quarta-feira, 25 de março de 2026

Para além do capital: rumo a uma teoria da transição (Parte II), de István Mészáros

Editora: Boitempo

ISBN: 978-85-7559-145-1

Tradução: Paulo Cezar Castanheira e Sérgio Lessa

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 1104

Sinopse: Ver Parte I



O sistema do capital se baseia na alienação do controle dos produtores. Neste processo de alienação, o capital degrada o trabalho, sujeito real da reprodução social, à condição de objetividade reificada — mero “fator material de produção” — e com isso derruba, não somente na teoria, mas na prática social palpável, o verdadeiro relacionamento entre sujeito e objeto. Para o capital, entretanto, o problema é que o “fator material de produção” não pode deixar de ser o sujeito real da produção. Para desempenhar suas funções produtivas, com a consciência exigida pelo processo de produção como tal — sem o que deixaria de existir o próprio capital —, o trabalho é forçado a aceitar um outro sujeito acima de si, mesmo que na realidade este seja apenas um pseudo-sujeito. Para isto, o capital precisa de personificações que façam a mediação (e a imposição) de seus imperativos objetivos como ordens conscientemente exequíveis sobre o sujeito real, potencialmente o mais recalcitrante, do processo de produção. (As fantasias sobre a chegada do processo de produção totalmente automatizado e sem trabalhadores são geradas como a eliminação imaginária deste problema.)”

 

 

O sistema do capital é um modo de controle sociometabólico incontrolavelmente voltado para a expansão. Dada a determinação mais interna de sua natureza, as funções políticas e reprodutivas materiais devem estar nele radicalmente separadas (gerando assim o Estado moderno como a estrutura de alienação por excelência), exatamente como a produção e o controle devem nele estar radicalmente isolados. No entanto, neste sistema, “expansão” só pode significar expansão do capital, a que deve se subordinar tudo o mais, e não o aperfeiçoamento das aspirações humanas e o fornecimento coordenado dos meios para sua realização. É por isso que, no sistema do capital, os critérios totalmente fetichistas da expansão têm de se impor à sociedade também na forma de separação e alienação radicais do poder de tomada de decisões de todos — inclusive as “personificações do capital”, cuja “liberdade” consiste em impor a outros os imperativos do capital — e em todos os níveis de reprodução social, desde o campo da produção material até os níveis mais altos da política. Uma vez definidos à sua maneira pelo capital os objetivos da existência social, subordinando implacavelmente todas as aspirações e valores humanos à sua expansão, não pode sobrar espaço algum para a tomada de decisão, exceto para a que estiver rigorosamente preocupada em encontrar os instrumentos que melhor sirvam para atingir-se a meta predeterminada.”

 

 

“Entretanto, não é a “intenção” ou “motivação para acumular” dos capitalistas individuais que decide a questão, mas o imperativo objetivo da expansão do capital. Sem conseguir realizar seu processo de reprodução expandida, o sistema do capital desmoronaria — mais cedo ou mais tarde, mas com certeza absoluta. No que diz respeito às motivações e “intenções subjetivas”, cada uma das personificações do capital “deve pretender’, por assim dizer, os fins delineados pelas determinações expansionistas do próprio sistema e não seus próprios “fins egoístas”, como indivíduos particulares. Sem impor a afirmação deste primado irracional do imperativo expansionista sobre todas as motivações e intenções pessoais, o domínio do capital não se sustentaria nem no mais curto dos curtos prazos.

Em sua mais íntima determinação, o sistema do capital está totalmente orientado para a expansão — o que significa que está voltado nessa direção a partir de seu próprio ponto de vista objetivo — e é impelido pela acumulação, em termos da necessária instrumentalidade de seu objetivo projetado. É a mesmíssima correlação que aparece (e deve aparecer), do ponto de vista subjetivo das personificações particulares do capital, exatamente ao inverso — ou seja, eles devem apresentar seu sistema como voltado para a acumulação e impelido pela expansão. “Expansão” entra em seu campo de visão de maneira negativa, com força maior sob as circunstâncias de sua ausência nociva, em vez de entrar como a mais sólida e mais positiva determinação do sistema a que servem. (...)

