sexta-feira, 5 de agosto de 2022

A Luta Contra o Fascismo: Revolução e Contrarrevolução (Parte I), de Leon Trotsky

Editora: Sundermann

ISBN: 978-85-4556-006-7

Tradução: Mario Pedrosa (1933) e Rafael Padial (2019)

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 440

Análise em vídeo: Clique aqui

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: A Luta Contra o Fascismo: Revolução e Contrarrevolução, a Editora Sundermann oferece ao leitor um dos maiores clássicos do marxismo. Sua primeira edição traduzida do russo foi publicada em 1933 sob o título Revolução e Contrarrevolução na Alemanha. Trata-se de um conjunto de textos escritos por Leon Trotsky entre 1930 e 1933. Agregamos a esta edição os textos “A vitória de Hitler significará a guerra contra a URSS”, de 1932, “Hora da decisão”, “A tragédia do proletariado alemão” e “Que é o nacional-socialismo”, de 1933, extraídos e traduzidos do livro Comment vaincre le fascisme, publicado pela Les Editions de la Passion em 1993.



“De sua análise, Engels concluía que seria preciso esperar que chegasse “primeiramente a vez da democracia dos pequenos burgueses, antes da classe operária e comunista poder esperar tomar o poder e abolir definitivamente esse sistema de salariato que a conserva sob o jugo da burguesia”.

Assim, quase um século depois, percebe-se hoje claramente que o que se está decidindo atualmente na Alemanha não é mais do que o mesmo processo histórico iniciado em 1848. O processo do desenvolvimento industrial, pari passu com o desenvolvimento do proletariado e de sua consciência de classe, iniciado naquela época, encontra agora o seu epílogo. A pequena burguesia, então revolucionária, tinha fatalmente de ocupar o primeiro lugar na cena política e era a condutora natural do proletariado na senda da revolução. O proletariado via-se obrigado a pegar em armas para defender interesses que não eram diretamente os seus.

A situação em nossos dias é outra. E o problema que se põe agora com toda a sua grandeza e agudez é o problema da tomada do poder pelo proletariado. A pequena burguesia tornou-se para sempre incapaz de conduzir qualquer movimento independente. Os papéis se inverteram: agora, ou ela segue o proletariado para o futuro, ou toma a direita para a reação.

De democrática revolucionária que era, passa a reacionária; de jacobina, transforma-se em fascista. O fascismo, segundo a definição de Trotsky, não é mais do que a caricatura reacionária do jacobinismo na época do capitalismo em decadência.

Enquanto em 1848 a pequena burguesia fazia o proletariado lutar por ela contra a sociedade feudal, em 1933 vê-se mobilizada pelo capital financeiro, como um aríete contra a classe operária organizada: espera assim vencer a crise que corrói o regime e que a leva à miséria, sair da situação desesperada em que se encontra, procurando destruir os fatores de intensificação da implacável luta que enche toda a nossa época, travada entre a burguesia e o proletariado. Eis o fundamento do fascismo.”

(Mario Pedrosa)

 

 

“A Alemanha, pelo contrário, não é tarefa fácil. A Europa balcanizada em Versalhes está num impasse. O nacional-socialismo é a expressão política concentrada da Alemanha. Em termos de psicologia social, essa corrente pode ser descrita como uma histeria contagiosa, nascida do desespero das camadas médias. Pensemos nos pequenos comerciantes, artesãos e camponeses arruinados, numa parte do proletariado desempregado, nos oficiais e ex-oficiais da Grande Guerra, que ainda portam suas condecorações mas mal recebem salário, nos empregados de escritórios fechados, nos contadores de bancos falidos, nos engenheiros sem emprego, nos jornalistas sem trato nem perspectiva, nos médicos cujos clientes ainda estão doentes, mas não sabem como lhes pagar.”

 

 

“As camadas possuidoras são muito pouco numerosas e muito odiadas pelo povo para dirigir em seu próprio nome. É necessária a eles uma cobertura: monarquia tradicional (“pela graça de deus”), liberalismo parlamentar (“a soberania do povo”), bonapartismo (“o árbitro imparcial”) ou, enfim, fascismo (“a cólera do povo”).”

 

 

“O campo do proletariado

Quando o Partido Comunista oficial declara que a social-democracia é o suporte mais importante da dominação burguesa, nada faz senão repetir as ideias da III Internacional no momento de sua fundação. A social-democracia preza pelo regime capitalista, e por isso a burguesia a associa ao poder. A social-democracia tolera qualquer governo burguês que tolere a social-democracia. Mesmo totalmente afastada do poder, a social-democracia continua a sustentar a sociedade burguesa, recomendando aos operários que poupem suas energias para os momentos de combate (os quais ela nunca está disposta a convocar). Ao paralisar a energia revolucionária do proletariado, a social-democracia dá à sociedade burguesa a possibilidade de viver, ainda que ela não tenha mais força para viver e, por isso mesmo, encontre no fascismo uma necessidade política. O chamado por conduzir Hitler ao poder emana do marechal de campo dos Hohenzollern, eleito graças às vozes dos sociais-democratas. A corrente política que leva de Wels a Hitler tem um caráter particular muito evidente. Não pode haver duas opiniões diferentes a esse respeito entre marxistas. Mas o problema não é de interpretar a situação política, e sim de transformá-la de forma revolucionária.

O erro da burocracia stalinista não consiste em ser “intransigente” com a social-democracia, mas em tornar essa “intransigência” algo politicamente impotente.”

