quarta-feira, 6 de julho de 2011

Viagens com o presidente: dois repórteres no encalço de Lula do Planalto ao exterior – Leonencio Nossa e Eduardo Scolese

Editora: Record
ISBN: 978-85-0107-630-4
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 282


     “Segundo ministros, Lula reclama do espaço “pouco acolhedor” (do Palácio do Planalto). Cristovam Buarque, da Educação, diz que o lugar é frio, propício ao “presidente que pensava ser europeu”, numa ironia a Fernando Henrique. Um ano depois, Buarque, em visita à Europa, seria demitido por telefone pelo presidente petista.
     Para Lula, o Planalto é mesmo frio. Logo depois da posse, ele diz que não quer viver “trancado” ali. O presidente quer um governo itinerante, com o “pé na estrada”, nas ruas. Ao ser questionado naqueles dias se tinha medo de ser agredido por algum maluco nos contatos com o povo, ele responde:
     – Só tenho medo de ficar sozinho.”
Com uma sucuri, em visita a oficiais do Exército, em Tabatinga (Amazonas)
19/01/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “A presença tão próxima dos militares (da segurança presidencial) causou preocupações especialmente à primeira-dama. Dona Marisa, que durante a ditadura viu o marido ser preso pelos militares, ficou preocupada se os filhos iriam aceitar a nova situação, com menos liberdade e mais vigilância. Ela estava em Brasília, nos primeiros dias de governo, quando foi informada de que um grupo de militares iria subir ao apartamento da família, em São Bernardo do Campo, para conversar com os filhos sobre o trabalho de segurança.
     – Não, não subam. Deixa eu chegar aí primeiro. Eu quero participar da conversa – disse, por telefone.
     Os seguranças não subiram. Os filhos do presidente, segundo amigos, levaram tempo para se soltar e deixar de lado marcas “visíveis” do período da ditadura militar. Ainda no primeiro ano de governo, um segurança morreria baleado ao evitar que um assaltante se aproximasse de um dos filhos do presidente, em São Paulo. Na relação com os seguranças ou assessores, os filhos de Lula sempre demonstraram ser astutos e discretos, com receio de causar problemas à imagem do pai.”
Visita ao Conjunto Habitacional do "Casarão Cordeiro", em Recife (Pernambuco)
19/09/2004 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “O comportamento do presidente de exigir sempre objetividade, sem dar muita importância à política, causa estranheza em profissionais graduados das Forças Armadas e do Itamaraty.
     No gabinete, no terceiro ano de governo, um embaixador apresentou a Lula três páginas com informações que poderiam ser usadas num discurso que o presidente faria a um chefe de Estado da Ásia.
     – Presidente, se Vossa Excelência quiser, posso adensar mais dados aqui.
     Lula fixou o olhar no diplomata e disparou:
     – Pô, você acha que eu sou babaca de ler tudo isso? Resumo isso em três ou quatro coisas e chegando lá eu improviso o resto.”
Em Feira de Santana (Bahia), brinca com bola fabricada por crianças
12/09/2003 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Nas viagens, ao ver um antigo militante na plateia, Lula faz questão de convidá-lo a se aproximar. Isso causa confusão. Jornalistas e seguranças também têm de acompanhá-lo. Assessores o aconselham a evitar esse tipo de contato. E a resposta do presidente é sempre a mesma:
     – Porra, essa gente se fodeu pra fazer a minha campanha e agora não posso dar um abraço neles?”
Banho de mar em Luis Correia (Piauí)
22/02/2006 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Lula teve dificuldades de chegar a Agra, cidade onde está o Taj Mahal. É que a neblina atrasou em mais de uma hora a decolagem do avião presidencial em Nova Déli.
     – Chegar até aqui e não conhecer o Taj Mahal é o mesmo que não vir à Índia – argumentou.
     Diante do monumento, ele brincou com os fotógrafos:
     – Vocês já viram alguma coisa mais bonita?
     A resposta foi negativa.
     – Não é lá atrás, não. Sou eu, gente.”
Em Moscou (Rússia), passeio na Praça Vermelha.
Ao fundo, a catedral de São Basílio
18/10/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Tanto Fernando Henrique quanto Lula são admirados de forma intensa pelos seguranças, que apontam pontos positivos nos comportamentos dos dois presidentes. Os seguranças lembram que o tucano segurava a raiva e nunca explodia com os bajuladores, preferindo resolver os problemas com classe e ironia fina. Ele pensava e calculava gestos e atitudes. Usava a emoção de forma inteligente. Homens de visões estratégicas caem fácil no gosto dos militares. Lula, dizem, merece elogios por deixar claro que não tolera puxa-sacos e não é dessas pessoas com chances de morrer de infarte por engolir sapos.
     Lula não mede as palavras e fala o que quer. Move a peça de xadrez sem o medo de xeque-mate, contam. Embora não seja cordial como o antecessor, o presidente é visto com simpatia pelos seguranças por ter, segundo palavras dos próprios, a disposição de trabalho e o jeito durão de um militar.”
Em Davos (Suíça), para a reunião do Fórum Econômico Mundial
28/01/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Fora dos holofotes, porém, Lula nunca escondeu o incômodo ao ver um de seus assessores com fome. Num jantar com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, na cidade suíça de Lausanne, em maio do primeiro ano de mandato, ele percebeu que o intérprete Sérgio Ferreira estava faminto e cansado. Sentado enquanto ouvia um discurso, o presidente pegou um prato com pães e aproveitou enquanto as câmeras apontavam em outra direção para cortar os pães em pedacinhos, passar manteiga e, discretamente, entregar o prato ao intérprete, que desde cedo traduzia conversas e declarações.
     Lula, dizem amigos, não está preocupado se a pessoa está cansada. O que o aflige é ver os outros passando fome.”
Em Pequim, o presidente Lula e o presidente da China Hu Jintao, em revista a militares
