domingo, 22 de maio de 2022

Dicionário de história e cultura da era viking (Parte II), de Johni Langer (org.)

Editora: Hedra

ISBN: 978-85-7715-549-1

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 800

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Sinopse: Ver Parte I



ERA VIKING

Conceito geral: A Era Viking é considerada um período de grande irrupção e atividade do Norte nas terras povoadas do sudoeste e sudeste europeu. Comumente, o período é balizado entre as datas de 800 a 1100 depois de Cristo, com diversas variações e diferenças cronológicas ou conceituais, dependendo do autor. Também de forma tradicional é dividida em dois períodos: Primeira Era Viking, que se inicia com as incursões hostis, os ataques de surpresa (razias) no final do século VIII e as povoações criadas na região escocesa, britânica e francesa. A Segunda Era Viking foi caracterizada pela criação de dinastias permanentes e do processo intensificado de cristianização. Os mercadores escandinavos continuaram afetando o processo de urbanização da Europa. Segundo Henry Loyn, durante o final desse período, um escandinavo deixava de ser um viking quando se tornava cristão.

Historiografia: Apesar do termo viking ter sido utilizado após o renascimento em diversas línguas escandinavas, foi com o romantismo moderno que ele adquiriu um novo contexto, atrelado às ideias nacionalistas. No século XVIII, a Suécia e Noruega estavam ocupadas com questões de fronteira. A Suécia perde parte de sua região oriental para a Rússia e no início do século XIX entra em conflito com a Noruega. Nesse contexto da formação de uma nova identidade espacial e imaginária, os vikings tornam-se um tema privilegiado tanto na arte em geral (literatura, teatro, festivais) quanto na academia e nos trabalhos de reconstituição do passado, fornecendo valores idealizados para a nova sociedade almejada pelas nações escandinavas. Nas leituras públicas de História do sueco Erik Gustava Geijer, em 1815, enfatizava-se a vida nórdica nos tempos vikings como sendo de total liberdade, em contraste com o feudalismo vigente na Europa continental. Assim a suposta “natureza” destes antigos povos será utilizada como modelo político, artístico e cultural.

A primeira utilização do termo Era Viking (em sueco Vikingatiden) foi no artigo Om do gamle Nordboers Bekjendtskab med don pyrenæiske Halvöe (“Sobre o conhecimento da presença nórdica na Península Ibérica”), escrito por E. C. Wérlaoff e publicado na revista Annaler for Nordisk oldkyndighed og historie (Anais da Antiguidade e História Nórdica) em 1836. Nesse artigo não há maiores explicações ou detalhamentos sobre esse conceito, empregado apenas para determinar o período em que os vikings realizavam suas atividades. Em algumas sistematizações europeias sobre a história escandinava (como Histoire des Étates Scandinaves, de A. Geffroy, 1851), a experiência nórdica é inserida dentro do expansionismo germânico e tratada sem maiores diferenciações em um período que se estende do século V ao XI d.C.

Entre os anos 1830 a 1850, a literatura acadêmica escandinava foi fortemente embasada pelas pesquisas arqueológicas provindas da Dinamarca, inicialmente pela classificação das três Eras (Pedra, Bronze, Ferro), criadas por Christian Jurgensen Thomsen, pesquisador do Museu Nacional de Copenhagem. Logo em seguida, em 1843, o livro Danmarks Oldtid oplyst ved Oldsager (Antiguidades da Pré-História dinamarquesa), do arqueólogo Jens Worsaae é publicado. Nele, os vikings são inseridos na Idade do Ferro, num período que vai das migrações germânicas à cristianização da Escandinávia, sem distinções muito rígidas entre os momentos anteriores e os seguintes às expedições predatórias na virada dos séculos VII ao VIII, por exemplo. Outra designação genérica para a divisão da Era do Ferro muito comum neste livro é “tempos pagãos”, não estabelecendo diferenças entre os primeiros grupos humanos da tecnologia do ferro (na Antiguidade) até o momento em que são estabelecidas as primeiras sedes de bispados na Escandinávia, já no final da Alta Idade Média. No subcapítulo sobre pedras rúnicas, Worsaae comenta sobre os “tempos antigos das runas”, o “período pagão” e o “período cristão inicial”, a respeito da temporalidade das inscrições. Em um dos trechos mais importantes da obra, o arqueólogo analisa os vestígios dinamarqueses como verdadeiros monumentos do passado, e ao comentar sobre o século VIII, o caracteriza como um “período guerreiro”. Como grande parte dos acadêmicos de sua época, Worsaae foi influenciado pelos poetas e pintores que adotaram a imagem de “nobres selvagens” do Norte no espírito de Montesquieu.

