Editora: Boitempo
ISBN: 978-85-7559-145-1
Tradução: Paulo
Cezar Castanheira e Sérgio Lessa
Opinião: ★★★☆☆
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Páginas: 1104
Sinopse: Ver Parte
I
“Como sempre, os
apologistas do capital imputam a Marx seus próprios pecados, para, ao
condená-lo injustamente, se absolverem desses pecados. Assim, deterministas
econômicos que são, já que se identificam com o ponto de vista e os interesses
do capital, eles o condenam por “determinismo econômico”, justamente Marx que
ousou expor o determinismo econômico autoexpansionista do sistema adorado por
eles. Do mesmo modo, acusam Marx de colocar um “fim na história” em suas
referências à futura ordem socialista — porque ele ousou demonstrar as
contradições internas e tendências desagregadoras do sistema do capital ainda onipotente.
Na realidade, são eles mesmos que colocam um fim na dinâmica histórica, quando
“misturam e confundem todas as diferenças históricas e veem relações
burguesas em todas as formas de sociedade”. Pois, ao suprimir as especificidades
dos antecedentes históricos parciais do sistema socioeconômico existente,
terminam por liquidar completamente a dinâmica histórica, já que fazem o
processo histórico culminar no presente capitalista congelado para sempre.
Nessa visão, o presente não pode ser considerado historicamente específico e transitório
precisamente porque é a esperada culminação e consumação final de toda
história. Em completo contraste, Marx — que supostamente teria posto um fim na
história — insiste na irreprimível dinâmica histórica quando enfatiza a
especificidade tanto dos antecedentes como da forma plenamente desenvolvida
de produção do capital, oferecendo assim uma visão do tempo histórico que é tão
aberta na direção do futuro quanto na do passado.
Terminar a história no presente acaba por destruir até mesmo o caráter
histórico dos eventos e processos que conduziram a ele, tornando-os algum tipo
de predestinação que se destina a justificar a aceitação do presente,
quer sob a forma de resignação (se o pensador em questão for capaz de reconhecer
seus aspectos negativos e problemáticos), quer na forma de uma glorificação
apologética mais ou menos inconsciente do existente. Também a esse respeito,
tudo parece surgir na história primeiro como uma tragédia e depois como farsa.
Desse modo, o término hegeliano da história segue com o reconhecimento e a
confirmação resignada da “tragédia no reino do ético” pelo grande filósofo,
como vimos antes. Em contraste, a autoidentificação acrítica de muitos dos
pensadores do século XX com o ponto de vista do capital onipotente
produz a absurda e insustentável celebração moralmente injustificável e
autocontraditória dos termos econômicos da própria ordem sociorreprodutiva
estabelecida que eles desejam perpetuar.”
“Ainda que os capitalistas
sejam afastados em alguns países, enquanto suas posições se mantêm inalteradas
em outros, o problema não está na possibilidade de os capitalistas que
continuam no controle do processo metabólico em outros lugares se unirem contra
a revolução e sitiá-la. É muito pior que isso. A questão fundamental é, e
permanece sendo, a dinâmica interna do processo de reprodução social do
capital e o seu comando sobre o trabalho. Ao remover os capitalistas da
estrutura de tomada de decisões de um país — isoladamente ou em muitos deles —
o comando sobre o trabalho não é, ipso facto, restituído ao
trabalho. O proprietário capitalista dos meios de produção funciona como a personificação
do capital; sem o capital o capitalista não é nada: uma relação cuja
recíproca obviamente não é verdadeira. Em outras palavras, seria absurdo
sugerir que sem os proprietários capitalistas privados dos meios de produção o
capital não é nada. Isto porque as personificações possíveis do capital não
estão, de modo algum, confinadas à variedade capitalista privada; nem sequer na
estrutura de um sistema “capitalista avançado”. Evidência disto foi o modo de
funcionamento das “indústrias nacionalizadas” no período após a Segunda Guerra
Mundial, as quais supostamente deveriam ser “possuídas e controladas
publicamente”, mas, com uma sujeição tão completa do trabalho ao comando do