24/05/2004 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Enquanto assessores e ministros insistem no tom professoral em discursos e audiências, Lula se comporta, nos momentos mais privados, com a mesma descontração dos tempos de sindicato. Numa audiência do gabinete concedida a amigos do ABC, em maio do primeiro ano de governo, ele brincou com os visitantes. Lembrou de histórias e se divertiu. Manuel Anísio Gomes, sindicalista que articulou a visita dos metalúrgicos que queriam anistia por terem sido demitidos nos anos da repressão, contou depois aos jornalistas detalhes do encontro:
     – Foi ótimo, muito bom. Ele estava tão descontraído que beliscou a bunda do pessoal.
     Numa audiência com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na época em que o governo começa a discutir a transposição de parte das águas do rio São Francisco, o presidente ouve atentamente a opinião contrária dela às obras e os argumentos favoráveis dos técnicos da área. Após ouvi-los, Lula consola a ministra:
     – Marina, essa coisa de meio ambiente é igual a um exame de próstata, não dá pra ficar virgem a vida toda. Uma hora eles vão ter que enfiar o dedo no cu da gente. Então, companheira, se é pra enfiar, é melhor que enfiem logo.”
Desfile em carro aberto pelas ruas de Seul (Coréia do Sul), com o presidente Roh Moo-Hyun
25/05/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “– Senhoras e senhores, atenção. Daqui a pouco nós estaremos chegando. O problema é que ninguém sabe aonde exatamente.” (Lula, do serviço de alto-falantes da cabine de comando do avião presidencial, em janeiro de 2004, no céu da Europa, brincando pelo fato de talvez não poderem pousar no país desejado – Suíça – devido às condições climáticas e terem três países como alternativa).
Visita a obras do Canal do Sertão, em Paulo Afonso (Bahia)
20/11/2003 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “No final do primeiro mandato de governo, Lula usaria as reportagens de sua visita ao Museu do Cairo, no Egito, para se afastar ainda mais da imprensa e organizar visitas fechadas a palácios e museus. O presidente ficou irritado ao ler que seus comentários e os de sua mulher sobre tumbas e peças antigas do museu haviam ganhado destaque dos jornais brasileiros.
     Naquele dia, o primeiro comentário do presidente ocorre quando é informado de que a tumba do faraó Tutancâmon foi a única entre as dos imperadores egípcios a resistir aos saques.
     – Veja desde quando vem o crime organizado.
     A seguir, com os ouvidos ligadíssimos dos repórteres por perto, é a vez de a primeira-dama soltar a sua apreciação, ao ouvir do guia que os egípcios seguiam setenta mandamentos, e não apenas dez.
     – Imagine, setenta. É muito pecado.
     A sessão de análises do casal presidencial prossegue quando o presidente ouve a explicação sobre a múmia de Ramsés II, que teve cerca de duzentos filhos e sessenta mulheres e morreu com 92 anos de idade.
     – Sentia tanta dor de cabeça que não tinha tempo para se preocupar com doencinhas – declara o presidente, para a seguir ouvir Marisa falar sobre o cabelo da múmia.
     – O cabelo dele está branquinho, olha lá.
     Na manhã do dia seguinte, ao ler parte das reportagens, o presidente fica enfurecido. Não entende o motivo de todas as suas falas virarem notícia, especialmente as brincadeiras ingênuas, feitas com frequência por qualquer turista em museu. E pior: vê aquilo como uma forma de a imprensa ironizá-lo.”
Instalações da Veracel Celulose, em Eunápolis (Bahia)
21/01/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “O governo petista, vale ressaltar, representa um período de liberdade para os jornalistas. Ao contrário dos tempos tucanos, por exemplo, repórteres não têm o temor de, mais cedo ou mais tarde, terem suas cabeças pedidas pelo governo à direção dos veículos de comunicação. Essa liberdade momentânea se explica por conta da relação do governo Lula com repórteres, editores, colunistas, diretores e patrões da mídia. Todos são tratados da mesma forma, sem que um ou outro jornalista ou veículo tenha direito a privilégios descarados de informações. Todos são nivelados por baixo.
     O presidente evita entrevistas formais e contatos diretos com pessoas influentes do jornalismo. Não telefona para pressionar ou fazer política com os chefes. Os repórteres nas ruas estão mais livres, o que aumenta o enfrentamento com assessores e seguranças da presidência em eventos oficiais.
     Vale quase tudo para conseguir uma ou duas frases em conversas quebra-queixo com um presidente protegido por grades e cercado por militares. Lula responde a três ou quatro perguntas e vira as costas a repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Quando quer reclamar da imprensa, pelo menos é transparente. Usa o microfone em eventos pelo Brasil afora, sem citar nomes de profissionais ou empresas. Nada de conversas discretas.”
Em uma fazenda de Toritama (Pernambuco), após um pouso preventivo do helicóptero presidencial para fugir de uma tempestade
11/02/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Ao longo dos anos 1980 e 1990, como líder petista, Lula construiu uma aliança forte e muito próxima com entidades sindicais e movimentos sociais. Com a estrutura do partido nas mãos, atuava como uma espécie de representante de honra dessas entidades em marchas e manifestações pelo país. Por isso, mesmo depois de chegar à presidência da República, não escondia de ninguém a satisfação que tinha de participar de eventos ao lado desses antigos “companheiros” políticos.
     Para resumir, ouvia muitos elogios e poucas críticas. Nesses eventos, os raros e sempre sutis ataques ao governo eram estrategicamente endereçados à equipe econômica, como se a figura do presidente fosse alheia à condução de tal modelo.
     No comando dos atos, sempre a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O último, aliás, na encruzilhada entre defender um projeto político que ajudou a eleger e enxergar suas famílias acampadas à beira da estrada à espera de um lote de terra.”
Entrega de residências em Lauro de Freitas (Bahia)
21/03/2006 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)
Pausa para foto durante a visita às obras da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Petrolina (Pernambuco)
21/02/2006 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Lobisomens – Sabine Baring-Gould