O importante aqui é que o sistema do capital permanece incontrolável precisamente porque o relacionamento estrutural objetivo entre a intenção consciente e a exigência expansionista objetiva não pode ser revertido dentro dos parâmetros deste sistema sociometabólico particular em favor de intenções verdadeiramente controladoras (isto é, intenções que deixariam a própria expansão sujeita ao teste das limitações positivamente justificadoras). Não pode haver espaço para intenções operacionais conscientemente executadas — ou seja, realmente autônomas — no quadro de referências estrutural do capital, porque os imperativos e as exigências rigorosamente instrumentais do sistema como um todo devem ser impostos e internalizados pelas personificações do capital como “suas intenções” e “suas motivações”. Qualquer tentativa de afastamento da necessária instrumentalidade resulta em intenções frustradas e nulificadas, ou seja, inteiramente quixotescas. O sistema segue (e implacavelmente afirma sobre todos os indivíduos, inclusive suas personificações “controladoras”) as próprias “determinações férreas”, não importando a gravidade de suas implicações até para a sobrevivência humana e num prazo nem assim tão longo. Mas é claro que isto não pode ser admitido por aqueles que enxergam e teorizam o mundo do ponto de vista do capital.”

 

 

A segunda ordem de mediações do sistema do capital pode ser assim resumida:

a família nuclear, articulada como o “microcosmo” da sociedade que, além do papel de reproduzir a espécie, participa de todas as relações reprodutivas do “macrocosmo” social, inclusive da necessária mediação das leis do Estado para todos os indivíduos e, dessa forma, vital também para a reprodução do próprio Estado;

• os meios alienados de produção e suas “personificações”, pelos quais o capital adquire rigorosa “vontade férrea” e consciência inflexível para impor rigidamente a todos submissão às desumanizadoras exigências objetivas da ordem sociometabólica existente;

• o dinheiro, com suas inúmeras formas enganadoras e cada vez mais dominantes ao longo do desenvolvimento histórico — desde a adoração ao bezerro de ouro na época de Moisés e das tendas dos cambistas no templo de Jerusalém na época de Jesus (práticas muito reais, apesar de figurativamente descritas, castigadas com fúria pelo código moral da tradição judeu-cristã — embora, considerando a evidência histórica, totalmente em vão), passando pelo baú do usurário e pelos empreendimentos necessariamente limitados do antigo capital mercantilista, até chegar à força opressora global do sistema monetário dos dias de hoje;

• os objetivos fetichistas da produção, submetendo de alguma forma a satisfação das necessidades humanas (e a atribuição conveniente dos valores de uso) aos cegos imperativos da expansão e acumulação do capital;

• o trabalho, estruturalmente separado da possibilidade de controle, tanto nas sociedades capitalistas, onde tem de funcionar como trabalho assalariado coagido e explorado pela compulsão econômica, como sob o capital pós-capitalista, onde assume a forma de força de trabalho politicamente dominada;

• as variedades de formação do Estado do capital no cenário global, onde se enfrentam (às vezes com os meios mais violentos, levando a humanidade à beira da autodestruição) como Estados nacionais autônomos...

e

• ... o incontrolável mercado mundial, em cuja estrutura, protegidos por seus respectivos Estados nacionais no grau permitido pelas relações de poder prevalecentes, os participantes devem se adaptar às precárias condições de coexistência econômica e ao mesmo tempo esforçar-se por obter para si as maiores vantagens possíveis, eliminando os rivais e propagando assim as sementes de conflitos cada vez mais destruidores.

Só se pode falar de círculo vicioso com relação à maneira como estão unidos todos esses componentes do modo estabelecido de controle sociometabólico. As mediações particulares de segunda ordem sustentam-se reciprocamente, impossibilitando contrabalançar a força alienadora e paralisante de qualquer uma isoladamente enquanto se mantiver intacto o poder de autorregeneração e autoimposição do sistema global. Baseada na dolorosa evidência histórica, surge a verdade desconcertante: através das interconexões estruturais das partes que o constituem, o sistema do capital consegue se impor sobre os esforços emancipadores parciais que visam alvos específicos limitados. Com isso, os adversários da ordem estabelecida da reprodução sociometabólica, incorrigivelmente discriminatória, têm de enfrentar e superar não apenas a força positiva autossustentada de extração do trabalho excedente pelo capital, mas também a força devastadoramente negativa (a inércia aparentemente ameaçadora) de suas ligações circulares.