 

 

“Na abundante literatura dedicada à questão do fascismo, basta nos referirmos ao discurso do chefe oficial do partido alemão, Thälmann, que, no plenum do Comitê Executivo da Internacional Comunista, em abril de 1931, “desmascarou” da seguinte forma os “pessimistas” — isto é, aqueles que sabem minimamente olhar o futuro —: “não nos deixamos enganar pelos medrosos... Nós constatamos firmemente e com bom senso que o dia 14 de setembro [de 1930] foi, de certa forma, o ponto alto de Hitler, e que os próximos dias não serão melhores para ele, mas piores; essa apreciação do desenvolvimento de seu partido [de Hitler] foi confirmada pelos eventos... Hoje, os fascistas já não têm mais qualquer motivo para sorrir.” Em alusão ao fato de que a social-democracia formava então seus próprios grupos de defesa, Thälmann argumentou em seu discurso que esses destacamentos não se distinguiam em nada das tropas de choque do nacional-socialismo e que ambos se preparavam para esmagar os comunistas.

Hoje, Thälmann está preso. Os bolcheviques-leninistas encontram-se com ele, sob os golpes da reação triunfante. Mas a política de é a política de Stalin, ou seja, a política oficial da Internacional Comunista. É precisamente essa política a causa da desmoralização completa do partido no momento do perigo, quando os chefes perdem a cabeça, quando os militantes perderam o hábito de pensar e caem num estado de prostração, quando as posições históricas mais importantes são perdidas sem combate. Uma teoria política errada contém nela mesma seu castigo. A força e a obstinação do aparelho apenas aumentam a amplitude da catástrofe.”

 

 

“Os espíritos ingênuos acreditam que o título de rei mantém o próprio rei em carne e osso, com seu manto de pele e sua coroa. Na realidade, o título de rei nasce das relações entre os homens. O rei só é rei porque sua pessoa reflete interesses e ideologias de milhões de homens. Quando tais relações se erodem na torrente dos acontecimentos, o rei nada mais é que um ser humano desgastado, com um lábio inferior que pende ante aos acontecimentos.”

 

 

“A bandeira do nacional-socialismo foi erguida pelos homens saídos dos quadros médios e subalternos do antigo exército. Cobertos de condecorações, oficiais e suboficiais não podiam admitir que seu heroísmo e sofrimento pela pátria tenham sido em vão e, sobretudo, que não teriam qualquer direito a reconhecimento especial em seu país. Daí seu ódio pela revolução e pelo proletariado, E não queriam aceitar que banqueiros, industriais e ministros lhes relegassem a postos insignificantes de contadores, engenheiros, funcionários de correios e professores. Daí seu “socialismo”. Durante as batalhas de Yser e de Verdum, aprenderam a arriscar sua vida e a de outros, bem como a falar a linguagem do comando, que impuseram aos pequeno-burgueses da retaguarda. Foi assim que se tornaram chefes.

No começo de sua carreira política, Hitler não se destacava, senão, talvez, por um temperamento mais enérgico, uma voz mais forte, uma estreiteza de espírito mais segura de si mesma. Ele não trazia ao movimento qualquer programa pronto, senão a sede de vingança do soldado humilhado, Hitler começou pelas injúrias e recriminações contra as condições [do Tratado] de Versalhes, o custo de vida, a falta de respeito aos meritosos suboficiais, as intrigas de banqueiros e jornalistas sobre a fé de Moisés. Havia no país muita gente arruinada, afogada, coberta de cicatrizes e feridas frescas. Cada uma delas queria bater o punho na mesa. Hitler fazia-o melhor que todos. É verdade que ele não sabia como remediar todos os males. Mas suas acusações ressoavam ora como ordens, ora como prece por um destino infalível. As classes condenadas, como doentes incuráveis, não se cansam de evocar seus sofrimentos nem de receber consolações. Todos os discursos de Hitler soavam nesse diapasão. Um sentimentalismo disforme, uma ausência total de rigor no raciocínio, uma ignorância mascarada por erudição desordenada: tudo o que era menos se tornou mais. Isso lhe deu a possibilidade de enfiar todas as formas de descontentamento no saco de mendigo do nacional-socialismo e conduzir a massa aonde ela queria. Das suas primeiras improvisações, o agitador conservou em sua memória apenas o que recebeu aprovação. Suas ideias políticas são fruto de uma acústica oratória. Foi assim que selecionou suas palavras de ordem e construiu seu programa. E foi de tal matéria bruta que se esculpiu o “chefe”.

Desde o início, Mussolini se voltou de forma mais consciente à matéria social do que Hitler, o qual está mais próximo do misticismo policial de um Matternich do que da álgebra política de um Maquiavel. Do ponto de vista intelectual, Mussolini é mais audacioso e cínico. Basta lembrar que o ateu romano apenas se serviu da religião, da mesma forma como fez com a polícia e a justiça, enquanto seu colega berlinense crê piamente na proteção particular da divina Providência. Na época em que o futuro ditador italiano ainda considerava Marx “o mestre imortal de todos nós”, defendia, não sem habilidade, a teoria que considera como vida da sociedade atual a interação de duas classes fundamentais: a burguesia e o proletariado. É verdade, escrevia Mussolini em 1914, que entre elas se colocam numerosas camadas intermediárias, que formam um tipo de “tecido conjuntivo do coletivo humano”; mas, “nos períodos de crise, as classes intermediárias são conduzidas, com base em seus interesses e suas ideias, por uma ou outra dessas duas classes fundamentais”. Generalização muito importante! Sabe-se que a ciência médica pode curar uma doença, no entanto, pode também, de maneira bastante expressa, enviar um sujeito saudável ad patres13. Da mesma forma, a análise científica das relações de classe, destinada por seu autor à mobilização do proletariado, permitiu a Mussolini, quando passou ao campo inimigo, mobilizar as classes intermediárias contra o proletariado. Hitler realizou o mesmo trabalho, traduzindo para a linguagem mística alemã a metodologia do fascismo.

