segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Dao De Jing (Parte I), de Laozi

Subtítulo: Escritura do Caminho e Escritura da Virtude com os comentários do Senhor às margens do Rio

Editora: Unesp

ISBN: 978-85-393-0623-7

Tradução, notas, variantes e seleção de textos: Giorgio Sinedino

Opinião: N/A

Páginas: 630

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: O Dao De Jing (ou Tao Te Ching), tradicionalíssima coletânea de provérbios chineses, é a raiz de tradições religiosas e filosóficas milenares como o Taoismo e o Zen. Nos últimos séculos, após inúmeras traduções, despertou o interesse do público ocidental. A Editora Unesp lança esta tradução inédita com um enfoque particular: tornar mais compreensível a complexa tradição cultural da China, possibilitando uma visão de como seu povo percebe o mundo.



Escritura do Caminho do Mestre Lao (Laozi)

 

Comentário em Sentenças e Capítulos do Senhor às Margens do Rio (Heshang Gong)

 

 

“Nutrindo o corpo1

 

Se Tudo sob o Céu2 vê o belo como belo,

Comentários

Cada um busca pôr em evidência a beleza das próprias [virtudes] e com isso tornar-se distinto e preeminente [em seu meio].

 

Isso é mau.

Comentários

Há perigo de morte.3

 

Se todos vemos o bom como bom,

Comentários

Quando há [coisas como] mérito e reputação.

 

Isso não é bom.4

Comentários

[Pois mérito e reputação] tornam-se objetos de disputa entre as pessoas.

 

Pois existência e não existência5 dão vida uma a outra,

Comentários

Ou seja, ao percebermos algo que existe, concebemos [a ideia de que] algo não existe.

 

O fácil e o difícil produzem-se,

Comentários

Ao identificarmos algo como difícil, concebemos [a ideia de que] algo é fácil.

 

O longo e o curto dão-se forma,

Comentários

Ao distinguirmos algo curto, concebemos [a ideia de que] algo é longo.6

 

O alto e o baixo se contrapõem,

Comentários

Ao definirmos algo como alto, concebemos [a ideia de que] algo está abaixo.

 

Som e voz harmonizam-se,

Comentários

Se o superior canta, o inferior tem que acompanhar.

 

O que está à frente e o que está atrás seguem-se.

Comentários

Se o superior vai adiante, o inferior tem que seguir.7

 

Sendo assim, o Sábio8 deve ocupar-se com a prática da Inação

Comentários

Isto é, usa o Dao para que [as coisas se ponham] em ordem.

 

[E] deve promover a doutrinação9 que não tem palavras.

Comentários

Deve liderar e orientar [o povo] por meio de seu exemplo.

 

As dez mil coisas surgem dela10 e não se escusam.

Comentários

Embora cada uma [das coisas que há no mundo] aja por si só, nada se escusa [de seguir o Caminho], seja indo contra [o que ele determina], seja [simplesmente] cessando seu movimento.

 

Dá vida, mas não existe.

Comentários

A Energia Vital Original dá vida às dez mil Coisas, mas não existe.

 

Obra, sem expectativas.11

Comentários

O Dao não espera nem atenta para recompensas por aquilo que criou e dispôs.

 

Embora seus méritos rendam frutos, não se detém [com seu gozo].

Comentários

Seus méritos dão frutos, suas obras se realizam, contudo oculta-se [do mundo], não ocupando o lugar [que merece].

 

E é apenas porque não se detém.

Comentários

E é apenas porque seus méritos dão frutos e não ocupa o lugar [que lhe é devido]...

 

Que [seus méritos] não o abandonam.

Comentários

A Sorte e a Virtude12 estão sempre ao seu lado, não o abandonando nunca. Este [capítulo] propõe que se [o soberano] não agir, não poderá ser imitado; se não se expressar, não poderá ser conhecido. As seis frases acima, que mencionam alto e baixo, comprido e curto, e assim por diante, [querem dizer que] se o soberano cavar um olho-d’água,13 os seus subordinados farão dele [um rio de] cem braços. E com esses cem braços se desdobrando [em afluentes sem fim], não há nada que não leve à desordem.”

1 A partir da interpretação de Wang Bi, este capítulo é a pedra de toque da “epistemologia” de Laozi, sendo muito apreciado modernamente.

2 Tudo sob o Céu: o termo indica a China e seu mundo cultural.

3 “Há perigo de morte”. O texto Anotações Reunidas lê: “aparece [a noção de] ‘jade grosseiro’” 有粗玉也. Ou seja, o jade, que antes era considerado uma coisa indiscriminadamente bela, agora aparece dividido em categorias – o jade perfeito como belo, o jade grosseiro como feio. Este comentário ratifica a leitura atualmente atribuída a Wang Bi: “Se Tudo sob o Céu vê o belo como belo, isso torna-se feio”.

