domingo, 13 de outubro de 2013

Bem-vindo ao deserto do real!, de Slavoj Žižek

Editora: Boitempo

Tradução: Paulo Cezar Castanheira

ISBN: 978-85-7559-035-5

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 192

Sinopse: Bem-vindo ao deserto do real! é uma coletânea de cinco ensaios de Slavoj Žižek, onde o autor aborda os acontecimentos de 11 de Setembro e suas consequências.

O filósofo esloveno firmou-se como um importante interlocutor nos debates sobre o destino do pensamento político de esquerda, ao mesmo tempo em que se transformou em figura de destaque dos cultural studies norte-americanos, ao fornecer uma outra via de abordagem da cultura contemporânea.

Em Bem- vindo ao deserto do real!, Slavoj Žižek usa a provocativa frase ‘Com essa esquerda, quem precisa de direita?’ para comentar a atuação da esquerda no período posterior aos atentados de 2001. Atuação essa que permitiu que a ideologia hegemônica se apropriasse da tragédia e impusesse sua mensagem de que é preciso escolher um lado na ‘guerra contra o terrorismo’.

Para o autor, a tentação de escolher um dos lados deve ser evitada. Segundo Žižek, quando as escolhas parecem muito claras, a ideologia se encontra em seu estado mais puro, obscurecendo as verdadeiras opções. A ‘democracia liberal’ não é a alternativa ao ‘fundamentalismo’ muçulmano, coloca.

Publicado pela Boitempo dentro da coleção Estado de Sítio, Bem-vindo ao deserto do Real! não é apenas mais um livro sobre os desafios políticos impostos pelo 11 de Setembro. Movendo-se no interior de um terreno para onde convergem a crítica da cultura, a psicanálise, a teoria social, a análise cinematográfica e a política, Žižek sabe diagnosticar os sintomas da sociabilidade contemporânea e desvendar articulações onde menos se espera.

Suas conclusões ultrapassam a análise circunstancial de um fato e levam o leitor ao cerne dos impasses do nosso tempo. Um tempo em que a busca pela realidade objetiva que há por trás das aparências é falsa, funcionando como ‘o estratagema definitivo para evitar o confronto com o Real’.



“A especificidade da Revolução Cubana é mais bem expressa pela dualidade entre Fidel e Che Guevara: Fidel, o verdadeiro líder, autoridade suprema do Estado, versus Che, o eterno rebelde revolucionário que não se resignou a apenas governar um Estado. Não seria parecido com a União Soviética onde Trotsky não fosse rejeitado como o arquitraidor? Imaginemos que, em meados da década de 1920, Trotsky tivesse emigrado e renunciado à cidadania soviética para trabalhar pela revolução permanente no mundo, e pouco depois morresse – depois de sua morte, Stalin o teria elevado à condição de culto... É evidente que tal devoção à Causa (“Socialismo o muerte!”), uma vez que a Causa está corporificada no Líder, pode facilmente degenerar em o Líder decidir sacrificar, não a si próprio em prol do país, mas o país em prol de si mesmo, da sua Causa. (Da mesma forma, a prova da verdadeira fidelidade ao Líder não é o fato de se estar disposto a receber uma bala atirada contra ele; acima disso, é necessário estar pronto a receber uma bala atirada por ele – aceitar ser abandonado ou até sacrificado por ele em nome de objetivos mais altos).”

 

 

“Hoje encontramos no mercado uma série de produtos desprovidos de suas propriedades malignas: café sem cafeína, creme de leite sem gordura, cerveja sem álcool... E a lista não tem fim: o que dizer do sexo virtual, o sexo sem sexo; da doutrina de Colin Powell da guerra sem baixas (do nosso lado, é claro), uma guerra sem guerra; da redefinição contemporânea da política como a arte da administração competente, ou seja, a política sem política; ou mesmo do multiculturalismo tolerante de nossos dias, a experiência do Outro sem sua Alteridade (o Outro idealizado que tem danças fascinantes e uma abordagem holística ecologicamente sadia da realidade, enquanto práticas como o espancamento das mulheres ficam ocultas...)? A Realidade Virtual simplesmente generaliza esse processo de oferecer um produto esvaziado de sua substância: oferece a própria realidade esvaziada de sua substância, do núcleo duro e resistente do Real – assim como o café descafeinado tem o aroma e o gosto do café de verdade sem ser o café de verdade, a Realidade Virtual é sentida como a realidade sem o ser. Mas o que acontece no final desse processo de virtualização é que começamos a sentir a própria “realidade real” como uma entidade virtual. Para a grande maioria do público, as explosões do WTC aconteceram na tela dos televisores, e a imagem exaustivamente repetida das pessoas correndo aterrorizadas em direção às câmeras seguidas pela nuvem de poeira da torre derrubada foi enquadrada de forma a lembrar as tomadas espetaculares dos filmes de catástrofe, um efeito especial que superou todos os outros, pois – como bem sabia Jeremy Bentham – a realidade é a melhor aparência de si mesma.”

 

 

“E a mesma desrealização do horror continuou depois do colapso do WTC: apesar de se repetir constantemente o número de vítimas – 3.000 –, o que impressiona é ser tão pequena a quantidade de carnificina exibida – não se veem corpos desmembrados, não há sangue, nem os rostos desesperados de pessoas agonizantes, num claro contraste com as catástrofes do Terceiro Mundo, em que se faz questão de mostrar a imagem de algum detalhe mórbido: somalis morrendo de inanição, mulheres bósnias violentadas, homens com a garganta cortada. Essas imagens são sempre precedidas por um aviso de que “as imagens mostradas a seguir são extremamente chocantes e podem afetar crianças” – uma advertência que não se viu nas reportagens sobre a destruição do WTC. Não seria isso prova adicional de como, mesmo nesse momento trágico, persiste a distância que nos separa deles, da realidade deles: o verdadeiro horror acontece lá, não aqui.”

 

 

“O grande sucesso dos irmãos Wachowski, Matrix (1999), levou essa lógica ao seu clímax: a realidade material que todos sentimos e vemos à nossa volta é virtual, gerada e coordenada por um gigantesco megacomputador a que estamos todos ligados; quando acorda na “realidade real”, o herói, interpretado por Keanu Reeves, se vê numa paisagem desolada cheia de ruínas carbonizadas – o que sobrou de Chicago depois de uma guerra global. O líder da resistência, Morpheus, lança-lhe uma estranha saudação: “Bem-vindo ao deserto do real”. Esse resumo não é semelhante ao que sucedeu em Nova Iorque no dia 11 de setembro? Seus cidadãos foram então apresentados ao “deserto do real” – para nós, corrompidos por Hollywood, as imagens da queda das torres só poderiam ser uma reprodução das cenas mais emocionantes das grandes produções sobre catástrofes”.

 

 

“O ridículo do ataque americano contra o Afeganistão é um exemplo: se a maior potência do mundo bombardeia um dos países mais pobres, onde os camponeses mal conseguem sobreviver em montanhas estéreis, não estamos diante de um exemplo definitivo de acting out impotente? O Afeganistão, por outro lado, é o alvo ideal: um país já reduzido a ruínas, sem infraestrutura, repetidamente destruído pela guerra ao longo das duas últimas décadas... Não podemos deixar de pensar que a escolha do Afeganistão também foi determinada por considerações econômicas: não é melhor manifestar a própria raiva contra um país para o qual ninguém dá importância e onde não há mais nada a destruir? Infelizmente, a escolha do Afeganistão traz à memória a história do louco que procura uma chave perto do poste de luz; quando lhe perguntam por que procurar ali, se ele tinha perdido a chave num canto escuro, ele responde: “Mas é mais fácil procurar onde está claro!”. Não é a ironia definitiva o fato de, já antes do bombardeio americano, Kabul já estar igual ao sul de Manhattan depois do 11 de Setembro? A “guerra contra o terrorismo” funciona então como um ato cujo verdadeiro objetivo é nos acalmar, na falsamente segura convicção de que nada mudou realmente.”

 

 

“Estamos entrando numa nova era de guerra paranoica em que a principal tarefa será identificar o inimigo e suas armas. Nessa nova guerra, os agentes vão cada vez menos assumir publicamente os seus atos: não somente os próprios “terroristas” terão menos interesse em assumir a responsabilidade por seus atos (nem mesmo a notória Al-Qaeda assumiu explicitamente os ataques de 11 de setembro, para não mencionar o mistério com relação às cartas com antraz); as medidas “antiterroristas” do Estado também são ocultas por um manto de segredo – e tudo isso forma o caldo de cultura ideal para teorias conspiratórias e paranoia social generalizada.