capital como em qualquer outro lugar da economia capitalista. Para tomar apenas
um exemplo, o papel cruelmente agressivo exercido pela National Coal Board—
Conselho Nacional do Carvão, na Grã-Bretanha — em completo conluio com o
governo conservador da “direita radical” — contra os mineiros, durante sua
greve de um ano, demonstrou claramente que a alteração das formas jurídicas de
propriedade é a substituição de um tipo de personificação do capital por outro
e não muda absolutamente em nada a sujeição do trabalho às determinações
estruturais do sistema. Nem sequer se isso fosse feito em larga escala, em vez
de mais seletivamente, nas indústrias falidas, como fizeram os governos socialdemocratas,
iludindo a si próprios — ou apenas fingindo que estavam “conquistando os postos
de comando mais elevados da economia”. Enquanto o capital, sob qualquer forma,
mantiver seu poder regulador substantivo sobre o sociometabolismo, a
necessidade de encontrar uma forma de personificação do capital adequada às
circunstâncias permanece inseparável dele. O capital como tal é inerente ao
princípio de estruturação conflitante herdado que opera no processo de
trabalho. Se, no curso de uma articulação prática viável do projeto socialista
— que prevê o controle da reprodução sociometabólica por meio das
autodeterminações autônomas dos produtores associados —, este princípio
estruturador não for radicalmente superado, o capital há certamente de
reafirmar seu poder e encontrar as novas formas de personificação necessárias
para manter o trabalho sob o controle de uma “vontade alheia”. Em qualquer de
suas variedades viáveis apropriadas às circunstâncias, essa “vontade alheia” se
torna absolutamente insubstituível na operação de um sistema conflitante,
quando o comando do trabalho é objetivamente alienado do trabalho. Sem as suas
novas personificações, o capital não poderia continuar a cumprir suas funções
reprodutivas por tanto tempo sustentadas e profundamente engastadas. Sem elas,
e na ausência de uma alternativa efetiva e total, controlada pelo próprio
trabalho, que poderia desafiar de todos os modos o controle totalizante do
capital, estaria comprometido todo o sociometabolismo.
Apesar de Marx não ter podido imaginar as condições históricas do século
XX, sob as quais um novo tipo de personificação do capital tornou-se agudo,
encontramos em seus escritos algumas advertências a respeito, ainda que nem
sempre claramente expressas ou completamente articuladas. Para tomar um
importante exemplo, sua crítica à ilusão de realizar o socialismo expulsando os
capitalistas enquanto se mantém o capital como tal é explícita em muitos
lugares de seus escritos, embora o problema não seja examinado na direção em que
poderia indicar as formas alternativas viáveis ao domínio do capital e as
modalidades correspondentes de personificação, sob circunstâncias históricas
muito diferentes. Assim, nos Grundrisse, Marx
sublinha que “a ideia sustentada por alguns socialistas de que precisamos do
capital mas não dos capitalistas é completamente errada. Está posto, dentro
do conceito de capital, que as condições objetivas de trabalho — sendo
estas seus próprios produtos — assumem uma personalidade em relação a
ele”23.
A mesma crítica do wishful thinking socialista é mais plenamente
explicitada em outro contexto quando Marx escreve:
No primeiro ato, na troca entre capital e
trabalho, o trabalho em si, existindo para si, aparece necessariamente
como o trabalhador. Similarmente, no segundo processo, o capital em si é
postulado como um valor existente para si, como valor egoísta, por assim dizer
(algo a que o dinheiro poderia apenas aspirar). Mas o capital em seu
ser-para-si é o capitalista. Claro, os socialistas às vezes dizem “nós
precisamos do capital, mas não dos capitalistas”. (Por exemplo, John Gray, The
Social System, p. 36, e J. F. Bray, Labour’s Wrongs, pp. 157-176.)
Então o capital aparece como uma coisa pura, não como uma relação de produção
que, refletida em si mesma, é precisamente o capitalista. Posso muito bem
separar o capital de um dado indivíduo capitalista, e transferi-lo para outro.
