Editora: Martin Claret
ISBN: 978-85-7232-762-6
Tradução: Alex Marins
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Opinião: ★☆☆☆☆
Páginas: 517
Sinopse: Em Leviatã (1651), o autor fala das condições de dissoluções do Estado, em que
somente a concentração de autoridade garante a unidade e a paz social. Suas
ideias políticas apoiaram o absolutismo do século XVII. Segundo o filósofo, a
primeira lei natural do homem é a da autopreservação, que o induz a impor-se
sobre os demais — “guerra de todos contra todos”.
“O que imaginarmos
será finito. Portanto não existe qualquer ideia, ou concepção de algo que
possamos denominar infinito. Nenhum homem pode ter em seu espírito uma imagem
de magnitude infinita, nem conceber uma velocidade infinita, um tempo infinito,
ou uma força infinita, ou um poder infinito. Quando dizemos que alguma coisa é
infinita, queremos apenas dizer que não somos capazes de conceber os limites e
fronteiras da coisa designada, não tendo concepção da coisa, mas de nossa
própria incapacidade.”
“Pois entre a
verdadeira ciência e as doutrinas errôneas situa-se a ignorância. A sensação e
a imaginação naturais não estão sujeitas a absurdos. A natureza em si não pode
errar; e à medida que os homens vão adquirindo uma abundância de linguagem,
vão-se tornando mais sábios ou mais loucos do que habitualmente. Nem é possível
sem letras que algum homem se torne ou extraordinariamente sábio, ou
extraordinariamente louco, a menos que sua memória seja atacada por doença, ou
tenha deficiência na constituição dos órgãos.”
“Contudo, aqueles
que não possuem qualquer ciência encontram-se numa condição melhor e mais
nobre, com sua natural prudência, do que os homens que, por raciocinarem mal ou
por confiarem na incorreta razão, caem em regras gerais falsas e absurdas.
Porque a ignorância das causas e das regras não afasta tanto os homens de seu
caminho como a confiança em falsas regras e o fato de tomarem, como causas
daquilo a que aspiram, causas que o não são, pois são causas do contrário.”
“Do que os homens
desejam se diz também que o amam, e que odeiam aquelas coisas pelas quais sentem
aversão. De modo que o desejo e o amor são a mesma coisa, salvo que por desejo
sempre se quer significar a ausência do objeto, e quando se fala em amor
geralmente se quer indicar a presença do mesmo. Também por aversão se significa
a ausência, e quando se fala de ódio pretende-se indicar a presença do objeto.
(...)
Das coisas que não
desejamos nem odiamos se diz que as desprezamos. Não sendo o desprezo outra
coisa senão uma imobilidade ou contumácia do coração, ao resistir à ação de
certas coisas, a qual deriva do fato de o coração estar já estimulado de
maneira diferente por objetos mais potentes, ou da falta de experiência com
relação àquilo.”
“O apetite, ligado
à crença de conseguir, chama-se esperança.
Sem essa crença, o
apetite chama-se desespero.
Chama-se medo a
opinião ligada à crença de dano proveniente do objeto.
Chama-se cólera a
coragem súbita.
Chama-se confiança
em si mesmo a esperança constante.
Chama-se
desconfiança em si mesmo o desespero constante.
Chama-se
indignação a cólera perante um grande dano feito a outrem, quando pensamos que
este foi feito por injúria.
Chama-se
benevolência, boa vontade, caridade, o desejo do bem dos outros. Se for do bem
do homem em geral, chama-se bondade natural.
Chama-se cobiça o
desejo do bem dos outros, palavra que é sempre usada em tom de censura, porque
os homens que lutam por elas veem com desagrado que outros as consigam; embora
o desejo em si mesmo deva ser censurado ou permitido conforme a maneira como se
procura conseguir essas riquezas.
Chama-se ambição o
desejo de cargos ou de preeminência, nome usado também no pior sentido, pela
razão acima referida.
Chama-se
pusilanimidade o desejo de coisas que só contribuem um pouco para nossos fins e
o medo das coisas que constituem apenas um pequeno impedimento.
Chama-se
magnanimidade o desprezo pelas pequenas ajudas e impedimentos.
Chama-se coragem
ou valentia a magnanimidade, em perigo de morte ou de ferimentos.
Chama-se
liberalidade a magnanimidade no uso das riquezas.