É por esta razão que a verdadeira meta da transformação socialista radical deve ser o próprio sistema do capital com todas as suas mediações de segunda ordem e não apenas a expropriação legal das personificações capitalistas privadas do capital. Pois não somente o ato da expropriação legal pode ser anulado com relativa simplicidade pela mudança da forma capitalista privada tradicional das personificações do capital em alguma de suas variações pós-capitalistas historicamente viáveis, como acontece por exemplo nas sociedades de tipo soviético. Mais do que isso, permanece também o fato desconcertante de que qualquer coisa instituída numa determinada conjuntura histórica por meios legislativos pode ser revertida e totalmente desfeita através das devidas medidas legais sob circunstâncias históricas diferentes. Assim, a “expropriação dos expropriadores” legalmente decretada, na qual tanta esperança foi depositada, especialmente nas primeiras etapas da história do movimento socialista internacional, pode também “voltar atrás” nas sociedades pós-capitalistas pela reafirmação aberta, no devido tempo e quando as circunstâncias permitirem, da lógica restauradora do capitalismo privado mencionado na seção 4.1.2. Isto já foi tentado na Rússia de Gorbachev e foi mais ou menos realizado nos últimos sete anos — depois de uma breve tentativa totalmente fútil do fantasioso remédio chamado “socialismo de mercado” — nos países do Leste europeu pós-guerra dominados pelos soviéticos.”

 

 

“O segundo aspecto que se deve ter em mente é ainda mais importante: diz respeito ao lado inerentemente positivo das aspirações socialistas, ao contrário da indispensável mas insuficiente negação da subordinação formal e real do trabalho ao capital.

Esse lado positivo é mais importante porque, sem o estabelecimento de condições para sua realização, o projeto socialista não pode demonstrar sua viabilidade sequer como negação radical da ordem estabelecida, não importando a legitimidade de sua preocupação com a destrutividade fundamental da incontrolável acumulação do capital e da sujeição da carência humana aos imperativos da contínua expansão dos valores de troca. Acontece que é relativamente fácil dizer não, não somente para o modo capitalista de controlar os indivíduos sociais, mas em princípio também para o capital em geral, consideradas todas as suas raízes e ramificações históricas, inclusive suas metamorfoses pós-capitalistas dolorosamente experimentadas no século XX.

O lado positivo do projeto socialista não pode ser articulado sem se enfrentar os problemas da mediação primária sociometabólica. Em outras palavras, a dimensão positiva da alternativa socialista não pode se tornar realidade a menos que se encontre um equivalente racionalmente controlável e humanamente compensador de todas essas funções vitais da reprodução individual e social que devem ser realizadas — de alguma forma — por todos os sistemas de intercâmbio mediador produtivo.

Neste sentido, devemos estar conscientes das necessárias implicações de duas características definidoras inalteráveis:

1) os seres humanos são uma parte da natureza que deve satisfazer suas necessidades elementares por meio de um constante intercâmbio com a natureza — e...

2) eles são constituídos de tal maneira que não podem sobreviver como indivíduos da espécie a que pertencem (a única espécie “intervencionista” do mundo natural) num intercâmbio não mediado com a natureza — como fazem os animais — regulado pelo comportamento instintivo diretamente determinado pela natureza, por mais complexo que seja esse comportamento instintivo dos animais.

Em consequência dessas condições e determinações ontológicas, os indivíduos humanos devem sempre atender às inevitáveis exigências materiais e culturais de sua sobrevivência por meio das indispensáveis junções primárias de mediação entre si e com a natureza de modo geral. Isto significa assegurar e salvaguardar as condições objetivas de sua reprodução produtiva sob circunstâncias que mudam inevitável e progressivamente, sob a influência de sua própria intervenção através da atividade produtora — a ontologia unicamente humana do trabalho — na ordem original da natureza, que só será possível se envolver plenamente todas as facetas da reprodução humana produtiva e a complexa dialética do trabalho e da história da reprodução autoprodutiva.