Com o pânico gerado pelo antraz em outubro de 2001, o Ocidente teve o primeiro gosto dessa nova guerra “invisível” em que – um aspecto que se deve ter sempre em mente – nós, cidadãos comuns, ficamos totalmente dependentes das autoridades para saber o que está ocorrendo: nada vemos nem ouvimos; tudo o que sabemos nos chega da mídia oficial. Uma superpotência bombardeia um deserto desolado e, ao mesmo tempo, é refém de uma bactéria invisível – é essa, não a explosão do WTC, a primeira imagem da guerra do século XXI. Em vez de um rápido acting out, deveremos enfrentar algumas perguntas difíceis: qual será o significado de “guerra” no século XXI? Quem serão “eles”, se eles não são claramente nem Estados nem gangues criminosas? Aqui, não resisto à tentação de relembrar a oposição freudiana entre o direito público e seu supereu obsceno: da mesma forma, não seriam as “organizações terroristas internacionais” o lado obsceno de uma grande empresa multinacional – a máquina rizomática definitiva, onipresente, mas sem base territorial definida? Não são elas a forma em que os “fundamentalismos” nacionalistas e/ou religiosos se acomodaram ao capitalismo global? Não corporificam a contradição última, com seu conteúdo particular ou exclusivo e funcionamento dinâmico global?”.

 

 

“Sob a oposição entre sociedades “liberais” e “fundamentalistas”, “McWorld versus Jihad”, oculta-se um embaraçoso terceiro termo: países como a Arábia Saudita e Kuwait, monarquias profundamente conservadoras, mas aliados econômicos dos americanos, completamente integrados ao capitalismo ocidental. Nesse caso, os Estados Unidos têm um interesse muito preciso e simples: para poder contar com as  reservas de petróleo desses países, estes devem continuar sendo não democráticos (a noção subjacente é evidentemente a de que qualquer despertar democrático poderia dar ensejo a atitudes antiamericanas). É uma velha história, cujo infame primeiro capítulo, depois da Segunda Guerra Mundial, foi o coup d’état orquestrado pela CIA contra o governo democraticamente eleito do primeiro-ministro Muhammad Mossadegh, em 1953 – ali não havia “fundamentalismo”, nem mesmo uma “ameaça soviética”, apenas um despertar democrático, baseado na ideia de que o país deveria assumir o controle de suas reservas de petróleo e quebrar o monopólio das companhias ocidentais. Durante a Guerra do Golfo, em 1990, descobriu-se até onde os Estados Unidos estão dispostos a chegar a fim de manter esse pacto, quando soldados judeus americanos aquartelados na Arábia Saudita tiveram de ser transportados por helicóptero até os porta-aviões no Golfo para orar, pois os ritos não-maometanos são proibidos em solo saudita.

A posição “pervertida” dos verdadeiros “fundamentalistas” dos regimes árabes conservadores é a chave das charadas (geralmente cômicas) da política americana no Oriente Médio: eles representam o ponto em que os EUA são forçados a reconhecer explicitamente a primazia da economia sobre a democracia – ou seja, o caráter secundário e manipulativo das intervenções internacionais legitimadoras – quando afirmam proteger a democracia e os direitos humanos. O que não se pode deixar de ter em mente acerca do Afeganistão é que, até a década de 1970 – ou seja, antes da época em que o país se envolveu na luta das superpotências –, ele era uma das sociedades maometanas mais tolerantes, com uma tradição secular: Kabul era conhecida como uma cidade de vibrante vida cultural e política. O paradoxo, portanto, é que a ascensão do Talibã, essa aparente “regressão” ao ultrafundamentalismo, longe de expressar uma profunda tendência “tradicionalista”, foi o resultado de o país ter caído no vórtice da política internacional – foi não somente uma reação a ela, mas também resultado direto do apoio das potências estrangeiras (Paquistão, Arábia Saudita e os próprios EUA).

Quanto ao “choque de civilizações”, é bom lembrar a carta de uma menina americana de sete anos cujo pai era piloto na guerra do Afeganistão: ela escreveu que – embora amasse muito seu pai, estava pronta a deixá-lo morrer, a sacrificá-lo por seu país. Quando o presidente Bush citou suas palavras, elas foram entendidas como manifestação “normal” de patriotismo americano; vamos conduzir uma experiência mental simples, e imaginar uma menina árabe maometana pateticamente lendo para as câmeras as mesmas palavras a respeito do pai que lutava pelo Talibã – não é necessário pensar muito sobre qual teria sido a nossa reação: mórbido fundamentalismo islâmico que não rejeita nem mesmo a cruel manipulação e exploração das crianças... Toda característica atribuída ao Outro já está presente no coração mesmo dos EUA. (...) George W. Bush foi forçado a reconhecer que os prováveis autores dos ataques com antraz não eram terroristas maometanos, mas fundamentalistas cristãos da extrema direita americana – mais uma vez, o fato de atos antes atribuídos a um inimigo externo poderem na verdade ser perpetrados dentro da própria Amérique profonde não nos ofereceria uma confirmação inesperada da tese de que o verdadeiro choque é o choque no interior de cada civilização?”

 

 

“Em 11 de setembro os EUA tiveram a oportunidade de entender a espécie de mundo de que eles fazem parte. Poderiam ter aproveitado a oportunidade – mas não o fizeram; pelo contrário, optaram por reafirmar seus compromissos ideológicos tradicionais: abaixo os sentimentos de responsabilidade e culpa com relação à miséria do Terceiro Mundo, agora nós somos as vítimas! Assim, quando Timothy Garton Ash afirma pateticamente com relação ao Tribunal de Haia: “Nenhum Führer, nem Duce, nem Pinochet, nem Idi Amin, nem Pol Pot poderão mais se proteger da intervenção da justiça do povo atrás dos portões dos palácios da soberania”, é bom notar quem está ausente dessa série de nomes que, à parte os nomes consagrados de Hitler e Mussolini, contêm três ditadores do Terceiro Mundo: onde está pelo menos um nome dos Sete Grandes – alguém como Kissinger, por exemplo?”

 

 

“Não sabemos ainda quais serão as consequências desse acontecimento para a economia, a ideologia, a política e a guerra, mas uma coisa é certa: os EUA, que até hoje achavam que eram uma ilha protegida desse tipo de violência, vendo-a apenas da distância segura da tela do televisor, estão agora diretamente envolvidos. Assim, a alternativa é: decidirão os EUA fortificar ainda mais a sua “esfera”, ou se arriscarão a sair dela? Ou persistem – e até reforçam – a atitude profundamente imoral de perguntar: “Por que isso teve de acontecer conosco? Esse tipo de coisa não acontece aqui!”, levando a mais agressividade contra o ameaçador Exterior – em suma: um paranoico acting out. Ou os EUA finalmente se arriscam a ultrapassar a tela fantasmática que os separa do Mundo Exterior, e aceitam sua chegada no mundo real, fazendo um movimento já muito retardado: o de, em vez de dizer que “esse tipo de coisa não deveria acontecer aqui!”, passar a dizer que “esse tipo de coisa não deveria acontecer em lugar nenhum!”. É esta a verdadeira lição dos ataques: a única forma de assegurar que isso não vai acontecer aqui é evitar que aconteça em qualquer lugar. Resumindo, a América deve aprender humildemente a aceitar sua própria vulnerabilidade enquanto parte deste mundo, impondo a punição aos responsáveis como um dever triste, não como uma excitante retaliação – mas o que está acontecendo é a reafirmação do papel excepcional dos EUA como a polícia do mundo, como se a causa do ressentimento contra os EUA não fosse o excesso, e sim a falta, de poder.”

 

 

“Com essa “esquerda” (que temos hoje), quem precisa de direita?”

 

 

“Ao longo do século XX, percebe-se o mesmo padrão: para esmagar seu verdadeiro inimigo, o capitalismo começou a brincar com fogo, e mobilizou seu excesso obsceno disfarçado de fascismo; mas esse excesso assumiu vida própria, e se tornou tão forte que o capitalismo “liberal” foi forçado a unir forças com seu verdadeiro inimigo (o comunismo) para derrotá-lo. Significativamente, a guerra entre o capitalismo e o comunismo foi uma guerra fria, ao passo que a grande guerra quente foi lutada contra o fascismo. E o caso do Talibã não seria idêntico? Depois de criar um fantasma para combater o comunismo, eles o transformaram em seu principal inimigo. Consequentemente, mesmo que o terrorismo nos mate a todos, a guerra americana contra o terrorismo não é a nossa luta, mas uma luta interna do universo capitalista. O primeiro dever de um intelectual progressista (se é que esse termo tem ainda hoje algum significado) não é lutar as lutas de seu inimigo por ele.”

