sábado, 25 de junho de 2022

Introdução ao fascismo (Parte II), de Leandro Konder

Editora: Expressão Popular

ISBN: 978-85-7743-118-2

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 184

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Sinopse: Ver Parte I


 

“O fascismo é uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo, que procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável à crescente concentração do capital; é um movimento político de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara “modernizadora”, guiado pela ideologia de um pragmatismo radical, servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com procedimentos racionalistas-formais de tipo manipulatório. O fascismo é um movimento chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista, antioperário. Seu crescimento num país pressupõe condições históricas especiais, pressupõe uma preparação reacionária que tenha sido capaz de minar as bases das forças potencialmente antifascistas (enfraquecendo-lhes a influência junto às massas); e pressupõe também as condições da chamada sociedade de massas de consumo dirigido, bem como a existência nele de um certo nível de fusão do capital bancário com o capital industrial, isto é, a existência do capital financeiro.”

 

 

“Renunciando a essas genealogias que nos levam longe demais e são pouco compensadoras para o esclarecimento da natureza do fascismo, como fenômeno especificamente moderno, nos limitaremos a endossar aqui o ponto de vista de Lukács, segundo o qual o fascismo aproveitou elementos das mais variadas linhas de pensamento reacionárias, reunindo-os de maneira eclética e em função de um uso muito claramente pragmático (cf. Die Zerstorung der Vernunft).

Exatamente por seu espírito radicalmente pragmático, o fascismo nunca se empenhou seriamente em desenvolver com rigor e coerência uma determinada linha de reflexão filosófica. Todos os pensadores do século 19 a que se poderia atribuir a paternidade do monstro teriam, por isso, bons argumentos para negá-la. Mas a pouca seriedade teórica dos fascistas não significa que não tenham antepassados no plano intelectual: em diferentes níveis e de diferentes modos, eles buscaram e encontraram armas ideológicas em algumas figuras ilustres da cultura oitocentista e novecentista, e seria inútil (e suspeito) tentar negar todo e qualquer comprometimento no crime por parte de tais figuras.

O fascismo italiano de Mussolini extraiu de Sorel muitos aspectos de sua concepção da violência, muito do seu entusiasmo pelos “remédios heroicos”; extraiu de Nietzsche sua ética aristocrática, seu culto do “super-homem”. O fascismo alemão de Hitler também aproveitou algo de Nietzsche e se apoiou decisivamente nas ideias racistas de Eugen Dühring (aquele professor cego de Berlim contra quem Friedrich Engels polemizou), de Paul Bötticher e sobretudo de Houston Stewart Chamberlain. Na França, o fascismo de Charles Maurras e Leon Daudet foi precedido pelo racismo de Arthur de Gobineau (o amigo do imperador Pedro II), de Vacher de Lapouge e de Gustave Le Bon, além de ter encontrado importantes pontos de apoio nos escritos de Joseph de Maistre, de René de La Tour du Pin e de Maurice Barrès. De maneira geral, todo o pensamento de direita que, ao longo do século 19, se empenhou na “demonização” da esquerda, desempenhou um papel significativo na preparação das condições em que o fascismo pôde, mais tarde, irromper.12 A “demonização” do adversário facilitaria à direita fascistizante libertar-se em face dele de alguns escrúpulos mantidos pela postura “aristocrática” do conservadorismo tradicional: quem não é implacável na luta direta contra Satanás torna-se pecador infame e perde sua alma.

Não é casual, aliás, que o primeiro movimento político fascista significativo (que não surgiu na Itália e nem na Alemanha, e sim na França, conforme observação do alemão Ernst Nolte13), a Action Française, tenha manifestado um pathos tão fanaticamente religioso.”

12 Antes de se empenhar na “demonização” do socialismo, a direita se empenhou em “demonizar” a Revolução Francesa de 1789. Joseph de Maistre, por exemplo, via nela um “caractère satanique” (Considérations sur la France, capítulo V).