Mas, ao perder o capital, ele perde a qualidade de ser capitalista. Portanto, o
capital é de fato separável de um indivíduo capitalista, mas não do
capitalista que, como tal, controla o trabalhador.24
O capital em seu ser-para-si é a personificação necessária do capital
que, dependendo das circunstâncias históricas específicas, pode ou não ser o
proprietário capitalista privado dos meios de produção. O que decide a questão
é a relação-capital na qual o controlador do trabalhador — que deve ser, sob a
forma capitalista do domínio do capital, o capitalista e não um
capitalista particular ou individual, este sendo subsidiário ao conceito de
capital em si — enfrenta e domina o trabalhador. Em todas as formas
concebíveis da relação-capital desenvolvida — incluindo as formas
pós-capitalistas — as condições necessárias são:
(1) a separação
e a alienação das condições objetivas do processo de trabalho do
próprio trabalho;
(2) a imposição
de tais condições objetivadas e alienadas sobre os trabalhadores
como um poder separado que exerce comando sobre o trabalho;
(3) a personificação
do capital como “ valor egoísta” — com sua subjetividade usurpada e
sua pseudopersonalidade — que persegue sua própria autoexpansão, com uma
vontade própria (sem a qual não poderia ser “capital-para-si” como
controlador do sociometabolismo); uma vontade, não no sentido do “capricho
individual”, mas no de definir como sua finalidade internalizada a realização
dos imperativos expansionistas do capital em si (daqui a noção grotesca de
“acumulação socialista”, a ser realizada sob o comando inquestionável do
burocrata de tipo soviético; também é importante sublinhar aqui que não é o
burocrata que produz o perverso sistema do capital de tipo soviético, por mais
que ele esteja implicado em sua desastrosa condução, mas, antes, a forma de
capital pós-capitalista herdada e reconstituída faz emergir sua própria
personificação na forma do burocrata como o equivalente pós-capitalista do
antigo sistema do capital orientado-para-a-extração-econômica que deu origem ao
capitalista privado); e
(4) a equivalente personificação
do trabalho (isto é, a personificação dos trabalhadores como “trabalho”
destinado a entrar numa relação de dependência ou contratual/econômica ou
politicamente regulada com o tipo historicamente prevalecente de capital),
confinando a identidade do sujeito deste “trabalho” às suas funções produtivas
fragmentárias — o que ocorre quando pensamos na categoria de “trabalho” como o
trabalhador assalariado sob o capitalismo ou ainda como o “trabalhador
socialista” cumpridor e supercumpridor de normas sob o sistema do capital
pós-capitalista, com sua forma própria de divisão horizontal e vertical do
trabalho.
Essas quatro condições básicas são constitutivas do “sistema orgânico”
do capital e compatíveis com todos os tipos de transformações parciais sem que
isso altere sua substância. O capital pode, portanto, mudar prontamente a forma
do seu domínio enquanto estas quatro condições básicas não forem
radicalmente superadas pela formação de um sistema orgânico alternativo,
genuinamente socialista.
A irreversibilidade — que deve preocupar todos os socialistas,
especialmente à luz das derrotas do século XX — não é somente uma questão de
instituir garantias militares e políticas que sejam capazes de resistir aos
ataques capitalistas coordenados. A defesa política da revolução socialista é,
claro, sempre importante. Mas, na ausência de profundas transformações
positivas na própria ordem sociometabólica, nenhuma força política ou militar
sozinha é capaz de resistir ao poder restaurador interno e desintegrador do
capital pós-capitalista, independentemente do vigor do Estado pós-capitalista
em relação a seus adversários externos; uma verdade amplamente confirmada pela
implosão do sistema soviético. A irreversibilidade depende primariamente da
capacidade dos produtores associados de transformarem sua ordem
sociorreprodutiva alternativa em um sistema verdadeiramente orgânico, cujas
partes se sustentem reciprocamente. Uma vez que esse modo de reprodução sociometabólica
seja operacional, o capital pode se opor a ele apenas como posição social e
historicamente retrógrada, e no fundo totalmente insustentável. Tal situação é
qualitativamente diferente daquela que testemunhamos no passado recente, quando
o “capitalismo avançado” — apesar de suas maciças contradições — pôde atacar
com sucesso o sistema do capital pós-capitalista de tipo soviético em seus
próprios termos, afirmando sua superioridade com base no “cálculo econômico”
que potencializa a acumulação e na “eficiência do mercado” correlata, contra os
quais o sistema soviético, baseado no seu próprio tipo de sujeição e exploração
do trabalho, não tinha qualquer defesa.
