sexta-feira, 5 de agosto de 2022

A Luta Contra o Fascismo: Revolução e Contrarrevolução (Parte III), de Leon Trotsky

Editora: Sundermann

ISBN: 978-85-4556-006-7

Tradução: Mario Pedrosa (1933) e Rafael Padial (2019)

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 440

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Sinopse: Ver Parte I



“Para falar de uma maneira formal e descritiva, o centrismo é composto de todas essas correntes (no proletariado e na sua periferia) que se colocam entre o reformismo e o marxismo, representando na maioria das vezes etapas diferentes da evolução do reformismo ao marxismo e vice-versa. O marxismo também, assim como o reformismo, tem sob si uma sólida base social. O marxismo exprime os interesses históricos do proletariado. O reformismo corresponde à posição privilegiada da burocracia e da aristocracia proletárias no Estado capitalista. O centrismo, tal como o conhecemos no passado, não tinha e não podia ter bases sociais independentes. As diferentes camadas do proletariado se desenvolvem na direção revolucionária por vias diferentes e em ritmos diferentes. Nos períodos de crescimento industrial prolongado ou nos períodos de refluxo político, depois da derrota, as diferentes camadas do proletariado se deslocam politicamente da esquerda para a direita, encontrando-se com outras camadas que começam apenas a caminhar para a esquerda. Os grupos diferentes param em certas etapas de sua evolução, encontram os seus chefes temporários, criam os seus programas e as suas organizações. Não é difícil compreender a variedade de correntes que a noção de “centrismo” abarca. Segundo a sua origem, a sua composição social e a tendência de sua evolução, os diversos agrupamentos podem encontrar-se em estado de luta encarniçada, sem deixar por isso de ser espécies diferentes do centrismo.

Se o centrismo em geral exerce habitualmente a função de uma capa de esquerda para o reformismo, a questão de se saber a qual dos campos fundamentais (do reformismo ou do marxismo) pertence uma tendência centrista dada não encontra solução determinada de uma vez por todas. Aqui, mais do que nunca, é preciso sempre analisar o conteúdo concreto do processo e as tendências interiores de seu desenvolvimento. Assim, certos erros políticos de Rosa Luxemburgo podem com justiça, do ponto de vista teórico, ser caracterizados como erros centristas de esquerda. Pode-se ir mais longe e dizer que a maior parte das divergências entre Rosa Luxemburgo e Lenin representava uma inclinação maior ou menor para o lado do centrismo. Mas só os sem-vergonha, ignorantes e charlatães da burocracia da IC podem classificar o luxemburguismo, enquanto corrente histórica, como centrismo. Não é preciso dizer que os “dirigentes” atuais da IC, a começar por Stalin, não chegam nem política nem moralmente aos pés da grande revolucionária.

Mais de uma vez nestes últimos tempos, os críticos que não estudam a fundo o problema acusaram o autor destas linhas de ter abusado da palavra “centrismo”, agrupando sob este nome correntes e grupos muito diferentes no seio do movimento operário. Na realidade, a diversidade dos tipos do centrismo decorre, como já se disse, da essência do fenômeno, e não do abuso das terminologias. Lembremo-nos quantas vezes os marxistas foram acusados de atribuir os mesmos fenômenos multiformes e contraditórios à pequena burguesia. E efetivamente, sob a categoria “pequena burguesia”, é preciso que se inscrevam fatos, ideias e tendências que, à primeira vista, são incompatíveis. Possuem um caráter pequeno-burguês o movimento camponês e o movimento radical na reforma comunal; os jacobinos pequeno-burgueses franceses e os populistas (norodniki) russos; os proudhonianos pequeno-burgueses, mas também os blanquistas; a atual socialdemocracia, mas também o fascismo são pequeno-burgueses; os anarcossindicalistas franceses, o “Exército de Salvação”, o movimento de Gandhi nas índias etc. Um quadro ainda mais variado se apresenta se passamos para o domínio da filosofia e da arte. Isto quer dizer que o marxismo brinque com a terminologia? Não, isto quer dizer apenas que a pequena burguesia é caracterizada por uma extraordinária heterogeneidade em sua natureza social. Embaixo ela se confunde com o proletariado e passa para o lumpemproletariado; no alto, ela se estende à burguesia capitalista. Pode apoiar-se nas antigas formas produtivas, mas pode depressa desenvolver-se também na base da indústria mais moderna (novas classes médias). Não é de admirar que se enfeite ideologicamente com todas as cores do arco-íris.

O centrismo no seio do movimento operário representa, num certo sentido, o mesmo papel que a ideologia pequeno-burguesa de qualquer espécie representa em relação à sociedade burguesa em geral. O centrismo reflete os processos da evolução do proletariado, o seu desenvolvimento político, assim como a sua decadência revolucionária, ligada à pressão exercida sobre o proletariado por todas as outras classes da sociedade. Não é de se admirar que a aquarela do centrismo se distinga por tal variedade de cores! Todavia, daí não decorre que seja preciso renunciar à noção do centrismo, mas apenas que, em cada caso determinado, é indispensável descobrir, por meio de uma análise social histórica concreta, a natureza real do centrismo da espécie em questão.

A fração dominante da Internacional Comunista não representa um centrismo “em geral”, mas uma formação histórica perfeitamente determinada, com poderosas raízes sociais, embora ainda muito recentes. Trata-se, antes de tudo, da burocracia soviética. Nos escritos teóricos de Stalin esta camada social absolutamente não existe. Fala-se aí unicamente de “leninismo”, de direção imaterial, de tradição ideológica, de espírito do bolchevismo, de “linha geral” imponderável. Mas sobre o fato de que o burocrata de carne e osso maneja esta linha geral como um bombeiro a sua mangueira, não se ouve dizer uma única palavra.

Entretanto, esse burocrata não se parece absolutamente com um espírito imaterial. Come, bebe, reproduz-se e cria barriga. Comanda com voz autoritária, escolhe embaixo os seus fiéis, conserva fidelidade aos superiores, não admite que o critiquem e vê nisto a própria essência da linha geral. Há muitos milhões desses burocratas — muitos milhões! — mais do que houve operários industriais no período da Revolução de Outubro. A maior parte desses burocratas nunca participou da luta de classes, que exige sacrifícios e comporta perigos. Na sua massa predominante, essa gente nasceu, politicamente, já na qualidade de camada dirigente. Atrás dela se encontra o poder de Estado. Este assegura a sua existência, eleva-a consideravelmente acima do resto da massa. Ela não conhece o perigo do desemprego, contanto que se conserve perfilada, as mãos na costura das calças. Os erros mais grosseiros lhe são perdoados, desde que concorde em desempenhar, no momento necessário, o papel de bode expiatório e salvar a responsabilidade de seus superiores imediatos. E então, uma tal camada dirigente, de muitos milhões, tem um peso social real e uma influência política na vida do país? Sim ou não?

Que a burocracia operária e a aristocracia operária constituem a base social do oportunismo, isto é conhecido dos velhos livros. Na Rússia, o fenômeno tomou novas formas. Sobre a base da ditadura do proletariado (num país atrasado — com uma circunvizinhança capitalista) surgiu, pela primeira vez, das camadas superiores dos trabalhadores, um poderoso aparelho burocrático elevado acima da massa, dando-lhe ordens, gozando de enormes privilégios, ligado por uma solidariedade coletiva interna e imprimindo à política do Estado operário os seus interesses particulares, os seus métodos e os seus modos.

Nós não somos anarquistas. Compreendemos a necessidade do Estado operário e, por conseguinte, a inevitabilidade histórica da burocracia no período transitório. Mas compreendemos também os perigos que comporta esse fato, sobretudo para um país atrasado e isolado. A idealização da burocracia soviética é o erro mais vergonhoso que pode cometer um marxista. Lenin procurou com todas as suas forças fazer com que o partido, como vanguarda autônoma da classe operária, se elevasse acima do aparelho estatal, o controlasse, o fiscalizasse, o dirigisse e o depurasse, colocando os interesses históricos do proletariado — internacional, não apenas nacional — acima dos interesses da burocracia dirigente. Como primeira condição para o controle do partido sobre o Estado, Lenin indicou o controle da massa do partido sobre o aparelho do partido. Releiam com atenção os seus artigos, os seus discursos e as suas cartas do período soviético, especialmente as dos dois últimos anos de sua vida, e verão com que angústia o seu pensamento sempre voltava a esta questão candente.

