quarta-feira, 25 de março de 2026

Para além do capital: rumo a uma teoria da transição (Parte V), de István Mészáros

Editora: Boitempo

ISBN: 978-85-7559-145-1

Tradução: Paulo Cezar Castanheira e Sérgio Lessa

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 1104

Sinopse: Ver Parte I

 


“O sistema do capital é composto de elementos incorrigivelmente centrífugos, complementados pela dimensão coesiva do poder de controle da “mão invisível”, e das funções legal e política do Estado moderno. O fracasso das sociedades pós-capitalistas está no fato de terem se oposto à determinação centrífuga do sistema herdado sobrepondo aos seus elementos particulares conflitantes a estrutura de comando extremamente centralizada de um Estado político autoritário. Elas, ao contrário, deveriam ter atacado o problema crucial de como solucionar — por meio da reestruturação interna e da instituição do controle democrático substantivo — o caráter contraditório e o correspondente modo centrífugo de funcionamento das unidades reprodutivas e distributivas particulares. Portanto, a simples remoção das personificações privadas capitalistas do capital não poderia cumprir esse papel, nem mesmo como um primeiro passo a caminho da prometida transformação socialista, pois a natureza contraditória e centrífuga do sistema herdado foi de fato mantida pela imposição da política de controle centralizada em prejuízo do trabalho. O sistema sociometabólico tornou-se, assim, mais incontrolável do que antes, devido à incapacidade de substituir produtivamente a “mão invisível” da antiga ordem reprodutiva pelo autoritarismo voluntarista das novas personificações “visíveis” do capital pós-capitalista. Inevitavelmente, isso provocou a crescente hostilidade dos castigados sujeitos do trabalho excedente politicamente extraído contra a ordem pós--revolucionária. O fato de a força de trabalho ter sido submetida a um cruel controle político e, às vezes, até à desumana disciplina dos campos de trabalho de massas não significou que as personificações do capital de tipo soviético estivessem no controle do sistema. A incontrolabilidade do sistema reprodutivo pós-capitalista se manifestou pela incapacidade crônica de alcançar os objetivos econômicos, escarnecendo das decantadas vantagens da “economia planejada”. Isso selou seu destino, ao lhe privar de sua alegada legitimidade e fazer de seu colapso uma simples questão de tempo. Nos estágios finais de existência do sistema de tipo soviético, as personificações pós-revolucionárias do capital tentaram desesperadamente contrabandear a “mão invisível” para dentro de suas sociedades, rebatizando-a — para torná-la aceitável — de “socialismo de mercado ”; isso apenas acentuou o fato de que, mesmo depois de sete décadas de “controle socialista”, o sistema pós-capitalista permanecia irremediavelmente incontrolável, e absolutamente incapaz de produzir um controle democrático substantivo de suas unidades produtivas e distributivas.

É claro que a reconstituição e a substantiva democratização da esfera política são a condição necessária para uma intervenção sobre o controle sociometabólico do capital, pois o poder do capital não está, e nunca estará, limitado a estritas funções produtivas. Para controlá-las, o capital deve ser complementado pelo seu próprio modo de controle político. Isso significa que a estrutura material de comando do capital não pode afirmar-se sem a estrutura de comando político global do sistema. Assim, uma alternativa ao controle sociometabólico do capital deve abranger todos os aspectos complementares do processo de reprodução social, desde as funções estritamente produtivas e distributivas até as dimensões mais amplas da direção política. Como está no controle real de todos os aspectos vitais do sociometabolismo, o capital pode dar-se ao luxo de definir a esfera de legitimação política como questão estritamente formal, eliminando desse modo, a priori, a possibilidade de ser legitimamente contestado em sua esfera de ação substantiva. Ao se dobrar a tais determinações, o trabalho, como real antagonista do capital existente, pode apenas condenar-se à permanente impotência, pois a instituição de uma ordem sociometabólica alternativa só será viável pela articulação da democracia substantiva, definida como atividade autodeterminada dos produtores associados tanto na política como na produção material e cultural.

