segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Em busca do socialismo: últimos escritos & outros textos (Parte I) – Florestan Fernandes

Editora: Xamã
ISBN: 85-85833-10-6
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 270
Sinopse: Coletânea de textos do maior sociólogo brasileiro escolhidos pelo próprio Florestan pouco antes de sua internação hospitalar em 1995. Este livro, nascido da vontade do autor de reafirmar sua trajetória política em defesa dos “de baixo”, compõe-se de artigos escritos em diferentes épocas, revelando a atualidade de temas como o papel do intelectual na sociedade e a luta pelo socialismo.


“Os petistas não devem se deixar iludir. Eles precisam se fazer duas perguntas: 1) A socialdemocracia, adulterada para servir às nações capitalistas centrais, é viável na periferia e nela perderia o caráter de uma capitulação dos trabalhadores e dos assalariados de outros escalões ao despotismo do capital? 2) O PT manterá a natureza de uma necessidade histórica dos trabalhadores e dos movimentos sociais radicais se preferir a ‘ocupação do poder’ à ótica revolucionária marxista?”


“No mesmo documento O PT em movimento, Florestan reivindicou para o PT uma base programática que deixasse claro que “em sua versão operária radical, o socialismo significa superação e supressão: da força de trabalho como mercadoria; da propriedade privada dos meios de produção; da separação entre trabalho manual e intelectual; da divisão do trabalho; da exploração do homem pelo homem; da deformação da educação para servir à hegemonia ideológica das classes dominantes; do preconceito, discriminação e segregação, com motivos econômicos ou não, de classe, de raça, de etnia, de nacionalidade, de sexo, de idade, de religião ou de convicções filosóficas; do imenso complexo do vício organizado; da fabricação da neurose, da psicose e da alienação social provocada; dos poderosos cartéis das drogas e de sua disseminação; do uso mercantil ou destrutivo da ciência e da tecnologia científica; da existência de classe, da dominação de classe e da sociedade de classes; da indiferença à metropolização intensiva e ao aparecimento de megalópoles, núcleos de concentração da pobreza relativa e da pobreza absoluta, bem como da difusão do vício comercializado; do armamentismo e do militarismo como pilares da tirania, do colonialismo e do imperialismo; da guerra em todas as suas modalidades, nas relações entre povos ou nações e na ‘partilha do mundo’”” (Osvaldo Coggiola)


“Para o sociólogo, não existe neutralidade possível: o intelectual deve optar entre o compromisso com os exploradores ou com os explorados.”


“Ir às raízes das coisas pode ser, para um escritor liberal, descobrir uma maneira inteligente de preservar a ordem social estabelecida, e, para um escritor revolucionário, um modo congruente de fazer a ordem social estabelecida voar pelos ares. Nessa proporção seria possível comparar John Stuart Mill e Pierre Joseph Proudhon. É, pois, intrínseco ao intelectual ser mais do que um fermento ou uma promessa de fermento e, se ele não for ao mesmo tempo homem de poder (o que acontece com frequência), ele estará certamente numa relação orgânica com as fontes e o exercício do poder, no âmbito de uma instituição (como a igreja, a universidade, o partido, o sindicato) ou no âmbito da sociedade global.”


“Necessitamos, de novo, de um pensamento crítico que seja capaz de superar a filosofia em favor da ciência, mas sem abandoná-la, suficientemente compreensivo e objetivo para articular entre si uma atitude materialista consistente, o método científico mais rigoroso e a análise dialética objetiva das categorias de representação e de explicação do real. Em suma, necessitamos de uma ciência social histórica que abarque a totalidade da situação humana, que possa apreender a um tempo natureza e personalidade, estrutura e dinamismo, economia e sociedade, ideologia e verdade, o movimento histórico efetivo como ligação entre passado e presente e como criação incessante de um futuro novo, pelo qual a negação do presente apareça como abolição revolucionária da situação existente pela atividade coletiva dos seres humanos. Uma ciência social histórica que combine, intrínseca e objetivamente, a crítica de si mesma como conhecimento à crítica da ordem existente tal como ela se produz pela luta de classes, pela desalienação ativa e pela autoliberação coletiva dos oprimidos, ou seja, que se manifeste univocamente como teoria e prática, como expressão autêntica da verdadeira ciência em sua capacidade de transcender o enquadramento ideológico burguês e de fazer parte do “movimento que abole o presente estado de coisas”, isto é, de ser comunista, de identificar-se com a situação social de interesses de classe dos trabalhadores com o que ela significa para o advento e o desenvolvimento de um novo ciclo histórico revolucionário.
No ponto de partida das ciências sociais, a ideologia de classe dominante converteu o economista, por exemplo, em “sacerdote da burguesia”. Todavia, o economista distorcia a realidade, mas era possível chegar a esta através da crítica do conhecimento teórico deformado que ele produzia. Dominação ideológica e hegemonia de classe cruzavam-se de tal modo na cena histórica, que a instrumentalidade da ciência nas duas direções assegurava à economia política um mínimo de veracidade (embora essa fosse, apenas, uma veracidade de burguesa). Nas condições objetivas que cercam o capitalismo monopolista da era atual (que outros preferem chamar de capitalismo tardio) não existe mais um espaço histórico que permita restringir a deformação do conhecimento na esfera das ciências sociais. A objetividade torna-se em si mesma incompatível com a dominação ideológica da burguesia e a sua hegemonia de classe exige uma conversão imediata da ciência em técnica social de controle (como meio de obter consenso ou de dissociar o comportamento das massas de qualquer objetivo independente). Instaura-se, assim, uma evolução regressiva, graças à qual se dissolve a substância do método científico, embora se mantenham todas as aparências que infundem ao “conhecimento científico” a categoria de uma forma específica de saber. O paradigma de explicação das ciências sociais ou fomenta os “procedimentos empíricos” (naturalmente necessários à coleta de informações indispensáveis para qualquer técnica social de controle); ou exalta os “procedimentos sistêmicos”, pelos quais a história é volatilizada e a ciência é convertida em equivalente das divagações filosofantes. A regressão apontada está aí: o novo “sacerdote da burguesia”, o cientista político, por exemplo, opera com um jargão abstrato e formal, reduz a análise funcional a uma operacionalização de categorias mentais arbitrárias tomadas como “axiomáticas”, e converte a perspectiva comparativa em uma sala de espelhos. O que resulta não é um saber filosófico deturpado pela pretensão científica – é um idealismo inconsequente, que restabelece o primado da filosofia do espírito, destituindo-a, porém, de qualquer modalidade de razão filosófica e de consciência histórica. É óbvio que o retorno a Marx não poderia deter semelhante deterioração fantástica das ciências sociais. Estamos diante de um processo histórico: a crise das ciências sociais reflete e acompanha a crise da civilização burguesa. No entanto, através de Marx resguarda-se o que essa crise não pode nem deve afetar, como a proposta de uma ciência social histórica rigorosa, precisa e implacável, que não se omita diante de tal crise pela fútil negação do tempo histórico, pelo esvaziamento da realidade e pelo repúdio da causalidade concebida em termos materialistas e dialéticos. Mas que esteja calibrada para crescer embrenhando-se em tal crise, buscando o seu ponto de superação, o qual liga, naturalmente, estrutura e história, teoria e prática, ciência e revoluções, dissolução da civilização burguesa e constituição de uma nova civilização.”