 

 

“As “férias da história” dos EUA foram uma farsa: a paz americana foi comprada com catástrofes que aconteciam por toda parte. Nos dias de hoje, a imagem dominante é a de um olhar inocente que confronta o Mal indizível que atacou do Exterior – e mais uma vez, com relação a esse olhar, é preciso reunir forças para aplicar a ele o conhecido dito hegeliano de que o Mal reside (também) no olhar inocente que percebe o Mal em tudo.”

 

 

“Na velha República Democrática Alemã era impossível uma pessoa combinar três características: convicção (fé na ideologia oficial), inteligência e honestidade. Quem acreditava e era inteligente, não era honesto; quem era inteligente e honesto, não acreditava; quem acreditava e era honesto não podia ser inteligente. O mesmo não se aplica à ideologia da democracia liberal? Quem finge levar a sério a ideologia liberal hegemônica não pode ser ao mesmo tempo inteligente e honesto: ou é estúpido ou um cínico corrompido. Portanto, se me permitem uma alusão de mau gosto ao Homo sacer de Agamben, quero afirmar que o modo liberal dominante de subjetividade hoje é o Homo otarius: ao tentar manipular e explorar os outros, acaba sendo ele o verdadeiro explorado.”

 

 

“Homens que começam lutando contra a Igreja em nome da liberdade e humanidade acabam por abrir mão da liberdade e da humanidade para poder lutar contra a Igreja”, diz Chesterton. A primeira coisa a acrescentar hoje a esta passagem é que o mesmo vale para os advogados da religião: quantos defensores fanáticos da religião começaram pelo ataque feroz à cultura secular e terminaram por abandonar a própria religião (perdendo toda experiência religiosa significativa)? E não é verdade que, de forma exatamente homóloga, os guerreiros liberais ficam tão ávidos para lutar contra o fundamentalismo antidemocrático que terminam por eliminar a liberdade e a democracia, se isto for necessário para lutar contra o terrorismo? Têm tamanha paixão por demonstrar que o fundamentalismo não cristão é a maior ameaça à liberdade que estão prontos a recair na posição de que é preciso limitar nossa própria liberdade aqui e agora, nas nossas sociedades supostamente cristãs. Se os “terroristas” estão prontos a destruir este mundo por amor ao próximo, nossos guerreiros contra o terrorismo estão prontos a destruir seu próprio mundo democrático por ódio ao outro muçulmano. Alter e Dershowitz amam tanto a dignidade humana que estão prontos a legalizar a tortura – a degradação última da dignidade humana – para defendê-la.”

 

 

“A principal imagem do tratamento das “populações locais” como Homo sacer talvez seja a do avião de guerra voando sobre o Afeganistão: nunca se sabe se ele vai lançar bombas ou pacotes de alimentos.”

 

 

“O inesperado precursor dessa “biopolítica” paralegal em que as medidas administrativas substituem gradualmente o domínio do Direito foi o regime autoritário de direita de Alfredo Stroessner no Paraguai durante as décadas de 1960 e 70, que trouxe a lógica do estado de exceção ao mais extremo absurdo. Sob Stroessner, o Paraguai era – em termos da ordem constitucional – uma democracia parlamentar “normal” com a garantia de todas as liberdades; como, entretanto, conforme a alegação de Stroessner, vivemos todos em estado de emergência por causa da luta mundial entre a liberdade e o comunismo, a implementação total da Constituição era sempre adiada e proclamado um permanente estado de emergência. Esse estado de emergência só era suspenso por um dia a cada quatro anos para que houvesse as eleições que legitimavam o governo do Partido Colorado de Stroessner com uma maioria de 90 por cento – digna dos adversários comunistas... O paradoxo é que esse estado de emergência era o estado normal, ao passo que a liberdade democrática “normal” era uma exceção de curtíssima duração.”

 

 

“Esses paradoxos também oferecem a chave para entender como as duas lógicas do estado de emergência se relacionam uma com a outra: a atual emergência liberal-totalitária da “guerra ao terrorismo” e o autêntico estado revolucionário de emergência, primeiramente articulado por São Paulo no que ele denominou a emergência da aproximação do “fim do tempo”. A resposta é clara: quando uma instituição estatal proclama o estado de emergência, ela o faz, por definição, como parte de uma estratégia desesperada para evitar a verdadeira emergência e “retornar ao estado normal das coisas”. Há uma característica comum a todas as proclamações reacionárias de “estado de emergência”: foram todas dirigidas contra a agitação popular (“confusão”) e apresentadas como medidas para restaurar a normalidade. Na Argentina, no Brasil, na Grécia, no Chile e na Turquia, os militares proclamaram um estado de emergência a fim de controlar o “caos” da politização generalizada. “Essa loucura tem de terminar; as pessoas devem retomar seus empregos, o trabalho tem de continuar!”. Em resumo, a proclamação reacionária do estado de emergência é uma defesa desesperada contra o verdadeiro estado de emergência.”

 

 

“Em fevereiro de 2002 foi anunciado um plano – rapidamente arquivado – de estabelecer um “Departamento de Influência Estratégica”, entre cujas tarefas incluía-se a disseminação de inverdades na mídia estrangeira para propagar a imagem dos EUA no mundo. O problema desse departamento não era apenas a admissão clara da mentira; ela ajustava-se à conhecida declaração: “Se há uma coisa pior que um homem que mente, é um homem que não está à altura de suas mentiras!”. (Essa história se refere à reação de uma mulher ao amante, que desejava toda forma de sexo que não a penetração, para não ter de mentir à esposa quando dissesse que não estava mantendo relações sexuais – ou seja, ele queria dar uma de Bill Clinton com ela. Nessas circunstâncias, a mulher tinha todo o direito de dizer que a mentira completa – a negativa de relações sexuais – teria sido mais honesta que a estratégia adotada de mentir usando meia-verdade.) É natural, então, que o plano tenha sido rapidamente abandonado: uma agência do governo anunciar abertamente que seu objetivo, entre outros, é disseminar mentiras é inviável. O que isso quer dizer, evidentemente, é que a disseminação oficial de mentiras vai continuar: a ideia de uma agência do governo dedicada à mentira foi, de certa forma, honesta demais – teve de ser abandonada precisamente para permitir a divulgação eficiente de mentiras.”

 

 

“Liberdade é a liberdade dos que pensam diferente” (Rosa Luxemburgo).

 

 

“Um acontecimento notável ocorreu em Israel em janeiro ou fevereiro de 2002: a recusa organizada de centenas de reservistas a servir nos territórios ocupados. Esses refuseniks (como são chamados) não são simplesmente “pacifistas”: em sua proclamação pública, enfatizaram que cumpririam o seu dever de lutar por Israel nas guerras contra os Estados árabes, nas quais alguns deles foram altamente condecorados. Alegavam simplesmente (e há sempre algo simples num ato ético) que não concordavam em lutar “para dominar, expulsar, reduzir à fome e humilhar todo um povo”. Essas alegações estão documentadas nas descrições detalhadas das atrocidades cometidas pela Força de Defesa de Israel (FDI), desde a matança de crianças até a destruição de propriedade palestina. É assim que Gil Nemesh relata a “realidade do pesadelo nos territórios” no website dos refuseniks (seruv.org.il):

Meus amigos – forçando um velho a se humilhar, ferindo crianças, agredindo pessoas por divertimento, e mais tarde vangloriando-se de tudo isso, rindo dessa brutalidade terrível. Não sei se ainda quero chamá-los de meus amigos. Deixaram que se perdesse a própria humanidade, não por pura maldade, mas por ser difícil demais enfrentar isto de qualquer outra forma.

Passa-se então a perceber certa realidade: a realidade de centenas de pequenas – e outras não tão pequenas assim – humilhações diárias sistemáticas a que são submetidos os palestinos – os palestinos, e até os árabes israelenses (oficialmente cidadãos de Israel, com todos os direitos de cidadania), são discriminados na alocação de água, nos negócios envolvendo patrimônio, e assim por diante. Mas, ainda mais importante, é a sistemática “micropolítica” de humilhação psicológica: os palestinos são tratados basicamente como crianças malcriadas que devem ser reeducadas para uma vida honesta por meio de disciplina e castigos. Basta considerar o ridículo da situação em que as forças de segurança palestinas são bombardeadas, e ao mesmo tempo se cobra delas a repressão aos terroristas do Hamas. Como esperar que elas retenham um mínimo de autoridade aos olhos da população palestina se são humilhadas diariamente pelos ataques que sofrem e, pior ainda, pela expectativa de que suportem caladas esses ataques – caso se defendam e ofereçam resistência serão consideradas terroristas? No final de março de 2002, essa situação atingiu seu ridículo apogeu: Arafat foi sitiado e isolado nos três cômodos de seu escritório em Ramallah, ao mesmo tempo em que se lhe cobrava o combate ao terror, como se ele tivesse poder absoluto sobre os palestinos... Resumindo, não encontramos no tratamento israelense dado à Autoridade Palestina (atacá-la militarmente, enquanto exige que ela combata os terroristas que vivem entre os palestinos) uma espécie de paradoxo pragmático em que a mensagem explícita (a ordem de combater o terrorismo) é subvertida pela mensagem implícita contida no próprio modo de transmissão da mensagem explícita? Não está escandalosamente claro que a Autoridade Palestina é, dessa forma, colocada numa posição insustentável: obrigada a perseguir seu próprio povo enquanto está sob o fogo israelense? E a verdadeira ordem implícita não seria exatamente oposta: queremos que vocês resistam para poder esmagá-los?”

 

 

“A principal notícia que chegou da China em 2002 foi a emergência de um movimento operário de grande escala que protesta contra as condições de trabalho, que são o preço pago pela China para se tornar rapidamente o principal centro de manufatura do mundo, e a forma brutal como as autoridades o dobraram – mais uma prova, se é que há necessidade de prova, de que a China é hoje o Estado capitalista ideal: liberdade para o capital, cabendo ao Estado o “trabalho sujo” de controle dos operários.”

 

 

“Esses aparelhos de Estado têm um papel crucial no obverso da globalização. Recentemente, uma decisão abominável da União Europeia passou quase sem ser notada: o plano de estabelecer uma força policial de fronteira para toda a Europa a fim de assegurar o isolamento do território da União e assim evitar a entrada de imigrantes. Esta é a verdade da globalização: a construção de novos muros isolando os europeus prósperos do fluxo de imigrantes. Tem-se a tentação de ressuscitar aqui a velha oposição “humanista” marxista entre “relações entre coisas” e “relações entre pessoas”: na celebrada livre circulação aberta pelo capitalismo global, são as “coisas” (mercadorias) que circulam livremente, ao passo que a circulação das “pessoas” é cada vez mais controlada. O novo racismo do mundo desenvolvido é, de certa forma, mais brutal que os anteriores: sua legitimação implícita não é naturalista (a superioridade natural do Ocidente desenvolvido) nem culturalista (nós, ocidentais, também queremos preservar nossa identidade cultural), mas um desavergonhado egoísmo econômico – o divisor fundamental é o que existe entre os que estão incluídos na esfera de (relativa) prosperidade econômica e os que dela estão excluídos. O que se esconde atrás dessas medidas de proteção é a mera consciência de que o modelo atual de prosperidade capitalista recente não pode ser universalizado.”

 

 

“De acordo com um antigo tópos marxista, a evocação do inimigo externo serve para deslocar o foco da verdadeira origem das tensões, o antagonismo inerente ao sistema – basta lembrar a explicação comum do antissemitismo como o deslocamento para a figura do judeu, este intruso externo no nosso corpo social, da causa dos antagonismos que ameaçam a harmonia desse corpo.”

 

 

“O verdadeiro ensinamento de Lênin – que aponta a diferença entre “liberdade formal” e “liberdade atual” – consiste em mostrar como a verdadeira escolha livre é aquela na qual eu não escolho apenas entre duas ou mais opções no interior de um conjunto prévio de coordenadas, mas escolho mudar o próprio conjunto de coordenadas.” (Vladimir Safatle – posfácio)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Manuscritos econômico-filosóficos – Karl Marx

Editora: Boitempo
ISBN: 978-85-7559-002-7
Tradução: Jesus Rainieri
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 176
Sinopse: Com tradução, introdução e notas de Jesus Ranieri e uma cronologia da vida de Karl Marx, a Boitempo Editorial está lançando os Manuscritos econômico-filosóficos, dentro do seu projeto de publicar no Brasil a obra completa de Marx, em novas traduções direto do alemão.
Publicados apenas após sua morte, os Manuscritos foram escritos em 1844, quando Marx tinha apenas 26 anos e antes do seu célebre encontro com Engels. Os Manuscritos econômico-filosóficos ou Manuscritos de Paris apresentam a planta fundamental do pensamento de Marx: a concentração de sua filosofia na crítica da economia nacional de Adam Smith, J.B. Say e David Ricardo. Na obra, Marx expõe a discrepância entre moral e economia, denunciando a radicalidade da exploração do homem pela empresa capitalista. Enquanto a reprodução do capital é o único objetivo da produção, o trabalhador ganha apenas para sustentar suas necessidades mais vitais, ou seja, para não morrer e poder continuar produzindo.
O fundamento da teoria da mais-valia, desenvolvida mais tarde em O Capital, já é antecipado nos Manuscritos. O estranhamento do mesmo trabalhador, fazedor de um produto que não lhe pertence, também é esboçado.
Aqui, Marx dá sinais de sua passagem do idealismo hegeliano ao materialismo dialético e declara a necessidade de “uma ação comunista efetiva” a fim de superar a propriedade privada. Se muitos dos capítulos da obra são apenas esboços, ela não deixa de oferecer um desenvolvimento quase absoluto da compreensão geral de Marx acerca das relações íntimas entre liberdade, economia e sociedade, em ensaios às vezes geniais – e inclusive acabados – como é o caso de “[Dinheiro]”, o último capítulo dos Manuscritos.

“Para o trabalhador, a separação de capital, renda da terra e trabalho é mortal.”


“O capital é trabalho acumulado.”


“Na realidade efetiva, o salário é uma dedução que terra e capital permitem chegar ao trabalhador, uma concessão do produto do trabalho ao trabalhador.
Mas, na situação em progresso da sociedade, o declínio e o empobrecimento do trabalhador são o produto de seu trabalho e da riqueza por ele produzida. A miséria que resulta, portanto, da essência do trabalho hodierno mesmo. (...)
O apelo de Lord Brougham aos trabalhadores: “Tornai-vos capitalistas!” (...) O mal é que milhões – apenas através de trabalho fatigante, corporalmente arruinante, moral e espiritualmente atrofiante – podem ganhar parcos meios de subsistência; que até mesmo essa infelicidade de ter encontrado um tal trabalho tenha de ser considerada uma felicidade. (...)
Esta constituição econômica condena os homens a ocupações de tal modo abjetas, a uma degradação de tal maneira desoladora e amarga, que a selvageria aparece, em comparação, como uma condição real.”


“O trabalhador não está defronte àquele que o emprega na posição de um livre vendedor. (...) O capitalista é sempre livre para empregar o trabalhador, e o trabalhador é sempre forçado a vendê-lo. O valor do trabalho é completamente destruído se não for vendido a cada instante. O trabalho não é suscetível nem de acumulação, nem mesmo de poupança, diferentemente das verdadeiras mercadorias.”


“A guerra industrial, para ser conduzida com efeito, exige numerosos exércitos que ela possa juntar no mesmo ponto e dizimar abundantemente. E nem por dedicação, nem por dever, os soldados desse exército suportam os esforços que lhe são exigidos: só para fugir da dura necessidade da fome. Eles não têm afeto nem reconhecimento pelos seus chefes; estes não se ligam aos seus subordinados por nenhum sentimento de benevolência; eles não os conhecem como seres humanos, mas apenas como instrumentos de produção, os quais têm de render tanto quanto possível e fazer tão poucas despesas quanto possível. Estas multidões de trabalhadores, cada vez mais pressionadas, não têm nem mesmo a despreocupação de estarem para sempre empregadas. A indústria, que os convocou a todos, somente os deixa viver enquanto precisa deles, e assim que pode libertar-se deles, ela os abandona sem a mínima hesitação; e os trabalhadores são forçados a ofertar a sua pessoa e a sua força pelo preço que se lhes quiser atribuir. Quanto mais o trabalho que se lhes dá é longo, penoso, repugnante, tanto menos eles são pagos; veem-se alguns que, com 16 horas de trabalho por dia, sob esforço contínuo, mal compram o direito de não morrer.”


“As mais importantes operações do trabalho são reguladas e dirigidas segundo os planos e as especulações daqueles que aplicam os capitais, e o objetivo que eles pressupõem em todos estes planos e operações é o lucro.”


“As mais importantes operações do trabalho são reguladas e dirigidas segundo os planos e as especulações daqueles que aplicam os capitais; e o objetivo que eles pressupõem em todos estes planos e operações é o lucro. Portanto: a taxa de lucro não sobe, como a renda da terra e o salário, com a prosperidade da sociedade, e não cai, como aqueles, com o declínio desta última. Pelo contrário, esta taxa é naturalmente baixa nos países ricos e alta nos países pobres; e nunca é tão alta como nos países que mais rapidamente caminham em direção à ruína. O interesse desta classe não tem, portanto, como as outras duas, a mesma ligação com o interesse geral da sociedade. (...) O interesse particular daqueles que exploram um ramo do comércio ou da manufatura é, em certo sentido, sempre diferente do interesse do público e, frequentemente, até mesmo contraposto a ele de maneira hostil. O interesse do comerciante é sempre o de ampliar o mercado e limitar a concorrência dos vendedores. (...) Esta é uma classe de gente cujo interesse jamais será exatamente o mesmo que o da sociedade, de gente que tem em geral um interesse, o de enganar e sobrecarregar o público.”


“Alugar o seu trabalho é começar a sua escravidão.” (Constantine Pecqueur)


“A concorrência não exprime outra coisa senão a troca facultativa, que é, ela própria, a consequência próxima e lógica do direito individual de usar e abusar dos instrumentos de toda a produção. Estes três momentos econômicos (o direito de usar e de abusar, a liberdade de trocas e a concorrência arbitrária), os quais constituem apenas um, produzem as seguintes consequências: cada um produz o que quer, como quer, quando quer, onde quer; produz bem ou produz mal, em demasia ou insuficientemente, demasiado cedo ou demasiado tarde, demasiado caro ou demasiado barato; cada um ignora se venderá, a quem venderá, como venderá, quando venderá, onde venderá; e é o mesmo quanto às compras. (...) O produtor ignora as necessidades e os recursos, a procura e a oferta. Vende quando quer, quanto pode, onde quer, a quem quer, ao preço que quer. E da mesma maneira, compra. Em tudo isto, ele é sempre o joguete do acaso, o escravo da lei do mais forte, do menos apressado, do mais rico. (...) Enquanto, num ponto, existe escassez de riqueza, no outro há excesso e desperdício. Enquanto um produtor vende muito ou caro demais, e tem um ganho enorme, o outro não vende nada ou vende com perda. (...) A oferta ignora a procura e a procura ignora a oferta. Vós produzis acreditando num gosto, numa moda que se manifesta no público dos consumidores; mas, quando estais prestes a fornecer a mercadoria, a fantasia passou e fixou-se num outro gênero de produto. (...) Consequências infalíveis, a permanência e a universalização das bancarrotas, as fraudes, as ruínas súbitas e as fortunas improvisadas; as crises comerciais, o desemprego, as saturações ou escassez periódicas; a instabilidade e o aviltamento dos salários e dos lucros; o desperdício ou o depauperamento de riquezas, de tempo e de esforços na arena de uma concorrência encarniçada.”


“Ricardo, em seu livro Renda da terra: “as nações são apenas oficinas da produção, o homem é uma máquina de consumir e produzir; a vida humana, um capital; as leis econômicas regem cegamente o mundo.” Para Ricardo, os homens são nada; o produto, tudo.”


“Partimos dos pressupostos da economia política. Aceitamos suas linguagens e suas leis. Supusemos a propriedade privada, a separação de trabalho, capital e terra, igualmente do salário, lucro de capital e renda da terra, da mesma forma que a divisão do trabalho, a concorrência, o conceito de valor de troca, etc. A partir da própria economia política, com suas próprias palavras, constatamos: o trabalhador baixa à condição e mercadoria e à de mais miserável mercadoria; que a miséria do trabalhador põe-se em relação inversa à potência e à grandeza da sua produção: que o resultado necessário da concorrência é a acumulação de capital em poucas mãos – portanto, a mais tremenda restauração o monopólio; que no fim, a diferença entre o capitalista e o rentista fundiário desaparece, assim como entre o agricultor e o trabalhador em manufatura; e que, no final das contas, toda a sociedade tem de decompor-se nas duas classes dos proprietários e dos trabalhadores sem propriedade.”


“A economia política oculta o estranhamento na essência do trabalho porque não considera a relação imediata entre o trabalhador (o trabalho) e a produção. Sem dúvida, o trabalho produz maravilha para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. Produz palácios, mas cavernas para o trabalhador. Produz beleza, mas deformação para o trabalhador. Substitui o trabalho por máquinas, mas lança uma parte dos trabalhadores de volta a um trabalho bárbaro e faz da outra parte máquinas. Produz imbecilidade, cretinismo para o trabalhador.”


“A relação imediata do trabalho com os seus produtos é a relação do trabalhador com os objetos da sua produção. A relação do abastado com os objetos da produção e com ela mesma é somente uma consequência desta primeira relação. E a confirma. Se, portanto, perguntamos: qual a relação essencial do trabalho, então perguntamos pela relação do trabalhador com a produção.
Até aqui examinamos o estranhamento, a exteriorização do trabalhador sob apenas um dos seus aspectos, qual seja, a sua relação com os produtos do seu trabalho. Mas o estranhamento não se mostra somente no resultado, mas também, e principalmente, no ato da produção, dentro da própria atividade produtiva. Como poderia o trabalhador defrontar-se alheio ao produto da sua atividade se no ato mesmo da produção ele não se estranhasse a si mesmo? O produto é, sim, somente o resumo da atividade, da produção. Se, portanto, o produto do trabalho é a exteriorização, então a produção mesma tem de ser a exteriorização ativa, a exteriorização da atividade, a atividade da exteriorização. No estranhamento do objeto do trabalho resume-se somente o estranhamento, a exteriorização na atividade do trabalho mesmo.
Em que consiste, então, a exteriorização do trabalho?
Primeiro, que o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito. O trabalhador só se sente, por conseguinte e em primeiro lugar, junto a si quando fora do trabalho e fora de si quando no trabalho. Está em casa quando não trabalha e, quando trabalha, não está em casa. O seu trabalho não é, portanto, voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório. O trabalho não é, por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um meio para satisfazer necessidades fora dele. Sua estranheza evidencia-se aqui de forma tão pura que, tão logo inexista coerção física ou outra qualquer, foge-se do trabalho como de uma peste. O trabalho externo, o trabalho no qual o homem se exterioriza, é um trabalho de auto-sacrifício, de mortificação. Finalmente, a externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como se o trabalho não fosse seu próprio, mas de outro, como se o trabalho não lhe pertencesse, como se ele no trabalho não pertence a si mesmo, mas a outro. Assim como na religião a auto-atividade da fantasia humana, do cérebro e do coração humanos, atua independentemente do indivíduo e sobre ele, isto é, como uma atividade estranha, divina ou diabólica, assim também a atividade do trabalhador não é a sua auto-atividade. Ela pertence a outro, é a perda de si mesmo.
Chega-se, por conseguinte, ao resultado de que o homem (o trabalhador) só se sente como ser livre e ativo em suas funções animais, comer, beber e procriar, quando muito ainda habitação, adornos, etc., e em suas funções humanas só se sente como animal. O animal se torna humano e o humano, animal.
Comer, beber, procriar, etc., são também, é verdade, funções genuinamente humanas. Porém, na abstração que as separa da esfera restante da atividade humana, e faz delas finalidades últimas e exclusivas, são funções animais.
Examinamos o ato do estranhamento da atividade humana prática, o trabalho, sob dois aspectos. 1) A relação do trabalhador com o produto do trabalho como objeto estranho e poderoso sobre ele. Esta relação é ao mesmo tempo a relação com o mundo exterior sensível, com os objetos da natureza como um mundo alheio que se lhe defronta hostilmente. 2) A relação do trabalho com o ato da produção no interior do trabalho. Esta relação é a relação do trabalhador com a sua própria atividade como uma atividade estranha, não pertencente a ele, a atividade como miséria, a força como impotência, a procriação como castração. A energia espiritual e física própria do trabalhador, a sua vida pessoal – pois o que é vida senão atividade – como uma atividade voltada contra ele mesmo, independente dele, não pertencente a ele.”


“Mas o trabalhador tem a infelicidade de ser um capital vivo e, portanto, carente, que, a cada momento em que não trabalha, perde seus juros e, com isso, sua existência. Como capital, o valor do trabalhador aumenta no sentido da procura e da oferta e, também fisicamente, a sua existência, a sua vida, se torna, e é sabido, como oferta de mercadoria, tal como qualquer outra mercadoria. O trabalhador produz o capital; o capital produz o trabalhador. O trabalhador produz, portanto, a si mesmo, e o homem enquanto trabalhador, enquanto mercadoria, é o produto do movimento total. O homem nada mais é do que trabalhador e, como trabalhador, suas propriedades humanas o são apenas na medida em que o são para o capital, que lhe é estranho. Mas porque ambos, capital e trabalho, são estranhos entre si e estão, por conseguinte, em uma relação indiferente, exterior e acidental, esta estranheza tem de aparecer como algo efetivo. Tão logo aconteça ao capital – ocorrência necessária ou arbitrária – não mais existir para o trabalhador, o trabalhador mesmo não é mais para si; ele não tem nenhum trabalho e, por causa disto, nenhum salário. E, aí, ele tem existência não enquanto homem, mas enquanto trabalhador, podendo deixar-se enterrar, morrer de fome, etc. O trabalhador só é enquanto trabalhador, assim que é para si como capital; e só é como capital assim que um capital é para ele. A existência do capital é sua existência, sua vida, tal como determina o conteúdo da sua vida de um modo indiferente a ele.”

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Anarquismo - Roteiro da Libertação Social (Parte I), de Edgard Leuenroth

Editora: Mundo livre

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 238


“É fato comum de cada dia encontrar-se em discursos de políticos, como na imprensa e em livros a palavra anarquia como qualificativo de uma situação de desordem, o que demonstra a ignorância em matéria de etimologia e filosofia desses oradores, jornalistas e escritores. Nunca se diz que anarquia significa liberdade e justiça para todos.

Em rigorosa análise, o ideal de uma verdadeira democracia, a que aspira, em nossos dias, a maioria da humanidade, só se poderá realizar com a ausência da coação econômica e política.

Se o povo resolve seus problemas sociais sem a intervenção de políticos profissionais, evitando rigorosamente, ao mesmo tempo, a corruptora burocracia administrativa, então o regime será verdadeiramente democrático, e, portanto, ácrata, isto é, anarquista. Em tal regime existirá a anelada felicidade social. A doutrina anarquista nos apresenta o ideal de uma ordem social sem exploração privada ou estatal, no qual a administração das coisas acabará com a dominação do homem. Esta definição não é nova, mas tem de ser repetida, porque a mentira também se repete sempre.”

(Agustin Souchy)

 

 

“A atual sociedade é o resultado das lutas seculares que os homens travaram entre si. Os homens desconheciam as vantagens que podiam resultar para todos, orientando-se pelas normas da cooperação e da solidariedade. Consideravam cada um de seus semelhantes (excetuados, quando muito, os membros de sua família), um concorrente ou um inimigo. E procuravam monopolizar, cada qual para si, a maior quantidade possível de gozos, sem pensar nos interesses dos outros.

Naturalmente, nessa luta, os mais fortes e os mais espertos deveriam vencer, e de diversas maneiras, explorar e oprimir os vencidos.

Enquanto o homem não foi capaz de extrair da natureza senão o estritamente necessário à sua manutenção, os vencedores limitaram-se a pôr em fuga e a massacrar os vencidos para se apoderarem dos produtos silvestres, da caça, da pesca num dado território. Em seguida, quando, com a criação do gado e com o aparecimento da agricultura, o homem soube produzir mais do que precisava para viver, os vencedores acharam mais cômodo reduzir os vencidos à escravidão e fazê-los trabalhar para eles.

Muito tempo após, tornou-se mais vantajoso, mais eficaz e mais seguro explorar o trabalho alheio, por outro sistema: conservar para si a propriedade exclusiva da terra e de todos os instrumentos de trabalho, e conceder liberdade aparente aos deserdados. Logo, estes, não tendo meios para viver, eram forçados a recorrer aos proprietários e a trabalhar para eles nas condições que os patrões lhes impunham.

Assim, pouco a pouco, a Humanidade tem evoluído através de uma rede complicada de lutas de toda espécie – invasões, guerras, rebeliões, repressões, concessões feitas e retomadas, associações dos vencidos unindo-se para a defesa e dos vencedores coligados para a ofensiva. O trabalho, porém, não conseguiu ainda a sua emancipação. No atual estado da sociedade, alguns grupos de homens monopolizam arbitrariamente a terra e todas as riquezas sociais, enquanto que a grande massa do povo, privada de tudo, é espezinhada e oprimida.

Conhecemos o estado de miséria em que se acham geralmente os trabalhadores, e conhecemos todos os males derivados dessa miséria: ignorância, crimes, prostituição, fraqueza física, abjeção moral e morte prematura.

(...) Em resumo, querem os anarquistas:

1.° – Abolição da propriedade (capitalista ou estatal) da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, para que ninguém tenha meios de explorar o trabalho dos outros e para que todos, assegurados os meios de produzir e de viver, sejam verdadeiramente independentes e possam associar-se livremente uns com os outros, no interesse comum e de conformidade com as afinidades e simpatias pessoais.

2.° – Abolição do Estado e de qualquer poder que faça leis para impô-las aos outros; portanto, abolição de todos os órgãos governamentais e todos os elementos que lhe são próprios, bem como de toda e qualquer instituição dotada dos meios de constranger e de punir.

3.° – Organização da vida social por iniciativa das associações livres e das livres federações de produtores e consumidores, criadas e modificadas conforme à vontade de seus componentes guiados pela ciência e pela experiência e libertos de toda obrigação que não se origine da necessidade natural, à qual todos de bom grado se submeterão quando lhe reconheçam o caráter inelutável.

4.° – A todos serão garantidos os meios de vida, de desenvolvimento, de bem-estar, particularmente às crianças e a todos os que sejam incapazes de prover à própria subsistência.

5.° – Guerra a todos os preconceitos religiosos e a todas as mentiras, mesmo que se ocultem sob o manto da ciência. Instrução completa para todos, até aos graus mais elevados.

6.° – Guerra às rivalidades e aos prejuízos patrióticos. Abolição das fronteiras, confraternização de todos os povos.

7.° – Libertação da família de todas as peias, de tal modo que ela resulte da prática do amor, livre de toda influência estatal ou religiosa e da opressão econômica ou física.”

(Errico Malatesta)

 

 

“O ponto de vista comum em torno do qual todos os anarquistas estão de acordo, porque reagrupa todas as tendências do anarquismo, por mais variadas que sejam, é aquele que conduz à mesma meta e que se caracteriza no fato de se manter o movimento anárquico com uma feição que o distingue de todos os outros movimentos político- social: a concepção de um futuro para a Humanidade que exclua todo princípio de autoridade, de domínio e de exploração do homem pelo homem.”

(Gigi Damiani)

 

 

“O anarquismo pode ser filosofia e ciência político-econômica, sem cair no dogmatismo; simples especulação idealista ou fundamentalmente prático em suas atitudes fora de qualquer ação impositiva; pode apegar-se ao materialismo histórico ou apelar para as forças morais e considerar o sentimento como fator mais eficaz para libertar o homem da incompreensão em que se debate; pode dizer-se ateu, agnóstico ou divagar em hipóteses espiritualistas; mas conserva a sua idoneidade quanto à necessidade que há em combater todo e qualquer princípio de idolatria estatal, conformista e de monopólio econômico, É antiautoritário e anti-totalitário em todas as circunstâncias.”

(Gigi Damiani)

 

 

“Viver uma vida integralmente anárquica na sociedade presente é impossível, porque a autoridade do homem sobre o homem, a exploração do trabalho alheio e a prática de iludir a boa-fé do próximo constituem as regras fundamentais da ordem social em que vivemos. A autoridade do Estado, o desfrutamento dos patrões, a ação nefasta e embrutecedora do clero e da escola oficial estão sempre presentes, assediam-nos, comprimem-nos de todos os lados e não se pode fugir aos seus tentáculos absorventes.

Ser anarquista requer, por conseguinte, aspirar a uma forma de convivência social isenta de governantes, de exploradores e de todas as mentiras convencionais interessadas em manter o presente estado de coisas; lutar para tornar possível o advento da anarquia, contra as violências, os prejuízos sociais, as mentiras e os interesses criados em que se alicerça a ordem existente.”

(“Umanità Nuova”, Roma)

 

 

“A perspectiva de uma sociedade sem governo, sem patrões e sem charlatões sorri a todos os homens que amam a liberdade, sorri particularmente, luminosamente, às multidões famintas de deserdados e oprimidos que, desde milênios, são vítimas dos governos, dos privilégios da riqueza e dos monopólios do saber.

Se alguma vez esses deserdados são atormentados pela dúvida, é porque, de tão bela, consideram irrealizável o advento da anarquia; é porque as agruras da luta pelo pão de cada dia lhes absorvem o tempo e os meios de cultivar as ideias e de afirmar as possibilidades da realização do ideal anárquico.”

(“Umanità Nuova”, Roma)

 

 

“Os anarquistas não condenam a existência do automóvel, do rádio, do avião, de todas as coisas belas e úteis. Condenam o privilégio que têm alguns de possuir e usar essas coisas todas, enquanto a outros não lhes é permitido fazê-lo. Condenam, principalmente, o fato de que, para usarem essas coisas, alguns explorem o trabalho de outros, que construam os seus prazeres, e até mesmo os seus vícios, com a miséria dos seres a quem exploram o trabalho, os sentimentos, a honra e a dignidade.”

