quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O mundo das Copas (Parte I), de Lycio Velloso Ribas

Editora: Lua de papel

ISBN: 978-85-6306-609-1

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 588

Sinopse: Quem vê uma Copa do Mundo hoje, com a riqueza de detalhes que temos atualmente, não imagina como seria a cobertura de um Mundial nos remotos anos 30. Afinal, naquela época não existia a TV digital, que só entrou em cena para o Mundial de 2006; nem a rapidez da internet, que apareceu neste cenário apenas a partir de 1998.

Pensando bem, não havia nem a transmissão ao vivo pela TV, que começou em 1954 (e no Brasil só em 1970. Ou sequer a transmissão por rádio, que surgiu em 1938.

Assim, o grande objetivo dessa obra é oferecer a mesma riqueza de informações sobre todas as copas, e da forma mais completa possível. São mais de 700 jogos, cada um deles com sua própria história, o que o torna uma obra única.

Em 80 anos de histórias, é fácil verificar por que a Copa do Mundo se tornou o maior espetáculo da Terra. O livro ainda conta com curiosidades, como: Quem são os melhores goleiros da história? E os maiores artilheiros? Quais são as 10 maiores séries invictas? E as 10 maiores viradas? Quais pênaltis perdidos mudaram o rumo das Copas? E os gols contras? Aliás, como surgiram os cartões amarelo e vermelho no futebol? Qual a verdade sobre Ronaldo na Copa de 1998?

Nesta obra, de quase dois quilos de pura informação sobre futebol, Lycio elaborou um conteúdo jamais descrito com tantos detalhes em livros do gênero. Foram 6 anos de pesquisas, análises e compilação de dados, cujo resultado pode ser visto agora numa obra ricamente ilustrada.


O belo livro “O mundo das Copas”, de Lycio Vellozo Ribas, traz curiosidades e histórias deliciosas a respeito do maior torneio do esporte mais popular do mundo.

Diferentemente de outras obras, nesta faço uma compilação das melhores histórias sem citação direta.

 

 

1930 – Local: Uruguai Campeão: Uruguai

 

– O esquema tático utilizado pelos times era o 2-3-5, bem mais ofensivo do que o utilizado hoje.

 

– Os árbitros podiam expulsar os jogadores, mas não havia cartões.

 

– Não havia substituições. Os jogadores que se machucavam, ou permaneciam em campo, ou saíam e não eram substituídos, deixando os times com um jogador a menos.

 

– A bola era de couro, costurada à mão, com uma abertura atada com tiras de couro cru. Dentro dela havia uma câmara de borracha com bico. Quando não era utilizado para encher a bola, o bico ficava dobrado entre a câmara e a parte externa, e era fechado com as tiras de couro cru. Isto gerava um calombo na bola, influía na trajetória e causava ferimentos nos jogadores. Alguns atletas utilizavam gorros forrados com jornal para poderem cabecear a bola sem abrirem lanhos em sua cabeça.

 

– Diversas seleções europeias boicotaram a Copa. A Inglaterra, por se julgar a melhor do mundo de antemão, não carecendo de torneio para comprová-lo. Por causa de seu boicote, também não participaram a Escócia, País de Gales e a Irlanda. A Itália (que desejava sediar a Copa e foi preterida) também boicotou o evento.

 

– Devido à uma briga entre dirigentes cariocas e paulistas, o Brasil só enviou jogadores cariocas para o mundial (deixando de fora craques como Feitiço e Friedenreich), levando um time bem menos competitivo.

 

– Não havia local indicado no campo para a cobrança de pênalti. O juiz contava os 11 metros através de passos.

 

– Os bolivianos queriam conquistar a torcida uruguaia no jogo contra a Iugoslávia, e os 11 jogadores entraram cada um com uma letra na camisa, para compor a frase: “Viva Uruguay”. Porém, um jogador se atrasou e na foto oficial o que se lê é: “Viva Urugay”. Na época não houve problema, mas hoje poderia causar controvérsia homossexual.

 

– A despeito de mesmo atualmente os Estados Unidos não terem tradição em Copas, na verdade eles participaram da primeira edição do torneio – e ainda foram até as semifinais. Porém, depois de terem um jogador machucado (ou seja, um a menos em campo), tomaram de 6 a 1 da Argentina.

 

– O Uruguai bancou as passagens e hospedagens de todas as seleções que foram à Copa.

 

– O árbitro belga Jan Langenus exigiu um seguro de vida antes da partida final entre Uruguai e Argentina, mas a arbitragem acabou sendo tranquila. Um dos problemas que ocorreram foi o fato de os dois times quererem jogar com a sua bola (a dos uruguaios era mais pesada). O juiz decidiu a contenda jogando o primeiro tempo com a bola dos argentinos e o segundo com a dos uruguaios.

 

– O governo uruguaio decretou feriado nacional depois da conquista do título e deu uma casa a cada jogador. Além disso, os titulares ganharam uma medalha de ouro desenhada por Abel Laflour, o mesmo que desenhou a taça Jules Rimet (que na época ainda se chamava “Vitória das Asas de Ouro”, só vindo a ter o nome do presidente da Fifa anos depois).

 

– O jogador mais velho do time uruguaio era Hector Carone, com 32 anos. Sua idade não era muito avançada, mas o que chama atenção é o fato dele ser o único titular campeão mundial a ter nascido no século 19, em 08/10/1897.

 

– Como não havia preparação para a entrega da taça no campo, esta foi entregue por Jules Rimet no vestiário ao presidente da Associação Uruguaia de Futebol, Raúl Jude.

 

 

1934 – Local: Itália Campeã: Itália

 

– O Uruguai – então atual campeão – se recusou a ir, em represália ao boicote promovido por times europeus (incluindo a Itália) ao mundial realizado no país sul americano quatro anos antes. Foi o único campeão do mundo a não defender o título. A Inglaterra e seus satélites seguiram boicotando o evento.

 

– O país sede, organizador da Copa, a Itália, teve de disputar as eliminatórias. Poderia ter ficado de fora do próprio mundial.