As fogueiras em que arde a literatura ímpia do marxismo iluminam vivamente a natureza de classe do nacional-socialismo. Enquanto os nazis agiam como partido e não como poder de Estado, o acesso à classe operária lhes estava praticamente cerrado por completo. Por outro lado, a grande burguesia, mesmo aquela que sustentou Hitler financeiramente, não considerava o nacional-socialismo um partido seu. O “renascimento” nacional se apoiava inteiramente nas classes médias — a parte mais atrasada da nação, o fardo pesado da história. A habilidade política consistia em soldar a unidade da pequena burguesia por meio do ódio ao proletariado. Que fazer para ficar melhor? Antes de tudo, esmagar os que estão abaixo de si. A pequena burguesia, impotente frente ao grande capital, esperava ao menos reconquistar sua dignidade social por meio do esmagamento dos operários.

Os nazis batizaram seu golpe de Estado com um nome usurpado da revolução. De fato, na Alemanha, como na Itália, o fascismo deixa o sistema social inalterado. O golpe de Estado de Hitler, enquanto tal, nem mesmo tem direito ao título de “contrarrevolução”. Porém não deve ser considerado isoladamente: ele é o fechamento de um ciclo de abalos que começou na Alemanha de 1918. A revolução de novembro, que deu poder a conselhos de operários e soldados, foi fundamentalmente proletária. Mas o partido que estava à frente do proletariado entregou o poder à burguesia. Nesse sentido, a social-democracia abriu uma era de contrarrevolução antes de a revolução ter tempo de terminar sua obra. De toda forma, enquanto a burguesia dependia da social-democracia, e, por consequência, dos operários, o regime conservava elementos de compromisso. Mas a situação interior e internacional do capitalismo alemão não deixava mais espaço a concessões. Se a social-democracia salvou a burguesia da revolução proletária, o momento chegou para o fascismo libertar a burguesia da social-democracia. O golpe de Estado de Hitler é o elo final da cadeia das forças contrarrevolucionárias.

A pequena-burguesia é hostil à ideia de desenvolvimento, pois esse se volta inevitavelmente contra ela própria: o progresso não lhe traz nada, senão dívidas impagáveis. O nacional-socialismo rejeita o marxismo, mas também o darwinismo. Os nazis amaldiçoam o materialismo, pois as vitórias da técnica sobre a natureza levaram à vitória do grande capital sobre o pequeno. Os chefes do movimento atacam o “intelectualismo” não tanto porque possuam eles mesmos inteligência de segunda ou terceira ordem, mas sobretudo porque seu papel histórico não admite que um pensamento seja levado ao limite da conclusão lógica. O pequeno burguês necessita de uma instância superior, localizada acima da matéria e da história, protegida da concorrência, da inflação, da crise e das hipotecas. Ao desenvolvimento, ao pensamento econômico, ao racionalismo — aos séculos 20, 19, e 18 —, opõem o idealismo nacionalista como fonte de um princípio heroico. A nação de Hitler é a sombra mítica da própria pequena burguesia, seu sonho patético de um reino milenar sobre a terra.

Para erguer a nação acima da história, dá-lhe o bastião da raça. A história é compreendida como uma emanação da raça. As qualidades da raça são construídas independentemente das condições sociais que mudam. Rejeitando o “pensamento econômico” como vil, o nacional-socialismo regride um degrau: do materialismo econômico, passa ao materialismo zoológico. (...)

No plano político, o racismo é uma variedade hipertrofiada e modesta do chauvinismo, associado à frenologia. Assim como a aristocracia arruinada busca uma consolação na nobreza do seu sangue, a pequena burguesia pauperizada se embriaga nas lendas dos méritos particulares de sua raça. É curioso notar que os chefes do nacional-socialismo não são alemães puros, mas originários da Áustria, como o próprio Hitler, ou de antigas províncias bálticas do Império Tsarista, como Rosenberg, ou de países coloniais, como Hess, o atual substituto de Hitler na direção do partido. Foi necessária uma escola de agitação nacionalista e bárbara dos confins da civilização para ensinar aos “chefes” as ideias que ecoaram no coração das classes mais bárbaras do interior da Alemanha.

O indivíduo e a classe — o liberalismo e o marxismo — eis o mal. A nação é o bem. Mas, no caso da propriedade, essa filosofia tem de se tornar seu oposto. A salvação está unicamente na propriedade individual. A ideia de propriedade nacional é uma invenção bolchevique. Ao mesmo tempo em que divide a nação, a pequena burguesia não lhe quer dar nada. Pelo contrário, ela espera que a nação lhe distribua a propriedade e lhe proteja do operário e do oficial de justiça. Infelizmente, o Terceiro Reich não dará nada ao pequeno burguês, apenas novos impostos.

No domínio da economia contemporânea, internacional por suas ligações, impessoal por seus métodos, o princípio da raça parece saído de um cemitério medieval. Os nazistas fazem concessões por antecedência: a pureza da raça, que se contenta com um passaporte para o reino do espírito, deve provar sua força principalmente pela eficácia no domínio econômico. Isso significa, nas condições atuais, ser competitivo. Pela porta dos fundos, o racismo retorna ao liberalismo econômico, desembaraçado das liberdades políticas.

O nacionalismo em economia se reduz, na prática, às explosões impotentes, ainda que brutais, de antissemitismo. Os nazis separam do sistema econômico atual, como força impura, o capital usurário ou bancário: a burguesia judia ocupa, precisamente nessa esfera, como se sabe, um espaço importante. Ao mesmo tempo em que se prostra por completo frente ao capitalismo, a pequena burguesia declara guerra contra o espírito maldoso do lucro, personificado no judeu polonês de longo casaco (e, muitas vezes, sem um centavo no bolso). O pogrom se torna a prova superior da superioridade da raça.