“A filosofia representa para o proletariado a capacidade de uma consciência crítica, o proletariado representa para o filósofo a liberação do pensamento.”


“Falar em classe, escrever sobre luta de classes, é algo que se fazia antes, que Marx encontrou como contribuição de historiadores, economistas e ensaístas, que naturalmente viviam em sua época e não podiam ignorar o que acontecia. Portanto, ele aproveita todas essas contribuições e lança-as à frente. Agora, o que faltava? Faltava uma explicação científica da luta de classes. E a sua abordagem vai apanhá-la como um todo, uma totalidade histórica. É impossível reproduzir toda a realidade, a realidade é caótica, é preciso partir do concreto para se chegar ao abstrato e ir, depois, do abstrato à categoria histórica. Então, é preciso conseguir, através de elaborações na cabeça do homem, representar o todo como “unidade no diverso”. É a capacidade de procurar a explicação do todo na situação histórica global que caracteriza a posição de Marx e o leva a descobrir, de uma perspectiva científica, como se explica a luta de classes. Ele procura essa explicação não só na economia política, mas também no próprio dinamismo da “estrutura íntima da sociedade”. Afinal de contas, temos de entender que a sociedade se organiza em termos de relações, pelas quais o ser humano produz o seu modo material de vida. Em cada situação concreta é preciso produzir as condições materiais de existência e sobrevivência do ser humano.”


“Sintetizando todas essas perspectivas, Marx não se adaptava à especialização, à fragmentação do ponto de vista de observação, de análise e de explicação. Tratava-se de explicar o que era característico desse modo de produção, qual era o elemento que explicava essa economia — a capacidade que o capital adquire de governar todo o processo de desenvolvimento econômico. É claro que as pré-condições para isso foram criadas ao longo de um processo histórico que ele iria analisar indo do presente para o passado e vendo como se deu a transição, descobrindo quais eram as premissas dessa formação. O que nos interessa, a explicação evidencia a forma moderna e o significado da propriedade privada.
Os meios de produção já dissociados, os produtores já separados dos meios de produção foi um processo que ocorreu antes, mas, graças ao fato de que o produtor foi separado dos meios de produção, o que aconteceu? Havia gente que precisava sobreviver, vendendo trabalho, era a única coisa que tinha condições de vender. Então temos uma sociedade na qual os meios de produção acabam sendo propriedade privada de uma pequena classe, uma minoria, que através do monopólio do capital acaba sendo capacitada a gerir todo o desenvolvimento econômico, inclusive o desenvolvimento do trabalho. O trabalhador fica à mercê do capital, as condições de produção e de reprodução do capital não são determinadas pelo trabalhador e sim pelo capital. Marx vai fazer uma ampla análise desse fenômeno, explicando como se dá a concentração e a centralização do capital, como surge a acumulação capitalista acelerada. Esse é o elemento típico, específico do capital industrial. Como ele se configura historicamente na situação investigada e cuja explicação acaba valendo para toda a economia da época.
Nessa dinâmica, o trabalho era um elemento que podia ser explorado pelo capital, de tal maneira que o capital podia alterar todo o processo de produção de mais-valia. Todas as sociedades possuem certas formas de mais-valia. Claro que nenhum grupo humano pode sobreviver se não dispuser de algum estoque de alimentos, se não houvesse alguma coisa, que alguns economistas, mesmo não marxistas, chamam de excedente acumulado, alguma coisa que fica acumulada e que a coletividade absorve. Só que numa sociedade onde há uma forma privada de propriedade, pela qual o capital detém os meios de produção individualmente, a “mais-valia” vai sofrer transformações profundas, ela vai ser mudada em sua natureza, em sua intensidade, pela interferência da técnica e através da composição orgânica do capital. Marx esclarece como o capital, que precisa crescer de uma forma constante, vai crescer através de uma constante exploração do excedente produzido pelo trabalho. O trabalhador não só não determina as suas condições de trabalho como, também, ele vai produzir um excedente que sempre ficará nas mãos do capitalista e que vai aumentar, portanto, o capital inicial do capitalista. Só que esse processo, na forma que ele assume na chamada acumulação capitalista acelerada, atinge uma magnitude muito ampla, permitindo ao capital criar uma nova forma de produção, de organização da produção e, inclusive, de subordinação total do trabalho à produção. Surge assim uma classe social cujos membros dependem da sua força de trabalho para produzir os meios de subsistência para si e para sua família. Aquilo que essa classe recebe cobre as necessidades mínimas dessa sobrevivência, o que contrapõe os proletários, destituídos de tudo aquilo que caracteriza o modo de vida, a maneira de ser dos detentores do capital, da classe dos capitalistas.
Portanto, vemos que se trata de uma tentativa de abordar a estrutura da economia da sociedade a partir dessa relação básica que opõe uma classe à outra. O trabalhador não pode em nenhum momento ter interesses coincidentes com os do detentor do capital. A classe dos capitalistas possui interesses antagônicos com referência à classe dos trabalhadores. E esta perspectiva de análise vai ser explorada ainda no sentido de mostrar como o capital é capaz de manipular o excedente de população, de operar o que Marx chama de um exército industrial de reserva, para interferir nos dinamismos específicos do mercado, desvalorizando o trabalho, criando um exército ativo e um de reserva, jogando um setor da classe trabalhadora contra outro. Por aí ele completa todo o circuito de explicação da organização social, das relações de produção na sociedade capitalista. Em um momento de prosperidade, o capital pode conceder várias vantagens ao trabalhador. Porém, essas vantagens são transitórias e relativas, e não extinguem a condição permanente em que fica o trabalhador de ser explorado, dominado e de ser destituído de tudo aquilo que, por assim dizer, vem a ser o progresso do resto da sociedade. Claro que a civilização cria o progresso, há um progresso, mas esse progresso é partilhado de uma forma extremamente desigual. E a desigualdade não é eliminada pelos dinamismos normais de crescimento da sociedade capitalista.
Por que a sociedade capitalista, ao se reproduzir, reproduz as desigualdades e engendra novas desigualdades, de tal modo que o capitalismo nunca é capaz de se reformar? O trabalhador tem de tomar consciência histórica da sua situação e se relacionar com o outro polo em termos desse antagonismo fundamental, a partir do qual só existe uma saída para o trabalhador — a de eliminar essa forma de produção. Para isso, é preciso extinguir a classe, a desigualdade de classe, a dominação de classe, etc.
Por aí vemos que Marx formula toda uma teoria da revolução que está fundada objetivamente na organização das relações de produção e da sociedade de classes, na concentração social da riqueza e na concentração social do poder. E para extinguir tal concentração é preciso explodir toda a estrutura social.”