4 Os quatro primeiro versos do capítulo são lidos diferentemente em HSG e WB. HSG: “Se Tudo sob o Céu vê o belo como belo, Isso é mau. Se todos vemos o bom como bom, Isso não é bom”. O Senhor do Rio interpreta o texto do ponto de vista do governante que deseja suprimir razões para conflitos e competição entre as pessoas. Por esse motivo, se todos desejarem as mesmas coisas, belas e boas, necessariamente haverá disputa. WB: “Tudo sob o Céu vê o belo como belo, eis onde está o feio. Todos vemos o bom como o bom, eis onde o não bom está”. Wang Bi oferece uma versão mais “mística” do texto – remetendo à Unidade que jaz além dos opostos: “‘Belo’ é o que o coração das pessoas se alegra em perseguir. Feio é o que o coração das pessoas rejeita e critica. Belo e feio parecem-se com júbilo e fúria; bom e não bom parecem-se com certo e errado. Júbilo e fúria vêm da mesma raiz, certo e errado surgem das mesmas portas, por isso não se pode privilegiar uma delas. Esses seis pares (existência e não existência; fácil e difícil; curto e longo; alto e baixo; som e voz; frente e trás) descrevem a espontaneidade [das coisas], não podendo ter um de seus termos discriminado em favor de outro” 美者, 人心之所樂進也。惡者, 人心之所惡疾也。美惡, 猶喜怒也; 善不善, 猶是非也。喜怒同根, 是非同門, 故不可得偏舉也。此六者皆陳自然不可偏舉之名數也.

5 Existência/Nada (Não Existência): 有 (you) e 無 (wu) em Laozi podem ser usados como conceitos ontológicos, tal qual o célebre verso: “As dez mil coisas de Tudo sob o Céu adquirem vida do que [já] existe; e o que [já] existe obtém sua vida do Nada” 天下萬物生於有, 有生於無 (cap. 40). Cf. Precedência Cosmológica/Ontológica Do Nada (cap. 1, nota 19).

6 “Ao distinguirmos algo curto, concebemos [a ideia de que] algo é longo”. O texto Cânone taoista lê: “Ao vermos algo curto, sabemos que dá forma [a algo longo]” 見短之相形也.

7 “Se o superior vai adiante, o inferior tem que seguir”. O manuscrito Liu diz: “Se o superior vai à frente, o inferior há de derrubá-lo” 上行下必傾之也.

8 Sábio: (聖人, shengren) é o grande ideal de vida e, pode-se dizer sem exagero, o protagonista da cultura chinesa. Seu protótipo é os “reis sábios” de tempos imemoriais, heróis civilizadores que, dizem as lendas, ensinaram o povo a construir casas, trabalhar a terra e assim por diante. Portanto, há duas dimensões preeminentes na figura do sábio: moral-intelectual e política. Sua legitimação como líderes naturais da sociedade deriva, de um lado, de sua moralidade e conhecimento (Virtude); de outro, das insígnias que os distinguem da multidão de pessoas comuns, inclusive riqueza material. É em torno dessas duas dimensões – e sua relação – que gira o debate das escolas de pensamento surgidas com as mudanças sociais do final da dinastia Zhou. Apesar de cada uma das escolas propor sua própria receita de como buscar a sabedoria, pode-se distinguir duas orientações básicas. Uma delas defendia o “engajamento” (入世, rushi), propondo que quem desejasse buscar a sabedoria deveria se submeter a um processo de cultivação moral-intelectual. Uma vez concluído, o Sábio deteria credenciais, em tese, para exercer um papel maior na vida pública. O porta-voz mais notável dessa concepção, obviamente, é Confúcio. A segunda delas propunha um tipo de “retirada” do mundo (出世, chushi), exortando aqueles que desejavam se tornar sábios a suspeitar de qualquer cultivação intelectual e/ou envolvimento formal com a vida política. Conforme esta linha, o Sábio estaria fora do mundo e isento das regras de convivência social. Porém, há controvérsias sobre o que fazer a partir daí. Havia quem advogasse uma ruptura extrema de laços com a sociedade, como os eremitas; havia aqueles que se dedicavam a conhecimentos arcanos; havia ainda quem pregasse a saída do mundo como forma de purificação, sem excluir a possibilidade de um “retorno ao mundo”, como conselheiro apartado da hierarquia burocrática. O paradigma aqui, grosso modo, é o pensamento da obra Laozi. Dessas diferenças principais decorrem as diversas atitudes que cada paradigma de Sábio tomaria a respeito do papel da moralidade, do valor atribuído à experiência histórica, bem como das expectativas que se deve ter da vida.

