domingo, 22 de maio de 2022

Projeto nacional: o dever da esperança (Parte I), de Ciro Gomes

Editora: LeYa

ISBN: 978-65-5643-003-4

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 272

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Sinopse: Projeto nacional: O dever da esperança, livro inédito de Ciro Gomes, é um convite para debater racionalmente o país que somos e o país que desejamos ser. “É minha contribuição pessoal a uma reflexão inadiável sobre o Brasil, as raízes de seus graves problemas e as pistas para sua solução”, escreve o autor na introdução. A frase reflete o espírito da obra e de seu autor: não só oferecer um diagnóstico das principais questões que atrapalharam o nosso desenvolvimento com democracia, liberdade e justiça, como também apresentar um vasto conjunto de ideias capazes de direcionar o Brasil rumo a um futuro desejável. É o que Ciro Gomes chama de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento – ele segue a linha de pensadores do nacional-desenvolvimentismo, de que, para superar o atraso e a desigualdade, não basta crescimento econômico: é necessário criar condições para promover a justiça social, reparar dívidas históricas com o próprio povo, gerar oportunidades menos desiguais e, ao mesmo tempo, garantir dinamismo a este gigantesco mercado interno chamado Brasil.

Feito um caixeiro-viajante, Ciro Gomes vem, há muitos anos, percorrendo o Brasil, apresentando ideias como palestrante, político, candidato a cargos eletivos e estudioso dos problemas do país. Com a desenvoltura que exibe na fala e a formulação permanente de propostas em diferentes áreas, Ciro tornou-se uma das vozes mais relevantes no debate público atual.

Assim, seu livro sintetiza, com preocupação, a proposta que ele vem fazendo Brasil afora durante esse período que considera dramático na história brasileira, que vai dos anos do governo de Dilma Rousseff e Michel Temer ao começo da gestão de Jair Bolsonaro: escapar da polarização que restringe o país a dois lados antagônicos que não dialogam e bloqueiam qualquer debate racional sobre os problemas a combater e as soluções a encontrar. A maioria dos brasileiros, ele lembra, espera e merece mais do que essa polarização irracional.

De maneira esclarecedora, Ciro percorre quase um século de história econômica e política para produzir seu diagnóstico de como interrompemos o sonho do desenvolvimento – de Vargas ao golpe de 1964, da hiperinflação dos anos 1980 ao Plano Real, da devastação promovida pelo neoliberalismo às crises na política e na economia que geraram a queda do PT e a ascensão da extrema direita. A partir daí, ele enumera diversos pontos que considera fundamentais para um Projeto Nacional de Desenvolvimento, abordando questões como o papel do Estado, impostos, educação, cultura, meio ambiente, superação da pobreza, a agenda necessária de reformas, segurança e a defesa da democracia.

Em Projeto nacional: O dever da esperança, Ciro Gomes oferece um roteiro de trabalho para devolver ao Brasil a esperança, a possibilidade de voltarmos a acreditar na política como uma forma de chegar a um futuro melhor. São ideias expostas para serem debatidas – a cortina aberta para a divergência civilizada que busca não destruir o inimigo, mas (re)construir uma nação por meio do consenso.


 

“E como podemos ver agora, de repente o mundo inteiro recorre, novamente, ao keynesianismo.

A Europa pede um novo Plano Marshall.

Os EUA pedem um novo New Deal.

É claro que nós, no Brasil, temos que pedir um novo plano de recuperação como o de Vargas, em 1930.”

 

 

“Um livro é uma mensagem para a história, não para o presente.

E eu gostaria de deixar aqui uma mensagem de esperança.

A longo prazo, minha esperança é que essa pandemia ajude a maioria da humanidade a descobrir que já estávamos vivendo numa grande tragédia mais profunda: a da cultura do consumismo irracional misturada com o neoliberalismo criador da superdesigualdade.

Nas últimas décadas, transitamos de um padrão de busca da felicidade no ambiente subjetivo, espiritual, como a busca da justiça social ou da fruição artística, para a busca da felicidade cada vez mais concentrada no ambiente do consumo.

Para mim, isso explica grande parte do drama contemporâneo.

Minha geração foi uma geração de insurgentes, que buscava a felicidade em bens espirituais, no domínio dos valores. No valor do sagrado também, mas igualmente no valor do prazer, do belo, da justiça, da compaixão. Acreditávamos que nossa felicidade seria encontrada na paixão, no romance, no amor, na música, queríamos o contato com o transcendente, com o saber, queríamos a revolução e um mundo melhor.

As novas gerações cresceram sob o imenso estresse do excesso de informações que vêm pelas redes sociais, pela mídia e pelo cinema, impregnadas de estímulos de consumo e propaganda. São massacradas, dia e noite, com imagens e símbolos que tentam seduzi-las para abandonar o mundo dos valores, em busca do mundo das coisas. Assim, nossas crianças e nossos jovens são empurrados para entrar numa espiral de consumo para a qual não têm recursos, e vão se tornando infelizes e desenvolvendo a crença de que são fracassados.

Na minha opinião, a raiz mais profunda da violência em nossa sociedade é o contraste entre a miséria e a opulência, vinculado às excitações das demandas de consumo. Mais ainda, às terríveis frustrações de se buscar a felicidade na posse de coisas, porque coisas não são fins, mas meios para a felicidade. Sempre haverá novos padrões de consumo e produtos a acessar para tornar infeliz aquele que os deseja e não os possui.

Não podemos continuar excitando as demandas de consumo numa juventude indefesa, ao mesmo tempo que tiramos dela qualquer perspectiva de renda.

É neste rumo suicida, muitas vezes pior no segundo país mais desigual do mundo, que nossa civilização estava quando o coronavírus nos atingiu.”

 

 

“As estatísticas do Brasil no século XX são incomparáveis. Nosso país simplesmente mais do que centuplicou seu PIB. Sim, multiplicou sua riqueza por mais de 100.1 Um crescimento sem igual no mundo até então.2

Mais importante do que isso, o crescimento do produto per capita foi de uma média de 2,5% ao ano. Em outras palavras, o cidadão médio brasileiro em 2000 produzia doze vezes mais riqueza que em 1900. No mundo, só Japão, Taiwan, Finlândia, Noruega e Coreia do Sul conseguiram superar esse feito.3

Na verdade, essa façanha não se operou durante todo o século XX. Nas três primeiras décadas dele o Brasil patinava como país agrário, que mantinha suas estruturas escravistas praticamente intocadas, e baseadas, especialmente, na monocultura do café e da cana-de-açúcar. O Governo Epitácio Pessoa, na virada da década de 1920, chegou a importar facões e enxadas, tamanha nossa indigência industrial.

Pode-se dizer que o grande salto brasileiro se deu entre 1932 e 1980. Foram os 48 anos de maior crescimento de um país na história do mundo, em que multiplicamos por oito nosso PIB per capita.4

A industrialização de uma nação não é uma etapa natural do desenvolvimento, algo como uma lei de evolução histórica. A industrialização é um processo induzido, planejado, que requer muita defesa dos interesses nacionais contra as sabotagens e tentativas de desestabilização do desenvolvimento por concorrentes estrangeiros. O motivo disso é muito simples, e não se trata de teorias da conspiração, mas da mais banal e ordinária guerra de mercado. O que é produzido eficientemente aqui deixa de ser exportado por alguém. Poucos países no mundo podem disputar, na história da economia, a rapidez e a magnitude do que foi feito aqui. Poderíamos perfeitamente continuar sendo uma nação agrícola como a Bolívia ou extratora como a Venezuela. Mas não aqui, porque aqui, em algum momento de nossa história, uma vanguarda política audaciosa se convenceu a industrializar o país e foi capaz de construir um projeto e uma hegemonia moral e intelectual aptos a levá-lo a cabo.”

1 IBGE. Estatísticas do século XX. Disponível em: https://seculoxx.ibge.gov.br/publicacao

2 Segundo estimativas do Project Database, o PIB brasileiro teria crescido cerca de 134 vezes.

3 IBGE. Estatísticas do século XX. Op. cit.

4 BOLT, J.; INKLAAR, R.; DE JONG, H.; & VAN ZANDEN, J. L. “Rebasing ‘Maddison’: new income comparisons and the shape of long-run economic development.” Maddison Project Working Paper, no 10, 2018. Disponível em: https://www.rug.nl/ggdc/historicaldevelopment/maddison/releases/maddison-project-database-2018

 

 

“O capital privado, lá como hoje, era pequeno e originado da produção agrícola, conservador e arisco à novidade modernizante. Não tinha nem condições nem interesse em levar essa empreitada à frente. Então foi com o Estado brasileiro intervindo diretamente na mobilização de recursos inalcançáveis pela força do capital privado local que Vargas criou nossa indústria de base e energia, assim como a infraestrutura conexa necessária a esse salto. Esses recursos vieram de três fontes: impostos, emissão de moeda e principalmente de empréstimos externos, na época de custo barato e de longo prazo, e que eram indispensáveis para a importação de bens de capital. Ele também foi muito hábil na condução da política externa num período de grandes tensões que levaram à Segunda Guerra Mundial, posicionando o Brasil de acordo com os interesses nacionais de seu projeto de desenvolvimento. E foi exatamente no momento em que se acelerava a industrialização no Brasil, com a fundação da Companhia Siderúrgica Nacional (1941), da Companhia Vale do Rio Doce (1943) e da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (1945), que Vargas foi deposto pela primeira vez.

Em 1950 o Brasil já enfrentava grandes gargalos, dificultando seu desenvolvimento industrial e crescimento, sendo os mais importantes a falta de energia elétrica e de petróleo e a precaríssima rede de transportes nacionais.