E característica singular do sistema do capital que, na sua normalidade, as funções materiais reprodutivas sejam executadas num compartimento separado, sob uma estrutura de comando substancialmente diferente da ampla estrutura de comando político do capital corporificada no Estado moderno. Essa separação e essa “disjunção”, constituídas ao longo da supremacia histórica do capital dirigida para a autoexpansão do valor de troca, de modo algum são desvantajosas para o próprio sistema. Ao contrário, as personificações econômico/gerenciais do capital podem exercer sua autoridade sobre as unidades reprodutivas particulares, antecipando um feedback do mercado a ser convertido no devido tempo em ação corretiva, e o Estado cumpre suas funções complementares, em parte na esfera internacional do mercado mundial (inclusive a garantia dos interesses do capital em guerras se necessário for), em parte diante de uma força de trabalho potencial ou realmente recalcitrante. Assim, nos dois casos, o antagonista estrutural do capital é firmemente mantido sob controle pela compartimentação e pela radical alienação dos produtores do poder de tomar decisões — em todas as esferas — num sistema ajustado às necessidades da reprodução e da acumulação ampliada do capital.

Em completo contraste, um modo de controle reprodutivo alternativo — socialista — é inimaginável sem que ocorra a superação da disjunção e da alienação existentes. A condição necessária para realizar as funções da reprodução diretamente material de um sistema socialista é a restituição do poder de tomar decisões aos produtores associados — em todas as esferas de atividade e em todos os níveis de coordenação, desde os empreendimentos locais até o mais amplo intercâmbio internacional. O “fenecimento do Estado” não se refere a algo misterioso ou remoto, mas a um processo perfeitamente tangível que precisa ser iniciado ainda no presente. E na transição para a genuína sociedade socialista é necessária a progressiva reaquisição dos poderes alienados de decisão política pelos indivíduos. Sem a reaquisição desses poderes, é inimaginável o novo modo de controle político total da sociedade por seus indivíduos, assim como a operação cotidiana não contraditória e, portanto, coesiva/ planejável das unidades produtivas e distributivas particulares pela autoadministração dos produtores associados.

A reconstituição da unidade das esferas de reprodução material e política é a característica definidora essencial do modo socialista de controle sociometabólico. A criação de suas mediações necessárias não pode ser deixada para um futuro distante, contrariando o que diz a teoria apologética do “nível mais alto do comunismo”, pois, se não forem dados imediatamente os primeiros passos como parte orgânica da estratégia transformadora, eles nunca serão dados. Conservar a dimensão política sob uma autoridade separada, divorciada das funções reprodutivas materiais da força de trabalho significa manter a dependência e a subordinação estrutural do trabalho, e consequentemente impossibilitar a tomada de medidas subsequentes em direção a uma transformação socialista sustentável. Foi nesse sentido, tão revelador quanto fatal, que o sistema soviético, em vez de ativar o poder de decisão autônomo dos produtores, reforçou a disjunção entre as funções do Estado e a força de trabalho sob seu controle, impondo, sob o pretexto de “planejamento”, as ordens de seu aparato político sobre os processos produtivos diretos. Nem mesmo a eternidade poderia transformar em sistema socialista autoadministrado uma ordem sociometabólica aprisionada por determinações estruturais tão irremediavelmente alienadas.”

 

 

É importante ter em mente que se o trabalho quer conseguir alguma coisa nas atuais circunstâncias, uma renovação da forma parlamentar de legislação política é inevitável. Tal renovação só se tornará viável pela criação de um movimento extraparlamentar como força vital condicionante do próprio Parlamento e da estrutura legislativa de uma sociedade globalmente em transição. Considerando a situação atual, o trabalho, como antagonista do capital, é obrigado a defender seus interesses não apenas com uma, mas com as duas mãos atadas às costas. Uma delas é presa pelas forças abertamente hostis ao trabalho e a outra pelos seus próprios partidos e lideranças sindicais reformistas, que cumprem a função especial de personificações do capital no interior do próprio movimento do trabalho a serviço da acomodação total, de capitulação aos imperativos materiais “realistas” do sistema. (...) Sob tais condições, cabe ao movimento dos trabalhadores decidir entre resignar-se a tais limites ou dar os passos necessários para desatar as próprias mãos, por mais difícil que venha a ser essa última linha de ação.”

 

 

Seria absurdo esperar a abolição por decreto político da “personificação de coisas e reificação de pessoas”, assim como seria absurdo esperar a proclamação de tal reforma nos limites das instituições políticas do capital. O sistema do capital não pode funcionar sem a perversa inversão das relações entre pessoas e coisas: o poder reificado e alienado do capital que domina as massas. Da mesma forma, seria um milagre se os trabalhadores, que no processo de trabalho confrontam o capital como “trabalhadores isolados”, pudessem reaver o controle dos poderes socioprodutivos do seu trabalho através de algum decreto político, ou mesmo por uma longa série de reformas parlamentares decretadas sob a ordem sociometabólica de controle do capital. Em tais questões, não há como evitar o conflito inconciliável em torno de objetivos materiais “mutuamente excludentes”.