Editora: Leitura

ISBN: 978-85-7358-964-1

Tradução: Caroline Frurukawa

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 176

Sinopse: A lenda dos lobisomens atravessou séculos e ainda é muito presente no imaginário de crianças, adolescentes e adultos. O estudioso inglês Sabine Baring-Gould apresenta na publicação Lobisomens, com tradução de Caroline Frurukawa, lendas de metamorfoses famosas e o fenômeno da licantropia. Ele mostra que os lobisomens realmente existem e tem sede de sangue e carne humana.



“O que é licantropia? A transformação de um homem ou uma mulher em lobo, tanto por meios mágicos – para que a pessoa possa satisfazer o apetite por carne humana – ou por castigo imposto pelos deuses em punição a uma grande ofensa.

Essa é a definição popular. Na verdade, a licantropia consiste em uma forma de loucura, como aquela encontrada na maioria dos hospícios.”

 

 

“Toda a superestrutura da fábula e do romance relativo à transformação em animais selvagens reside simplesmente sobre esta base de verdade: que entre as nações escandinavas existiu uma forma de loucura ou possessão, sob a influência da qual homens agiram como se fossem transformados em brutos selvagens, uivando, espumando pela boca, sedentos de sangue e matança, prontos para cometer qualquer ato de atrocidade, e tão irresponsáveis por suas ações quanto lobos e ursos, com cujas peles eles geralmente se vestiam. (...)

Pode-se aceitar como axioma que nenhuma superstição de aceitação geral está destituída de uma base verdadeira; e, se nós descobrirmos o mito de um lobisomem sendo disseminado amplamente, não apenas por toda a Europa, mas por todo o mundo, devemos ter certeza de que há um núcleo sólido factual, rodeado por superstição popular que se cristalizou; e que o fato é a existência de uma espécie de loucura, uma crise na qual as pessoas afetadas acreditam ser um animal selvagem e agem como ele.”

 

 

“Na dissertação de Muller (1736), cuja fonte foi Cluverius e Danhaverus, (Acad. Homilet. p. ii.), tivemos conhecimento de que um certo Albertus Pericofcius em Moscou tinha o hábito de tiranizar e fustigar seus súditos das formas mais inescrupulosas. Uma noite, quando ele estava fora de casa, todo seu rebanho de gado, adquirido por meio de extorsão, pereceu. Quando voltou para casa foi informado a respeito da perda, e o perverso homem desferiu as mais horríveis blasfêmias, exclamando: “Permita que aquele que matou coma; e se Deus conceder, que ele também possa me devorar.”

Assim que ele falou, gotas de sangue caíram no chão, e o nobre se transformou em um cão selvagem, correu até seu gado morto, destroçou e dilacerou as carcaças e começou a devorá-las; e não parou até que chegasse o seu fim (ac forsan hodie que pascitur). Sua esposa, então próxima à sua reclusão, morreu de medo. Dessas circunstâncias não há apenas relatos, mas também testemunhas. (Non ab auritis tantum, sed et ocidatis accepi, quod narro).”

 

 

“Os esportistas e pescadores seguem um instinto natural de destruição quando atiram em um pássaro ou outro animal, ou fisgam um peixe: a pretensão de que a presa seja caçada para colocá-la à mesa não pode ser feita com justiça, pois o esportista se preocupa pouco com o jogo que ganhou, desde que tenha a presa em mãos. O motivo para a feroz perseguição de um pássaro ou animal certamente é outro: o desejo ardente de se extinguir a vida que existe em sua alma. Por que uma criança impulsivamente bate em uma borboleta assim que ela passa voando? Ela não se importa com o inseto ao esmagá-lo com os pés, a menos que esteja agonizando, o que ela observa com grande interesse. A criança bate na criatura voando porque a borboleta tem vida, e ela tem um instinto que a impele a destruir a vida assim que a encontra.