9 Doutrinação (Política): é 教 (jiao). Frequentemente integra a palavra composta 教化 (jiaohua), na qual o segundo termo é “Transformação Política” (cf. cap. 3, nota 6). 教 (jiao) significa “instruir”. Instrução e estudo são centrais na construção da ordem social e política chinesa, já que promovem o respeito à hierarquia e a integração do indivíduo à coletividade. Há a tradição de que, na China das três dinastias, as casas reais mantinham escolas para instruir os filhos dos nobres, aceitando também “as melhores” dentre as crianças sem pedigree. O ensino parece ter se dividido em dois níveis, o primeiro deles voltado a tarefas domésticas e disciplinas práticas, como preparação para a guerra e outras atividades de governo – trabalho de secretariado, contabilidade, entre outros. A partir dos 15 anos e até a maturidade (20 anos), havia um segundo nível, voltado para a memorização e cultivo dos clássicos: ritos, poemas, música, crônicas históricas e adivinhação – as chamadas seis artes (六藝, liuyi). Uma vez concluída sua preparação, cabia à elite organizar politicamente o povo – o que exigia, naturalmente, plasmá-lo com formas de pensar e valores capazes de garantir a estabilidade social, por um lado, e a reprodução do modelo tradicional de governança, por outro. Essa é a “doutrinação” a que se refere Laozi, em sentido estrito, que era uma das finalidades do trabalho de governo, monopolizado pela elite. Nesse caso, estava em questão o poder do sábio de impregnar tais valores e formas de pensar por meio de seus “poderes morais”, por sua erudição e pela aura de autoridade que emitia.

10 As dez mil coisas surgem dela e não se escusam”. A passagem usa o pronome indefinido 焉 (yan), donde a tradução “dela”. Pela sintaxe dos versos anteriores, tudo indica que corresponda ao Dao, paradigma da “Inação”, no plano cosmológico, e “doutrinação sem palavras”, no plano político.

11 Significando “depender”, o verbo 恃 (shi) é utilizado de maneira pouco usual pelo Senhor do Rio, como 望 (wang), isto é, ter expectativas.

12 Sorte: (福, fu) é um tema ubíquo na China e em sua cultura. Etimologicamente (SWJZ), 福 está associado à proteção dos espíritos (祐, you). Contudo, o elemento religioso progressivamente perde vigor, como revelam as anotações de Duan Yucai (SWJZ): “o capítulo ‘Tradições Ritualísticas’ do Clássico dos Ritos diz 《禮記·祭統第二三十五》: ‘o sacrifício realizado por pessoas de valor haverá de obter a bênção dos espíritos (福, fu)’. Contudo, não é esse o sentido dado a 福 pela sociedade em geral. 福 significa possuir tudo o que é necessário a uma boa vida (備, bei), quando dizemos que ‘tudo corre bem’ (百順, baishun) para alguém. De fato, quando não há nada que não corra bem, chamamos tal situação de 備 (bei) – temos tudo”. Duan é um autor do final do século XVIII, cujas convicções confucianas refletem bem as reservas diante de tudo que possa fugir ao imanentismo ético daquela doutrina. No entanto, no que toca à Laozi e ao Senhor do Rio, há um elemento transcendente que não deixa de guardar vínculos com tradições religiosas arcaicas. Cf. Virtude: cap. 38 nota 2.

13 Metáfora do Olho-D’água: refere-se à adoção de critérios objetivos, seja precedentes, seja leis, para gestão da sociedade. Quando o soberano adota e dá publicidade a um critério objetivo para orientar suas políticas, surge a possibilidade de os subordinados o manipularem, seja para burlá-lo, seja para angariar benefícios próprios. O Senhor do Rio recomenda uma política de inação, segredo e astúcia por parte do governante.

 

 

“Se não der valor a objetos raros,

Comentários

[Laozi] afirma que o soberano dos homens não aprecia tesouros e raridades. [Ele deve] ignorar os filões de ouro, [desde sempre intocados] em suas montanhas; [deve igualmente] deixar jade e pérolas se desfazerem nas profundezas onde estão.

 

O povo não roubará.

Comentários

Se a transformação6 moral promovida pelo soberano e pelas pessoas superiores pautar-se pela pureza e silêncio,7 não surgirão indivíduos cobiçosos dentre as pessoas inferiores.

 

Se não exibir [coisas que] despertem desejos,

Comentários

[Se o soberano] proscrever os “sons do feudo de Zheng” e banir os servos bajuladores [de seu entorno imediato].8

 

Os corações9 não [cairão] em desordem.10

Comentários

Não haverá malícia, nem vulgaridade; não haverá perplexidade nem revolta.

 

É por isso que a governança do Sábio

Comentários

[Estes versos esclarecem que] o Sábio governa tanto seu feudo, como seu corpo.11

 

Esvazia o coração,12

Comentários

[o Sábio] suprime desejos e vícios, elimina aflições e perplexidades.

 

[Mas] enche a barriga;

Comentários

[o Sábio] “traz o Dao em seu seio”13 e “abraça a Unidade”14 protegendo seus cinco espíritos [vitais].15

 

Esmorece a vontade,

Comentários

[o Sábio] é moderado e ameno, modesto e transigente, não ocupa posições de poder e influência.

 

[Mas] fortalece os ossos.

Comentários

[o Sábio] zela a sua essência16 e preza sua energia vital,17 [por isso] seus ossos permanecem rígidos e cheios de tutano.18

 

[O Sábio] faz com que o povo não saiba de nada, não deseje nada;

Comentários

[O povo] retorna à simplicidade da tábua rasa, preservando sua simplicidade.19

 

[E] faz com que os que têm conhecimento não ousem agir.