O capital não pode abdicar dos seus — usurpados — poderes socioprodutivos em favor do trabalho, nem pode compartilhá-los com ele, na medida em que eles constituem o poder global de controle da reprodução societária sob a forma da “dominação da riqueza sobre a sociedade”. Por isso é impossível escapar, dentro do domínio do sociometabolismo fundamental, à severa lógica dos interesses “mutuamente excludentes”. Ou a riqueza, sob a forma do capital, continua a comandar a sociedade humana, levando-a aos limites da autodestruição, ou a sociedade de produtores associados aprende a comandar a riqueza alienada e reificada usando os poderes produtivos resultantes do trabalho social autodeterminado de seus membros individuais. O capital é a força extraparlamentar par excellence que não pode ser politicamente limitada em seu poder de controle sociometabólico. Essa é a razão pela qual a única forma de representação política compatível com o modo de funcionamento do capital é aquela que efetivamente nega a possibilidade de contestar o seu poder material. E, justamente porque é a força extraparlamentar par excellence, o capital nada tem a temer das reformas decretadas no interior da estrutura política parlamentar. A questão vital, da qual tudo depende, é que “as condições objetivas do trabalho não aparecem como subsumidas ao trabalhador”, mas, ao contrário, “este aparece subsumido àquelas”, por isso mesmo nenhuma mudança significativa é viável sem que se volte a esta questão, tanto por meio de políticas capazes de desafiar o poder e os modos de ação extraparlamentar do capital como na esfera da reprodução material. Portanto, o único desafio que poderia, de modo sustentável, afetar o poder do capital seria aquele que simultaneamente assumisse as funções produtivas decisivas do sistema e adquirisse o controle sobre todas as esferas correspondentes de tomada de decisão política, em vez de ser limitado pelo confinamento circular da ação política legítima à legislação parlamentar.

Certamente, a castração da política socialista é perfeitamente compatível com as relações de poder do capital e com seu único modo viável de operação, em todas as suas formas. Já que “as condições objetivas do trabalho não aparecem como subsumidas ao trabalhador” — muito pelo contrário —, o trabalhador como trabalhador isolado no processo de trabalho pode legitimamente ser considerado como tal em outras importantes esferas do processo de reprodução e distribuição social. Na política, ele ou ela podem politicamente agir como eleitores (isolados) que tomam suas decisões estritamente sozinhos na privacidade da cabine de votação. E na esfera material do “consumo produtivo”, da maior importância, que completa o ciclo da reprodução ampliada do capital eles podem novamente surgir como “consumidores soberanos” — estritamente individuais e isolados — que não mantêm qualquer relação com a sua classe. Ao contrário, agem desta vez consultando, não suas consciências moral e política na inviolabilidade da cabine eleitoral, como o fizeram na condição de “eleitores soberanos”, mas sua “consciência racional” (ou “faculdade racional”) para calcular e maximizar as “utilidades marginais privadas”. O sistema pós-capitalista de tipo soviético manteve essa mesma relação, apesar da abolição da forma do capitalista privado como personificação do capital. O trabalhador permaneceu subsumido às condições objetivas do trabalho, ao controle autoritário do Estado gerido pelas personificações pós-capitalistas do capital. Na qualidade de trabalhadores isolados, que sob nenhuma circunstância poderiam organizar a si próprios vis-à-vis a autoridade controladora do processo de trabalho, poderiam ser premiados como indivíduos “stakhanovistas” exemplares (a serem emulados por outros) ou punidos e enviados aos milhares aos campos de trabalho como “sabotadores criminosos” e “agentes inimigos”. Mas o trabalho em si não poderia adquirir legitimidade como agente coletivo do processo de trabalho, muito menos assumir o controle da reprodução sociometabólica como um todo. Embora, sob o planejamento autoritário, a ideia do “consumidor soberano” não pudesse ser mantida, a questão do consumo também era regulada numa base individual profundamente discriminatória — mesmo no caso de “stakhanovistas” e “trabalhadores exemplares”. Foi mantida inclusive a ficção do “voto secreto”, pela qual os “indivíduos socialistas” deveriam consultar suas “consciências moral e política” na privacidade da cabine de votação, e chegar às esperadas respostas unânimes que legitimavam o estado de coisas. Tudo isso de modo algum é surpreendente, pois diferenças substantivas do campo da política e no “consumo produtivo” só seriam viáveis caso se alterasse radicalmente o princípio estrutural do sistema do capital, que deve manter os trabalhadores — de um modo ou de outro — subsumidos às condições objetivas do seu próprio trabalho.