Pais e enfermeiras sabem bem que as crianças por natureza são cruéis, e que a humanidade tem de ser adquirida pela educação. Uma criança exulta com maldade os sofrimentos de um animal ferido até que sua mãe lhe peça: “deixe-o em paz, tenha compaixão”. Uma criança inocente nem pensaria em pôr fim à agonia da criatura abruptamente, como se saboreasse um bombom inteiro antes de engoli-lo. A crueldade inerente pode ser obscurecida por impressões posteriores ou pode ser mantida sob repressão moral; a pessoa que é inerentemente um “Nero”, não consegue reconhecer a sua própria natureza, até que algum dia, por acidente, o ímpeto se torne dominante e arrebate tudo diante de si. Um relaxamento da posição moral, um choque do intelecto controlador ou uma condição anormal do corpo são suficientes para permitir que o ímpeto se afirme.”

 

 

“Vi uma jovem realizada, de considerável refinamento e de um temperamento extremamente nervoso, enfiar moscas com a agulha em um pedaço de linha e assistir com complacência o bater de asas agonizante. A crueldade pode permanecer latente até que, por algum acidente, ela apareça: então, irromperá em uma chama devastadora. O ímpeto do amor e do ódio é semelhante ao que ocorre com a sede por sangue; nós não fazemos ideia da intensidade com que eles podem surgir até que as circunstâncias ocorram. Amor ou ódio serão dominantes em um peito que esteve sereno até agora, pois quando a fagulha surge repentinamente, a paixão se acende, e a serenidade de um peito quieto é destruída para sempre. Uma palavra, um olhar, um toque são suficientes para atear fogo ao paiol da paixão no coração e desolar para sempre uma existência. É o mesmo que acontece com a sede por sangue. Ela pode espreitar nas profundezas do coração de alguém muito querido para nós. Pode queimar no seio daquele que é muito importante, e nós podemos ser perfeitamente inconscientes da sua existência. Talvez as circunstâncias não propiciem seu surgimento; talvez o princípio moral possa tê-la abatido com grilhões que jamais conseguirá arrebentar.”

 

 

“A mitologia popular na maioria das culturas considera a alma oprimida pelo corpo, e sua libertação é uma libertação do “fardo” da carne. Se a alma é capaz de agir ou expressar-se completamente sem um corpo, assim como o fogo existe sem o aparato da caldeira a vapor ou da maquinaria, é uma questão que ainda não foi aceita pela mente popular. Somente a religião cristã dá o mesmo valor ao corpo e à alma, e dando uma esperança de enobrecimento e ressurreição nunca sonhado em qualquer outro sistema mitológico.

Mas o credo popular, em vez do testemunho mais enfático das Escrituras, é de que a alma está sujeita há tanto tempo, que se uniu ao corpo, uma crença inteiramente de acordo com o Budismo.”

terça-feira, 28 de junho de 2011

Inclusão social e desenvolvimento econômico na América Latina – editores: Mayra Buvinic e Jacqueline Mazza com Ruthanne Deutsch

Editora: Elsevier (Campus)

ISBN: 978-85-3521-594-6

Tradução: Hilda Maria L. P. Coelho.

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 368

Sinopse: Este livro é o resultado de uma iniciativa mais ampla do Banco Interamericano de Desenvolvimento para promover a inclusão social na região e na instituição. Esta coleção de leituras transmite a mensagem de que a pobreza e a desigualdade na América Latina e no Caribe são facilmente reconhecidas nos rostos das mulheres, dos afrodescendentes, dos povos indígenas, dos portadores de deficiências e das pessoas com HIV/aids, entre outros. O Banco Interamericano de Desenvolvimento tem grande experiência na promoção do desenvolvimento das mulheres e dos povos indígenas, mas até poucos anos atrás, quando o trabalho que culminou neste livro foi iniciado, havia pouco conhecimento no que se refere à exclusão enfrentada por afrodescendentes (os quais, de acordo com algumas estimativas, constituem quase um terço da população da região), portadores de deficiências e pessoas com HIV/aids. Não havia, tampouco, uma compreensão dos fatores que esses grupos tinham em comum e, portanto, não se compartilhavam planos de trabalho, experiências e lições aprendidas. Este livro coloca em primeiro plano não apenas as características comuns de grupos excluídos, como também as características específicas da exclusão enfrentada por afrodescendentes, portadores de deficiências e pessoas com HIV/aids.



“Embora a insuficiência de renda seja um fator fundamental, há consenso no sentido de que a exclusão social se refere a um conjunto de circunstâncias mais abrangentes do que a pobreza. A exclusão social está mais estreitamente relacionada ao conceito de pobreza relativa do que à pobreza absoluta e, portanto, está inextricavelmente vinculada à desigualdade. A exclusão social se refere não apenas à distribuição de renda e ativos (como as análises da pobreza), mas também à privação social e à ausência de voz e poder na sociedade.

Na América Latina, essa ausência de voz e poder talvez esteja mais fielmente refletida nos baixos níveis de representação dos grupos excluídos da tomada de decisões políticas. Em 2002, por exemplo, apenas 4,4% dos parlamentares brasileiros eram afrodescendentes, embora representassem quase a metade da população brasileira (A Tribuna de Santos, 29 de julho de 2002).”