Logo em seguida, em 1952, Worsaae publica em Londres o livro Danes and norwegians in england, Scotland and Ireland, baseado em suas investigações extensivas sobre os monumentos nórdicos preservados nas Ilhas Britânicas. A diferença em relação ao livro anterior é a concentração exclusiva em estudos sobre a Alta Idade Média, no momento em que os escandinavos iniciam suas ações predatórias e o posterior desenvolvimento de colônias e áreas de influência cultural. Logo no prefácio o autor desmistifica o erro de uma interpretação corrente no período (a palavra viking ser traduzida ao inglês como vi-king, rei do mar) e a relaciona diretamente ao islandês vik e ao dinamarquês vig, baía. Apesar de em diversos momentos da obra empregar o termo viking para pirata (concepção ocupacional), também o emprega como sinônimo para nórdico (concepção étnica). Apesar de ainda não empregar objetivamente o termo Era Viking, Worsaae já caminha muito neste sentido, ao utilizar a expressão “tempos dos vikings”, não estipulando precisamente o início deste período (manifestado tradicionalmente com os ataques predatórios do século VIII), mas com um fim bem delimitado: o início da dinastia dos Waldemar na Dinamarca, em 1146 d.C. As publicações de Jens Worsaae auxiliaram a consolidar o estudo do passado nórdico, especialmente sua materialidade, mas ainda não possuíam nenhuma noção mais rigorosa de cronologia ou ao menos um diálogo maior entre os registros históricos e o método arqueológico, que ainda estava em desenvolvimento neste período.

Segundo Jørgen Haavardsholm, alguns historiadores passaram a utilizar o conceito dentro de padrões nacionalistas, a exemplo de Peter Andreas Munch (1810-1863), diretor de um museu etnográfico que utilizou a Era Viking como argumento para a unificação da Noruega. Ele apresentou um mito de origem no qual os noruegueses seriam mais loiros e puros do que os suecos e dinamarqueses. Utilizando figuras históricas e literárias nórdicas, ele apresentou uma visão romântica do Período Viking: guerreiros brutais, mas organizados, criativos e preparando a vinda da cristandade.

O termo Era Viking foi empregado genericamente após a década de 1860, especialmente com o escritor Frederik Svanberg, que utilizou o conceito identificando-o com o final da periodização anterior de Idade do Ferro. A partir dele, os intelectuais escandinavos passam a utilizar a Era Viking como um conceito e um momento fixo na história escandinava. Devido ao escasso conhecimento arqueológico da cultura material nórdica da Alta Idade Média, a periodização utilizada para a Era Viking proveu de documentos escritos, especialmente as anglo-saxônicas descrevendo os ataques às Ilhas Britânicas.

O arqueólogo sueco Oscar Montelius é um exemplo do período de transição da utilização do termo Idade do Ferro até a consolidação do termo Era Viking. Inicialmente, seus primeiros livros enfatizavam as terminologias para a temporalidade que eram convencionais até Jens Worsaae, como no livro Från jernåldern (Sobre a Idade do Ferro, 1869). Mas na década de 1870 passa não somente a adotar a nova convenção, mas também a ser um grande entuasiasta dela. No artigo Lifvet i Sverige under vikingatiden (“A vida na Suécia durante a Era Viking”), da revista Förr och Nu (1872), ele compreende este período como um “tempo heroico”, no momento em que os “filhos do Norte” estavam com as suas vidas muito limitadas e “vagavam pelos mares” em busca de “honra e ouro”, para estabelecer “novos domínios em países distantes” e “com o seu sangue rejuvenescer os povos do sul da Europa”. Também no livro Om lifvet i Sverige under hednatiden (Da vida na Suécia durante o paganismo) de 1873, dedica o capítulo final da obra para tratar da Vikingatiden.