O programa com o qual o nacional-socialismo chegou ao poder relembra muito, infelizmente, as lojas “universais” de judeus nos buracos das províncias: o que não se encontra lá, a preços baixos e numa qualidade ainda mais baixa?! Lembranças dos tempos “felizes” da livre concorrência e lendas sobre a solidariedade da sociedade dividida em Estados; esperanças de renascimento de um império colonial e sonhos de uma economia fechada; frases sobre abandonar o direito romano e retornar ao direito germânico, combinados a proclamações sobre a moratória americana; hostilidade invejosa frente à desigualdade, simbolizada na mansão e no automóvel, e medo animalesco frente à igualdade, simbolizada no operário de boné e sem colarinho; desencadeamento do nacionalismo e medo diante dos credores mundiais... Todos os dejetos do pensamento político internacional vêm preencher o tesouro intelectual do novo messianismo alemão.

O fascismo levou à política os setores mais profundos da sociedade. Não apenas nas casas camponesas, mas também nos arranha-céus das cidades ainda vivem, paralelamente, os séculos 20, 10 e 12. Centenas de milhões de pessoas utilizam a corrente elétrica sem deixar de crer nas forças mágicas dos gestos e dos encantamentos. Em Roma, pela rádio, o Papa faz preces a respeito do milagre da transformação da água em vinho. Astros de cinema vão a cartomantes. Aviadores, pilotando maravilhas mecânicas, criadas pela genialidade humana, escondem amuletos embaixo dos seus macacões. Que reservas inesgotáveis de obscurantismo, ignorância e barbárie! O desespero os ergueu, o fascismo lhes deu uma bandeira. Tudo o que o desenvolvimento livre da sociedade deveria rejeitar do organismo nacional, sob a forma de excremento da cultura, é hoje vomitado publicamente: a civilização capitalista regurgita uma barbárie não digerida. Tal é a fisiologia do nacional-socialismo.

O fascismo alemão, como o fascismo italiano, içou-se ao poder sobre as costas da pequena burguesia, a qual utilizou como aríete contra a classe operária e as instituições democráticas. Mas um governo da pequena burguesia é a última coisa que significa o fascismo. Pelo contrário, ele é a ditadura mais impiedosa do capital monopolista. Mussolini tem razão: as classes intermediárias não são capazes de realizar uma política independente. Nos períodos de crise, elas são chamadas a conduzir, até o limite do absurdo, a política de uma das duas classes fundamentais. O fascismo conseguiu colocá-las a serviço do capital. Palavras de ordem como estatização dos trustes e supressão das rendas não provenientes do trabalho foram lançadas ao mar tão logo os fascistas chegaram ao poder. A defesa do particularismo das “terras” alemãs, apoiada sobre as particularidades da pequena-burguesia, foi logo substituída pelo centralismo policialesco capitalista. Cada sucesso político interior e exterior do nacional-socialismo marcará inevitavelmente a continuidade do esmagamento do pequeno capital pelo grande.

O programa de ilusões pequeno-burguesas não está suprimido; destaca-se da realidade e se transforma em atos ritualísticos. A união de todas as classes se reduz a um “trabalho obrigatório” praticamente simbólico e ao “confisco em proveito do povo” da manifestação operária de primeiro de maio. A manutenção do alfabeto gótico em detrimento do latino é uma revanche simbólica contra o jugo do mercado mundial. A dependência em relação aos banqueiros mundiais — entre os quais, muitos judeus — não diminui uma vírgula; mas, em compensação, fica proibido degolar animais segundo os rituais do Talmude Se o caminho para o inferno está cheio de boas intenções, as avenidas do Terceiro Reich são pavimentadas por simbologia.

Uma vez que o programa de ilusões pequeno-burguesas se reduz a pleno e simples disfarce burocrático, o nacional-socialismo se ergue acima da nação como forma mais pura de imperialismo. É vã a esperança de que o governo de Hitler caia, se não hoje, amanhã, vítima de sua própria inconsistência interna. Um programa era necessário aos nazis para chegar ao poder; mas o poder não será usado por Hitler para completar esse programa. É o capital monopolista que lhe dita as regras e tarefas. A concentração forçada de todas as energias e meios do povo no interesse do imperialismo, que é a verdadeira missão histórica do fascismo, implica na preparação da guerra. Tal objetivo, por sua vez, não tolera qualquer resistência interior e conduz diretamente à concentração futura do poder. É impossível reformar o fascismo ou lhe dar trégua. Só é possível derrubá-lo. A órbita política do regime dos nazis se resume a esta disjuntiva: guerra ou revolução.”

13 Expressão latina que significa “aos antepassados”. Ou seja: à morte. (N. do T.)

 

Fim dos textos complementares

 

XXXXXXXXXXXX

 

 

Revolução e contrarrevolução

 

“Na situação atual do mundo, o tempo é a mais preciosa das matérias-primas.”

 

 

“A primeira qualidade de um partido verdadeiramente revolucionário é poder olhar de frente a realidade.”

 

 

“Se o Partido Comunista é um partido de esperança revolucionária, o fascismo, como movimento de massas, é então um partido de desespero contrarrevolucionário.”

 

 

“O fascismo é um perigo real na Alemanha. É a expressão aguda da situação sem saída do regime burguês, do papel conservador da social-democracia em relação a esse regime e da fraqueza acumulada do KPD* para destruir esse regime. Quem nega isso é um cego ou um fanfarrão.”

*: Kommunistische Partei Deutschlands – Partido Comunista da Alemanha.

 

 

“Toda situação crítica contém em si grandes fontes de incertezas. Os estados de espírito, os pontos de vista e as forças inimigas e amigas formam-se no processo da crise. Não se pode prevê-los matematicamente de antemão. É necessário medi-los no processo da luta, pela luta, e introduzir, segundo essas medidas vivas, as correções necessárias na política.”

 

 

“É evidente que a escolha do momento para a luta decisiva depende não somente de nós, mas também dos nossos inimigos. Estamos todos de acordo em que atualmente a tarefa de nossa estratégia deve ser dificultar, e não facilitar, o desenlace por parte de nossos inimigos. Se os nossos inimigos nos impõem a luta, nós, é claro, a aceitaremos, pois não há e não pode haver derrota mais pesada, mais funesta, mais humilhante e mais desmoralizadora do que o abandono sem combate de grandes posições históricas.”

