segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Esperando Godot - Samuel Beckett

Editora: Cosac Naify

ISBN: 978-85-7503-458-3

Tradutor: Fábio de Souza Andrade

Opinião: ★☆☆☆☆

Páginas: 240

Sinopse: Junto a uma árvore desfolhada, no meio de um descampado, dois vagabundos, maltrapilhos mas pontuais, atendem dia após dia ao chamado de um certo senhor Godot, que prima por não comparecer ao encontro supostamente marcado. Esta é a substância escassa de Esperando Godot obra-prima de Samuel Beckett (1906-1989), o dramaturgo, romancista e poeta irlandês agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1969. Escrita em francês, durante o pós-guerra, a peça estreou em Paris no ano de 1953, e logo se firmou como um divisor de águas no teatro do século XX, questionando toda a tradição dramática do Ocidente. Os recursos cênicos e narrativos aqui utilizados por Becket logram atingir uma dimensão mítica com meios que eram, na época, e até hoje, absolutamente inovadores: a disjunção do modelo retórico das falas, a profundidade trágica em personagens clownescos, a gestualidade dramática ganhando ares de coreografia, o abandono dos solilóquios em favor das exposições narrativas etc.

A espera e a angústia de Vladimir e Estragon repetem-se ao infinito. Contudo, embora não tenha sido construída segundo as linhas tradicionais, com exposição, desenvolvimento, peripécia e desenlace, a obra tem uma estrutura firme, baseada justamente na repetição, nos leitmotifs e no equilíbrio exato de elementos variáveis, como um recurso irônico para acentuar os contrastes.

A nova tradução de Fábio de Souza Andrade – professor de Teoria Literária da USP, autor da tese “Samuel Beckett: o silêncio possível”, e que já publicou, também na coleção Prosa do Mundo, a outra peça mais famosa de Beckett, Fim de partida – vem acompanhada de uma pequena fortuna crítica, reunindo fragmentos de ensaios, críticas e memórias escritos por alguns dos maiores especialistas na obra beckettiana. Esta edição conta ainda com uma significativa compilação de fotos das montagens mais importantes e/ou mais inovadoras, dos principais colaboradores de Beckett (como o diretor Roger Blin e o artista plástico Giacometti) e do próprio autor participando da direção dos espetáculos. Por fim, há sugestões de leitura, indicando textos obrigatórios para quem deseja se aprofundar no assunto, além de algumas das versões cinematográficas mais relevantes da peça.



“– Juntos, tivéssemos sido os primeiros em nos jogar da Torre Eiffel. Então, sim que o passávamos bem. Agora já é muito tarde. Nem sequer nos deixariam subir.”

 

 

“– Quanto mais gente encontro, mais feliz sou. Com a criatura mais insignificante alguém aprende enriquece-se, saboreia melhor sua felicidade.”

 

 

“– As lágrimas do mundo são imutáveis. Por cada um que começa a chorar, em outra parte há outro que cessa de fazê-lo. O mesmo se passa com a risada. Não falemos, pois, mal de nossos tempos; são piores que os passados. Claro que tampouco devemos falar bem. Não falemos.”

 

 

“– Bem é verdade que ficando de braços cruzados, pesando os prós e os contras, também fazemos honra a nossa condição. O tigre se precipita em auxílio de seus semelhantes sem pensá-lo. Ou refugia-se no mais espesso da selva. Mas a questão não é esta. – “O que fazemos aqui?”, é o que temos que nos perguntar. Temos a sorte de sabê-lo. Sim; em meio desta imensa confusão, uma só coisa está clara: esperamos que venha Godot.”

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cartas do Front: relatos emocionantes da vida na guerra – Andrew Carrol (org.) (Parte I)

Editora: Zahar
ISBN: 978-85-378-0030-0
Tradução: Sérgio Lopes
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 440
Link para compra: Clique aqui
Sinopse: Cartas do front revela a dimensão humana da guerra. O livro de Andrew Carroll reúne correspondências de soldados e civis que participaram de vários conflitos na história mundial - das mensagens manuscritas da Guerra de Independência norte-americana aos e-mails enviados do Afeganistão. Emocionante, envolvente e dramático, o livro mostra que, na verdade, a guerra é uma sucessão de histórias particulares e anônimas. Ao longo de três anos, Carroll foi a diversos países, como Afeganistão, Iraque e Estados Unidos para pesquisar cartas e e-mails que nunca tivessem sido publicados. Cartas do front foi construído a partir dos depoimentos e do material recolhidos nestas viagens. Esta edição brasileira inclui um capítulo dedicado à correspondência dos pracinhas da FEB durante a Segunda Guerra Mundial. Soldados com saudade de casa, crianças temendo a morte nos campos de concentração e mulheres de militares sofrendo com a abstinência sexual emergem das páginas como personagens reais. Seus relatos emocionam, perturbam, fazem rir e chorar. O livro é dividido em capítulos temáticos e, além do horror e do desespero dos conflitos, apresenta casos marcados pelo amor, pela surpresa e pelo humor.



“Poucas horas antes de deixar Sarajevo, perguntei a Amir qual fora, para ele, o momento mais sombrio da guerra. Houve muitos, respondeu, mas o pior ocorreu durante o primeiro inverno do cerco à cidade. Sem eletricidade ou óleo combustível, os moradores morriam de frio em suas casas. Certa noite, o pai de Amir saiu para apanhar lenha, que começava a faltar em toda a cidade. (Até o final da guerra, praticamente todas as árvores de Sarajevo seriam cortadas. Alguns indivíduos, desesperados, apelaram para o artifício de desencavar túmulos e despedaçar caixões, simplesmente pela madeira.) Um soldado sérvio ou, mais provavelmente, um franco-atirador, avistou o pai de Amir e o baleou pelas costas. Os vizinhos conseguiram arrastá-lo para um carro e seguiram para um hospital. Antes do cerco, esse trajeto levaria somente alguns minutos. Por causa das barricadas que bloqueavam o caminho mais rápido até o hospital, no entanto, e devido ao perigo de transitar por certas localidades, viram-se obrigados a percorrer vagarosamente as ruas de Sarajevo. Apinhado de pacientes gravemente feridos, até mesmo o hospital estava às escuras. O pai de Amir sangrou até a morte, antes que um médico pudesse ao menos examinar seu ferimento.
Depois de ouvir essa, e com todas as outras histórias de atrocidades ainda frescas na memória, deixei escapar: “Meu Deus, você deve odiar os sérvios.”
“Não!”, respondeu Amir com firmeza. “Não e não. Já houve ódio demais. Estou cheio de tudo isso. Minha namorada é sérvia. Muitos sérvios em Sarajevo e em toda a Bósnia sofreram também. Muitas pessoas na Sérvia não sabiam o que estava acontecendo, pois Milosevic mentia para elas. Uma hora isso precisa acabar. Já houve o bastante. Tem que acabar.” Quando lhe perguntei como podia ter tamanha compaixão, ele respondeu: “Somente quem passou por isso pode realmente entender como é ruim.” Esse sentimento seria um dos temas recorrentes em minha viagem.
A primeira vez que o assunto me chamou a atenção foi durante minha visita a Volgogrado, apenas uma semana antes. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda se chamava Stalingrado, a cidade foi o cenário daquela que é considerada uma das mais sangrentas batalhas de todos os tempos. Dezenas de milhares de civis foram mortos nas primeiras 36 horas de bombardeio alemão, que se iniciou em 23 de agosto de 1942. Doenças proliferavam à medida que os corpos apodreciam nas ruas e os cachorros se alimentavam dos cadáveres. As tropas de ambos os lados coagiam meninos e meninas a servirem como batedores e mensageiros, com a função precípua de entregar mensagens e encher os cantis dos soldados no rio Volga e ambos os lados executavam as crianças suspeitas de ajuda ao inimigo. “A questão filosófica de saber se a violência é, em algum momento, justificável, já me atormentou”, escreveu de Stalingrado, em 29 de agosto, o tenente russo Joseph Maranov à sua amada Lola. “Agora”, continuou ele, “meu sonho, meu objetivo é destruir, sufocar e despedaçar o inimigo.” Aproximadamente meio milhão de russos e meio milhão de soldados alemães e do eixo morreram em cinco meses de selvageria. “Você não pode compreender o ódio”, me disse um russo depois de perceber que eu estava lendo um livro sobre Stalingrado. “Em seu país, vocês vivenciaram os ataques de 11 de Setembro. Quantos morreram? Isso aqui era o 11 de Setembro todos os dias por quase 200 dias”.
Um guia local me levou para ver a sólida estátua da Mãe Rússia, que se encontra majestosamente no topo da mais alta montanha de Volgogrado e homenageia a resistência dos soldados e civis que defenderam a cidade. É 30 metros mais alta que a Estátua da Liberdade. A mão direita empunha uma espada, erguida em desafio, e a esquerda estende-se na direção de onde vieram as tropas do eixo. A centenas de metros dali, um memorial guarda uma chama que jamais se apaga, em homenagem àqueles que pereceram. Quando meu guia e eu entramos, ouvi uma música tranquila, mas um pouco melancólica.
“Qual é o compositor russo?”, perguntei.
Meu guia respondeu: “Na verdade é Schumann.”
Fiquei perplexo: Escolheram um compositor alemão para o Memorial de Stalingrado? Por que não optaram por um russo?”. O Guia explicou que, quando construíram o monumento, na década de 1960, decidiram mandar uma mensagem de reconciliação aos alemães que vêm prestar seus respeitos aos mortos.”

Memorial aos heróis Mortos na Batalha de Stalingrado
Os três soldados russos, sentados na base da estátua, são menores que os dedos do pé esquerdo da Mãe Rússia



“Os veteranos que ofereceram cartas tão reveladoras esperavam que elas pudessem ter um valor catártico para homens e mulheres que servem hoje nas Forças Armadas. Ninguém pode entender verdadeiramente a vida militar – as constantes pressões, a separação dos entes queridos, tanto a excitação quanto o terror de seguir para o combate, o choque devastador de perder um companheiro – como aqueles que já passaram por isso. Os mais antigos veteranos simpatizam profundamente com a atual geração de soldados e querem que saibam que há algum conforto em perceber que outros também suportaram as mesmas dificuldades.”


“O que mais me impressionou nas cartas foi a força das descrições. Na verdade, muito mais que tudo que já lera. “Deparei-me com um dos nossos rapazes – irreconhecível graças a decomposição”, escreveu o capelão canadense Willian Mayse à sua esposa durante a Primeira Guerra Mundial.
Ele jazia exatamente como caíra – a cabeça desaparecera –, mas todos os equipamentos estavam afivelados, seu rifle e capacete jaziam ao lado. Como recordação, cortei-lhe a fivela do cinto, e enterramos o que restara dele. Procurei algo que o pudesse identificar, mas foi em vão. Pobre rapaz, em algum lar distante no Canadá alguém esta chorando a perda do marido, filho ou namorado. O mais triste de tudo é que jamais saberão como morreu, ou onde foi enterrado, e, até mesmo agora, podem se apegar à esperança de que ainda esteja vivo...
Muitos dos que contribuíram com cartas expressaram sua frustração com o fato de a cultura popular frequentemente romantizar a guerra. Como demonstrado pelas próprias cartas, essa reclamação não é nova. “Afirmas que gostaria de estar aqui”, escreveu o major Oscar Mitchell a sua amiga Sylvia Helene Hairston, em 15 de abril de 1944. Mitchell estava servindo no cenário China-Burna-Índia da Segunda Guerra Mundial, e apressou-se em desencorajar Sylvia e qualquer um que desejasse idealizar a vida nas linhas de frente:
Embora a maioria das pessoas acredite saber o que é a guerra, será que sabe mesmo? – estando tão distante das frentes de batalha, será possível saber?
Só se sabe o que é a guerra quando se veem os aviões em formação no começo da manhã, voando em direção aos alvos... e se vê esta mesma formação voltando à noite. Mas o número já não é mais o mesmo! Doze partiram, nove voltaram. Fica-se ali, parado, olhando para o alto, observando-se afastarem-se, na direção do horizonte, e então desaparecer. O que de fato aconteceu? Aqueles que mergulharam em chamas... terão morrido como nos filmes? Creio que não. Não com um sorriso nos lábios e um brilho alegre nos olhos, mas talvez com a terrível e dolorosa consciência de que tudo chegava ao fim! É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos EUA, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei.
Muitos daqueles que forneceram cartas descrevendo a dura realidade da guerra enfatizaram que não se consideram pacifistas. Acreditam que haja crueldade e brutalidade no mundo – tirania, genocídio, escravidão – e, se esses terríveis males não puderem ser derrotados por meios pacíficos, que seja usada a violência para destruí-los. Os veteranos de guerra que encontrei são, particularmente, patriotas arrebatados e orgulhosos de seu serviço militar, e suas cartas falam com grande convicção sobre a coragem dos companheiros mortos e a importância de honrar as liberdades pelas quais deram a vida.
O que abominam é a glorificação da guerra por si só. Acreditam que maquiar ou ocultar sua fealdade somente banaliza o sacrifício feito por homens e mulheres em serviço. Eles desejam que as pessoas compreendam o preço que ela cobra, não só de quem combate, mas também de seus familiares – e, em especial, daqueles que receberão um telefonema ou uma visita, informando-lhes da morte de seu ente querido. Os ferimentos que lhes são impostos são tão traumáticos e dolorosos quanto aqueles suportados nos campos de batalha, e permanecerão para o resto de suas vidas. Os choques emocionais decorrentes da guerra reverberam muito além da assinatura dos tratados de paz.
E enquanto muitos veteranos de guerra reconhecem o fascínio de partir para o combate e lembram perfeitamente o intoxicante arrebatamento que advém de se estar sob o fogo inimigo, também reconhecem que a euforia raramente se conserva. Marcado por exaustão, fome e infindáveis horas de marcha e espera, este prazer desaparece por completo ao ver um amigo baleado ou despedaçado e, mais tarde, despachado para casa em um caixão envolto em uma bandeira. Também os civis, em geral, compartilham um sentimento inicial de excitação quando do anúncio da guerra, e há uma inegável eletricidade e tensão no ar no começo de qualquer conflito. Novamente, os veteranos sabem que esse fervor desaparece com facilidade. Além disso, a suspeita de que o apoio em casa começa a esmorecer causa um efeito incapacitante sobre o moral da tropa.
O que enfatizam, acima de tudo, é que uma declaração de guerra é a mais importante decisão que pode ser tomada por uma sociedade – e, quando o fizer, deve estar preparada para as consequências. O que a guerra exige daqueles que servem nas Forças Armadas, bem como o sofrimento que inflige aos que não se alistam, é frequentemente muito pior do que possa imaginar quem não a vivenciou na própria carne.”


“Tua pátria precisa de ti. Teus quatro irmãos morreram para defendê-la. Se não vieres, não mais o considero meu filho. Não admitirei covardes na família.”
Uma mãe francesa de St. Pierre, escrevendo ao filho em novembro de 1914.


“Para ex-prisioneiros de guerra que estão prestes a se reencontrar com suas esposas ou noivas, saber que suas amadas permaneceram fieis a eles, às vezes por anos a fio, apenas aumentava o sentimento de felicidade. Era justamente a perspectiva desses reencontros que dava a muitos prisioneiros a força necessária para suportar a provação física e mental, à qual muitas vezes parecia impossível sobreviver. Homer James Colman, um soldado norte-americano de Salt Lake City, Utah, servindo no 57º Regimento de Infantaria, passou quase três anos como prisioneiro de guerra depois que as tropas norte-americanas entregaram as Filipinas aos japoneses em maio de 1942. Depois de cinco meses de combate brutal, Colman e 10 mil outros prisioneiros aliados foram obrigados a participar da infame Marcha da Morte de Bataan, uma caminhada de 100 quilômetros sob o calor tropical, sem comida, água ou remédios, o que se provou fatal para muitos soldados já doentes e famintos. Antes de embarcar para o Pacífico, em maio de 1941, Colman ficara noivo de Mary Parkman, uma jovem de Columbus, Geórgia. Eles só voltaram a se ver na primavera de 1945. A salvo e de volta aos EUA, Colman, que convalescia no Hospital Militar Walter Reed em Bethesda, Maryland (ele perdera quase metade de seu peso enquanto estivera prisioneiro), enviou à sua noiva a seguinte carta reafirmando a ela seu amor e sua devoção:
Minha querida Mary,
Levarei mais ou menos um dia para terminar esta carta que te escrevo. Provavelmente, será a última carta que escreverei a Mary Parkman. Embora ela jamais deixe de ser minha namorada, a próxima vez que eu escrever, a destinatária será Mary Colman, minha mulher. Adeus, Mary Parkman. Foste a mais fiel e adorável namorada, que, ao longo de tanto tempo, esperou sozinha, por horas, semanas e anos de incerteza por um soldado que a deixou com lágrimas nos olhos. Foste uma das milhares de bravas mulheres que fizeram o mesmo nestes últimos quatro terríveis anos e que, a menos que a população mundial mude sua natureza da noite para o dia, continuarão vendo seus homens partirem para lutar uns contra os outros.
Mas eu tive sorte e tinha tuas preces para me trazer de volta para casa.
Eu poderia passar o resto de minha vida a dizer-te o quanto significavas para mim, durante aquelas longas noites de espera, e, no entanto, jamais seria capaz de descrever esse quadro com exatidão; as noites e os dias em que tu eras minha única razão para viver e por quem voltar, e o preciso momento em que percebi, em São Francisco, que poderia voltar a falar contigo de verdade. Então veio a percepção que eu a veria em breve, não em um ou dois anos, mas em poucas e curtas semanas, quando te teria em meus braços e te beijaria, e sentiria o perfume de teus cabelos, e tudo o que és estaria ali. Esses sentimentos que antes foram meus sonhos mais agradáveis agora são realidade.
E meu coração esta repleto de gratidão, não por ter regressado, mas por ter, ao voltar, te encontrado à minha espera. Só isso compensa milhares de vezes tudo o que por ventura te ofereci.
Pois todo o meu coração e todo o meu amor são teus, foram e continuarão a ser enquanto nós dois vivermos. Deus me dê a força e o poder para te fazer feliz.
E seu eu for capaz de te trazer a paz e a felicidade que quero que tenhas, então também serei feliz, pois não mais seremos apenas Mary Parkman e Jim Colman – duas pessoas distintas. Pois tu serás eu, e eu serei tu, e haverá apenas um onde antes haviam dois.
Então, nesta última carta à minha noiva, como estará em toda e qualquer carta à minha esposa, veja e encontre todo o amor que há aqui para ti. E talvez possas ver em alguma parte a vida a dois que será a tua e a minha e a de nossos filhos. Uma vida que será cheia de ternura, compreensão e amor, e desse particular pedaço de felicidade pelo qual nós dois lutamos tanto tempo para possuir.
Boa noite, querida.
Para sempre, teu
Jim
Uma semana depois os dois se casaram na capela do hospital Walter Reed.”


“Os pais são aqueles a quem mais frequentemente os soldados confidenciam a vívida violência da guerra ou a severidade de sua própria situação, e, em geral, o fazem com a seguinte recomendação: “Não conte a mamãe.” Em momentos em que temem demonstrar fraqueza a seus pais, no entanto, ou em que retornam a um estado quase infantil de vulnerabilidade, ou em momentos de grande estresse emocional, geralmente quando estão em perigo, os combatentes despejam seus sentimentos no papel e apelam para suas mães em busca de carinho e consolo. (Sabe-se que os soldados gravemente feridos nos campos de batalha gritam por suas mães nos momentos de lucidez. É um som que muitos veteranos relembram como uma das mais torturantes memórias auditivas da guerra.) Durante a Segunda Guerra Mundial, o soldado italiano Fiorigi A. Contro empreendeu uma fuga durante a esmagadora derrota dos exércitos alemão e italiano em El Alamein, no Egito, imposta pelo VIII Exército do general britânico Bernard Montgomery. Das quase 70 mil baixas de ambos os lados, nessa que foi a principal batalha de 1942, mais de 50 mil eram alemães e italianos, e Contro chegou muito perto de ser um deles. Longe do perigo, escreveu a seguinte carta à sua mãe, descrevendo a aterradora retirada.
À minha mãe,
A senhora não sabe quantas dificuldades encontrei em minha vida; não lhe contarei aquelas de que não sabe, para não deixá-la ainda mais triste, mas uma memória entre tantas permanece mais forte.
Era uma sombria noite de abril, domingo de Ramos. Depois de um susto rápido e inesperado causado por um grupo de caças inimigos que se aproximava, tentamos decolar de um aeroporto improvisado. Conseguimos, mas, dez minutos depois, todo um esquadrão de Junkers surgiu voando em formação pouco acima da superfície da água, para que não fossem detectados pelo radar. Fomos atacados de frente pelos aviões, que eram mais ágeis e bem armados do que nós, e num instante ficamos completamente estupefatos, e começamos a cair, um a um, irremediavelmente no golfo.
Senti balas arranharem minhas costas quatro vezes. Nosso avião foi atingido várias vezes: no motor, neste momento em chamas, no nariz e na cauda.
Um soldado na minha frente transformou-se em meu escudo e ficou banhado em sangue. O piloto que dera a ordem para saltar do avião tinha os intestinos à mostra.
O avião, com seus 18 homens mortos ou feridos a bordo, pegava fogo e perdia altitude, e a única escolha que tínhamos era pular sem paraquedas, apenas com um colete salva-vidas.
Fui o primeiro a chegar à porta e, enquanto hesitava a respeito do que fazer, senti um forte empurrão em minhas costas, que me lançou no ar. Caí na água nas proximidades do cabo Bon.
Estava aterrorizado pelo enorme perigo que enfrentava e ainda sob o fogo das metralhadoras. Lutei desesperadamente para alcançar a praia, que não parecia distante.
Quando consegui cuspir toda a água que havia engolido e recuperar o fôlego, chamei dois nomes: “Deus!” e “Mamãe!”. Nunca havia passado por tal situação.
Mas, então, eu estava exausto e não tinha mais forças. Naquele momento, outro avião foi abatido e despencou com o nariz pra baixo. Ouvi um assobio ensurdecedor perto de mim... Fechei os olhos e pensei que iria morrer. Entreguei-me ao que quer que fosse que Deus houvesse reservado para mim.
Mas ainda não era minha hora, e aquela carcaça em chamas caiu tão perto de mim que uma onda gigantesca me empurrou para a terra, como se eu fosse um pedaço de cortiça. Busquei abrigo em uma espécie de caverna, e ali permaneci, quase morto e exausto, ouvindo o terrível som da infindável metralhadora dos aviões.
A guarda costeira me encontrou em péssimas condições físicas. Mais tarde, recuperei-me e acordei com os olhos cheios de lágrimas, como se acordasse de um pesadelo. Descrevi minha longa odisseia à curiosa plateia a meu redor, que ficou impressionada com o que acontecera.
Mas, na verdade, eu queria ficar em paz para que pudesse passar novamente em minha cabeça o filme da memória, no qual a senhora, minha querida e boa mãe, era a personagem principal.
A senhora lembra que, quando eu era pequeno, havia um grande tanque atrás de nossa casa de campo, que usávamos para dar água ao rebanho da vizinhança? Eu ainda usava fraldas, era um belo dia de primavera, e fui ao tanque para pegar umas pequenas flores amarelas. Aproximei-me e me estiquei todo... perdi o equilíbrio e caí na água. Gritei e a senhora veio correndo, minha mãe zelosa e gentil, e carregou-me para dentro de casa e me enxugou perto da lareira. Mudou minha roupinha e prometi que permaneceria por perto.
Mas minhas palavras e minhas promessas foram inúteis porque assim que a senhora virou as costas corri para o tanque e caí outra vez. E novamente a senhora veio correndo, e, gentilmente explicou-me por que eu precisava ter mais cuidado e me repreendeu um pouco, então pediu-me que tomasse conta das galinhas. Uma delas correu para o tanque e vi aquelas lindas flores que havia achado tão encantadoras; então, agarrado a um galho, estiquei minha mão, mas o galho partiu-se, e caí de novo na água.
Outra vez a senhora me recolheu com muita paciência, e decidiu levar-me para a cama onde caí no sono, sonhando com aquelas flores.
Quando acordei, minha caminha estava coberta de flores amarelas; quem as pegara para mim? “Papai”, a senhora disse.
A vida dá realmente muitas voltas.
Quando acordei na terra desconhecida depois de cair no mar, não tive o doce conforto de flores, havia apenas a triste realidade.
Quando eu era um garotinho, não tive medo, e enquanto eu hesitava na porta da fuselagem, quando somente um empurrão de um companheiro me deu coragem para confrontar o perigo, eu não poderia contar com sua ajuda porque a senhora não estava fisicamente aqui para me tranquilizar. Mas sei que foi a sua mão que me salvou daquele desastre. Suas preces diárias e sua presença confiante e sagrada estão sempre comigo, erguendo-me onde quer que eu esteja. Nossas almas se comunicam! A força do zelo materno se expande muito, muito além de tudo.
Então essa memória, que jamais esquecerei, é para a senhora. À senhora dedico toda minha afeição e amor, todo o meu cuidado, acima de todas as coisas.
Fiorigi A. Contro
Em Capua, próximo a Nápoles, 7 de maio de 1943.”


“Sem dúvida, deves ter pensado que me esqueci completamente de ti. Se tais pensamentos ocuparam tua cabeça, espero que me perdoes, pois estive muito mal. Ainda agora tenho tremores nas mãos. Empreendi fugas maravilhosas. Fui ferido na perna por estilhaços de bombas, mas eram apenas feridas na carne. Algumas vezes, o impacto me arrancava o capacete e logo eu apalpava a cabeça em busca de sangue, porém o mais próximo disso que cheguei foi quando uma bala atingiu meu rosto e cobriu de sangue a túnica, e outra bala arrancou-me todo o cabelo da sobrancelha deixando apenas um pequeno arranhão. Como é estranho ver sangue, nosso próprio sangue, quando você esta bem no meio de tudo isso. É claro que me envolvi em algumas dificuldades e agradeço a Deus por estar vivo para contá-las. Por vezes, foi simplesmente aterrador. Que estranho modo de vida este de estar entre bombas e balas, noites e dias sem dormir. Eu costumava passar mal diante da funesta visão de corpos caídos ao redor, com uma cabeça a rolar sem corpo, pernas e braços por toda parte, muitas vezes tomei nossos próprios mortos como escudo. Quando os turcos tentavam me acertar, a bala se chocava com o corpo à minha frente: Oh, Gill, isto é o inferno na Terra. Talvez o inferno possa ser ainda pior, mas, na verdade, não acredito que o seja.
Frederick C. Trenne, um soldado neozelandês, escreveu em 12 de janeiro de 1916 a seu amigo G. Harry Gillespie sobre o combate em Galípoli.”


“Balas, bombas e baionetas foram responsáveis pela maior parte das fatalidades da Primeira Guerra Mundial, mas as armas tecnologicamente “avançadas” eram particularmente temidas por um vasto contingente de tropas que jamais vira ou escutara falar de tais engenhocas antes. “Essa guerra é terrível”, escreveu o soldado gurca Shed Karn Das à Índia, sua terra natal. “Não há lugar onde um homem possa estar em segurança na terra nem debaixo da terra, no ar nem no mar. É isso a verdadeira guerra? ... Por tudo isso, seria possível julgar que Deus esta descontente com os povos do mundo”.”


“Após uma visita à frente ocidental, o artista britânico Paul Nash promete à sua esposa que representará em suas telas a “amarga verdade” da guerra.
A ofensiva de Passchendaele, comandada por sir Douglas Haig, foi um demorado banho de sangue em meio a um grande lamaçal, no qual combateram soldados exaustos que, ao final, pouco conquistaram. As forças aliadas tomaram vários quilômetros de território estrategicamente insignificante ao custo de 310 mil baixas. (Para os alemães, a conta fechou em torno de 260 mil.) Embora não tenha participado dos combates, Paul Nash, um artista de 28 anos, esteve em Passchendaele; Nash se alistara em 1914, mas retornara à Inglaterra devido à um acidente não relacionado aos combates. Tornou-se então, um artista oficial da guerra e, após se recuperar e fazer inúmeros apelos para voltar à ação sem demora, foi enviado a frente ocidental. “Meu amor”, começa Nash na carta endereçada à esposa, após sua chegada a Ypres. “Nesta tarde, subirei as linhas até um dos QGs da brigada, de onde, por uma ou duas noites, poderei ver coisas maravilhosas.” Nash, que esperava ansiosamente assistir a uma batalha com toda a sua fúria dramática, defrontou-se, porém, com um espetáculo inimaginável de desespero e aniquilação. Funcionários do Governo encorajaram Nash e outros companheiros a criar uma arte motivadora e patriótica. Devastado pela visão quase apocalíptica que tivera, no entanto, Nash enfatizou que sua obra seria um testemunho da barbárie da guerra, independentemente do que os burocratas desejavam ou solicitavam. Escreveu ele à esposa:
Retornei na noite passada de uma visita ao QG da brigada no alto das linhas e, não importa quanto viva, jamais esquecerei essa experiência. Assisti ao mais aterrorizante pesadelo que parece ter saído da imaginação de Dante ou Poe, inexprimível, completamente indescritível. Os 15 desenhos que fiz talvez lhe deem uma vaga ideia dos horrores, mas é preciso estar presente para compreender sua terrível natureza e o que os homens na França têm de enfrentar.
Todos temos uma vaga ideia dos horrores de uma batalha e podemos evocar, com a ajuda de alguns dos mais inspirados correspondentes de guerra e nos retratos do Daily Mirror, a visão de um campo de batalha, no entanto nenhum desenho pode expressar o que acontece neste país – o cenário ordinário de batalhas que se desenrolam por dias e noites, mês após mês. Somente o mal e o demônio encarnado podem ser os cicerones desta guerra; não se percebe nenhum vislumbre da mão de Deus. O poente e o nascente são blasfemos, escarnecem do homem; apenas a chuva negra vinda das nuvens sufocantes e intumescidas, através da amarga escuridão da noite, é uma atmosfera condizente com um país igual a este. A chuva continua; a lama fétida torna-se mais diabolicamente amarela, as crateras de bombas repletas de água branca e esverdeada, as estradas e os atalhos estão cobertos por uma camada de lama, as negras árvores agonizantes transpiram e as bombas jamais deixam de cair.
Elas voam e despedaçam à nossa frente, arrancando os troncos apodrecidos das árvores,  despedaçando as sinalizações das estradas, abatendo cavalos e mulas; aniquilando, mutilando, enlouquecendo; mergulham na cova que é esta terra; um grande túmulo, e fazem o cômputo dos infelizes que morreram. Oh, é inominável, ímpio, desesperador. Não sou mais um artista interessado e curioso, sou um mensageiro que dará voz a homens que lutam contra aqueles que desejam perpetuar a guerra. Frágil e inarticulada será minha mensagem, mas representará uma amarga verdade, que talvez faça arder suas almas abomináveis.
Nenhuma carta até agora chegou, espero que eles as enviem. Sê gentil com teu amor e não o repreenda por escrever tão pouco, para ninguém mais ele escreveu até o momento. Em um ou dois dias, ele terá mais a dizer e não será tão sombrio. Desejo ouvir tudo a respeito da minha querida. Conte-me se mandou ao John minhas lembranças.
Por enquanto, adieu, minha querida.
Com um longo beijo, daqueles que só nós sabemos dar, de teu mais apaixonado e entusiasta amor.
Paul”

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Cadernos do cárcere (Volume 1) – Antonio Gramsci

Editora: Civilização brasileira
ISBN: 978-85-2000-511-8
Tradutor: Carlos Nelson Coutinho
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 496
Sinopse: Escritos por Gramsci no longo período em que esteve preso nos porões da ditadura fascista italiana, os Cadernos do Cárcere constituem uma das obras mais importantes da teoria política deste século pois, entre outras coisas, são a fonte de conceitos e expressões que se integrariam ao nosso vocabulário cotidiano como “intelectual orgânico”, “hegemonia”, “sociedade civil” e outros.



“O materialismo histórico, compreendido corretamente, não é um mero economicismo, mas é sim uma dialética real, que compreende a história superando-a com a ação, e que não separa história e filosofia, mas – colocando os homens sobre seus pés – faz destes os artífices conscientes da história, e não os joguetes da fatalidade, na medida em que os seus princípios, isto é, os seus ideais, centelhas que brotam das lutas sociais, são precisamente estímulos à práxis que, mediante a sua ação, se subverte.”


“Pode-se observar como o elemento determinista, fatalista, mecânico, tenha sido um “aroma” ideológico imediato da filosofia da práxis, uma forma de religião e de excitante (mas ao modo dos narcóticos), tornada necessária e justificada historicamente pelo caráter “subalterno” de determinados estratos sociais. Quando não se tem a iniciativa na luta e a própria luta termina assim por identificar-se com uma série de derrotas, o determinismo mecânico transforma-se em uma formidável força de resistência moral, de coesão, de perseverança paciente e obstinada. “Eu estou momentaneamente derrotado, mas a força das coisas trabalha por mim a longo prazo, etc.” A vontade real se disfarça em um ato de fé, numa certa racionalidade da história, numa forma empírica e primitiva de finalismo apaixonado, que surge como um substituto da predestinação, da providência, etc., próprias das religiões confessionais. Deve-se insistir sobre o fato de que, também nesse caso, existe realmente uma forte atividade volitiva, uma intervenção direta sobre a “força das coisas”, mas de uma maneira implícita, velada, que se envergonha de si mesma; portanto, a consciência é contraditória, carece de unidade crítica, etc. Mas, quando o “subalterno” se torna dirigente e responsável pela atividade econômica de massa, o mecanicismo revela-se num certo ponto como um perigo iminente; opera-se, então, uma revisão de todo o modo de pensar, já que ocorreu uma modificação no modo social de ser. Os limites e o domínio da “força das coisas” se restringiram. Por quê? Porque, no fundo, se o subalterno era ontem uma coisa, hoje não o é mais: tornou-se uma pessoa histórica, um protagonista; se ontem era irresponsável, já que era “resistente” a uma vontade estranha, hoje sente-se responsável, já que não é mais resistente, mas sim agente e necessariamente ativo e empreendedor . Mas, mesmo ontem, será que ele era apenas simples “resistência”, simples “coisa”, simples “irresponsabilidade”? Não, por certo; deve-se, aliás, sublinhar que o fatalismo é apenas a maneira pela qual os fracos se revestem de uma vontade ativa e real. É por isso que se torna necessário demonstrar sempre a futilidade do determinismo mecânico, o qual, explicável como filosofia ingênua da massa e, somente enquanto tal, elemento intrínseco de força, torna-se causa de passividade, de imbecil autossuficiência, quando é elevado a filosofia reflexiva e coerente por parte dos intelectuais; e isto sem esperar que o subalterno torne-se dirigente e responsável. Uma parte da massa, ainda que subalterna, é sempre dirigente e responsável, e a filosofia da parte precede sempre a filosofia do todo, não só como antecipação teórica, mas também como necessidade atual.”


“Coloca-se a questão: não seria necessário, ao contrário, referir-se apenas aos grandes intelectuais adversários, deixando de lado os secundários, os repetidores de frases feitas? Tem-se a impressão, precisamente, de que se pretende combater apenas contra os mais débeis e, até mesmo, contra as posições mais débeis (ou mais inadequadamente sustentadas pelos mais débeis), a fim de obter fáceis vitórias verbais (já que é impossível falar de vitórias reais). Cria-se a ilusão de que existe uma semelhança qualquer (que não formal e metafórica) entre uma frente ideológica e uma frente político-militar. Na luta política e militar, pode ser conveniente a tática de penetrar nos pontos de menor resistência para ganhar condições de investir sobre o ponto mais forte com o máximo de forças, colocadas à disposição precisamente por causa da eliminação dos auxiliares mais débeis, etc. As vitórias políticas e militares, dentro de certos limites, têm um valor permanente e universal, podendo o fim estratégico ser alcançado de uma maneira decisiva com efeitos gerais para todos. Na frente ideológica, ao contrário, a derrota dos auxiliares e dos seguidores menores tem uma importância quase insignificante; nela, é preciso lutar contra os mais eminentes. Se não for assim, confunde-se o jornal com o livro, a pequena polêmica cotidiana com o trabalho científico; os menores devem ser abandonados à casuística infinita da polêmica jornalística.”
Uma nova ciência alcança a prova da sua eficiência e fecunda vitalidade quando demonstra saber enfrentar os grandes campeões das tendências opostas, quando resolve com os próprios instrumentos as questões vitais colocadas por estas tendências ou quando demonstra peremptoriamente que tais questões são falsos problemas.
É verdade que uma época histórica e uma determinada sociedade são representadas sobretudo pela média dos intelectuais e, consequentemente, pelos medíocres; mas a ideologia difusa, de massa, deve ser diferenciada das obras científicas, das grandes sínteses filosóficas, que são, ademais, as suas verdadeiras culminações, as quais devem ser nitidamente superadas, ou negativamente, demonstrando-lhes a falta de fundamento, ou positivamente, contrapondo-lhes sínteses filosóficas de maior importância e significação. Lendo o Ensaio Popular de Bukharin, temos a impressão de alguém que não pode dormir por causa da claridade da lua e que se esforça por matar a maior quantidade possível de vaga-lumes, convencido de que assim a claridade diminuirá ou desaparecerá.”


“A filosofia da práxis “basta a si mesma”, contendo em si todos os elementos fundamentais para construir uma total e integral concepção do mundo, não só uma total filosofia e teoria das ciências naturais, mas também os elementos para fazer viva uma integral organização prática da sociedade, isto é, para tornar-se uma civilização total e integral.”


“No prefácio de O Capital, está dito: “Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção, que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social... Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até aqui. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela... Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência”.”


“A superstição científica traz consigo ilusões tão ridículas e concepções tão infantis que a própria superstição religiosa termina enobrecida. O progresso científico fez nascer a crença e a espera em um novo Messias, que realizará nesta terra o Eldorado; as forças da natureza, sem nenhuma intervenção do esforço humano, mas através de mecanismos cada vez mais perfeitos, darão em abundância à sociedade todo o necessário para satisfazer seus carecimentos e viver com fartura. Contra este fanatismo, cujos perigos são evidentes (a supersticiosa fé abstrata na força taumatúrgica do homem conduz paradoxalmente à esterilização das próprias bases desta força e à destruição de todo amor pelo trabalho concreto e necessário, em troca de fantasias, como se se tivesse fumado uma nova espécie de ópio), é necessário combater com vários meios, dos quais o mais importante deveria ser um melhor conhecimento das noções científicas essenciais, divulgando a ciência através de cientistas e de estudiosos sérios e não mais de jornalistas oniscientes e de autodidatas presunçosos. Na realidade, por se esperar muito da ciência, ela é concebida como uma bruxaria superior e, por isso, torna-se impossível valorizar com realismo o que a ciência oferece de concreto.”


“Mas não podem impedir, nem o devem, que cada geração use a linguagem que melhor se adapte ao seu modo de pensar e de compreender o mundo.”


“De Man tem a pedante pretensão de trazer à luz e ao primeiro plano os chamados “valores psicológicos e éticos” do movimento operário; mas pode significar isso, como pretende De Man, uma refutação peremptória e radical da filosofia da práxis? Isso seria como afirmar que o fato de deixar claro que a grande maioria dos homens ainda se encontra na fase ptolomaica signifique refutar as doutrinas de Copérnico, ou que o folclore deva substituir a ciência. A filosofia da práxis sustenta que os homens adquirem consciência de sua posição social no terreno das ideologias; ela excluiu o povo, por acaso, deste modo de tomar consciência de si? É uma observação óbvia, contudo, a de que o mundo das ideologias é (em seu conjunto) mais atrasado do que as relações técnicas de produção: um negro recém-chegado da África pode se tornar um trabalhador de Ford, mesmo mantendo-se por muito tempo um fetichista e mesmo permanecendo persuadido de que a antropofagia é uma maneira de alimentação normal e justificada. De Man, feita uma investigação a respeito, que conclusões poderia extrair deste fato? Que a filosofia da práxis deva estudar objetivamente o que os homens pensam de si mesmos e dos outros é indubitável; mas isto implica aceitar passivamente, como eterno, este modo de pensar? Não seria isto uma manifestação do pior dos mecanicismos e fatalismos? A tarefa de toda iniciativa histórica é modificar as fases culturais precedentes, tornar a cultura homogênea, em um nível superior ao precedente, etc. Na realidade, a filosofia da práxis trabalhou sempre naquele terreno que De Man acredita ter descoberto, mas trabalhou buscando inová-lo, não conservá-lo passivamente. A “descoberta” de De Man é um lugar-comum; e sua refutação, uma ruminação pouco saborosa.”


“O elemento popular “sente”, mas nem sempre compreende ou sabe; o elemento intelectual “sabe”, mas nem sempre compreende e, menos ainda, “sente”. Os dois extremos são, portanto, por um lado, o pedantismo e o filisteísmo, e, por outro, a paixão cega e o sectarismo. Não que o pedante não possa ser apaixonado, ao contrário; o pedantismo apaixonado é tão ridículo e perigoso quanto o sectarismo e a mais desenfreada demagogia. O erro do intelectual consiste em acreditar que se possa saber sem compreender e, principalmente, sem sentir e estar apaixonado (não só pelo saber em si, mas também pelo objeto do saber), isto é, em acreditar que o intelectual possa ser um intelectual (e não um mero pedante) mesmo quando distinto e destacado do povo-nação, ou seja, sem sentir as paixões elementares do povo, compreendendo-as e, portanto, explicando-as e justificando-as em determinada situação histórica, bem como relacionando-as dialeticamente com as leis da história, com uma concepção do mundo superior, científica e coerentemente elaborada, com o “saber”; não se faz política-história sem esta paixão, isto é, sem esta conexão sentimental entre intelectuais e povo-nação. Na ausência deste nexo, as relações do intelectual com o povo-nação são, ou se reduzem, a relações de natureza puramente burocrática e formal; os intelectuais se tornam uma casta ou um sacerdócio (o chamado centralismo orgânico). Se a relação entre intelectuais e povo-nação, entre dirigentes e dirigidos, entre governantes e governados, é dada graças a uma adesão orgânica, na qual o sentimento-paixão torna-se compreensão e, desta forma, saber (não de uma maneira mecânica, mas vivida), só então a relação é de representação, ocorrendo a troca de elementos individuais entre governantes e governados, entre dirigentes e dirigidos, isto é, realiza-se a vida do conjunto, a única que é força social; cria-se o “bloco histórico”.”


“A afirmação de Hegel de que na história todo fato se repete duas vezes; correção de Marx, segundo a qual na primeira vez o fato se verifica como tragédia, na segunda como farsa. Este conceito já fora delineado por Marx na Contribuição à crítica da filosofia do direito: “Os deuses da Grécia, já tragicamente feridos de morte no Prometeu acorrentado de Ésquilo, tiveram de morrer novamente de forma cômica nos diálogos de Luciano. Por que essa marcha da história? Para que a humanidade possa alegremente separar-se do seu passado. Este alegre destino histórico é o que reivindicamos para os poderes políticos da Alemanha”.


“A objeção de senso comum que pode ser feita ao ceticismo é esta: que, para ser coerente consigo mesmo, o cético não deveria fazer mais do que viver como um vegetal, sem se misturar aos assuntos da vida comum. Se o cético intervém na discussão, isso significa que acredita que pode convencer, ou seja, não é mais cético, pois representa uma determinada opinião positiva, que frequentemente é má e só pode triunfar na medida em que convence a comunidade de que as outras são ainda piores, já que são inúteis.”


“Não se leva suficientemente em conta que muitos atos políticos são motivados por necessidades internas de caráter organizativo, isto é, ligados à necessidade de dar coerência a um partido, a um grupo, a uma sociedade. Isto é evidente, por exemplo, na história da Igreja Católica. Se alguém pretendesse encontrar, para todas as lutas ideológicas no interior da Igreja, a explicação imediata, primária, na estrutura, estaria perdido: muitos romances político-econômicos foram escritos por esta razão. É evidente, ao contrário, que a maior parte destas discussões são ligadas a necessidades sectárias, de organização. Na discussão entre Roma e Bizâncio sobre o estatuto do Espírito Santo, seria ridículo buscar na estrutura da Europa Oriental a afirmação de que o Espírito Santo procede apenas do Pai, e, na do Ocidente, a afirmação de que ele procede do Pai e do Filho. As duas Igrejas, cuja existência e cujo conflito estão na dependência da estrutura e de toda a história, colocaram questões que são princípio de distinção e de coesão interna para cada uma, mas poderia ter ocorrido que cada uma delas tivesse afirmado precisamente o que a outra afirmou: o princípio de distinção e de conflito teria se mantido idêntico e este problema da distinção e do conflito é que constitui o problema histórico, não a casual bandeira de cada uma das partes.”


“A estrutura e as superestruturas formam um “bloco histórico”, isto é, o conjunto complexo e contraditório das superestruturas é o reflexo do conjunto das relações sociais de produção.”


“Deve-se observar que, com muita frequência, o otimismo não é mais do que um modo de defender a própria preguiça, as próprias irresponsabilidades, a vontade de não fazer nada. É também uma forma de fatalismo e de mecanicismo. A pessoa conta com fatores alheios à própria vontade e operosidade, exalta-os, incendeia-se aparentemente num sagrado entusiasmo. E o entusiasmo não é mais do que adoração exterior dos fetiches. Reação necessária, que deve ter como ponto de partida a inteligência. O único entusiasmo justificável é aquele que acompanha a vontade inteligente, a operosidade inteligente, a riqueza inventiva em iniciativas concretas que modificam a realidade existente.”


“O freudianismo é mais uma “ciência” a ser aplicada às classes superiores, e se poderia dizer que o “inconsciente” só começa depois de algumas dezenas de milhares de liras de renda.”


“Durante a guerra o Papa era o chefe dos bispos que benziam as armas dos alemães e dos austríacos, e dos bispos que benziam as armas dos italianos e dos franceses, sem que nisto houvesse contradição.”


“A religião é uma concepção da realidade com uma moral conforme a esta concepção, apresentada em forma mitológica.” (Croce)


“Interessa bem pouco à propriedade o trabalho socialmente necessário, mesmo para as finalidades da própria construção científica; o que interessa é o trabalho particular, nas condições determinadas por um dado aparato técnico e por um dado mercado imediato de víveres, bem como por um dado ambiente imediato ideológico e político, pelo que, quando alguém quiser fundar uma empresa, tentará identificar essas condições mais adequadas à finalidade do lucro máximo “particular” e não raciocinará por “médias” socialmente necessárias. Mas, quando o próprio trabalho se tornar gestor da economia, também ele deverá, por causa dessa mudança fundamental de posição, preocupar-se com as utilidades particulares e com as comparações entre essas utilidades, com o objetivo de extrair delas iniciativas de movimento progressista.”


“Quando é possível falar de um início para a ciência econômica? Pode-se falar desse início desde quando se fez a descoberta de que a riqueza não consiste no ouro (e, portanto, ainda menos na posse do ouro), mas sim no trabalho.”


“Um preconceito típico de intelectuais é o de medir os movimentos históricos e políticos com o metro do intelectualismo, da originalidade, da “genialidade”, ou seja, da completa expressão literária e das grandes personalidades brilhantes, e não, ao contrário, com o metro da necessidade histórica e da arte política, isto é, da capacidade concreta e atual de adequar o meio ao fim.”


“O homem, neste sentido, é vontade concreta, isto é, aplicação efetiva do querer abstrato ou do impulso vital aos meios concretos que realizam esta vontade. Cria-se a própria personalidade: 1) dando uma direção determinada e concreta (“racional”) ao próprio impulso vital ou vontade; 2) identificando os meios que tornam esta vontade concreta e determinada e não arbitrária; 3) contribuindo para modificar o conjunto das condições concretas que realizam esta vontade, na medida de suas próprias forças e da maneira mais frutífera. O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza a sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”


“Se se observa bem, deve-se chegar à conclusão de que o ideal de todo elemento da classe dirigente é o de criar as condições nas quais os seus herdeiros possam viver sem trabalhar, de renda. Como é possível que uma sociedade seja sadia quando se trabalha para estar em condições de não mais trabalhar? Dado que este ideal é impossível e malsão, isto significa que todo o organismo está viciado e doente. Uma sociedade que afirma trabalhar para criar parasitas, para viver do chamado trabalho passado (que é uma metáfora para indicar o trabalho atual dos outros), destrói, na realidade, a si mesma.”


“O que é o homem? É esta a primeira e principal pergunta da filosofia. Como respondê-la? A definição pode ser encontrada no próprio homem, isto é, em cada homem singular. Mas é correta? (...) Se observarmos bem, veremos que, ao colocarmos a pergunta “o que é o homem”, queremos dizer: o que é que o homem pode se tornar, isto é, se o homem pode controlar seu próprio destino, se ele pode “se fazer”, se pode criar sua própria vida. Digamos, portanto, que o homem é um processo, precisamente o processo de seus atos. Observando ainda melhor, a própria pergunta “o que é o homem” não é uma pergunta abstrata ou “objetiva”. Ela nasce do fato de termos refletido sobre nós mesmos e sobre os outros; e de querermos saber, em relação com o que vimos e refletimos, aquilo que somos, aquilo que podemos vir a ser, se realmente e dentro de que limites somos “criadores de nós mesmos”, da nossa vida, do nosso destino. E nós queremos saber isto “hoje”, nas condições de hoje, da vida “de hoje”, e não de uma vida qualquer e de um homem qualquer. A pergunta nasceu e recebeu seu conteúdo de determinadas e especiais maneiras de considerar a vida e o homem. A mais importante delas é a “religião” e uma determinada religião: o catolicismo. Na realidade, ao perguntarmos “que é o homem”, qual é a importância que tem a sua vontade e a sua atividade concreta na criação de si mesmo e de sua vida, queremos dizer: “o catolicismo é uma concepção exata do homem e da vida? Sendo católicos, isto é, fazendo do catolicismo uma norma de vida, erramos ou acertamos?” Todos têm a vaga intuição de que fazer do catolicismo uma norma de vida é um equívoco, tanto assim que ninguém se atém ao catolicismo como norma de vida, mesmo declarando-se católico. Um católico integral – isto é, que aplicasse em cada ato de sua vida as normas católicas – pareceria um monstro, o que é, se pensarmos bem, a crítica mais rigorosa e mais peremptória do próprio catolicismo. Os católicos dirão que nenhuma outra concepção é seguida rigorosamente, no que têm razão. Mas isto demonstra apenas que não existe de fato, historicamente, uma maneira de conceber e de agir igual para todos os homens e nada mais que isso; não há nenhuma razão favorável ao catolicismo, se bem que este modo de pensar e de agir esteja organizado há séculos com esta finalidade, o que ainda não ocorreu com nenhuma outra religião com os mesmos meios, com o mesmo espírito de sistema, com a mesma continuidade e centralização. Do ponto de vista “filosófico”, o que não satisfaz no catolicismo é o fato de, não obstante tudo, ele colocar a causa do mal no próprio homem individual, isto é, conceber o homem como indivíduo bem definido e limitado. É possível dizer que todas as filosofias que existiram até hoje reproduziram esta posição do catolicismo, isto é, conceberam o homem como indivíduo limitado à sua individualidade e o espírito como sendo esta individualidade. É neste ponto que o conceito do homem deve ser reformado. Ou seja, deve-se conceber o homem como uma série de relações ativas (um processo), no qual, se a individualidade tem a máxima importância, não é todavia o único elemento a ser considerado. A humanidade que se reflete em cada individualidade é composta de diversos elementos: 1) o indivíduo; 2) os outros homens; 3) a natureza. Mas o segundo e o terceiro elementos não são tão simples quanto poderia parecer. O indivíduo não entra em relação com os outros homens por justaposição, mas organicamente, isto é, na medida em que passa a fazer parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos. Desta forma, o homem não entra em relações com a natureza simplesmente pelo fato de ser ele mesmo natureza, mas ativamente, por meio do trabalho e da técnica. E mais: estas relações não são mecânicas. São ativas e conscientes, ou seja, correspondem a um grau maior ou menor de inteligibilidade que delas tenha o homem individual. Daí ser possível dizer que cada um transforma a si mesmo, modifica-se, na medida em que transforma e modifica todo o conjunto de relações do qual ele é o centro estruturante. Neste sentido, o verdadeiro filósofo é – e não pode deixar de ser – nada mais do que o político, isto é, o homem ativo que modifica o ambiente, entendido por ambiente o conjunto das relações de que todo indivíduo faz parte. Se a própria individualidade é o conjunto destas relações, construir uma personalidade significa adquirir consciência destas relações; modificar a própria personalidade significa modificar o conjunto destas relações. Mas estas relações, como vimos, não são simples. Enquanto algumas delas são necessárias, outras são voluntárias. Além disso, ter consciência mais ou menos profunda delas (isto é, conhecer mais ou menos o modo pelo qual elas podem ser modificadas) já as modifica. As próprias relações necessárias, na medida em que são conhecidas em sua necessidade, mudam de aspecto e de importância. Neste sentido, o conhecimento é poder. Mas o problema é complexo também por outro aspecto: não é suficiente conhecer o conjunto das relações enquanto existem em um dado momento como um dado sistema, mas importa conhecê-los geneticamente, em seu movimento de formação, já que todo indivíduo é não somente a síntese das relações existentes, mas também da história destas relações, isto é, o resumo de todo o passado. Dir-se-á que o que cada indivíduo pode modificar é muito pouco, com relação às suas forças. Isto é verdadeiro apenas até certo ponto, já que o indivíduo pode associar-se com todos os que querem a mesma modificação; e, se esta modificação é racional, o indivíduo pode multiplicar-se por um elevado número de vezes, obtendo uma modificação bem mais radical do que à primeira vista parecia possível.”


“O fato de que a “sociedade industrial” não seja constituída apenas por “trabalhadores” e “empresários”, mas também por “acionistas” vagantes (especuladores), complica todo o raciocínio de Agnelli: ocorre que, se o progresso técnico permite uma maior margem de lucro, este não será distribuído racionalmente, mas “sempre” irracionalmente, aos acionistas e afins. Ademais, hoje é impossível dizer que existam “empresas sadias”. Todas as empresas se tornaram malsãs, o que não é dito por prevenção moralista ou polêmica, mas objetivamente. Foi a própria “grandeza” do mercado acionário que criou a doença: a massa dos portadores de ações é tão grande que ela obedece agora às leis de “multidão” (pânico, etc., que tem seus termos técnicos especiais no boom, no run, etc.); e a especulação se tornou uma necessidade técnica, mais importante do que o trabalho dos engenheiros e dos operários.
A observação sobre a crise americana de 1929 iluminou precisamente este ponto: a existência de fenômenos irrefreáveis de especulação, que arrastam também as “empresas sadias”, pelo que é possível dizer que não mais existem “empresas sadias”; portanto, pode-se usar a palavra “sadia” acompanhando-a de uma referência histórica, no sentido do “era uma vez”, isto é, quando existiam certas condições gerais que permitiam certos fenômenos gerais, não apenas em sentido relativo, mas também em sentido absoluto.”