta “inovação” oferece uma solução radical para uma contradição inerente ao valor que se autodefine como tal em todas as suas formas, apesar de só se tornar aguda nas condições do capitalismo contemporâneo.

Tal contradição emerge das várias barreiras objetivas à riqueza em autoexpan-são que devem ser transcendidas a todo custo, para que o valor como uma força operacional independente se realize a si próprio de acordo com as determinações intrínsecas de sua natureza. Por isso na Roma imperial, como observou Marx, o valor alienado e independente, como riqueza orientada para o consumo,

aparece como desperdício ilimitado, que tenta logicamente elevar o consumo a uma ilimitação imaginária pelo hábito de se devorar saladas de pérolas etc.15

O problema em questão é duplo. Em primeiro lugar diz respeito aos recursos limitados da sociedade e, portanto, à necessidade de legitimar sua alocação entre alternativas, não apenas exequíveis, mas que efetivamente competem entre si. E, segundo, tem a ver com a constituição do próprio consumidor, ou seja, com todas as limitações naturais, socioeconômicas e até culturais de seus apetites.

O complexo militar-industrial resolve com sucesso essas duas restrições fundamentais. Com relação à primeira dimensão, ao contemplar a antiga prática romana do “desperdício conspícuo” na forma do “devorar de saladas de pérolas”, torna-se irresistível a conclusão de sua decadente gratuidade; enquanto, ao contrário, consegue-se legitimar como dever patriótico absolutamente inquestionável o verdadeiro desperdício ilimitado de “devorar” recursos equivalentes a bilhões de tais saladas através dos anos, enquanto milhões incontáveis têm de suportar a inanição como o “destino” do qual não podem escapar.

Do mesmo modo, em relação ao segundo aspecto vital, o complexo militar-industrial remove com sucesso as restrições tradicionais do círculo de consumo definido pelas limitações do apetite dos consumidores. Nesse aspecto, ele corta o nó górdio altamente intricado do capitalismo “avançado” ao reestruturar o conjunto da produção e do consumo de maneira a remover, para todos os efeitos e propósitos, a necessidade do consumo real. Em outras palavras, aloca uma parte maciça e sempre crescente dos recursos materiais e humanos da sociedade a uma forma de produção parasitária e que se autoconsome, tão radicalmente divorciada e, na verdade, oposta à real necessidade humana e seu consumo correspondente que pode divisar como sua própria racionalidade e finalidade última até mesmo a total destruição da humanidade.”

15 Marx, Grundrisse, p. 270.

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