(Mayra Buvinic)

 

 

“A exclusão social é “a incapacidade de um indivíduo de participar do funcionamento básico político, econômico e social da sociedade em que vive” (Tsakloglou e Papadopoulos, 2001). Ou, mais concisamente, é “a negação do acesso igualitário a oportunidades imposta por alguns grupos da sociedade a outros” (Behrman, Gaviria e Székely, 2003). A primeira definição apresenta a gama de comportamentos afetados pela exclusão, expondo sua natureza multidimensional. A segunda indica o que talvez sejam as duas características mais distintivas da exclusão: ela afeta grupos culturalmente definidos e está inserida nas interações sociais.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“O acesso a bens de produção também rompe a pobreza estrutural dos grupos excluídos. Uma nova geração de programas de titulação de terras e reforma agrária beneficia as mulheres, os povos indígenas e os afrodescendentes, reconhecendo a propriedade coletiva e comunitária da terra quando relevante. A Lei 70 da Colômbia, de 1993, instituiu um programa de titulação coletiva de terras que concedeu 4,6 milhões de hectares de terras a afrodescendentes na costa do Pacífico, entre 1997 e 2000 (Grueso, 2002). Os programas de titulação de terras implementados na região na década de 1990 concederam às mulheres (especialmente as que chefiam lares agrícolas) a propriedade individual ou coletiva de terras (Deere e León, 2000). A experiência revela a importância da titulação de terras – e suas limitações. Para que a aquisição ou a titulação de terras resulte em aumento de produtividade, são necessários insumos complementares como capital e tecnologias. Os programas frequentemente fracassam quando a intervenção agrária não é corroborada por investimentos adicionais.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“Apenas o governo federal pode assegurar tanto a transferência apropriada e eficaz de recursos quanto a boa coordenação das políticas nacionais.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“A América Latina está à frente de outras regiões na implementação dessas quotas para mulheres, embora países de outras regiões a estejam alcançando rapidamente e, algumas vezes, implementando versões mais radicais. A França alterou sua constituição para exigir a igualdade de representação entre mulheres e homens em listas de candidatos, acrescentando uma multa financeira para os partidos que descumprem a decisão. Inicialmente aplicada nas eleições de 2001, a lei superou resistências profundamente enraizadas à participação da mulher na política. Onde a lei é aplicada, não há escassez de candidatas qualificadas, e o número de mulheres em cargos eletivos aumenta rapidamente (Gaspard, 2003).”

(Mayra Buvinic)

 

 

“A maioria dos governos instituiu órgãos ou departamentos especializados, encarregados de zelar pelos interesses dos excluídos. As mais de duas décadas de experiência com órgãos dedicados aos interesses da mulher sugerem que sua eficácia é frequentemente limitada por recursos inadequados e por sua situação marginal na máquina do governo. Além disso, a integração tende a ser uma batalha contínua para esses órgãos, sugerindo que esse esforço deve ser abordado modestamente, com uma perspectiva de longo prazo, e que atividades e orçamentos específicos constituem passos importantes na estrada para a inclusão plena.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“Outras implicações de política surgem do fato de que a exclusão concentra as desigualdades nos grupos. As desigualdades baseadas em grupos instigam a mobilização e a defesa de direitos e, se não forem remediadas, podem gerar conflito e violência, especialmente em países com alto grau de desigualdade e diversidade étnica (Stewart, 2001; Easterly, 2002). A resposta deve vir sob a forma de políticas de inclusão social que utilizem as ferramentas de diálogo, a resolução de controvérsias e a negociação.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“Na América Latina, a exclusão social se manifesta mais claramente na desigualdade persistente na distribuição de renda, o que leva a uma pobreza pior do que sugere o nível de desenvolvimento da região.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“A pobreza aumentou rapidamente na América Latina durante a “década perdida” dos anos 1980, tendo posteriormente experimentado uma redução gradual com a recuperação econômica ocorrida no período de 1990 a 1997. Mas esse avanço foi novamente interrompido durante a “meia década perdida” que se seguiu à crise da Ásia. O que é pior, a pobreza relativa nos últimos cinco anos – que afeta 44% da população – permanece acima dos níveis de 1980. O fato de a renda per capita estar apenas ligeiramente acima dos níveis registrados naquele ano é uma indicação inequívoca da deterioração distributiva registrada nas duas últimas décadas. E, a despeito de uma redução relativa, o número absoluto de pobres permaneceu em torno de 200 milhões entre 1990 e 1997, tendo aumentado para cerca de 220 milhões hoje.

As mudanças ocorridas na pobreza relativa têm sido irregulares. Embora o fator que mais tem afetado significativamente a pobreza seja o crescimento econômico, não tem havido uma relação automática entre o crescimento dos diferentes países e a evolução da pobreza. Essa relação somente é forte quando o crescimento é acompanhado da criação dinâmica de empregos de qualidade, o que não tem sido a tendência dominante. A instabilidade do crescimento econômico também tem sido um fator decisivo, uma vez que, na ausência de instituições de proteção social adequadas, as recessões têm atingido mais duramente os segmentos de menor renda. Ainda assim, alguns países têm conseguido reduzir a pobreza canalizando, de forma eficiente, as transferências monetárias do setor público para os setores menos favorecidos e contendo a hiperinflação.