Mas mesmo com toda a oposição das forças antinacionais que operam em nosso país desde sempre, a nossa então jovem democracia chamou para comandar o Brasil mais uma vez o velho Getúlio. O tenentismo tinha hegemonizado no país a crença de que precisávamos nos industrializar para superar o subdesenvolvimento. Esse consenso foi fundamental para celebrarmos um Projeto Nacional do qual Vargas foi o símbolo até o golpe de 1964. E ao voltar ao poder, lutando renhidamente por nossa emancipação econômica conseguiu, em três anos e meio de governo, criar a Petrobras, a Eletrobrás e o BNDES (então BNDE), enfrentando os prepostos internacionais que aqui exigiam a abertura indiscriminada de nossos mercados e a interrupção da emissão de crédito nacional em nome do controle da inflação. Com a mesma desculpa recorrente da denúncia da corrupção, os abutres do país deixaram Vargas num beco político sem saída, ao qual ele respondeu com o gesto político de seu dramático suicídio.

Sabiamente o povo brasileiro rejeitou os golpistas de 1954 e elegeu para seu mandatário o mineiro Juscelino Kubitschek, aliado de Getúlio, que, com seu ousado Plano de Metas, prometia modernizar o Brasil acabando com os gargalos de seu desenvolvimento. Sofrendo uma série de golpes, inclusive antes da posse, JK se viu obrigado a ceder parcialmente às demandas pela internacionalização da economia. No entanto, não perdeu de foco a criação da base necessária para nosso desenvolvimento, dedicando dois terços dos recursos de seu Plano de Metas à construção de nossa rede de transportes e energia. O Brasil viu, em seu governo de coalizão trabalhista com João Goulart na vice-presidência, a criação de uma indústria automobilística inteira, embora não nacional, a Petrobras sair do papel e nos levar à autossuficiência de petróleo, Furnas e várias outras pequenas usinas hidrelétricas serem construídas e transformarem nossa matriz energética na mais limpa e barata do mundo. Tendo recebido um país com menos de mil quilômetros de estradas asfaltadas, o governo JK cortou o país de norte a sul com 14 mil quilômetros de rodovias. Por fim, como síntese desse enorme esforço de interiorização e salto para o futuro de seu governo, foi construída a magnífica cidade de Brasília, iniciativa sem a qual o extraordinário mundo produtivo do Centro-Oeste não teria sido possível.

A crise política em que o país foi lançado com a eleição e posterior renúncia de Jânio Quadros, tentativa de impedimento da posse de João Goulart, mudança parlamentarista, volta do presidencialismo e finalmente o golpe de 1964 impediu a execução do novo projeto nacional que o governo Jango tinha para o país.

Apesar disso, o presidente João Goulart, nos menos de três anos que permaneceu no cargo, enfrentou todas as sabotagens a seu governo e tentativas de golpe com serenidade e sem jamais recorrer à violência. O país ainda cresceu a uma taxa média de 5,2% ao ano, e ele conseguiu executar ações importantes, como a fundação da Universidade de Brasília (UnB), um projeto revolucionário de universidade, ou a Lei de Remessas de Lucros, que foi a resposta de seu governo para equacionar nosso problema crônico na balança de pagamentos6 e disponibilidade de dólares – o que já garroteava nossa capacidade de financiamento e, portanto, nosso desenvolvimento.

Ao contrário do que a propaganda do regime militar alegava, o governo Jango e seu projeto nacional contavam com amplo apoio popular. Pesquisa Ibope7 de março de 1964 revela que, se pudesse se candidatar no ano seguinte, Jango teria mais da metade das intenções de voto na maioria das capitais pesquisadas. Mesmo em São Paulo, tradicional reduto antigetulista, o governo Jango contava com 45% de avaliações de bom e ótimo. Só 16% o consideravam ruim ou péssimo. Havia amplo apoio nas capitais às medidas anunciadas no comício da Central do Brasil, às “reformas de base”, como reforma agrária, reforma urbana, o voto dos analfabetos, a aposentadoria rural, a função social da propriedade, o dispositivo legal da medida provisória e o monopólio do Estado em setores estratégicos da economia, que começaria com a encampação de refinarias estrangeiras.

Mas mais uma vez os interesses dos norte-americanos, inconformados com a Lei da Remessa de Lucros e a encampação de refinarias, em conluio com a direita brasileira e com parte das Forças Armadas, montaram um golpe de Estado no país com farto investimento em propaganda, apoio militar e subornos generalizados. E o país perdeu sua cambaleante e incipiente democracia. Vinte e quatro anos depois, com o fim do regime militar e a promulgação da Constituição de 1988, praticamente toda a agenda das reformas de base se tornaria parte de nossa Carta Magna. Embora algumas dessas reformas nunca tenham saído do papel, como a agrária, fica ridículo hoje pensar que o voto do analfabeto ou a aposentadoria rural pudessem ter sido consideradas parte de uma agenda comunista, como alegado na propaganda do golpe de 1964.

Com a consolidação do golpe em 1968, os militares reorientaram a economia tentando restabelecer um projeto de desenvolvimento. De novo, entretanto, evita-se o conflito político de construção de poupança nacional e se busca o atalho do endividamento externo, então de longo prazo e barato, como fonte central desse novo ciclo de crescimento econômico. Depois de uma intervenção no sistema financeiro nacional fixando limites para as taxas de juros cobradas nos empréstimos bancários e distribuindo incentivos para os bancos que reduzissem suas taxas, criaram as bases para a retomada de nossa vocação de crescimento. Além disso, o BNDES passou a assumir o oferecimento de crédito barato para financiar os investimentos do setor industrial brasileiro. O resultado dessas políticas recebeu o apelido de “milagre econômico”. O condutor da economia brasileira nesse período, o então ministro da Economia, Delfim Netto, costuma protestar contra esse apelido. Ele gosta de lembrar que “milagre” é efeito sem causa, e o crescimento do país no período foi causado pelo planejamento e trabalho árduo do governo e de milhões de brasileiros. Justo.

No entanto, a divisão causada no país pela Guerra Fria e a interrupção da democracia tiveram impacto também na formulação do projeto do regime militar. O consenso nacional em torno do desenvolvimentismo começou a ser erodido, porque o interesse nacional passou a ceder às pressões ideológicas vindas do exterior. Com aqueles que defendiam uma expansão mais vigorosa do mercado interno e melhor distribuição de renda colocados do outro lado de um muro que não era nosso, ocultou-se uma importante parte do problema brasileiro.

Mas isso não nos fará deixar de reconhecer que entre 1968 e 1974 o Brasil cresceu extraordinários 10,7% em média ao ano. Em outras palavras, dobrou seu PIB no espaço de sete anos.8 Não há muitos registros desse volume na história da economia do mundo. Segundo o Penn World Table, em 1969 um brasileiro produzia o equivalente a cerca de 21% da riqueza de um norte-americano. Em 1980, nosso PIB per capita médio correspondia a 35% do norte-americano.9 A sensação era a de que estávamos prestes a nos tornar a nação rica e moderna que sonhamos ser um dia e de que, como dizia o slogan, ninguém parava esse país.

Evidentemente, não se está aqui a fazer juízos de valor sobre os diversos regimes e concepções que nos guiaram politicamente entre os anos 1930 e os anos 1980. Para mim, de nada vale crescimento econômico sem liberdade e sem promoção de justiça social. Entretanto, é muito importante que se recuperem esses números, para enfrentar entre os brasileiros de nosso tempo, e especialmente entre os jovens, com os quais mais me preocupo, o pessimismo e a descrença hoje dominantes. Se o céu abençoado pelo Cruzeiro do Sul é o mesmo, se esse chão adorado é o mesmo e se nossa linda gente mestiça, caótica e culturalmente exuberante é a mesma, fica claro que nosso destino é o êxito civilizatório, não o fracasso liderado pelas mediocridades contemporâneas. O que vem falhando miseravelmente é a política, e, se protegermos a democracia, não demora nosso povo achará o caminho da grande virada histórica.”

6 Registro de todo o dinheiro que entra e sai de um país, na forma de importações e exportações de produtos e serviços, de fluxo de investimentos e capital financeiro, remessa e recebimento de lucros e transferências.

7 REDA, Paulo. “Jango tinha apoio popular ao ser deposto em 64, diz Ibope.” Folha de S.Paulo, mar. 2003. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u46767.shtml

8 IBGE. Séries históricas e estatísticas. PIB. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/7531a821326941965f1483c85caca11f.xls

9 Penn World Tables 6.3. Disponível em: http://dc1.chass.utoronto.ca/pwt/alphacountries.html

 

 

“A vulnerabilidade externa da política de desenvolvimento do regime militar cobrou seu preço a partir do meio dos anos 1970. Depois de duas décadas de crédito barato para os países subdesenvolvidos, vieram as duas crises do petróleo (1973-74 e 1979-80), causadas pela instabilidade política entre e nos países da Opep.14 Em 1979, sob o comando do então presidente do Fed,15 Paul Volcker, os EUA promoveram um brutal choque de juros, supostamente para controlar a inflação interna causada pela alta dos preços dos derivados. Isso levou o custo de nossa dívida da casa de um dígito para mais de 12% em 1979 e logo para mais de 20% em 1980.