Aqui a delimitação espaço-temporal acaba reunindo diversas idealizações românticas sobre a figura do viking – é o momento em que se firmam as raízes históricas de uma Europa em formação, servindo de modelo de identidade formativa para os países escandinavos ao final do século XIX. Esse conceito de temporalidade passa neste momento a ser divulgado em manuais escolares escandinavos, obras acadêmicas e de divulgação, mesmo nos Estados Unidos. Mais do que uma área de investigação de historiadores e arqueólogos, a Era Viking transformou-se num conceito artístico e político que auxiliou diversos países oitocentistas a moldar sua identidade nacional.

Para as pesquisas em língua inglesa, certamente a publicação mais importante na virada do século XIX para o XX foram o livro The Viking Age (1890), de Paul du Chaillu e o periódico The saga Book of the viking club, 1895. A obra do franco-americano Paul du Chaillu foi dividida em dois grandes volumes, o primeiro cobrindo aspectos de civilização, cultura e mitologia, enquanto o segundo abrangia elementos do cotidiano e da cultura material. Logo no prefácio, Chaillu caracteriza o norte europeu como local de passado glorioso, berço de uma “nova época” na história da humanidade, ancestrais dos ingleses (cujo país ele denomina de “a mãe das nações”), caracterizando os nórdicos no primeiro capítulo não como bárbaros, mas pelo contrário, como criadores de civilizações. De modo diferente de muitos britânicos da época, o autor não utiliza o ataque de Lindisfarne como marco inicial do período, e sim o segundo século depois de Cristo, terminando no século XII. Justamente por incluir capítulos sobre a Era do Ferro da Escandinávia, Chaillu não concebe muitas diferenças culturais entre a Antiguidade nórdica e a medieval, preocupando-se muito mais com aspectos civilizatórios, como a mitologia, as runas e a sociedade.

Quanto ao período referido em The saga Book, bem ao contrário, os estudos focam no período após as razias da Alta Idade Média até o reinado do rei Canuto ou a batalha da ponte de Stamford. São utilizados concomitantemente em diversos artigos de pesquisadores norte-americanos, escoceses e britânicos os termos “Período Viking” e “Era Viking” – especialmente em contextos relacionados à cultura material. Um tipo de estudo particularmente enfatizador deste emprego encontra-se em análises de monumentos dinamarqueses do século X da região da Cúmbria, na Inglaterra.

No início do século XX, diversos arqueólogos popularizaram o conceito de Era Viking em suas publicações pela Europa: Nordisk og fremmed Ornamentik i Vikingetiden (1921), do dinamarquês Johannes Brøndsted; Vikingetidens smykker (1928), do norueguês Jan Peterson; Die normannen der Wikingerzeit (1930), do russo W. J. Raudonikas; Die Schatzfunde Gotlands der Wikingerzeit (1947), do sueco Mårten Stenberger. Mas certamente o estudo arqueológico mais influente sobre o conceito de Era Viking – especialmente de um ponto de vista da cronologia e das divisões temporais mais precisas para período – encontra-se no livro De Norske Vikingsverd (1919), do norueguês Jan Petersen. Nele, o arqueólogo analisa os tipos de espadas escandinavas por meio do estilo de seus diferentes punhos, criando uma tipologia utilizada até nossos dias: tipo transicional (A e B), utilizados entre os séculos VII e VIII; a Era Viking inicial, com os tipos C e D (entre 750 e 800 d.C.); os tipos H e I (datados entre 800 e 950 d.C.); tipo K e M (século IX); tipos O e X (século X d.C.), denominados de estilos tardios. Em 1927 o renomado arqueólogo britânico Mortimer Wheeler publica London and the Vikings e amplia a tipologia e a cronologia das espadas nórdicas, conservando o ano 800 como marco inicial (tipo I), mas prolongando o final da Era Viking entre os séculos X e XI d.C. (tipo VIII e IX). Essas últimas seriam uma forma transitória entre a espada nórdica tradicional e a espada da cavalaria medieval. Assim, a Era Viking passou de um período construído historicamente para um período definido pela arqueologia.