O poder extraparlamentar do capital só pode ser enfrentado pela força e pelo modo de ação extraparlamentares do trabalho. Isso é ainda mais importante se levarmos em conta a completa desintegração do reformismo parlamentar do movimento do trabalho, proclamado e seguido no passado, com o fito de fornecer o trabalho ao capital sob a forma de substância eleitoral fragmentada. Rosa Luxemburgo escreveu há muito tempo, profeticamente, que

o parlamentarismo é o viveiro de todas as atuais tendências oportunistas da socialdemocracia ocidental. ... fornece fundamento às ilusões do oportunismo atual, tais como a valoração exagerada das reformas sociais, a colaboração entre partidos e classes, a esperança de um desenvolvimento pacífico para o socialismo etc... Com o crescimento do movimento do trabalho, o parlamentarismo se transformou na mola impulsionadora dos carreiristas políticos. É por isso que tantos ambiciosos fracassados da burguesia afluem para os estandartes dos partidos socialistas ... [O objetivo é] dissolver o setor de classe ativo e consciente do proletariado na massa amorfa de um “eleitorado”.48

A dissolução, tratada por Rosa Luxemburgo como uma ameaça, foi completamente realizada em nossos dias, utilizando a noção de “eleitorado amorfo” como seu fundamento ideológico legitimador. Por esse processo, não apenas a socialdemocracia ocidental claramente reformista, mas também os afiliados anteriormente revolucionários da Terceira Internacional, transformaram a si próprios em partidos liberais burgueses, consumando dessa forma a capitulação do “braço político” do trabalho aos imperativos “racionais” e “realistas” do capital. Tudo isso veio a ocorrer de um modo muito mais fácil do que se poderia imaginar previamente, pois o processo de dissolução das estratégias defensivas do trabalho foi objetivamente auxiliado e sustentado pelas relações de poder material do sistema do capital, que, no processo de produção e consumo, pode apenas reconhecer o trabalhador e o consumidor isolado e, na esfera política, o eleitor equivalente ao trabalhador impotente. Essa é a razão pela qual a política “representacional”, ao invés de efetivar a prometida “via italiana para o socialismo” — teve finalmente que se degradar em todas as suas partes até o nível do exercício de relações públicas comuns, excretando de suas entranhas e catapultando para o ápice da política parlamentar criaturas “representativas”, como o magnata da mídia Silvio Berlusconi, exatamente no país do, outrora, Partido Comunista de Gramsci.”

48 Rosa Luxemburgo, “Organizational questions of the ‘Russian Social Democracy’”, publicado sob o título “Leninism or Marxism?” in The Russian Revolution and Leninism or Marxism?, introdução de Bertram D. Wolfe, The University of Michigan Press, Ann Arbor, 1970, p. 98.

 

 

“O que decide a questão é a relação entre os objetivos visados pelo trabalho e os parâmetros estruturais da ordem socioeconômica estabelecida. Nesse sentido, quaisquer concessões obtidas pelo trabalho que sejam compatíveis e contidas pelo sistema do capital orientado-para-a-expansão e dirigido-para-a-acumulação são, justamente por isso, impróprias para alterar a postura defensiva e a posição estruturalmente subordinada do antagonista do capital. Este é o caso, independentemente da violência dos embates e confrontações periódicos — incluindo até mesmo uma greve geral mais dramática —, por meio dos quais o trabalho obtém os ganhos que o capital finalmente decidir conceder. As concessões dadas ao trabalho pelo “Estado de bem-estar social” não debilitaram em absolutamente nada o capital. Muito pelo contrário, contribuíram significativamente para a dinâmica expansionista do sistema por um período contínuo de duas décadas e meia após a Segunda Guerra Mundial. Nem tais concessões alteraram a relação de forças em favor do trabalho; na verdade, debilitaram a sua combatividade, reforçando as mistificações do reformismo. Naturalmente, isso não significa que se possa deixar de defender os ganhos defensivos do passado, especialmente quando o capital, sob a pressão de uma crise estrutural que se aprofunda, é forçado a tentar revogá-los. Significa, entretanto, que as ilusões associadas às concessões, ao longo da história da social-democracia reformista, devem ser expostas pelo que realmente são, e não pela fantasia sobre a viabilidade do trabalho a partir da “alternativa econômica estratégica” neokeynesiana. Tal alternativa não apenas é totalmente irreal nas circunstâncias da crise estrutural do capital, mas, se por algum milagre pudesse ser implementada, nem mesmo chegaria a constituir uma alternativa.