“Temos uma época revolucionária, vinculada à burguesia (contra o feudalismo), e outra época histórica revolucionária que está vinculada ao proletariado, que está ligada àqueles que estão destituídos de tudo e não têm nem a segurança nem o conforto nem o poder das classes possuidoras do capital.”


“Marx e Engels afirmam: o que caracteriza a “ótica comunista” é a capacidade de ver o processo numa escala mais ampla. O comunista deve ter uma visão teórica global prospectiva e internacional de todo o processo. Quais são os objetivos que ele se propõe? São os objetivos do comunismo: 1) o desenvolvimento independente da classe; 2) a derrubada da supremacia burguesa; 3) a conquista do poder. É claro que esses três objetivos são objetivos que não se dão simultaneamente no processo de constituição e expansão do proletariado. Enquanto os proletários não formam uma classe, a tarefa básica do trabalhador é lutar pelas condições de constituição da classe. Quando a classe já se apresenta como uma totalidade independente, com a faculdade de lutar politicamente por interesses próprios e de buscar seu desenvolvimento autônomo como classe, torna-se possível lutar contra as condições e os efeitos da supremacia burguesa (é o conceito que Marx e Engels empregam; eles não usam o conceito de dominação de classe). Trata-se então de solapar e neutralizar a dominação burguesa, impedir que pulverize o desenvolvimento do proletariado e as posições políticas independentes da classe proletária. A partir daqui delineia-se a possibilidade da conquista do poder, que é naturalmente o objetivo supremo de todo movimento proletário e do comunismo.”


“Há uma passagem, em As Lutas de Classes na França, na qual Marx afirma: os proletários não conquistaram a sua liberdade ainda, o que eles conquistaram foram as condições de lutar por sua liberdade.”


“Quando a burguesia nega a existência das classes, o que ela faz, de fato, é praticar a mais refinada e hipócrita luta de classes. Excluir do capitalismo e da democracia o caráter de classe não é só uma artimanha é o meio mais completo de negar aos trabalhadores a condição de classe e de conferir à própria burguesia uma hegemonia de classe acima das classes — indiscutível e total. Seus partidos passam a ser partidos representativos de “toda a sociedade”. Seu Estado, o Estado de toda a coletividade, um “Estado democrático nacional”. O fenômeno iria repetir-se em outros lugares e ilustrar, paradoxalmente, o quanto uma “sociedade democrática” pode antecipar-se (e refletir) uma “sociedade autoritária”. (...)
A luta de classes não desapareceu — pois ela só pode desaparecer com a extinção do capitalismo. O essencial do pensamento revolucionário de Marx permanece vivo, já que ainda hoje o comunismo é o “movimento que altera o estado atual das coisas” e o proletariado continua a ser a força vital que explica a existência e o potencial explosivo desse movimento. Como na “época de Marx”, ele é o fator residual irredutível que decifra o enigma da história.”


“A classe que reúne condições mais vantajosas nas relações de luta política pode acumular mais forças. E por isso é preciso que a identidade revolucionária do proletariado não se enfraqueça. E foi exatamente esse o “calcanhar de Aquiles” na evolução europeia e norte-americana. Você observa nos EUA sindicatos que querem imitar a grande incorporação, organizar-se em bases econômicas para lutar economicamente contra a dominação do capital. Isso significa enfiar o capitalismo e a condição burguesa dentro da cabeça e no modo de ser do trabalhador. Por isso, não é de espantar que em toda tentativa ultrarreacionária e contrarrevolucionária nos EUA encontram-se vários tipos de trabalhadores que estão à frente dessas manifestações, quando eles deveriam estar nas trincheiras de combate. Agora, a quem culpar, ao trabalhador? Ou ao movimento socialista, que deveria ter uma identidade proletária inquebrantável? Afinal de contas, a consciência de classe não é um elemento puro, independente. Já em A Ideologia Alemã, Marx e Engels escreveram que a ideologia de uma sociedade é a ideologia da classe dominante. Portanto, a classe trabalhadora, para quebrar esse elo, precisa ter uma identidade forte. É preciso que ela seja capaz de se desenraizar do capitalismo, manifestar-se integralmente como classe revolucionária.”