Outros estudos que reforçaram a classificação temporal da Era Viking pela cultura material foram os que envolviam arte. Thomas Downing Kendrick publica em 1949 a obra Late saxon and viking art, explorando os diferentes estilos artísticos nórdicos e suas periodizações internas e externas – especialmente as desenvolvidas nas Ilhas Britânicas. Essa mesma tendência seria seguida depois por outros especialistas britânicos, como David Wilson e Graham Campbell, além do dinamarquês Ole Klindt-Jensen. Todos esses pesquisadores convencionam a arte nórdica da Alta Idade Média como sendo delimitada pelo estilo inicial de Oseberg (800 d.C.) e finalizada pelo estilo tardio de Urnes (1.100 d.C.), popularizando essas duas datas como limítrofes para a própria Era Viking em geral. Esse mesmo referencial cronológico seria seguido estritamente por outros autores escandinavos, como o arqueólogo dinamarquês Johannes Brøndsted com o livro Vikingerne (1960). Vinte anos mais tarde, outra arqueóloga de mesma ascendência, Else Roesdhal, em seu livro Vikingernes verden (1987), repete essa tendência, abandonando o marco categórico do ataque a Lindisfarne (793), muito popularizado pela historiografia inglesa, e reitera o século VIII ou o ano 800 como data inicial da Era Viking. Para a sua finalização, novamente deixa de lado o padrão britânico (em especial a morte do rei Canuto III em 1042) e elegendo o século XI como marco final.

Um momento especial de consagração do conceito no século XX foi a publicação do livro The Age of the Viking (1962), do historiador inglês Peter Sawyer. Nele, o autor concebe a Era Viking como um período de expansão de uma população amadurecida com experiências anteriores dos grupos germânicos (como os saxões e os francos), mas acima de tudo como uma noção fabricada pelos acadêmicos modernos e sujeita a adaptações e transformações críticas.

Novas concepções sobre a Era Viking: A partir dos anos 1980, alguns acadêmicos iniciaram algumas contestações ao conceito de Era Viking, além de outros proporem novas datações para o seu início e término, bem como implicações para o seu uso. O livro Decolonizing Viking Age (vol 1., 2003) do arqueólogo sueco Frederik Svanberg argumenta que o conceito de Era Viking foi um sistema de conhecimento construído essencialmente durante o século XIX e suas ideias básicas se mantêm até hoje. Esse sistema foi fortemente influenciado pelos pensamentos evolucionistas e nacionalistas de sua época e pode ser caracterizado como um colonialismo sobre o passado. Em uma perspectiva pós-colonial, Svanberg criticou o referencial de uma única “cultura viking”, sugerindo que o conceito de nórdico antigo substitua a velha e romântica noção de Era Viking.

Para Richard Hodges (Goodbye to the vikings?, 2006) a afirmação de que os vikings foram agentes de mudança na história europeia foram exagerados, percebendo a diáspora nórdica mais como consequência de fatores econômicos do que culturais. Sua visão dos ataques a Inglaterra e França como fruto da economia carolíngia foram criticados por Clare Downham. Charlotta Hillerdal em uma resenha no periódico Journal of Archaeology and Ancient History (n. 17, 2016) aponta os diversos questionamentos sobre esse conceito: um período histórico que compreende diversas perspectivas cronológicas, geográficas e culturais, dependendo da região. Assim, a Era Viking é caracterizada enquanto um período de migrações e movimentos dos povos, uma contínua renegociação de áreas culturais. Na Finlândia, por exemplo, a fundação de Staraia Ladoga em 753 d.C. e a falta de centralização política e a cristianização tardia na região tardam o desfecho da Era Viking na região para 1250, com o período tardio situado entre 1050-1250.