O grande erro dos militares na época, e esse mesmo erro hoje se repete como tragédia, foi acreditar que se estivéssemos alinhados aos EUA estes deixariam o Brasil se desenvolver. Mas a questão em geopolítica não é alinhamento ideológico, é projeção e proteção do interesse nacional. Quando o Brasil começou a ameaçar “virar uma China” no “quintal” norte-americano, eles dispararam o gatilho dos juros da dívida e transformaram as finanças globais em armas de guerra contra a industrialização da América Latina. Não há outra solução: se quisermos nos industrializar, temos que ter soberania, um sistema de defesa forte, desenvolvimento de tecnologia própria, serviço de inteligência sofisticado e, principalmente, como forma de sustentar tudo isso, assumirmos como inadiável a tarefa de construirmos poupança interna.

Todos os países que dependiam de fluxos internacionais de capitais de longo prazo e baratos como mecanismo central de seu desenvolvimento tombaram. E o Brasil tombou escandalosamente. Durante quarenta anos os empréstimos que o Brasil contraía no exterior tinham, em média, cerca de quinze anos de prazo, três de carência e chegavam a cobrar juros anuais de apenas 2,5%. E então, a partir dos últimos anos da década de 1970, não conseguíamos financiar nossa dívida nem nosso desenvolvimento. O projeto nacional-desenvolvimentista baseado nesse capital e na proteção comercial a setores industriais havia produzido em quatro décadas a 15ª economia industrial do planeta, mas, agora, estava ferido de morte.

Além disso, os problemas sociais advindos daquele modelo de desenvolvimento começaram a aflorar com mais intensidade. Enquanto nos anos Vargas o desenvolvimento econômico veio acompanhado de avanços sociais (como a criação do salário mínimo, o aumento constante da massa salarial e a consolidação das leis trabalhistas que protegeram o trabalhador da tradição escravista da elite brasileira), o crescimento do regime militar foi marcado pelo agravamento de nossos níveis brutais de concentração de renda.

Embora o PIB per capita seja um bom indicador da riqueza de um povo, ele não diz nada sobre como essa riqueza é distribuída. E o Brasil tem especificidades que não se encontram em manuais de economia. Aqui a renda média não significa muito, pois dá a temperatura média de um paciente cujos pés estão no forno e a cabeça na geladeira. Nossa desigualdade sempre foi uma das mais cruéis do mundo, fruto de nosso passado escravista.

Darcy Ribeiro dizia que a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto. O país da Revolução de 1930 era um país agrícola. Saímos de uma base de riqueza muito baixa e de distribuição de renda brutalmente desigual, e não investimos em educação o suficiente. O país que mais cresceu entre 1930 e 1980 ignorou a ignorância. Nada é mais eficaz em manter as estruturas sociais. Isso criou uma distância muito grande entre os “dotô” (como eram chamadas popularmente pessoas que simplesmente tinham uma graduação), que estavam aptos a ocupar a enxurrada de novos trabalhos qualificados gerados por nossa rápida industrialização, e a maioria de nossa população pobre, literalmente, analfabeta. Em 1970, ainda segundo o IBGE, 33,6% da população com 15 anos ou mais não sabia ler nem escrever.16

Além disso, o Brasil tinha optado por um modelo concentrado de desenvolvimento industrial, e ao iniciar os anos 1980 tinha a esmagadora maioria de sua indústria baseada em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Isso fez com que as diferenças de desenvolvimento entre as regiões do país atingissem níveis imensos e acelerou o fluxo migratório e o êxodo rural de forma inédita na história da humanidade.

O crescimento econômico pode não realizar justiça social, mas faz todos melhorarem materialmente. Só que então, nós, que já não tínhamos liberdade nem justiça, de repente ficamos sem crescimento. Num primeiro momento, no fim da década de 1970, o regime insistiu com o modelo, embora as variáveis financeiras e energéticas (surge no período também, crescente e violentamente, a variável tecnológica) tivessem sido dramaticamente alteradas. Mas no início dos anos 1980 o gigante havia sido derrubado. Desde então vivemos de apagar incêndios, reativos, lidando com nossas emergências, vivendo de crise em crise e definitivamente com regimes e lideranças políticas diferentes sem uma guia de projeto nacional. Expressão que aliás, nesse ínterim, foi ela própria interditada.

Entre 1981 e 1984 nosso PIB per capita diminuiu em 12%. De 1988 a 1994, houve a superinflação. De 1996 até o início do século XXI vivemos o desastre de Fernando Henrique Cardoso. Nunca mais voltamos a crescer a altas taxas sustentadas, vivemos de soluços eventuais de crescimento, verdadeiros “voos de galinha”. Esperando ventos favoráveis do Norte, nos prostramos como todo país dependente que não tem força nem confiança para traçar seu rumo e escolher seu destino.”

14 Organização dos Países Produtores de Petróleo.

15 Federal Reserve, o Banco Central americano.

16 IBGE. Séries históricas e estatísticas. Alfabetização. Disponível em: https://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?no=4&op=0&vcodigo=CD101&t=taxa-analfabetismo-pessoas-15+anos-mais

 

 

“Nos últimos 38 anos foram somente três períodos de crescimento relativo: momentos do Governo José Sarney, o Governo Itamar Franco (somado ao primeiro ano de FHC) e o Governo Lula (que apesar disso ocorreu em contínua desindustrialização). Nos três, crescimento insustentável por ciclos de consumo sem nenhuma correspondência em iniciativas que alterassem nossa matriz de produção. Ou seja, cresce o consumo em voos de galinha, logo seguido de queda pela desindustrialização contínua e selvagem que experimentamos no período. Por quê? Defendo que isso se deva a três razões, que explorarei historicamente neste capítulo:

1. Estrangulamento do passivo das empresas privadas – Depois de três décadas sobrevivendo aos juros mais altos do mundo, esse custo não tem mais como ser repassado para os preços oligopolizados, por causa da abertura econômica. A maioria das trezentas maiores empresas brasileiras hoje não consegue mais fazer caixa sequer para pagar parcela vencida de suas dívidas com os bancos. Não podemos prosseguir por muito mais tempo nesse rumo sem arriscarmos acabar numa crise bancária.

2. Colapso das finanças públicas – O rentismo5 desenfreado comprometeu em 2017 6,1% do PIB nacional com pagamento de juros líquidos do setor público, com a incrível quantia de R$400,8 bilhões paga em juros.6 Só a União gastou R$340,9 bilhões desse bolo.7

Como a arrecadação federal em 2017 foi de R$1.342 trilhão,8 isso é equivalente a 25,4% de tudo o que foi arrecadado gasto em juros. Mas é importante lembrar que não estamos conseguindo tirar um centavo de nossa arrecadação para pagá-los. O descontrole é tanto que toda a nossa conta de juros está sendo coberta por novas emissões de títulos públicos. Ou seja: dívida sobre dívida, ou, se quisermos ser rasos, estamos vendendo o almoço para comprar o jantar.

É importante aqui lembrar que, seguindo a mesma metodologia de cálculo, em 2015 gastamos 8,4% do PIB em juros,9 que é a medida que, em conjunto com a queda brutal de arrecadação, explica o começo da explosão da dívida pública no segundo Governo Dilma, abrindo o caminho para o corrupto Eduardo Cunha, energizado pela inacreditável entrega da estatal Furnas ao seu controle pelo Governo Lula, executar sua sabotagem política.

Em 2017, a taxa de investimento da União, estados e municípios juntos foi de somente 1,17% do PIB.10 Até 2019, havia sido o menor volume relativo de investimento desde que o Brasil começou a levantar esse número. A União sozinha tinha orçado investir 0,4% do PIB. Só para se ter uma ideia, em 1976, no Governo Geisel, os investimentos da União, excluindo os das estatais, atingiam sozinhos 1,9% do PIB.11 Esse quadro de descontrole dos juros é um dos maiores fatores da falência do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, mais 17 dos 27 estados da Federação. E essa falência realimentou num círculo vicioso a queda contínua de arrecadação, que caiu 2,96% em 2016 em termos reais em relação a 2015.12 Como se não bastasse, o Governo Bolsonaro conseguiu bater também mais esse recorde em um único ano de governo. Em 2019, a taxa de investimento do governo federal atingiu 0,35%, a menor taxa de investimento da história.

3. Ausência de um projeto nacional de desenvolvimento – A prostração ideológica neoliberal conseguiu trazer setores inteiros da economia do Estado para o mercado, através da propaganda desmoralizante contra a suposta “ineficiência” e “corrupção” das empresas públicas e promotora da promessa de “eficiência” e “honestidade” do investimento privado, que supriria os motores estatais do desenvolvimento. No Ocidente, em especial na América Latina, esse movimento veio em sentido oposto ao dos países asiáticos, que mantiveram a associação harmoniosa entre mercado e Estado e se tornaram os mais dinâmicos do capitalismo contemporâneo, assumindo o papel de locomotivas da economia mundial.

Desmontaram grande parte do Estado brasileiro em nome do equilíbrio das contas públicas, enquanto o saqueavam com os juros reais mais altos do mundo. O resultado está aí. País estagnado e grande parte das maiores empresas brasileiras apanhada na Operação Lava Jato corrompendo o poder público. Afinal de contas, quando é que um agente estatal foi corrompido sem um agente privado corruptor que o tivesse cooptado para desviar a gestão do público para o interesse privado? Só na propaganda neoliberal. Sem uma diretriz clara nem volumes significativos de investimentos estatais que deem segurança ao empresário quanto à sustentação do ciclo de desenvolvimento, não há investimento privado significativo. Torramos cerca de metade de nosso patrimônio público nas privatizações de FHC em troca de títulos podres ou preços muitas vezes meramente simbólicos, e, ao invés de dinamizar nossa economia, a estagnamos.13”

5 “Rentismo” é uma palavra derivada de “rentista”, que significa quem vive de rendas financeiras, sejam elas derivadas de aluguéis, ou recebimento de juros decorrentes de empréstimos privados, ou títulos do governo. “Rentismo” significaria, portanto, a defesa dessa forma de vida para uma elite da população que quer que o Estado sustente seu padrão de vida sem correr riscos ou produzir nada, vivendo dos rendimentos de títulos do tesouro, fundos de investimentos baseados neles, CDBs, enfim, todos os papéis que tem seus rendimentos atrelados à taxa de juros paga pelo governo.