 

– Logo depois do término da Copa de 1930, com jogadores de São Paulo e Rio de Janeiro jogando juntos, o Brasil ganhou das principais seleções do torneio, inclusive do campeão Uruguai, repetidas vezes. O Brasil não havia levado os jogadores paulistas à Copa devido à briga entre dirigentes cariocas e paulistas. Quatro anos depois, novamente houve brigas entre dirigentes, desta vez da FBF e CBD (Federação Brasileira de Futebol e Confederação Brasileira de Desportos, respectivamente). À FBF estavam filiados os times profissionais (onde estavam os melhores jogadores), já a CBD era a organização que a Fifa reconhecia, e desprezava a FBF. Possivelmente, a CBD só convocaria jogadores amadores, deixando os melhores para trás. O técnico brasileiro, então, resolveu oferecer dinheiro aos melhores jogadores dos clubes para que eles fossem a Copa, porém, os clubes não gostaram disto. O Palestra Itália (hoje Palmeiras), que tinha o craque Romeu Pelliciari, chegou a esconder os jogadores em uma fazenda longe de São Paulo, contratando capangas armados que tinham ordem de atirar em quem aparecesse. A FBF ameaçou banir quem fosse a Copa. Diversos jogadores se recusaram a ir, mesmo com somas financeiras significativas lhes sendo oferecidas.

Novamente o grupo brasileiro levado para a Copa foi mutilado, deixando para trás o próprio Romeu, além de Preguinho, Fausto, Moderato, dentre outros craques.

 

– O Nacional de Uruguai exigiu 45 contos de Réis para que liberasse Domingos da Guia ir à Copa, uma fortuna na época. Ele acabou não sendo levado.

 

– O sanguinário ditador fascista italiano Benito Mussolini ameaçou de morte o time e a comissão técnica italiana caso eles não fossem campeões.

 

– No jogo Itália 1 X 1 Espanha, pelas quartas de final, o gol da Itália só ocorreu devido à uma cotovelada que Schiavio deu no goleiro espanhol Zamora (um dos melhores arqueiros de todos os tempos).

Houve outro jogo, de desempate (as partidas empatadas eram definidas assim), no dia seguinte, e ainda aos 25 minutos do primeiro tempo o atacante espanhol Bosch levou uma entrada desleal e ficou mancando o resto do jogo. O juiz não expulsou o agressor italiano. Depois disto, a Espanha teve dois gols legítimos anulados. No primeiro, o juiz marcou impedimento de Regueiro, que não participou da jogada do gol. No segundo, com muito atraso o juiz marcou uma falta a favor da Espanha depois que o atacante espanhol Regueiro havia levado vantagem e marcado o gol. Resultado final: Itália 1 X 0 Espanha.

 

– Na semifinal, novamente com alguma ajuda da arbitragem, a Itália fez um gol na Áustria quando o ponta italiano Guaita fez o gol depois de trombar com o goleiro. A Áustria tinha o melhor time da competição, porém, a chuva deixou o campo de Milão pesado demais para se tocar a bola. A Itália distribuiu chutões para todos os lados e garantiu sua vaga na final.

 

– Os jogadores italianos faziam a saudação fascista a Mussolini antes de todos os jogos começarem. Na final, até mesmo o árbitro sueco Ivan Eklind (que havia apitado a semifinal Itália e Áustria) e os dois auxiliares, o húngaro Mihaly Ivancsis e o belga Louis Baert (que havia apitado o primeiro jogo de Itália X Espanha), também a fizeram.

 

– A partida final foi entre Itália e Tchecoslováquia, e esta última ganhava o jogo até os 36 minutos do segundo tempo, quando a Itália empatou, e os húngaros reclamaram que Ferrari teria dominado a bola com a mão antes de dar o passe para Orsi marcar. O juiz consultou o bandeira e validou o gol italiano, o jogo terminou empatado e foi para a prorrogação. Nela, a Itália virou o jogo, sagrando-se campeã, salvando a vida dos jogadores e da comissão técnica da vingança mortal de Mussolini.

 

 

1938 – Local: França Campeã: Itália

 

– A Argentina queria ser a anfitriã a Copa, acreditando num revezamento de continentes para sediá-la. Mas a França acabou prevalecendo e a Argentina boicotou-a, bem como o Uruguai (ainda por causa do boicote europeu em 1930). A Inglaterra e seus satélites também não foram, ainda julgando a Copa um torneio de segunda categoria. A Espanha também não participou, envolvida em sua sangrenta guerra civil.

 

– Novamente o ditador fascista italiano Benito Mussolini ameaçou seus conterrâneos. Mandou um telegrama ao técnico campeão mundial em 1934, Vittorio Peozzo, com os dizeres: “Vencer ou morrer”.

 

– A Áustria, que tinha garantido vaga na Copa, foi anexada pela Alemanha em 11 de março de 1938, e os jogadores austríacos foram utilizados pela Alemanha nazista. A vaga ficou em aberto. Porém, o maior craque do belo time austríaco, Mathias Sindelar, se recusou a jogar a favor da Alemanha. Este acabou morrendo em 1939, logo depois da esposa. Alguns creem que se matou, outros que foi “suicidado” pelo regime nazista, já que ele era judeu.

 

– Na seleção brasileira de 1930 houve a briga entre paulistas e cariocas, em 1934 entre amadores e profissionais. A seleção de 1938, pela primeira vez, ia completa, levando seus dois principais craques, o atacante Leônidas da Silva (que nos 4 jogos que disputou na Copa fez 7 gols) e o zagueiro Domingos da Guia. Depois de duas batalhas campais contra a Tchecoslováquia, (o primeiro jogo empatou e teve de ser realizado outro no dia seguinte de desempate), onde diversos jogadores saíram machucados, Leônidas da Silva não pôde jogar a semifinal. Nesta, contra a Itália, o outro principal craque do time brasileiro, Domingos da Guia, deu um pontapé no italiano Piola. Segundo as palavras do craque brasileiro, apenas revidou outro pontapé que havia acabado de levar. A bola estava no meio de campo, mas o juiz viu somente o gesto de Domingos e assinalou pênalti para a Itália, que converteu e derrotou o Brasil por 2 a 1. Depois disso, “domingada” passou a ser sinônimo de algum erro burlesco no futebol.

 

– Na partida final entre Itália e Hungria, os italianos venceram por 4 a 2. O goleiro húngaro Szabo disse que não se importava de ter levado quatro gols, pois havia salvado a vida dos jogadores italianos.