Chama-se
mesquinhez e tacanhez ou parcimônia a pusilanimidade quanto a esse mesmo uso,
conforme dela se goste ou não.
Chama-se
amabilidade o amor pelas pessoas, sob o aspecto da convivência social.
Chama-se
concupiscência natural o amor pelas pessoas apenas sob o aspecto dos prazeres
dos sentidos.
Chama-se luxúria o
amor pelas pessoas adquirido por reminiscência obsessiva, isto é, por
imaginação do prazer passado.
Chama-se paixão do
amor o amor por uma só pessoa, junto ao desejo de ser amado com exclusividade.
Chama-se ciúme o amor junto com o receio de que o amor não seja recíproco.
Chama-se ânsia de
vingança o desejo de causar dano a outrem, a fim de levá-lo a lamentar qualquer
de seus atos. (...)
Chama-se religião
o medo dos poderes invisíveis, inventados pelo espírito ou imaginados a partir
de relatos publicamente permitidos; quando esses não são permitidos, chama-se
superstição. Quando o poder imaginado é realmente como o imaginamos, chama-se
verdadeira religião.
O medo sem se
saber por que ou de que se chama terror, pânico, nome que lhe vem das fábulas
que faziam de Pan seu autor. Na verdade, existe sempre em quem primeiro sente
esse medo certa compreensão da causa, embora os restantes fujam devido ao
exemplo, cada um supondo que seu companheiro sabe por quê. Portanto, esta
paixão só ocorre numa turba ou multidão de pessoas. (...)
Chama-se desalento
a tristeza devida à convicção da falta de poder.
Chama-se vanglória
a invenção ou suposição de capacidades que se sabe não se possuir, é
extremamente frequente nos jovens, e é alimentada pelas narrativas verdadeiras
ou fictícias de feitos heroicos. Muitas vezes é corrigida pela idade ou pela
ocupação.
O entusiasmo
súbito é a paixão que provoca aqueles trejeitos a que se chama riso. Este é
provocado ou por um ato repentino de nós mesmos que nos diverte, ou pela visão
de alguma coisa deformada em outra pessoa, devido à comparação com a qual
subitamente nos aplaudimos a nós mesmos. Isto acontece mais com aqueles que têm
consciência de menor capacidade em si mesmos, e são obrigados a reparar nas imperfeições
dos outros para poderem continuar sendo a favor de si próprios. Portanto, um
excesso de riso perante os defeitos dos outros é sinal de pusilanimidade.
Porque o que é próprio dos grandes espíritos é ajudar os outros a evitar o
escárnio, e comparar-se apenas com os mais capazes.
O desalento
súbito, pelo contrário, é a paixão que provoca o choro, o qual é provocado por
aqueles acidentes que bruscamente vêm tirar uma esperança veemente, ou por um
fracasso do próprio poder. Os que lhe estão mais sujeitos são os que contam
sobretudo com ajudas externas, como as mulheres e as crianças. Assim, alguns
choram porque perderam os amigos, outros por causa da falta de amabilidade
destes últimos, e outros pela brusca paralisação de seus pensamentos de
vingança, provocada pela reconciliação. Mas em todos os casos, tanto o riso
como o choro são movimentos repentinos, e o hábito a ambos faz desaparecer.
Pois ninguém ri de piadas velhas, nem chora por causa de uma velha calamidade.
A vergonha é a
tristeza devida à descoberta de alguma falta de capacidade, a paixão que se
revela através do rubor. Consiste ela na compreensão de uma coisa desonrosa.
Nos jovens é sinal de amor à boa reputação, e é louvável. Nos velhos é sinal do
mesmo, mas, como já chega tarde demais, não é louvável.
Chama-se
imprudência o desprezo pela boa reputação.
Chama-se piedade a
tristeza perante a desgraça alheia, e surge do imaginar que a mesma desgraça
poderia acontecer a nós mesmos. Por isso é também chamada compaixão, ou então,
na expressão atualmente em voga, sentimento de companheirismo. Assim, por
calamidades provocadas por uma grande maldade, os melhores homens são os que
sentem menos piedade, e pela mesma calamidade, os que sentem menos piedade são
os que se consideram menos sujeitos à mesma.