A alternativa hegemônica do trabalho ao domínio pelo capital é inconcebível sem a erradicação completa do capital do processo sociometabólico. Por isso, a derrubada do capitalismo pode apenas arranhar a superfície do problema. Um bom indicador das inadequações para a realização do projeto socialista é o slogan de que tudo pode ser derrubado, inclusive o Estado e — pela “expropriação dos expropriadores” — as personificações capitalistas do capital. A negação radical do Estado capitalista e a igualmente negativa “expropriação dos expropriadores” sempre foram consideradas por Marx apenas o primeiro passo necessário na direção da transformação socialista exigida. Ele insistiu que até mesmo a negação mais radical permanece na dependência do objeto de sua negação. E as implicações deste julgamento são cruciais para a autoadministração dos produtores associados divisada como a alternativa hegemônica à ordem social do capital, pois a realização de tal ordem pode apenas ser um empreendimento inerentemente positivo. Por isso, a revolução socialista, não importa o quanto seja radical em intenção, não pode ser concebida como um ato único. Como vimos em O 18 Brumário, Marx descreveu a revolução social como um ato contínuo, consistentemente autocrítico, ou seja, como uma revolução permanente capaz de prover e constantemente melhorar o modo de controle positivamente autodeterminado da ordem socialista. (...)

Portanto, o objetivo real da transformação socialista — que ultrapassa a negação do Estado e das personificações do capital — só pode ser o estabelecimento de uma ordem sociometabólica alternativa autossustentada. Uma ordem da qual o capital — com todos os seus corolários, inclusive o denominado “mecanismo do mercado”, que na realidade não poderia ser outra coisa que não um “mecanismo” — tenha sido irreversivelmente removido. E isso significa que a remoção não se dá apenas na forma da inevitável transcendência crítica, mas, muito mais importante, pela apropriação positiva e pela melhoria contínua das funções vitais de intercâmbio metabólico com a natureza e entre os membros da sociedade pelos próprios indivíduos que se autodeterminam. Compreensivelmente, a articulação defensiva do movimento socialista impossibilita a realização do objetivo da alternativa hegemônica do trabalho à ordem estabelecida. Ou seja, todos os termos de referência de sua confrontação particular com o capital cuja finalidade seja apenas manter o status quo, ou ainda obter para o trabalho uma fatia mínima da melhoria dada pela riqueza social, estão estritamente circunscritos pelos limites de viabilidade da ordem governante e, consequentemente, pela lógica destrutiva de seus imperativos materiais expansionistas. Isto explica por que os castelos de areia da socialdemocracia reformista viraram poeira, um acontecimento tão dramático quanto as falsas promessas do sistema implodido do capital pós-capitalista de tipo soviético. Enquanto permaneceram cativas das suas diferentes posturas defensivas — responsáveis por suas derrotas — em relação à ordem sociometabólica do capital, as duas alas da esquerda histórica não desafiaram o domínio do capital, buscando, quando da sua origem, e de forma autocontraditória, melhorias sustentáveis e ganhos em favor do trabalho.

Hoje, à luz da experiência histórica do século XX e do fracasso de todas as tentativas passadas de superar os constrangimentos desumanizadores e as contradições do capitalismo, o significado da negação radical só pode ser definido como um momento subordinado do projeto positivo da alternativa hegemônica do trabalho ao capital no sentido discutido acima. A rearticulação do movimento socialista, como uma ofensiva estratégica para se ir além do capital, é, nesse sentido, também uma condição prévia e necessária para que sucessos parciais, no devido tempo, possam se tornar cumulativos dentro da estrutura da estratégia correta. Sem a finalidade apropriada da ofensiva estratégica — orientada para a ordem socialista como uma alternativa hegemônica à existente — o próprio percurso ficará sem orientação. E, certamente, não mais poderemos dispor do luxo de vagar por outro século e meio tentando produzir mudanças estruturais nos confins estruturais paralisantes do sistema do capital.