Assim, não há como escapar do imperativo de estabelecer relacionamentos estruturais fundamentais pelos quais as funções vitais da mediação primária sejam exercidas enquanto a humanidade sobreviver. Paradoxalmente, o círculo vicioso das mediações de segunda ordem do capital é grandemente reforçado porque suas principais formas historicamente evoluídas (discutidas na seção 4.2.1) estão todas ligadas (ainda que de maneira alienada) a alguma mediação primária ou de primeira ordem da atividade básica produtiva/reprodutiva — fato esse perigosamente ignorado pelos socialistas.

As formas essenciais da mediação primária abrangem as relações em cujo quadro tanto os indivíduos da espécie humana como as entrelaçadas condições culturais/ intelectuais/morais/materiais cada vez mais complexas de sua vida são reproduzidos segundo a margem de ação sócio-histórica disponível e cumulativamente ampliada. Entre essas condições estão:

• a regulação da atividade reprodutora biológica, mais ou menos espontânea e imprescindível, e o tamanho da população sustentável, em conjunto com os recursos disponíveis;

• a regulação do processo de trabalho, pelo qual o indispensável intercâmbio da comunidade com a natureza produz os bens necessários para gratificação do ser humano, além dos instrumentos de trabalho, empresas produtoras e conhecimentos pelos quais se pode manter e aperfeiçoar esse processo de reprodução;

• o estabelecimento de relações adequadas de troca, sob as quais as necessidades historicamente mutáveis dos seres humanos podem ser associadas para otimizar os recursos naturais e produtivos (inclusive os culturalmente produtivos);

• a organização, a coordenação e o controle das múltiplas atividades pelas quais se asseguram e se preservam os requisitos materiais e culturais para a realização de um processo bem-sucedido de reprodução sociometabólica das comunidades humanas cada vez mais complexas;

• a alocação racional dos recursos humanos e materiais disponíveis, combatendo a tirania da escassez pela utilização econômica (no sentido de economizadora) dos meios e formas de reprodução da sociedade, tão viável quanto possível com base no nível de produtividade atingido e dentro dos limites das estruturas socioeconômicas estabelecidas; e

• a promulgação e administração das normas e regulamentos do conjunto da sociedade, aliadas às outras funções e determinações da mediação primária.

Como se pode ver, nenhum desses imperativos da mediação primária exige, em si e por si, o estabelecimento de hierarquias estruturais de dominação e subordinação como o quadro indispensável da reprodução sociometabólica. As determinações opressivas dos modos hierárquicos de controle da reprodução surgem de outras raízes no curso da história. Inevitavelmente, as mediações de segunda ordem de sistemas de reprodução social historicamente específicos afetam profundamente a realização de quaisquer das funções de mediação primária.

Portanto, graças às mediações de segunda ordem do capital cada uma das formas primárias é alterada de modo a se tornar quase irreconhecível, para adequar-se às necessidades expansionistas de um sistema fetichista e alienante de controle sociometabólico, que subordina absolutamente tudo ao imperativo da acumulação de capital. Por exemplo, é por esta razão que, no sistema do capital, a meta teimosamente perseguida de reduzir os “custos de produção”, tanto os materiais como os do trabalho vivo e a concomitante luta contra a escassez mostram fantásticas realizações, de um lado, para em seguida anulá-las completamente de outro, criando as mais absurdas carências e “apetites artificiais” que para nada servem, a não ser para a reprodução, cada vez mais dissipadora, dessa “ordem econômica ampliada”. Igualmente, quando consideramos outra das exigências da mediação primária — a promulgação e a administração de normas destinadas ao intercâmbio social mais abrangente —, também encontramos sua distorção típica. As práticas indispensáveis para a promulgação e a administração de tais regras excluem sumariamente a avassaladora maioria dos indivíduos, porque estes ocupam as camadas inferiores na estrutura de comando do capital tanto na “sociedade civil” como no Estado político. Na melhor das hipóteses, eles podem apenas “participar”49, no sentido mais superficial, pelo exercício, uma vez em cada quatro ou cinco anos, de seu “poder político” para abdicar de seus “direitos democráticos”, legitimando assim o mencionado sistema de igualdade formal e desigualdade substantiva, estruturalmente imposto e prejulgado pelo capital. As funções mediadoras primárias, de decreto e administração de normas sociais — que, em princípio, poderiam ser exercidas de maneira bem mais democrática por todos para benefício de todos —, assumem a forma alienada do Estado político moderno. O mandato desse Estado é impor aos indivíduos a reprodução ampliada do sistema do capital em seus próprios termos, segundo sua constituição objetiva e determinação estrutural como a estrutura abrangente de comando político do capital.