Chamam crueldade o
desprezo ou pouca preocupação com a desgraça alheia, que deriva da segurança da
própria fortuna. Pois considero inconcebível que alguém possa tirar prazer dos
grandes prejuízos alheios, sem que tenha um interesse pessoal no caso.
Chama-se emulação
a tristeza causada pelo sucesso de um competidor em riqueza, honra ou outros
bens se se lhe juntar o esforço para aumentar nossas próprias capacidades, a
fim de igualá-lo ou superá-lo. Chama-se inveja quando ligada ao esforço para
suplantar ou levantar obstáculos ao competidor.
Chama-se
deliberação todo o conjunto de desejos, aversões, esperanças e medos, que vão
se desenrolando até que a ação seja praticada, ou considerada impossível,
quando surgem alternadamente no espírito humano apetites e aversões, esperanças
e medos, relativamente a uma mesma coisa; quando passam sucessivamente pelo
pensamento as diversas consequências boas ou más de uma ação, ou de evitar uma
ação; de modo tal que às vezes se sente um apetite em relação a ela, e às vezes
uma aversão; às vezes a esperança de ser capaz de praticá-la, e às vezes o
desespero ou medo de empreendê-la. (...)
Esta sucessão
alternada de apetites, aversões, esperanças e medos não é maior no homem do que
nas outras criaturas vivas, consequentemente os animais também deliberam.
Diz-se então que
toda deliberação chega ao fim quando aquilo sobre que se deliberava foi feito
ou considerado impossível, pois até esse momento conserva-se a liberdade de
fazê-lo ou evitá-lo, conformemente aos próprios apetites ou aversões.”
“Sem firmeza e
direção para um fim determinado, uma grande imaginação é uma espécie de
loucura, como acontece com aqueles que, iniciando um novo discurso, se deixam
desviar de seu objetivo, por qualquer coisa que lhes passe pelo pensamento,
para longas digressões e parênteses, até que inteiramente se percam.”
“As paixões que
provocam de maneira mais decisiva as diferenças de talento são, principalmente,
o maior ou menor desejo de poder, de riqueza, de saber e de honra. Todas as
quais podem ser reduzidas à primeira, que é o desejo de poder. Porque a
riqueza, o saber e a honra não são mais do que diferentes formas de poder.”
“Universalmente
considerado, o poder de um homem consiste nos meios de que presentemente dispõe
para obter qualquer visível bem futuro.”
“Os títulos de
honra, como duque, conde, marquês, e barão, são honrosos, pois significam o
valor que lhes é atribuído pelo poder soberano do Estado. Nos tempos antigos
esses títulos correspondiam a cargos e funções de mando, sendo alguns derivados
dos romanos, e outros dos germanos e franceses. Os duques, em latim duces, eram
generais de guerra. Os condes, comites, eram os companheiros ou amigos do
general, e era-lhes confiado o governo e a defesa dos lugares conquistados e
pacificados. Os marqueses, marchiones, eram condes que governavam as marcas ou
fronteiras do Império. Estes títulos de duque, conde e marquês foram
introduzidos no Império, na época de Constantino, o Grande, numa adaptação dos
costumes da milícia dos germanos. Mas barão parece ter sido um título dos
gauleses, e significa um grande homem, como os guardas que os reis e príncipes
usavam na guerra para rodear sua pessoa. (...) Com o passar do tempo estes
cargos de honra, por ocasião de distúrbios ou por razões de bom e pacífico
governo, foram transformados em meros títulos, servindo em sua maioria para
distinguir a preeminência, lugar e ordem dos súditos no Estado, e foram
nomeados duques, condes, marqueses e barões para lugares dos quais essas
pessoas não tinham posse nem comando, e criaram-se também outros títulos, para
o mesmo fim.”
“E ao homem é
impossível viver quando seus desejos chegam ao fim, tal como quando seus
sentidos e imaginação ficam paralisados. (...)
Assinalo assim, em
primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e
irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte. E a
causa disto nem sempre é que se espere um prazer mais intenso do que aquele que
já se alcançou, ou que cada um não possa contentar-se com um poder moderado,
mas o fato de não se poder garantir o poder e os meios para viver bem que
atualmente se possuem sem adquirir mais ainda. E daqui se segue que os reis,
cujo poder é maior, se esforçam por garanti-lo no interior através de leis, e
no exterior através de guerras. E depois disto feito surge um novo desejo, em
alguns, de fama por uma nova conquista, em outros, de conforto e prazeres
sensuais, e em outros de admiração, de serem elogiados pela excelência em
alguma arte, ou outra qualidade do espírito.”