Aqueles que pensaram que a alternativa hegemônica socialista “é irreal” — e, sem qualquer interesse disfarçado, defenderam a todo custo a ordem estabelecida — deveriam se perguntar: é realmente possível e logicamente sustentável projetar a permanência de um sistema sociometabólico de reprodução baseado nos imperativos materiais fetichistas da lógica destrutiva do capital? Os resignados a suportar a inércia do “realismo” do capital que se autoperpetua podem seriamente continuar defendendo que a incontrolabilidade destrutiva do capital não está lançando perspectivas cada vez mais sombrias no horizonte de sobrevivência humana? Agora, até mesmo os defensores mais acríticos da ordem vigente são obrigados a reconhecer que os problemas mais sérios ainda estão diante de nós. A “única” diferença é que, confundindo desejo com realidade, eles esperam do poder repressivo do capital a solução definitiva para todos esses problemas. Na verdade, porém, mais irreal não é a alternativa hegemônica socialista ao domínio do capital em todas as suas formas historicamente conhecidas e ainda possíveis, mas a projeção gratuita de que a humanidade pode sobreviver por muito mais tempo ainda dentro dos limites estruturais necessariamente destrutivos do modo estabelecido de reprodução sociometabólica.”

 

 

Na época do Iluminismo, os porta-vozes da ordem burguesa acreditaram honestamente que o “interesse pessoal esclarecido” traria seus benefícios abundantes para toda a humanidade, eliminando completamente a pobreza da face da Terra. Acreditavam nisso porque as contradições internas do sistema do capital não tinham ainda revelado o seu desdobramento necessário na forma da dissipação destrutiva de riqueza. Isto estava reservado para o futuro da raça humana, quando a autoexpansão contínua do capital não pudesse mais ser assegurada por qualquer outro modo além do escárnio dos ideais, no início honestamente patrocinados, de “Liberdade, Fraternidade, Igualdade”. Agora, toda conversa sobre o “interesse pessoal esclarecido” não vai além de uma camuflagem cínica do fato de que a maioria oprimida das pessoas é categoricamente excluída de seu exercício pela hierarquia estrutural do capital e seu sistema de comando autoritário.”

 

 

É obsceno chamar de “livre e democrático” um sistema econômico que tem como sua condição material prévia a alienação absoluta das condições de produção dos produtores, e, para seu modo de operação, a imposição permanente de uma estrutura de comando autoritária — tanto nos locais de trabalho como na sociedade em geral — por meio da qual a extração contínua de trabalho excedente é assegurada com a finalidade da reprodução ampliada do capital. Sobre a proposição segundo a qual a restauração das relações de propriedade capitalista constitui a “garantia para a renovação do socialismo”, ela só pode provar algo que os gregos descobriram milhares anos atrás: que os deuses antes enlouquecem aqueles a quem querem destruir.”

 

 

Este modo de reprodução sociometabólica na qual trabalho objetivado e alienado — assumindo a forma de capital, com sua própria lógica e inércia material — rege o trabalho “tem sentido” tão somente enquanto tiver sentido a incomparável dinâmica de expansão do sistema. A questão, não obstante, permanece: para quem, a que preço e que tipo de consciência julga, ou é capaz de julgar, se a autoexpansão inexorável do capital “tem ou não sentido”? Este não pode ser o pseudossujeito coletivo, o capital. Em sua substância, pois, o capital é nada mais que “a objetivação do trabalho alienado, valor que confronta independentemente a capacidade de trabalho55. Na medida em que o capital pode e consegue adquirir consciência e vontade por meio de suas personificações, ele pode somente fazer julgamentos preconceituosos, fatalmente distorcidos em seu favor. Pré-julgamentos alterados ocorrem tanto no interesse do capital em geral, como totalizador do intercâmbio sociometabólico, como a favor de interesses parciais da pluralidade de capitais e das personificações particulares do capital. O veredito requerido, portanto, não pode basear-se nos interesses de todos os membros de uma sociedade historicamente dada (inclusive dos trabalhadores particulares), muito menos nos interesses do trabalho como uma classe cuja alternativa hegemônica ao existente contradiz diametralmente a ordem dada. E evidentemente a base de julgamento não pode ser a consideração dos interesses da humanidade, nem mesmo quando a própria sobrevivência da humanidade está em jogo. Assim, a determinação sobre o que “tem sentido” só pode ser feita com base nas relações de poder prevalecentes, conforme os ditames materiais da contínua autoexpansão do capital. Os interesses da classe burguesa e a inércia material das estruturas reprodutivas dadas atuam todos na mesma direção. As negações — moldadas pelas formas anteriores de protesto do trabalho e suas conceituações intelectuais — permanecem problemáticas e “utópicas” até que se alcance uma fase de desenvolvimento socioeconômico na qual possa ser postulada a viabilidade da alternativa hegemônica do trabalho ao modo estabelecido de controle. Sob tais condições, ao trabalho será possível propor a negação da ordem estabelecida não como uma contraimagem ideal do sistema de comando antagônico do capital, e portanto necessariamente um sistema violentamente imposto e autoritário, mas como um modo de tomada de decisão materialmente sustentável, assim como democrático em um sentido substantivo, em todas as relações produtivas e distributivas.