Comentários

[o Sábio] é profundo em seus pensamentos e reflexões, não usando a palavra levianamente.

 

Agindo sem agir,20

Comentários

[Ele] não cria ou produz; segue a ordem natural das coisas.21

 

Não haverá nada fora de seu lugar.

Comentários

A doutrinação pela Virtude [que exerce] é profunda, os cem clãs22 vivem em paz.”

6 Transformação (Política): O termo 化 (hua) já havia aparecido no cap. 1, nota 16, com sentido cosmológico. Dessa vez, “transformação” possui uma conotação político-moral, significando a criação de amplo consenso na sociedade a respeito do que é certo e errado, justo e injusto. Não se trata, todavia, de um consenso estabelecido horizontalmente: a passagem enfatiza o protagonismo do soberano, notadamente, em incutir valores e formas de pensar no povo, seja mediante sua conduta pessoal, seja por meio do aparato de governo – trabalho de “doutrinação” (cf. cap. 2, nota 9). Não se deve, todavia, separar radicalmente os dois tipos de “transformação”. No pensamento chinês, especialmente no taoismo, postula-se que a ordem política deve espelhar uma ordem natural idealizada. Da mesma maneira que o Céu conduz o processo de “transformação” cosmológica, tendo a Terra como o elemento passivo, também o soberano (e as classes superiores) devem “transformar” o povo, política e moralmente. Além disso, em decorrência da “Natureza inata” (cf. cap. 8, nota 1) do homem, existe também uma moralidade congênita, de modo que a “transformação” moral dos indivíduos não se pretende um trabalho exclusivamente de fora para dentro, mas sim a criação de condições para que as pessoas possam seguir suas inclinações. Subjacente a essa visão, há um forte determinismo dos valores e tradições coletivos.

7 Pureza e Silêncio: 清靜 (qingjing) remetem à dimensão mística de Laozi, devidamente explorada pelo Senhor do Rio em seu comentário. Ao descrever a dieta, os exercícios respiratórios e meditativos do praticante taoista, a glosa demonstra que “pureza e silêncio” são um dos meios para atingir-se a longevidade. Além disso, há uma dimensão política correlata. “Pureza” refere-se à pureza de intenções do superior social, que idealmente promove a doutrinação do povo sem o intuito de garantir seus próprios interesses. “Silêncio” indica a maneira como a doutrinação deve ocorrer, sem coação ou violência, preferivelmente pelo exemplo de moralidade e incorruptibilidade dos que estão acima.

8 O Senhor do Rio cita os Analectos (15.10): “Yan Yuan perguntou como administrar um feudo. O Mestre disse: ‘Utilizar o calendário da [dinastia] Xia; andar no carro “lu” da [dinastia] Yin; usar o chapéu cerimonial da [dinastia] Zhou. Música [deve ser] shao e wu. [Caso] proíbam os sons do feudo de Zheng, os bajuladores serão mantidos longe. Os sons do feudo de Zheng são abusivos, põem em risco os bajuladores’” 顏淵問為邦。子曰: “行夏之時, 乘殷之輅, 服周之冕, 樂則韶舞。放鄭聲, 遠佞人。鄭聲淫, 佞人殆”. A expressão “Sons de Zheng” tornou-se referência à música (e dança) diferente do padrão definido pelos ritos.

9 Coração: 心 (xin) é um conceito central para o pensamento chinês, que tem três significados: além de centro da sensibilidade humana, o coração dirige as faculdades intelectuais e psíquicas do homem – a “mente” – e também é a sede de sua “consciência moral”. Neste último aspecto, o coração tem peculiaridades chinesas: além da capacidade inata de distinguir entre bem e mal, ainda traz em si um “instinto” para respeitar as relações sociais e submeter-se às instituições políticas. A ortodoxia parece ser mais radical neste ponto: Mêncio (3.6) propõe que todas as pessoas ao nascerem já trazem os chamados “Quatro Rebentos” 四端 (siduan) da moralidade, dentre os quais estão formas arquetípicas do senso de dever aos superiores e o que se chama de “propriedade ritual” – termos referidos tautologicamente ao sistema sociopolítico chinês. Um sério problema ocorre quando o confucionismo legitima a propensão humana aos desejos como “natural”, propondo que todas as emoções são produtos do coração humano e que, portanto, não haveria nada de intrinsecamente censurável nelas. Confrontados com o fato de que algumas emoções são nocivas, recorreu-se à ideia de que deve haver um equilíbrio entre elas, promovido pela prática das virtudes canônicas e da imitação de modelos. O resultado prático dessa doutrina é uma concentração de exigências sobre o indivíduo, pressionando-o para coerir a padrões socialmente aceitos. Nesse contexto, o coração humano, nominalmente espontâneo, termina estorvado por prescrições tradicionais. Diferentemente da visão ortodoxa, Laozi parece dar mais espaço para o indivíduo. Repetidas exortações ao asceticismo geram o resultado paradoxal de que o praticante do Dao não está submetido ao mesmo tipo de cartilha moral advogada pela ortodoxia. É interessante perceber que, por meio de seu “esvaziamento”, o coração torna-se impassível à busca de reconhecimento – o calcanhar de Aquiles do confucionismo. A eliminação dos desejos humanos, segundo tal tese, liberta o indivíduo da sanha de copiar os outros e de lutar para se distinguir no mundo. Nesse ponto, o taoismo primitivo produz um tipo de indivíduo autossuficiente, cujos modelos deveriam ser procurados para além da sociedade humana, antes de seu advento. Coerente com a natureza de seu comentário, o Senhor do Rio utiliza “coração” como conceito da medicina chinesa: principal dentre os cinco receptáculos, sede das faculdades cognitivas, o coração acolhe o espírito vital chamado de 神 (shen).