13 Der Faschismus in seiner Epoche, vol. 1.

 

 

“Quando a Itália, depois de alguma hesitação, entrou finalmente na guerra, Mussolini se alistou e, em combate com as tropas da Alemanha e do Império Austro-Húngaro, deu mostras de coragem militar e veio a ser ferido. Terminado o conflito, já recuperado, percebeu o imenso potencial político constituído pela massa dos ex-combatentes, que regressavam de uma guerra na qual a Itália tinha ficado do lado das nações vitoriosas, mas o triunfo não resolvera nenhum de seus problemas internos. A guerra tinha acentuado o processo de concentração na indústria italiana, proporcionando grandes lucros à siderurgia, à indústria automobilística, à indústria química. A Fiat decuplicara seu capital. Os grupos maiores – Ilva e Ansaldo – cresceram enormemente. O setor agrário entrou em crise, a produção agrícola baixou, os capitais se deslocavam para a indústria, em busca dos superlucros. O processo de concentração por sua vez, liquidava muitas pequenas empresas e ameaçava a pequena burguesia com a proletarização. A inflação pesava sobre a massa trabalhadora e sobre as chamadas classes médias, acentuando o descontentamento e a insegurança (De 1914 a 1920, a moeda italiana perdeu 80% de seu valor.) Acrescente-se a isso o fato de que os trabalhadores rurais e pequenos proprietários agrícolas tinham sido retirados pela própria guerra do isolamento e da marginalização secular em que se achavam em face da vida política do país, e passaram a se agitar, a protestar confusa mas apaixonadamente contra a miséria crescente que os envolvia. Os combatentes desmobilizados (600 mil italianos tinham morrido nos campos de batalha, 500 mil tinham sido feridos e voltavam mutilados para casa) não foram unanimemente acolhidos como heróis pela população irritada; e compreenderam logo que não ia ser fácil, para eles, reintegrarem-se na vida civil, nas condições sociais com que se depararam.

Mussolini decidiu se apoiar na massa dos ex-combatentes. Até então, seu jornal, o Popolo d’Italia, ainda tinha o subtítulo de “Giornale socialista”; ao terminar a guerra, o subtítulo passou a ser “organo dei combattenti e produttori” (órgão dos combatentes e produtores). E começou uma luta inclemente contra os grandes responsáveis pela crise italiana, contra os inimigos da vocação da Itália para a grandeza: a democracia e o socialismo. O agitado e vaidoso poeta D’Annunzio lhe fornece uma das palavras de ordem para o seu combate: a “vitória mutilada”. A Itália se batera com imenso sacrifício e dedicação, conseguira afinal uma vitória heroica, mas os fracos dirigentes da liberal-democracia tinham cedido às pressões imperialistas de outros governos: em lugar de defenderem com firmeza os legítimos interesses nacionais (por exemplo, a posse de Fiume), permitiram covardemente que a vitória da Itália na guerra fosse “mutilada”. Mussolini e D’Annunzio se aliam para denunciar a “traição”. E o Partido Socialista Italiano, fomentando greves, observando com simpatia a revolução russa de Lenin, passa a ser sistematicamente denunciado por Mussolini como uma força antinacional, uma organização comprometida com os inimigos da Itália no confronto geral “entre a nação e a antinação” (Opera Omnia, vol. XIV, p. 172). Numa época em que a esquerda, dentro do Partido Socialista, já se preparava para constituir o Partido Comunista, acusando os socialistas de serem incuravelmente “reformistas” e de não terem sabido assimilar o leninismo, Mussolini escrevia: “o Partido Socialista é um exército russo acampado na Itália” (Opera Omnia, vol. XVI, p. 25).16

16 Com sua linguagem jornalística moderna, irônica e agressiva, Mussolini põe no Partido Socialista, do qual era renegado, o apelido de “partidão” (il Partitone) (Cf. Opera Omnia, vol. XIV, p. 233).