“A competição pela
riqueza, a honra, o mando e outros poderes leva à luta, à inimizade e à guerra,
porque o caminho seguido pelo competidor para realizar seu desejo consiste em
matar, subjugar, suplantar ou repelir o outro. (...)
O desejo de
conforto e deleite sensual predispõe os homens para a obediência ao poder
comum, pois com tais desejos se abandona a proteção que poderia esperar-se do
esforço e trabalho próprios. O medo da morte e dos ferimentos produz a mesma
tendência, e pela mesma razão. Pelo contrário, os homens necessitados e
esforçados, que não estão contentes com sua presente condição, assim como todos
os homens que ambicionam a autoridade militar, têm tendência para provocar
situações belicosas e para causar perturbações e revoltas, pois só na guerra há
honra militar, e a única esperança de remediar um mau jogo é dar as cartas uma
vez mais.”
“Provocar em
alguém um mal maior do que se pode ou se está disposto a sofrer, faz tender
para odiar quem sofreu o mal, pois só se pode esperar vingança ou perdão; e
ambos são odiosos.”
“A curiosidade, ou
amor pelo conhecimento das causas, afasta o homem da contemplação do efeito
para a busca da causa, e depois também da causa dessa causa, até que forçosamente
deve chegar a esta ideia: que há uma causa da qual não há causa anterior,
porque é eterna; que é aquilo a que os homens chamam Deus. De modo que é
impossível proceder a qualquer investigação profunda das causas naturais, sem
com isso nos inclinarmos para acreditar que existe um Deus eterno, embora não
possamos ter em nosso espírito uma ideia dele que corresponda a sua natureza.
Porque tal como um homem que tenha nascido cego, que ouça outros falarem de
irem aquecer-se junto ao fogo, e seja levado a aquecer-se junto ao mesmo, pode
facilmente conceber, e convencer-se, de que há ali alguma coisa a que os homens
chamam fogo, e é a causa do calor que sente, mas é incapaz de imaginar como ele
seja, ou de ter em seu espírito uma ideia igual à daqueles que veem o fogo;
assim também, através das coisas visíveis deste mundo, e de sua ordem
admirável, se pode conceber que há uma causa dessas coisas, a que os homens
chamam Deus, mas sem ter uma ideia ou imagem dele no espírito.
E aqueles que
pouca ou nenhuma investigação fazem das causas naturais das coisas, todavia,
devido ao medo que deriva da própria ignorância, daquilo que tem o poder de
lhes ocasionar grande bem ou mal, tendem a supor, e a imaginar por si mesmos,
várias espécies de poderes invisíveis, e a se encherem de admiração e respeito
por suas próprias fantasias. Em épocas de desgraça tendem a invocá-las, e
quando esperam um bom sucesso tendem a agradecer-lhes, transformando em seus
deuses as criaturas de sua própria fantasia. E foi dessa maneira que aconteceu,
devido à infinita variedade da fantasia, terem os homens criado no mundo
inúmeras espécies de deuses. Este medo das coisas invisíveis é a semente
natural daquilo a que cada um em si mesmo chama religião, e naqueles que
veneram e temem esse poder de maneira diferente da sua, superstição.
E tendo esta
semente da religião sido observada por muitos, alguns dos que a observaram
tenderam a alimentá-la, revesti-la e conformá-la às leis, e a acrescentar-lhe,
de sua própria invenção, qualquer opinião sobre as causas dos eventos futuros
que melhor parecesse capaz de lhes permitir governar os outros, fazendo o
máximo uso possível de seus poderes.”
“Quanto àquela
parte da religião que consiste nas opiniões relativas à natureza dos poderes
invisíveis, quase nada há com um nome que não tenha sido considerado entre os
gentios, em um ou outro lugar, como um deus ou um demônio, ou imaginado pelos
poetas como animado, habitado ou possuído por um ou outro espírito.
A matéria informe
do mundo era um deus com o nome de Caos.
O céu, o oceano,
os planetas, o fogo, a terra, os ventos, eram outros tantos deuses.