 

 

“A massa não é uma argila mole que se pode modelar como se queira. Ela reage à sua maneira, lentamente, mas solidamente, contra os erros e as cretinices da direção.”

 

 

“O fascismo é o filho legítimo da democracia formal da época da decadência.”

 

 

“O fascismo, se não se brinca estupidamente com as palavras, não é absolutamente um traço distintivo de todos os partidos burgueses, mas constitui um partido burguês especial, adaptado a condições e tarefas particulares, em oposição aos partidos burgueses e, do modo mais violento, precisamente à social-democracia.

Pode-se procurar objetar a isto que a hostilidade dos partidos burgueses entre si é muito relativa. Isto não é apenas verdadeiro, é o abecê da verdade, o que, entretanto, não nos faz avançar um passo. O fato de que todos os partidos burgueses, do fascismo à social-democracia, coloquem a defesa da dominação burguesa acima de suas divergências de programa não suprime, entretanto, nem a diferença desses partidos, nem a luta entre eles, nem a nossa obrigação de tirar proveito dessa luta.”

 

 

“Nas operações de guerra, como na política das crises revolucionárias, o cálculo do tempo é de uma importância decisiva.”

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Histórias e toadas da minha infância, de Maria Lucília Oliveira Ferreira

Editora: Leitura Fina

ISBN: 978-85-92597-07-8

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 424

Análise em vídeo: Clique aqui

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: É bastante normal que em seu processo de amadurecimento as crianças dialoguem com animais, com alguns de seus brinquedos e outros elementos que circundam sua vida. Mas é muito raro que uma criança faça o relato escrito deste período. Histórias e toadas da minha infância dá conta justamente desse fértil momento em que a autora, ainda sendo uma criança apenas semialfabetizada, tomava notas do jeito que conseguia — ora por meio de escritos soltos, ora por meio de poesias — sobre o mundo novo que se descortinava ante seus olhos. Muitos anos depois, Maria Lucília pôde transcrever esses papéis perdidos no tempo e revelar a nós, através de olhos infantis e puros, as agruras, peripécias e desventuras de seu crescimento ocorrido em um tempo histórico há muito ido. Além disso, o livro também nos mostra a história do surgimento do distrito de Nicolândia, em Minas Gerais, prestando a este lugar uma grande homenagem e um lindo reconhecimento.




“O fato é que o galo gosta mesmo é de brigar com os outros galos, e não de defender as galinhas.”

 

 

“Um dia, me deu vontade de conversar com os porcos no chiqueiro. Todos chamam eles de porcos, mas acho esta palavra muito feia. Por que chamam eles assim, se todos comem a sua carne? Então somos porcos também.”

 

 

“Tudo neste lugar tinha seus mistérios interessantes. Quase não havia costureiras. Minha mãe é que costurava para os moradores da região. Às vezes vinham pessoas de longe trazer costura, até vestido de noiva e paletó. Às vezes ela ficava até as madrugadas na máquina costurando para dar conta de tudo pronto. Em épocas de festa, ela se via doida, de tantas costuras que tinha que fazer. Nosso terreiro ficava rasteado de ferraduras de animal, de tanta gente que ia lá buscar costuras.

Eu era companheira dela. Só ia dormir na hora que ela fosse. Ela gostava muito de cantar enquanto costurava. Porém, sem maldades, um belo dia em que tinha costurado o dia todo, ela se levantou de repente e me disse:

- Estou indo ao cagadouro, tenho que ir depressa porque já estou soltando ventos.

Logo que ela saiu, o sr. Pedro chegou trazendo costuras e bateu palmas na porta. Eu fui receber ele e pedi que entrasse. Ele me perguntou:

- Menina, quedê sua mãe?

- Ela foi cagar lá no cagadouro, mas não vai demorar. Ela saiu daqui peidando forte. Eu acho que vai ser rápido.

Notei que o sr. Pedro ficou vermelho de vergonha, mas para mim era normal falar aquilo.

Nisso, minha mãe estava chegando e ouviu parte da conversa. Eles se olharam cheios de vergonha, mas eu nem podia imaginar o que estava me esperando. Quando o sr. Pedro saiu, ela me disse:

- Agora vou cortar sua língua com a tesoura! Me fez passar vergonha!

- Mãe, foi isso que a senhora falou quando saiu para o cagadouro.

- Que cagadouro, que nada! Vai levar uma surra de vara de goiaba. Isso é para nunca mais falar asneiras.

E me deu várias guaspadas com a vara.

Depois que tudo isso se passou, saí andando pelo pasto e fiquei imaginando o que tinha feito com minha mãe. E fiz esses versinhos para ela:

 

Oh, que vida dolorosa!

Viver sem maldades,

Apanhei pra aprender,

Conhecer toda a verdade,

Só agora compreendo,

Quantas vergonhas passou

Por causa da minha inocência,

Sei que você perdoou!

 

Com toda a tristeza de ter apanhado, tinha horas que eram de sorrir. E meus irmãos ficavam vigiando quem ia ao cagadouro, só para rir quando alguém estava com caganeira. Todos ficavam sabendo. E eles diziam:

- Você hoje está de caganeira!

Ninguém conhecia privada e nem sabia que existia papel para se limpar. Usavam sabugos de milho ou folhas de mato.

Assim era a vida na roça. Por motivo dessa falta de higiene, todas as pessoas eram portadoras de verminoses, principalmente as crianças, que eram todas barrigudas. Ninguém tinha noção do que era higiene para evitar os germes.

Mas meu pai sempre teve o capricho de todo ano comprar uma fôrma de remédio para todos nós de casa, que era chamado de lumbrigueiro pelo povo, mas seu nome era Tiro Seguro. Esse remédio realmente matava todos os vermes.