6 BARBOSA, Nelson. “Juros pagos pelo setor público: o total caiu em proporção do PIB, mas os pagamentos reais continuaram a subir em 2017.” Blog do Ibre, fev. 2018. Disponível em: http://blogdoibre.fgv.br/posts/juros-pagos-pelo-setor-publico-o-total-caiu-em-proporcao-do-pib-mas-os-pagamentos-reais

7 Banco Central. Necessidades de financiamento do setor público, Fluxos mensais. Disponível em: http://www.bcb.gov.br/pec/Indeco/Port/indeco.asp. Acessado em 18 de maio de 2018.

8 Receita Federal. Disponível em: http://idg.receita.fazenda.gov.br/noticias/ascom/2018/janeiro/receita-arrecadou-r-1-34-trilhao-em-2017

9 BARBOSA, Nelson. Op. cit.

10 FERNANDES, Adriana. “Investimento público cai para 1,17% do PIB e atinge o menor nível em 50 anos.” Estado de S. Paulo, abr. 2018. Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,investimento-publico-cai-para-1-17-do-pib-e-atinge-o-menor-nivel-em-50-anos,70002285682

11 Entrevista de Raul Velloso. DOCA, G.; JUNGBLUT, C. “Dados oficiais mostram que governo Geisel investiu mais do que gestão de Lula.” O Globo, mar. 2010. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/dados-oficiais-mostram-que-governo-geisel-investiu-mais-do-que-gestao-de-lula-3042574

12 Receita Federal. Análise da arrecadação das receitas federais – dezembro/2016. Disponível em: http://idg.receita.fazenda.gov.br/dados/receitadata/arrecadacao/relatorios-do-resultado-da-arrecadacao/arrecadacao-2016/dezembro2016/analise-mensal-dez-2016.pdf

13 Esses três fatores serão terrivelmente agravados com a crise do novo coronavírus.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Utopia selvagem: saudades da inocência perdida – uma fábula, de Darcy Ribeiro

Editora: Global

ISBN: 978-85-260-1934-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 168

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Sinopse: Com a exuberância de imagens e sentidos que marca sua produção literária, em "Utopia Selvagem" Darcy Ribeiro pinta com tons fortes a beleza que uma sociedade adquire ao ser composta por um mosaico de cores e culturas diferentes. O autor nos traz a história do negro Pitum que, buscando o Eldorado em meio à Guerra Guiana, é engolido por uma cortina branca e acaba capturado pelas amazonas. No convívio indígena, Pitum transmuta-se, aprendendo a língua e adaptando-se aos seus costumes. O mergulho num mundo que não lhe é familiar funciona como uma janela que o autor nos abre para, ao seu lado, contemplarmos o verdadeiro tesouro: a sociabilidade nativa.

Juntando elementos históricos e míticos, Darcy sugere que a miscigenação é uma prática que remonta às origens da espécie humana e tece uma fabulosa história na qual valoriza o hibridismo cultural vivenciado nas terras americanas.



“(As amazonas) Não deixavam é nascer pentelhos no preto. Nem o pelame do sovaco escapou. Na moda delas isso é nojo inadmissível. Não tendo, de nascença, pentelhame nenhum no corpo, não querem também nenhum fio nele.

– Nisso são impossíveis. Arrancam pela raiz um a um e ainda passam cinza quente ni mim para não nascer mais.

Esta depelagem foi a primeira bruteza selvagem que fizeram com o tenente.

– Me desgostei demais. Pela dor e pela boçalidade. – De fato, a primeira vez foi terrível. Uma dúzia delas o agarraram, imobilizaram, e aí lhe abriram as pernas e depois os braços para examinar e tirar um por um cada pelo. Não deixaram nem os do rabo.

– Aliás, os mais doídos – queixa Pitum. – Ainda mais que os pentelhos do saco que já doem demais.

Hoje Pitum entende que é questão de moda ou costume. E moda não se discute. No princípio, achando que o estavam depelando para carnear, assar e comer, pôs a boca no mundo. Quis pôr, aliás, porque as manoplas delas, tapando sua boca, não consentiram. Só bufava pelo nariz e chorava lágrimas quentes pelos olhos. Esguichadas de tão sofridas.”

 

 

“A verdade espantosa para Pitum é que elas vivem sozinhas, completamente sós, sem homem nem menino de idade nenhuma.

Sós e autárquicas é como vivem estas diabas. As malocas estão cheias de meninas de toda idade, desde criancinhas de leite mamando no peito único da mãe, até gurias engatinhando. Daí por diante, há fêmea de todas as idades juvenis e maduras até a velhice total de cara e corpo de jenipapo maduro. Não se vê é um menino, um guri, um rapazinho, um homem que seja. Nenhum. Sumiram. Escafederam-se.

– Só restei eu. Como não sou daqui, não sobrei: aconteci. Que é que elas fazem ou fizeram com seus homens que as prenharam e prenham? Cada uma delas há de ter tido o seu gerador e com ele pais e avós dele e dela; bem como tios e sogros e, ainda, os filhos e sobrinhos e genros de ambos. Além dos irmãos, primos e cunhados que toda gente tem.

– Cadê eles? Não ficou nenhum! Não terão essas bichas comido todos os machos? Disso são bem capazes – acha Pitum.

– Comerão seus homens especados e assados como meus guaribas, depois de bem prenhadas por eles? Comerão também os filhos machos que decerto parem? Horror! – Pitum se apavora, assombrado, com o futuro provável, dele próprio e de sua descendência.

– Um dia me comerão, assim como hoje eu como meus macacos?

T’esconjuro! Desta Deus me livre. E o Capeta também! Vendo até a alma para escapar dos dentes delas. – Por sorte Pitum não crê. Não pode crer que elas sejam assim de perversas e assassinas.

Este ofício de homem garanhão exercido, agora, pelo tenente Carvalhall será um cargo fixo no sistema delas ou só sucedeu com ele? É o que Pitum se pergunta.

– Serei eu o primeiro ou o derradeiro? Pelo jeito, isso mais parece um sistema regulado, um uso tradicional. O lugar onde armam a rede do preto em cada maloca, sempre o mesmo, bem no meio, entre dois moirões, que ali estão pra isto, parece fixo e prescrito para o reprodutor escalado: o sururucador oficial.

– A comida que me dão, sempre a mesma, sem variação, e diferente da que elas mesmas comem, também parece prescrita.

O seu banho da manhã, obrigatório, naquela algazarra com a criançadinha alegre e sem nenhum medo dele como deviam ter, sendo Pitum um estranho e até de outra raça. Tudo isso reforça a suspeita de que isso seja mesmo o reino das mulheres sem-marido. Autônomas. Autárquicas. Ou quase.

– Está na cara que é assim! – acha Pitum, às vezes, mas não se consola de que assim seja.

– É desnaturado demais – argumenta. Com efeito, ele acha isto tão insensato como seria uma tribo complementar de homens sós, soltos por aí, curtindo uma sodomia desbragada e um onanismo lascado. Que é isto aqui? Como é que ele vai apurar? E, se assim é na verdade, o que é que vai fazer?

– Como é que vou escapar?

O leitor talvez tenha lido o livro que uma vez li de confissões de um alemão que viveu prisioneiro dos índios antigos do Brasil. Lá ficou tempos, até casou, esperando as roças deles crescerem para a festança em que iriam comê-lo. Escapou porque os índios, aqueles, que só comiam heróis, se horrorizaram vendo a caganeira e o berreiro em que caiu o tal alemão para não ser comido. Aqui é diferente. Se o sistema delas é mesmo comer o macho já fodido, Pitum está perdido.

– Não há choro que me salve. Nem choro nem vela.

 

O único consolo de Pitum é a boa vida que leva, bem cuidado de dia, bem fodido de noite. Vida farta, forra, ociosa, até gostosa. Qualquer um invejaria, se não fosse o futuro temido no moquém. Isto é o que pensaria Pitum, se não se consolasse com ilusões: comigo não será assim... mas duvida:

– Triste fim. Que será de mim?

Quando acordou, na primeira noite que passou na maloca, Pitum sentiu logo que estava livre, mas não desatado. Acordando, se achou na rede com o peso de uma dona, deitada em cima dele, requerendo serviço. Sair da guerra diretamente pra sacanagem parece que não dá. Até que dá. Deu, assim que ele entendeu o que ela queria.

Imaginando e temendo, ainda, que fosse alguma tentação do demo, o maroto passou a mão nos fundos da dona pra saber se ela era mesmo mulher furada ou se era só tentação tapada.

– Fêmea é sim, com racha e oco – verificou. Não tinha é pentelho nenhum. Isso intrigou muito Pitum. Levantou a cabeça da rede, se virou, olhou e viu, confirmou que a vergonha dela, exibindo um grelo alto, era bochechuda mas peladíssima. A verga se assustou um pouco querendo murchar. Felizmente reagiu logo, empinou. Pitum olhou o mulherio deitado ao redor, pra ver se causava vexame cobrindo a dona ali.