Mas o que aconteceu depois de Lenin? Toda a camada dirigente do partido e do Estado, que fizera a revolução e a guerra civil, foi destituída, afastada, destruída. Foi o burocrata sem personalidade que tomou o seu lugar. Ao mesmo tempo, a luta contra o burocratismo, que teve um caráter tão agudo em vida de Lenin, quando a burocracia mal havia saído das suas fraldas, cessou completamente, agora que o aparelho cresceu em proporções monstruosas.

E quem poderia conduzir esta luta? Hoje, o partido, como vanguarda autônoma do proletariado, não existe mais. O aparelho do partido se confunde com o do Estado. A GPU se apresenta, no interior do partido, como o instrumento mais importante da linha geral. A burocracia não só não permite a crítica de baixo para cima, mas impede aos seus teóricos até mesmo de falar dela, de notar a sua presença. O ódio encarniçado contra a Oposição de Esquerda é provocado, antes de tudo, porque a Oposição fala abertamente da burocracia, de seu papel particular, de seus interesses, desvendando o segredo de que a linha geral é inseparável da carne e do sangue da nova camada dirigente nacional, que não se identifica absolutamente com o proletariado. A burocracia estatal faz deduzir a sua pureza angelical do caráter operário do Estado: como ela pode se degenerar se ela é a burocracia de um Estado operário? O Estado e a burocracia são tomados, assim, não como processos históricos, mas como categorias eternas: como a Santa Igreja e os seus padres inspirados por Deus podem pecar? Mas se a burocracia operária, ao elevar-se acima do proletariado em luta na sociedade capitalista, pôde degenerar no partido de Noske, Scheidemann, Ebert e Wels, por que não pode ela degenerar ao elevar-se acima do proletariado vitorioso?

A situação dominante e sem controle da burocracia soviética cultiva uma psicologia que contradiz muito a psicologia do proletário revolucionário. A burocracia faz os seus cálculos e as suas combinações de política interior e exterior independentemente das tarefas de educação revolucionária das massas e fora de toda ligação com as tarefas da revolução internacional. Ao longo de vários anos, a fração stalinista demonstrou que os interesses e a psicologia do “camponês forte”, do engenheiro, do administrador, do intelectual burguês chinês, do funcionário das trade-unions inglesas lhe eram mais próximos e mais compreensíveis do que a psicologia e as necessidades da base, do camponês pobre, das massas populares chinesas insurrectas, dos grevistas ingleses etc.

Mas por que então a fração stalinista não levou até o fim a sua linha de oportunismo nacional? Porque é a burocracia do Estado operário. Se a socialdemocracia internacional defende os fundamentos da dominação burguesa, a burocracia soviética, sem proceder ao derrubamento do Estado, é obrigada a adaptar-se às bases sociais lançadas pela Revolução de Outubro. Daí o duplo caráter da psicologia e da política da burocracia stalinista. O centrismo, mas o centrismo que se apoia nos fundamentos do Estado operário, é a única expressão possível desta duplicidade.

Se os agrupamentos centristas nos países capitalistas têm mais frequentemente um caráter temporário, transitório, refletindo a evolução de certas camadas operárias, à direita ou à esquerda, o centrismo que existe nas condições da República Soviética recebeu uma base bem mais sólida e bem mais organizada na figura da numerosa burocracia. Representando o meio natural das tendências oportunistas e nacionalistas, ela é forçada, entretanto, a defender as bases de sua dominação na luta contra o kulak e a se preocupar, ao mesmo tempo, com o seu prestígio “bolchevique” no movimento operário internacional. Depois de ter procurado a amizade do Kuomintang e da burocracia de Amsterdã, cujo espírito lhe é muito próximo, a burocracia soviética entrou em conflito constante e agudo com a socialdemocracia, que, por sua vez, reflete a hostilidade da burguesia mundial com o Estado soviético. Tais são as fontes do atual ziguezague de esquerda.

A particularidade da situação consiste não em que a burocracia soviética possua uma imunidade particular contra o oportunismo e o nacionalismo, mas no fato de que, não tendo a possibilidade de tomar uma posição nacional-reformista acabada, é forçada a descrever ziguezagues entre o marxismo e o nacional-reformismo. As oscilações do centrismo burocrático, segundo a sua força, os seus recursos e as contradições de sua situação, tiveram uma extensão inteiramente inaudita: da aventura ultraesquerdista na Bulgária e na Estônia... à aliança com Chiang-Kai-Chek, Raditch e Purcell; da vergonhosa confraternização com os fura-greves britânicos, até a recusa completa da política de frente única com os sindicatos de massa.

A burocracia stalinista transporta os seus métodos e ziguezagues para os outros países na medida em que, a partir do aparelho do partido, não somente dirige a Internacional Comunista, como lhe dita ordens. Thälmann foi a favor do Kuomintang quando Stalin era a favor do Kuomintang. No VII Pleno do Comitê Executivo da IC, no outono de 1926, o delegado do Kuomintang, embaixador de Chiang-Kai-Shek, que se chamava Shao-Ly-Dsy, manifestou-se de pleno acordo com Thälmann, Semard e outros Remmele, contra o “trotskismo”.

O “camarada” Shao-Ly-Dsy dizia: “Estamos todos convencidos de que, sob a direção da IC, o Kuomintang realizará a sua tarefa histórica.” (Atas russas, 1.º volume, p. 459) Tal é o fato histórico!

Tomemos a Rote Fahne do ano de 1926 e encontraremos nela uma quantidade de artigos sobre o tema de que Trotsky, exigindo a ruptura com o Conselho Geral dos fura-greves, demonstrava, com isto mesmo, o seu... menchevismo! Já hoje o “menchevismo” consiste na reivindicação da frente única com as organizações de massas, isto é, em seguir a política que formularam, sob a direção de Lenin, os III e IV Congressos da IC contra todos os Thälmann, Thalheimer, Bela Kun, Frossard etc.

Todos esses ziguezagues dolorosos não teriam sido possíveis se, em todas as seções comunistas, não tivesse se formado uma camada de burocratas autônomos, isto é, independentes do partido. Eis a raiz do mal!

A força de um partido revolucionário consiste na independência da vanguarda, que verifica e seleciona os seus quadros e, tendo educado os seus dirigentes, os eleva gradualmente pela sua confiança. Isto cria um laço indissolúvel dos quadros com as massas, dos chefes com os quadros e transmite a toda a direção a confiança em si mesma. Nada disso existe nos partidos comunistas atuais! Os dirigentes são nomeados. Eles mesmos escolhem os seus auxiliares. A base é obrigada a aceitar os dirigentes nomeados, em torno dos quais se cria uma atmosfera artificial de publicidade. Os quadros dependem da cúpula, não da base. Procuram as fontes de sua influência, assim como as de sua existência, em grande medida fora das massas. Não tiram as suas palavras de ordem políticas da experiência da luta, mas as recebem pelo telégrafo. Durante esse tempo, no arquivo de Stalin se acumulam, para os casos de necessidade, documentos acusadores. Cada dirigente sabe que se pode fazê-lo voar como uma penugem a qualquer momento.

Assim se forma na Internacional Comunista uma camada burocrática fechada que é um campo de cultura, no qual se nutre o bacilo do centrismo. Muito estável e resistente organizativamente, porque se apoia na burocracia do Estado soviético, o centrismo de Thälmann, Remmele & Cia. se distingue pela extraordinária instabilidade no domínio político. Privado da segurança que só se adquire pela ligação orgânica com as massas, o CC infalível é capaz dos mais monstruosos ziguezagues. Quanto menos preparado para a luta ideológica séria, tanto mais generoso em injúrias, insinuações, calúnias. A imagem de Stalin “brutal e desleal”, segundo a definição de Lenin, é a própria personificação desta camada.