Mesmo assim, em relação às inevitáveis funções primárias da mediação da reprodução social, não pode haver certa nostalgia romântica em relação a alguma “condição original” ou “estado natural” idealizado. Nenhuma delas poderia ser considerada primária, num sentido cronológico. Em todos os modos viáveis de reprodução sociometabólica, elas não constituem uma camada historicamente primária, mas uma camada estrutural e, assim, devem ser sempre remodeladas segundo as especificidades sócio-históricas da ordem reprodutiva em que continuam a exercer sua funções — como determinações trans-históricas — dentro da objetiva dialética da “continuidade na descontinuidade” e vice-versa.

Naturalmente, assim como não poderia existir um “estado natural original” idealizado, correspondente direto das mediações primárias a que se poderia voltar, também não há forma de escapar à determinação estrutural das necessidades de mediação trans-historicamente persistentes. Contudo, justamente por esta razão, existe um mundo de diferença entre a situação em que as funções de mediação primárias estruturalmente inevitáveis sejam remodeladas sob as circunstâncias históricas prevalecentes — sempre na forma de mediações de segunda ordem — que levam à autorrealização do ser humano e aquela em que, pelo contrário, sejam destrutivamente opostas a estas.

É impossível passar do círculo vicioso das mediações de segunda ordem do capital, seja para o mundo romantizado de um “estado original” mais ou menos idílico, que nas velhas parábolas da religião e da filosofia precederam a “queda” da alienação, seja para uma terra-de-ninguém inteiramente constituída dos parâmetros estruturais da igualmente idealizada mediação primária. Gostando-se ou não, esta só pode existir nas, ou por meio das, mediações de segunda ordem das ordens sociais historicamente cambiantes. Da mesma forma, o significado do projeto socialista — ao contrário do modo de reprodução do capital, que deixa as alavancas do controle fora do alcance dos indivíduos até mesmo nas palavras de seus ilustres idealizadores, desde a “mão invisível” de Adam Smith até a “astúcia da Razão” de Hegel — é o estabelecimento de um conjunto coerente de mediações de segunda ordem, viáveis na prática e controladas racionalmente, não por certa misteriosa entidade impessoal como o “Espírito do Mundo” e suas variantes, nem por um “coletivo” mítico, mas por indivíduos reais.

Dadas as inevitáveis ligações às condições sócio-históricas que as precederam — condições passíveis de transcendência apenas no triplo sentido da boa expressão do alemão antigo Aufhebung (“superação”, “preservação” e “elevação a um nível superior”) —, ninguém poderia sustentar a sério que as mediações de segunda ordem do processo de reprodução socialista estivessem livres de restrições, mesmo das gravemente limitadoras, sobretudo em suas primeiras etapas de desenvolvimento. Não obstante, há uma grande diferença: o projeto socialista visa reduzir progressivamente a força dessas restrições — em vez de transformar sua permanência em virtude, como fazem os defensores do sistema do capital, em nome de um mercado idealizado e outras estruturas reificadas de dominação.

Neste sentido, a alternativa socialista se define como um conjunto de práticas que cumprem as funções mediadoras primárias da reprodução sociometabólica em base racionalmente constituída e (conforme as necessidades humanas que mudam historicamente) alterável em sua estrutura, ou seja, sem subjugar os indivíduos ao “poder das coisas”. A viabilidade de ir-se além do capital depende inteiramente dessa importantíssima questão. A luz da experiência histórica, é dolorosamente óbvio que, quaisquer que sejam as dificuldades pelo caminho, não se pode esperar sucesso duradouro, nem sequer no objetivo limitado de oposição ao capitalismo, sem que se troque o círculo vicioso das mediações intertravadas de segunda ordem do capital por uma alternativa positiva sustentável. Isto requer a instituição de formas e estruturas de controle metabólico por meio das quais os indivíduos — empenhados no necessário intercâmbio de uns com os outros e com a natureza, em harmonia com as exigências das funções mediadoras primárias da existência humana — possam dar significado às possibilidades da “reprodução ampliada”. Não no sentido de submissão à tirania de uma “ordem econômica ampliada” fetichista, mas ampliando suas próprias forças criativas como indivíduos sociais.”