 

– Em atitude única na história, os campeões foram vaiados pelos torcedores franceses, inimigos do regime fascista italiano. No ano seguinte, eclodiria a 2ª guerra mundial, que duraria até 1945. Devido a ela, as Copas do mundo de 1942 e 1946 não foram realizadas.

 

 

1950 – Local: Brasil Campeão: Uruguai

 

– Por motivos políticos os países socialistas não participaram do torneio: União Soviética, Tchecoslováquia (vice em 1934), Hungria (vice em 1938), Iugoslávia e Romênia (um dos quatro a ter disputado todas as Copas de 1930 até então).

 

– Nas outras Copas, quem perdia um jogo estava eliminado, o que era terrível para seleções que viajavam semanas e perdiam logo a primeira partida, pois tinham de imediato que voltar pra casa. O Brasil reclamou e fez valer suas ideias. A primeira ideia, mais coerente, estabeleceu grupos de quatro seleções, onde todos jogavam contra todos e os dois mais bem classificados passavam de fase. A segunda ideia, polêmica, a de que os 4 semifinalistas também jogassem entre si, todos contra todos. O time que fizesse mais pontos sagrar-se-ia campeão. Em outros termos: não houve final neste torneio.

 

– Como punição pela segunda guerra mundial, Alemanha e Japão foram eliminados pela Fifa (entretanto, os EUA não foram punidos pelas bombas atômicas lançadas contra este último). A Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales participaram do torneio pela primeira vez. A Inglaterra, que por ter inventado o futebol julgava ter o melhor time, além de ter desprezado os outros torneios por ter a certeza de que era a melhor seleção, não passou sequer da primeira fase, vencendo apenas um jogo e perdendo os outros dois.

 

– A Itália, que compunha o Eixo, não foi banida do torneio. Isto porque, quando a guerra eclodiu, o dirigente italiano Ottorino Barassi escondeu a taça, que estava em poder da bicampeã mundial. Segundo as lendas, ela ficava escondida numa caixa de sapatos embaixo de sua cama. Mas na realidade ela foi para um cofre na sempre neutra Suíça – para onde a própria sede da Fifa também acabou mudando. Devido a este dirigente italiano a taça não se perdeu na guerra, não se tornando um troféu para Hitler, ou sendo derretida na confusão do conflito. Por causa dele a Itália também não foi banida deste torneio – diferentemente dos outros países que compuseram o Eixo.

 

– Foi a primeira Copa em que houve números estampados nas costas dos jogadores, seguindo prática adotada em clubes nacionais já há muitos anos.

 

– Um avião com todo o time do Torino, pentacampeão italiano e base da seleção se chocou contra a basílica de Superga, matando todos os seus ocupantes. A seleção italiana foi ao mundial, mas com um time bem menos competitivo.

 

– A Índia, que havia se classificado por conta das desistências de Birmânia, Filipinas e Indonésia, acabou desistindo também de vir devido à um insólito motivo: a Fifa não permitiu que seus jogadores jogassem descalços, hábito comum no país.

 

– Os craques brasileiros eram Jair, Ademir e Zizinho, todos atacantes. Ainda se adotava o ofensivo esquema tático 2-3-5.

 

– Na partida contra o Brasil a Iugoslávia entrou com apenas 10 jogadores, devido ao fato do centromédio Mitic ter batido a cabeça em uma barra de ferro na escada de acesso ao Maracanã, abrindo um corte na testa. A barra era um resto da construção do estádio, ainda não totalmente acabada. O jogador entrou em campo com 10 minutos já jogados – e a cabeça toda enfaixada.

 

– No quadrangular final haveria três jogos. Nos dois primeiros o Brasil passeou, ganhando de 7 a1 da Suécia e 6 a 1 da Espanha (seleção que, por ter ganhado todos os jogos até então daquela Copa, e ter sido o melhor time da primeira fase, ganhou o apelido de “Fúria”). O Uruguai havia apenas empatado com a Espanha em 2 a 2, e perdia até os 30 do segundo tempo contra a Suécia, quando conseguiu virar para 3 a 2. Pelos pontos acumulados, o Brasil precisava somente do empate. Tudo isto somado, o retrospecto de goleadas contra o aperto do adversário, além do fato de jogar em casa, dava amplo favoritismo ao Brasil. Porém, o Uruguai ganhou por 2 a 1 no famoso Maracanazo, a pior derrota da história da seleção brasileira.

 

– A seleção da Copa da Fifa contou basicamente com os jogadores da “final”: dos onze, cinco eram uruguaios e quatro brasileiros (Bauer, Zizinho, Jair e Ademir). Ghiggia, o carrasco do Brasil, além de estar nesta seleção foi eleito o craque da Copa.

 

 

1954 – Local: Suíça Campeã: Alemanha

 

– A Argentina novamente não jogou, devido ao fato de seus principais jogadores – como o meia-atacante Di Stéfano – jogarem numa liga colombiana não associada à Fifa, e que por isso não poderiam disputar a Copa do mundo.

 

– As regras do torneio foram estranhas. Os times foram divididos em grupos de quatro seleções, porém, havia duas cabeças de chave por grupo. E estes não jogavam entre si. Também não jogavam entre si os mais fracos, para acertar o número de jogos dentro de cada grupo.

 

– A Alemanha, ainda em represália a segunda guerra, não foi escolhida como cabeça de chave.

 

– A Espanha disputava a vaga na Copa do mundo com a Turquia. Cada seleção venceu um jogo (o saldo de gols que beneficiava a Espanha não era critério de desempate). Marcou-se um jogo de desempate na Itália, que terminou também empatado, em 2 a 2. A vaga foi definida, então, através de sorteio. O garoto Luigi Gemana, de 13 anos, sorteou numa cumbuca o nome da Turquia, que foi a Copa e levou o garoto ao evento, como mascote.

 

– Os craques brasileiros eram Nílton Santos, Julinho e Didi. O maior craque brasileiro em atividade, Zizinho, não foi convocado, por motivos controversos. Alguns alegavam até que o motivo era o fato de o jogador ser comunista.

 

– Nas eliminatórias desta Copa o Brasil estreou sua camisa amarela. Até então ela era branca, cor que foi alterada por supostamente trazer azar – traumas do Maracanazo de 50.