O que ficou gravado em minha mente mesmo foi a paciência que minha mãe tinha com a gente no dia de tomar o remédio. Ela não permitia que a gente desperdiçasse nem um pouquinho, pois meu pai buscava esses medicamentos na cidade de Resplendor, em Minas Gerais. Ela, por capricho, tinha seus macetes que davam certo. Nos preparava na véspera e dizia:

- Amanhã vocês vão tomar o lumbrigueiro.

Entre nós já ficávamos tristes, pois o danado do remédio tinha um cheiro terrível que nos deixava tontos depois de engolir. Minha mãe sempre dava um jeitinho: nos levava para dentro do quarto e trancava a porta com medo da gente fugir. Dizia:

- Quem vai tomar primeiro?

Todos ficavam calados. Ela dizia:

- Podem tomar, vou fazer uma canja de galinha para vocês!

No meio de tantos filhos, ela tinha que optar por alguma coisa. Então, começava a abrir os vidros. Eu disse:

- Mãe, eu quero ser a primeira!

Ela me deu uma chave para eu segurar na hora que estava tomando o remédio. Depois de engolir, ela me deu um ovo de galinha para eu segurar nas minhas mãos e assim evitar vômitos. Isto era usado em todas as casas da região. Era como uma simpatia. Mamãe também não deixava a gente ver mato verde antes de o remédio fazer efeito. Ela ficava vigiando o tempo todo, para ver quem dava vontade de ir ao cagadouro primeiro, para ver se o efeito era satisfatório. Aquele em quem demorava a fazer efeito, ela dava uma caneca de água morna doce para tomar e logo resolvia, era aquela correria para o cagadouro.

Um ria do outro quando ficava com lombriga agarrada sem sair e, no fim, a gente esquecia do que tinha passado e ia comer a tão esperada canja da galinha. Às vezes ficávamos sem poder comer porque o efeito não tinha sido bom. Quem estava comendo fazia figa para o que estava esperando. Era uma farra o dia de tomarmos esse remédio. Cinco dias depois, começávamos a tomar Biotônico Fontoura, como fortificante. E papai dizia:

- Vocês vão ficar todos corados. Vai acabar a amareleza.

Porém, nem sempre tudo era alegria. Para muitos, era dor. Muitas crianças morriam vomitando lombrigas e ainda saía pelo nariz quando estavam mortas dentro do caixão. Eu vi esta cena várias vezes e me tocava no coração. Pensei: “Bem fiz eu que tomei o remédio. Acho que estou livre destas coisas tristes”.

Isso nunca pude esquecer. Parecem coisas não verdadeiras, mas foram reais. Vendo a menina Maria das Graças morta, dentro do caixão, todos em volta dela, sua mãe retirando as lombrigas que saíam de seu corpinho, me deu um desespero tão grande que saí para o terreiro e comecei a pensar: “Por que será que a menina morreu e as lombrigas ainda ficaram vivas saindo pela boca e pelo nariz?”

Nisso, eu estava lá fora. Só vi quando uma senhora chamada Idalina saiu com um pano enrolado, cheio de lombrigas, que tinha retirado do caixão da menina, e disse:

- Vão ficando por aqui, deixem a Maria das Graças em paz.

Falou várias coisas que eu não entendi, mas dava para notar que era uma simpatia o que ela estava fazendo, para aliviar a família da menina. Aí que eu fiquei atormentada, tentando saber o que ela estava falando, e perguntei:

- Dona Idalina, o que a senhora está fazendo com este pano cheio de lombrigas e resmungando o tempo todo? A senhora está rezando?

- Isso é coisa séria. Se eu não fazer algo para conter estes bichos inquietos, vão começar a andar pela casa afora, pois já estão saindo aos punhados. Vou jogar elas dentro de um buraco e vou dizer três vezes: “Vão para a escuridão, fiquem dentro da terra, não voltem a sair de novo, tranque as que estão dentro da barriga dela”.

Depois que a vi falar aquelas coisas, fiquei interessada em escutar o que ela iria falar com os pais da menina. Só queria entender qual seria a reação deles. Ela disse:

- Podem ficar tranquilos. Já fechei a passagem deles com a simpatia. Só falta vocês terem fé.

Vendo aquilo tudo, fiquei desanimada e fui falar com minha mãe tudo o que tinha visto. Ela me falou:

- Viu como é triste ser portadora desse verme? Essa não é a primeira que morre deste jeito.

Eu fiquei assustada por vários tempos e não conseguia comer macarrão. Fiquei com nojo por muito tempo.

Logo que tudo se passou, fui para casa e fiz esses versinhos no capricho para as danadas das lombrigas:

 

Lombrigas, bicho danado

Que parece com cipó

Incha a barriga da gente

Remexe e faz um nó

Sobe e desce enrolando

Fazendo um caracó.

 

Mas com toda a malvadeza

Que você faz com a gente

Tem remédio que te mata

e salva a vida da gente.

 

Quem tem você na barriga

Vive sempre inseguro

Anda tonto e com fraqueza

Sem sangue e barrigudo

Mas você não esperava

O tiro do Tiro Seguro.

 

Bendito seja louvado

Nesta hora tão sagrada

Vendo a menina morta

E seus pais desesperados

Vendo lombrigas saindo

Rolando para todo lado

Com a barriga cheia

De ovinhos pelotados

Pra semear a terra

Eu juro que é pecado.

 

Quem toma Tiro Seguro

Não tem medo de lombrigas

Dorme sempre sossegado

Não sente dor de barriga

Com Biotônico Fontoura

Prolonga mais a vida.