49 Na rebelião de maio de 68 em Paris, um dos cartazes que apareceu nos muros da Sorbonne dizia: “Eu e Você participamos, Ele/Ela participam, Nós e Vocês participamos, Eles... lucram”. Vê-se que imaginosa e sucintamente pegaram o espírito da coisa, levantando também a necessidade de colocar a “criatividade no poder”. Bom, mas seria preciso muito mais do que a imaginação para tirar o capital de sua posição de poder protegida e estruturalmente resguardada.

 

 

De qualquer maneira, essa idealização do capitalismo e a simultânea condenação do nacionalismo são não apenas hipócritas, mas inteiramente contraditórias. Os países capitalistas dominantes sempre defenderam (e continuam a defender) seus interesses econômicos vitais como combativas entidades nacionais, apesar de toda a retórica e mistificação em contrário. Suas companhias mais poderosas estabeleceram-se e continuam a funcionar pelo mundo afora; são “multinacionais” apenas no nome. Na verdade, são corporações transnacionais que não se sustentariam por si mesmas. Harry Magdoff convincentemente enfatizou:

“É importante ter em mente que praticamente todas as multinacionais são de fato organizações nacionais que funcionam em escala global. Não estamos negando que o capitalismo seja, e sempre foi, desde o início, um sistema mundial, nem que tal sistema tenha se tornado mais integrado por ação das multinacionais. Contudo, assim como é essencial compreender e analisar o capitalismo como sistema mundial, é igualmente necessário admitir que cada empresa capitalista se relaciona ao sistema mundial por intermédio do Estado-nação e, em última análise, dele depende.12

A expressão “multinacional” é frequentemente usada de modo completamente equivocado, ocultando a verdadeira questão do domínio das empresas capitalistas de uma nação mais poderosa sobre as economias locais — em perfeita sintonia com as determinações e os antagonismos mais profundos do sistema do capital global. De modo geral, as nações capitalistas dominantes defendem seus interesses com todos os meios à sua disposição — pacíficos enquanto possível, mas recorrendo à guerra se não houver outra forma. Esse relacionamento entre o capitalismo do século XX e suas unidades econômicas dominadoras tem, muitas vezes, uma concepção mal formulada até pelas personalidades mais importantes das esquerdas parlamentares, que criticam em termos vagos sua forma externa, mas não seu conteúdo. Em sua crítica às “multinacionais”, por exemplo, essas lideranças muitas vezes pensam que as restrições legislativas defendidas em seus parlamentos nacionais limitados podem resolver tudo. Entretanto, o dedo acusador deve apontar firmemente para as contradições cada vez maiores do sistema do capital e suas iníquas hierarquias e relações de poder internacionais — e não para algumas “multinacionais que interferem na política”, por maiores que sejam essas companhias. E isto torna a possibilidade de uma solução duradoura incomparavelmente mais difícil do que a promulgação de medidas legislativas de restrição para empresas transnacionais específicas. Porque o remédio deve ser aplicado a algum mecanismo crucial do sistema como um todo, com sua relação geral de forças, se não se quiser que as indeterminações estruturais desta última anulem a intervenção legislativa prevista. Citando Magdoff mais uma vez:

... o desenvolvimento das corporações multinacionais é meramente a última emanação da infatigável acumulação de capital e do impulso inato em direção a uma maior concentração e centralização do capital. ...qualquer sucesso das políticas do governo resulta da manutenção ou restauração da saúde da economia por meio da promoção do poder de empresas gigantescas, pois sem a prosperidade dessas empresas a economia só pode ir ladeira abaixo. As razões básicas para a impotência dos governos em manter suas economias num barco flutuando com uniformidade serão encontradas nos limites e contradições do capitalismo monopolista. Em outras palavras, os problemas não surgem dos males das multinacionais ou da presumida redução da soberania dos Estados-nações industrializados e avançados; os problemas são inerentes à natureza de uma sociedade capitalista.13

12 Harry Magdoff, Imperialism: From the Colonial Age to the Present, Nova York, Monthly Review Press, 1978, p. 183.

13 Id., ibid., pp. 187-8.

 

 