 

– No último jogo do seu grupo, o Brasil precisava somente empatar com a Iugoslávia, o que classificaria as duas seleções. Mas os dirigentes não entenderam o regulamento confuso, e os jogadores muito menos. Durante a prorrogação (no tempo regulamentar a partida terminou 1 a 1), os iugoslavos tentaram explicar através de mímica que o resultado beneficiava ambas as equipes. Mas os brasileiros tomaram os gestos como provocações e os usaram como estímulo para atacá-los. Como o jogo terminou 1 a 1 mesmo, os jogadores saíram do campo cabisbaixos, alguns chegaram mesmo a chorar em campo – até porque viam o adversário comemorar. O engano foi desfeito nos vestiários.

 

– Para cortar custos, a Escócia só levou 13 dos 22 jogadores inscritos. Ainda assim, só perdeu o primeiro jogo contra a poderosa Áustria porque o juiz não deu um gol legítimo da Escócia no último minuto de jogo. Descontente com as limitações do elenco e os palpites dos dirigentes, o técnico Andy Beattie pediu demissão – único a fazê-lo em toda a história das Copas – e voltou para casa. Insatisfeitos com a saída do técnico e confusos com muita gente mandando, os escoceses viraram presa fácil: tomaram de 7 a 0 do Uruguai no jogo seguinte.

 

– Disputavam-se duas partidas na primeira fase. No primeiro jogo, a Coreia do Sul levou de 9 a 0 da poderosa Hungria. Já no segundo melhorou: tomou de 7 a 0 da nem tão forte Turquia.

 

– No jogo Suíça 2 X 1 Itália, o árbitro brasileiro Mário Vianna contribuiu decisivamente para a vitória suíça. Foi conivente com as botinadas distribuídas pelos anfitriões e coibiu as tentativas italianas de descontá-las. Além disso, anulou um gol legítimo do italiano Lorenzi quando o jogo estava 1 a 1. Ele foi rodeado dentro do gol pelos italianos e trocou empurrões com eles. No fim do jogo, os italianos o perseguiram até os vestiários.

 

– Devido aos resultados do grupo, houve a necessidade de um jogo de desempate entre a Itália e a Suíça. A arbitragem foi limpa, mas os italianos perderam de 4 a 1, e foram recebidos com uma chuva de tomates podres quando desembarcaram em seu país.

 

– No jogo Áustria X Suíça pelas quartas-de-final, o defensivo time suíço marcou três gols nos primeiros 23 minutos de jogo. Porém, viu a Áustria fazer 5 gols em dez minutos. A Suíça ainda fez mais um e o placar só terminou com incríveis 5 a 4 no primeiro tempo porque um jogador austríaco ainda perdeu um pênalti. O jogo acabou terminando 7 a 5 para a Áustria, com o maior número de gols em jogos de Copa do mundo. Outra curiosidade é que o jogo ocorreu na gélida Suíça, porém, a temperatura foi de 35ºC.

 

– Um jogador brasileiro teve medo de enfrentar a Hungria nas quartas-de-final e tentou de tudo para fugir do jogo, chegando a comer pasta de dente para ter disenteria e não ser obrigado a entrar em campo.

 

– O Brasil foi desclassificado numa batalha contra os húngaros onde sobraram botinadas e houve até uma voadora (do brasileiro Humberto em Loran) dentro de campo. Diversos jogadores saíram machucados e, quando o jogo terminou, houve mais confusão. Maurinho cuspiu em Czibor, o craque húngaro Puskas (que não jogou por estar machucado) abriu a testa de Pinheiro com uma garrafada, e o técnico brasileiro Zezé Moreira entrou no vestiário húngaro e acertou o técnico húngaro Gustav Sebes com uma chuteira. A Fifa não puniu ninguém.

 

– A Hungria, seguindo um imperioso ritmo de treinamentos, com aquecimento antes das partidas (só ela o fazia), estava invicta desde a Copa de 1950, tendo jogado 31 vezes, sendo 27 vitórias (20 por goleada), e era a grande favorita. Já havia goleado na primeira fase da Copa sua adversária da final, a Alemanha, por 8 a 3. E como sempre, devido ao aquecimento, na final abriu logo o placar: aos nove minutos do 1º tempo já ganhava por 2 a 0. Porém, a chuva ajudava o time alemão, mais pesado. A Alemanha não havia escalado todos os seus jogadores titulares contra os magiares na primeira fase. Utilizando chuteiras apropriadas para a chuva enquanto os húngaros escorregavam, aos 18 minutos do primeiro tempo os alemães já haviam empatado a partida. Além disso, a Hungria havia enfrentado uma batalha campal nas quartas-de-final contra o Brasil, e penado para derrotar o fortíssimo time uruguaio na semifinal, indo muito mais desgastada para a final que a Alemanha, que enfrentou adversários mais fracos e acabou derrotando a Hungria com um gol no fim do jogo. Pelo time que a Hungria possuía, esta é considerada a maior virada de todos os tempos.

 

 

1958 – Local: Suécia Campeão: Brasil

 

– Dos cinco títulos até então disputados, quatro estavam nas mãos dos bicampeões Uruguai e Itália. Porém, estes dois não conseguiram sequer passar das eliminatórias e não foram à Copa.

 

– 28 anos depois da primeira Copa do mundo, uma partida terminou em 0 a 0: Brasil X Inglaterra. Alguns jogadores chegaram a pensar que haveria prorrogação.

 

– Diz a lenda que houve uma pequena rebelião dentro do grupo da seleção brasileira onde se exigiu a entrada de Zito, Pelé e Garrincha no time titular. Porém, Pelé só não havia jogado antes porque chegou à Copa machucado, E Zito e Garrincha entraram no lugar de Dino Santi e Joel não apenas porque o time não ia bem, mas também porque estes sentiam dores musculares.

 

– Na semifinal Suécia X Alemanha, o árbitro húngaro Istvan Szolt foi decisivo. Não marcou um pênalti a favor dos alemães, não invalidou o gol ilegítimo dos suecos, ao ignorar um toque de mão no lance que gerou o gol de empate. No 2º tempo, dois jogadores trocaram agressões, mas apenas o alemão foi expulso. E logo depois, não puniu um jogador sueco Parling que deu uma entrada dura em Fritz Walter. Este, apesar de ter voltado a campo, não conseguia correr e só pôde fazer número. Com dois jogadores a mais, a Alemanha não resistiu e os suecos marcaram dois gols nos últimos 10 minutos de jogo.