Estudando o sítio de Borre (Noruega), o arqueólogo Bjørn Myhre considerou que a arqueologia da Era Viking é superdependente do referencial do historiador, baseado em fontes escritas, especialmente em questões relativas à religião, política e sociedade. Já os arqueólogos têm se dedicado muito mais a problemas de cronologia, arte, tecnologia, sepulturas e assentamentos. Mas nas últimas três décadas o conhecimento arqueológico progrediu muito, além de contar com diversas outras disciplinas correlatas em apoio às análises dos vestígios. Dessa maneira, estudos demonstram que fortes centros políticos já existiam no século VIII, e os estilos artísticos tradicionais do Período Viking já ocorriam antes do século IX (como no estilo de Broa). Também em sepultamentos existem evidências de primeiros contatos entre britânicos e escandinavos desde a Era das Migrações Nórdicas, estendendo-se até o Período Vendel. Análises vêm demonstrando que embarcações a vela já eram usadas no início do século VII. Evidências de incursões vikings foram encontradas nas ilhas Hébridas em 750 d.C. e nas ilhas Faroé ainda no século VII. Assim, Bjørn Myhre conclui que o início da Era Viking pode ser fixado em qualquer um dos vários pontos ao longo de uma escala de tempo que vai entre os anos de 700 a 800 d.C., dependendo do critério escolhido.

Os estudos das conexões entre Escandinávia e Leste Europeu também modificaram o conceito de Era Viking, ampliando o impacto antes visto centralmente apenas nas Ilhas Britânicas e Bretanha francesa. Estudos recentes sobre o Estado dos rus, suas redes de conexões comerciais com o Oriente e a Europa, postos militares e a política de dominação com as populações regionais justificam a criação de uma temporalidade para o período de 700 a 1100 d.C. Em 2008, foi encontrado um sepultamento em um barco na região de Saaremaa (Estônia), com 28 esqueletos de suecos, dentre os quais vários nobres. Eles possivelmente foram enterrados após um saque malsucedido, visto que a maioria morreu perfurada, decapitada ou teve o topo do crânio arrancado. Os corpos foram juntados e colocados no fundo do casco, cobertos com panos e escudos. O evento data de 750 d.C. segundo o arqueólogo Jüri Peets.

Em seu artigo “Viking ethnicities” (History Compass, 2012), a historiadora britânica Clare Downham defendeu a continuidade do termo Era Viking, alegando que esse conceito possui grande importância cultural, econômica e política para diversas regiões na história europeia. As mais recentes teses de doutorado em Arqueologia e História tanto de países escandinavos quanto de línguas germânicas em geral, além de livros e artigos especializados, continuam a utilizar majoritariamente o conceito, com alterações quanto a cronologias ou amplitude da diáspora nórdica.” (Era viking – Johnni Langer)

 

 

GUERRA E SIMBOLISMO

Bastante conhecidos por valorizarem suas proezas militares, para Keegan, os nórdicos estavam entre os povos mais belicosos e resistentes que tomaram de assalto o mundo europeu continental. Com sua disposição para a luta corpo a corpo intensificada no século de disputas por terras que precedeu sua era de viagens, os vikings constituíram uma atividade bélica das mais famosas da Idade Média. Os seus feitos em batalhas, em pirataria e nas expedições pelo mundo colaboraram para fazer a sua fama até nossos dias. Algumas proezas e o ímpeto marcial estão destacados em alguns relatos, assim como a figura do “furor guerreiro” no transcurso de diversas batalhas, o que acabou fazendo com que fossem, além de outros aspectos, caracterizados como povos bárbaros.

Organizada, devastadora e muitas vezes rápida: assim era a forma de guerra praticada pelos escandinavos durante a Era Viking. Isso fica claro na literatura que vai ser escrita sobre eles, sempre contendo algum aspecto relacionado à guerra. Antes de se lançar em incursões, os vikings se preparavam para os combates usando, entre outras coisas, táticas militares que depois seriam vistas sendo utilizadas por exércitos na Era Moderna.

A preparação para a guerra se constituía desde considerações sobre o tipo de embarcação que seria utilizada, passando pelos rituais oferecidos e favores pedidos aos deuses, e chegando ao equipamento que seria usado. Usavam, principalmente nas pilhagens, pequenas tropas com conhecimento prévio do terreno e do inimigo. Os ataques relâmpagos e o sucesso nas pilhagens, todavia, eram possíveis não só pela estratégia ou pelo conhecimento do terreno do inimigo, mas também pelo tipo de embarcação usada pelos vikings nas incursões. O langrskip era um navio longo, que chegava até 55 metros, e que era usado especificamente para a guerra. Com velocidade média de até 18 km/h, era vantajoso no tamanho, velocidade e na facilidade de transporte.