10 “Os corações não [cairão] em desordem”. WB, FY e MWD trazem: “Os corações [do povo] não [cairão] em desordem” 使民心不亂.

11 Identidade entre governo do corpo e governo do feudo: Talvez a mais importante tese do Senhor do Rio; sua glosa trata o “governo do feudo” e o “governo de si próprio” como dois temas contínuos e inseparáveis. Como a abordagem social e política é mais evidente em Laozi, o Senhor do Rio trata mais detidamente do ângulo da autocultivação moral e psíquica do soberano, em especial técnicas de longevidade. Frise-se, contudo, que ambas as dimensões são complementares, enquanto partes de um mesmo projeto de autocultivação. “[Explica que] o Sábio governa tanto seu feudo, como seu corpo”. A edição Zhiyao lê: “afirma que o Sábio governa seu feudo de modo semelhante ao que governa seu corpo” 說聖人治國猶治身也. A edição impressa Song diz: “afirma que o Sábio governa o feudo da mesma forma que governa seu corpo” 說聖人治國與治身同.

12 De “Esvazia o coração” até “[Mas] fortalece os ossos”, o original chinês traz o pronome indefinido 其 (qi) – “dele(s), dela(s)”, que abre margem para diferentes interpretações. A leitura do Senhor do Rio propõe que, em todos os casos, 其 indica o Rei Sábio. Outra leitura possível toma “o povo” como objeto dos versos:

É por isso que a governança do Sábio

Esvazia o coração [do povo],

[Mas] enche sua barriga;

Esmorece sua vontade,

[Mas] fortalece seus ossos.

[O Sábio] faz com que o povo não saiba nada, não deseje nada;

[E] faz com que aqueles que têm conhecimento não ousem agir.

[Se o Sábio] praticar a “Inação”,

Não haverá nada fora de seu lugar.

13 Trazer o Dao no Seio: é tradução literal da expressão 懷道 (huaidao), exprimindo tanto um tipo de anelo e devoção ao Dao enquanto princípio, como também subscrição às doutrinas de governo do corpo e sociedade decorrentes de tal princípio. Cf. o cap. 6 de Huainanzi 《淮南子·覽冥訓篇第六》: “Sendo assim, quando ocupar um cargo público, o Sábio deve trazer o Dao oculto em seu seio, cujas bênçãos recairão sobre os dez mil povos” 聖人在位, 壞道而不言, 澤及萬民.

14 Abraçar a Unidade: literalmente 抱一 (baoyi). Também é uma expressão consagrada pela literatura. Atente-se para que “abraçar” e “trazer no seio”, “Unidade” e “Dao” são noções correlatas. Contudo, “Unidade” é um termo mais concreto do que “Dao”, aludindo, politicamente, à unidade territorial do país, ao consenso político entre soberano e povo e à homogeneidade de valores e crenças. Fica claro pela explanação do Senhor do Rio que “Unidade” também conota práticas taoistas de longe­vidade. Refletindo clara influência de Laozi, o literato da dinastia Jin, Sun Chuo (孫綽, 314-371), disse em seu “Ensaio sobre as metáforas do caminho” 《喻道論》: “quando os sons abusivos se esvaem nos ouvidos/quando doce e amargo fogem do paladar/quando a mente se aquieta e repousa/quando o coração se livra dos fardos/abraçamos a ‘Unidade’ em nosso seio”.

15 Cinco Espíritos Vitais/Cinco Recipientes: (五神, wushen) são cinco tipos de “essências sutis” (精微, jingwei), notadamente: 神 (shen), 魂 (hun), 魄 (po), 意 (yi) e 志 (zhi). Diz-se “essências sutis” porque dos cinco espíritos dependem a regularidade e vigor dos processos orgânicos. Eles animam os cinco recipientes (五藏, wuzang) a que correspondem e em que estão alojados (cf. cap. 6, nota 6). “Recipiente” (tradução de 藏, a partir de sua leitura alternativa “cang”, i.e. “alojar”) é o termo chinês mais próximo do que se chama de “órgão” na medicina ocidental. Em sentido estrito, há cinco receptáculos: coração (心, xin), fígado (肝, gan), baço (脾, pi), rins (腎, shen) e pulmões (肺, fei). Esses cinco receptáculos têm a função de estocar “essência” e “energia vital”, dando suporte aos processos orgânicos. A “Unidade” mencionada pelo Senhor do Rio, portanto, significa manter os “cinco espíritos” unidos a cada um de seus “recipientes”, preservando o equilíbrio e harmonia do corpo como um todo. Os receptáculos são em número de cinco por correspondência à numerologia dos “cinco agentes” ou “cinco elementos” (五行, wuxing) – o sistema de classificação principal da cultura chinesa clássica, ao lado do Yin-Yang. Esse sistema preserva sua relevância, hodiernamente, na medicina tradicional chinesa, no feng-shui, nas técnicas de adivinhação e nas práticas de meditação taoistas.