Os homens, as
mulheres, um pássaro, um crocodilo, uma vaca, um cão, uma cobra, uma cebola, um
alho-porro, todos foram divinizados. Além disso, encheram quase todos os
lugares com espíritos chamados daemons. As planícies, com Pan, e panises, ou
sátiros; os bosques, com faunos e ninfas; o mar, com tritões e outras ninfas;
cada rio e cada fonte, com um fantasma do mesmo nome, e com ninfas; cada casa
com seus lares ou familiares; cada homem com seu gênio; o inferno, com
fantasmas e acólitos espirituais como Caronte, Cérbero e as Fúrias; e de noite
todos os lugares com larvas, lêmures, fantasmas de homens falecidos, e todo um
reino de fadas e duendes. Também atribuíram divindade e dedicaram templos a
meros acidentes e qualidades, como o tempo, a noite, o dia, a paz, a concórdia,
o amor, o ódio, a virtude, a honra, a saúde, a corrupção, a febre, e outros
semelhantes. E em suas preces, a favor ou contra, a eles oravam, como se
houvesse fantasmas com esses nomes pairando sobre suas cabeças, os quais
deixariam cair, ou impediriam de cair, aquele bem ou mal a favor do qual, ou
contra o qual oravam. Invocavam também seu próprio engenho, sob o nome de
Musas; sua própria ignorância, sob o nome de Fortuna; seu próprio desejo sob o
nome de Cupido; sua própria raiva sob o nome de Fúrias; seu próprio membro
viril sob o nome de Príapo; atribuíam suas ejaculações a Íncubos e Súcubos; de
modo tal que nada que um poeta pudesse introduzir como pessoa em seu poema
deixavam de fazer um deus, ou um demônio.
Os mesmos autores
da religião dos gentios, observando o segundo fundamento da religião, que é a
ignorância que os homens têm das causas, e consequentemente sua tendência para
atribuir sua sorte a causas das quais ela em nada aparenta depender,
aproveitaram para impor à sua ignorância, em vez das causas secundárias, uma
espécie de deuses secundários e ministeriais, atribuindo a causa da fecundidade
a Vênus, a causa das artes a Apolo, a da sutileza e sagacidade a Mercúrio, a
das tormentas e tempestades a Éolo, e as de outros efeitos a outros deuses. De
modo tal que havia entre os pagãos quase tão grande variedade de deuses como de
atividades.
As formas de
veneração que os homens naturalmente consideravam próprias para oferecer aos
seus deuses, tais como sacrifícios, orações e ações de graças, além das acima
referidas, os mesmos legisladores dos gentios acrescentaram suas imagens, tanto
em pintura como em escultura. A fim de que os mais ignorantes (quer isto dizer,
a maior parte, ou a generalidade do povo), pensando que os deuses em cuja
representação tais imagens eram feitas nelas realmente estavam incluídos, como
se nelas estivessem alojados, pudessem sentir perante elas ainda mais medo. E
dotaram-nos com terras e casas, funcionários e rendas, separadas de todos os
outros usos humanos, isto é, santificadas e consagradas a esses seus ídolos;
tais como cavernas, grutas, bosques e montanhas, e também ilhas inteiras; e
atribuíram-lhes, não apenas as formas, umas de homens, outras de animais, e
outras de monstros, mas também as faculdades e paixões de homens e animais,
como a sensação, a linguagem, o sexo, o desejo, a geração (e isto não apenas
misturando-se uns com os outros, para propagar a raça dos deuses, mas
misturando-se também com os homens e as mulheres, produzindo deuses híbridos, e
simples moradores dos céus, como Baco, Hércules e outros); e além dessas também
o ódio e a vingança, e outras paixões das criaturas vivas, assim como as ações
delas derivadas, como a fraude, o roubo, o adultério, a sodomia, e todo e
qualquer vício que possa ser tomado como efeito do poder, e causa do prazer; e
todos aqueles vícios que entre os homens são considerados mais como contrários
à lei do que contrários à honra.