 

– “Ninguém os conteria. Se você marcasse o Pelé, Garrincha escapava e vice-versa. Se você marcasse os dois, o Vavá entraria e faria o gol. Eles eram endemoniados, infernais”. Palavras do craque francês Just Fontaine, artilheiro da Copa com incríveis 13 gols, o maior número já marcado até hoje – algo que provavelmente nunca será superado. E o número de gols que Fontaine marcou em Copas poderia ser maior, se duas fraturas seguidas na tíbia não o tivessem obrigado a se aposentar, com apenas 27 anos de idade. O maior artilheiro em Copas, o alemão Miroslav Klose, marcou 16 gols, tendo participado de 4 torneios. Fontaine participou de apenas uma Copa e marcou 13.

 

– Como os finalistas Brasil e Suécia utilizavam uniformes de cores similares, a Fifa realizou um sorteio para decidir quem utilizaria o primeiro uniforme e o Brasil perdeu. No sábado (um dia antes do jogo) o roupeiro Francisco de Assis comprou no comércio sueco um jogo de camisas azuis, e passou a noite costurando números e distintivos no uniforme improvisado. Porém, o problema maior era a superstição, que abalava decisivamente a confiança dos jogadores. Como o Brasil chegou à final usando amarelo, mudar de cor no último momento não parecia bom presságio. Então, o chefe da delegação Paulo Machado de Carvalho disse ao grupo de jogadores: “A cor azul vai dar sorte, pois é a mesma do manto de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil”, disse ele, ressaltando que foi sua a decisão do Brasil jogar de azul. O dirigente mostrou o manto de Nossa Senhora e com isto neutralizou todas as superstições negativas. O Brasil foi campão ganhando o jogo por 5 a 2.

 

– A seleção brasileira possuía os craques Nilton Santos, Garrincha, Pelé, Vavá, mas o principal jogador da seleção era Didi. Este era apelidado de “Príncipe Etíope”, dada a elegância com que corria em campo. Didi inventou a “folha seca”, chute em que a bola subia e caía repentinamente. O jogador tinha um jeito diferente de tratar a bola, fruto de uma contusão sofrida em 1952. Como ficou um bom tempo sem poder chutá-la, desenvolveu um jeito de bater com as pontas dos dedos, dando efeito em sua trajetória. O príncipe etíope quase teve uma perna amputada aos 15 anos devido a uma grave e mal curada lesão. Recuperado depois de uma cirurgia, a perna direita ficou 1cm menor que a esquerda, e a chuteira do pé direito também era maior, 41, contra 40 do pé esquerdo. Antes da Copa, a imprensa afirmava que o meia Joacir do Flamengo vinha treinando melhor que Didi, e que este, por sua vez, não se esforçava nos treinos. Questionado a respeito, o craque saiu-se com uma frase que se tornou famosa: “Treino é treino, jogo é jogo”. Foi eleito craque da Copa, deixando Vavá, Nilton Santos, Pelé e Garrincha para trás.

 

– A pedido do dirigente Paulo Machado de Carvalho, o massagista Mário Américo roubou a bola da final que estava entre os braços do árbitro Maurice Guige dando um soco nela, pegando-a e fugindo correndo. O árbitro foi ao vestiário pedir a bola de volta, mas acabou levando uma outra bola qualquer.

 

– Alguns diziam que Djalma Santos precisou de apenas um jogo para ser eleito o melhor lateral direito do Mundial, mas a Fifa elegeu o sueco Niels Liedholm como o melhor da posição.

 

– Pelé fez nesta Copa um gol quando tinha 17 anos e 239 dias, sendo o mais jovem a fazê-lo, e também se tornou o mais jovem a ser campeão do mundo, título que detém até hoje.

 

– Depois da desorganização de outros mundiais, o dirigente Paulo Machado de Carvalho, o Manga (apelido que os jogadores o davam sem que ele soubesse) arquitetou o planejamento da campanha do título, contribuindo também para contagiar o grupo com sua confiança na vitória. Hoje, dá nome ao estádio do Pacaembu.

 

– Pela primeira vez o esquema tático padrão mudou do 2-3-5 para o 4-2-4.

 

– Os jogadores argentinos foram recebidos com paus, pedras e moedas dos torcedores quando retornaram do mundial, sendo acusados pela imprensa local de se empenharem mais em noitadas do que nas partidas.

 

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Outras partes desta publicação:

Parte II: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2021/01/o-mundo-das-copas-parte-ii-de-lycio.html

Parte III: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2021/01/o-mundo-das-copas-parte-iii-de-lycio.html

Parte IV: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2021/01/o-mundo-das-copas-parte-iv-de-lycio.html

Édipo Rei - Sófocles

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 74

ISBN: Livro distribuído

Sinopse: Sófocles (495 a.C. - 406 a.C.) nasceu e morreu em Atenas, na Grécia, e foi um dos maiores intelectuais da antiguidade clássica. Autor prolífico e consagrado em seu tempo, produziu cerca de 120 peças das quais restaram conservadas apenas sete, entre as quais, Antígona, Ajax, Electra e Édipo Rei, talvez a mais célebre de todas as tragédias.

Atormentado pela profecia de Delfos, de que iria matar o pai e desposar a mãe, Édipo tenta – inutilmente – fugir de seu destino...



“Rejeitar um amigo fiel, penso eu, equivale a desprezar a própria vida, esse bem tão precioso! O tempo fará com que reconheças tudo isso com segurança, pois só ele nos pode revelar quando os homens são bons, ao passo que um só dia basta para evidenciar a maldade dos maus.”

 

 

“É sempre falível o julgamento de quem decide sem ponderação!”

 

 

“O orgulho é que produz o tirano; e quando tiver em vão acumulado excessos e imprudências, precipitar-se-á do fastígio de seu poder num abismo de males, de onde não mais poderá sair!”

 

 

“Qual a criatura humana que já conheceu felicidade que não seja a de parecer feliz, e que não tenha recaído após, no infortúnio, finda aquela doce ilusão?”

 

 

“Os males que nós próprios nos causamos são precisamente os mais dolorosos!”

 

 

“Nunca foi alguém salvo da morte, senão para que tenha qualquer fim atroz.”

 

 

“Tudo aquilo que se faz a tempo, dá bom resultado.”