Além de estratégia e transporte, os armamentos usados na guerra também eram fundamentais. Basicamente, os vikings usavam espadas, lanças, facas, arco e flecha, machados, elmos e escudos. As espadas eram mais comumente usadas por nobres, pelo alto custo pago para a forja, mas não se restringia a eles – a diferença se dava nos adornos de cada uma, denotando o status do guerreiro (as espadas ricamente adornadas desde o punho até a bainha pertenciam aos guerreiros de status mais elevado). As espadas eram bastante eficazes não só pelo alcance, mas pelo ferimento causado. Elas eram bens bastantes preciosos e que iam muito além do caráter puramente bélico. Foram intimamente associadas à justiça, soberania e poder, fazendo-se extremamente significativas nas relações entre os homens que as portavam. Elas definiam o valor de um homem, individual e coletivamente. Algumas eram passadas de geração a geração e outras cremadas junto com o guerreiro, segundo a crença de que todos os objetos queimados na pira com seus donos seguiam com eles até Valhala, dando a oportunidade de o guerreiro morto em batalha lutar ao lado de Odin no Ragnarök.

Os guerreiros mantinham com as espadas uma relação que era de extrema confiança e até respeito, já que toda a sobrevivência nas batalhas advinha de seus armamentos, e principalmente porque para os povos germânicos a batalha era uma questão individual. Daí algumas espadas terem um nome (muitos nomes vão ser preservados em sagas e poemas) e até mesmo uma personalidade, criando uma relação com o seu dono e chegando mesmo a serem consideradas como uma extensão do próprio guerreiro. As espadas podem ser consideradas um reflexo e até mesmo uma parte da identidade desse povo, e vão estar sempre atreladas a cada dono. A espada pode carregar vários discursos como, por exemplo, de ordem, justiça e até mesmo desordem. Adquirem virtudes, personificam-se e podem até encarnar países, dando corpo a valores ou ideais. Vão possuir vários significados, costumes e seus donos terão um relacionamento íntimo e até mesmo emocional com elas. Não poder contar com sua própria arma era uma terrível maldição. A espada era vista como árbitro entre os homens. Até nos casamentos germânicos realizados na Era Pré-cristã, ela estava presente. Neles fincava-se uma espada em um tronco de árvore e o noivo deveria retirá-la como símbolo de virilidade, associada à fertilidade também.

As facas eram de uso cotidiano, sendo portadas pelas mulheres. No campo de batalha, a eficácia se dava somente em combates mais próximos homem a homem. As lanças eram usadas principalmente na ofensiva. E como quase tudo que se fazia na guerra, ela também tinha ligação com a religiosidade: logo no início da batalha arremessava-se uma lança com o intuito de obter favores de Odin (deus associado à guerra). Os escandinavos acreditavam que espadas, escudos e capacetes podiam ser abençoados pelas divindades pagãs. O arco e a flecha, apesar de marginalizados, tiveram bastante uso e importância nas batalhas por comporem um armamento estratégico nas formações de batalha.

O machado era o armamento mais associado aos guerreiros vikings por estar ligado aos berserkir e ser bastante usado nas incursões marítimas e na pirataria, ainda que não fosse tão utilizado nas frentes de batalha. Elmos e escudos eram equipamentos de defesa. Os primeiros eram em formato cônico, esférico e alguns apresentavam proteção nasal, nada de asas ou chifres como se retrata frequentemente em HQs, livros, revistas e filmes. Os escudos eram em formato circular, feitos de madeira com uma faixa de ferro ao redor para dar maior segurança – estes, sim, são retrados com realismo na arte e mídia contemporânea. Nesse âmbito de guerra, os berserkir (berserkr no singular) são os exemplos mais famosos de guerreiros vikings. Estavam associados principalmente a animais como o urso e o lobo (ao lobo se associavam os úlfhednar, úlfhedinn no singular). O urso e o lobo foram vistos como símbolos de guerreiros valentes. Os berserkir lutavam com fúria assassina, possessos, sem qualquer proteção, urrando e mordendo seus escudos tão “loucos” como lobos, avançando contra seus inimigos usando machados (somente de uma face; era uma arma sobretudo de ataque, sem defesa opcional), causavam um efeito psicológico devastador no inimigo. Provocavam medo extremo com uma agressão em estado puro, terrivelmente assustadora e de moldes “suicidas”. O culto ao deus Odin (o próprio nome estava associado à fúria, tanto no nórdico Ódr quanto no germânico antigo Wodan), a fé em um deus xamânico, relacionado à magia, ao êxtase e à metamorfose humana em animais, explicaria tal comportamento agressivo. Não só os berserkir causavam medo: outros guerreiros traziam cabeças decapitadas de seus inimigos com o intuito de aterrorizar seus oponentes.