Durante a “década perdida” houve uma acentuada deterioração na distribuição de renda. Na década de 1990, essa tendência persistiu na metade dos países da região, tendo sido claramente invertidas em apenas alguns deles (notadamente no Uruguai). Nenhum país da região apresenta níveis atuais de desigualdade inferiores àqueles registrados há três décadas e, em alguns países, esses níveis são ainda mais elevados. Essas tendências são ainda mais preocupantes em vista do fato de que a América Latina já era a região com maior desigualdade de distribuição de renda no mundo.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“Todos esses fatores ressaltam a importância de se obter maior estabilidade macroeconômica, no sentido mais abrangente do termo, que inclua não apenas controle fiscal e baixos níveis de inflação, como também a estabilidade do crescimento econômico e das contas externas. Atingir preços estáveis ou crescimento econômico rápido com taxas cambiais desfavoráveis é oneroso no longo prazo, como também o são políticas pró-cíclicas que agravam os efeitos de ciclos financeiros internacionais sobre as economias, ou uma aplicação excessivamente rigorosa dos objetivos de estabilização de preços que ignore outras dimensões da estabilidade e os custos de transação que podem ser gerados pelas políticas antiinflacionárias mais bem-intencionadas.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“A pobreza e a exclusão são realidades sociais injustas e um enorme desperdício de oportunidades econômicas.

Algumas características do mundo moderno corroboram ainda mais essa visão. As vantagens competitivas baseadas em salários baixos são frágeis e instáveis.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“As diferenças raciais e étnicas permeiam os indicadores de pobreza e desigualdade na América Latina. Em particular, a exclusão de afro-descendentes e indígenas do acesso a oportunidades e outras atividades constitui uma dimensão imaterial crucial da desigualdade e da pobreza. Essa exclusão se manifesta na falta de acesso à justiça e à participação social e política; aos mercados de ativos e crédito; às infra-estruturas adequadas (água e saneamento, transportes, habitação); aos serviços sociais (saúde e educação); e ao mercado de trabalho (emprego e salários satisfatórios).

(Jonas Zoninsein)

 

 

“A concepção de Amartya Sen do desenvolvimento como a remoção das barreiras à liberdade é apropriada – conceitual e metaforicamente – ao discurso sobre deficiências. Em sua opinião, inclusão significa a remoção das barreiras que deixam as pessoas com pouca ou nenhuma escolha ou oportunidade para expressar suas habilidades. Tradicionalmente, a justificativa para essa ação tem sido de ordem econômica: menos barreiras resultam em maior crescimento econômico. A remoção de barreiras que não resulta em crescimento é mais difícil de ser justificada da perspectiva econômica. Sen (1999) argumenta que a liberdade, ou uma sociedade sem barreiras, é um compromisso social que dispensa outra justificativa.”

(Ernest Massiah)

 

 

“A pobreza, mesmo quando amplamente definida como a exclusão do indivíduo dos meios necessários para sua plena participação nas atividades normais de uma sociedade é, mais do que qualquer outra coisa, uma questão de acesso a recursos e serviços. A exclusão social de um grupo, ou dos indivíduos que pertencem a esse grupo é, antes de tudo, uma negação de respeito, reconhecimento e direitos. A exclusão de grupos é “horizontal”, uma vez que pode afetar até mesmo os membros afluentes e privilegiados dos grupos excluídos. A exclusão – ou a forma como os indivíduos são tratados pelo fato de pertencer a um determinado grupo – é discriminação, quer seja motivada por preconceito ou por argumentação estatística.”

(Hilary Silver)

 

 

“As cotas devem ser vistas não como punições para aqueles que gozam de vantagens, mas sim como parte de uma combinação de ferramentas destinadas a promover o avanço positivo das populações que sofrem carências há várias gerações, em um contexto no qual as garantias civis costumam ser muito mais limitadas, e as populações excluídas, numerosas, além de expostas a carências ainda maiores em termos de salários, insegurança no local de trabalho e empregos de subsistência.”

(Jacqueline Mazza)

 

 

“Ao deixar o sistema educacional, os trabalhadores de muitos países latino-americanos se defrontam com sistemas de treinamento ocupacional de baixa qualidade, baseados em instituições estatais de grande porte, financiadas pelo setor público, com vínculos fracos com a demanda do setor privado e métodos modernos de treinamento. Enquanto os países europeus se dão ao “luxo” de focalizar o mercado de trabalho como o principal instrumento da política de inclusão social, na América Latina a melhoria da educação é sempre vista como o primeiro e crucial passo para o avanço da inclusão social.

Entretanto, o aumento e a melhoria da educação para as populações excluídas, por si só, não bastam para aprimorar seu desempenho no mercado de trabalho no longo prazo. Duryea e Pagés (2001) argumentam que a simples melhoria da educação não impulsionará a produtividade sem uma gama mais ampla de melhorias associadas à produtividade em áreas como infra-estrutura e crédito. A discriminação no mercado de trabalho e maior transparência na contratação também devem ser trabalhadas, para que a educação e o treinamento ocupacional se traduzam em aumento de contratações e na promoção das populações excluídas.”

(Jacqueline Mazza)

 

 

“Os antropólogos tendem a definir etnia como um conjunto de elementos culturais compartilhados por uma comunidade de indivíduos, no qual eles se baseiam para organizar seu cotidiano. Nas zonas rurais, a etnia é um atributo comumente associado às comunidades nativas, cujo contato com outras comunidades é limitado. Nos cenários urbanos, as características étnicas estão associadas à cultura, à religião, ao idioma, às tradições e à raça, entre outras dimensões.”