A característica dada aqui ao centrismo burocrático determina as relações da Oposição de Esquerda com a burocracia stalinista: apoio total e ilimitado, na medida em que a burocracia defende as fronteiras da República Soviética e as bases da Revolução de Outubro; crítica aberta, na medida em que a burocracia torna difícil, pelos seus ziguezagues administrativos, a defesa da revolução e a construção socialista; oposição irreconciliável, na medida em que, pelo seu despotismo burocrático, ela desorganiza a luta do proletariado mundial.”

17 — Ver a análise detalhada desse capítulo oportunista da IC, que durou alguns anos, em nossos trabalhos: A Internacional Comunista depois de Lenin, A revolução permanente etc. (N. do A.)

 

 

“A ditadura do proletariado é a resposta à resistência das classes privilegiadas. A limitação da liberdade deriva do regime de guerra da revolução, isto é, das condições da guerra de classe. Deste ponto de vista, é perfeitamente evidente que a consolidação interior da República dos Sovietes, o seu desenvolvimento econômico, o enfraquecimento da resistência da burguesia, sobretudo os sucessos da “liquidação” da última classe capitalista, dos kulaks, deveriam trazer o florescimento da democracia no partido, nos sindicatos e nos sovietes.

Os stalinistas não se cansam de repetir que “já entramos no socialismo”, que a atual coletivização significa, por si mesma, a liquidação dos kulaks como classe e que o próximo plano quinquenal já deve encerrar este processo. Se é assim, por que esse mesmo processo acarreta a completa asfixia do partido, das organizações sindicais e dos sovietes pelo aparelho burocrático, o qual, por sua vez, adquiriu um caráter de bonapartismo plebiscitário? Por que, durante o período da fome e da guerra civil, o partido transbordava de vida e a ninguém ocorria a ideia de perguntar se se podia ou não criticar Lenin ou o CC todo, enquanto que agora a menor divergência com Stalin acarreta a exclusão do partido e represálias administrativas?

A ameaça de guerra por parte dos Estados capitalistas não pode, de modo algum, explicar e, menos ainda, justificar o crescimento da autocracia dos burocratas. Se na sociedade socialista nacional as classes são mais ou menos liquidadas, isto significaria o começo do definhamento do Estado. A sociedade socialista pode opor uma resistência vitoriosa ao inimigo exterior precisamente na qualidade de sociedade socialista, e não como Estado da ditadura proletária, ainda menos como Estado burocratizado.

Não falamos do definhamento da ditadura: é cedo demais, ainda não “entramos no socialismo”. Falamos de outra coisa. Perguntamos: Como se explica a degeneração burocrática da ditadura? Qual é a fonte da gritante, monstruosa, aterradora contradição entre os sucessos da construção socialista e o regime da ditadura pessoal, que se apoia num aparelho impessoal, que segura pela garganta a classe dominante do país? Como explicar o fato de que a economia e a política se desenvolvem em direções diretamente opostas?

Os sucessos econômicos são muito grandes. Do ponto de vista econômico, a Revolução de Outubro justifica-se completamente desde já. Os coeficientes elevados do crescimento econômico exprimem irrefutavelmente que os métodos socialistas possuem vantagens enormes, mesmo para a solução dos problemas da produção que, no Ocidente, foram resolvidos com métodos capitalistas. Que grandiosas serão as vantagens da economia socialista nos países adiantados!

Entretanto, o problema posto pela insurreição de Outubro ainda não está resolvido, nem mesmo como rascunho. A burocracia stalinista qualifica a economia de “socialista”, segundo suas premissas e suas tendências. Isto é insuficiente. Os sucessos econômicos da União Soviética se desenvolvem sempre na base de um nível econômico pouco elevado. A indústria nacionalizada passa pelos estágios pelos quais as nações capitalistas adiantadas já passaram há muito tempo. A operária que fica na fila possui o seu próprio critério de socialismo, e este critério “consumidor”, segundo a expressão de desprezo do burocrata, é decisivo nesta questão. No conflito entre os pontos de vista da operária e os do burocrata, nós, Oposição de Esquerda, estamos do lado da operária contra o burocrata, que exagera os sucessos, mascara as contradições acumuladas e agarra a operária pela garganta para que ela não possa criticar.

No último ano, foi feito um brusco giro do salário igual para o salário diferencial (trabalho por tarefa). É absolutamente incontestável que, em presença de um baixo nível das forças produtivas, e, por conseguinte, de cultura geral, a igualdade dos salários é irrealizável. Mas isto significa também que o problema do socialismo não se resolve somente por meio das formas sociais da propriedade, mas pressupõe uma certa potência técnica da sociedade. Entretanto, o crescimento da potência técnica faz transbordar automaticamente as forças produtivas para além das fronteiras nacionais.

Restabelecendo o salário diferencial, que fora prematuramente abolido, a burocracia qualificou o salário igual de princípio “kulakista”. É uma insensatez evidente, que demonstra a que grau de hipocrisia e falsidade chegaram os stalinistas. Com efeito, teria sido preciso dizer: “Tínhamos ido muito longe com os métodos igualitários de salário. Estamos ainda longe do socialismo. Como somos ainda muito pobres, precisamos voltar atrás, para métodos de salários semicapitalistas ou kulakistas.” Nós o repetimos: Não há aqui contradição com os fins socialistas. Há somente uma contradição irreconciliável com as falsificações burocráticas da realidade.

O recuo ao salário por tarefas foi o resultado da resistência de uma economia atrasada. Haverá ainda muitos passos atrás como esse, sobretudo no domínio da economia agrária, onde foi efetuado um salto administrativo grande demais.

A industrialização e a coletivização se efetuam com os métodos de comando burocrático unilateral e sem controle das massas trabalhadoras. Os sindicatos estão completamente privados da possibilidade de agir sobre as relações entre o consumo e a acumulação. A diferenciação do campesinato é, no momento, liquidada, não tanto economicamente, como administrativamente. As medidas sociais da burocracia para a liquidação das classes adiantam-se extraordinariamente em relação ao processo fundamental, ao desenvolvimento das forças produtivas. Isto acarreta a alta do preço de custo na indústria, a baixa da qualidade da produção, a alta dos preços, a falta de bens de consumo e oferece como perspectiva a ameaça do ressurgimento do desemprego.

A tensão extrema da atmosfera política do país é o resultado das contradições entre o crescimento da economia soviética e a política econômica da burocracia, que, ou se retarda monstruosamente quanto às necessidades da economia (1923-1928), ou, aterrorizada por seu próprio atraso, se lança para frente, a fim de recuperar o tempo perdido com medidas puramente administrativas (1928-1932). Também aí o ziguezague de direita é seguido do ziguezague de esquerda. Nos dois ziguezagues, a burocracia entra em contradição com as realidades da economia e, por conseguinte, com o estado de espírito dos trabalhadores. Ela não pode permitir-lhes que a critiquem — nem quando retarda, nem quando se lança demais para frente.

A burocracia só pode exercer sua pressão sobre os operários e os camponeses privando os trabalhadores da participação na solução dos problemas de seu próprio trabalho e de seu próprio futuro. É aí que reside o maior perigo! Em política, o medo contínuo da resistência das massas pode produzir um “curto-circuito” da ditadura burocrática e pessoal.