A cabeça possui um grande valor para muitos povos, simbolizando a autoridade de governar, de ordenar e esclarecer. A cabeça simboliza a força e o valor guerreiro do adversário e a decapitação garantia também a morte desse mesmo adversário. Fala-se também de um poder de cura, em algumas sociedades. Na literatura nórdica, homens eram frequentemente decapitados em batalha ou em um ato de vingança, após serem feitos prisioneiros. O culto ou a preservação de cabeças humanas e crânios não foi observado somente entre os germânicos; entre os celtas, as cabeças dos inimigos de grande valor eram conservadas em azeites e trazidas em carros de guerra. Para eles, simbolizava força e o valor do oponente que passava para quem a possuísse.

Entre os nórdicos, a relação com cabeças decapitadas pode ser verificada em algumas sagas. Muitas menções são feitas em contextos de guerra, vingança ou busca de conhecimento. Em algumas, as cabeças falam com seus portadores ou no campo de batalha, causando amedrontamento. Em uma profecia na Njáls saga, um ser sobrenatural evoca as imagens de várias cabeças cortadas no campo de batalha. Usar cabeças cortadas como meio adquirir conhecimento vem de uma tradição antiga de que Odin teria consultado a cabeça de Mimir, que, segundo a Ynglinga saga, teria sido decapitada após este vanir ser feito prisioneiro. Após sua decapitação, a cabeça foi enviada de volta pra Odin, que a conservou com ervas para que não apodrecesse e realizou uma magia para que ela lhe falasse sobre questões ocultas. O poder de uma cabeça cortada e sua capacidade de falar após a separação do corpo foi observado tanto na cultura germânica quanto na céltica.

Também germanos e celtas preservavam não só as cabeças, mas os crânios dos mortos. Eles simbolizavam a sede do pensamento e do poder supremo. Em algumas lendas europeias e asiáticas, os crânios humanos foram considerados homólogos à abóbada celeste. No Grímnismál, o crânio do gigante Ymir se converteu, após sua morte, na abóbada do céu. Além da busca por conhecimento, alguns crânios também foram usados para vinganças. Em uma passagem da Saga dos Volsungos, Gudrun utiliza os crânios de seus filhos com o rei Atli para se vingar dele e humilhá-lo por tê-la utilizado para matar seus irmãos. O crânio representa, ainda, o símbolo da mortalidade humana, mas também do que sobrevive depois da morte, de modo que possuir o crânio do inimigo é mais que um troféu, é a conquista do há de mais alto e de todo germe de existência.

A importância desse uso da cabeça como sede de inteligência, juntamente com seu uso como um troféu de batalha, trazendo a sorte e aumentando a reputação de seu possuidor, é percebida nas primeiras tradições ligadas a guerreiros e a batalhas entre os celtas e os germânicos; e ainda essa concepção da cabeça como detentora de conhecimento e uso em campos de batalha como forma de amedrontamento e troféus foi preservada na arte (há muitas cabeças esculpidas e rostos semelhantes a máscaras como uma força aterrorizante), nas sagas e nas lendas. Entre os povos germânicos, a concepção do enforcado como meio de adquirir conhecimento oculto ganhou maior proeminência, em relação aos celtas.” (Guerra e simbolismo – Monicy Araujo Silva)

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