 

 

“Deste homem, tão poderoso, quem não sentirá inveja? No entanto, em que torrente de desgraças se precipitou! Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida.”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

As vinhas da ira – John Steinbeck

Editora: Record
ISBN: 978-85-01-02364-3
Tradução: Herbert Caro e Ernesto Vinhaes
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 574
Sinopse: Publicado em 1939, As vinhas da ira marcou o auge da carreira do autor e mantém-se como um documento social e marco da literatura. O livro representa o confronto entre indivíduo e sociedade, através da epopeia da família Joad, expulsa pela seca dos campos de algodão de Oklahoma, para tentar a sobrevivência como boias-frias nas plantações de frutas do Vale de Salinas, na Califórnia. Steinbeck retratou a situação do homem moderno diante das dificuldades, a pobreza e a privação em um universo feroz, protagonizado por vítimas da competição e párias sociais. Tão americano quanto universal, o autor exibe na vida e na arte irredutíveis paradoxos, provocados pela tensão entre instinto e mente, natureza e História, a civilização e seus descontentes. As vinhas da ira é a prova de que homens em lugares e situações comuns podem ser tocados pela intenção épica e conduzidos à imortalidade.

“Quer que lhe diga? Eu fazia aquela gente pular e exortar em altos brados o nome e a glória de Deus até todos caírem no chão, exaustos. E a alguns, batizava-os. E depois, sabe você o que eu fazia? Levava uma daquelas moças para o mato e deitava-me com ela. Era o que sempre fazia. Depois, arrependia-me e rezava, rezava, mas sem proveito. Daí a pouco ela e eu estávamos cheios do Espírito e acontecia a mesma coisa, outra vez. Pensei que tudo isso era inútil e que eu não passava dum danado dum hipócrita. Mas era sem querer.
Joad sorriu, mostrando os dentes alongados, e também os lábios.
– Não tem nada como uma reunião de culto bem animada para aquecer as moças – disse ele. – Eu também já fiz isso.
Casy prosseguiu, excitado.
– Você vê – gritou. – Eu vi que tudo não passava disso. – Agitou a mão ossuda e nodosa num movimento de vaivém semelhante a uma carícia. – Então comecei a pensar: “Aqui estou eu pregando a graça divina. E eis aqui gente que obtém tanta graça que até salta e grita. Mas há quem diga que dormir com uma mulher é obra do diabo. O caso é que quanto mais graça divina uma moça obtém, mais rápido ela quer ir pro mato.”


“Quando a gente se acostuma, até o barulho de uma serraria faz falta.”


“Tem um sujeito lá em McAlester, condenado a prisão perpétua, que só vive estudando. Estuda o tempo todo. É secretário do diretor, escreve as cartas dele e outras coisas que é preciso escrever. Bem, ele é um sujeito danado de inteligente, estudou Direito e coisas assim. Um dia, falei-lhe acerca do meu caso, por ele ter lido tantos livros. E ele me disse que a leitura de livros não serve para nada. Que já tinha lido tudo sobre as prisões, agora e nos tempos antigos, e disse que lhes achava menos sentido agora do que quando começara a ler. Que as leis eram uma coisa que mandava a gente pro inferno e depois nos tirava de lá, e ninguém parecia ter força para enfrentar nem juízo bastante para modificar. Ele me avisou: pelo amor de Deus, não se meta a ler, que você acaba maluco. Acaba perdendo o respeito por todo mundo, principalmente a esse pessoal que tão no governo.
– Pois eu já não tenho mais respeito por eles agora – disse Muley. – Só temos uma espécie de governo: aquele que nos esmaga por causa do lucro.”


“O que tem valor é aquilo que ocê só diz a si mesmo”.


“Quando a gente fica sozinho começa a pensar e acaba sabendo o que quer.”


“As casas, nos campos, tinham sido abandonadas, e os campos consequentemente, também haviam sido abandonados. Somente na garagem dos tratores, cujas chapas onduladas brilhavam como prata polida, havia vida e esta vida era alimentada com metal, gasolina e óleo, enquanto os discos dos arados brilhavam ao sol. Os tratores tinham luzes brilhantes, visto que, para um trator, não existe noite ou dia, e os seus discos de arar revolvem a terra na escuridão e luzem à claridade do dia. Quando um cavalo deixa de trabalhar e recolhe à cocheira, a vitalidade continua nele, há respiração e calor, e as patas pisam a palha caída, as mandíbulas trituram o feno e as orelhas e os olhos continuam a agitar-se. Um calor vital reina na cocheira: o calor e o cheiro da vida. Mas, quando o motor de um trator suspende sua atividade, tudo para e tudo se torna morto como o metal de que o trator é feito. O calor abandona-o, como o calor vital abandona o cadáver. E então as chapas onduladas fecham-se e o motorista do trator vai para a cidade de onde veio, talvez a uma distância de vinte milhas e não precisa de voltar por semanas ou meses, pois que o trator está morto.
Isto assim é simples e cômodo: tão simples, que a satisfação que o trabalho proporciona desaparece, tão eficiente, que a sensação de deslumbramento desaparece também dos campos, daí resultando que se esquece a profunda compreensão que o homem possui da terra bem como a sua ligação com ela. E no motorista do trator cresce, vai aumentando o desprezo, que só domina um estranho, que não tem amor, nem sente a sua comunhão com a terra. E que a terra não é só o nitrato nem só fosfato, nem mesmo o tamanho que atinge a fibra do algodão. O homem não é somente carvão, sal, água ou cálcio. É tudo isto e também muitíssimo mais que o simples resultado da sua análise.
O homem, que é mais do que a sua composição química, caminhando na terra, desviando o arado de uma pedra, abaixando a rabiça do arado no intuito de poupar um rebento temporão, vergando os joelhos na terra para comer sua singela refeição – esse homem, que é mais que os elementos que o compõem, sabe também que a terra é mais que o simples resultado da sua análise química. Mas o homem da máquina, fazendo rodar um trator morto através das terras que não ama e nem conhece, apenas entende de química; desdenha da terra e desdenha de si próprio. Quando as portas de chapa ondulada se fecham, vai para casa e a sua casa nada tem que ver com a terra.”