16 Essência: é a tradução do termo médico 精 (jing), um tipo mais sutil de energia vital, responsável pela produção de uma nova vida. O Eixo espiritual, segunda parte do Cânone de medicina do imperador amarelo 《黃帝內經》, diz em seu capítulo 30 《內經靈樞·決氣第三十》: “[durante a cópula,] os dois espíritos vitais (i.e. provenientes do pai e da mãe) se interpenetram; sua união cria uma forma [para o nascituro]. O que se chama de ‘essência’ é aquele tipo de energia vital que, por ser permanente, antecede qualquer organismo e dá-lhe vida” 兩神相搏, 合而成形, 常先身生, 是謂精. Considerando que na cultura chinesa em geral predomina o elemento masculino, a “essência” normalmente é confundida com “sêmen” do pai. Contudo, a passagem demonstra que a fêmea também possui sua “essência”, que antes de mais nada é um fluido sutil, uma das formas mais puras de energia vital.

17 Adotou-se a redação do manuscrito Gu, devido ao paralelismo de sua estrutura: “[o Sábio] zela a sua essência e preza a sua energia vital” 愛精重氣. Respaldado pela maioria dos manuscritos, Wang Ka prefere 施 (shi) a 氣 (qi): “[o Sábio] zela sua essência e atenta para [a forma como a] dispende, [por isso] seus ossos permanecem rígidos [mesmo na velhice], cheios de tutano”.

18 Tutano: Tutano é o mesmo que medula (óssea, cervical, cerebral). Na medicina chinesa, o tutano é subproduto material da essência. Os chineses defendem que a “essência” é produzida pelos rins e que a medula resulta da junção dela à “energia sutil” derivada da digestão de grãos e água. Nesse contexto, o taoismo propõe uma rígida disciplina de continência sexual, bem como exercícios de meditação e ginástica para conduzir o “sêmen” através da medula cervical até o cérebro. Esse “sêmen” é convertido em “essência sutil”, que servirá para substituir matéria orgânica perdida com o envelhecimento.

19 Tábua Rasa: 樸 (pu) alusão à madeira ainda não trabalhada, símbolo da simplicidade original dos seres.

20 Isto é, “se praticar a Inação”.

21 O termo 因循 (yinxun) remete à espontaneidade que define a ordem natural das coisas.

22 Cem Clãs: (百姓, baixing) é uma metonímia significando o povo, a plebe. Antes da unificação da China em 221 a.C. sob um regime imperial centralizado, “cem clãs” indicava as famílias dos senhores feudais, o que se contrapunha à “plebe”. 姓 significa “nome do clã”, o que indica a prerrogativa dos clãs nobres de realizar sacrifícios em favor dos seus antepassados. Com a revolução demográfica e social que levou a unificação do país pela breve dinastia Qin, 百姓 começou a ser utilizado para denominar o povo comum – emprego que continua até nossos dias.

 

 

“A Fonte do Nada

O Dao é vazio;1 [mesmo] posto em uso

Comentários

Vazio refere-se “ao que está no meio” [a moderação]. O Dao age no anonimato, esconde-se diante da fama. O uso2 do Dao está no Meio.3

 

Repetidamente,4 nunca se enche.

Comentários

“Repetidamente” [significa] permanentemente.5 O Dao é permanentemente modesto e vazio de si,6 nunca ficará cheio de si.

 

É como um abismo! Parece ser o ancestral das dez mil coisas*.

 

Comentários

O Dao é profundo como um abismo, não podendo ser conhecido. [Por isso] parece ser o patriarca, o ancestral das dez mil coisas.

 

Quebra a tua lâmina!

Comentários

“Lâmina [afiada]” [é uma metáfora para] avançar rapidamente.7 As pessoas usam todos os seus recursos e energias para obter méritos e fama. [O praticante taoista deve] então quebrantar [essa determinação], inspirando-se no Dao como modelo, sem manifestar qualquer traço de individualidade.

 

Desata teus nós!8

Comentários

[Atar um] “nó” sugere lançar raízes [de apego. O praticante] deve meditar sobre o Dao e a Inação com o fim de se desvencilhar [daquilo que o aflige] e se libertar [de seus desejos].

 

Harmoniza o brilho!