 

 

“Os novos fasci di combattimento não tinham programa: limitavam-se a vomitar impropérios pretensamente patrióticos contra os inimigos e, quando passavam à ação, praticavam aquilo que o fascista espanhol José Antonio Primo de Rivera, mais tarde, chamaria de “dialética dos punhos e dos revólveres”.17 Em 15 de abril de 1919, os fascistas invadiram e depredaram a redação do jornal socialista de Milão, o Avanti!. Mussolini se orgulhava da truculência do movimento e incentivava os seus ímpetos violentos: “a violência é imoral quando é fria e calculada – explicava ele – mas não quando é instintiva e impulsiva” (Opera Omnia, vol. XII, p. 7). Depois, o movimento fascista cresceu, ampliou-se, recrutou adeptos nas áreas mais variadas da população e, para manter-lhe a unidade, o Duce tratou de organizá-lo, esforçando-se inclusive por “canalizar” em termos políticos mais consequentes a violência, que deixa de ser “instintiva” e passa a ser calculada: “A violência fascista deve ser pensante, racional, cirúrgica” (Opera Omnia, vol. XVI, p. 271). (...)

A rarefação ideológica do fascismo e a agilidade de sua liderança política provocam perplexidade em amplos círculos; a rapidez de sua expansão impressiona. O conservadorismo tradicional deixa-se fascinar por ele, salvo raras exceções. O governo de Nitti ainda se opunha aos seus avanços, mas os de Bonomi e Facta dispõem-se a fazer-lhe concessões cada vez maiores, pensando acalmá-lo, mas na verdade alimentando-o e contribuindo para que se fortalecesse. Mussolini, por seu lado, mistura habilmente a agressividade com a discrição. Às vésperas da tomada do poder, respondendo a todos os que desejam saber qual é o programa do seu movimento (já então transformado em partido), ele esclarece, singelamente: “o nosso programa é simples: queremos governar a Itália” [Opera Omnia, vol. XVIII, p. 416].”

 

 

“Os artistas e intelectuais têm uma situação delicada e complexa em sua relação com a sociedade capitalista, seu Estado e seu mercado. Eles têm uma função social específica, que é a de elaborar representações ou interpretações capazes de enriquecer a autoconsciência da humanidade em cada época, em cada país, possibilitando aos homens reconhecerem melhor, sensível e/ou intelectualmente, a sua própria realidade. Mas as condições de vida e de trabalho não lhes facilitam o exercício da função que lhes cabe. Salvo algumas exceções, nem sempre significativas, os intelectuais e os artistas não são beneficiários diretos, em escala apreciável, das vantagens econômicas decorrentes da propriedade capitalista; por isso, não se inclinam necessariamente pela defesa do regime. Muitas vezes, são assalariados; e essa condição os aproxima da classe operária. Mas não se acham unidos pela consciência de terem uma missão histórica em comum. E as classes dominantes se encarregam de aprofundar-lhes as contradições internas, através das pressões econômicas, das intrigas e das lisonjas. Mais: o próprio acervo da cultura passada, que a intelectualidade recebe como herança e toma como base para a sua produção, serve para confundi-la, serve – em alguns casos – para impedi-la de ter pleno acesso ao reconhecimento da verdade da história (pois se trata de um acervo no qual, misturados às mais preciosas conquistas da evolução cultural dos homens, estão sutis preconceitos cristalizados da dominação classista).

Em face desse acervo da cultura passada, a prática mostra que são tão ingênuos os propósitos da “vanguarda” artística extremada (“inovação” radical, rompimento absoluto com tudo que veio antes) como os propósitos do academicismo (canonização do já feito): para produzir, os artistas e os intelectuais são obrigados a atender às exigências novas do presente, através da reelaboração – inevitavelmente crítica – do material ideológico legado pelas gerações precedentes. Essa reelaboração exige um difícil e acidentado trabalho, um doloroso aprendizado, uma luta constante contra a autocomplacência do particularismo ideológico, uma resistência teimosa contra as tendências dissolutoras do desespero.”