“O socialismo precisa ser compreendido como um todo. Na fase de transição surge uma primeira etapa, na qual se destrói a sociedade antiga. Em uma segunda etapa, na qual se constroem novos meios de produção, de distribuição, um novo tipo de homem, uma nova concepção da natureza humana, uma nova forma de poder — poder da maioria, poder proletário, poder popular, revelam-se as forças sociais constituintes da revolução. O socialismo não vem para ficar, ele vem para se extinguir, porque realmente o objetivo não é criar uma sociedade socialista, mas chegar ao comunismo. Esta é a função do socialismo: servir de meio para realizar essa transição, dar esse salto fundamental. Daí em diante é preciso conter a imaginação. Marx se recusou a imaginar a “utopia”, porque essa sociedade comunista só poderá ser criada depois de vencida todas essas etapas. É a revolução dentro da revolução, no seu pico mais alto.”


“A formação e o desenvolvimento dos proletários como classe social independente está nesta categoria. A rota percorrida é descrita sinteticamente por Marx e Engels em O Manifesto: primeiro, os proletários constituem um conglomerado amorfo, o que os sociólogos chamariam, hoje, de uma “congérie”; segundo, os proletários ganham pela concentração urbana, a expansão industrial e seu crescimento numérico, as condições materiais e sociais de sua constituição e desenvolvimento como classe social independente — aprendem a praticar a solidariedade em defesa de melhores salários, de melhores condições de trabalho, de autodefesa coletiva e criam os sindicatos, passando a lutar econômica e politicamente, em escala nacional, contra os patrões e pelo seu próximo fortalecimento como classe; terceiro, os proletários alcançam, graças ao desenvolvimento do capital e sua atividade como classe social revolucionária, as condições institucionais e políticas para lutar por sua auto-emancipação coletiva. Essas três fases morfológicas e históricas acompanham um longo processo de diferenciação social. Na primeira fase, é-lhes impossível lutar de forma independente; é através dos interesses e das relações com a burguesia que logram realizar certos objetivos políticos. Na segunda fase, a dialética da luta de classes se configura com toda a nitidez. Os proletários constituem uma “classe em si”, pois possuem consciência de sua situação e interesses de classe, defrontam-se com o capital autodefensivamente e contam com capacidade política tanto para defender e expandir a solidariedade proletária, quanto para atacar a supremacia burguesa, impondo-se na sociedade civil como uma força social ativa da revolução burguesa (ou seja, da revolução dentro da ordem). Na terceira fase, que se achava em vias de elaboração quando O Manifesto foi escrito, as premissas da existência do proletariado como classe interferem na dinâmica da sociedade civil e nas relações dos proletários com o Estado burguês. Manifestam-se, então, as características do proletariado como classe revolucionária, que deverá, a longo prazo, extinguir a ordem existente (e portanto a propriedade privada em sua forma moderna, o capital, o trabalho como mercadoria, a divisão social do trabalho, a coisificação e a alienação dos oprimidos, a dominação de classe, a sociedade civil, o Estado, etc.), criar como período de transição uma sociedade igualitária, de dominação da maioria e da autogestão popular e, finalmente, abolir as classes, toda e qualquer dominação de classe e conduzir a humanidade para o comunismo.”


“Outras consequências do método introduzido por Marx, apenas implícitos nessa breve exposição, são: primeiro, as condições em que a generalização é legítima: as leis sociais e econômicas só são válidas para determinadas formas sociais e durante um período determinado de seu desenvolvimento; segundo, a noção de determinismo: existe regularidade nos fenômenos sociais, mas a vontade humana intervém nos acontecimentos históricos — só na natureza ocorre o inevitável; em O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, escreveu a esse respeito: “os próprios homens fazem a sua história, mas não a fazem arbitrariamente, e sim em certas condições determinadas”; terceiro, a noção de interdependência dos fatos sociais: os fatos sociais articulam-se entre si por conexões íntimas; a antiga noção de consensus de Augusto Comte recebe uma formulação mais objetiva: “o resultado a que chegamos não é que a produção, a distribuição, a troca, o consumo, são idênticos, mas que todos eles são membros de uma totalidade, diferenças numa unidade”; quarto, existência de fatores dominantes: um fator desempenha a função de fator dominante — a produção nas modernas sociedades capitalistas — atuando sobre os demais fatores em termos de “relações recíprocas determinadas” (grifo meu).”

domingo, 1 de janeiro de 2017

O complexo de Portnoy – Philip Roth

Editora: Companhia de bolso
ISBN: 978-85-8086-620-9
Tradução: Paulo Henriques Brito
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 240 