Isto significa que é preciso reduzir os ritmos da industrialização e da coletivização? Por certo período — sem nenhuma dúvida. Mas pode ser que este período seja de duração muito curta. A participação dos próprios trabalhadores na direção do país, de sua política e de sua economia, o controle efetivo sobre a burocracia, o crescimento do sentimento da responsabilidade dos dirigentes para com os dirigidos — tudo isto produzirá um efeito incontestavelmente favorável à própria produção, diminuirá os atritos interiores, reduzirá ao mínimo os ziguezagues econômicos tão onerosos, assegurará uma distribuição mais sã das forças e dos meios e, em última análise, aumentará o coeficiente geral do desenvolvimento. A democracia soviética é, antes de tudo, uma necessidade vital da própria economia. Ao contrário, o burocratismo encerra em si surpresas econômicas trágicas. Observando no seu conjunto a história do período dos epígonos no desenvolvimento da URSS, não é difícil chegar à conclusão de que a premissa política fundamental da burocratização do regime foi o cansaço das massas, depois dos abalos da revolução e da guerra civil. Reinavam no país a fome e as epidemias, as questões da política foram relegadas ao último plano. Todos os pensamentos se dirigiam para o pedaço de pão. Na época do comunismo de guerra, todo mundo tinha a mesma ração de fome. A passagem à NEP trouxe as primeiras vantagens econômicas. A ração tornou-se mais abundante, mas nem todos se beneficiavam dela. A instauração da economia mercantil trouxe o cálculo do preço de custo, a racionalização elementar, a demissão dos operários que sobravam nas fábricas. Os sucessos econômicos marcharam muito tempo no mesmo passo que o crescimento do desemprego.

É preciso não esquecer um só instante: o fortalecimento do aparelho se apoiou no desemprego. Depois dos anos de fome, o exército de reserva amedrontava cada proletariado em frente à sua máquina. O afastamento dos operários independentes e de espírito crítico das fábricas, as listas negras dos oposicionistas tornaram-se um dos instrumentos mais importantes e mais eficazes nas mãos da burocracia stalinista. Sem esta condição, ela jamais teria conseguido asfixiar o partido de Lenin.

Os sucessos econômicos posteriores trouxeram gradualmente a liquidação do exército industrial de reserva (a superpopulação agrária, mascarada pela coletivização, conserva ainda todo o seu significado). Hoje o operário industrial já não tem mais medo de ser posto na rua. Segundo a sua experiência cotidiana, sabe que a falta de visão e as arbitrariedades da burocracia lhe tornaram difícil a solução dos problemas. A imprensa soviética denuncia as diferentes empresas que não oferecem espaço suficiente para a iniciativa operária, para o espírito inventivo etc., como se pudesse trancar a iniciativa do proletariado nas fábricas, como se as fábricas pudessem ser oásis de democracia da produção num ambiente de asfixia completa do proletariado no partido, nos sovietes e nos sindicatos!

A consciência geral do proletariado não é absolutamente a mesma de 1922-1923. O proletariado cresceu numericamente e culturalmente. Tendo realizado o trabalho gigantesco do renascimento e da reconstrução da economia, os operários sentem o renascimento e a reconstrução da confiança em si mesmos. Esta confiança interior crescente começa a se transformar em descontentamento contra o regime burocrático.

A asfixia do partido, o triunfo do regime e das arbitrariedades pessoais podem à primeira vista dar a impressão de enfraquecimento do sistema soviético. Mas não é assim. O sistema soviético está extremamente consolidado. Mas ao mesmo tempo a contradição entre este sistema e seus invólucros burocráticos aguçou-se extremamente. O aparelho stalinista vê com surpresa que os sucessos econômicos não reforçam as suas posições, e sim as corroem. Na luta por suas posições, ele é forçado a apertar ainda mais o cinto, proibindo qualquer outra forma de “autocrítica” que não sejam os elogios bizantinos aos chefes.

Não é a primeira vez na história que o desenvolvimento entra em contradição com as condições econômicas em cujo quadro se realiza. Mas é preciso compreender com clareza quais são exatamente as condições que provocam o descontentamento. A crescente onda oposicionista não é absolutamente dirigida contra as tarefas socialistas, as formas soviéticas ou o Partido Comunista. O descontentamento é dirigido contra o aparelho e a sua personificação: Stalin. Daí a nova etapa da luta encarniçada contra o chamado “contrabando trotskista”.

O adversário ameaça tornar-se demasiado escorregadio; está por toda parte e em parte alguma. Surge nas oficinas, nas escolas, penetra nos jornais históricos, em todos os manuais. Isso quer dizer: os fatos e os documentos acusam a burocracia, descobrem as suas hesitações e os seus erros. Não se pode mais recordar o passado tranquila e objetivamente. É preciso refazer o passado, é preciso tapar todas as fendas pelas quais pode penetrar a dúvida na infalibilidade do aparelho e de seu chefe. Estamos em presença de todos os traços de uma camada dirigente que perdeu a cabeça. Yaroslavsky, o próprio Yaroslavsky, tornou-se suspeito!26 Não são episódios ocasionais, detalhes, choques pessoais. O fundo do problema reside no fato de que os sucessos econômicos, que no começo fortaleceram a burocracia, se revelaram hoje, pela dialética de seu desenvolvimento, opostos à burocracia. Eis porque, por ocasião da última conferência do partido, isto é, do congresso do aparelho stalinista, o “trotskismo”, liquidado e sepultado três e quatro vezes, foi declarado “a vanguarda da contrarrevolução burguesa”. Esta decisão tola e politicamente inofensiva lança luz sobre alguns planos bastante “práticos” de Stalin no campo das vinganças pessoais. Não por acaso Lenin advertiu contra a escolha de Stalin para o cargo de secretário-geral: “Este cozinheiro só fará pratos apimentados”... O cozinheiro ainda não esgotou até o fim a sua arte culinária.

Apesar de todos os apertos de cinto teóricos e administrativos, a ditadura pessoal de Stalin manifestamente se aproxima do fim. O aparelho está cheio de fendas. A fenda chamada Yaroslavsky não é mais do que uma das centenas de fendas que hoje ainda não têm nome. O fato de a nova crise política preparar-se na base de sucessos evidentes e incontestáveis da economia soviética, do crescimento numérico do proletariado e do desenvolvimento dos primeiros sucessos da coletivização agrária serve de garantia suficiente para que a liquidação da autocracia burocrática coincida, não com o desmoronamento do sistema soviético (como se poderia ter temido há três ou quatro anos), mas, ao contrário, com a sua libertação, o seu crescimento e o seu pleno desenvolvimento.

Mas é precisamente neste último período de sua vida que a burocracia stalinista é capaz de causar muito mal. A questão do prestígio tornou-se agora para ela o problema central da política. Se se excluem do partido os historiadores apolíticos pela única razão de que não souberam celebrar as façanhas de Stalin em 1917, o regime plebiscitário poderá admitir o reconhecimento de seus erros cometidos em 1921-1932? Pode-se renunciar à teoria do social-fascismo? Pode-se repudiar Stalin, que formulou o problema alemão da seguinte maneira: Que os fascistas cheguem primeiro; em seguida virá a nossa vez?

As condições objetivas na Alemanha são em si tão imperiosas que se a direção do Partido Comunista alemão dispusesse da liberdade de ação necessária, teria certamente se orientado desde já para o nosso lado. Mas não é livre. Ao passo que a Oposição de Esquerda apresenta as ideias e as palavras de ordem do bolchevismo, experimentadas pela vitória de 1917, a camarilha stalinista, visando distrair a atenção, ordena por telégrafo o início de uma campanha internacional contra o “trotskismo”. A campanha é conduzida, não sobre a base dos problemas da revolução alemã, isto é, da vida ou da morte do proletariado mundial, mas sobre a base do artigo miserável e mentiroso de Stalin sobre as questões da história do bolchevismo. É difícil imaginar uma desproporção maior entre as tarefas da época de um lado, e os miseráveis recursos ideológicos da direção oficial de outro. Tal é a situação humilhante, indigna e ao mesmo tempo profundamente trágica da IC.

O problema do regime stalinista e o problema da revolução alemã estão ligados por um nó indissolúvel. Os próximos acontecimentos desatarão ou cortarão esse nó, tanto no interesse da revolução russa, quanto da revolução alemã.”