 

 

“Papai gostava de contar o que tinha visto quando novo, para nos colocar a par do que ele também participou sem saber. Contou que quando chegou um circo num vilarejo, ninguém sabia o que era. Os donos fizeram amizades com os moradores da região, convidando a todos para que fossem participar da festa de abertura. No dia seguinte, o povo se reuniu e foi. Os donos do circo passaram um filme de faroeste. Quando o povo viu os artistas do filme atirando, saíram todos correndo de medo. Alguém que estava lá pediu para que olhassem, para ver se os tiros não o tinham acertado, porque todos imaginavam que eram tiros de verdade. Chegaram a rasgar o pano do circo com canivete para sair correndo. Quem estava armado, deu até tiros na tela do cinema. O dono do circo saiu e disse:

- Calma, gente, isto é filme, não é nada do que vocês estão pensando. Olhem o prejuízo que me deram!

E explicou tudo como era e eles acabaram pedindo desculpas, mas muitos já tinham ido embora de tanto medo.

Eu fiz estes versinhos para o dono do circo:

 

Gente, não faça isso

Não é tiro de verdade

Vejam só o que fizeram

Isto foi uma maldade

Rasgaram o pano do circo

Vejam só que crueldade.”

 

 

“Havia coisas que me faziam matutar por várias horas. Além de prestar atenção nas histórias que ouvia, prestava atenção também nos rapazes quando estavam interessados em namorar. Quando eles gostavam de uma moça, sempre iam a sua casa montados em um cavalo. Chegando no terreiro, faziam o cavalo repicar sua marcha para a moça ver que ele era um bom cavaleiro. Ela ficava olhando da janela. Um dia, eu ouvi quando um rapaz pediu a mão de minha irmã Jacira em casamento. Prestei bem atenção no que meu pai respondeu a ele. Chamou ela e perguntou:

- Você gosta dele, minha filha?

- Gosto sim, papai. — E o pretendente respondeu:

- Também gosto dela. Quero me casar em breve. Já tenho casa para morar e vários capados gordos. O paiol está cheio de mantimentos. O senhor pode ficar tranquilo que meus pais têm boa aceitação pelo nosso casamento.

Trocaram várias ideias, só que namoravam de longe. Mas o namoro não deu certo e eles não casaram. No dia em que ela resolveu terminar o noivado, mandou um recado a ele fazendo um convite para que fosse em nossa casa à noite. Ele, pensando que era uma festa, foi bem trajado. Chegando lá, meu pai veio até a sala e disse:

- Minha filha não quer mais se casar com você.

Ela só veio até a sala para devolver uma caixa de pó de arroz de nome Cashmere Bouquet que havia ganhado dele de presente. Ele saiu tristonho e foi para casa. Chegando lá, seus pais perguntaram se a festa tinha sido boa e ele respondeu:

- Levei um baita fora!

Jacira já estava com novo amor no coração. Era uma nova família que havia comprado um terreno perto donde a gente morava e tinha muitos rapazes bonitos de olhos verdes, que eram de família italiana. Ela se apaixonou por um deles.

O rapaz que foi deixado por ela mandou seu irmão se vingar dando uma facada no peito deste rapaz que ela gostava. Isto aconteceu no momento em que os dois estavam vindo da igreja num dia de domingo. Mas a facada não foi fatal. Eu presenciei e passei a entender o quanto valia um fora quando uma moça era amada pelo noivo.

Papai chamou a família do rapaz que tinha levado a facada, foi aquele corre-corre para acudir ele. No outro dia ele já estava melhor. As três famílias foram conversar sobre o acontecimento e disseram:

- Estamos muito tristes com o que aconteceu, pois somos moradores novos aqui e nunca passamos por uma decepção dessas, só por causa de um noivado que não deu certo. Ora, veja!

Mas seu Neca, pai do rapaz que deu a facada, disse:

- Nós vamos continuar amigos. A moça é bonita. Não sou culpado de meu filho não ser privilegiado. Quero arcar com todas as despesas que vocês gastaram no tratamento dele.

Essas coisas eram novidades no lugar. Virou notícia ruim. Minha irmã ficou muito tempo sem sair de casa, pois minha mãe era muito severa com estas coisas e nem mesmo sabia que ela havia deixado o noivo por causa de outro rapaz. Disse:

- Está vendo só a vergonha que nos fez passar? Agora vai ficar igual a Santa Rita, namorando pelo buraco.

Eu nem sabia que Santa Rita tinha namorado pelo buraco.

Mas Jacira se pôs a chorar. Eu disse a ela:

- Conte comigo, não chore, sua boba! Pode fazer seus recados que eu passo a ele quando passar por aqui. Faço que vou abrir a porteira e falo com ele.

Minha mãe desconfiou e passou a me vigiar também. A coisa foi ficando difícil. Esse namoro não deu certo, durou pouco e Jacira quase morreu de paixão.

Quando uma moça era deixada pelo rapaz, falava-se que tinha levado um fora e a conversa se espalhava pela região. Era muito difícil isto acontecer.

Havia muitas moças bonitas no lugar e vários rapazes disputavam elas. Mas seus pais prendiam as meninas no quarto, pois não queriam que elas namorassem. Eram tão bonitas que nem há como explicar.”

 

 

“Sempre mamãe mandava eu buscar jiló para gente comer, e uma de minhas amigas ia comigo à horta buscar. Uma delas, a Helena, uma moça de uma beleza divina, tentou desabafar comigo. Pegou uma flor de malmequer e pediu que eu segurasse outra, foi retirando as pétalas e dizia:

- Bem-me-quer, malmequer.

Só para testar quem gostava mais dela.

Reclamou comigo que não tinha prazeres na vida. Que, com tantos rapazes que gostavam dela, não podia nem olhar. Eu ainda era criança, mas entendia tudo e ela falou:

- Quando você crescer, vai sentir tudo isto também.

- Por que está me dizendo tudo isso?

- Sou uma moça triste. Não fale nada pra ninguém.

Suas lágrimas caíam no chão e disse:

- Tenho vontade de ser igual às outras moças e não posso.