“Ah, ah, ah — treze anos e já tem uma língua assim! Dizer uma coisa dessas para uma pessoa que só está preocupada com a sua saúde, com o seu bem!” É de tal modo inexplicável aquela situação que seus olhos se enchem de lágrimas. “Alex, por que é que você está ficando assim? Me dá uma pista! Me diz, por favor, que coisas horríveis a gente fez com você a vida toda para você nos tratar assim agora?” Creio que ela julga estar fazendo uma pergunta original. Creio que a pergunta lhe parece irrespondível. E o pior de tudo é que eu concordo com ela. Afinal, o que foi que eles fizeram comigo a vida toda, se não se sacrificar? No entanto, é justamente essa a coisa horrível que não consigo entender — até hoje, doutor! Até hoje!
Reteso os músculos, me preparando para os cochichos. Sei com meia hora de antecedência quando os cochichos vão começar. Agora vamos conversar sobre as dores de cabeça de meu pai.
“Alex, sabe que hoje ele teve uma dor de cabeça tão forte que nem conseguia enxergar direito?” Ela vai ver se meu pai não está mesmo ouvindo. Deus nos livre de ele ouvir comentários sobre o estado crítico de sua saúde, ele vai dizer que é exagero. “Ele não vai fazer exame semana que vem pra ver se está com um tumor?”
“Vai?”
“‘Traga ele aqui’, o médico falou, ‘que eu vou fazer um exame pra ver se ele está com um tumor’.”
Sucesso. Estou chorando. Não há nenhum motivo para eu estar chorando, mas nesta casa todo mundo tenta dar uma boa chorada pelo menos uma vez por dia. Meu pai, é preciso explicar — se bem que certamente o senhor já entendeu: boa parte da humanidade, e da sua clientela também, imagino, é composta de chantagistas —, meu pai está indo fazer esse exame semana que vem desde que me entendo por gente. Se a cabeça dele dói o tempo todo é, naturalmente, porque ele vive com prisão de ventre — e se ele vive com prisão de ventre é porque seu intestino é propriedade da firma Medo, Preocupação & Frustração. É bem verdade que uma vez um médico disse a minha mãe que ia examinar meu pai para ver se ele tinha um tumor — se era isso que ela queria, foi o que o doutor acrescentou, se não me engano; porém observou que seria mais barato, e por certo mais eficiente, investir numa ducha de lavagem. No entanto, mesmo eu sabendo de tudo isso, continua sendo devastadora a imagem de meu pai com o crânio estourado por um tumor maligno.
É, ela me tem na palma da mão, e sabe que tem. Esqueço por completo de meu próprio câncer, dominado que estou pelo sofrimento — agora tal como naquela época —, quando penso que tanta coisa na vida dele sempre esteve (para usar a expressão muito precisa que ele sempre empregava) além de sua compreensão. E do alcance dele também. Não tinha dinheiro, não tinha instrução, não tinha um idioma, não tinha conhecimentos, tinha curiosidade sem cultura, motivação sem oportunidade, experiência sem sabedoria... As limitações de meu pai facilmente me fazem chorar. E, com a mesma facilidade, me enchem de raiva!”