26 — Sabe-se que Yaroslavsky foi asperamente advertido por Stalin por ter se referido ao “trotskis­mo” como uma das tendências do comunismo. (N. do T.)

 

 

“É claro que é mais digno ser amigo do plano quinquenal soviético do que da Bolsa de Nova York. Mas a simpatia passiva pequeno-burguesa de esquerda está longe de ser bolchevismo. Bastará o primeiro insucesso importante de Moscou para dispersar a maioria dessa gente como poeira ao vento.”

 

 

“Em 1917, apesar da política correta do Partido Bolchevique e do desenvolvimento rápido da revolução, as camadas do proletariado menos favorecidas e mais impacientes, mesmo em Petrogrado, começaram, já em setembro-outubro, a afastar-se dos bolcheviques para aproximar-se dos sindicalistas e dos anarquistas. Se a insurreição de outubro não tivesse estalado em tempo, a desmoralização do proletariado teria tomado um caráter agudo e teria acarretado o apodrecimento da revolução. Na Alemanha não há necessidade dos anarquistas: eles podem ser substituídos pelos nacional-socialistas, que aliam a demagogia anarquista aos objetivos conscientemente reacionários.

Os operários não estão de modo algum garantidos de uma vez por todas contra a influência dos fascistas. O proletariado e a pequena burguesia representam vasos comunicantes, sobretudo nas condições atuais, em que o exército industrial de reserva não pode deixar de fornecer pequenos comerciantes, ambulantes etc., e a pequena burguesia falida de fornecer proletários e lumpen-proletários.

Os empregados, o pessoal técnico e administrativo, certas camadas de funcionários, constituíam no passado um dos apoios importantes da socialdemocracia. Hoje, estes elementos passam aos nacional-socialistas. Podem arrastar atrás de si, se já não o fizeram, a camada da aristocracia operária. Neste terreno, o nacional-socialismo invade o proletariado por cima.

Muito mais perigosa é a sua invasão possível por baixo, através dos desempregados. Nenhuma classe pode viver muito tempo sem perspectivas e sem esperanças. Os desempregados não são uma classe, mas formam uma camada social demasiado compacta e sólida, que tenta em vão sair de sua situação insuportável. De um modo geral, é verdade que só a revolução proletária pode salvar a Alemanha da decomposição e da ruína, e isto é, antes de tudo, verdadeiro em relação aos milhões de desempregados.

Com a fraqueza do Partido Comunista nas fábricas e nos sindicatos, o seu crescimento numérico nada resolve. Em uma nação devorada pela crise e pelas contradições, o partido da extrema esquerda pode encontrar dezenas de milhares de novos partidários, especialmente quando o seu aparelho é orientado para o recrutamento individual dos membros, pela via da “competição”. Todo o problema está na relação entre o partido e a classe. Um só operário comunista eleito para o comitê de fábrica ou para a direção de um sindicato tem uma importância muito maior do que mil novos membros conseguidos aqui e acolá, ingressos hoje no partido, para abandoná-lo amanhã.

Mas o afluxo individual de novos membros ao partido não durará também indefinidamente. Se o Partido Comunista continuar a retardar a luta até o momento em que tiver eliminado definitivamente os reformistas, perceberá que, a partir de um certo momento, a socialdemocracia deixará de perder sua influência em proveito dos comunistas e que os fascistas começarão a dividir os desempregados, que são a base principal do Partido Comunista. O fato de não utilizar suas forças para as tarefas que decorrem de toda a situação nunca passa impunemente para um partido político.

Para abrir caminho à luta de massas, o Partido Comunista tenta a realização de greves parciais. Os sucessos neste domínio não são grandes. Como sempre, os stalinistas fazem autocrítica: “Ainda não sabemos organizar...” “Ainda não sabemos mobilizar...” E quando se diz “nós”, isto sempre significa “vocês”. Ressuscita-se a famosa teoria da jornada de março de 1921: “eletrizar” o proletariado com ações ofensivas da minoria. Mas os operários não precisam ser “eletrizados” Querem uma perspectiva clara e auxílio na criação das bases de um movimento de massas.”

 

 

“Quando se trata dos próprios fundamentos da sociedade, não é a aritmética parlamentar que decide, mas a luta.”

 

 

“Admitamos que a socialdemocracia, sem intimidar-se perante os seus próprios operários, quisesse vender a Hitler a sua tolerância. Mas o fascismo não faz essa transação: não precisa da tolerância, mas da demolição da socialdemocracia. O governo de Hitler só pode realizar a sua tarefa se quebrar a resistência dos trabalhadores, desfazendo-se de todos os órgãos capazes de tal resistência. Eis em que consiste o papel histórico do fascismo.

Os stalinistas se limitam a um julgamento puramente psicológico, ou, mais exatamente, moral, dos covardes e egoístas pequeno-burgueses que dirigem a socialdemocracia. É lícito supor que esses traidores completos se separem da burguesia e se contraponham a ela? Um método tão idealista pouco tem em comum com o marxismo, que não parte daquilo que os homens pensam de si mesmos e do que desejam, mas, antes de tudo, das condições em que estão colocados e do modo como essas condições se transformam.”

A Luta Contra o Fascismo: Revolução e Contrarrevolução (Parte II), de Leon Trotsky

Editora: Sundermann

ISBN: 978-85-4556-006-7

Tradução: Mario Pedrosa (1933) e Rafael Padial (2019)

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 440

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Sinopse: Ver Parte I



“Mais uma vez a experiência russa

Para exprimir o mais clara e concretamente possível o meu pensamento, volto mais uma vez à experiência feita com o levante de Kornilov. No dia 26 de agosto (antigo calendário) do ano de 1917, o general Kornilov conduziu um corpo de cossacos e a chamada “divisão selvagem” contra Petrogrado. No poder achava-se Kerensky, agente da burguesia, e, em três quartas partes, aliado de Kornilov. Lenin se encontrava na ilegalidade, sob a acusação de estar ao serviço dos Hohenzollern. Sob a mesma acusação, eu me achava, nesses mesmos dias, incomunicável num cárcere da prisão de Kresty. Como agiram os bolcheviques nessa situação? Eles tinham também o direito de dizer: “Para vencer Kornilov é preciso vencer Kerensky.” Tinham dito isso mais de uma vez, pois era certo e necessário para toda a propaganda ulterior. Mas era absolutamente insuficiente para opor, no dia 26 de agosto e nos dias seguintes, resistência a Kornilov e impedir que este degolasse o proletariado de Petrogrado. Eis porque os bolcheviques não se contentaram com um apelo geral aos trabalhadores e aos soldados: romper com os conciliadores e apoiar a frente única vermelha dos bolcheviques. Não, os bolcheviques propuseram aos socialistas-revolucionários e aos mencheviques a frente única de combate e criaram com eles organizações de combate comuns. Isso era errado ou certo? Que Thälmann responda. Para mostrar mais claramente ainda em que pé as coisas se achavam com a frente única, narrarei o seguinte episódio: pessoalmente, depois de posto em liberdade, sob fiança paga pelos sindicatos, dirigi-me diretamente de meu cárcere ao Comitê de Defesa do Povo, onde, juntamente com o menchevique Dan e o socialista-revolucionário Gotz, aliados de Kerensky e que me haviam prendido, discuti e decidi sobre as questões da luta contra Kornilov. Isso estava certo ou errado? Que Remmele responda.

 

Brüning é o “mal menor”?

A social-democracia apoia Brüning, vota nele, toma por ele a responsabilidade junto às massas, sob o fundamento de que o governo de Brüning é o “mal menor”. É esse mesmo ponto de vista que a Rote Fahne procura atribuir-me, sob o fundamento de que me pronunciei contra a estúpida e infame participação dos comunistas no plebiscito de Hitler. Mas a Oposição de Esquerda alemã, e eu em particular, pedimos por acaso que os comunistas votem em Brüning e o apoiem? Nós, marxistas, consideramos Brüning, Hitler e Braun como os diversos elementos do mesmo sistema. A pergunta “Qual deles é o mal menor?” não tem qualquer sentido, porque o sistema que combatemos tem necessidade de todos esses elementos. Mas esses elementos acham-se agora em conflito, e o partido do proletariado deve utilizar esse conflito no interesse da revolução.