Comentários

[Laozi] propõe que mesmo que sejamos dotados de uma clarividência ímpar, temos de nos mostrar sem luzes e tolos às outras pessoas. [A razão está em que] não devemos permitir que nosso brilhantismo ofusque a outrem, produzindo discórdias no grupo.

 

Iguala-te ao pó...9

Comentários

[O praticante] deve se misturar ao vulgo, dividindo com ele o pó e a imundice [do mundo]. Não se mostra diferente [de ninguém], não se destaca [por seus atributos ou feitos].”

1 HSG, WB e MWD trazem 冲 (chong), redação criticada pelos especialistas, que preferem o termo 盅 (chong) de FY. SWJZ explica que 盅 etimologicamente significa “prato vazio”. Conforme os princípios de composição literária em chinês, 盅 ou “vazio” forma par com o ideograma 盈 (ying), “cheio”, no verso seguinte. Entretanto, a palavra 冲 não deixa de ser razoável. Corruptela de 沖 (chong), pode qualificar o homem brando e discreto que, embora envolvido na vida pública, é capaz de restar sobranceiro a ela. Cosmologicamente, 沖 é sinônimo de Grande Vazio (太沖, taichong), termo recorrente no pensamento taoista, como no 14o capítulo de Huainanzi 《淮南子·詮言訓篇第十四》: “Mesmo que se dê livre jogo à clarividência dos olhos e da mente, cumpre fazê-los retornar aos espíritos vitais, o que chamo de ‘grande vazio’” 聰明雖用, 必反諸神, 謂之太沖. 太沖 aplica-se ainda às práticas de longevidade, como o que se vê no sétimo capítulo de Zhuangzi 《莊子·應帝王篇第七》: “O que te mostrei há pouco [foi a técnica] do ‘grande vazio que a tudo supera’, com que eu equilibro as forças e energias vitais em meu corpo” 吾鄉示之以太沖莫勝, 是殆見吾衡氣機也.

2 Uso/Utilidade/Função: junto com 體 (ti) ou Corpo/Substância (cf. cap. 1, nota 1), 用 (yong) integra um dos pares de conceitos mais importantes do pensamento chinês. Embora somente tenha se tornado um “jargão” filosófico a partir do final da dinastia Han e amadurecido por meio das especulações budistas, obras da literatura pré-unificação como o Clássico das mutações ou Xunzi já começam a identificar as inter-relações entre o que algo é (corpo) e o que ele faz (função). Marco na história desse desenvolvimento é o importante tratado de alquimia Zhouyi Cantongqi (algo como Tríade das mutações de Zhou) que, logo no primeiro capítulo, fala de um “corpo interno” 內體 contraposto à “função externa” 外用. Para todos os efeitos, dentre as obras pré-unificação, é Laozi que demonstra maior consciência da relação entre corpo e função – malgrado faltar-lhe a terminologia. Nesse contexto, a relação entre Dao e Virtude serve como um exemplo consumado do que deve ser uma relação Corpo/Função – ainda que, como ilustra perfeitamente o cap. 1o, não se possa dar por certo o que significa o corpo do Dao.

3 Meio/Moderação: Conforme a mentalidade chinesa antiga, o ponto ótimo de uma coisa não corresponde ao seu apogeu, mas ao equilíbrio que permitiria preservar a plenitude dessa coisa por um máximo de tempo (graficamente, seria como prolongar o ponto de uma trajetória imediatamente anterior ao seu apogeu). Nesse sentido, em tese, os objetivos de qualquer ação não estavam dirigidos a obter o máximo de resultados num mínimo de tempo, mas a obter o máximo de resultados com um mínimo de desgaste. Sintomático do tradicionalismo, apreciava-se a permanência de algo, mais do que sua excelência num determinado momento. O mesmo princípio aplica-se à cosmologia, que não defende a supremacia rígida do Yang sobre a Yin, mas um tipo de consenso sobre a divisão de tarefas de cada um – e a aceitação passiva da parte fraca com o que lhe coube. Politicamente, vale a mesma lógica de moderação, embora aqui a teoria mostre suas limitações. Pode-se tentar reconhecer na indisposição de criar conflitos e na busca de soluções de consenso as marcas dessa moderação na vida cotidiana. Ao longo de Laozi todos esses pontos podem ser referendados. “O uso do Dao está no meio” também poderia ser traduzido como “o uso do Dao está dentro”, onde “dentro” pode querer dizer “vazio”. Nesse caso, anuncia-se a tese desenvolvida pelo cap. 11.

4 Wang Ka chama a atenção para o fato de que o ideograma 或 (huo) não pode ser interpretado como 常 (chang), donde supor que 或 deve ser um erro de grafia da palavra 久. Contudo, essa alteração não encontra guarida em nenhum manuscrito. HSG e WB leem 或, termo que em princípio não significa “repetidamente”. FY e MWD substituem-no por 又, que pode significar “novamente”.