(Máximo Torero, Jaime Saavedra, Hugo Ñopo e Javier Escobal)

 

 

“Pobreza não é apenas a falta de bens materiais, mas também o fato de sentir-se distante da tomada de decisão e um senso de desvalorização que se manifesta como apatia, raiva e enfraquecimento de cultura cívica” (Richie-Vance, 1996, p. 9).

(Margarita Sánchez)

 

 

“No grego clássico, o termo “estigma” era empregado para descrever a marca de grupos proscritos como um sinal permanente de sua condição. As discussões mais recentes sobre o estigma, especialmente em relação ao HIV/aids, encontram seu ponto de partida no agora clássico trabalho de Goffman (1963), que definiu o estigma como “um atributo que é significativamente desonroso” e que inferioriza, aos olhos da sociedade, a pessoa que o possui.”

(Peter Aggleton, Richard Parker e Miriam Maluwa)

 

 

“Em resumo, a discriminação ocorre quando a diferenciação a que uma pessoa é submetida a leva a ser tratada de forma injusta e parcial pelo fato de pertencer – efetiva ou supostamente – a um grupo específico. A discriminação pode existir em vários níveis distintos, inclusive no nível do indivíduo, da comunidade ou da sociedade como um todo.”

(Peter Aggleton, Richard Parker e Miriam Maluwa)

 

 

“Um dos obstáculos mais significativos à formulação e implementação de políticas públicas focalizadas é a resistência insistente da sociedade em lidar com questões relacionadas a etnia e raça. Embora essa resistência esteja diminuindo gradualmente, a abordagem latino-americana ainda tende a dedicar atenção insuficiente às questões de raça na explicação das desigualdades observadas nos resultados sociais e políticos entre diferentes grupos. A tendência é reduzir a raça a uma classe e minimizar a extensão e o impacto da discriminação racial. Quando as antipatias raciais são reconhecidas, elas são vistas, de forma difusa, como relativamente benignas. Essa visão impede o desenvolvimento de prescrições políticas e de respostas programáticas à discriminação racial e étnica.

A neutralidade que o Estado latino-americano tenta demonstrar na construção da identidade nacional é desmentida pela resposta diferenciada que dá aos grupos sociais e políticos. Seu papel não é meramente reativo. Ao contrário, ele desempenha um papel fundamental e crucial na formação de identidades raciais (Nobles, 2000; Marx, 1998). Ao fazê-lo, os Estados podem restringir a organização política e social baseada na identidade. Os dados mostram, claramente, que a discriminação baseada na cor da pele é um fenômeno econômico, social e político real (ver Lovell, 1999; Lovell e Wood, 1998; Hasenbalg, 1979; do Valle Silva, 1994; da Silva, 1994). A formulação de políticas, de leis e de programas destinados a abordar essa situação é tanto imperativa quanto factível, e não deve ser refém de debates infindáveis sobre categorização.”

(Eva T. Thorne)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Em busca do tempo perdido: No Caminho de Swann, de Marcel Proust

Editora: Ediouro

ISBN: 978-85-0002-553-2

Tradução: Fernando Py

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 331

Sinopse: Em 1907, Marcel Proust começa a escrever sua obra prima: Em Busca do Tempo Perdido, composta por 7 volumes diferentes. O volume No Caminho de Swan foi publicado em 1913, após ter sido recusado por quatro editoras. Em 1918 publica-se À Sombra das Moças em Flor, romance que obteve o Prêmio Goncourt de 1919 – única láurea conseguida pelo autor em vida. Nos anos seguintes são publicados os demais títulos: O Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra e A Prisioneira. O volume A Fugitiva foi publicado em 1925 com o título de Albertina Desaparecida e O Tempo Recuperado foi dado ao público em 1927.

Nos sete romances que compõem o ciclo de Em Busca do Tempo Perdido o autor perpassa não somente a vida exterior, episódica e histórica de personagens e da própria França, com alguns ecos de fatos ocorridos na Europa e no mundo inteiro, mas, acima de tudo, a vida interior, as sensações, paixões, sentimentos e emoções do narrador e demais personagens, todos envoltos numa atmosfera de análises psicológicas minuciosas e implacáveis.

Embora a realidade do ciclo se baseie na vida de Proust, a sua transposição para o plano ficcional obedece a leis internas da narrativa e, sobretudo, à imaginação criadora do autor, afastando-se muito da realidade factual. Os principais temas do ciclo são o Tempo e a Memória. Proust analisa a passagem do tempo em seus personagens, mostrando como eles apresentam aspectos diversos no decorrer da narrativa, mudam de ideias, de gostos, de sentimentos e, às vezes, até de personalidade.

E é a memória, não a memória comum, mas a memória involuntária, aquela que não depende do esforço consciente de recordar, mas que está adormecida em nós, que nos restitui o passado já remoto, fazendo com que o narrador possa enfim recuperar o Tempo Perdido e realizar a obra literária que tanto almejava construir.

“O hábito! arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, a gente se sente bem feliz ao encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento.”

 

 

“Já adulto pela covardia, eu fazia o que todos fazemos, quando somos grandes, e há diante de nós sofrimentos e injustiças: não queria vê-los.”

 

 

“Acho bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós até o dia, que para muitos não chega jamais, em que ocorre passarmos perto da árvore, ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido o encanto se quebra. Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco.