Uma escala compreende sete notas. A pergunta “Qual dessas notas é a ‘melhor: dó, ré ou sol?” é uma pergunta desprovida de sentido. O músico, porém, deve saber quando e em que tecla bater. Compreenderam? Para um entendimento limitado daremos mais um exemplo: Se um inimigo me faz engolir diariamente pequenas porções de veneno, e se outro quiser, num beco, atirar contra mim, derrubarei primeiro o revólver das mãos deste segundo inimigo, porque isso me dará possibilidade de acabar com o primeiro. Isto, entretanto, não quer dizer que o veneno seja um “mal menor” em comparação com o revólver.

A desgraça consiste justamente em que os dirigentes do Partido Comunista alemão se colocaram no mesmo terreno da social-democracia, apenas com o sinal contrário: a social-democracia vota em Brüning por considerá-lo o “mal menor”. Já os comunistas, que recusam toda confiança a Brüning e a Braun (e o fazem com justiça), saíram às ruas para apoiar o plebiscito de Hitler, isto é, a tentativa dos fascistas de derrubar Brüning. Mas dessa forma reconheceram que Hitler é o mal menor, pois a vitória do plebiscito teria levado ao poder não o proletariado, mas Hitler. É claro que é doloroso ter que explicar este abecê. Mas é triste, muito triste, quando músicos como Remmele, em lugar de distinguir as notas, batem no teclado com as patas.

 

Não se trata dos operários que abandonaram a social-democracia, mas dos que continuam nela

Em última análise, os milhares e milhares de Noske, Wels e Hilferding preferem o fascismo ao comunismo. Mas para isso, devem desfazer-se dos operários. Hoje, a social-democracia como um todo, com todos os seus antagonismos internos, acha-se em conflito agudo com os fascistas. Nossa tarefa consiste em utilizar esse conflito, e não em unir, no momento mais agudo, os adversários contra nós.

É preciso agora voltar a frente contra o fascismo. E essa frente de luta direta contra o fascismo, comum a todo o proletariado, deve ser utilizada para um combate colateral, mas não menos eficaz, contra a social-democracia.

Deve-se mostrar pelos fatos que estamos inteiramente prontos para fazer um bloco com os social-democratas contra os fascistas em todos os casos em que aqueles aceitem o bloco. Dizer aos operários social-democratas: “Abandonai vossos chefes e aderi à nossa frente única sem-partido” é o mesmo que juntar mais uma frase vazia a milhares de outras. É preciso primeiro, no trabalho, saber arrancar os operários de seus chefes. E o trabalho é agora a luta contra o fascismo.

Certamente há e haverá operários social-democratas prontos a lutar ombro a ombro com os operários comunistas contra os fascistas, independentemente da vontade, e mesmo contra a vontade, das organizações social-democratas. Com tais elementos avançados, deve-se estabelecer a ligação mais estreita possível. Mas até agora eles são pouco numerosos. O operário alemão é educado num espírito de organização e disciplina. Isto tem o seu lado forte como também o seu lado fraco. A maioria esmagadora dos operários social-democratas quer combater contra o fascismo, mas até agora não sem a sua organização. Não se pode saltar esta etapa. Devemos auxiliar os operários social-democratas a verificar pelos fatos — na situação nova e única — o quanto valem as suas organizações e os seus chefes quando se trata da vida ou morte da classe operária.”

 

 

“Nenhuma plataforma comum com a social-democracia ou com os chefes dos sindicatos alemães, nenhuma edição, nenhuma bandeira, nenhum cartaz comum: marchar separadamente, lutar juntos. Acordo apenas nisto: como combater, quem combater e quando combater? Nisto pode-se entrar em acordo com o próprio diabo, com a sua avó e mesmo com Noske e Grzesinsky. Com uma condição: conservar as mãos livres. (...)

Na luta contra o fascismo, um lugar importante está reservado aos comitês de fábrica. Aqui é preciso um programa de ação estudado muito particularmente. Cada fábrica deve se transformar em uma fortaleza antifascista, com o seu comandante e seus quadros de combate. É preciso que se tenha o plano dos quartéis fascistas e de outros focos fascistas em cada cidade, em cada distrito. Os fascistas tentam cercar os núcleos revolucionários. É preciso cercar os que os cercaram. Neste terreno, o acordo com as organizações social-democratas e os sindicatos não é somente admissível, mas obrigatório. Renunciar a ele por considerações de “princípios” (na verdade por tolice burocrática ou, pior ainda, por covardia) é o mesmo que auxiliar direta e imediatamente o fascismo.”

 

 

“A degeneração do capitalismo significa uma putrefação social e cultural. Está trancado o caminho para uma diferenciação metódica da nação, para o crescimento do proletariado à custa do enfraquecimento das classes médias. A manutenção ulterior da crise não pode significar senão pauperização da pequena burguesia e degeneração de camadas cada vez maiores da classe operária para o lumpemproletariado. Mais afiado do que qualquer outro, este perigo aperta a garganta da Alemanha adiantada.

A parte mais podre da Europa capitalista decadente é a burocracia social-democrata. Ela entrou no caminho da história sob a bandeira de Marx e de Engels. Tinha como fim a destruição da dominação burguesa. O poderoso crescimento do capitalismo apoderou-se dela e acorrentou-a à sua cauda. Primeiramente nos fatos e em seguida também nas palavras, renunciou à revolução em nome das reformas. Na verdade, Kautsky continuou ainda muito tempo com a fraseologia da revolução, adaptando-a às necessidades do reformismo. Em compensação, Bernstein exigiu a renúncia à revolução: o capitalismo representava a época do florescimento pacífico, sem crises e sem guerra. Que profecia exemplar! Poderia parecer que entre Kautsky e Bernstein existia uma contradição irreconciliável. Na realidade, completavam-se simetricamente um ao outro, como a bota esquerda e a bota direita do reformismo.

Veio a guerra. A social-democracia apoiou a guerra em nome da prosperidade futura. Em lugar da prosperidade, veio o declínio. Agora, a tarefa não consiste mais em deduzir da insuficiência do capitalismo a necessidade da revolução, tampouco em conciliar os trabalhadores com o capitalismo por meio de reformas. A nova política da social-democracia passou a consistir em salvar a sociedade burguesa à custa da renúncia às reformas. (...)

O sistema dos decretos burocráticos é incerto, instável, pouco viável. O capital tem necessidade de outra política mais decisiva, e o apoio da social-democracia, que tem de olhar para os seus próprios operários, é não apenas insuficiente para os seus fins, como já começa a incomodá-lo. O período das meias medidas passou. Para tentar uma nova saída, a burguesia precisa desembaraçar-se completamente da pressão das organizações operárias, afastá-las, destruí-las e dispersá-las.

Aqui começa a função histórica do fascismo. Ele põe de pé as classes que se levantam imediatamente acima do proletariado e temem ser precipitadas nas suas fileiras, organiza-as, militarizando-as com os meios do capital financeiro, sob a capa do Estado oficial, e as orienta para a destruição das organizações proletárias, desde as mais revolucionárias até as mais moderadas.

O fascismo não é simplesmente um sistema de repressão, de atos de força e de terror policial. O fascismo é um sistema de Estado particular, baseado no extermínio de todos os elementos da democracia proletária na sociedade burguesa. A tarefa do fascismo não consiste somente em destruir a vanguarda proletária, mas também em manter toda a classe num estado de fragmentação forçada. Para isto, a exterminação física da camada operária mais revolucionária é insuficiente. É preciso destruir todos os pontos de apoio do proletariado e exterminar os resultados do trabalho de três quartos de século da social-democracia e dos sindicatos. Porque neste trabalho também se apoia, em última instância, o Partido Comunista.