5 Permanência: 常 (chang) é atributo do Dao. Redigido como 恆 (heng) em MWD e GD, o termo descreve o que há de “constante” ou “permanente” na natureza e, por extensão, na sociedade. Conforme a visão chinesa, o que é “permanente” não é imutável em si, pois tal situação equivaleria à morte. O maior exemplo de “permanência” é a natureza, em que os padrões de mudança são fixos e se repetem em ciclos, permitindo ao homem compreender a estabilidade dela e imitá-la em si próprio. Por esse motivo, não há um sentido de transcendência e eternidade desvinculado da vida cotidiana, dado que o homem existe como parte da natureza. Han Fei explica-o com maestria《韓非子·解老》: “Todos os atributos distinguem-se [por meio de opostos] como quadrado e redondo, curto e comprido, grosso e fino, resistente e quebradiço. Dessa forma, só quando os atributos estão definidos é que uma coisa é capaz de buscar o Dao. Dentre esses atributos, há estar vivo e há estar morto, há nascer e há morrer, há maturidade e há decadência. As coisas são assim; num momento estão vivas, num momento estão mortas; de repente nascem, de repente morrem; primeiro amadurecem e depois decaem – a isso não se pode chamar de Permanência. Somente aquilo que nasce junto com a separação de Céu e Terra e que, mesmo quando estes dois dispersam-se, não morre, nem decai, é que se pode chamar de permanente. A permanência em si não muda, não possui atributos definidos. Não tendo atributos definidos, não está presa sequer à ideia de permanência – por isso ninguém consegue discorrer sobre ela. O Sábio observa o que ela tem de profundo e de vazio, aprendendo a empregar os seus ciclos – e denomina-a forçosamente de “Dao”, para poder discursar sobre ele. É por isso que diz “Os caminhos sobre que se pode discorrer não são o Caminho Permanente”

* Dez mil coisas: Precedência Cosmológica/Ontológica do Nada: atribui-se a Wang Anshi (王安石, 1021-1086), importante intelectual-burocrata da dinastia Song, inovar na pontuação de quatro versos deste capítulo: a parelha “[o que] não tem nome, eis o início do Céu e da Terra; [O que] tem nome, eis a Mãe das dez mil coisas” passa a ser lida “‘Nada’ dá nome ao início do Céu e da Terra; ‘Existência’ dá nome à Mãe das dez mil coisas” 無, 名天地之始; 有, 名萬物之母; mais adiante, a parelha “Por isso que [o sábio] se livra dos próprios desejos, para observar suas maravilhas; [E permite] que seus desejos [se manifestem], para observar seu retorno” é reelaborada como: “Por isso, com o Nada permanente, podes observar suas maravilhas; com a Existência permanente, podes observar o seu brilho (ou retorno)” 故常無, 欲以觀其妙;常有, 欲以觀其徼. O deslocamento da vírgula um ideograma à esquerda transformou os versos numa instigante proposição filosófica, segundo a qual 無 (Nada) e 有 (Existência) assumem o papel de conceitos ontológicos. No contexto do pensamento chinês, a precedência do Nada sobre a Existência constituiu-se num dos mais longos debates, de modo que essa pequena alteração daria renovado vigor a uma visão que Laozi claramente defende em outros capítulos. Em que pese a evidência dos manuscritos, a pontuação sugerida por Wang não é natural; especialmente após a descoberta de MWD, que adiciona a marca sintática 也, não faria sentido isolar 無 ou 有 de 欲, ou mesmo 名. Não obstante, a tese filosófica da “Precedência do Nada” reaparece em outros momentos, como nos caps. 2 e 40.

6 O neologismo “vazio de si” exprime perfeitamente o termo chinês 虛, que se contrapõe a 滿 ou “cheio de si”.

7 “‘[Lâmina] afiada’ [é metáfora para] avançar rapidamente”. A edição Gu lê: “‘quebrar’ [a lâmina sugere] conter [os próprios impulsos]” 挫, 止也.

8 “Desata teus nós” – “[‘Atar um] nó’ sugere lançar raízes [de apego. O praticante] deve meditar sobre o Dao e a Inação, com o fim de se desvencilhar [daquilo que o aflige] e se libertar [de seus desejos]”. O manuscrito 477 lê “desfaz os teus ódios” 解其忿 – “[Por] ‘ódios’ [Laozi se refere às relações de] ódio que construímos. [O praticante] deve meditar sobre o Dao e a Inação, com o fim de se desvencilhar [dos sentimentos] e desembaraçar-se [dos conflitos]” 忿, 結恨也。當念道無為以解釋之.

9 Mundo De Pó: Tanto os taoistas como os budistas chineses empregam a expressão “Mundo de Pó” 紅塵 (lit. “poeira vermelha”) para descrever a impermanência do mundo, a futilidade dos fins e crenças da sociedade. Ao “Mundo de Pó”, o taoismo contrapõe um estado ideal de pureza e tranquilidade, livre das amarras e convenções da sociedade – normalmente perseguido por meio de uma vida nômade ou eremítica. “Quebra a tua lâmina! Desata teus nós! Harmoniza teu brilho! Iguala-te ao pó!”. Esses quatro versos, que se repetem no cap. 56, podem ser considerados a cartilha do praticante taoista quando em sociedade.

Nenhum comentário: