segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Torre Negra: Lobos de Calla, de Stephen King

Editora: Suma de Letras

ISBN: 978–85–81050–25–6

Tradução: Mário Molina

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 744

Sinopse: Depois de escapar das perigosas entranhas de Blaine, o monotrilho desgovernado, e das garras do vingativo feiticeiro Randall Flagg, Roland e seu Ka-tet retomam o caminho do Feixe de Luz que conduz à Torre Negra, centro de todo tempo e todo espaço.

Nas fronteiras do Mundo Médio, o grupo de pistoleiros é abordado por um assustado grupo de representantes da cidade de Calla Bryn Sturgis. Dali a menos de um mês, Calla será atacada pelos Lobos – cavaleiros mascarados que surgem uma vez a cada geração, para roubar metade das crianças da cidade e devolvê-las semanas depois, física e mentalmente incapacitadas.

Enquanto isso, na Nova York de 1977, a Corporação Sombra planeja atacar o terreno baldio na esquina da Segunda Avenida com a Rua Quarenta e Seis onde floresce uma rosa – na verdade a Rosa, manifestação da Torre Negra no mundo atual.

Como Roland e seus amigos poderão ao mesmo tempo salvar a Rosa e combater os Lobos? Somente com a ajuda do Treze Preto, o mais poderoso dos Globos do Mago, na verdade o próprio olho do Rei Rubro. Mas, para salvar o mundo do caos, os pistoleiros terão de aprender a confiar nesse objeto sinistro e traiçoeiro...

Inspirada no universo imaginário de J.R.R. Tolkien, no poema épico do século XIX Childe Roland a Torre Negra Chegou, e repleta de referências à cultura pop, às lendas arturianas e ao faroeste, A Torre Negra mistura ficção científica, fantasia e terror numa narrativa que forma um verdadeiro mosaico da cultura popular contemporânea.



“Eddie passou no mínimo uma hora contando a Roland a história de João e Maria, transformando a perversa bruxa comedora de crianças em Rhea do Coos quase sem pensar nela. Quando chegou a parte em que ela tentava engordar as crianças, ele se interrompeu e perguntou a Roland: – Conhece esta? Uma versão desta?

– Não – disse Roland –, mas é uma bela história. Conte até o fim, por favor.

Eddie contou, acabando com o exigido E viveram felizes para sempre, e o pistoleiro aquiesceu.

– Ninguém nunca vive feliz para sempre, mas deixamos as crianças aprenderem isso por conta própria, não é?”

 

 

“A mãe de Roland tinha um ditado: O amor tropeça.”

 

 

“– Se – disse Roland. – Um velho mestre meu dizia que esta era a única palavra de mil letras.”

 

 

“Havia um ditado em Gilead: Que o mal espere pelo dia em que deve se abater.”

 

 

“– Os que mantêm conversa consigo mesmos viram triste companhia.”

 

 

“Eddie sorriu e nada disse por mais algum tempo, esperando que Telford mudasse de assunto. Esperando que Telford desse o fora, na verdade. Não existe tal sorte. Os chatos não desgrudam da gente: isto era quase uma lei da natureza.”

 

 

“Acima de pequenas doses, o álcool é uma toxina, e Callahan vinha se envenenando todas as noites. Era o veneno em seu sistema, não o estado do mundo nem o de sua própria alma, que o estava derrubando. Fora isso sempre tão óbvio assim? Depois (em outra reunião dos AA), ele ouvira um sujeito referir-se ao alcoolismo e à dependência como o elefante na sala: como era possível não vê-lo? Callahan não lhe dissera, ainda estava nos primeiros noventa dias de sobriedade àquela altura (“Tire o algodão dos ouvidos e enfie na boca”, aconselhavam os dos velhos tempos, e todos agradecemos), mas podia ter-lhe dito, na verdade, sim. Era possível não ver o elefante se fosse um elefante mágico, se tivesse o poder de toldar as mentes dos homens. De fazer a gente acreditar mesmo que nossos problemas eram espirituais e mentais, mas de modo algum etílicos. Meu Bom Jesus, só a perda do sono REM, relacionada à bebedeira, bastava para nos foder com plena razão, mas de algum modo a gente nunca pensava nisso quando estava ativo. A pinga transformava seu processo mental numa coisa semelhante àquele número circense em que todos os palhaços vêm saltando do carrinho. Quando as revíamos na sobriedade, as coisas que disséramos e fizéramos nos faziam estremecer (“Eu me sentava num bar resolvendo todos os problemas do mundo, depois não conseguia encontrar meu carro no estacionamento”, lembrou um colega na reunião, e todos agradecemos”).”

 

 

“– Eu sei como começa a escalada de volta – disse. – Tinha tomado suficientes drinques de fundo, ido a suficientes reuniões dos AA no East Side, Deus sabe. Portanto, quando me deixaram sair, encontrei os AA em Topeka e passei a ir todo dia. Nunca olhava para a frente, nunca olhava para trás. “O passado é história, o futuro é um mistério”, dizem. Só que desta vez, em vez de me sentar no fundo da sala e não dizer nada, eu me obrigava a ir direto para a frente, e durante as apresentações dizia: “Sou Don C. e não quero beber mais.” Eu queria, sim, todo dia sentia falta, mas nos AA eles têm ditados para tudo, e um deles é: “Finja até conseguir.” E aos pouquinhos eu consegui mesmo. Acordei um dia no outono de 1982 e compreendi que realmente não queria mais beber. A compulsão, como eles dizem, se fora.”

 

 

“– As promessas são feitas para serem quebradas.”

 

 

“– Jack Kennedy não era um homem mau – disse Susannah calmamente. – Jack Kennedy era um homem bom. Um grande homem.

– Talvez. Mas sabe de uma coisa? Eu acho que é preciso ser um grande homem para cometer um grande erro.”

 

 

     “Meu pai e o pai de Cuthbert tinham uma regra entre eles: primeiro chegam os sorrisos, depois, as mentiras. Por último, o tiroteio.”

 

 

“Em Calla Bryn Sturgis (como na maioria dos lugares), os homens em estado de sobriedade não gostavam muito de falar sobre seus corações.”

 

 

“Susannah pôs a mão no quadril dele e virou-o para ela.

– Mas as coisas podem dar errado, por isso eu quero lhe dizer uma coisa enquanto estamos só nós dois, Eddie. Quero dizer o quanto amo você. – Falou simplesmente, sem drama.

– Eu sei que me ama – disse ele –, mas diabos me levem se eu souber por quê.

– Porque você me faz sentir inteira. Quando eu era mais jovem, vacilava entre achar que o amor era esse grande e glorioso mistério e que era apenas uma coisa que um bando de produtores de Hollywood inventou pra vender mais ingressos na Depressão, quando tudo deu errado – Eddie riu.

– Agora acho que todos nós nascemos com um buraco em nossos corações, e andamos por aí à procura da pessoa que possa enchê-lo. Você – Eddie, você o encheu até em cima.”

 

 

“Um amigo do padre Callahan dera-lhe uma blasfema mostra de tapeçaria que o fizera soltar rajadas de risada horrorizada na época, mas que foi parecendo mais verdadeiro e menos blasfemo com o passar dos anos: Deus me conceda a SERENIDADE para aceitar o que não posso mudar, a TENACIDADE para mudar o que posso e a BOA SORTE para não foder tudo com muita frequência.”

sábado, 14 de junho de 2014

10 dias que abalaram o mundo – John Reed

Editora: L&PM
ISBN: 978-85-254-1194-5
Tradução: José Octavio
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 376
Sinopse: Considerado como a primeira grande reportagem moderna, este livro é uma minuciosa e vibrante descrição da revolução comunista de 1917 na Rússia. Ler 10 dias que abalaram o mundo é como assistir pessoalmente aos dramáticos acontecimentos que culminaram com a instauração de um regime que durou mais de cinquenta anos e esteve no centro dos principais acontecimentos do século XX.
John Reed nasceu no Oregon, nos Estados Unidos, em 1887 e morreu em Moscou em 1920. Deslocado para a Europa em 1914 pela Metropolitan Magazine para a cobertura da Primeira Grande Guerra, recém-iniciada, Reed e sua esposa, Louise Bryant (1885-1936), percorreram os Bálcãs e chegaram em Moscou no auge do movimento revolucionário. Egresso da Universidade de Harvard, Reed sempre foi sensível às causas sociais e apaixonado pelo jornalismo. Ficou conhecido por acompanhar a revolução mexicana de Emiliano Zapata e Pancho Villa em 1914, cujo relato resultou no também célebre livro México rebelde.
Em Moscou, aproximou-se de Lênin e outros líderes comunistas, identificando-se integralmente com os ideais comunistas da Revolução. Morreu em Moscou ao contrair tifo e recebeu da Revolução – que acompanhou e ajudou a divulgar no mundo inteiro – a maior homenagem: foi o único ocidental a ser enterrado nas muralhas do Kremlin, próximo do mausoléu de Lênin, ao lado de Stalin, Gagarin e outros heróis da então União Soviética.

“Após a revolução, o termo “soviete” foi empregado para designar um tipo de assembleia eleita pelas organizações econômicas da classe operária: os sovietes dos deputados operários, camponeses e soldados.”


“Atravessei o rio para ir ao Circo Moderno, onde ia ter lugar um dos grandes comícios populares, comícios esses que se realizavam todas as noites, por toda a cidade, em número cada vez maior. No interior do anfiteatro, simples e triste, iluminado por cinco pequenas lâmpadas pendentes de um fio, apinhavam-se até o teto soldados, marinheiros, trabalhadores e mulheres, ouvindo atentamente os oradores, como se estivessem em jogo suas próprias vidas. Falava um soldado da 548ª Divisão. Tinha uma verdadeira angústia na fisionomia macilenta e nos gestos desesperados: – Camaradas – gritou ele –, os que estão no poder exigem de nós sacrifícios sobre sacrifícios. Mas os que tudo têm nada sofrem. Estamos em guerra com a Alemanha. Podemos consentir que generais alemães entrem para o nosso Estado-Maior? Pois bem, companheiros: estamos também em guerra com os capitalistas. Entretanto, consentimos que eles ingressem no nosso governo. O soldado quer saber por quem combate. Por Constantinopla, ou pela liberdade da Rússia? Pela democracia, ou pelo banditismo capitalista? Se me provarem que estamos lutando pela revolução, marcharei para a frente, sem que seja preciso me ameaçarem com a pena de morte. Quando a terra pertencer aos camponeses, as fábricas aos operários, e o poder aos sovietes, então teremos o que defender, então teremos por que lutar.”


“Não há nada de comum entre a classe trabalhadora e a classe exploradora.”


“– A insurreição é um direito de todos os revolucionários! Quando as massas oprimidas se rebelam, elas estão fazendo uso de um direito seu.” (Trótsky)


“Mas, de repente, ouviu-se uma nova voz, mais profunda, dominando o tumulto da assembleia. Era a voz surda do canhão! Todos os olhares voltaram-se ansiosamente para as janelas. Uma espécie de febre ardente dominou a assembleia.
Martov pediu a palavra. E, com voz rouca, disse:
– Camaradas! A guerra civil já começou. É necessário discutir em primeiro lugar a solução pacífica da crise. Tanto por questões de princípios, como por motivos políticos, devemos começar a sessão de hoje discutindo com a maior urgência os meios de fazer cessar a guerra civil. Nossos irmãos estão morrendo nas ruas... neste momento em que se procura resolver a questão do poder, antes da abertura do Congresso dos Sovietes, por meio de uma conspiração militar organizada por um único dos partidos revolucionários – (Durante alguns instantes o trovejar da artilharia abafou-lhe as palavras.) –... Todos os partidos devem encarar este problema. A primeira questão que o Congresso vai discutir é a do poder. Mas ela já está sendo resolvida nas ruas, pela força das armas... Temos a missão de criar um poder que toda democracia possa reconhecer. Se este congresso quer ser o porta-voz da democracia revolucionária, não deve ficar de braços cruzados ante a guerra civil que ameaça fazer explodir uma perigosa contrarrevolução. Só há uma solução pacífica para a crise atual: a formação de um poder com a participação de todas as organizações democráticas num bloco unido... Proponho que se eleja uma delegação para negociar com todos os partidos e organizações socialistas.
O surdo ribombar do canhão continuava a fazer estremecer os vidros das janelas, com intermitências regulares, enquanto os deputados discutiam e se insultavam.
Foi assim, sob o troar da artilharia, na obscuridade, no meio de ódios, de medo e da mais temerária das audácias, que nasceu a nova Rússia.”


“Exatamente às oito horas e quarenta minutos, uma tempestade de aplausos anunciou a chegada da presidência, com Lênin, o grande Lênin, à frente.
Uma silhueta baixa. Cabeça redonda e calva, mergulhada entre os ombros. Olhos pequenos, nariz rombudo, boca larga e generosa. Mandíbula pesada. Estava completamente barbeado. Mas a sua barba, dantes tão conhecida e que daquele momento em diante iria ser eterna, já começava a despontar novamente. O casaco estava puído; as calças eram compridas demais. Sua aparência física não indicava que ele poderia ser um ídolo das multidões. Mas foi querido e venerado como poucos chefes em toda a história. Um estranho chefe popular. Chefe só pelo poder do espírito. Sem brilho, sem ditos chistosos, intransigente e sempre em destaque, sem a menor particularidade interessante, mas possuindo, em alto grau, a capacidade de explicar ideias profundas em termos simples e de analisar concretamente as situações. Senhor de prodigiosa audácia intelectual. Assim era Lênin.”


“Os soldados de um povo livre não se entregam nem se rendem.”


“Trótsky ergueu-se, de novo, ardente, infatigável, dando ordens, respondendo às perguntas:
– A pequena burguesia, para aniquilar o proletariado, os soldados e os camponeses, é capaz de se aliar até com o Diabo.”


“No pavimento térreo, encontramos Kamenev, que acabava de chegar. Embora extenuado pela sessão noturna da Conferência para a Formação de um Novo Governo, estava satisfeito.
– Já os socialistas revolucionários inclinam-se a favor da nossa admissão ao novo governo – disse-me. – Os grupos da direita estão aterrorizados com tribunais revolucionários e pedem, espantados, que, antes de tudo, e sobretudo, os dissolvamos. Aceitamos a proposta do Vikjel referente à formação de um governo socialista homogêneo; tratamos, atualmente, dessa questão. É o fruto da nossa vitória. Quando éramos os mais fracos, nada queriam conosco; agora, todo mundo é partidário de um acordo com os sovietes. Entretanto, o que necessitamos é de uma vitória verdadeiramente decisiva. Kerenski quer armistício, mas será preciso que capitule.
Tal era o estado de espírito dos chefes bolcheviques. A um jornalista estrangeiro, que solicitava uma declaração, Trótsky disse:
– A única declaração possível, neste momento, é a que fazemos pela boca dos nossos canhões!”


“Melnitchanski contou-me também algumas passagens interessantes dos últimos acontecimentos. Num dia frio e escuro, estava ele na esquina da Nikítskaia. As descargas das metralhadoras varriam as ruas. Ao seu lado, estava reunido um bando de crianças, essas pobres criaturas que vendem jornais. Não pareciam impressionar-se com o tiroteio. Davam gritos agudos, como se estivessem brincando. Quando a fuzilaria diminuiu, procuraram atravessar a rua correndo... Muitos deles, atingidos pelos projéteis, caíram mortos. Mas os outros continuaram correndo pela rua de um lado para outro, rindo, brincando, numa absoluta inconsciência do perigo!”


“Ao longo da praça, elevava-se a massa escura das torres e das muralhas do Kremlin. No alto das muralhas resplandecia um débil clarão de fogos invisíveis e, através da praça, chegavam até meus ouvidos ruídos de vozes, de picaretas e pás. Atravessei a praça.
Ao lado da muralha, erguia-se uma montanha de pedras e de terra. Subi ao alto e vi enormes fossas de uns dez ou quinze pés de profundidade e cerca de cinquenta metros de largura, que centenas de operários e soldados estavam cavando, à luz de grandes archotes.
Um jovem estudante disse-me em alemão:
– É o Túmulo Fraternal. Amanhã, enterraremos aqui os quinhentos proletários que tombaram combatendo pela revolução*.
Desci à fossa. Ninguém falava. As picaretas e as pás trabalhavam febrilmente. A montanha de terra crescia. Por cima de nossas cabeças, miríades de estrelas brilhavam na noite. E o antigo Kremlin dos czares levantava para os céus suas formidáveis muralhas.
– Neste lugar sagrado – disse o estudante –, o lugar mais sagrado de toda a Rússia, vamos enterrar aquilo que para nós é mais sagrado. Aqui, onde dormem os czares, descansará agora o nosso czar: o povo!
Tinha um braço na tipoia. Recebera uma bala no combate. Olhando para seu braço ferido, continuou:
– Vocês, estrangeiros, desprezam-nos porque suportamos durante muito tempo uma monarquia medieval. Mas hoje já se sabe que o czar não era o único tirano do mundo... Hoje, já se sabe que o capitalismo europeu é também uma tirania talvez pior que o czarismo, porque em todos os países do mundo o capitalismo é imperador! A tática da Revolução Russa mostra ao mundo inteiro o caminho, o verdadeiro caminho da libertação.
Quando me retirava, os trabalhadores, esgotados, e, apesar do frio, inteiramente empapados de suor, começavam a saltar com dificuldade para fora da fossa. Chegava outra turma, caminhando através da praça. Sem dizer uma só palavra, ela desceu, apanhou as ferramentas deixadas pelos companheiros e continuou o trabalho que estes haviam começado. Durante a noite inteira, os voluntários do povo revezaram-se sem cessar. Quando a fria luz da manhã se estendeu sobre a grande praça coberta por alvo lençol de neve, as fossas da Tumba Fraternal já estavam terminadas.”
*: Este cemitério ainda é conservado. Viça entre o túmulo de Lênin e as muralhas do Kremlin. Na própria base das muralhas do Kremlin, foram enterrados muitos revolucionários. As cinzas de John Reed também repousam aí. (N. do E.)


“Vagarosamente, os homens que levavam os féretros chegaram às bordas do túmulo. Transportando suas cargas, escalaram os montões de terra e desceram ao fundo das fossas. Havia entre eles muitas mulheres, dessas mulheres do povo, corpulentas e robustas. Acompanhando os mortos, outras mulheres ainda jovens, mas aniquiladas pelos sofrimentos; mulheres velhas, com as faces enrugadas, lançando gritos agudos de animais feridos querendo atirar-se na fossa atrás de seus filhos ou maridos, debatendo-se, quando mãos piedosas procuravam contê-las. É assim que os pobres amam.”


“Trótsky defendeu com ardor a resolução bolchevique, procurando mostrar a diferença entre a situação da imprensa durante a guerra civil e depois da vitória:
– Durante a guerra civil, só os oprimidos têm o direito de empregar a violência... – (Gritos: “Onde estão os oprimidos?”) – O adversário ainda não está vencido completamente. Os jornais são armas. Eis por que é necessário proibir a circulação de jornais burgueses. É uma medida de legítima defesa!
Em seguida, abordou a situação da imprensa após a vitória:
– Precisaremos, é claro, de uma lei de imprensa. Já estamos cuidando disso. Muito antes da vitória da revolução, já afirmávamos que não podíamos encarar a liberdade de imprensa do ponto de vista dos proprietários dos grandes jornais. As medidas aplicadas contra a propriedade privada são também aplicáveis à imprensa. É necessário confiscar, em benefício do povo, todos os grandes jornais, todas as oficinas, todos os depósitos de papel. – (Aparte: “Confisquem as oficinas do Pravda!”) – A burguesia sempre monopolizou a imprensa. Sem a abolição desse monopólio, a conquista do poder não tem o menor significado. Todos os cidadãos da Rússia precisam ter à sua disposição jornais, tipografias e papel. O direito de propriedade das tipografias e oficinas dos jornais cabe, em primeiro lugar, aos camponeses e operários, que representam a maioria da população. A burguesia está em segundo plano, porque é minoria insignificante. A tomada do poder pelos sovietes irá modificar radicalmente todas as condições de existência social. A imprensa também tem que ser atingida, também tem que ser modificada. Não nacionalizamos os bancos? Como poderemos respeitar jornais que são propriedade de bancos? O antigo regime deve perecer. Todos precisam compreender isso, de uma vez para sempre.”


“Quando se faz uma revolução, é necessário não contemporizar.” (Lênin)


“A 27 de novembro, apareceu no Smólni uma delegação de cossacos, que desejava falar com Lênin e Trótsky. Recebidos, perguntaram se era verdade que o governo soviético tinha a intenção de dar as terras dos cossacos aos camponeses da Grande Rússia.
– Não – respondeu Trótsky. Os cossacos discutiram entre si.
– Está bem – disseram. – Mas o governo tem a intenção de confiscar as terras dos grandes proprietários cossacos para entregá-las aos trabalhadores cossacos?
Foi Lênin quem respondeu:
– Isso depende de vocês. Cabe-lhes fazer isso. Nós apoiaremos tudo que os trabalhadores cossacos fizerem nesse sentido. Para começar, vocês devem desde já organizar seus próprios sovietes cossacos. Deste modo, poderão indicar seus representantes para o Comitê Central Executivo e o governo soviético será o governo de vocês mesmos...
Os cossacos se retiraram, mas não se esqueceram dessas palavras. Duas semanas depois, o General Kaledin foi procurado por uma delegação de suas tropas:
– É capaz de prometer-nos – perguntaram os delegados – repartir as terras dos senhores cossacos entre os trabalhadores cossacos?
– Nunca! Prefiro morrer! – respondeu Kaledin. Passado um mês, o exército de Kaledin dissolvia-se, como por encanto. Desesperado, Kaledin estourou os miolos com um tiro. O movimento cossaco terminou assim.”


“Com o decreto sobre a nacionalização dos bancos; com a criação do Conselho Superior da Economia Nacional; com a aplicação efetiva do decreto sobre a terra; com a reorganização democrática do Exército, através das transformações radicais realizadas em todos os domínios do Estado e da vida social, medidas que só puderam ser postas em prática porque eram a expressão da vontade dos operários, soldados e camponeses, começou a surgir, lentamente, por entre erros e dificuldades, a nova Rússia proletária.
Os bolcheviques conquistaram o poder. Mas conquistaram-no sem acordos com as classes dominantes ou com os diversos chefes de partidos políticos, destruindo o antigo mecanismo governamental. Não chegaram tampouco ao poder por meio de um golpe de força organizado por um pequeno grupo. A revolução teria fracassado, se as massas não tivessem sido preparadas em toda a Rússia para a insurreição. Por que os bolcheviques venceram? Porque sabiam lutar pelas pequenas e pelas grandes aspirações e reivindicações das grandes camadas populares, organizando-as e dirigindo-as para a destruição do passado e lutando com elas para edificar, sobre as ruínas fumegantes do sistema social destruído, uma nova sociedade, um novo mundo.”


“Lênin pediu a palavra, sendo ouvido, desta vez, com a maior atenção:
– Neste momento, está em jogo não só a questão da terra, mas o problema da revolução social. E esse problema não se limita à Rússia: é um problema de importância mundial. A questão da terra não pode ser separada das demais questões da revolução social. Para confiscarmos a terra, teremos de vencer não só a resistência dos proprietários russos, como a resistência do capital estrangeiro, porque os proprietários estão ligados a ele, através dos bancos. O regime da propriedade territorial na Rússia baseava-se na mais terrível exploração dos camponeses. Confiscando as terras dos grandes proprietários feudais, os camponeses realizaram o mais importante ato da nossa revolução. Para provarmos isto basta examinar as etapas percorridas pela revolução. Na primeira etapa, a autocracia, o poder da indústria capitalista e dos grandes proprietários, cujos interesses estão intimamente ligados, foi derrubada. Na segunda, os sovietes consolidam-se. É nesta etapa que se firma um compromisso político com a burguesia. Os socialistas revolucionários da esquerda erraram porque não se opuseram a esse acordo. E, para justificar sua atitude, disseram que, nesse momento, a consciência revolucionária das massas era ainda muito débil. Ora, se fôssemos esperar que todos os homens atingissem o mesmo grau de consciência para só depois disso lutar pelo socialismo, teríamos de esperar uns quinhentos anos para começar a luta!... O partido político do proletariado é a vanguarda da classe operária e, como vanguarda das massas, deve, ao contrário, lutar para arrastar essas massas atrás de si. Para tanto, os sovietes devem ser utilizados como instrumentos de iniciativa revolucionária. Mas, para dirigir os vacilantes, para arrastá-los, é preciso que os socialistas revolucionários da esquerda deixem de vacilar. De julho para cá, as massas populares começaram a romper com os “conciliadores”. Apesar disso, a esquerda revolucionária ainda estende a mão a Avksentiev... Conservar os compromissos é matar a revolução. Firmar acordos com a burguesia é trair a revolução. Não precisamos de entendimentos ou de compromissos com a burguesia. Precisamos, sim, esmagar completamente o poder burguês! O Partido Bolchevique não repudiou seu programa quando aceitou os regulamentos elaborados pelos comitês agrários, porque esses regulamentos não implicam a conservação da propriedade privada. Queremos encarnar, na prática, a vontade popular. Queremos ser os executores da vontade do povo, porque, de outro modo, não poderemos fundir, num só bloco, todos os elementos da revolução social.”


“Já convidamos os socialistas revolucionários a ingressar no novo governo. Novamente lhes fazemos o mesmo convite. Só estabelecemos uma condição. Exigimos que os socialistas revolucionários da esquerda rompam, definitivamente, com os elementos vacilantes do seu partido. Os socialistas revolucionários precisam romper com seu passado e olhar para frente...”
“O orador que me precedeu disse que as decisões da Assembleia Constituinte serão determinadas pela pressão revolucionária das massas. Concordamos. Mas achamos que é preciso apresentar a questão da seguinte maneira: “Camponeses! Confiem na pressão revolucionária, mas não esqueçam nunca que em suas mãos há um fuzil!”.
Em seguida, Lênin leu o seguinte projeto, elaborado pelos bolcheviques:
“O Congresso Camponês aprova, por unanimidade, e sem qualquer restrição, o decreto sobre a terra que foi promulgado a 8 de novembro último pelo Conselho dos Comissários do Povo, na qualidade de Governo Provisório Operário e Camponês da República Russa, reconhecido pelo Congresso Pan-Russo dos Deputados Operários e Camponeses. O Congresso Camponês declara que está disposto a lutar sem a menor vacilação e com todas as suas forças para fazer aplicar na prática o decreto sobre a terra. Ao mesmo tempo, aconselha todos os camponeses não só a apoiá-lo, como a aplicá-lo na prática, por si mesmos, sem perda de um minuto. Aconselha também todos os camponeses a eleger para os cargos importantes unicamente pessoas que já tenham demonstrado, não por palavras, mas através de atos, sua capacidade de lutar com a maior abnegação pelos interesses dos camponeses contra toda resistência dos grandes proprietários, dos capitalistas e de todos os seus lacaios e defensores. O Congresso Camponês declara também estar convencido de que as decisões do decreto sobre a terra só poderão ser definitivamente asseguradas com a vitória da revolução proletária socialista iniciada a 7 de novembro. Só a vitória dessa revolução poderá assegurar a divisão de terras entre os camponeses, o confisco das máquinas agrícolas e a defesa dos interesses de todos os assalariados agrícolas, através da abolição imediata e definitiva do sistema de escravidão capitalista, com a distribuição racional e regular dos produtos da agricultura e da indústria por todas as diferentes regiões do país, entre seus habitantes, através da nacionalização dos bancos (condição indispensável para que a terra se transforme, efetivamente, em propriedade coletiva) e da ajuda sistemática à agricultura, aos trabalhadores, aos explorados, etc., por parte do Estado”.
“Por todos esses motivos, o Congresso Camponês, ao mesmo tempo que se declara inteiramente solidário com a Revolução Socialista de 7 de novembro, afirma sua vontade de lutar, com a maior energia e sem vacilações, em prol da aplicação das medidas necessárias à transformação socialista da Rússia.”
“Sem a mais estreita união dos trabalhadores explorados do campo com a classe operária e com o proletariado de todos os países, a revolução socialista não poderá vencer, nem o decreto sobre a terra poderá ser aplicado integralmente. De agora em diante, toda a organização do Estado, na Rússia, será erguida na base desta estreita união. Essa união das massas exploradas do campo com a classe operária e o proletariado de todos os países garante a vitória do socialismo no mundo inteiro, desde que se exclua toda tentativa, direta ou indireta, clara ou disfarçada, de colaboração com a burguesia ou com seus políticos influentes.”

terça-feira, 10 de junho de 2014

A Torre Negra: Mago e Vidro, de Stephen King

Editora: Suma de Letras

ISBN: 978-85-81050-24-9

Tradução: Mário Molina

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 810

Sinopse: A estranha e inesquecível odisseia de Roland de Gilead em busca da Torre Negra continua. No quarto volume da série imaginada por Stephen King, novos perigos ameaçam o ka-tet de Roland – formado por Jake, Eddie Dean, Sussanah e Oi.

Mago e Vidro retoma a eletrizante narrativa interrompida em As Terras Devastadas. Depois de enfrentar a terrível ameaça do monotrilho Blaine, o último pistoleiro e seus seguidores desembarcam na cidade de Topeka, no Kansas, e retomam o caminho do Feixe de Luz que conduz à Torre Negra. Roland revela então aos companheiros a história de seu passado, e a trágica perda de seu grande amor de juventude, a bela Susan Delgado.

Prosseguindo em sua jornada, o ka-tet chega a um palácio de vidro verde onde encontra ninguém menos do que o antigo nêmesis de Roland: Marten Broadcloak, conhecido em alguns mundos como Randall Flagg, em outros como Richard Fannin, e em outros ainda como John Farson, o Homem Bom. E Roland e seus companheiros descobrem então uma pavorosa verdade sobre o passado do pistoleiro...

Inspirada no universo imaginário de J.R.R. Tolkien, no poema épico do século XIX Childe Roland a Torre Negra Chegou, e repleta de referências à cultura pop, às lendas arturianas e ao faroeste, A Torre Negra mistura ficção científica, fantasia e terror numa narrativa que forma um verdadeiro mosaico da cultura popular contemporânea.



“Em Gilead, antes que o mundo seguisse adiante, a lua cheia do Fim do Ano fora chamada de Lua do Demônio, e as pessoas achavam que dava azar olhar diretamente para ela. Agora, contudo, isso não tinha importância. Agora havia demônios por toda parte.”

 

 

“– A vida é azeite, não óleo de rícino.”

 

 

“Deus odeia os covardes.”

 

 

“– Quando Eddie fica mesmo fodido, é capaz de convencer o diabo a tocar fogo no próprio corpo.”

 

 

“Tentou dizer que estava bem, que podiam ficar tranquilos, ele estava ótimo, mas não conseguiu pronunciar uma só palavra; aquele terrível som ondulante o transportara para o desfiladeiro retangular a oeste de Hambry tantos e tantos anos atrás. Depape, Reynolds e o velho coxo Jonas. Acima de tudo, no entanto, era a mulher da colina que ele odiava, e das profundezas mais negras de sentimentos que só um homem muito jovem podia atingir. Ah, mas como poderia ter feito outra coisa a não ser odiá-los? Seu coração fora partido. E agora, tantos e tantos anos mais tarde, parecia-lhe que o fato mais horrível da existência humana era que corações partidos saram.”

 

 

“– Acho que o serviço das putas tende a ser superestimado pelos jovens.”

 

 

“Ela deu uma risada. Os homens eram engraçados, sim, é claro que eram, e o que havia de mais divertido era que praticamente eles não tinham a menor consciência disso. Homens, com nomes que lhes pareciam tão valentes, tão capazes de impor respeito. Homens, tão orgulhosos de seus músculos, suas aptidões para a bebida, suas aptidões para a comida; tão incessantemente orgulhosos de suas picas. Sim, mesmo naqueles tempos em que um número imenso deles não conseguia soltar nada além do sêmen estranho e corrompido que produzia crianças que só serviam para ser afogadas no poço mais próximo. Ah, mas a culpa jamais era deles, certo, meu caro? Não, era sempre a mulher – seu útero, sua falha. Homens eram tão covardes. Tão francamente covardes. Aqueles três não tinham fugido da regra geral. O velho que mancava sabia olhar de frente – sim, sabia, um par de olhos claros e francamente curiosos tinha partido daquela cabeça e se fixado nela –, mas a mulher não viu nada naqueles olhos com que não soubesse lidar, a verdade foi essa. Homens! Não conseguia entender por que tantas mulheres os temiam. Não tinham os deuses criado os homens com a parte mais vulnerável de seus órgãos pendendo fora dos corpos, como um pedaço deslocado de tripa? Chutem aquilo e eles se curvarão como caracóis. Acariciem aquilo e seus cérebros se derreterão.” 

 

 

“Quando não há alternativa, a hesitação é sempre um erro.”

 

 

“Os bobos são as únicas pessoas da Terra que acreditam que vão conseguir o que merecem.”

 

 

“Roland virou para o outro lado, fechou os olhos e caiu no sono. O descanso foi leve, iluminado pelos sonhos cruamente poéticos que só garotos adolescentes têm, sonhos onde a atração sexual e o amor romântico se juntam e ressoam com mais força do que jamais conseguirão ter.”

 

 

“O diabo que se conhece é sempre preferível ao que não se conhece.”

 

 

“Frequentemente é melhor o silêncio, o pai lhe dissera quando, com cerca de dez anos, ela lhe perguntara por que estava sempre tão calado. Na época, a resposta a deixara confusa, mas agora tinha mais compreensão.”

 

 

“Seria possível lembrar a angústia e doçura daqueles primeiros anos? Recordamos nosso primeiro amor verdadeiro tão claramente quanto as ilusões provocadas pelo delírio de uma febre alta.”

 

 

“Como acontece com qualquer outra droga forte, o primeiro amor verdadeiro só é realmente interessante para aqueles que se tornaram seus prisioneiros.”

 

 

“E como ninguém suspeitava, podia continuar. De que outra forma seria possível suportar o idiota do irmão? A idiota daquela cidade? E, é claro, o conhecimento de que todos os rancheiros da Associação dos Cavaleiros, e pelo menos metade dos grandes proprietários de terra, eram traidores? – Foda-se a Confederação – ela sussurrou. – Melhor um pássaro na mão... Mas teria realmente um pássaro na mão? Alguém ali teria? Manteria Farson suas promessas? Promessas feitas por um homem chamado Latigo e passadas adiante pelo inimitável Kimba Rimer... Coral tinha suas dúvidas se seriam cumpridas; déspotas tinham modos muito convenientes de esquecer as promessas, assim como pássaros na mão tinham uma irritante mania de beliscar os dedos, fazer cocô na palma e depois voar. Não que isso ainda importasse; ela, pelo menos, tinha onde dormir. Além do mais, as pessoas sempre bebem, jogam e trepam, independentemente do sujeito para quem devem curvar os joelhos ou em cujo nome os impostos são cobrados.”

 

 

“– A única coisa que tenho para me orientar é o suor da minha testa.”

 

 

“– Talvez tenhamos de ver uma matança por aqui. Quem sabe? De qualquer modo, são as perguntas sem resposta que fazem valer a pena acordar de manhã.”

 

 

“Acordar para a verdade quando é tarde demais é uma coisa terrível.”

 

 

“A voz do pai era a mais severa das vozes, a voz que frequentemente ouvia em sonhos agitados, a voz que queria tanto agradar e tão raramente conseguia.”

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Musashi: As Duas Forças – A Harmonia Final – Eiji Ishiokawa

Editora: Estação Liberdade
ISBN: 978-85-7448-168-5
Tradução: Leiko Gotoda
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 504
Sinopse: Ver Parte I


“– Iori!
– Pronto, senhor! 
No instante em que respondeu, o menino já estava ajoelhado aos pés de Musashi. Esse era um hábito que Musashi vinha incutindo com rigor em seu discípulo nos últimos tempos. Joutaro não tinha sido educado desse modo porque Musashi acreditara, à época, que uma criança devia ter a liberdade de agir como bem entendesse, e que essa seria a maneira correta de promover o crescimento natural de um ser. Ele próprio fora criado assim. Com o passar dos anos, porém, seu modo de pensar alterou-se. O homem tinha tendências naturais que precisavam ser estimuladas e outras que, ao contrário, deviam ser inibidas. Deixadas à vontade, certas qualidades indesejáveis vicejavam, enquanto outras, positivas, estagnavam. Era uma realidade, que constatava até com relação às plantas que cortara para construir a choupana: árvores que gostaria de ver brotando uma vez mais desapareciam para sempre, enquanto arbustos inúteis e ervas daninhas tornavam a medrar por mais que os ceifasse.”


“O verdadeiro significado dos acontecimentos que marcam uma vida só podem ser avaliados com precisão ao fim dela.”


“Nem que mil anos se passem, um homem não consegue apagar da face da terra as marcas de suas ações, sejam elas boas ou más. Elas são como manchas de tinta negra sobre papel branco.”


“A verdade a que chega um sábio confinado no aposento nem sempre coincide com a verdade do mundo real.”


“O monge Gudo sempre dizia: “Ser rounin não é andar a esmo, pois andar a esmo é simplesmente ser um nômade. O verdadeiro rounin é íntegro e dotado de firme propósito, e carrega no peito a tristeza de sua condição nômade. O verdadeiro rounin não busca fama e riqueza, não se deixa atrair pelo poder; na carreira pública não tenta usar o poder político para proveito próprio; o particular nunca entra em questão quando a justiça é envolvida; é distante, livre e transparente como nuvem branca, mas sua ação é rápida como o desabar de um aguaceiro; encontra conforto na pobreza, não perde tempo lamentando insucessos...”.
– Também me lembro de ouvi-lo dizer que esse tipo de rounin era tão raro quanto pérolas no vasto oceano; contudo, examinando a história deste país, quantos rounin não houve que sacrificaram suas vidas incógnitos para salvar o país em momentos de crise? Um grande número de rounin desconhecidos estão hoje enterrados no solo desta pátria, são eles os pilares que sustentam este país...”