Pediu para eu ajudar ela a cantar uma modinha que fez quando estava presa no quarto. Mas eu disse:

- Como, se não sei?

- Me acompanhe que vai aprender.

Eu perguntei o nome da modinha e ela disse que era para eu nunca esquecer. Parecia uma despedida.

 

Pássaro que não pode voar

 

Quem me dera se eu pudesse

Ser aquele passarinho

Voava de galho em galho

E não vivia sozinha

Tenho pena daqueles

Que vivem dentro da gaiolinha

 

À noite, vivo sonhando

Com minha liberdade

Só assim seria feliz

Para matar minha saudade.

 

Oh, papai, eu te respeito

Mas você não compreende

Que é de meu direito

Namorar não é pecado

Não me prenda desse jeito.

 

Depois de ter cantado com ela, tive uma forte emoção. Fui para casa com a sacola de jiló, mas não consegui comer dele, só ficava pensando nela. O pior era não poder contar nada, pois eu sabia guardar segredos.

Infelizmente, já não aguentando mais o sofrimento, ela tomou veneno de formiga e morreu. Todos ficaram tristes. Teve rapaz que até vestiu luto.

Tantas coisas que vi na minha infância deixaram uma marca de muitos sofrimentos. No dia do enterro dela, fiquei olhando de longe, cantei o que ela me ensinou e pensei: “Será que, se eu tivesse contado para alguém, teria evitado essa morte? Mas Deus sabe o que ela me pediu”.

Durante muito tempo, eu não podia ver a flor de malmequer que me lembrava dela. Cheguei a ouvir várias vezes a voz dela trazida pelo vento durante a noite, mas nunca tive coragem de falar com ninguém.

Às vezes, estes fatos aconteciam com os rapazes também, pois, quando eram proibidos de namorar quem eles gostavam, acabavam se matando.”

 

 

“Não se ouvia falar em roubos. Às vezes apareciam alguns ladrões de cavalos que vinham de longe e roubavam eles do pasto. No outro dia, só se ouviam os comentários. A polícia era chamada. Quando descobriam os ladrões, era chamada a “captura”. Como não havia transporte, eles saíam em grupos de até dez soldados e iam até o local do crime armados de carabinas, traziam o preso amarrado numa corda, com as mãos atadas. Eram amarrados na garupa dos animais e saíam trotando, os presos tinham que acompanhar de acordo com o galope dos animais. Chegavam até a arrancar o couro da sola do pé, porque não tinham como escolher onde pisar. Quando passavam perto de nossa casa, eu ficava olhando e tinha muita pena. Papai nos chamou e avisou:

- Olhem, meus filhos, vocês viram como é triste entrar nas mãos da justiça? Se é culpa sua, assuma! Mesmo se a cangalha for pesada. Não jogue nas costas de ninguém. Mesmo que ela te faça pisadura nas costas. Nunca assumam a culpa dos outros. Mantenham suas mãos inocentes. A última coisa que devem perder é a vergonha.”

 

 

“Papai dizia que o Diabo dava cem e pedia duzentos de troco. Nunca se quitava a dívida com ele. Ele voltava e pegava tudo que deu em dobro. Já o que era dado por Deus, era eterno.”

 

 

Poema da roda d’água

 

Um dia passei perto da velha máquina

Senti um aperto no coração

Ela parecia querer falar comigo

Algo que estava passando

A máquina amava a roda, a roda amava a máquina

Eram iguais a noivos apaixonados no dia que estavam se casando

Me parecia entender o que ela estava falando

Ouvi um forte gemido de dor,

De um tumor que estava sangrando

Só me faltava acariciá-la

Para não deixá-la chorando.

Sentei perto dela e disse: Adeus, roda d’água

Que tanto rodou, bailou, com a água que passou.

Só você sabe os gemidos que escutou,

Os cantos dos peixes, que nos cubos ficou.

Suas orelhas de pau, tantos segredos guardou!

Não é cega, viu tudo que passou

A inocência das crianças que por aqui brincaram

Tantas voltas você dava, mas ninguém se machucou!

Quando seu dono chegava, você estava suada

Com força rodava e não reclamava

Nunca pedia nada, só trabalhava.

Ouvia tudo calada

Mas era você, que ao entardecer

Que as luzes da vila fazia acender.

O sino da igreja tocava, o povo rezava, você ajudava.

A natureza viva e o milagre operava.

Você foi feita pelas mãos do homem curioso,

Que cuidava de você

Mas um dia fiquei te olhando e ouvi você chorar

Cheguei bem pertinho e me pus a perguntar:

Conte tudo para mim, deixe a sua mensagem

É tão forte, faz tanta gente sorrir

Todos te consagram na hora de dormir

Não fique triste! É a rainha da noite!

Com esta brisa do céu que vem te cobrir

É feita da natureza, igual não pode existir!

Mas ela me respondeu: Tenho que me prevenir

Está chegando outra força de luz, não vou mais existir!

Mesmo cansada, daqui não quero sair.

Obrigada, menina doce, é um anjo idolatrado

Sei que você me ama, eu também amo você!

Quem ler esta história, sei que vai entender

Eu sou a testemunha de tudo que você escrever

Mesmo sendo criança, Deus te deu o saber

Vou viver ao relento até o cupim comer

Pertenço ao pó da terra de onde brotei.

Antes de vir para cá, minhas sementes deixei

Se todas brotaram, posso jurar que não sei

O fogo queimou tudo, pouco de mim resta

Nem o meu nome eu sei

Só respondo pelo apelido que ganhei:

Roda d’água

Mas juro que honrei.

Muitos se sentiram honrados com o lucro que dei

Tanto café e arroz, rodando, pilei

Mesmo com eixo quebrado, não desanimei

A terra guardará meus segredos,

De tudo que ouvi e passei

Se precisarem de mim

Não rejeitarei.