Com exceção do conceito de “revolução”, o de “soberania” é o mais maltratado no discurso político burguês. No mundo das relações realmente existentes de poder, significa a justificação impecável para que as grandes potências (nas palavras de Hegel, “as nações históricas do mundo”) espezinhem a soberania — o teoricamente inviolável direito à autonomia e à autodeterminação — das nações menores, utilizando qualquer pretexto adequado à conveniência dos poderosos, desde o “incidente do golfo de Tonquim” totalmente inventado contra o Vietnã do Norte, até a proposta de supressão do “pandemônio étnico”. Assim, a defesa da soberania das nações menores deve ser parte integrante da tentativa de emancipação do domínio do capital no campo das relações entre os Estados. Com o sistema existente de dominação e subordinação, intensificado pela pressão do capital trans-nacional para afirmar seus interesses acima de todas as aspirações à autonomia e à autodeterminação nacionais, a luta dos oprimidos por uma soberania há muito negada é um passo inevitável no processo da transição para uma ordem sociometabólica qualitativamente diferente. Como corretamente ressaltou Constantino, ela não pode evitar ser negativa — a rejeição e a negação de uma interferência do Estado mais forte — e defensiva, em sua oposição à atribuição de um status inferior na ordem hierárquica do sistema do capital.

A alternativa positiva ao domínio do capital não pode ser defensiva. Todas as posturas defensivas sofrem de uma instabilidade fundamental, pois até as melhores defesas podem ser derrubadas sob fogo concentrado, dada uma mudança conveniente nas relações de poder em favor do adversário. Assim, a defesa da soberania nacional e do direito à autodeterminação não pode ser a última palavra nessas questões, embora com certeza seja o primeiro passo indispensável. A defesa contra os excessos do grande capital continua deixando intocado o caráter abusivo (manifesto em sua exploração do trabalho e na inalterável dominação estrutural) do sistema do capital, o que torna qualquer possibilidade de êxito rigorosamente temporária e arriscada. Depois da Segunda Guerra, o destino de grande parte das lutas de libertação contra o domínio colonial sob a liderança da burguesia nacional ilustra claramente essas dificuldades. Elas só conseguiram substituir o domínio do capital antes exercido sob a administração direta colonial-imperialista por alguma de suas versões “neocoloniais” e “neocapitalistas” de dependência estrutural, apesar dos enormes sacrifícios dos povos envolvidos nas guerras anticolonialistas.”

 

 

A tendência universalizadora do capital tem sido irresistível (e também, de muitas maneiras, benéfica) há muito tempo na história. Por isso, alguns clássicos da filosofia burguesa podiam conceituar — com certa justificativa — o “mal radical” como instrumento para realizar o bem. Contudo, para ver o mundo do ponto de vista do capital, eles teriam necessariamente de omitir as limitações históricas. Em si, o capital não é mau nem bom, mas “indeterminado” em relação aos valores humanos. No entanto, essa “indeterminação” abstrata, que o torna compatível com o progresso concreto sob circunstâncias históricas favoráveis, adquire uma destrutividade devastadora quando as condições objetivas associadas às aspirações humanas começam a resistir a seu inexorável impulso expansionista.

A tendência universalizadora do capital, que nos trouxe ao ponto em que hoje estamos, emanou de seu “impulso ilimitado e infinito para superar a barreira limitadora”, qualquer que tenha sido esta: obstáculos naturais ou fronteiras culturais e nacionais. Além do mais, a mesma tendência universalizadora era inseparável da necessidade de deslocar os antagonismos internos do sistema por meio da constante ampliação da escala de suas operações.

É da natureza do capital não reconhecer qualquer medida de restrição, não importando o peso das implicações materiais dos obstáculos a enfrentar, nem a urgência relativa (chegando à emergência extrema) em relação a sua escala temporal. A própria ideia de “restrição” é sinônimo de crise no quadro conceitual do sistema do capital. A degradação da natureza ou a dor da devastação social não têm qualquer significado para seu sistema de controle sociometabólico, em relação ao imperativo absoluto de sua autorreprodução numa escala cada vez maior. É por isto que durante o seu desenvolvimento histórico se excedeu o capital em todos os planos — incluído seu relacionamento com as condições básicas da reprodução sociometabólica —, mas estava destinado a fazê-lo cedo ou tarde.”

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