– Ninguém olhava. Pareciam dormir. Sururuquei. – Melhor diria que foi comido. Isto porque, enquanto assuntava, a dona, que era sabida e fornida, se adiantou tanto que ele já se viu metido nela com tudo dentro. E ela, em vez de remexer, lá ficou bem engatada, mas parada como uma sapa, sentada em cima dele.

– Que é isto, moleca, se mexa – disse Pitum, assumindo o comando fodetivo no estilo de quem gosta de se mexer no reco-reco habitual. A dona não deixou. Queria ele era ali duro, parado, dentro dela. Quieto. O pau de Pitum, desacostumado ainda dessa copulação estática, quis desanimar. A dona não deixou. Com um movimento ou dois, chupeteando, reativou o danado que, reanimando, quis mais mamação no lesco-lesco de costume. Ela não consentiu.

– Só aí compreendi o que ainda estou pra entender: em lugar de comer, eu estava sendo comido. Bem comido, é verdade, mas comido no estilo delas. Até hoje é assim que Pitum se sente: um prostituto, pau-mandado de mulher.

– Não reclamo que seja ruim. Digo apenas que é diferente. – Diferente demais de todo o sabido e falado nesse assunto tão debatido.

Desde então, na noite de cada dia é uma dona que o come, sempre do mesmo modo, retardando o jorro o quanto pode. Pitum acabou se habituando com o jeito delas.

– Agora acho até um fracasso quando gozo. – É também do gosto das donas que, finda a operação, ele fique dentro, um bom tempo, esperando o pau murchar por si mesmo até sair sozinho.

Outro uso destas donas é não falar nadíssima durante a longa transa silente. Quando, no princípio, Pitum – mal habituado nos puteiros de Pelotas – quis saber se elas estavam gozando, ou dizer, carinhoso, que a dona, aquela, era boa demais, o que recebeu foi mãozadas para se calar.

– Foda, aqui, é assunto seríssimo. Que pensarão elas enquanto o mantêm teso lá dentro? Fantasiarão sacanagens? Serão santarronas, pensando na perpetuação da espécie? – Nunca saberei: é tabu.

Estas donas que só trepam uma vez na vida outra na morte encontraram este jeito de estirar o gozo. Em lugar dos descaramentos manuais e bocais dos prazeres prologais, optaram por esta transação longuíssima, de durar a noite inteira, se o macho der. Luxúrias de Amazona.

– Isso é o que querem, aspiram: um pau de ferro. – A arte erótica delas, pelo visto, não reside nos enfeites do deboche e sim nessa esticação desnaturada da dura presença lá dentro rigidamente contida. Das donas de ao redor, silenciosas, não digo o mesmo. – Elas, nas suas redes armadas ao longo das paredes do malocão, à igual distância de onde está o prenhador, certamente olharão afogueadas, emocionadíssimas, a fornicação silenciosa. Mais gozarão elas, só vendo lá de longe, com o pai de todos embutido dentro, parado, do que a sortuda, escalada. Pitum gosta de pensar que cobrindo sua dama da noite, de fato, está servindo a todas elas.

– Só me dói suspeitar que hoje como quem, amanhã, me comerá. Na forma de paçoca ou de pirão? – Sem sal e muito apimentado isto ele sabe bem.

– Canibalas!”

 

 

“Pitum sabe, sente, adivinha que, sem qualquer dúvida, estas bizarras donas vivem inquietas. Se preocupam demais com alguma ameaça muito temida.

– Que será? – O ar assombrado com que tapam a boca e abrem os olhos, aterradas, quando se toca certos assuntos, fala alto destes temores. Tanto medo, nesta gente cubana de valente, é estranho demais.

– Por que será? De que será? De quem será? – Sabe-se lá. Pitum supõe – mas isto é mero palpite – que elas têm medo é da volta dos homens. É do retorno à hegemonia natural dos machos. É do fim deste sistema desnaturado de viverem umas donas sempre sós, a vida toda sem marido. Mas duvida.

– Lá pode ser? – Muitas delas decerto até gostariam de um machão, limpando a goela ruidoso pra infundir respeito, fedendo suor, roncando na rede e fodendo diário. Não têm é coragem, nem meios de se rebelar.

Coitadas! Crescendo aqui, debaixo da opressão deste sistema desumano, treinadas desde meninas pra guerreiras, têm de se conformar. Que jeito?

– De onde este sistema desumano delas tira sua força? – é o que pergunta Pitum, sem alcançar resposta satisfatória. Será, como no Exército, a hierarquia severa, a disciplina rígida – regimentária –, com suas penas de prêmios e castigos, o que aqui mantém a ordem?

– Mas qual hierarquia, se elas nem reconhecem chefias? – Qual disciplina, se o gozo delas é sofrer castigos?

Deixando de pensar porque cansa e dói, Pitum sonha.

– Bom mesmo – fantasia – era trazer aqui meu regimento, cercar uma maloca destas de noite e cair em cima delas de madrugada. Com a tesão acumulada desta Guerra Guiana, numa manhã, meus homens amestrariam outra vez estas donas. Com o sol do meio-dia elas todas estariam domesticadas. Ia ser uma beleza.”

 

 

“Aqui entre nós, leitor, eu digo que estas sisudas donas são nada mais nada menos que as primeiras revolucionárias da história. São as pioneiras da revolução feminista permanente: trotskistas.

Para mim isso começou nos idos em que, aqui nos trópicos, por força da Revolução Agrícola – resultante da domesticação do milho e da mandioca – o nível do desenvolvimento das forças produtivas ultrapassou o das relações de produção. Criaram-se, assim, condições objetivas para a gestação de uma nova formação econômico-social cuja expressão sociojurídica seria o matriarcado.

Deu-se, então, o inevitável salto dialético: a quantidade se converteu em qualidade. Em consequência, a classe predominante do novo modo de produção – encarnada pelas lavradoras que produziam a maior parte dos alimentos – assaltou e assumiu o poder político, iniciando a transformação revolucionária da vida social.

Em consequência, as mulheres sujigaram os homens ao seu domínio, subvertendo a ordem social e a natural. Para garantir sua hegemonia, fizeram o que fazem todas as classes vitoriosas: tomaram para si as armas, desapropriaram os adornos, monopolizaram as sinecuras e acabaram com o lazer dos homens, para submetê-los pelo cansaço.

Quando o poderio mulheril se consolidava, eis que surge a contrarrevolução machista, cuja liderança histórica é atribuída ao inominável Jurupari. Foi ele, na verdade, o herói inconteste de todo uma suja guerra contrarrevolucionária.

Jurupari, segundo reza a tradição, seria o filho de uma moça chamada Amaru, nascida de uma mulher que transou com uma cobra. Tal mãe, tal filha, uma vez que esta, por sua vez, brincando com uns macacos no mato, derramou o sumo de não sei que fruta lá no rego dela e se prenhou.

Jurupari, antes de nascer, já saía da madre da mãe para espairecer. Assim é que topou e se entendeu com Sol, que lhe deu poderes de feiticeiro. Novato no ofício de encantador, querendo criar um gavião, o que criou foram bandos de morcegos, corujas e outros feios bichos noturnos. Depois de muito labutar, criou, afinal, seu gavião, e montado nele foi ver Lua. Ela é que deu a Jurupari a pedra do poder de disciplinar o mulherio que estava imponente demais. Aí, ele próprio fez a besteira: contou seu segredo a uns velhos que, seduzidos por uma dona, denunciaram a intentona.

O golpe de Jurupari era renunciar à Presidência, deixando em seu lugar, como garantia do poder macho, a sua voz de mando, encanada dentro dos tubos das flautas de paxiúba. As mulheres, sabendo disto pelos velhos, roubaram as flautas e impuseram o despotismo.

Jurupari teve de voltar. Para se impor de novo, instituiu o jejum total, transformou aqueles velhos em lacraias, sapos e cobras e castigou as mulheres, por ambiciosas e viciosas, com surras e com curras.

Assim, dizem, começou Ele a instituir a ordem vigente, destinada a permitir que surjam mulheres perfeitas, dignas de um dia desposar Sol.

Com base nesse manifesto-programa, Jurupari, apelando para toda sorte de táticas psicodélicas, apavorou e seduziu as mulheres, compelindo-as a aceitar a ordem divinal da machitude. Esta se funda em três princípios basilares:

• O do culto feminino das virtudes da virgindade, da fidelidade, da frugalidade e da discrição.

• O do respeito ao resguardo masculino chamado couvade, comprobatório de que o importante na procriação é a paternidade, uma vez que a mulher é um mero saco em que o homem deposita sua semente.

• E, finalmente, o princípio da obediência ao marido e ao chefe e do direito do homem à poligamia.

Esta nova ordem afiançadora do caráter sagrado da hegemonia masculina se assenta em dois pilares. Ideologicamente, ela é sacralizada e legalizada pelo culto das flautas e das máscaras de Jurupari, reforçado por todo um corpo de crenças e normas éticas e estéticas. Socialmente, é garantida pelo cansaço decorrente da imposição da dupla jornada de trabalho a que as mulheres são submetidas, na roça e na maloca.

Mas é assegurada, material e efetivamente, desde então, pelo aparato repressivo implantado na Casa dos Homens de cada aldeia com sua corporação de machos curradores.

Para exemplar o poderio da hegemonia macha, a própria Amaru, mãe de Jurupari, foi a primeira mulher a morrer currada.

Estas trotskas silvestres foram as únicas mulheres que não se deixaram embair pela mistificação ideológica, nem aterrorizar pelas compulsões fisiológicas. Em lugar de se submeterem ao jugo masculino, enfrentaram seus machos rebelados, mataram e comeram todos eles para se fortalecerem física e espiritualmente e assumiram elas próprias a celebração – sacrílega – dos ritos de Jurupari. Desse modo fizeram cumprir o império do determinismo econômico que os homens haviam tergiversado e obstaculizado. A seguir, organizaram-se como uma classe para si: androfágica, autárquica, hegemônica e soberana.