“Inquietavam-se as terras do Oeste sob os efeitos da metamorfose incipiente.
Os Estados ocidentais sentiam-se inquietos como os cavalos antes da trovoada. Os grandes proprietários inquietavam-se, pressentindo a metamorfose, sem atinarem, no entanto, com a sua natureza. Os grandes proprietários atacavam o que lhes ficava mais próximo: o governo de poder crescente, a unidade trabalhista cada vez mais firme; atacavam os novos impostos e os novos planos, ignorando que todas essas coisas são efeitos e não causas. As causas escondiam-se bem no fundo e eram simples – as causas eram a fome, a barriga vazia, multiplicada milhões de vezes, fome na alma, fome de um pouco de prazer e de um pouco de tranquilidade, multiplicada milhões de vezes; músculos e cérebros que ansiavam por crescer, trabalhar, criar, multiplicados milhões de vezes. A última função clara e definida do homem – músculos que querem trabalhar, cérebros que querem criar algo além da mera necessidade – isto é o homem. Construir um muro, construir uma casa, um dique, e pôr nesse muro, nessa casa, nesse dique algo do próprio homem, é retirar para o homem algo desse muro, dessa casa, desse dique. Obter músculos fortes à força de movê-los, obter linhas e formas elegantes pela concepção. Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além do seu trabalho, galga os degraus das suas próprias ideias, emerge acima das próprias realizações. É isto o que se pode dizer a respeito do homem.
Quando as teorias mudam e caem por terra, quando as escolas filosóficas, quando os caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, econômicas, se alargam e se desintegram, o homem arrasta-se para diante, sempre para frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado. Tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás, mas apenas meio passo, nunca o passo todo que já deu.
Isto se pode dizer do homem, dizer-se e saber-se. Isto se constata quando as bombas caem dos aviões negros sobre a praça do mercado, quando os prisioneiros são tratados como porcos imundos e os corpos esmagados se consomem imundos na poeira. Pode ser constatado desta forma. Não tivesse sido dado esse passo, não estivesse vivo no pensamento o desejo de avançar sempre, essas bombas jamais cairiam e nenhum pescoço nunca teria sido cortado. Receiem-se os tempos em que as bombas não caiam enquanto existam os bombardeiros, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito ainda não morreu. E receiem-se os tempos em que as greves cessem, enquanto os grandes proprietários viverem ainda, pois cada greve vencida é uma prova de que se está dando um passo. E isto pode saber-se – receiem a hora em que o homem não queira sofrer mais e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade básica da Humanidade, é o que a distingue entre todas as coisas do Universo.
Os estados ocidentais inquietavam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente, Texas e Oklahoma, Kansas e Arkansas, Novo México, Arizona, Califórnia. Uma família isolada mudava-se de suas terras. O pai pedira dinheiro emprestado ao banco e agora o banco queria as terras. A Companhia das Terras – que é o banco, quando ocupa essas terras –quer tratores em vez de pequenas famílias nas terras. Um trator é mau? A força que grava os profundos sulcos na terra é uma força errada? Se esse trator fosse nosso – não meu, nosso – prestaria. Se esse trator produzisse os sulcos na nossa própria terra, certamente estaria certo. Não nas minhas terras; nas nossas. Então, sim, a gente gostaria do trator, como gostava das terras quando ainda eram nossas. Mas esse trator faz duas coisas diferentes: revolve as terras e nos expulsa delas. Não há quase diferença entre esse trator e um tanque. Ambos expulsam os homens que lhes barram o caminho, intimidando-os, ferindo-os. Há que refletir sobre isto.
Um homem, uma família, expulsos das suas terras, esse veículo enferrujado arrastando-se, rangendo pela estrada, rumo ao Oeste. Eu perdi as minhas terras; um trator, um só, roubou-as. Estou sozinho e desnorteado.
E uma família pernoita numa vala e outra família chega e as tendas surgem. Os dois homens acocoram-se no chão sobre os calcanhares e as mulheres e as crianças escutam em silêncio. Aqui está o nó, ó tu, que odeias as mudanças e temes as revoluções. Mantém esses dois homens afastados, faz com que eles se odeiem, se receiem, desconfiem um do outro. Porque aí começa aquilo que tu temes. Aí é que está o germe do que te apavora. É o zigoto. Porque aí transforma-se o “Eu perdi as minhas terras” rompe-se uma célula e dessa célula rompida brota aquilo que tu tanto odeias: o “Nós perdemos as nossas terras”. Aí é que reside o perigo, pois que dois homens nunca se sentem tão sozinhos e tão abatidos como um só. E desse primeiro “nós” nasce algo muito mais perigoso: “eu tenho um pouco de comida” mais “eu não tenho nenhuma”. E o resultado desta soma é: “Nós temos um pouco de comida”. Então, a coisa toma um rumo, o movimento passa a ter um objetivo. Basta, nessa altura, uma pequena multiplicação e esse trator, essas terras são nossas. Os dois homens acocorados numa vala, a pequena fogueira, a carne a fritar numa frigideira comum, as mulheres caladas, de olhos vidrados; atrás delas as crianças, escutando com o coração palavras que o seu cérebro não alcança.
A noite desce. A criança sente frio. Olhe, tome esse cobertor. É de lã. Pertenceu a minha mãe – tome, fique com ele para a criança. Sim, é aí que tu deves lançar a tua bomba. É este o começo da passagem do “Eu” para o “Nós”.
Se tu, que tens tudo o que os outros precisam ter, puderes compreender isto, saberás também defender-te. Se tu souberes separar causas de efeitos, se souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lênin, foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas isso é que tu não podes compreender, pois que a qualidade da posse te cristalizou para sempre na fórmula do “eu” e para sempre te há-de isolar do “nós”.
Os estados ocidentais inquietam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente.
A necessidade é um estimulante do ideal; o ideal, o estímulo para a ação. Meio milhão de homens caminha pelas estradas; um milhão mais se prepara para a caminhada; dez milhões mais sentem as primeiras impaciências.
E os tratores abrem sulcos e sulcos nas terras abandonadas.”


“Não é preciso muita coragem quando não se pode fazer outra coisa.”


“Eu nunca fiz uma coisa que não tivesse um pouco de pecado.”


“Como é que pode se incutir medo num homem que não sente fome apenas em seu estômago, mas também na barriga torturada dos filhos? Não se pode assustar um homem assim... ele já passou por todos os transes.”


