sexta-feira, 2 de março de 2012

Em busca do tempo perdido: À Sombra das Moças em Flor, de Marcel Proust

Editora: Ediouro

ISBN: 978-85-0002-553-2

Tradução: Fernando Py

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 389

Sinopse: Ver primeiro livro

 

“Quis lhe explicar o que havia fantasiado; trêmulo de emoção, tinha o maior escrúpulo em que todas as minhas palavras fossem o mais sincero equivalente possível do que havia sentido e jamais tentara formular; o que significa que minhas palavras não tinham qualquer clareza.”

 

 

“‘Entre dois adversários, a vitória será daquele que sabe sofrer um quarto de hora a mais do que o outro’, como dizem os japoneses.”

 

 

“Claro que poucas pessoas compreendem o caráter puramente subjetivo do fenômeno que é o amor, e a espécie de criação, que ele faz, de uma pessoa suplementar, distinta da que usa o mesmo nome na sociedade e a maioria de cujos elementos são tirados de nós próprios. Há também poucas pessoas que possam considerar naturais as enormes proporções que acaba por adquirir para nós uma criatura que não é a mesma que elas veem.”

 

 

“Odette conhecia a fundo aqueles traços de caráter que o resto da sociedade ignora ou ridiculariza e dos quais, somente uma amante ou uma irmã possuem a imagem semelhante e amada; e nos afeiçoamos de tal modo à essas características, mesmo àquelas que desejaríamos corrigir, que, se as velhas ligações possuem algo da doçura e da força das afeições de família, é porque uma mulher acaba por se acostumar a elas de forma indulgente e amigavelmente trocista, semelhante ao hábito que temos delas, bem como nossos pais. Os laços que nos unem a um ser se acham santificados quando ela se põe no mesmo ponto de vista de nós para julgar um de nossos defeitos.”

 

 

“A maneira indagadora, ansiosa, exigente com que encaramos a pessoa amada, nossa expectativa da palavra que nos dará ou matará a esperança de um encontro no dia seguinte, e, até que tal palavra seja dita, nossa imaginação alternativa, senão simultânea, de alegria e do desespero; tudo isso torna a nossa atenção, em face do ser amado trêmula demais para que possa obter dele uma imagem bem nítida. Talvez, também, essa atividade de todos os sentidos ao mesmo tempo, e que tenta conhecer somente com os olhares aquilo que se encontra além deles, seja por demais indulgente para com as mil formas, sabores e movimentos da pessoa viva, que de costume tornamos inerte quando não estamos enamorados.”

 

 

“A benevolência dos grandes espíritos tem por corolário a incompreensão e a hostilidade dos medíocres; ora, somos muito menos felizes com a amabilidade de um grande escritor, que a rigor se pode encontrar em seus livros, do que sofremos com a hostilidade de uma mulher que não elegemos por sua inteligência, mas que não podemos evitar amar.”

 

 

“É sempre devido a um estado de espírito que não está destinado a durar muito, que tomamos resoluções definitivas.”

 

 

“O soldado está persuadido de que existe à sua frente um espaço de tempo infinitamente inadiável antes de ser morto; o ladrão, antes de ser preso; os homens em geral, antes que a morte os leve. É este o amuleto que preserva os indivíduos – e às vezes os povos – não do perigo, e sim do medo do perigo, na verdade da crença no perigo, o que em certos casos permite que o desafiem, sem que sejam obrigatoriamente corajosos.”

 

 

“Fosse qual fosse o objeto de meu amor, sempre a encontraria ao cabo de uma penosa busca, durante a qual preciso sacrificar o meu prazer a esse bem supremo, em vez de nele achar o meu prazer.”

 

 

“De fato, a avareza não diminuía em nada o prestígio de uma pessoa, pois trata-se de um vício e, portanto, pode encontrar-se em todas as classes sociais.”

 

 

“Se não fosse o hábito, a vida deveria parecer deliciosa às pessoas que estivessem ameaçadas de morrer a todo instante – ou seja, a toda a humanidade.”

 

 

“Pois a beleza é uma sequência de hipóteses, e a feiura a reduz, barrando o caminho que já víamos abrir-se para o desconhecido.”

 

 

“Mas a característica da idade ridícula que eu atravessava – idade nada ingrata, aliás muito fecunda – é que não se consulta a inteligência e que os menores atributos das criaturas parecem fazer parte indivisível de sua personalidade. Sempre cercados de monstros e deuses, a gente quase não conhece o sossego. E quase todos os gestos que fazemos por essa época, desejaríamos suprimi-los mais tarde. Mas, ao contrário, o que se deveria de fato lastimar seria não mais possuirmos aquela espontaneidade que nos inspirava. Depois, veem-se as coisas de maneira mais prática, em plena concordância com o resto da sociedade, mas a adolescência é a única época da vida em que aprendemos algo.”