“Não há nada mais triste, para um homem, que ter a fama superando-lhe a capacidade.”


“Quando se vence um obstáculo difícil, experimenta-se em seguida a satisfação que supera todo o sofrimento. Na vida, sofrimentos e prazeres são ondas que se intercalam a todo momento. E se o homem procura espertamente navegar apenas nas ondas do prazer, permanecendo indolente, perderá o sentido da vida, alegrias ou prazeres deixarão de existir para ele.”


“A angústia dos acometidos pelo mal da inércia só pode compreender quem já a experimentou alguma vez. Ócio é algo com que todo ser humano sonha. O mal da inércia, entretanto, fica longe da agradável sensação de descanso e paz que o ócio proporciona: quem por ele é acometido não consegue agir, por mais que se empenhe. Mente amortecida e visão embaçada, o enfermo debate-se na poça do próprio sangue. Está doente, mas o corpo não apresenta alterações. Batendo a cabeça na parede, sem conseguir recuar ou progredir, preso num vácuo imobilizante, a pessoa sente-se perdida, duvida de si mesma, despreza-se, e por fim chora.”


“A desordenada selvageria, herança do período Sengoku, ainda persistia. Tramas e maquinações faziam parte do cotidiano de todos os homens, tornando-os extremamente cautelosos e desconfiados, não lhes permitindo confiar sequer nas próprias mulheres: a grande doença social que por algum tempo ameaçara romper até os sagrados laços do sangue continuava presente no seio do povo. Musashi, mais que ninguém, tinha motivos para ser cauteloso. Era grande o número de pessoas que tinham tombado sob sua espada, ou sido expulsas do convívio dos pares por sua causa. Somada à dos discípulos e parentes dessas pessoas, a quantidade de gente sedenta de vingança vagando pelo país em busca dele devia ser inacreditável. Ele podia ter tido razão e o duelo sido justo, mas visto pelo prisma dos vencidos, Musashi era simplesmente o inimigo. Um bom exemplo era a velha mãe de Matahachi. Por tudo isso, o perigo era uma constante na vida dos que trilhavam o caminho da espada nesses dias, e o aniquilamento de uma ameaça representava o surgimento automático de muitas outras, o crescimento da cadeia de inimigos. Não obstante, o perigo era também mó de incomparável qualidade, e os inimigos, preciosos mestres. Afiado pelo perigo que ameaça o sono sem tréguas, ensinando por intermédio de inimigos que buscam incessantemente uma brecha para matar, o caminho da espada é ainda o instrumento capaz de dar vida às pessoas, governar a sociedade, proporcionar a quem o trilha a grande paz da suprema Iluminação; é enfim, em sua essência, a expressão do sonho de compartilhar com todas as pessoas a alegria de viver eternamente em paz.”


“O raciocínio, não só nas artes marciais, mas em quase tudo, deve ser composto na calma do cotidiano. Na prática, as situações de perigo exigem resoluções instantâneas. Aqui, os raciocínios não têm valor: vale a intuição. O raciocínio é sem dúvida parte da própria trama da intuição, mas tem qualidade lenta, inútil em uma emergência, razão por que muitas vezes conduz à derrota. A intuição, por outro lado, é algo comum a todos os animais, até aos irracionais, de modo que é facilmente confundida com a capacidade extra-sensorial, não racional. Mas a intuição em indivíduos inteligentes e adestrados supera o raciocínio, atinge num piscar de olhos seu ápice e apreende com acerto a melhor solução para a emergência.”


“A vitória, todavia, nem sempre é de quem se empenha mais, assim como a derrota nem sempre é do arrogante. O imponderável, algo além das forças humanas, tem parte nesse jogo. Isto é normal num duelo e faz parte do cotidiano de um guerreiro.”


“– Este será um duelo entre dois hábeis espadachins: um, que possui aptidão natural e é arrogante; o outro, que sabe de suas limitações e se empenhou em polir a própria habilidade. 
– Não acho que Musashi-sama seja limitado. 
– Mas também não nasceu com o dom. Nada nele lembra a displicência do gênio que confia cegamente em seu talento. Mestre Musashi sabe que é homem comum e por isso se empenha incessantemente em polir suas habilidades. A agonia por que passa nesse processo só ele sabe. E quando, em determinado momento, essa habilidade alcançada com tanto custo explode em cores, o povo logo diz que a pessoa tem aptidão natural. Aliás, é a desculpa que os indolentes dão para justificar a própria incapacidade.”


“É claro que podes te adestrar num templo, mas o mais difícil é fazê-lo no mundo. Gente existe que repudia tudo que é sujo e conspurcado e se abriga no templo em busca da pureza. Entretanto, verdadeiramente se adestra aquele que convive com a mentira, a impureza, a dúvida e a competição; enfim, com todos os tipos de tentação, e não se deixa macular.”


“Lançou um olhar casual sobre a borda do bote e contemplou a água azul, turbilhonante. O mar era profundo, inescrutável. A água tinha vida, vida eterna, mas não forma. E enquanto o homem continuasse preso à forma, não alcançava a vida eterna. Só depois de perder a forma é que a teria, ou não. Vistas sob esse prisma, morte e vida eram tão insignificantes quanto uma bolha na superfície da água.”