(Souza Passos)

 

 

“Todos iguais, como os anarquistas concebem a expressão, é dar a todos o direito de viver, não matando, mas elevando a vida à mais alta expressão da dignidade. Todos iguais para receber os benefícios da vida livre, do amor sem peias e preconceitos, da consciência livre, da livre manifestação de todos os sentidos. Iguais no dever para todos de fazer alguma coisa útil, contribuindo, cada qual, com a sua capacidade física, intelectual, moral ou artística, para o bem de todos.”

(Souza Passos)

 

 

Os Anarquistas e as Lutas Sociais

O anarquista não quer fazer escada do seu companheiro de desventuras; não procura melhorar sua posição tornando-se instrumento da cobiça do capitalista; não se presta aos desejos do patrão, não se humilha diante dele, não pactua com o inimigo seu e de sua classe. Não aspira a viver à parte, enquanto todos sofrem; não separa a sua causa da de seus companheiros; não reconhece diferença de raça ou de nacionalidade; não se ilude imaginando poder arrancar ao capitalista concessões valiosas e duradouras, não pensa exclusivamente no seu interesse momentâneo, mas remonta à causa de seus males e contra ela se insurge.

O anarquista reclama para os outros o mesmo que para si; recusa servir de rufião aos patrões; revolta-se contra todas as instituições presentes porque todas sancionam a onipotência dos ricos; não elege fazedores de leis para não consentir na sua escravidão e para não se deixar enganar pelos costumados mariolas; não confia nas mentirosas promessas dos governantes. E ao burguês que tenta, para o subjugar, ora à força, ora à lisonja, ele responde: “O teu ouro não me seduz, porque fui eu que o extraí das entranhas da terra. As tuas vinganças não me aterrorizam, porque a vida que me deixas é uma contínua agonia; o teu poder está condenado a cair. Eu gozo combatendo-o, e cada revolta minha acelera o triunfo da liberdade e da justiça”.

“A Plebe”, São Paulo

 

 

“Se o bem individual fosse realmente oposto ao da sociedade, não teria podido existir a espécie humana.”

(Pedro Kropotkine)

 

 

“O ser humano não é um ser de conflitos. Quando estes surgem é por motivo anormais e estranhos ao ser humano no decurso de seu viver. Freud, talvez sem o propósito específico de não lhe dar esse sentido, assentou uma das bases mais fortes da ética moderna ao demonstrar que os conflitos psicológicos, considerados sempre como inerente e consubstanciais à psique humana e, portanto, rodeadas de todos os mistérios metafísicos, têm origem e natureza em determinadas facetas anormais do viver, que retorcem e reprimem os instintos. De acordo com as leis naturais, um ser vivente não pode levar na essência mesma de sua natureza manifestações contraditórias em conflito permanente, se isso não for motivado por causas alheias a essas essências que o caracterizam. Todo ser vivo é manifestação de harmonia vital; quando essa harmonia cessa, vem a morte, pois que a vida em si não é senão manifestação de harmonia. E o ser humano, que é uma das manifestações mais altas da vida, não pode conter elementos contraditórios permanentes naquilo que constitui os fundamentos de sua existência.

Os instintos que nos induzem à satisfação das necessidades inerentes ao nosso próprio viver não podem ficar à margem da ética nem em contradição com ela. Não pode ser amoral beber-se um copo d’água, comer uma maçã ou coabitar com o sexo contrário, que é o complemento e fator da vida, ou descansar de uma fadiga. Como tampouco é moral satisfazer essas necessidades em detrimento da satisfação das mesmas necessidades dos outros.

As verdadeiras essências da ética residem, pois, na harmonização entre a satisfação dos instintos que nos induzem à conservação da nossa própria existência e os que nos impelem à prática da cooperação na convivência com os nossos semelhantes.

A concepção ética do anarquismo não pode ser outra senão essa ética natural manifestada pela livre expressão dos instintos. Daí a razão de ter o anarquismo que rechaçar toda ética imposta de fora, o que, em definitivo, é autoritarismo.”

(B. Cano Ruiz, “Tierra y Libertad”)

 

 

“Naturalmente, não me ocupo, neste trabalho dos sinistros mistificadores para os quais o idealismo não passa de mera manifestação de hipocrisia e de um instrumento de engano; dos capitalistas que pregam aos trabalhadores o sentimento do dever e o espírito de sacrifício, para amortecer-lhes as energias e poderem continuar pacificamente acumulando fortunas à custa de seu trabalho e de sua miséria; dos “patriotas” que, cheios de fervor pelo amor à pátria e dominados pelo espírito nacionalista, vivem explorando por todos os modos o próprio país e, quando podem, procedem da mesma forma quanto às pátrias alheias; dos militares que, pela glória da pátria e honra da sua bandeira, atacam outros povos, maltratando-os e oprimindo-os.”

(Errico Malatesta)

 

 

“Em minha vida de militante libertário, tive oportunidade de, durante muitos anos, frequentar organizações operárias, grupos revolucionários e sociedades educativas, e sempre verifiquei que os elementos mais ativos, os mais dedicados, os que sempre estavam dispostos às mais duras tarefas, contribuindo não apenas com a sua atividade, mas ainda com recursos retirados de seus ganhos, não eram os mais necessitados, mas, ao contrário, justamente os de melhor situação – e que se sentiam impelidos à luta não tanto pelas próprias necessidades, mas pelo desejo de cooperar em prol de uma boa obra e sentirem-se nobilitados por um ideal. Os elementos de situação mais miserável, aqueles que, em virtude de suas penosas condições de vida deveriam ser os mais direta e imediatamente interessados na mudança das coisas, conservam-se ausentes, ou participam apenas quando a isso levados por um interesse imediato e, assim mesmo, como parte passiva, beneficiando-se do esforço dos demais.”

(Errico Malatesta)

 

 

“Parlamento é a máscara política inventada para fazer crer ao povo ser ele, povo, o soberano e serem púrpuras seus andrajos de escravo.”

(José Oiticica)

 

 

“Para defenderem os próprios privilégios, os exploradores lançam os explorados uns contra os outros, criando toda uma série de pequenos interesses que ligam a eles uma parte dos exploradores, e todos se empenham na defesa dos “grandes privilégios”. E são os trabalhadores, cujos frutos de trabalho lhes permitem apenas viver uma vida de miséria e humilhações, que se transformam nos verdadeiros pontilhões do atual estado de sujeição econômica, política e moral.”

(Ugo Fedelli)

 

 

“Como libertário, não aceito a ação parlamentar, que implica na delegação de poderes, o que constitui séria divergência doutrinária com o anarquismo. É em obediência a este sábio critério que os libertários, arrostando dificuldades sem conta, lutam incessantemente no sentido de conseguir que cada elemento do povo, libertando-se da mentalidade messiânica imperante, tornando-se senhor de si mesmo, constitua uma unidade ativa na vida social, agindo em causa própria no patrocínio dos interesses que, sendo seus, estão em harmonia com os da coletividade. (...)

A experiência é a grande mestra, e esta nos ensina que o Parlamento, instituição essencialmente burguesa, nunca agiu e jamais poderá agir em detrimento da vigente ordem de coisas, o que corresponde a nada fazer em proveito do povo e da causa pública.”

(Edgard Leuenroth)

 

 

“Os socialistas libertários ou anarquistas, condenando o Estado como órgão parasitário, explorador e tirânico, e a instituição do monopólio da propriedade, como iníqua e antissocial, lutam por uma organização que considera o indivíduo como sua unidade essencial e que, repudiando todas as normas totalitárias e ditatoriais, seja baseada no livre consenso, determinada e regulada pelas necessidades, aptidões, ideias e sentimentos de cada qual, dentro de uma vasta confederação socialista-libertária de comunas livres, estruturadas pelas organizações profissionais, técnicas, científicas, artísticas, culturais, recreativas, etc. Esse é o verdadeiro socialismo, obediente aos seus fundamentos históricos, que os anarquistas propagam, lutando para que seja aceito e posto em prática pelo povo.”

(Edgard Leuenroth)

 

 

“O anarquismo é o herdeiro e o intransigente defensor do verdadeiro socialismo. Só o anarquismo vem defendendo desde os seus primórdios, trazendo-o íntegro até os nossos dias, o que o socialismo tem de essencial: o sentido da liberdade.

O marxismo, embora tenha concorrido com algumas contribuições apreciáveis para o estudo do problema social, tornou-se, em sua contextura e em sua ação, um desvirtuamento e uma corrupção do socialismo. À medida que consegue vencer politicamente, vai esvaziando o socialismo do seu conteúdo idealístico e de sua renovação social.”

(G. Ernestan)

 

 

“Socialismo é o sistema de organização da sociedade que tem por base a substituição do regime capitalista – fundamentado no domínio da propriedade privada e do salariato, instrumento da exploração do homem pelo homem – por um regime cujo princípio fundamental é socializar, isto é, pôr em comum os bens sociais, em função dos interesses da coletividade, como produtos que são dos esforços de todas as gerações.

Socializar quer dizer tornar social a propriedade hoje em poder do capitalismo. A riqueza existente, que em sua origem é social (obra de todos), passa a ser também social no seu destino, para ser de todos. Não se pode confundir socialização com estatização – transferência para o Estado da propriedade capitalista.”

(Edgard Leuenroth)

 

 

“Onde os comunistas chegaram a tomar o poder, o socialismo serve de rótulo para um regime de capitalismo de Estado, continuando o proletariado sujeito à tirania do salariato – instrumento de exploração capitalista e negação do socialismo – e do Estado todo-poderoso, senhor das coisas e dos destinos das gentes.”

(Edgard Leuenroth)

 

 

“O anarquismo tem expressão num movimento constituído de unidades autônomas e ativas, que a ele se ligam – sem perda de personalidade – por deliberação voluntária e consciente, e não de indivíduos ainda sem consciência social bem formada, arregimentados sob disciplina autoritária, obedientes às palavras de ordem de elementos de cúpula, para serem executadas automaticamente, sem possibilidade de nenhum exame ou divergência.

O movimento libertário assenta a base ética-social de sua estruturação no objetivo de formar conjuntos constituídos de unidades representando valores individuais, e não multidões de atuação oscilante, sem individualidade própria, dependentes sempre de determinações de líderes, dirigentes, chefes, muitas vezes transformados em messias, dos quais tudo esperam.

Há ainda uma circunstância relevante, que não permite ajuizar-se sobre a situação do anarquismo mediante confronto das bases de seu movimento com as de outras correntes do socialismo e de organizações de orientação nacionalista ou mística: o movimento anarquista não oferece a possibilidade da obtenção de empregos ou da conquista de postos de representação política, não mantendo quadros de funcionalismo para a movimentação de sua obra e nem apresentando candidatos a eleições.

Exatamente o contrário se verifica em relação aos outros movimentos ou organizações que, com diferença de proporções, sujeitara o desenvolvimento de sua atividade à atuação de funcionalismos numerosos, constituídos, em grande parte, de elementos retirados da produção, isto é, do exercício de suas profissões, e que, desabituando-se das obrigações de produtores, passam a constituir um burocratismo desvirtuador e parasitário. Além dos cargos nos partidos e nas organizações, oferecem ainda postos nas casas de representação municipal, nas deputações e senatorias e em cargos governamentais, tudo isso proporcionando a possibilidade de vida mais folgada, e ainda, para muitos, o ensejo para a exibição de vaidades e de ganhos cuja origem nem sempre pode ser justificada. (...)

Daí concluir-se que, não oferecendo o movimento anarquista as vantagens de ordem pessoal proporcionadas por outros movimentos, partidos e agrupações, dificilmente pode atrair para suas fileiras os numerosos elementos que orientam a própria atividade social na base de entusiasmos ocasionais sem motivo ideológico, de simpatias ou de antipatias pessoais, de paixões políticas, o que lhes permite alternar as respectivas ações em campos os mais diversos e muitas vezes contraditórios, como consequência de influências dominantes em cada situação.”

(Edgard Leuenroth)

domingo, 29 de setembro de 2013

Jogos Sagrados – Vikram Chandra

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-359-1310-1

Tradução: Celso Nogueira

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 986

Sinopse: O herói e o vilão de Jogos sagrados não se conhecem pessoalmente; trocam umas poucas palavras pelo interfone, tamanha a distância que separa o humilde inspetor Sartaj Singh de Ganesh Gaitonde, chefão da máfia de Mumbai. A suspeita morte do gângster no bunker que mandou construir em Mumbai marca o início da investigação que levará o detetive Singh a uma jornada pelas contradições e mistérios da Índia moderna, onde tradição e mudança se chocam diariamente.



“– Se pretende viver na cidade, precisa antecipar três rodadas, e ver através de uma mentira para conhecer a verdade, e ver através da verdade para ver a mentira.”

 

 

“Mas eu sabia, lá no fundo, que sem terra o sujeito não valia nada. A gente pode morrer por amor, pode morrer por amizade, pode morrer por dinheiro, mas, no final das contas, a única coisa real neste mundo é a terra.”

 

 

“Mas por que Chotta Badriya me seguiu até as portas da morte? Ele mal me conhecia, sabia dos riscos insanos de meu plano, e mesmo assim me acompanhou. Eu acho que ele foi comigo porque eu mandei. A maioria dos homens quer ser conduzida, e só poucos sabem liderar. Eu tinha um problema, uma escolha e uma decisão a tomar. Decidi, Chotta Badriya e outros me seguiram. Os que não conseguem decidir são barro mole nas mãos de quem consegue.”

 

 

“A comida é o maior e mais confiável dos prazeres.”

 

 

“Um homem sóbrio tem prioridades, vive alerta e atento. Não precisa de uísque e rum. Basta-lhe a vida.”

 

 

“Patriosh Shah me dava lições diárias sobre o poder de seu dândi-swami. “Você viu como seu apelo foi atendido. Você pediu, ele deu. Como pode se recusar a acreditar?”. Eu me sentia tentado a acreditar. Mas, no início da vida, vira como a crença era uma podridão interna que esvaziava um homem e o transformava num eunuco. Sabia ser a fé uma muleta conveniente para fracos e covardes. Não, eu não queria ser contaminado por essa doença.”

 

 

“Era bom para os dois policiais Sartaj Singh e Katekar ficarem ali debaixo de uma thela, reclamando. Eles já haviam se queixado da prefeitura, das corporações, das transferências de funcionários públicos e policiais honestos, do preço da manga, do trânsito, do excesso de construções, dos prédios que caíam, dos bueiros entupidos, do parlamento rebelde e selvagem, da extorsão dos Rakshaks, dos filmes ruins, da falta de programas interessantes na televisão, da interferência norte-americana nos assuntos subcontinetais, do desaparecimento de Rimzim das barracas que vendiam refrigerantes, das disputas interestaduais a respeito das águas dos rios, da falta de boas escolas que ensinassem inglês para quem não tivesse um pai disposto a gastar um caminhão de dinheiro, da maneira como retratavam os policiais nos filmes, das horas extras sem pagamento de adicional, do trabalho e do trabalho. Depois que a pessoa reclama de tudo, resta sempre o trabalho, com suas horas aleatórias, monotonia, complicações políticas, falta de reconhecimento e exaustão.”

 

 

““O propósito, o sentido, o intento e a metodologia do serviço secreto é o discernimento de padrões.” Os alunos esperam, ávidos, pela revelação que lhes trará conhecimento, aguçando-lhes a compreensão para que, preparados, sobrevivam e triunfem. “A capacidade de identificar um método, ordem, projeto, é o maior talento que um agente secreto pode possuir”, declara K.D. Yadav, alcançando o fundo da sala. “O velho ditado se aplica: uma vez é o acaso, duas é coincidência, três é ação inimiga”.”

 

 

“Existem sadhus (milagres), mesmo. Reais e falsos. Ambos são úteis.”

 

 

“Para jogar esse jogo direito, é preciso controlar homens maus, levá-los a fazer coisas ruins que acabariam se tornando coisas boas. Era necessário. Só quem nunca esteve num campo de batalha exige virtude impoluta e feitos impecáveis.”

 

 

“O que a quase meia idade lhe fizera, corroera seu fervor revolucionário com – com o quê? – longas horas de serviço, contas, o trânsito insuportável, a poluição venenosa que aplicava um filme negro em seu rosto e nos braços. E pelas derrotas profissionais, pelo divórcio, pela abrupta amputação do amor, pela compreensão profunda de que o futuro não era um prado interminável, e sim um vale estreito cercado pela noite.”

 

 

“Eu sabia até a medula dos ossos que todos os presentes são traições, que nascer é ser enganado, que nada nos é concedido sem que algo maior nos seja tirado”.

 

 

“O dinheiro cria beleza, o dinheiro liberta, o dinheiro torna a moralidade possível.”

 

 

“Os escritores são especialmente suscetíveis ao elogio. Já trabalhei com políticos, homens santos e gângsteres, e posso afirmar que nenhum deles poderia competir com escritores em matéria de ego inflado e insegurança de rato.”

 

 

“O amor, Sartaj pensou zombeteiro, era uma armadilha inescapável. Capturado em suas barras, nos debatemos, salvamos uns aos outros e destruímos uns aos outros.”