O mesmo se dá com o nosso passado. É trabalho baldado procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência serão inúteis. Está escondido, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria), que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende apenas do acaso que o reencontremos antes de morrer, ou que o não encontremos jamais.”

 

 

“– Mas estou fazendo você perder seu tempo, minha filha.

– Ora, não, senhora Octave. Meu tempo não é assim tão caro. Quem fez o tempo não o vendeu para a gente.”

 

 

“– Adoro os artistas – respondeu a dama cor-de-rosa –, só eles é que compreendem as mulheres...”

 

 

“Depois desta crença central que, durante a leitura, executava movimentos incessantes de dentro para fora, no sentido da descoberta da verdade, vinham as emoções que me dava a ação na qual tomava parte, pois as tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que, muitas vezes, uma vida inteira. Eram os acontecimentos que ocorriam no livro que estava lendo; é verdade que as personagens a quem interessavam não eram “reais”, como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que nos fazem experimentar a alegria ou a desgraça de uma personagem real só ocorrem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou dessa desgraça; a engenhosidade do primeiro romancista consistiu em compreender que, no aparelho das nossas emoções, sendo a imagem o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele, em grande parte só o percebemos através dos sentidos, isto é, permanece opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não consegue erguer. Se uma desgraça o atinge, esta só poderá nos comover numa pequena parte da noção global que temos dele, e ainda mais, só numa pequena parte da noção total que tem de si mesmo é que sua própria desgraça poderá comovê-lo. O achado do romancista foi ter tido a ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade idêntica de partes materiais, isto é, que nossa alma pode assimilar. Desde então, que importa que as ações, as emoções desses seres de um novo tipo nos pareçam verdadeiras, visto que fizemo-las nossas, que é dentro de nós que se produzem, que mantêm sob seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar. E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados exclusivamente interiores, toda emoção é duplicada, e onde seu livro vai perturbar-nos, à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos ao dormir, e cuja lembrança vai durar mais, então, eis que ele deflagra em nós, durante uma hora, todas as fortunas e todas as desgraças possíveis, algumas das quais iríamos levar a vida inteira para conhecer, ao passo que outras, as mais intensas, jamais nos seriam reveladas porque a lentidão com que se produzem impede que as percebamos. (Assim vai mudando o nosso coração, durante a vida, e esta é a pior das dores; porém só a conhecemos através da leitura, pela imaginação: na realidade o coração se transforma da mesma maneira como se produzem certos fenômenos da natureza, tão vagarosamente que, embora possamos verificar de modo sucessivo seus estados diferentes, em compensação nos foge a própria sensação da mudança.)”

 

 

“Até as mulheres que pretendem avaliar um homem só pelo físico, veem neste físico a emanação de uma vida especial. É por isso que amam os militares, os bombeiros; o uniforme as faz menos exigentes para o rosto; julgam beijar, por baixo da couraça, um coração diferente, aventuroso e suave; e um jovem soberano, um príncipe herdeiro, para efetuar as conquistas mais lisonjeiras nos países estranhos que visita, não precisa ter o perfil regular que talvez fosse indispensável a um corretor da Bolsa.”

 

 

“Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças, não as fizeram nascer, não as destroem; podem infligir-lhes os desmentidos mais constantes sem enfraquecê-las, e um aluvião de desgraças ou de doenças, sucedendo-se ininterruptamente numa família, não a fará duvidar da generosidade de seu Deus ou do talento de seu médico.”

 

 

“A indiferença pelos sofrimentos que causamos e que, mesmo com os mais diversos nomes que se lhe deem, é a forma terrível e constante da crueldade.”

 

 

“De todas as formas de produção do amor, de todos os agentes de disseminação do mal sagrado, um dos mais efetivos é esse turbilhão agitado que por vezes passa por nós. Então, o ser com quem nos divertimos nesse instante – a sorte está lançada – há de ficar sendo a pessoa amada. Nem há necessidade que até aquele momento nos tenha agradado mais que as outras. Precisava era que o nosso gosto por ela se tornasse exclusivo. E semelhante condição se realiza quando – no momento em que ela nos fez falta – a busca de prazeres que sua convivência nos trazia é de repente substituída em nós por uma necessidade angustiosa, que tem por objeto essa mesma pessoa, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam de satisfação impossível e de difícil cura: a precisão insensata e dolorosa de possuí-lo.”

 

 

“– Sim, a poesia... Não tenho dúvidas de que não haveria nada mais belo se fosse verdadeira, se os poetas pensassem tudo aquilo que dizem. Porém, muitas vezes, não existe ninguém mais interesseiro do que eles. Sei disso, eu tinha uma amiga que se apaixonou por um tipo de poeta. Nos seus versos ele só falava do amor, do céu e das estrelas. Ah, que de nada adiantou a ela! Ele lhe roubou mais de trezentos mil francos.”

 

 

“E que verdade dolorosa assumiam para ele estas linhas do Diário de um Poeta de Alfred de Vigny, que antigamente havia lido com indiferença: “Quando a gente se apaixona por uma mulher, devemos dizer: De que forma ela está cercada? Qual foi a sua vida? Toda a felicidade da vida se apoia nisto”.”

 

 

“Não sabia eu então que o que sentia por ela não dependia nem de seus atos nem de minha vontade?”