“O que é que ele tem na cabeça, esse bobalhão! esse idiota! esse garoto dissimulado! Esse tarado! Ele simplesmente não consegue — não quer — controlar o fogo que tem no putz*, a febre que arde no cérebro, o desejo constante pelo que é novo, louco, jamais pensado e, se é possível se imaginar tal coisa, jamais sonhado. Em matéria de boceta, ele vive num estado que nem se atenuou nem sofreu o menor refinamento desde o tempo em que tinha quinze anos e não conseguia se levantar da carteira na sala de aula sem ter de usar o fichário para ocultar o pau duro. Toda garota que vê, ele constata (atenção!), tem entre as pernas... uma boceta. Espantoso! Surpreendente! Até hoje não conseguiu se habituar com a ideia fantástica de que quem olha para uma mulher está olhando para uma pessoa que, sem sombra de dúvida, tem... uma boceta! Todas elas têm bocetas! Debaixo do vestido! Bocetas que servem... para foder! E, doutor, meritíssimo, seja lá como o senhor se chame — pelo visto não faz diferença se o infeliz está se dando bem ou não, porque ele está sonhando com a boceta de amanhã no exato momento em que está comendo a de hoje!
Estou exagerando? Estou me penitenciando só como uma maneira engenhosa de me exibir? Ou de contar vantagem? Será que realmente vivencio essa inquietude, essa excitação, como uma doença — ou como uma proeza? As duas coisas? Talvez. Ou será apenas uma forma de evasão? Olhe, pelo menos não estou, aos trinta e poucos anos, preso num casamento com uma pessoa legal cujo corpo já não me interessa de verdade — pelo menos não sou obrigado a me deitar toda noite com uma pessoa que como mais por obrigação do que por desejo. Porque tem gente que sofre uma depressão horrível na hora de se deitar... Por outro lado, até eu preciso admitir que, de um certo ponto de vista, talvez haja algo um pouco deprimente na minha situação, também. É claro que não se pode ter tudo, ou pelo menos é o que penso — mas a pergunta que estou disposto a enfrentar é a seguinte: eu tenho alguma coisa? Por quanto tempo ainda vou poder continuar realizando esses experimentos com mulheres? Por quanto tempo ainda vou poder viver enfiando esse negócio nos buracos que se oferecem a ele — primeiro este buraco aqui, depois, quando eu cansar dele, aquele outro ali... e assim por diante. Quando é que isso vai acabar? Mas por que tem que acabar? Para (ter filhos e) agradar meu pai e minha mãe? Para me conformar à norma? Por que eu preciso ficar na defensiva por ser aquilo que algum tempo atrás tinha o respeitável nome de solteiro? Porque afinal de contas é só disso que se trata — sou solteiro. Então qual é o crime? Liberdade sexual? No tempo em que vivemos? Por que motivo eu tenho de me submeter à burguesia? Por acaso eu peço que ela se submeta a mim? Está bem, admito que tenho algo de boêmio — o que há de terrível nisso? Quem eu estou prejudicando com a minha volúpia? Nunca dei uma pancada na cabeça de uma mulher para fazê-la desmaiar, nem torci o braço dela para obrigá-la a ir para a cama comigo. Sou, se me permitem dizê-lo, um homem honesto e sensível; falando sério, para um homem sou até bem... Mas por que é que tenho que me explicar! Me desculpar! Por que preciso justificar meus desejos com minha Honestidade e minha Sensibilidade! Está bem, tenho desejos, sim — só que eles são insaciáveis. Insaciáveis! E isso pode não ser uma coisa muito boa, se adotarmos por um momento o ponto de vista psicanalítico... Mas, afinal, a única coisa que o inconsciente sabe fazer, segundo Freud, é desejar. E desejar! E DESEJAR! Ah, Freud, disso sei eu! Esta aqui tem uma bela bunda, mas fala demais. Por outro lado, esta outra não fala nada, ou pelo menos não diz nada que se aproveite — mas como sabe chupar! Vá entender de pica assim! Já esta outra é um amor de menina, com os mamilos mais macios, mais rosados, mais encantadores que meus lábios já tocaram, só que se recusa a me chupar. Não é estranho? E no entanto — vá entender as pessoas! — ela gosta, quando está sendo comida, que eu enfie um ou dois dedos no ânus dela. Que coisa mais misteriosa! O inesgotável fascínio de todas essas aberturas e buracos! Como o senhor vê, eu não consigo parar! Nem me prender a uma apenas. Tenho casos que chegam a durar um ano, um ano e meio, meses e meses de amor, ao mesmo tempo terno e voluptuoso, mas no fim — é uma coisa tão inevitável quanto a morte — o tempo marcha e o desejo murcha. No final, não consigo dar o último passo e me casar. Mas por que tenho que me casar? Por quê? Existe alguma lei que diz que Alex Portnoy tem obrigação de se tornar marido e pai de alguém? Doutor, podem se plantar no patamar de uma janela e dizer que vão se esborrachar na calçada, podem fazer uma pilha de Seconal que chegue até o teto — posso passar semanas e semanas morrendo de medo que essas moças casadouras se joguem debaixo do trem do metrô, mas eu simplesmente não posso, não quero, assinar um contrato estipulando que vou ter que dormir com apenas uma mulher pelo resto da vida. Imagine só: digamos que eu me case com A, a dos peitinhos lindos etc. O que vai acontecer quando aparecer B, que tem peitos ainda mais lindos — ou, pelo menos, novos? Ou C, que sabe mexer o rabo de uma maneira especial que nunca provei antes; ou D, ou E, ou F. Estou tentando ser sincero com o senhor, doutor — porque em matéria de sexo a imaginação humana vai até Z, e além! Peitos, bocetas, pernas, lábios, bocas, línguas, cus! Como posso abrir mão do que nem cheguei a provar, em troca de uma garota que, por mais deliciosa e provocante que tenha sido, inevitavelmente vai acabar se tornando algo tão conhecido para mim quanto um pão? Por amor? Que amor? Será isso que mantém unidos todos esses casais que conhecemos — esses que se dão ao trabalho de se manter unidos? Não seria mais fraqueza? Não seria mais conveniência e apatia e sentimento de culpa? Não seria medo, exaustão, inércia, covardia pura e simples, muito, muito mais do que o tal “amor” que os conselheiros matrimoniais e compositores populares e psicoterapeutas vivem alardeando? Por favor, não me venham com essa embromação de “amor” duradouro. É por isso que eu pergunto: como posso me casar com uma pessoa que “amo” sabendo muito bem que daqui a cinco, seis, sete anos vou estar na rua à cata de uma boceta nova — enquanto minha esposa dedicada, que criou um lar tão caprichado, etcétera e tal, suporta com estoicismo a solidão e a rejeição? Como poderia eu enfrentar as lágrimas terríveis dela? Não poderia. Como enfrentar as crianças tão agarradas comigo? E depois o divórcio, não é? A pensão alimentícia. A pensão dos filhos. O direito de visita. Uma maravilha, realmente. E se alguma mulher se matar porque eu me recuso a fingir que não enxergo o futuro, bom, isso é problema dela — só dela! Não há motivo, não faz sentido uma pessoa ameaçar se matar só porque sou sensato e sei muito bem as frustrações e recriminações que me esperam... Meu amor, por favor, não fique urrando desse jeito não, por favor — vão achar que alguém está estrangulando você. Ah, meu amor (eu me vejo implorando, ano passado, este ano, todos os anos da minha vida!), vai ser bom para você, sabe, vai ser bom; você vai se recuperar e vai ser bem melhor para você, então, por favor, volte para dentro do quarto, sua babaca, e me deixe ir embora! “Você! Você e essa sua pica imunda!”, grita a minha mais recente futura esposa desiludida (e autoiludida), essa minha amiga estranha, magricela e completamente pirada, que ganhava em uma hora, posando para anúncios de lingerie, o que o pai analfabeto levava uma semana para ganhar nas minas de carvão da Virgínia Ocidental: “Eu pensava que você fosse uma pessoa superior, seu filho da puta chupador de boceta!”. Essa linda menina, que me entendeu tão mal, tem o apelido de Macaca, cuja origem é uma pequena perversão a que ela se entregava pouco antes de me conhecer e adotar outras, mais grandiosas. Doutor, nunca tive uma mulher como ela na minha vida, ela era a realização de meus sonhos de adolescência mais lascivos — mas daí a me casar...? Será que ela está falando sério? O senhor entende, apesar de ela se emperiquitar e se perfumar, sua autoimagem é muito ruim, e ao mesmo tempo — e eis a origem de muitos dos nossos problemas — a imagem que ela faz de mim é absurdamente elevada. E, ao mesmo tempo, absurdamente negativa! Trata-se de uma Macaca muito confusa, e, a meu ver, não muito inteligente. “Um intelectual!”, ela grita. “Uma pessoa instruída, espiritual! Seu cachorro, mesquinho, tarado, você liga mais pras crioulas do Harlem que você nem conhece do que pra mim, que estou chupando você há um ano!” Confusa, arrasada e também enlouquecida. Pois tudo isso acontece na varanda do nosso quarto de hotel em Atenas, enquanto estou parado na porta, com as malas na mão, pedindo por favor que ela venha para dentro do quarto para que eu possa pegar o avião e ir embora dali. Então o gerente, um homenzinho irritado, todo azeite de oliva, bigode e respeitabilidade indignada, sobe a escada correndo agitando os braços — e aí, respirando bem fundo, eu digo: “Olha, se você quer pular, pula!” e saio do quarto — e as últimas palavras que sou obrigado a ouvir em relação a toda essa história são que foi só por amor a mim (“Amor!”, ela grita) que ela se permitiu fazer as coisas degradantes que eu abre aspas a obriguei fecha aspas a fazer.
O que não é verdade, doutor! Não é verdade, mesmo! Isso não passa de uma tentativa dessa vigarista esperta de me atormentar de culpa — e desse modo arranjar marido. Porque aos vinte e nove anos de idade, o senhor entende, é isso que ela quer — mas isso não significa que eu tenha de querer também. “Em setembro, seu filho da puta, eu vou fazer trinta anos!” Correto, Macaca, correto! E é justamente por isso que você, e não eu, é quem é responsável por suas expectativas e seus sonhos! Entendeu? Você! “Eu vou contar pra todo mundo como você é, seu puto desalmado! Vou contar que espécie de tarado você é, as porcarias que você me obrigou a fazer!”
Que filha da puta! Ainda bem que consegui escapar dessa história vivo. Se é que consegui mesmo!”
* Putz: pênis.