Esta é – salvo melhor juízo ou ulterior revisão científica à luz de novas fontes etc. – a pré-história desse abominável mundo mulheril onde caiu, para desgraça dele e vergonha geral, o inocente macho tenente.”

 

 

“O que mais ofende a Pitum é ser tido e havido como babaca. Vê claramente pelo desprezo com que as donas olham para ele que o consideram um moleirão dengoso.

– Vejam só – reclama o preto, com toda razão –, eu, o tenente G. Carvalhall do glorioso Exército Nacionall, aqui sou chamado Pitum e tido como maricas. Pode lá ser?

Ele tem suas razões, pudera! Diante destas machas ninguém se apruma. Elas são estoicas. Disso Pitum dá testemunho, com a certeza de quem tem provas às carradas.

– Assim é, efetivamente – diz ele. – Numa cerimônia de debutantes com que inauguram as moças que menstruam pela primeira vez, dão provas provadas deste estoicismo. As noviças, estas, depois de meses de reclusão numa choça, são retiradas, lavadas, pintadas e adornadas para receberem a tortura atroz. Postas no meio de uma roda movente formada por todas as donas da maloca, recebem sobre o ventre uma esteirinha em forma de peixe, feita de talas trançadas como peneira, com um marimbondo dos mais doídos em cada loca. Quando encostam aquele instrumento de dor na barriga da pobre, instantaneamente todos os marimbondos espetam os ferrões que têm na bunda lá na barriga da coitada. Algumas desfalecem de dor. Todas fecham a cara em rictos de dor insuportável.

– Nenhuma dá um pio.

Numa outra cerimônia que fazem, parece que só pelo gosto de sofrer, as donas já meio velhuscas metem o braço numa cumbuca cheia de formigas tocandira, dessas mais peçonhentas. A mão sai, meia hora depois, com o dobro do tamanho de tão inchada. O braço incha como um balão soprado. Uma íngua cresce, instantânea, no sovaco. A dor deve ser atroz.

– Nem um pio, neste rito também.

Pois essas heroínas insensatas fazem ainda pior: cortam fora, sem grito nem faniquito, com lascas de taquara, o peitinho direito, mal ele acaba de crescer.

– Taradas – gritava Pitum vendo umas ex-noviças se despeitar.

Metida num pau-de-arara uma dona dessas resistia mais de que comunista fanático. Só diria o que quisesse. Mas quem é que teria a doida ideia de torturar essas índias? Selvagens e cruéis elas são; mas inocentes também são de toda perversão subversiva. Como índias são até tuteladas do Estado, na sua condição de cidadãs relativamente incapazes. Perante a lei brasileira são equiparadas, para todo efeito, às mulheres casadas, aos menores de idade e aos idiotas. Irresponsáveis são, portanto. Por pior que seja o crime que cometam, por maior que seja a virtude que ostentem, não merecem penas nem glórias.

Além do estoicismo, outras virtudes não se sabe se elas têm. Pecados têm demais – acha Pitum. – Serem assim autárquicas, sem homens fixos, delas, há de ser pecado cabeludo. Não há nem pode haver depravação maior que esta de umas mulheres viverem sem macho fornicador próprio, acasalado.

– Só tendo reprodutor ocasional, como é que satisfazem seus desejos bestiais? – No meio desta abstinência compulsória hão de florescer os piores vícios. Depravadas!”

 

 

“Cumpre assinalar aqui, por oportuno, que a sobrevivência das amazônidas coloca problemas cruciais diante do Brasil. Num plano humanístico há e sobreleva a questão da antropofagia, denigrante judiação dietética que nenhum povo civilizado pode consentir que se perpetue no seu solo nem em solo algum. Exceto se se comprovar o caráter meramente ritual e até evangélico como ocorre com a antropofagia brasílica. E é isto que salva nossa honra.

Mesmo a prática come-homem destas donas seria dessa espécie uma vez que, presumivelmente, se junta o mulherio de todas as malocas, para comer um macho só. A cada uma, neste caso, caberia absorver uma pilulazinha hostial.”

 

 

“O debate secreto sobre as verdadeiras razões causais da Guerra Guiana se trava aceso todo dia. Cada vez que dois oficiais se encontram – mas nunca mais de dois, que ninguém é de ferro – quem estiver ali escondido, escutando, ouvirá as versões mais desencontradas pra explicar a Guerra Guiana.

Para o capitão Mameluco, esta seria uma guerra psicológica. Concentrando, num abscesso de fixação, toda a agressividade nacional, ela permitiria ao povo brasileiro viver em paz. Muitos negam essa hipótese acoimada de psicologística. Todos reconhecem, não obstante, que no Brasil o convívio humano melhorou muito depois da guerra. Nas Guianas só piora.

Muito batalhão mais parece um magote de drogados do Exército ianque no Vietnã.

Para o major Xipaio toda guerra é bélica e política. Esta também. Seu propósito seria criar um alvo inimigo, extrabrasileiro, capaz de atrair a atenção e o interesse dos generais, almirantes e brigadeiros, sequiosos de se sentar na cadeira presidencial. Todo militar aspira tanto ser Presidente Civil do Brasil que foi indispensável inventar esta guerra pródiga de condecorações e promoções.

– Mas que é que os guianenses têm com o pato?

Melhor é a explicação atribuída ao coronel Jenizaro: esta é uma guerra estratégica, diz ele. Seu objetivo é evitar que a Venezuela – já tão rica em petróleo –, tomando as Guianas, cresça desmesuradamente e acabe engolindo a gente. Como os brasileiros não têm peito para tomar mais terras – pra não aumentar mais nossa má fama de nação expansionista –, fica-se nesse toma lá dá cá. Qualquer dia as tropas param com as Guianas nas mãos e fixam as fronteiras nacionais nas praias do mar Caribe.

– Ali bem na frente de Fidel – vixe Maria! – diz Eunuco.

Este é o objetivo real, aparteia o comandante Emir: esta é uma boa guerra anticomunista. Uma vez plantados nas praias do Caribe, vamos juntar coragem pra invadir a Ilha pelo sul, enquanto os gringos invadem pelo norte. Juntos, vencemos o comunismo e acabamos com o despotismo cubano. Ninguém pode mais com essa ilha de merda, com sua meia dúzia de gatos pingados, libertando áfricas e ásias.”

 

 

“– Estão atolados no atraso, estes bugres. Vivem na fartura curtindo preguiça. – Para ele, o ofício real dos Galibis é viver convivendo e pecando inocentemente na sua comunidade solidária. Os homens, uns malandros, é verdade que caçam e pescam em duras jornadas; mas depois descansam dias, balançando na rede, cafungando, filosofando e rezando. As mulheres são mais ativas. Fora da aldeia, plantam roça e colhem, apanham água e lenha, carregam carga. Dentro de casa, cozinham e amamentam, fornicam e mexericam.

– Não querem outra vida, estes bugres – conclui Pitum. – Nem eu.”

 

 

“Ouvindo as absurdidades que as monjas contam do Brasil lá delas, Pitum vai chegando à conclusão de que a doidice bem pode ser delas. A seu tempo, o leitor verá, bestificado, que o preto talvez até tenha razão.

– Não pode haver um Brasil assim – diz ele. – Certamente não há mesmo. Será invenção delas. – E se pergunta: – para que fantasiam tanto? Que é que lucram com isso? A quem é que querem enganar? (...)

Quando brigam muito, o ex-tenente passa uns dias ressabiado, embolado com os homens lá no clube. Mas como não pode viver calado, acaba voltando. Vem cordialíssimo, requerendo fala e carinho. Elas aproveitam pra cair numa arguição severa sobre as doiduras do Brasil dele. Agora que decidiram que Orelhão é pirado da bola, já não se irritam tanto. Até se divertem com as suas fantasias de maluco.

Pitum – agora Orelhão –, que já deu o que tinha e o que não tinha, continua falando, se entregando. Não se emenda. Teve de desmentir e ainda está desmentindo tudo o que disse. Mas continua falando de novos espantos que tem, depois, de desdizer. É tão fluente como inverossímil. Discorre horas, respondendo às perguntas das donas sobre toda sorte de coisas do contraditório Brasil lá dele:

• a mocidade permissiva e a velhice debochada;

• a machitude crepuscular e a bichice florescente;

• o feminismo salvacionista e o autarquismo sexual;

• a Funai perseguindo índios pra sustentar ex-coronéis;

• a queimada das matas e o movimento ecológico;

• a negritude emergente e a branquitude ressentida;

• a contaminação industrial e a qualidade de vida;

• o militarismo civilista e a democratização autoritária;

• a majestade da justiça e os esquadrões da morte;

• o pau-de-arara nordestino e o boia-fria sulino.”

 

 

“As pobres monjas estão entaladas no impasse. Assuntos pios, missionais, enchem os índios. Chateiam demais. Casos míticos provocam discussões. Dão em disparate. O outro assunto, único, que interessa a eles é a Civilização, mas resulta sempre em arguições perturbadoras.

Apesar das confusões, este é o tema de que mais falam. Os índios de tudo querem notícia. O diabo é que, não sabendo, ainda, que são selvagens, são inteiramente incapazes de entender o que é Civilização. Se acham civilizados, os idiotas.