A social-democracia preparou todas as condições para a vitória do fascismo. Mas preparou também as condições de sua própria liquidação política. Lançar sobre a social-democracia a responsabilidade do sistema de decretos-leis de Brüning e da barbárie fascista ameaçadora é inteiramente justo. Identificar a social-democracia com o fascismo é inteiramente insensato.

Pela sua política durante a Revolução de 1848, a burguesia liberal preparou a vitória da contrarrevolução, que, então, condenou o liberalismo à impotência. Marx e Engels bateram na burguesia liberal alemã com não menos força do que Lassale e mais profundamente do que ele. Mas enquanto os lassalianos lançavam a contrarrevolução e a burguesia liberal numa “massa reacionária”, Marx e Engels se levantavam do modo mais justificado contra esse falso ultrarradicalismo. A posição falsa dos lassalianos fez deles acidentalmente cúmplices involuntários da monarquia, apesar do caráter geral progressivo de seu trabalho, extremamente mais sério e mais importante do que o do liberalismo.

A teoria do “social-fascismo” reproduz o erro essencial do lassalianismo em novas bases históricas. Ao mesmo tempo em que lança nacional-socialistas e social-democratas numa massa fascista, a burocracia stalinista pratica ações como o apoio ao plebiscito hitleriano: isto não é de modo algum melhor do que as manobras lassalianas com Bismarck.

Na sua luta contra a social-democracia, o comunismo alemão deve apoiar-se, na etapa atual, em duas bases inseparáveis: a) a responsabilidade política da social-democracia pela força do fascismo; b) a irreconciliabilidade absoluta entre o fascismo e as organizações operárias, nas quais a social-democracia se apoia.

As contradições do capitalismo alemão chegaram atualmente a esta tensão, à qual se seguirá a explosão, inevitavelmente. A capacidade de adaptação da social-democracia atingiu o limite em que já se produz a autodestruição. Os erros da burocracia stalinista atingiram o ponto após o qual vem a catástrofe. É esta a tripla fórmula que caracteriza a situação na Alemanha. Tudo está se apoiando sobre o fio da navalha.”

 

 

“Os políticos do reformismo, negocistas hábeis, esses intrigantes e arrivistas empedernidos, esses experientes manobristas parlamentares e ministeriais, assim que a marcha das coisas os expulsa de sua esfera habitual e os coloca diante de grandes acontecimentos, tornam-se — é difícil encontrar um qualificativo mais brando — completos idiotas.”

 

 

“A putrefação do capitalismo significa que a questão do poder tem de resolver-se na base das forças produtivas atuais. Prolongando a agonia do regime capitalista, a social-democracia só tem como resultado a decadência contínua da cultura econômica, o fracionamento do proletariado, a gangrena social. Não tem qualquer outra perspectiva diante de si: amanhã será pior do que hoje; depois de amanhã, pior do que amanhã. Mas os chefes da social-democracia não ousam mais prever o futuro. Já possuem todos os vícios da classe dirigente condenada à ruína: uma leviandade, uma paralisia da vontade, uma inclinação a fechar os olhos aos acontecimentos e esperar milagres.”

 

 

“Entre a democracia e o fascismo há uma contradição. Esta contradição não é de forma alguma “absoluta” ou, para falar-se como marxista, não significa de forma alguma a dominação de duas classes antagônicas. Mas significa sistemas diferentes de dominação de uma única e mesma classe. Esses dois sistemas, o sistema parlamentar-democrático e o sistema fascista, apoiam-se em diferentes combinações das classes oprimidas e exploradas e se chocam, inevitavelmente e de forma aguda, um contra o outro.

A social-democracia, que hoje é o representante principal do regime parlamentar burguês, apoia-se nos operários. O fascismo, porém, apoia-se na pequena burguesia. A social-democracia não pode ter influência sem as organizações operárias de massa. O fascismo, porém, não pode consolidar o seu poder de outra forma, senão destruindo as organizações operárias. A arena principal da social-democracia é o parlamento. O sistema do fascismo é baseado na destruição do parlamentarismo. Para a burguesia monopolista, o regime parlamentar e o regime fascista não representam senão diferentes instrumentos de sua dominação: recorre a um ou a outro, segundo as condições históricas. Mas para a social-democracia, como para o fascismo, a escolha de um ou do outro instrumento tem uma importância própria; mais ainda, é para eles uma questão de vida ou de morte política.

A hora do regime fascista chega no momento em que os meios militares-policiais “normais” da ditadura burguesa, com a sua capa parlamentar, se tornam insuficientes para manter a sociedade em equilíbrio. Por meio da agência fascista, a burguesia põe em movimento as massas da pequena burguesia enfurecida, os bandos de “desclassados”, os “lumpen-proletários” desmoralizados, todas essas inumeráveis existências humanas que o próprio capital financeiro levou ao desespero e à fúria.

A burguesia exige ao fascismo um trabalho “limpo”: desde que admite os métodos de guerra civil, ela quer ter paz durante uma série de anos. E os agentes fascistas, servindo-se da pequena burguesia como de uma arma, e aniquilando tudo à sua passagem, prosseguem no seu trabalho até o fim. A vitória do fascismo coroa-se quando o capital financeiro subordina, direta e imediatamente, todos os órgãos e instituições de domínio, de direção e de educação: o aparelho do Estado e o exército, as prefeituras, as universidades, as escolas, a imprensa, os sindicatos, as cooperativas. A fascistização do Estado significa não apenas “mussolinizar” as formas e os processos de direção — neste domínio as mudanças desempenham, no final das contas, um papel secundário — mas, antes de tudo e sobretudo, destruir as organizações operárias, reduzir o proletariado a um estado amorfo, criar um sistema de organismos que penetre profundamente nas massas e esteja destinado a impedir a cristalização independente do proletariado. É precisamente nisto que consiste a essência do regime fascista.

O que acaba de ser dito não contradiz o fato de que, entre o sistema democrático e o sistema fascista, se estabeleça, num período dado, um regime transitório, contendo traços de um e de outro sistema; tal é, em geral, a lei da mudança de dois regimes sociais, mesmo de regimes irredutivelmente hostis. Há momentos em que a burguesia se apoia tanto na social-democracia como no fascismo, isto é, quando ela se serve simultaneamente de seus agentes conciliadores e de seus agentes terroristas.”

 

 

“Como epígrafe às suas pesquisas sobre o social-fascismo, a Rote Fahne escolheu as palavras de Stalin: “O fascismo é a organização de combate da burguesia que se apoia no auxílio ativo da social-democracia. A social-democracia é objetivamente a ala moderada do fascismo.” Como acontece com Stalin quando ele procura generalizar, a primeira frase está em contradição com a segunda. Que a burguesia se apoie na social-democracia e que o fascismo seja uma organização de combate da burguesia, isto é de todo incontestável e conhecido há muito tempo. Mas daí decorre, unicamente, que a social-democracia, assim como o fascismo, são instrumentos da grande burguesia. De que modo a social-democracia se torna, ainda por cima, e ao mesmo tempo, uma “ala” do fascismo, isto já é mais difícil de compreender. Não menos profunda é outra definição do mesmo autor: “O fascismo e a social-democracia são não inimigos, mas gêmeos.” Os gêmeos podem ser os piores inimigos; por outro lado, os aliados não nascem, necessariamente, no mesmo dia e da mesma mãe. Na construção de Stalin falta não apenas a dialética, mas mesmo a lógica formal. A força desta construção consiste em que ninguém ousa contradizê-la.

Entre a democracia e o fascismo não há diferença “quanto ao conteúdo de classe”, nos ensina, depois de Stalin, Werner Hirsch (Die Internationale16, janeiro de 1932). A passagem da democracia ao fascismo pode ter um caráter de “processo orgânico”, isto é, pode produzir-se “gradualmente e por via fria”. Este raciocínio seria espantoso se os epígonos não nos tivessem tirado o hábito de nos espantarmos.