“A legenda inscrita na moeda judaica — no corpo de cada criança judia! — não é EM DEUS CONFIAMOS, e sim UM DIA VOCÊ VAI SER PAI E VER COMO É. (...)
Jesus Cristo, um homem judeu com os pais vivos continua sendo um menino de quinze anos, e vai continuar sendo até eles morrerem!
Enfim, a essa altura Sophie já segurou minha mão e, baixando a vista, espera eu terminar de mencionar a última realização minha de que me lembro, o último ato virtuoso que já pratiquei, e então diz: “Mas para nós você continua sendo um bebê, meu amor”. E daí começam os cochichos, os famosos cochichos de Sophie, que todos que estiverem na sala podem ouvir sem nenhum esforço, pois ela não quer excluir ninguém: “Pede desculpa pra ele (por eu ter ralhado com meu pai). Dá um beijo nele. Um beijo seu é capaz de mudar o mundo”.
Um beijo meu é capaz de mudar o mundo! Doutor! Doutor! Eu disse quinze? Desculpe, eu quis dizer dez! Eu quis dizer cinco! Eu quis dizer zero! Um homem judeu com os pais vivos é um recém-nascido indefeso! Por favor, me ajude — e depressa! Me liberte desse papel de filho sufocado numa piada judaica! Porque está começando a perder a graça, aos trinta e três anos!”


“Seria bom, disse ela, não ter que voltar, não é?
Seria bom, não é, um dia morar no campo, com uma pessoa de quem a gente gosta de verdade?
Seria bom, não é, acordar cheia de energia quando o dia começa a clarear e ir se deitar exausta quando começa a escurecer?
Seria bom, não é, ter um monte de obrigações a cumprir e passar o dia inteiro fazendo o que se tem que fazer e nem se dar conta de que são obrigações?
Seria bom, não é, passar dias e mais dias sem pensar em si própria, semanas inteiras, meses a fio? Andar com roupa velha, sem se pintar, e não ter que ser durona o tempo todo?
Passou um tempo. Ela assobiou. “Seria muito legal, não é?””


“Sempre gostei mais de beleza e sensualidade do que de feiura e frieza — qual o problema?”


“A culpa toda é dos seus pais, não é, Alex? Tudo o que é ruim, a culpa é deles — tudo o que é bom, foi você que fez sozinho!”