É óbvio que, quando a dissipação destrutiva dos recursos naturais e da riqueza social se torna a condição objetiva da reprodução ampliada do capital, a “dominação contínua da riqueza sobre a sociedade” já não pode fazer sentido do ponto de vista da reprodução societária sustentável. Realmente, quanto maior a dinâmica interna do impulso do capital para a reprodução ampliada — que nas fases anteriores de desenvolvimento representava um recurso positivo vital —, cuja destrutividade, em uma escala antes absolutamente inimaginável, torna-se uma parte integrante de todo o processo, mais irracional se torna defendê-la. O problema, porém, é que, apesar de sua ameaçadora irracionalidade, o modo estabelecido de reprodução ampliada continua, tanto quanto antes, a “ter sentido” do ponto de vista do próprio capital. Ou seja, o capital, como causa sui, não pode reconhecer — menos ainda permitir — qualquer alternativa a seu próprio modo de operação, que é incorrigivelmente orientado-para-a-expansão. Assim, as equações do capital não se alteram, nem mesmo quando o “valor que confronta independentemente a capacidade de trabalho” se torna simultaneamente um antivalor que confronta toda a humanidade, pressagiando a destruição do sociometabolismo em si. O fato pode apenas agravar o autoritarismo de seu sistema de comando, pois a racionalidade auto-orientada da reprodução ampliada do capital, como causa sui, tem que eliminar — sempre que necessário, até mesmo pela aplicação das formas mais tirânicas de repressão política — todas as formas alternativas de racionalidade. A história ofereceu evidências de metamorfoses do capital “democrático” em formas extremas de autoritarismo em épocas marcadas por crises importantes, o que não tranquiliza quanto à possibilidade de que este fato volte a ocorrer no futuro.”

55 Marx e Engels, Collected Works (MECW), vol. 34, p. 423.

 

 

“De um ponto de vista socialista, os patrões não são “bons” nem “maus”. Apenas são patrões. E isto já é suficientemente mau: de fato, não poderia ser pior. Esta é a razão pela qual se torna vital ultrapassar os limites paralisantes da política de consenso, que se recusa a reconhecer essa verdade elementar e faz com que a população de um modo geral sofra com as desastrosas consequências de seus crescentes fracassos.”

 

 

“Rótulos, por mais tentadores que sejam, não resolvem problemas teóricos complexos: apenas os escamoteiam, dando a ilusão de uma solução.”

 

 

Capitalismo é aquela fase particular da produção do capital na qual:

1. a produção para a troca (e assim a mediação e dominação do valor de uso pelo valor de troca) é dominante;

2. a própria força de trabalho, tanto quanto qualquer outra coisa, é tratada como mercadoria;

3. a motivação do lucro é a força reguladora fundamental da produção;

4. o mecanismo vital de formação da mais-valia, a separação radical entre meios de produção e produtores, assume uma forma inerentemente econômica;

5. a mais-valia economicamente extraída é apropriada privadamente pelos membros da classe capitalista; e

6. de acordo com seus imperativos econômicos de crescimento e expansão, a produção do capital tende à integração global, por intermédio do mercado internacional, como um sistema totalmente interdependente de dominação e subordinação econômica.”

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