Entre a democracia e o fascismo não há “diferença de classe”. Isto deve significar, evidentemente, que a democracia tem um caráter burguês, assim como o fascismo. Não o púnhamos em dúvida, mesmo antes de janeiro de 1932. Mas a classe dominante não vive no vácuo. Ela estabelece certas relações com as outras classes. No regime “democrático” da sociedade capitalista desenvolvida, a burguesia apoia-se, antes de tudo, na classe operária domesticada pelos reformistas. Esse sistema é expresso de forma mais acabada na Inglaterra, tanto sob o governo trabalhista, como sob o governo conservador. No regime fascista, ao menos no seu primeiro estágio, o capital apoia-se na pequena burguesia, que destrói as organizações do proletariado. Tal é o exemplo da Itália! Há diferença no “conteúdo de classe” desses dois regimes? Se só se coloca a questão da classe dominante, não há qualquer diferença. Mas, consideradas a situação e as relações entre todas as classes, do ponto de vista do proletariado, a diferença se revela bastante grande.

Durante muitas décadas, no interior da democracia burguesa, servindo-se dela e lutando contra ela, os operários edificaram as suas fortificações, as suas bases, os seus núcleos de democracia proletária: sindicatos, partidos, clubes de educação, organizações esportivas, cooperativas etc. O proletariado pode chegar ao poder não nos quadros formais da democracia burguesa, mas somente por via revolucionária. Isto é demonstrado ao mesmo tempo pela teoria e pela experiência. Mas é justamente para a via revolucionária que o proletariado tem necessidade das bases de apoio da democracia operária no interior do Estado burguês. Foi na criação de tais bases que se manifestou o trabalho da II Internacional, na época em que ela realizava ainda um trabalho historicamente progressivo.

O fascismo tem como função essencial e única a destruição, até os alicerces, de todas as instituições da democracia proletária. Esse fato tem ou não para o proletariado “uma importância de classe”? Que os nossos grandes teóricos reflitam sobre isto um pouco. Dando ao regime o nome de burguês — o que é incontestável —, Hirsch e os seus senhores esqueceram um detalhe: o lugar do proletariado nesse regime. Substituem o processo histórico por uma abstração sociológica vazia. Mas a luta de classes se desenrola no terreno da história, e não na estratosfera da sociologia. O ponto de partida da luta contra o fascismo não é a abstração do Estado democrático, mas as organizações vivas do próprio proletariado, nas quais está concentrada toda a sua experiência e que preparam o seu futuro.

A tese de que a passagem da democracia ao fascismo pode ter um caráter “orgânico” e “gradual” não significa, então, com toda a evidência, outra coisa senão isto: podem tirar do proletariado não só todas as suas conquistas materiais — um certo nível de vida, a legislação social, os direitos civis e políticos — mas também o instrumento essencial de suas conquistas, isto é, as suas organizações, e isso sem abalos e sem combates. A passagem ao fascismo “por via fria” supõe, assim, a mais terrível das capitulações políticas do proletariado que se possa imaginar.”

16 — A Internacional, órgão da Internacional Comunista. (N. do T)

 

 

“Quando a reação exige que os interesses da “nação” sejam colocados acima dos interesses de classe, nós, os marxistas, dizemos que, sob a forma do interesse “geral”, a reação defende os interesses de classe dos exploradores. Não se pode formular os interesses da nação a não ser sob o ângulo da classe dominante ou da classe que busca a dominação; não se pode formular os interesses de classe a não ser sob a forma de um programa; não se pode defender o programa a não ser por meio da criação de um partido.

A classe tomada em si não é mais do que matéria para a exploração. O papel próprio do proletariado começa no momento em que, de uma classe social em si, se torna uma classe política para si. Isto só pode acontecer por intermédio do partido. O partido é o órgão histórico com o auxílio do qual a classe operária adquire a sua consciência. Dizer que “a classe está acima do partido” é o mesmo que dizer: “A classe em estado bruto está acima da classe em vias de adquirir a sua consciência.” Isto não só é falso, como é reacionário. Para justificar a necessidade da frente única, não há qualquer necessidade de recorrer a esta teoria vulgar.

O desenvolvimento da classe rumo à sua consciência, isto é, a edificação de um partido revolucionário que arraste atrás de si o proletariado, é um processo complicado e contraditório. A classe não é homogênea. Suas diferentes partes adquirem consciência por caminhos diferentes e em épocas diferentes. A burguesia participa ativamente deste processo. Cria os seus órgãos na classe operária ou utiliza os já existentes, opondo certas camadas de operários a outras. No seio do proletariado agem simultaneamente diferentes partidos. Eis porque o proletariado vive politicamente dividido durante a maior parte de seu caminho histórico. Daí provém — com uma agudez excepcional em certos períodos — o problema da frente única.

O partido comunista — com uma política justa — expressa os interesses históricos do proletariado. Sua tarefa consiste em conquistar a maioria do proletariado: só assim a revolução socialista é possível. O partido comunista só pode desempenhar a sua missão preservando sua plena independência política e organizativa, sem reservas, em relação a todos os partidos e organizações dentro da classe operária e fora dela. A transgressão desta regra fundamental da política marxista é o mais grave crime contra os interesses do proletariado como classe.”

 

 

“O caráter da ação é determinado não pelo jogo de categorias abstratas, mas pela correlação real das forças históricas vivas.”

 

 

“No plano político, uma situação revolucionária consiste precisamente em que todos os agrupamentos e todas as camadas do proletariado, ou pelo menos a sua maioria esmagadora, estejam tomados do desejo de unificar os seus esforços para mudar o regime existente. Contudo, isto não quer dizer que todos compreendam como fazê-lo e, menos ainda, que estejam todos prontos, já hoje, para romper com os seus partidos e passar para as fileiras do comunismo. Não, a consciência política da classe não chega à sua maturação de acordo com um plano tão rigoroso e de uma maneira tão metódica. Continuam a existir profundas divergências internas, mesmo durante a época revolucionária, quando todos os processos se desenvolvem por saltos. Mas ao mesmo tempo, a necessidade de uma organização acima dos partidos, abarcando toda a classe, adquire uma agudez especial. Dar uma forma a esta necessidade — é este o destino histórico dos sovietes. É esta a sua grande função. Nas condições da situação revolucionária, exprimem a suprema organização da unidade proletária. Quem não tiver compreendido isso não compreendeu nada sobre o problema dos sovietes. (...)

Independentemente do meio pelo qual devam surgir, os sovietes não podem vir a ser outra coisa senão a expressão organizativa dos lados fortes e dos lados fracos do proletariado, de suas divergências internas e de sua ânsia geral para superá-las; em suma: órgãos de frente única da classe.”

 

 

“Realmente, o regime stalinista praticou horríveis devastações nos cérebros! Depois de ter burocratizado os sovietes na URSS, os epígonos os tratam agora como instrumentos técnicos nas mãos do aparelho do partido. Esqueceram-se que os sovietes se formaram como parlamentos operários e que atraíam as massas porque criavam a possibilidade de colocar ombro a ombro todas as partes da classe operária, independentemente das divergências de partido; esqueceram-se que foi precisamente nisto que consistiu a força educadora e revolucionária dos sovietes. Tudo está esquecido, tudo está embaralhado, tudo está deformado. Oh, epígonos, mil vezes malditos!”

 

 

“O centrismo se contenta com pouca coisa. Mas a revolução exige muito. A revolução exige tudo, integralmente.”

 

 

“Um social-democrata assustado ainda não é um revolucionário.”

 

 

“Mesmo as pessoas inteligentes podem fazer tolices, sobretudo na sua juventude. Mas desse direito, como já aconselhava Heine, não se deve abusar. Se as tolices políticas de um tipo determinado se repetem sistematicamente no curso de um período prolongado, e isto no domínio dos problemas mais importantes, então deixam de ser simplesmente tolices e se tornam uma tendência.”