Em várias ocasiões, argumentei, mas não realcei suficientemente, que o
objeto da crítica de Marx não era o capitalismo, mas o capital.
Ele não estava preocupado em demonstrar as deficiências da produção
capitalista, mas imbuído da grande tarefa histórica de livrar a humanidade
das condições sob as quais a satisfação das necessidades humanas deve ser
subordinada à ““produção do capital”. Ou seja, livrar a humanidade das
condições desumanizadoras sob as quais ganham legitimidade apenas aqueles
valores de uso, não importa quão desesperadoramente necessários, que possam
caber na camisa de força dos valores de troca lucrativamente produzidos pelo
sistema. Ele tratou, com sarcasmo, todos aqueles que queriam “reformar” o
sistema existente de distribuição enquanto mantinham fetichisticamente
intacto o modo de produção do capital.”
23 Marx,
Grundrisse, p. 512.
24 Id.,
Ibid., p. 303. Itálicos de Marx.
“Capitalismo é aquela
fase particular da produção do capital na qual:
1. a produção para a troca (e assim a mediação e dominação do
valor de uso pelo valor de troca) é dominante;
2. a própria força de trabalho, tanto quanto qualquer outra
coisa, é tratada como mercadoria;
3. a motivação do lucro é a força reguladora fundamental da
produção;
4. o mecanismo vital de formação da mais-valia, a separação radical
entre meios de produção e produtores, assume uma forma inerentemente
econômica;
5. a mais-valia economicamente extraída é apropriada privadamente
pelos membros da classe capitalista; e
6. de acordo com seus imperativos econômicos de crescimento e
expansão, a produção do capital tende à integração global, por
intermédio do mercado internacional, como um sistema totalmente interdependente
de dominação e subordinação econômica.
Falar de capitalismo nas sociedades pós-revolucionárias, nas quais se
mantém apenas uma destas características definidoras essenciais — a de número
quatro —, e até mesmo esta de forma radicalmente alterada, já que a
extração de trabalho excedente é regulada política e não economicamente,
implica o desprezo ou a confusão das condições objetivas do desenvolvimento,
com sérias consequências para a possibilidade de entendimento da natureza real
dos problemas em questão.
O capital mantém o seu domínio — longe de irrestrito — nas sociedades
pós--revolucionárias principalmente por meio:
1. dos imperativos materiais que circunscrevem as possibilidades da
totalidade do processo vital;
2. da divisão social do trabalho herdada, que, apesar das suas
significativas modificações, contradiz “o desenvolvimento das livres
individualidades”;
3. da estrutura objetiva do aparato produtivo disponível (incluindo
instalações e maquinaria) e da forma historicamente limitada ou desenvolvida do
conhecimento científico, ambas originalmente produzidas na estrutura da
produção de capital e sob as condições da divisão social do trabalho; e
4. dos vínculos e interconexões das sociedades pós-revolucionárias com o
sistema global do capitalismo, quer estes assumam a forma de “competição
pacífica” (intercâmbio comercial e cultural), quer assumam a forma de oposição
potencialmente mortal (desde a corrida armamentista até maiores ou menores
confrontações reais em áreas sujeitas a disputa).
Portanto, o problema é incomparavelmente mais complexo e abrangente do
que sua caracterização convencional como imperativo da acumulação de capital,
agora sob o novo nome de “acumulação socialista”.53
(...)