E por último, aos
prognósticos dos tempos vindouros, que naturalmente não passam de conjeturas
baseadas na experiência dos tempos passados, e sobrenaturalmente não são mais
do que revelação divina, os mesmos autores da religião dos gentios, baseando-se
em parte numa pretensa experiência, e em parte numa pretensa revelação,
acrescentaram inúmeras outras supersticiosas maneiras de adivinhação. E fizeram
os homens acreditar que descobririam sua sorte, às vezes nas respostas ambíguas
ou destituídas de sentido dos sacerdotes de Delfos, Delos, e Amon, e outros
famosos oráculos, respostas que eram propositadamente ambíguas, para dar conta
do evento de ambas as maneiras, ou absurdas, pelas intoxicantes emanações do
lugar, o que é muito frequente em cavernas sulfurosas. Às vezes nas folhas das
sibilas, sobre cujas profecias (como talvez as de Nostradamus, pois os
fragmentos atualmente existentes parecem ser invenção de uma época posterior)
havia alguns livros que gozavam de grande reputação no tempo da República Romana.
Às vezes nos insignificantes discursos de loucos, supostamente possuídos por um
espírito divino, ao que chamavam entusiasmo, e a estas maneiras de predizer
acontecimentos se chamava teomancia ou profecia. Às vezes no aspecto
apresentado pelas estrelas ao nascer, o que se chamava horoscopia, e era
considerado parte da astrologia judicial. Às vezes em suas próprias esperanças
e temores, o que se chamava tumomancia ou presságio. Às vezes nas predições dos
bruxos, que pretendiam comunicar-se com os mortos, o que se chama necromancia,
esconjuro e feitiçaria, e não passa de um misto de impostura e fraude. Às vezes
no voo ou forma de se alimentar casual das aves, o que se chamava augúrio. Às
vezes nas entranhas de um animal sacrificado, o que se chamava aruspicina. Às
vezes nos sonhos. Às vezes no crocitar dos corvos ou no canto dos pássaros. Às
vezes nas linhas do rosto, o que se chamava metoposcopia, ou pela palmistria
nas linhas da mão, ou em palavras casuais, o que se chamava omina. Às vezes em
monstros ou acidentes invulgares, como eclipses, cometas, meteoros raros,
terremotos, inundações, nascimentos prematuros e coisas semelhantes, a que
chamavam portento e ostenta, porque pensavam que eles prediziam ou pressagiavam
alguma grande calamidade futura. Às vezes no simples acaso, como no jogo de
cara ou coroa, ou na contagem do número de orifícios de um crivo, ou no jogo de
escolher versos de Homero e Virgílio, e em inúmeras outras vãs invenções do
gênero. Tão fácil é os homens serem levados a acreditar em a qualquer coisa por
aqueles que gozam de crédito junto deles, que podem com cuidado e destreza
tirar partido de seu medo e ignorância.
Portanto os
primeiros fundadores e legisladores de Estados entre os gentios, cujo objetivo
era apenas manter o povo em obediência e paz, em todos os lugares tiveram os
seguintes cuidados. Primeiro, o de incutir em suas mentes a crença de que os
preceitos que ditavam a respeito da religião não deviam ser considerados como
provenientes de sua própria invenção, mas como os ditames de algum deus, ou
outro espírito, ou então de que eles próprios eram de natureza superior à dos
simples mortais, a fim de que suas leis fossem mais facilmente aceites. Assim,
Numa Pompílio pretendia ter recebido da ninfa Egéria as cerimônias que
instituiu entre os romanos; o primeiro rei e fundador do reino do Peru
pretendia que ele e sua esposa eram filhos do Sol; e Maomé, para estabelecer
sua nova religião, pretendia falar com o Espírito Santo, sob a forma de uma
pomba. Em segundo lugar, tiveram o cuidado de fazer acreditar que aos deuses
desagradavam as mesmas coisas que eram proibidas pelas leis. Em terceiro lugar,
o de prescrever cerimônias, suplicações, sacrifícios e festivais, os quais se
devia acreditar capazes de aplacar a ira dos deuses. Assim, como que da ira dos
deuses resultava o insucesso na guerra, grandes doenças contagiosas,
terremotos, e a desgraça de cada indivíduo; e que essa ira provinha da falta de
cuidado com sua veneração, e do esquecimento ou do equívoco em qualquer aspecto
das cerimônias exigidas. E, embora entre os antigos romanos não fosse proibido
negar aquilo que nos poetas está escrito sobre os sofrimentos e os prazeres
depois desta vida, que foram abertamente satirizados por vários indivíduos de
grande autoridade e peso nesse Estado, apesar disso, essa crença sempre foi
mais aceita do que rejeitada.