“Há uma expressão na língua, “bom dia”, segundo me dizem, que nunca utilizei por falta de necessidade. Usá-la para quê? Lá em casa, no café da manhã, os outros moradores me conhecem como “Mister Mau Humor” ou “o ranzinza”. Porém aqui em Iowa na casa de meus sogros, me vejo de repente imitando os habitantes da região e me transformo num verdadeiro gêiser de bons-dias. Nessa casa todo mundo só sabe dizer isso — sentem o sol no rosto e é como se desencadeasse uma espécie de reação química: Bom dia! Bom dia! Bom di-a! cantado com meia dúzia de melodias diferentes! Em seguida, um pergunta ao outro se “dormiu bem essa noite”. Perguntam até a mim! Eu dormi bem essa noite? Realmente, não sei; tenho que pensar — a pergunta me surpreende um pouco. Eu Dormi Bem Essa Noite? E não é que dormi? É, acho que sim! E o senhor? “Dormi feito uma pedra”, responde o sr. Campbell. E pela primeira vez na vida compreendo com perfeição o sentido de um símile. Esse homem, que é corretor imobiliário e vereador de Davenport, diz que dormiu feito uma pedra, e eu realmente vejo uma pedra. Entendi! Imóvel, pesado, como uma pedra! “Bom dia”, diz ele, e agora me ocorre que a palavra “dia”, tal como ele a usa, se refere especificamente às horas em que o sol está à mostra. Ele de fato quer que esse período em que o sol está à mostra seja bom para nós, isto é, divertido, prazeroso, benéfico! Todos estamos desejando uns aos outros várias horas de prazer e realização. Mas que coisa fantástica! Isso é muito simpático! Bom dia! E o mesmo se aplica a “boa tarde”! E “boa noite”! Meu Deus! A língua inglesa é uma forma de comunicação! A conversação não é apenas uma espécie de fogo cruzado, em que você atinge os outros e os outros atingem você! Em que é necessário ficar o tempo todo se esquivando e atirando para matar! As palavras não são apenas bombas e balas — não, são pequenos presentes, que contêm significados!
Espere, ainda não terminei — como se a experiência de ver de dentro e não de fora uma daquelas cortinas goyische não fosse suficientemente estarrecedora, como se a experiência inacreditável de estar desejando muitas horas de prazer a uma casa cheia de góis¹ não fosse motivo suficiente de perplexidade, além disso, para acentuar o êxtase da desorientação, o nome da rua em que a minha namorada foi criada! correu! patinou! brincou de amarelinha! andou de trenó! enquanto eu sonhava com a existência dela a cerca de dois mil e quinhentos quilômetros dali, num país que, todos me garantem, é o mesmo que este — qual é o nome da rua? Não Xanadu, não; é muito melhor que isso, e muito, muito mais exótico: Elm, “olmo”. Elm! Uma rua cheia de árvores — que devem ser olmos!
Para dizer a verdade, devo admitir que não consigo tirar essa conclusão logo que salto do automóvel dos Campbell na noite de quarta-feira: afinal de contas, levei dezessete anos para aprender a reconhecer um carvalho, e mesmo assim só se ele estiver carregado de bolotas. A primeira coisa que vejo numa paisagem não é a flora, falando sério — é a fauna, a oposição humana, quem está comendo quem. A vegetação, deixo para os passarinhos e as abelhinhas, que têm lá os problemas deles; eu tenho os meus. Lá em casa, quem é que sabe o nome daquela coisa que tem na calçada em frente do nosso prédio? É uma árvore — e pronto. A espécie é algo inteiramente desprovido de importância; ninguém quer saber que tipo de árvore é, desde que ela não caia na cabeça de ninguém. No outono (ou será na primavera? O senhor entende dessas coisas? Só sei que no inverno é que não é) caem dos galhos umas vagens compridas, em forma de crescente, que contêm umas pelotinhas duras. Pois bem. Eis um fato científico a respeito da nossa árvore, que chegou até mim via minha mãe, Sophie Linnaeus: se você colocar uma dessas pelotas num canudinho e soprar, pode cair no olho de uma pessoa e cegá-la para o resto da vida. Pois é mais ou menos essa toda a minha bagagem intelectual em matéria de botânica quando, naquela tarde de domingo, estamos indo embora da casa dos Campbell em direção à estação ferroviária e tenho meu momento de Arquimedes: Elm Street, rua dos olmos... então... as árvores são olmos! Como é simples! Quer dizer, não precisa ter meu Q.I. de 158, não precisa ser um gênio para compreender este mundo. Na verdade, tudo é muito simples!
Um fim de semana memorável na minha vida, o equivalente na história humana, eu diria, à passagem da humanidade por toda a idade da pedra. Cada vez que o sr. Campbell chamava a mulher de “Mary”, a temperatura de meu corpo chegava a quarenta graus. Eu me dava conta de que estava comendo em pratos que haviam sido tocados pelas mãos de uma mulher chamada Mary. Por favor — rezo no trem seguindo rumo ao oeste —, que não haja imagens de Jesus Cristo na casa dos Campbell. Que eu possa passar o fim de semana sem ter que ver sua punim² patética — nem ter de lidar com pessoas que andam com cruzes penduradas no pescoço! Quando as tias e os tios vierem para o jantar de Ação de Graças, por favor, que não haja nenhum antissemita entre eles! Porque, se alguém começar a falar em “judeu metido a besta” ou em “judeu pão-duro” ou “judiação” — quem me vier com esse tipo de conversa vai sentir na carne o que é judiação, o filho da puta! Não, nada de violência (como se eu fosse capaz de tal coisa), eles que sejam violentos, eles é que são assim. Não, eu me levanto da cadeira — e aí (vuh den?³) faço um discurso! Envergonho e humilho todos eles por serem preconceituosos! Cito a Declaração de Independência durante a sobremesa! Quem é que eles pensam que são, esses putos, para se acharem donos do Dia de Ação de Graças!
Então, na estação ferroviária, o pai dela diz: “Muito prazer, meu rapaz”. Eu, naturalmente, revido com: “Obrigado”. Por que será que ele esta sendo tão simpático? Porque ele já foi previamente avisado (o que não sei se devo considerar um insulto ou uma bênção) ou porque ele ainda não sabe? Devo contar a ele então, antes mesmo de entrarmos no carro? Isso mesmo, é melhor dizer! Não posso prolongar uma situação falsa! “É, para mim é um prazer estar aqui em Davenport, senhor e senhora Campbell, ainda por cima eu sendo judeu.” Não, não é categórico o bastante. “Bom, como amigo da Kay, senhor e senhora Campbell, e como judeu, gostaria de agradecer por me convidarem...” Chega de embromação! Então o quê? Falar em iídiche? Como? Só conheço vinte e cinco palavras — metade é palavrão, metade não sei pronunciar direito! Porra, cale a boca e entre no carro. “Obrigado, obrigado”, digo eu, pegando minha mala, e seguimos todos em direção à caminhonete.
Eu e Kay vamos para o banco de trás, junto com o cachorro. O cachorro de Kay! Com o qual ela fala como se falasse com um ser humano! Puxa, ela é mesmo uma gói. Que coisa mais idiota, falar com um cachorro — só que Kay não é nada idiota! Na verdade, acho que ela é mais inteligente do que eu. E no entanto fala com um cachorro? “Quanto aos cachorros, senhor e senhora Campbell, de modo geral nós, judeus...” Ah, deixe isso pra lá. Não é necessário. De qualquer modo, você está ignorando (ou tentando o máximo ignorar) aquele eloquente apêndice que é o seu nariz. Para não mencionar o cabelo afro-judaico. É claro que eles sabem. Paciência, não há como fugir ao destino, bubi, a cartilagem de um homem é seu destino.
Assim que entro na casa, começo (discretamente, e surpreendendo a mim mesmo um pouco) a farejar: como será o cheiro daqui? Será cheiro de purê de batata? De vestido de velha? De cimento fresco? Farejo, farejo, tentando captar o cheiro. Pronto! Será isso, será esse o cheiro do cristianismo, ou será apenas cheiro de cachorro?”
1. Góis: Gentios
2. Punim: cara.
3. Vuh den: o que mais haveria de ser?


     ““Vou lá no campo, mãe, volto lá pra uma hora...”. “Espera aí. Que horas? Onde?” “Lá no campo”, eu grito, adoro gritar para que me ouçam, é como ficar zangado, sem as consequências desagradáveis.”