O poder do capital não pode ser superado no domínio material sob seu controle,
por nenhum tipo de ação econômica espontânea, mesmo que o conhecimento
econômico seja suficientemente desenvolvido e difundido na sociedade como um
todo (o que está fora de questão, dada a novidade qualitativa das tarefas que
devem ser empreendidas, e o fato de o conhecimento necessário a elas não poder
ser legitimado pelo sistema do capital herdado e suas “personificações”). O
primeiro passo vital exige uma mudança radical do modo de regular a produção e
alocação do excedente econômico. Isto é possível em primeiro lugar apenas pelo
processo político autônomo — e socialmente sustentável no curso da revolução
que se desdobra — tanto nos países subdesenvolvidos como naqueles de
capitalismo mais desenvolvido. Em todos os lugares, é necessária uma verdadeira
“mudança de ventos” que permita tomar a rota que conduzirá ao novo “sistema
orgânico”. A regulação política adequada do intercâmbio socioeconômico é uma
parte vital importante para este empreendimento, especialmente nas fases
iniciais da difícil transição para uma ordem metabólica socialista
autorreguladora. Como a formação do Estado moderno é um constituinte essencial
do sistema orgânico do capital, mover-se em direção a uma alternativa
socialista é inconcebível 1) sem se apoderar de todas as funções produtivas do
velho Estado vis-à-vis o sistema do capital, aspecto negativo do
empreendimento político pós-capitalista, e 2) sem uma articulação bem-sucedida
das funções autônomas e positivamente reguladoras pelas quais os produtores
associados podem colocar nas finalidades por eles mesmos escolhidas os frutos
do seu trabalho excedente no curso da criação de um sistema orgânico
socialista. Se o aspecto positivo da tarefa não for perseguido desde o início,
não haverá qualquer esperança de se concluir com sucesso a revolução
socialista. De fato, mais cedo ou mais tarde, mesmo as funções negativas
assumidas de se “expropriar os expropriadores” estão destinadas a falhar. Sob
este aspecto, a questão fundamental é a relação estrutural antagônica no
interior do próprio processo de trabalho sob o domínio do capital. Este é o
caso em todos os domínios e em todos os níveis do sociometabolismo, desde o
“microcosmo” das iniciativas econômicas locais até as inter-relações
reprodutivas mais abrangentes. Sob este aspecto, se a extração do trabalho
excedente politicamente regulada não for de fato controlada pelos próprios
produtores associados, mas por uma autoridade política imposta e acima deles,
este tipo de relação inevitavelmente reproduziria o antagonismo incurável do velho
processo de trabalho. É o que aconteceria mesmo que o tipo de personificação do
capital que confronta o trabalho pós-revolucionário tivesse mudado de acordo
com as novas circunstâncias sócio-históricas.
53
Mészáros, “Political Power and Dissent in Postrevolutionary Societies” (1977),
pp. 912-3 do presente volume [ed. bras., “Poder Político e Dissidência nas
Sociedades Pós-Revolucionárias”, Ensaio, n° 14, São Paulo, Ed. Ensaio,
1985, pp. 44-5].
“A crise do capital que experimentamos hoje é fundamentalmente uma crise
estrutural. Assim, não há nada especial em associar-se capital a crise. Pelo
contrário, crises de intensidade e duração variadas são o modo natural de
existência do capital: são maneiras de progredir para além de suas barreiras
imediatas e, desse modo, estender com dinamismo cruel sua esfera de operação e
dominação. Nesse sentido, a última coisa que o capital poderia desejar seria
uma superação permanente de todas as crises, mesmo que seus ideólogos e
propagandistas frequentemente sonhem com (ou ainda, reivindiquem a realização
de exatamente isso.
A novidade histórica da crise de hoje torna-se manifesta em quatro
aspectos principais:
(1) seu caráter
é universal, em lugar de restrito a uma esfera particular (por exemplo,
financeira ou comercial, ou afetando este ou aquele ramo particular de
produção, aplicando-se a este e não àquele tipo de trabalho, com sua gama
específica de habilidades e graus de produtividade etc.);
(2) seu alcance
é verdadeiramente global (no sentido mais literal e ameaçador do termo),
em lugar de limitado a um conjunto particular de países (como foram todas as
principais crises no passado);
(3) sua escala de
tempo é extensa, contínua, se preferir, permanente, em lugar de
limitada e cíclica, como foram todas as crises anteriores do capital;
(4) em contraste com
as erupções e os colapsos mais espetaculares e dramáticos do passado, seu modo
de se desdobrar poderia ser chamado de rastejante, desde que
acrescentemos a ressalva de que nem sequer as convulsões mais veementes ou
violentas poderiam ser excluídas no que se refere ao futuro: a saber, quando a
complexa maquinaria agora ativamente empenhada na “administração da crise” e no
“deslocamento” mais ou menos temporário das crescentes contradições perder sua
energia.
Seria extremamente tolo negar que tal maquinaria existe e é poderosa,
nem se deveria excluir ou minimizar a capacidade do capital de somar novos
instrumentos ao seu já vasto arsenal de autodefesa contínua. Não obstante, o
fato de que a maquinaria existente esteja sendo posta em jogo com frequência
crescente e com eficácia decrescente é uma medida apropriada da severidade da
crise estrutural que se aprofunda.”
“Considerando que o
capital só pode funcionar por meio de contradições, ele tanto cria como destrói
a família; produz a geração jovem economicamente independente com sua “cultura
jovem” e a arruína; gera as condições de uma velhice potencialmente
confortável, com reservas sociais adequadas, para sacrificá-las aos interesses
de sua infernal maquinaria de guerra. Seres humanos são, ao mesmo tempo,
absolutamente necessários e totalmente supérfluos para o capital. Se não fosse
pelo fato de que o capital necessita do trabalho vivo para sua autorreprodução
ampliada, o pesadelo do holocausto da bomba de nêutrons certamente se tornaria
realidade. Mas, já que tal “solução final” é negada ao capital, somos
confrontados com as consequências desumanizadoras das suas contradições e com a
crise crescente do sistema de dominação.”
“Dois exemplos importantes ilustram conclusivamente este fato. O
primeiro se refere ao complexo industrial-militar, o segundo à crônica insolubilidade
dos problemas do “subdesenvolvimento”.
Há muita esperança de criação de recursos para uma expansão econômica
positiva e viável por meio da realocação de uma parte importante da despesa
militar para medidas e propósitos sociais há muito imprescindíveis. Porém, a
frustração permanente dessas esperanças resulta tanto do imenso peso econômico
e do evidente poder estatal do complexo industrial-militar como do fato de que
este complexo é antes manifestação e efeito do que causa das profundas contradições
estruturais do capital “avançado”. Naturalmente, uma vez que exista, continua também
a funcionar como uma causa contribuinte — tanto maior quanto maior seu poder
econômico e político —, mas não como a causa que as produz. Do ponto de vista
do capital contemporâneo, se o complexo industrial-militar não existisse, teria
que ser inventado. (Como mencionado antes, de certo modo o capital simplesmente
“tropeçou” nesta solução durante a guerra, depois da tentativa um tanto ingênua
de Roosevelt de reculerpour mieux sauter da plataforma do New Deal,
que de fato resultou num avanço muito pequeno em meio a uma depressão que não
se abateu.)
O complexo industrial-militar cumpre com grande eficiência duas funções
vitais, deslocando temporariamente duas poderosas contradições do capital
“superde-senvolvido”.
A primeira, mencionada há pouco, é a transferência de uma porção
significativa da economia das incontroláveis e traiçoeiras forças do mercado
para as águas seguras do altamente lucrativo financiamento estatal. Ao mesmo
tempo mantém intacta a mitologia da empresa privada economicamente superior e eficiente
nos custos, graças à absolvição a priori da perdularidade total
e da falência estrutural pela ideologia de fervor patriótico.
A segunda função não é menos importante: deslocar as contradições
devidas à taxa decrescente de utilização12
que se evidenciaram dramaticamente durante as últimas décadas de
desenvolvimento nos países de capitalismo avançado.
E por isso que, enquanto não se encontrar uma alternativa estrutural
para lidar com os fundamentos causais das contradições aqui mencionadas e que
foram deslocadas com sucesso, a esperança de uma simples realocação dos
recursos prodigiosos, agora investidos no complexo industrial-militar, fatalmente
será anulada pelas determinações causais prevalecentes.”
12 Estes problemas foram discutidos nos capítulos 15 e 16. O fato de o fim
da Guerra Fria não ter permitido a distribuição dos “dividendos da paz”,
deixando o complexo industrial-militar em posição dominante nos países líderes
capitalistas, acentua a importância destas arraigadas conexões econômicas.