“E os grandes proprietários, que têm de perder as suas terras na primeira rebelião, os grandes proprietários que estudam a História, que têm olhos para ler a História, deviam conhecer este grande fato: a propriedade quando acumulada em muito poucas mãos está destinada a ser espoliada. E do fato complementar também: quando uma maioria passa frio e fome, tomará à força aquilo que necessita. E também o fato gritante, que ecoa por toda a História: a repressão só conduz ao fortalecimento e união de todos os oprimidos. Os poderosos proprietários ignoram os três grandes gritos da História. A terra acumulou-se em poucas mãos, o número dos espoliados cresceu e todos os esforços dos grandes proprietários se orientaram no sentido da repressão. Gastava-se o dinheiro em armas e gases para proteção das grandes propriedades; espiões eram enviados com a missão de descobrir insurreições latentes, que precisavam ser abafadas antes que nascessem. Ignorava-se a transformação econômica; não se tomavam em consideração os planos para a transformação; apenas se tomavam em conta os meios de destruir as revoltas enquanto as causas das revoltas permaneciam.”


“Foi então que os grandes proprietários e as companhias inventaram um novo método. Um grande proprietário comprava uma fábrica de frutos em conserva. E quando as peras e os pêssegos amadureciam, ele forçava o preço das frutas para um valor inferior ao custo da produção. Como fabricante de frutas em conserva, ele pagava a si mesmo um preço baixo pelas frutas e, mantendo alto o preço das frutas em conserva, auferia ótimos lucros. Os pequenos proprietários, que não possuíam fábricas de frutas em conserva, perdiam as suas propriedades, que eram arrebanhadas pelos grandes proprietários, pelos bancos e pelas companhias, às quais pertenciam as fábricas de frutas em conserva. Com o tempo, diminuía o número das propriedades. Os pequenos proprietários não tardavam a mudar-se para as cidades, onde esgotavam o seu crédito, os seus amigos, as suas relações. E depois eles também caíam nas estradas.
E as estradas formigavam de homens ávidos de trabalho, prontos para matar pelo trabalho.
As companhias e os bancos trabalhavam para a sua própria ruína, mas não sabiam disso. Os campos estavam prenhes de frutas, mas nas estradas marchavam homens que morriam de fome. Os celeiros estavam repletos, mas as crianças pobres cresciam raquíticas. Em seus peitos intumesciam-se as pústulas escrofulosas. As grandes companhias não sabiam quão o quão tênue era a linha divisória entre a fome e a ira. E o dinheiro que podia ter sido empregado em melhores salários era gasto em bombas de gás, em carabinas, em agentes e espiões, e em listas negras e em exércitos armados. Nas estradas, os homens deslocavam-se como formigas, à procura de trabalho e de comida.
E a ira começou a fermentar.”


“E sempre que um homem tivesse um pouco de dinheiro podia embriagar-se. Aí acabavam-se os ângulos duros, e tudo era quente, confortador. Aí não mais havia solidão, pois que o cérebro povoava-se de amigos e o homem podia achar seus inimigos e aniquilá-los. O homem estava sentado num buraco e a terra tornava-se macia debaixo dele. A desgraça doía menos e o futuro não mais aterrorizava. E a fome não rondava mais perto, o mundo era suave e sem complicações e o homem podia chegar aonde quisesse. As estrelas desciam para maravilhosamente perto e o céu era tão encantador! A morte era um amigo e o sono era irmão da morte. Voltavam os tempos antigos... uma moça de pernas bonitas, com quem outrora se dançava em casa... um cavalo... oh, faz tanto tempo que isso aconteceu! Um cavalo e uma sela. Uma sela de couro trabalhado. Quando foi mesmo que isso aconteceu? Eu devia era encontrar uma moça com quem conversar. E seria tão bom! Até, quem sabe?, eu podia até dormir com ela. Mas que calor faz aqui! As estrelas tão pertinho da gente, e a tristeza e o prazer tão pertos um do outro, a mesma coisa, no fundo. Só queria era estar o tempo todo bêbado. Quem foi que disse que isso não prestava? Quem ousa dizer isso? Os pregadores, mas eles têm a sua maneira própria de se embebedar. Mulheres magras, estéreis, mas estas são por demais miseráveis para compreenderem uma coisa assim. Os reformadores, mas estes não conhecem a vida bastante de perto para poder julgá-la. Não senhor... As estrelas estão muito próximas, tão próximas, e eu pertenço à confraria do mundo. E tudo é sagrado... tudo, até eu mesmo.”


“A polícia causa mais encrenca do que evita.”


“E a chuva caía sem cessar e a água espraiava-se pelas estradas, pois os esgotos não conseguiam absorvê-la toda.
Então, grupos de homens molhados saíam das tendas e dos barracões superlotados, homens, cujas roupas eram farrapos encharcados e cujos sapatos se haviam transformado numa papa lodosa. Caminhavam na água, que saltava sob os seus passos e iam às cidades, às vendas das redondezas, às comissões de socorro, a implorar comida, a mendigar, humilhando-se a solicitar auxílio, mentindo e tentando roubar. E entre os mendigos e os humilhados, uma raiva desesperada começou a tomar forma. Nas pequenas cidades, a compaixão pelos homens encharcados transformou-se em indignação, e a indignação, despertada pela gente faminta, transformou-se em medo. E então os xerifes reuniam turmas de policiais, emitiam pedidos urgentes de rifles, de gases lacrimogêneos e de munições. E os homens famintos enchiam as ruas para onde davam as traseiras dos estabelecimentos, mendigando pão, mendigando verduras podres e roubando o que podiam.
Homens desvairados batiam às portas dos médicos, mas os médicos estavam demasiado ocupados para atendê-los. Os homens, abatidos, deixavam nas vendas das aldeias recados para o médico-legista, para que ele mandasse o rabecão. O médico-legista, esse, não estava demasiado ocupado para atendê-los. O rabecão atravessava o lodo e retirava os cadáveres.
E a chuva martelava sem cessar, os rios transbordando e inundando a região. (...)
As mulheres observavam os homens, perscrutavam-nos, para ver se agora, finalmente, eles desanimariam. As mulheres mantinham-se caladas, observando, e, onde se formava um grupo de homens, o medo desaparecia das suas faces, e a raiva tomava o lugar do medo. E as mulheres suspiravam de alívio, pois sabiam que assim tudo estava bem. Eles não estavam vencidos, e não se renderiam, enquanto o medo ainda fosse capaz de se transformar em ira.”