 

 

“Na humanidade, a frequência de virtudes idênticas para todos não é mais maravilhosa que a multiplicidade dos defeitos particulares de cada um.”

 

 

“O importante, na vida, não é o que se ama e sim sentir o amor.”

 

 

“‘Afinal’, dizia para mim mesmo, ‘talvez o prazer que se tenha de escrever uma bela página não seja o critério infalível do seu valor; talvez não passe de um estado acessório que muitas vezes vem se acrescentar a ela, mas cuja falta não faz diferença. Talvez certas obras-primas tenham sido feitas entre bocejos’.”

 

 

“Mas a essa primeira incerteza, se as veria ou não no mesmo dia, vinha acrescentar-se outra, mais grave, a de que jamais voltasse a vê-las, pois afinal ignorava se deveriam partir para a América ou voltar a Paris. Isto era suficiente para me fazer começar a amá-las. Podemos ter inclinação por uma pessoa. Mas, para desencadear essa tristeza, esse sentimento do irreparável, essas angústias que preparam o amor, é necessário – e é talvez isto, e não uma pessoa, o próprio objeto que a paixão deseja ansiosamente estreitar – o risco de uma impossibilidade.”

 

 

“Antigamente eu havia entrevisto nos Champs-Élysées, e melhor o verificaria desde então, que, ao nos apaixonarmos por uma mulher, simplesmente projetamos nela um estado de nossa alma; que, por conseguinte, o importante não é o valor da mulher mas a profundeza desse estado; e que as emoções que uma moça medíocre nos proporciona podem fazer com que subam à consciência as partes mais íntimas de nós mesmos, as mais pessoais, mais longínquas, mais essenciais, o que não faria o prazer que nos dá a conversação de um homem superior ou até a contemplação admirativa de suas obras.”

 

 

“Não existe homem, por mais sábio que seja – disse-me –, que não tenha, em certa época de sua juventude, pronunciado palavras, ou até levado uma vida, cuja recordação lhe seja desagradável e que ele desejasse ver abolidas. Mas não deve lamentá-la de todo, pois não pode estar seguro de se ter tornado um sábio, na medida em que isso é possível, sem passar por todas as encarnações ridículas ou odiosas que devem precedê-la. Sei que há jovens, filhos e netos de pessoas célebres, a quem os preceptores ensinaram a nobreza de espírito e a elegância moral desde o colégio. Talvez nada se tenha a dizer de suas vidas, poderiam assinar e publicar tudo o que disseram, mas são pobres espíritos, descendentes sem força dos doutrinadores, e cuja sabedoria é negativa e estéril. A gente não herda a sabedoria; é preciso descobri-la por nós mesmos depois de uma trajetória que ninguém pode fazer por nós, e que ninguém nos pode evitar, pois ela é uma forma de ver as coisas. As vidas que o senhor admira, as atitudes que julga nobres, não foram obtidas pelo pai de família ou pelo preceptor; foram precedidas por inícios bem diversos, tendo sido influenciadas pelo que lhes havia em torno, fosse bom ou banal. Representam um combate e uma vitória. Compreendo que já não reconheçamos a imagem do que fomos num primeiro período da vida, a qual, em todo o caso, nos é desagradável. Entretanto, não deve ser renegada, pois trata-se de um testemunho de que temos vivido segundo as leis da vida e do espírito e que dos elementos comuns da vida, extraímos algo que os supera.”

 

 

“E, em suma, é uma forma como outra qualquer de resolver o problema da existência, o de aproximar bastante as coisas e as pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para nos darmos conta de que não têm mistério nem beleza; é uma das higienes entre as quais se pode optar, uma higiene que talvez não seja muito recomendável, mas que nos proporciona uma certa calma para passar a vida e também para nos resignarmos à morte, uma vez que nos permite não lamentar coisa alguma, convencendo-nos que alcançamos o melhor e que o melhor não é grande coisa.”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Crônicas (volume um) – Bob Dylan

Editora: Planeta
ISBN: 978-85-7665-079-9
Tradução: Lúcia Brito
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 328
Sinopse: ‘Eu tinha vindo de muito longe e começado muito de baixo. Mas agora o destino estava prestes a se manifestar. Senti como se ele estivesse olhando direto para mim e para mais ninguém.’ Nestas notáveis memórias sobre os primeiros anos de sua carreira, Bob Dylan nos guia pela Nova York dos anos 1960, a cidade mágica cheia de possibilidades que encontrou ao buscar o sucesso festas esfumaçadas atravessando na noite, descobertas literárias, amores passageiros e amizades verdadeiras. Crônicas: Volume 1 é uma coleção íntima e pessoal de lembranças de um tempo extraordinário, de descobertas e resistência. Revelador, poético, apaixonado e bem-humorado, o livro é uma janela fascinante dos pensamentos Bob Dylan, escancarando suas influências. Com seu dom inigualável para contar histórias e a personalidade que são as marcas registradas de suas músicas, Dylan faz desta obra uma reflexão sobre as pessoas e os lugares que ajudaram a moldar sua vida e sua arte.



“Quando cheguei, o inverno estava de matar. O frio era brutal, e cada artéria da cidade estava entupida de neve, mas eu tinha vindo do norte enregelado, um cantinho da terra onde bosques sombrios congelados e estradas glaciais não me chateavam. Eu podia transcender as limitações. Não estava em busca de dinheiro nem de amor. Tinha um senso de percepção ampliado, estava firme no meu rumo; para completar, era inexperiente e visionário. Minha mente estava forte como uma armadilha, e eu não precisava de qualquer garantia. Não conhecia vivalma naquela metrópole sombria e enregelante, mas tudo estava prestes a mudar – e depressa.”


“Izzy Young me perguntou sobre a minha família. Contei que minha avó por parte de mãe morava conosco. Ela era cheia de nobreza e bondade, e certa vez me disse que a felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada. Também me ensinou a ser gentil porque todo mundo que você encontra está travando uma dura batalha. (...) Ela sempre me dizia coisas do tipo: “Existem algumas pessoas que você nunca será capaz de conquistar. Deixe pra lá – deixe por isso mesmo”.”


“Len Chandler e eu não podíamos acreditar naquelas matérias. Havia artigos sobre coisas como novas fobias dos tempos modernos, todas com nomes extravagantes em latim, medo das flores, medo do escuro, medo de altura, medo de atravessar pontes, de cobras, medo de envelhecer, medo de nuvens. Qualquer coisa podia ser amedrontadora. Meu grande medo era que meu violão desafinasse.” 


“A semana anterior me deixara exaurido. Havia voltado à cidade de meus primeiros anos de uma forma que jamais havia imaginado – para ver meu pai ser sepultado. Agora não haveria jeito de dizer o que nunca fui capaz de dizer antes. Enquanto eu crescia, as diferenças culturais e de geração haviam sido intransponíveis – nada além do som das vozes, uma conversa artificial e sem graça. Quando um de meus professores disse a ele que o filho tinha uma natureza de artista, meu pai, que falava direto e sem rodeios, perguntou: “Artista não é um sujeito que pinta?”. Parecia que eu sempre havia estado no encalço de alguma coisa, qualquer coisa que se movesse – um carro, um pássaro, uma folha soprada pelo vento –, o que quer que pudesse me levar para um lugar mais luminoso, alguma terra desconhecida rio abaixo. Eu não tinha a mais vaga noção do mundo despedaçado em que vivia, do que a sociedade podia fazer com você.
Quando saí de casa, foi como se fosse um Colombo partindo para o Atlântico desolado. Parti e fui para os confins da terra – até o abismo onde a água despencava – e agora estava de volta à Espanha, de volta para onde tudo havia começado, na corte da rainha, com uma expressão semividrada no rosto, até com uns fiapos de barba. (...) No curto tempo em que fiquei lá, tudo me voltou, aquela baboseira toda, a velha ordem das coisas, a gente simplória, mas uma outra coisa também me ocorreu: que meu pai era o melhor homem do mundo, provavelmente cem vezes melhor do que eu; no entanto, ele não me entendia. A cidade em que ele vivia e a cidade em que eu vivia não eram a mesma. Isso posto, tínhamos agora mais coisas em comum do que nunca: eu também já era pai três vezes, havia um monte de experiências que eu queria compartilhar.”


“Era engraçado. Tudo o que eu havia feito era cantar canções totalmente sinceras e que expressavam novas realidades poderosas. Eu tinha muito pouco em comum com a geração da qual supostamente era a voz e a conhecia menos ainda. Havia deixado minha cidade natal apenas dez anos antes, não estava vociferando as opiniões de ninguém. Meu destino assentava-se na estrada com o que quer que a vida trouxesse, não tinha nada a ver com representar qualquer tipo de civilização. Ser verdadeiro consigo mesmo, esse era o meu lance. (...) Eu realmente jamais fui mais do que era – um cantor de folk que fitava a névoa cinzenta com os olhos cegos pelas lágrimas e fazia canções que flutuavam em uma neblina luminosa. Agora a névoa havia soprado para o meu rosto e pairava sobre mim. Eu não era um pregador realizando milagres. Aquilo teria levado qualquer um à loucura.”


“Parasitas em peregrinação vinham de longe, até da Califórnia. Imbecis invadiam nossa casa a qualquer hora da noite. De início, eram apenas nômades sem-teto entrando ilegalmente – parecia bastante inofensivo, mas então os patifes radicais em busca do Príncipe do Protesto começaram a chegar: personagens de aparência indescritível, mulheres com aspecto de gárgula, espantalhos, vadios à procura de festa, de uma boca-livre. (...) Não só isso, mas os sujeitos asquerosos que pisoteavam nosso telhado com suas botas poderiam até me levar a julgamento caso um deles despencasse lá de cima. Aquilo era muito transtornante. Eu queria mandar bala naquela gente. Todas aquelas assombrações, aqueles penetras, invasores de propriedade, demagogos, estavam despedaçando minha vida doméstica, e o fato de eu não poder botá-los a correr ou então eles poderiam prestar queixa contra mim realmente não me agradava nem um pouco. Cada dia e noite eram repletos de dificuldades. Estava tudo errado, o mundo era absurdo. Estavam me encurralando. Mesmo pessoas próximas e queridas não ofereciam alívio.
Uma vez, no meio daquela maluquice, eu rodava de carro com Robbie Robertson, guitarrista do que mais tarde se chamaria The Band. Eu me sentia como se pudesse muito bem estar vivendo em outra parte do sistema solar. Ele se vira e me diz: “Para onde você acha que vai levar isso?”.
Eu disse: “Levar o quê?”
“Você sabe, toda a cena musical.” Toda a cena musical! A janela do carro estava aberta uns três centímetros. Deixei-a toda aberta pelo resto do percurso, senti uma rajada de vento soprar no meu rosto e esperei que o que ele havia dito se dissipasse – era como lidar com uma conspiração. Nenhum lugar era longe o bastante. Não sei o que todos os outros estavam fantasiando, mas eu fantasiava sobre o estilo de vida de um simples assalariado, uma casa em uma quadra arborizada com cerquinha de madeira branca, rosas no quintal. Teria sido legal. Era o meu sonho mais profundo. Depois de um tempo você aprende que privacidade é algo que se pode vender, mas não se pode comprar de volta.”


“Criatividade tem muito a ver com experiência, observação e imaginação, e se um desses elementos está faltando, a coisa não funciona. Para mim, agora era impossível observar qualquer coisa sem ser observado.”


“Mas os dez anos anteriores (1978-87) tinham me desbotado e desgastado profissionalmente. Muitas vezes eu chegava perto do palco antes de um show e me pegava pensando que não estava mantendo a palavra comigo mesmo. Que palavra era, eu não conseguia lembrar direito, mas sabia que havia uma em algum lugar. Tentei decifrar a situação, mas não parecia haver nenhuma fórmula. Se eu tivesse visto que aquilo se aproximava, talvez pudesse ter mantido a coisa nos eixos, mas não percebi. Meus dias de apresentações ininterruptas haviam empacado por uns tempos, tinham chegado a uma parada quase total. Eu havia dado tiros no meu próprio pé muitas vezes. É bacana ser conhecido como uma legenda, e o público paga para ver uma, mas, para a maioria das pessoas, uma vez é o bastante. Você tem que entregar a mercadoria, não desperdiçar o seu tempo, nem o dos outros. Eu não havia sumido do mapa realmente, mas a estrada havia se estreitado, estava quase fechada, quando era de se esperar que fosse bastante ampla. Eu ainda não havia sumido de vez. Estava me retardando na pista. Dentro de mim havia uma pessoa perdida, e eu precisava achá-la. Tentei algumas vezes, de quando em quando, dei um duro danado. A natureza tem remédio para tudo, e é para onde eu geralmente vou em busca dele. Eu iria para dentro de um barco, uma casa móvel flutuante – esperando ouvir uma voz –, rastejando em baixa velocidade, enfiado em uma praia recôndita e deserta à noite, no isolamento – alce, urso e veado por perto, o elusivo lobo cinzento não muito distante, suaves noites de verão escutando o canto do mergulhão-do-norte. Pensando nas coisas. Mas não adiantava. Eu me sentia acabado, um traste vazio completamente consumido. Estática demais na minha cabeça, e eu não conseguia descarregar. Onde quer que eu vá, sou um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk-rock, um artesão da palavra de tempos passados, um chefe de Estado fictício de um lugar que ninguém conhece. Estou no inferno do esquecimento cultural. Tudo e mais um pouco. Não consigo me soltar. Quando saio da noite, as pessoas me veem chegando. Eu sei o que elas estão pensando. Tenho que encarar as coisas como elas são.”




“Presunção não é necessariamente uma doença. É mais uma fraqueza. Uma pessoa presunçosa pode facilmente ser erguida e, com isso, derrubada. Vamos encarar os fatos: uma pessoa presunçosa tem uma noção falsa do próprio valor, uma opinião inflada sobre si mesma. Uma pessoa assim pode ser completamente controlada e manipulada se você souber quais botões apertar.”


“Deitei, escutei os grilos e a vida selvagem do outro lado da janela, na escuridão sinistra. Eu gostava da noite. As coisas crescem à noite. Minha imaginação fica a meu dispor à noite. Todas as minhas ideias preconcebidas se vão. Às vezes você pode estar procurando o paraíso nos lugares errados. Às vezes ele pode estar sob os seus pés. Ou na sua cama.”


“(...) Acho que todo o bem do mundo talvez já tenha sido feito”, disse Sun Pie. (...) Quando saía da loja ele me perguntou:
“Tem tudo de que precisa, então?”
“Sim, mas preciso de algo mais”.”


“Meu pai tinha sua própria visão das coisas. Para ele, a vida era trabalho duro. Ele vinha de uma geração de valores, heróis e músicas diferentes, e não tinha certeza de que a verdade fosse libertar alguém. Ele era pragmático e sempre tinha uma palavra de conselho críptica: “Lembre-se, Robert, na vida pode acontecer qualquer coisa. Mesmo que não tenha todas as coisas que quer, seja grato pelas coisas que você não tem e não quer ter”.”


“Gostaria de ter sido capaz de fornecer as canções que Danny Lanois queria, como “Masters of War”, “Hard Rain”, “Gates of Eden”, mas canções desse tipo foram escritas sob circunstâncias diferentes, e as circunstâncias nunca se repetem. Não exatamente. Eu não poderia mais obter canções daquele tipo nem para ele, nem para ninguém. Para fazer isso, você tem que ter poder e domínio sobre os espíritos. Fiz isso uma vez, e uma vez foi o bastante. Qualquer dia apareceria alguém que faria de novo, alguém que poderia ver as coisas por dentro, a verdade das coisas, não metaforicamente, mas realmente ver, como ver o metal por dentro e fazê-lo derreter, ver como era e revelar com palavras duras e percepção perversa.”


“Às vezes as coisas de que você mais gostou e que mais significado tiveram para você são coisas que não significaram absolutamente nada na primeira vez em que você ouviu falar delas ou as viu.”


“A cena da música folk havia sido um paraíso do qual eu tinha que sair, como Adão teve que deixar o jardim. Era simplesmente perfeito demais. Dentro de poucos anos, se desencadearia uma tempestade de bosta. As coisas começariam a ser queimadas. Sutiãs, certificados de alistamento, bandeiras americanas, pontes também – todo mundo estaria sonhando em se dar bem. A psique nacional mudaria, e em muitos aspectos lembraria a noite dos mortos-vivos. A estrada seria traiçoeira, e eu não sabia para onde ela iria levar, mas a seguiria mesmo assim. Era um mundo estranho que se desenrolaria à frente, um mundo trovejante, com arestas pontudas luminosas. Muitos entenderam errado e jamais conseguiram entender direito. Fui direto pra dentro desse mundo. Ele estava escancarado. Uma coisa era certa: não apenas não era governado por Deus, como também não era governado pelo Diabo.”

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O mito de Sísifo - Albert Camus

Editora: Guanabara Koogan
Tradução e apresentação: Mauro Gama
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 162
Sinopse: Este livro é um dos mais importantes volumes da obra de Albert Camus (1913-1960). Publicado originalmente em 1942, trata-se de um ensaio clássico do autor de “A peste”, “A queda” e “O estrangeiro”, sobre o absurdo e o suicídio, publicado durante a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo realmente parecia um absurdo. A guerra, a ocupação da França, o triunfo aparente da violência e da injustiça, tudo opunha brutal desmentido à ideia de um universo racional. Os deuses que condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma pedra até o alto da montanha, de onde ela tornava a cair, caracterizaram um trabalho inútil e sem esperança que podia exprimir a situação contemporânea. “O mito de Sísifo” analisa a fundo a questão do suicídio, assim como “O homem revoltado”, o outro polo do pensamento de Camus, aborda a questão do assassínio. Trata-se de um ensaio de grande densidade de linguagem, que exerceu profunda influência sobre toda uma geração.



“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia.”


“Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas ideias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer).”


“Matar-se é de certo modo, como no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela vida ou que não se tem como compreendê-la. Mas não nos deixemos levar tanto por essas analogias e voltemos à linguagem corrente. É somente confessar que isso “não vale a pena”. Naturalmente, nunca é fácil viver. Continua-se a fazer gestos que a existência determina por uma série de razões entre as quais a primeira é o hábito. Morrer voluntariamente pressupõe que se reconheceu, ainda que instintivamente, o caráter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o caráter insensato dessa agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.”


“No apego de um homem à vida há alguma coisa de mais forte que todas as misérias do mundo.”


“Adquirimos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar.”


“É quase impossível ser lógico até o fim.” 


“Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que têm consciência de dizer.”


“Excetuando-se os racionalistas por profissão, hoje já não se tem esperança do verdadeiro conhecimento. Se fosse necessário escrever a única história significativa do pensamento humano, seria preciso fazer a dos arrependimentos e das impossibilidades.”


“Eu dizia que o mundo é absurdo: estava andando muito depressa. Esse mundo em si mesmo não é razoável: é tudo o que se pode dizer a respeito.”


“O mais certo dos mutismos não é o de calar mas o de falar”. (Kierkegaard)


“No plano da inteligência, posso pois afirmar que o absurdo não está no homem (se semelhante metáfora pudesse ter um sentido), nem no mundo, mas em sua presença comum. É, nesse instante, o único laço que os une. Se pretendo me limitar às evidências disso, sei o que o homem quer, sei o que o mundo lhe oferece e agora posso dizer que sei ainda o que os une. Não tenho necessidade de cavar mais adiante. Uma única certeza é suficiente àquele que procura. Trata-se apenas de lhe extrair as consequências todas.”


“Um homem é sempre a presa de suas verdades. Uma vez reconhecidas, ele não saberia se desligar delas. E é preciso pagar um tanto por isso.”


“A única saída verdadeira está precisamente ali onde não há saída conforme o julgamento humano. Do contrário, para que teríamos nós necessidade de Deus? As pessoas só recorrem a Deus para ter o impossível. Para o possível, os homens se bastam.” (Chestov)


“Os deuses mudam junto com os homens.”


“A história não tem falta de religiões, nem de profetas, ainda que sem deuses.”


“É aqui que se vê a que ponto a experiência absurda se afasta do suicídio. Pode-se acreditar que o suicídio se segue à revolta. Mas é engano. Porque ele não representa o resultado lógico. É precisamente o seu contrário, pelo consentimento que envolve. O suicídio, como salto, é a aceitação em seu limite. Tudo está consumado: o homem volta à sua história essencial. Seu futuro, seu único e terrível futuro, ele o distingue e se precipita. À sua maneira, o suicida resolve o absurdo. Ele o arrasta na mesma morte. Mas eu sei que, para se manter, o absurdo não pode se revolver. Ele escapa ao suicídio à medida que é, ao mesmo tempo, consciência e recusa da morte. É, no ponto extremo do último pensamento do condenado à morte, esse cordão de sapato que apesar de tudo ele percebe a alguns metros, em cima da própria margem de sua queda vertiginosa. O contrário do suicida é, precisamente, o condenado à morte.”


“Compreendo então por que as doutrinas que me explicam tudo me enfraquecem ao mesmo tempo. Elas me descarregam do peso da minha própria vida e o que é mais necessário, no entanto, é que eu o suporte sozinho.”


“Consciência e revolta: essas recusas são o contrário da renúncia.”


“Pensar no dia de amanhã, firmar um objetivo, ter preferências, tudo isso pressupõe a crença na liberdade, mesmo se às vezes nos convencemos de não a sentir efetivamente. Nesse instante, porém, essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundamentar uma verdade, sei muito bem, agora, que ela não existe. A morte está ali como única realidade. Depois dela, a sorte está lançada. Não sou mais livre para me perpetuar, mas escravo, e escravo, sobretudo, sem esperança de revolução eterna, sem refúgio no desprezo. E quem, sem revolução e sem desprezo, pode permanecer escravo? Que liberdade, no sentido pleno pode existir sem garantia de eternidade?”


“Sob um de seus aspectos, o nada é feito exatamente da soma das vidas que ainda vêm e não serão as nossas.”


“Se bastasse amar, as coisas seriam muito simples. Quanto mais se ama, mais o absurdo se consolida. Não é de modo algum por falta de amor que Don Juan vai de mulher em mulher. É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é até porque ele as ama com igual arrebatamento e a cada vez com toda inteireza, que lhe é preciso repetir esse dom e esse aprofundamento. Por isso cada uma espera trazer-lhe o que ninguém nunca lhe deu. A cada vez elas se enganam profundamente e só são bem-sucedidas em lhe fazer sentir a necessidade dessa repetição. “Enfim,” exclama uma delas, ““eu lhe dei o amor”. Vamos nos espantar com Don Juan rindo disso: “Enfim? Não,” diz ele, “apenas uma vez mais”. Por que seria preciso amar raramente para amar muito?”


“Só nos romances há alguém que muda de estado ou se torna melhor.”


“Don Juan não pensa em “colecionar” as mulheres. Ele esgota a quantidade delas e, com isso, as possibilidades de sua vida. Colecionar é ser capaz de ficar vivendo do passado. Mas ele rejeita a saudade, essa outra forma da esperança. Não sabe olhar os retratos.”


“Todos os especialistas da paixão nos ensinam isso: só existe amor eterno contrariado. Quase não existe paixão sem luta. Um amor semelhante só tem fim na última contradição que é a morte. É preciso ser Werther ou nada.”


“Nós só chamamos amor o que nos liga a certos seres por alusão a um modo de ver coletivo e pelo qual os livros e as lendas são responsáveis. Mas conheço apenas, do amor, essa mescla de desejo, de ternura e inteligência que me liga a um ser. Esse composto não é o mesmo para um outro. Não tenho o direito de estender a todas essas experiências o mesmo nome. O que dispensa de as levar adiante com os mesmos gestos. (...) Não há amor generoso além daquele que se sabe ao mesmo tempo singular e passageiro. São todas essas mortes e todos esses renascimentos que fazem para Don Juan o feixe de sua vida. É a maneira que ele tem de dar e de fazer viver. Deixo para ser julgado se se pode falar de egoísmo.”


“O homem cotidiano não gosta nada de perder tempo. Tudo o impulsiona no sentido oposto. Mas, ao mesmo tempo, nada lhe interessa mais do que ele próprio, sobretudo quanto ao que ele poderia ser.”


“A metade de uma vida humana se passa em subentender, desviar a cabeça e se calar.”


“Não tenho muitas opiniões. No final de uma vida, o homem percebe que passou anos se convencendo de uma única verdade. Mas uma só, se é evidente, é bastante para a direção de uma existência.”


“Um homem é um homem mais pelas coisas que cala do que pelas que diz.”


“Vi espíritos sensatos se maravilharem com obras-primas de pintores holandeses nascidos no coração das sangrentas guerras de Flandres e se comoverem com as preces dos místicos silesianos elevadas em meio à pavorosa Guerra dos Trinta Anos. Os valores eternos, ante seus olhos assombrados, sobrenadam acima dos tumultos seculares. Mas o tempo continuou andando. Os pintores de hoje estão privados dessa serenidade. Mesmo se têm no fundo o coração necessário ao criador, um coração seco, quero dizer, ele não é de nenhuma utilidade, pois todo o mundo e o próprio santo estão mobilizados. Eis aí, talvez, o que senti mais profundamente. A cada forma abortada nas trincheiras, a cada traço, metáfora ou oração triturada sob as ferragens, o eterno perde uma partida. Consciente de que não posso me separar do meu tempo, resolvi ser unha e carne com ele. É porque não ligo muito para o indivíduo a não ser que me pareça ridículo e humilhado. Ciente de que não há causas vitoriosas, tomo gosto pelas causas perdidas: elas requerem uma alma inteira, igual à sua derrota, como a suas vitórias passageiras. Para quem se sente solidário com o destino desse mundo, o choque das civilizações tem alguma coisa de angustiante. Fiz minha essa angústia, ao mesmo tempo que quis jogar aí minha partida. Entre a história e o eterno escolhi a história porque gosto das certezas. Pelo menos dela estou certo, e como negar esta força que me esmaga?
Acaba sempre chegando um tempo em que é preciso escolher entre a contemplação e a ação. Chama-se isso tornar-se um homem. Essas dilacerações são terríveis. Mas, para um coração orgulhoso, não pode haver meio termo. Há Deus ou o tempo, essa cruz ou essa espada. Esse mundo tem um sentido mais alto, que ultrapassa as suas agitações, ou não há nada verdadeiro a não ser essas agitações. É necessário viver com o tempo e morrer com ele ou se subtrair a ele para uma vida maior. Sei que se pode transigir e que se pode viver no século acreditando no eterno. Isso se chama aceitar. Mas essa palavra me repugna, e eu quero tudo ou nada. Se escolho a ação, não pense que a contemplação me seja como uma terra desconhecida. Mas ela não pode me dar tudo e, privado do eterno, quero me aliar ao tempo. Não quero fazer constar na minha conta nem saudade nem amargura: só quero é ver com clareza. É como lhe digo: amanhã você será mobilizado. Para você e para mim, isso é uma libertação. O indivíduo não pode nada e, no entanto, pode tudo. Nessa maravilhosa disponibilidade você compreende por que o exalto e o esmago ao mesmo tempo. É o mundo que o tritura e sou eu que o liberto. Eu lhe forneço todos os seus direitos.”


“Todas essas vidas conservadas no ar rarefeito do absurdo não se saberiam sustentar sem algum pensamento profundo e constante que as anima com sua força. Mesmo esta só pode ser um singular sentimento de fidelidade. Viram-se homens conscientes desempenhar sua tarefa em meio às mais estúpidas guerras sem se acreditarem numa contradição. É que se tratava de não se esquivar a nada. Há, desse modo, uma felicidade metafísica a sustentar a absurdidade do mundo. A conquista ou o jogo, o amor inumerável, a revolta absurda são homenagens que o homem presta à sua dignidade numa campanha em que ele está antecipadamente vencido.”


“A arte é nada além da arte, temos a arte para não sermos mortos pela verdade”. (Nietzsche)


“Nunca seria demais insistir no arbitrário da antiga oposição entre arte e filosofia. Caso se queira entendê-la em sentido estrito, ela é inequivocamente falsa. Caso somente se queira dizer que essas duas disciplinas têm, cada uma, seu clima particular, isso é sem dúvida verdadeiro, mas muito vago. A única argumentação aceitável residia na contradição suscitada entre o filósofo fechado no meio de seu sistema e o artista colocado diante de sua obra. Mas isso valia para uma certa forma de arte e de filosofia que nós, agora, consideramos secundária. A ideia de uma arte separada de seu criador não se acha apenas fora de moda. É falsa. Por oposição ao artista, observa-se que nunca nenhum filósofo fez diversos sistemas. Mas isso é verdadeiro na mesma proporção em que nunca nenhum artista exprimiu mais que uma só coisa sob diferentes faces.”


“A obra, portanto, encarna um drama intelectual. A obra absurda ilustra a renúncia do pensamento a seus encantos e sua resignação a não ser mais do que a inteligência que converte em trabalho as aparências e cobre de imagens o que não é racional. Se o mundo fosse claro, a arte não o seria.”


“Pensar é, antes de tudo, querer criar um mundo (ou limitar o seu, o que vem a dar no mesmo). É partir do desacordo fundamental que separa o homem de sua experiência para encontrar um terreno de interpretação conforme sua nostalgia, um universo espartilhado de razões ou aclarado de analogias que permite resolver o divórcio insuportável.”


“As pessoas se habituam muito depressa. Querem ganhar dinheiro para viver felizes, e o máximo esforço, o melhor de uma vida se concentram nesse ganho. A felicidade é esquecida, o meio tomado como fim.”

“Todos os heróis de Dostoievski se interrogam sobre o sentido da vida. É nisso que eles são modernos: não temem o ridículo. O que distingue a sensibilidade moderna da sensibilidade clássica é que esta se nutre de problemas morais e aquela de problemas metafísicos.”


“O único pensamento que liberta o espírito é aquele que o deixa só, certo de seus limites e de seu fim próximo. Nenhuma doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento da obra e da vida. Destacada dele, a primeira fará ouvir uma vez mais a voz mal ensurdecida de uma alma para sempre livre da esperança. Ou ela não fará ouvir nada, se o criador, cansado de seu jogo, prefere se desviar. Dá no mesmo.”


“Se o mito de Sísifo é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo em que leva a pedra até o alto da montanha o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce da montanha. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.”


“Nada é mais difícil de entender do que uma obra simbólica. Um símbolo ultrapassa sempre quem faz uso dele e o leva a dizer mais, na realidade, do que tem intenção de dizer.”


“O coração humano tem uma penosa tendência a chamar destino somente ao que o esmaga.”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A catedral do mar – Ildefonso Falcones

Editora: Rocco
ISBN: 978-85-325-2208-5
Tradução: Cristina Cavalcanti
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 592
Sinopse: O catalão Ildefonso Falcones conta em A catedral do mar uma saga épica sobre a vida de reviravoltas de Arnau Estanyol e sua ascensão de filho de servo a barão, tendo como pano de fundo a construção da igreja de Santa Maria do Mar, um dos mais belos templos góticos medievais.



“Bernat desapareceu entre a multidão faminta. A última coisa que Arnau viu nele foi o ódio que cuspia pelos olhos.
– Pai, aonde você vai? – gritou, quando já o tinha perdido de vista.
– Em busca da liberdade – respondeu uma mulher que também observava a multidão espalhar-se pelas ruas da cidade.
– Já somos livres – atreveu-se Arnau a afirmar.
– Não há liberdade com fome, filho – sentenciou a mulher.”


“Quem saiu em busca de notícias foi Pere, e foi mais fácil encontrá-las do que voltar para casa.
– Sinto muito, menino – disse ele a Arnau. – Seu pai foi preso.
– Onde ele está?
– No palácio do veguer, mas...
Arnau já estava correndo em direção ao palácio. Pere olhou para a mulher e balançou a cabeça; a anciã levou as mãos ao rosto.
– Foram julgamentos de emergência – explicou Pere –, diversas testemunhas reconheceram Bernat, com aquele sinal no olho direito, como o principal instigador da revolta. Por que será que ele fez isso? Parecia...
– Porque tem dois filhos para alimentar – interrompeu-o a mulher com lágrimas nos olhos.
– Tinha... – corrigiu-a Pere com uma voz cansada. – Ele foi enforcado na Praça de Blat junto com outros nove agitadores.
Mariona levou as mãos ao rosto novamente, mas de repente as retirou.
– Arnau...! – exclamou, dirigindo-se para a porta, mas ficou a meio caminho ao ouvir as palavras do esposo:
– Deixe-o, mulher. A partir de hoje ele não será mais uma criança.”


“Os sábios afirmavam que, por natureza, a mulher era fria e fleumática, e sabe-se que, quando uma coisa fria se acende, arde com muita força.”


“Os vencidos não têm esposa.”


“Arnau, há algo que nunca mudará na história: quem tem mais dinheiro quer mais; nunca o dá e nunca o fará.” 


“Lutamos muito para chegar ao ponto onde estamos; esqueça a honra: ela não foi feita para o povo.”