Aliás, isso de Civilização é também o maior interesse de Orelhão. Estando completamente por fora do Brasil lá delas, ele se aproveita das conversas para informar-se. Cada vez mais ele se convence, pelo que ouve, de que se trata de outro Brasil. O país delas é outro de que ele nunca ouviu falar. De fato, não tem nenhum jeito de ser o Brasil dele, normal. Seja o do passado. Seja o do presente.

As conversas com os índios sobre a Civilização são enredadas, longas. Pra explicar como é uma cidade, as monjas levam horas. Primeiro comparam, dizendo que são formigueiros de gente. Enormes formigueiros com muita formiga-gente andando daqui prali, dali praqui. Explicam, depois, que esse formigueiro fica num descampado, sem nenhuma árvore, mas com muitos caminhos paralelos e cruzados, com casas dos dois lados. Casas quase sempre amontoadas umas sobre as outras, subindo pro céu.

Orelhão acha que elas deviam é dizer que a maioria das tais casas é de aluguel; que o aluguel é caro demais e dobra cada seis meses, com a inflação. A seu juízo, elas enchem os selvagens é de detalhes inúteis sobre telhados de telha, chãos empedrados de pedra, lisas paredes pintadas, janelas de vidro, torneira d’água, luz elétrica, WC e fogão a gás. Até dos telefones dão notícia a eles.

Quando os idiotas já não entendem mais nada, de tanta maravilha que ouvem, elas explicam que lá ninguém pesca, nem caça, nem planta. Ou se pesca, caça e planta, faz cerâmica ou trança esteira, só faz isso a vida inteira. Não confessam é que lá também tudo se compra na feira e custa dinheiro, que é difícil de ganhar. Não há dúvida é de que elas se esforçam demais.”

 

 

“– O que nós loucos somos é isto: testemunhas do impossível. O tempo é muitos tempos simultâneos. Impossíveis. O espaço também. Quem atravessou a cortina branca sabe. Todo impossível é possível em algum lugar. Até demais.”

 

 

“Só é de perguntar se será caridoso da parte destas monjas tirar os Galibis da Inocência para lhes dar a palavra de Deus. Pensando que dão de graça a Salvação, elas não estariam cobrando um preço terrível? Não estariam abrindo pra esses pobres índios as portas do Inferno?

Enquanto foram Pagãos, ignorantes do Verbo Revelado, sendo inscientes eles eram inocentes e, assim, incapazes de culpa e de pecado. Depois de catequizados, não. Ao receberem a Boa Nova e, com ela, o Saber e a Malícia, passam a ter méritos e culpas pelas virtudes e maldades que cometam. A Redenção para eles será a Perdição. No estado natural do paganismo eles não podiam ser nem Infiéis, nem Hereges, nem Apóstatas, porque Pagão não tem competência para tanto. Convertidos, estão fodidos.”

 

 

“Explicam ao preto que, para os índios Galibis, o sonho é a alma da gente que sai do corpo andando, esvoaçante, por aí, fazendo estripulias. Assim sendo, o que acontece no sonho acontece mesmo, ainda que seja no mundo dos sonhos. Tanto que eles pedem indenização se alguém os prejudica nos sonhos. E dão, espontaneamente, a recompensa devida se eles próprios, nos sonhos, andaram passando um companheiro pra trás.

Outro dia Calibã sonhou que a filha dele – que ele não tem –, querendo parir seu neto, cagou um abacaxi para agradar a Orelhão. As monjas precisaram dar ao preto, para que ele desse ao tuxaua, como indenização, a melhor tesoura de costura que tinham.

– Saiba você, Orelhão, que o sonho é a principal fonte de sabedoria dos Galibis. Todos aqui tomam Caapi para ter sonhos que são treinamentos e ensinamentos. Assim, os meninos aprendem a caçar e andar no mato. Assim, os homens sabem do que está acontecendo ou dos riscos do que pode suceder.

Exagerada como é, Tivi afirma que o sonho é a escola da vida. Sem sonhar, estes índios nem saberiam viver. Sonhando, aprendem tudo. O sonho dá aos Galibis o que a TV Globo dá a nós, brasileiros: engabela, seduz e consola. É até melhor porque não quer vender seguros nem sabão português. E tem a vantagem de que todo programa é ao vivo e nele o próprio índio se vê a si mesmo obrando maravilhas. Sem as ilusões da TV, brasileiro morria de tristeza com a vida que tem. Índio também, sem sonhar, destrambelhava.”

 

 

“Nestas circunstâncias só nos cabe o consolo de recordar que, afinal, como dizem os sábios chineses, o inevitável é sempre o melhor.”

sábado, 23 de abril de 2022

A peste escarlate, de Jack London

Editora: Literatura Clássica

ISBN: 978-65-87036-26-7

Tradução: Tiago Gadotti

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 128

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Sinopse: Em A Peste Escarlate (1912), Jack London aproxima-se da ficção científica. A história decorre no século XXI e tem como protagonistas um velho professor universitário e três netos, todos eles reduzidos ao estado selvagem. São dos poucos sobreviventes de uma peste que dizimou a humanidade e aniquilou a civilização no ano 2013. Vítima das partidas dos netos, o avô conta aos três rapazes as aventuras que viveu para escapar à peste, através do mundo despovoado, de desertos e de cidades mortas, procurando aos mesmo tempo incutir-lhes os valores do conhecimentos e da sabedoria.



“– “Os sistemas fugidios evaporam como espuma” – murmurou o que era evidentemente uma citação. – Isso é tudo: espuma e fugacidade. Toda a labuta do homem sobre o planeta não passou de espuma: domesticou os animais úteis, destruiu os animais hostis e limpou a terra de sua vegetação selvagem. E então desapareceu, e o dilúvio da vida primordial caiu novamente sobre a terra, varrendo seu trabalho manual: as ervas daninhas e a floresta inundaram seus campos, as feras varreram seus rebanhos, e agora há lobos na praia de CliffHouse – ficou horrorizado com esse pensamento. – Aqui, onde quatro milhões de pessoas se divertiam, os lobos selvagens vagueiam hoje, e a progênie selvagem de nossos lombos, com armas pré-históricas, se defende contra os despojadores ferozes. Pense nisso! E tudo por causa da Morte Escarlate...”

 

 

“Hoo-Hoo, deitado de bruços, e cavoucando a areia com o pé, gritou, e examinou, primeiro, a unha do pé e, depois, o pequeno buraco que havia cavado. Os outros dois garotos se juntaram a ele, escavando a areia rapidamente com as mãos até que três esqueletos ficassem expostos. Dois eram de adultos, sendo o terceiro o de uma criança parcialmente crescida. O velho homem caminhou pelo chão e espreitou o achado.

– Vítimas da peste – anunciou. – Foi assim que morreram em todos os lugares nos últimos dias. Deve ter sido uma família fugindo do contágio, perecendo aqui na praia de Cliff House. Eles... o que está fazendo, Edwin?

Essa pergunta foi feita com repentina consternação, pois Edwin, usando a traseira de sua faca de caça, começou a arrancar os dentes das mandíbulas de um dos crânios.

– Vou fazer um colar – foi a resposta.

Os três garotos ficara In obcecados por isso; em meio a batidas e marteladas, os balbucios de Granser passaram despercebidos.

– Vocês são verdadeiros selvagens. Começaram com o costume de usar dentes humanos. Na próxima geração, estarão perfurando as narinas e orelhas, e usando ornamentos de osso e concha. Eu sei. A raça humana está condenada a afundar-se cada vez mais na noite primitiva, antes de recomeçar sua sangrenta escalada para cima, para a civilização. Quando sentirmos a falta de espaço, começaremos a matar uns aos outros. E então, suponho, pendurarão cabelo humano em sua cintura, assim como você, Edwin, que é o mais gentil de meus netos, já fez com esse rabo de porco. Jogue-o fora, Edwin, rapaz, jogue-o fora.”

 

 

“Aqui o velho partiu numa digressão sobre germes e suas naturezas, usando palavras e frases tão longas e sem sentido, que os rapazes sorriam uns para os outros e olhavam para o oceano deserto, até esquecerem que o velho estava balbuciando.

– Mas e a Morte Escarlate, Granser? – Edwin finalmente sugeriu.

Granser voltou a si, e, de sobressalto, saiu da tribuna da sala de aula, onde, para o público de outro mundo, expunha, sessenta anos atrás, a mais recente teoria sobre germes e doenças relacionadas.

– Sim, sim, Edwin; tinha esquecido. Às vezes a memória do passado é muito forte, e me esqueço de que sou um velho sujo, vestido de pele de cabra, vagando com meus netos selvagens, criadores de cabras no deserto primitivo. “Os sistemas fugazes evaporam como espuma”, e assim evaporou nossa gloriosa e colossal civilização. Eu sou Granser, um velho cansado.”

 

 

““Eu estava sozinho em minha grande casa. Como já lhes disse muitas vezes, naqueles dias podíamos conversar um com o outro por fio ou pelo ar. O telefone tocou, e comecei a falar com meu irmão. Disse que não vinha para casa por medo de pegar a peste de mim, e que havia levado nossas duas irmãs para ficar na casa do professor Bacon. Aconselhou-me a permanecer onde estava, e a esperar para descobrir se tinha, ou não, sido contaminado pela peste.

Concordei e fiquei em casa, tentando cozinhar pela primeira vez na vida. E a peste não se manifestou em mim. Pelo telefone, podia falar com quem quisesse e receber as notícias. Além disso, havia os jornais. Assinei todos eles, para saber o que estava acontecendo com o resto do mundo.