E através destas e
outras instituições semelhantes conseguiam, a serviço de seu objetivo (que era
a paz do Estado), que o vulgo, em ocasiões de desgraça, atribuísse a culpa à
falta de cuidado, ou ao cometimento de erros, em suas cerimônias, ou à sua
própria desobediência às leis, tornando-se assim menos capaz de rebelar-se
contra seus governantes.”
“A natureza fez os
homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito que, embora por
vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito
mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto,
a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que
qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não
possa também aspirar, tal como ele.”
“Pois a natureza
dos homens é tal que, embora sejam capazes de reconhecer em muitos outros maior
inteligência, maior eloquência ou maior saber, dificilmente acreditam que haja
muitos tão sábios como eles próprios; porque veem sua própria sabedoria bem de
perto, e a dos outros homens à distância. Mas isto prova que os homens são
iguais quanto a esse ponto, e não que sejam desiguais.
Pois geralmente
não há sinal mais claro de uma distribuição equitativa de alguma coisa do que o
fato de todos estarem contentes com a parte que lhes coube. Desta igualdade
quanto à capacidade deriva a igualdade quanto à esperança de atingirmos nossos
fins.
Portanto se dois
homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo que é impossível ela ser gozada
por ambos, eles tornam-se inimigos. E no caminho para seu fim (que é
principalmente sua própria conservação, e às rezes apenas seu deleite)
esforçam-se por se destruir ou subjugar um ao outro e disto se segue que,
quando um invasor nada mais tem a recear do que o poder de um único outro
homem, se alguém planta, semeia, constrói ou possui um lugar conveniente, é
provavelmente de esperar que outros venham preparados com forças conjugadas,
para desapossá-lo e privá-lo, não apenas do fruto de seu trabalho; mas também
de sua vida e de sua liberdade. Por sua vez, o invasor ficará no mesmo perigo
em relação aos outros.
Contra esta
desconfiança de uns em relação aos outros, nenhuma maneira de se garantir é tão
razoável como a antecipação; isto é, pela força ou pela astúcia, subjugar as
pessoas de todos os homens que puder, durante o tempo necessário para chegar ao
momento em que não veja qualquer outro poder suficientemente grande para ameaçá-lo.
E isto não é mais do que sua própria conservação exige, conforme é geralmente
admitido. Também por causa de alguns que, comprazendo-se em contemplar seu
próprio poder nos atos de conquista, levam estes atos mais longe do que sua
segurança exige, se outros que, do contrário, se contentariam em manter-se
tranquilamente dentro de modestos limites, não aumentarem seu poder por meio de
invasões, eles serão incapazes de subsistir durante muito tempo, se se
limitarem apenas a uma atitude de defesa. Esse aumento do domínio sobre os
homens, sendo necessário para a conservação de cada um, deve ser por todos
admitido, obviamente.”
“Na natureza do
homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição;
segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória. A primeira leva os homens a
atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança; e a terceira,
a reputação. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das
pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para
defendê-los; e os terceiros por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma
diferença de opinião, e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente
dirigido a suas pessoas, quer indiretamente a seus parentes, seus amigos, sua
nação, sua profissão ou seu nome.
Com isto se torna
manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz
de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se
chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens.
Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele
lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente
conhecida. Portanto a noção de tempo deve ser levada em conta quanto à natureza
da guerra, do mesmo modo que quanto à natureza do clima. Porque tal como a
natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa
tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da
guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante
todo o tempo em que não há garantia do contrário. Todo o tempo restante é de
paz.
Portanto tudo
aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de
todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem
sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e
sua própria invenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu
fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem
uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções
confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de
grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem
artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante
temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre,
sórdida, embrutecida e curta.”
“O direito de
natureza, a que os autores geralmente chamam jus naturale, é a liberdade
que cada homem possui de usar seu próprio poder, da maneira que quiser, para a
preservação de sua própria natureza, ou seja, de sua vida; e consequentemente
de fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios
adequados a esse fim.
Por liberdade
entende-se, conforme a significação própria da palavra, a ausência de
impedimentos externos, impedimentos que muitas vezes tiram parte do poder que
cada um tem de fazer o que quer, mas não podem obstar a que use o poder que lhe
resta, conforme o que seu julgamento e razão lhe ditarem.”
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