“Embora os interesses
dos integrantes particulares do capital possam ser equilibrados com sucesso —
ainda que de maneira estritamente temporária —, não pode haver equilíbrio entre
os interesses e o poder respectivamente do capital e do trabalho. O trabalho ou
é o antagonista estrutural e a alternativa sistêmica ao capital — e,
nesse caso, “compartilhar a força” com o capital é uma autocontradição absurda
— ou permanece a parte estruturalmente subordinada (o constantemente ameaçado
“custo de produção”) do processo de autorreprodução ampliada do capital e, como
tal, totalmente sem poder. A força efetiva do trabalho na ordem
socioeconômica existente é parcial e negativa como, por exemplo,
a arma da greve. Por conseguinte, ele não pode ser mantido na sua
negatividade indefinidamente, porque a premissa prática necessária de tal
operação — como na extraordinária greve pacífica de um ano dos mineiros
ingleses — é a continuação do funcionamento da ordem sociometabólica, cujas partes
não em greve devem ser capazes de assumir a carga do trabalho temporariamente
negado. A ideia de uma greve política geral é uma proposta radicalmente diferente.
Para ser bem-sucedida, deve ter por objetivo uma mudança fundamental na própria
ordem sociorreprodutiva, de outro modo seu impacto, como nas greves gerais do
passado, fatalmente será em seguida anulado. Assim, o paradoxo do poder que
desafia o movimento socialista é o fato de, mesmo na sua parcialidade, o
exercício da força negativa do trabalho atualmente existente ser
insustentável a longo prazo. Somente sua força potencialmente positiva é
verdadeiramente sustentável porque, pela sua própria natureza, não se limita à
busca de objetivos parciais. A condição de sua realização é a força positiva
do trabalho, entendido como alternativa sistemática ao modo de controle do
capital, que deve considerar a si próprio como o princípio estrutural radical
do sociometabolismo como um todo. Assim, qualquer que seja a maneira com que o
olhamos — quer em sua negatividade parcialmente contestadora, quer como a
potencialidade positiva da completa transformação socialista —, torna-se claro
que sob nenhuma circunstância pode alguém pensar no poder do trabalho
compartilhado com o capital (ou ao contrário), apesar das ilusões tão bem
conhecidas e das resultantes e inevitáveis derrotas do reformismo parlamentar.”
“A despeito da piora das
condições socioeconômicas e até da eliminação da margem para ajustamentos
menores a favor do trabalho — com o ativo envolvimento de medidas autoritárias
legislativas e a cumplicidade de seu próprio partido —, o capital é incapaz de
resolver suas crises estruturais e de reconstituir com sucesso as condições da
sua dinâmica expansionista. Ao contrário, para permanecer no controle do
sociometabolismo, ele é compelido a invadir territórios que não pode controlar
nem utilizar para os fins da acumulação sustentável de capital. Além disso,
para permanecer no comando da reprodução social, por maior que seja o custo
para a humanidade, o capital deve minar até mesmo suas próprias instituições
políticas, que no passado funcionaram como um corretivo parcial e como uma
espécie de válvula de segurança. Nesse passado, ainda estava mais ou menos
aberta a via do deslocamento expansionista das crescentes contradições do
capital que se acumulavam. Hoje, pelo contrário, as opções do sistema do
capital se estreitaram em todo o mundo, inclusive na esfera da política e da
ação parlamentar corretiva. Essa redução das opções de recuperação da expansão
traz consigo o imperativo de dominar diretamente também a política por um cruel
“consenso político” entre o capital secular e o “novo trabalhismo”, num
complemento apropriado às tendências autoritárias da “nova ordem mundial” que
não se restringe apenas ao Partido Trabalhista inglês. A consumação desse
consenso cruel — longe de ser o último triunfo do capital, como afirmam as
fantasias absurdas sobre o “fim da história conflitual” — antes prenuncia o
perigo de um colapso maior, que afetaria não apenas um número limitado de
elementos centrífugos do capital, não apenas um setor-chave como a finança
internacional, por exemplo, mas o sistema global do capital na sua totalidade.
Precisamente por causa desse perigo adquire relevância e urgência a necessidade
de contrapor à força destrutiva extraparlamentar do capital a correta ação
extraparlamentar de um movimento socialista radicalmente rearticulado.”

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