Nova York e Chicago estavam em caos. E o mesmo acontecia em todas as grandes cidades. Um terço da polícia de Nova York tinha morrido. O xerife também morreu, assim como o prefeito. Toda a lei e ordem tinham cessado. Os corpos jaziam nas ruas insepultos. Todas as ferrovias e embarcações que transportavam alimentos para a grande cidade haviam parado. Os pobres famintos, aos montes, saqueavam lojas e armazéns. Assassinato, roubo e embriaguez grassavam em toda parte. Os homens fugiam da cidade aos milhões – primeiro os ricos, em seus carros particulares e dirigíveis, e depois a grande massa da população, a pé, carregando a peste com eles, passando fome e pilhando os agricultores e todas as cidades e vilas no caminho.

“O homem que enviava as notícias, o operador da rede sem fio, estava sozinho com seu instrumento no topo de um edifício. As pessoas que permaneceram na cidade – ele as estimou em várias centenas de milhares – enlouqueceram de medo e embriaguez, e incêndios pululavam por toda parte ao redor de seu edifício. Foi um herói aquele homem que se manteve em seu posto – muito provavelmente, um jornalista obscuro.

“Por vinte e quatro horas, disse ele, nenhum dirigível transatlântico havia chegado, e não vinham mais mensagens da Inglaterra. Declarou, porém, que uma mensagem de Berlim, que fica na Alemanha, anunciava que Hoffmeyer, um bacteriologista da Escola Metchnikoff, tinha descoberto o soro para a peste. Essa foi a última notícia, até hoje, que nos americanos recebemos da Europa. Se Hoffmeyer descobriu mesmo o soro, já era tarde demais, pois os exploradores europeus já teriam vindo à nossa procura. Podemos apenas concluir que o que aconteceu na América aconteceu na Europa, e que, na melhor das hipóteses, alguns devem ter sobrevivido à Morte Escarlate em todo aquele continente.

“Por mais um dia, os telegramas continuaram a chegar de Nova York. Por fim, também cessaram. O homem que os enviava, empoleirado em seu alto edifício, ou havia morrido da peste ou havia sido consumido pelas grandes conflagrações que descrevera. E o que acontecera a Nova York replicou-se em todas as outras cidades. Foi o mesmo em São Francisco, Oakland, e Berkeley. Na quinta-feira, as pessoas estavam morrendo tão rapidamente, que seus corpos não podiam ser manuseados, e os cadáveres estavam por toda a parte. Na quinta-feira à noite espalhou-se o pânico pelo país. Imaginem, meus netos, pessoas, mais gente do que o cardume de salmões que vocês veem no rio Sacramento, fugindo das cidades aos milhões, lançando-se loucamente ao interior, na tentativa vã de escapar à morte onipresente. Vejam, carregavam os germes consigo. Até mesmo as aeronaves dos ricos, fugindo para as montanhas e para o deserto, carregavam os germes.

“Centenas dessas aeronaves escaparam para o Havaí, e não só levaram a peste consigo, mas descobriram que a peste já estava lá antes. Soubemos disso pelos telegramas, até o dia em que a ordem em São Francisco ruiu completamente, e não havia operadores nos postos para receber ou enviar mensagens. Foi surpreendente, espantosa essa perda de comunicação com o mundo. Era exatamente como se o mundo tivesse parado, sido apagado. Por sessenta anos, esse mundo não existe mais para mim. Sei que devem existir lugares como Nova York, Europa, Ásia e África; mas não ouvimos nenhuma palavra sobre eles por sessenta anos. Com a chegada da Morte Escarlate, o mundo desmoronou, absolutamente, irremediavelmente. Dez mil anos de cultura e civilização passaram em um piscar de olhos, ‘evaporaram como espuma’.”

 

 

“Afastei-me apressado, desci uma rua transversal, e na primeira esquina vi outra tragédia. Dois operários apanharam um homem e uma mulher com dois filhos, e os estavam roubando. Conhecia o homem de vista, embora nunca tivéssemos sido apresentados. Era um poeta cujos versos há muito tempo admirava. Mas não o ajudei, pois quando cheguei ao local, ouvi um tiro de pistola e o vi caindo no chão. A mulher gritou, e foi atingida por um golpe de punho de um dos selvagens. Dei um grito ameaçador, e descarregaram as pistolas contra mim, que tive de fugir pela esquina. Aqui fui bloqueado por um incêndio crescente. Os prédios de ambos os lados estavam queimando e a rua estava cheia de fumaça e chamas. De algum lugar daquela escuridão, ouvi a voz de uma mulher clamando por ajuda. Mas não fui até ela. O coração de um homem vira ferro em meio a tais cenas, e os gritos de socorro eram muitíssimos.”

“Voltando à esquina, vi que os dois ladrões tinham desaparecido. O poeta e sua esposa estavam mortos na calçada. Foi uma visão chocante. As duas crianças tinham desaparecido – para onde, não sei. E descobri, agora, por que os fugitivos que encontrava andavam tão furtivamente e com rostos tão pálidos. Dentro de nossa civilização, em nossas favelas e guetos, tínhamos criado uma raça de bárbaros, de selvagens; e agora, no tempo de nossa calamidade, voltaram-se contra nós como animais selvagens e nos destruíram. E também se destruíam uns aos outros. Inflamavam-se com bebida forte e cometiam mil atrocidades, brigando e matando uns aos outros na loucura geral. Vi um grupo de trabalhadores, de bom caráter, que tinham se unido e, deixando as mulheres e crianças no meio, os doentes e idosos carregados em macas, e uma série de cavalos puxando uma carga de provisões, estavam lutando para sair da cidade. Era bonito vê-los descendo a rua em meio à fumaça, embora quase atirassem em mim quando apareci no caminho. Enquanto passavam, um de seus líderes gritou comigo, em pedido de desculpas. Disse que estavam matando ladrões  e saqueadores, e que andavam assim em bando por ser o único meio de escapar dos salteadores.

“Foi aqui que vi pela primeira vez o que veria depois com tanta frequência. Um dos viandantes mostrou-me a marca inconfundível da peste. Imediatamente os circunstantes se afastaram e ele, sem pestanejar, saiu de seu lugar para deixá-los passar. Uma mulher, muito provavelmente sua esposa, tentou segui-lo. Estava conduzindo um menino pela mão. Mas o marido ordenou-lhe severamente que prosseguisse viajem, enquanto outros a seguraram pela mão e a impediram de segui-lo. Isso eu vi, e vi também o homem, com seu rosto escarlate, entrar numa porta do lado oposto da rua. Ouvi o disparo de sua pistola e o vi cair morto no chão.”

 

 

“Reunimos uma grande quantidade de provisões, e um comitê de alimentos se encarregou de distribuir porções diárias para as diversas famílias que se organizavam em pequenos grupos. Vários comitês foram nomeados e desenvolvemos uma organização muito eficiente. Eu fazia parte do comitê de defesa, embora no primeiro dia nenhum inimigo se aproximasse. No entanto, podíamos vê-los à distância, e, pela fumaça dos incêndios, sabíamos que estavam ocupando a outra extremidade do campus. A embriaguez era abundante, e muitas vezes os ouvíamos cantando canções vulgares ou gritando insanamente. Enquanto o mundo ruía sobre eles, e todo o ar se impregnava da fumaça de suas queimadas, essas criaturas vis davam livre curso à sua bestialidade, brigavam, bebiam e morriam. Mas afinal, o que importava? Todos morriam de qualquer maneira, os bons e os maus, os fortes e os fracos, os que amavam a vida e os que a desprezavam. Eles também passaram. Tudo passou.”

 

 

“– Vou fazer com que Granser ensine essa coisa de pólvora – disse Edwin calmamente –, e então botarei todos vocês para correr. Você, Hare-Lip, lutará por mim e buscará minha carne, e você, Hoo-Hoo, enviará o bastão da morte por mim e fará com que todos tenham medo. E se eu pegar Hare-Lip tentando quebrar sua cabeça, Hoo-Hoo, eu o castigarei com a pólvora. Granser não é um tolo como pensam. Vou escutá-lo, e um dia serei o chefe de todo o grupo.

O velho sacudiu a cabeça tristemente, e disse:

– A pólvora virá. Nada pode detê-la: a mesma velha história, de novo e de novo. O homem se multiplicará, e os homens lutarão. A pólvora permitirá aos homens matar milhões, e somente desta forma, por fogo e por sangue, surgirá uma nova civilização, em algum dia remoto. E de que proveito será? Assim como a velha civilização passou, a nova também passará. Pode levar cinquenta mil anos para ser construída, mas vai passar. Todas as coisas passam. Somente permanecem a força cósmica e a matéria, sempre em fluxo, sempre agindo e reagindo e realizando os tipos eternos – o sacerdote, o soldado e o rei.

Da boca das crianças sai a sabedoria de todas as eras.10 Alguns lutarão, outros governarão, e outros rezarão; e todos os demais hão de labutar e sofrer dor enquanto, sobre seus cadáveres, é recriada de novo e de novo, num ciclo sem fim, a beleza surpreendente, a maravilha suprema do estado civilizado. Tanto faz se eu destruir aqueles livros da caverna – quer permaneçam, quer pereçam, todas as suas velhas verdades serão descobertas, e as velhas mentiras serão revividas e transmitidas. De que adianta...”

10. Expressão bíblica: “Da boca das crianças e dos que mamam tu suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres calar o inimigo e vingativo.” (Salmo 8, 2) Também nos Evangelhos, Jesus cita esse versículo: “Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia e os meninos clamando no templo: ‘Hosana ao Filho de Davi’, indignaram-se e disseram-lhe: ‘Ouves o que estes dizem?’ E Jesus lhes disse: ‘Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?’” (Mateus 21, 15-16.) – NE.