 

 

“Em discurso pronunciado em 2 de agosto de 1935, no 7º Congresso da Terceira Internacional, Dimitrov sancionou a definição que se tornou famosa: o fascismo é “a ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro”.41

41 Antes da definição ter sido sancionada por Dimitrov, foi formulada por Stalin mesmo, no 13º “executivo ampliado” da direção da Internacional. Mas Stalin não se empenhou na defesa da fórmula como Dimitrov, mostrando-se inclusive discreto no seu emprego.

 

 

“Outro apoio com que pôde contar a teoria do “totalitarismo” lhe veio das diversas biografias de Hitler e Mussolini que exageram o papel desses dois líderes e das peculiaridades psicológicas de um e do outro no processo histórico da Itália e da Alemanha. Não estamos formulando uma censura a todas as biografias de Hitler e de Mussolini, evidentemente, e nem consideramos inútil ou prejudicial a reconstituição da trajetória pessoal de duas personalidades cuja influência na história do século 20 é óbvia. Mas é preciso dizer claramente que os biógrafos de Hitler e Mussolini, em sua maioria, têm trabalhado com base em uma concepção idealista da história, que atribui ao arbítrio, a caprichos ou intuições inexplicáveis de alguns “chefes” determinadas decisões ou manobras políticas que só poderiam ser efetivamente entendidas como respostas às questões apresentadas num dado momento, de forma bem concreta, pelas condições de luta, à organização específica em que o chefe se apoia.

No caso do fascismo “clássico” de Mussolini e de Hitler, aliás, havia um empenho propagandístico das organizações a que eles serviam (e que se serviam deles) no sentido de usá-los como símbolos, apresentando-os como gênios, provas vivas da autonomia criadora dos homens superiores, negações eloquentes da “mesquinha” interpretação materialista da história. Vastíssimos recursos materiais e técnicos eram empregados na manipulação da “opinião pública”, aproveitando as condições criadas pela chamada sociedade de massas de consumo dirigido. Os historiadores e biógrafos que supervalorizam a importância dos fatores pessoais na ação de Hitler e de Mussolini tombam, de certo modo, na ilusão que os aparelhos fascistas de propaganda procuravam fomentar na época em que os dois ditadores ainda viviam.78 Convém termos permanentemente em vista a advertência de Horkheimer: “Os chamados ‘grandes indivíduos’ dos nossos dias, os ídolos das massas, não são indivíduos genuínos, são meras criações de seus agentes publicitários, ampliações de suas fotografias, funções do processo social” (Eclipse of reason, 1947, IV).79

Fixando a atenção dos leitores nas pessoas dos líderes fascistas, na psicologia deles, os autores de quem estamos falando não contribuem para esclarecer melhor a complexa questão do papel real das grandes personalidades na história: limitam-se (independentemente das intenções subjetivas que os animam) a obscurecer as responsabilidades objetivas de determinadas organizações políticas e de seus financiadores.80 Em última análise, recorrendo a “explicações” baseadas na ação “casual” ou “enigmática” de determinados homens “extraordinários”, esses escritores representam apenas uma tentativa no sentido de disfarçar o fato de que os representantes da teoria do “totalitarismo”, até hoje, não conseguiram elaborar nenhuma interpretação coerente e digna de discussão das origens do fascismo.

78 Cf. Hitler. Ein bericht für junge Staatsburger, Werner Klose, ed. Heliopolis, Tubingen, 1961: “Muitas circunstâncias se conjugaram. Ninguém sabia, na época (1933), o que precisava ser salvo. Foi em última análise o fato de as pessoas terem, nessa situação tão confusa, tombado sob a dependência de um homem tão convicto de sua missão e tão monstruosamente perigoso como Adolf Hitler que decidiu tudo. Uma fatalidade” (Verghängnis p. 71). Também Adolf Hitler, Helmut Heiber, ed. Colloquium, Berlim, 1960: “O nacional-socialismo não é mais do que a projeção da vontade daquele homem, Adolf Hitler, no domínio dos pensamentos e das palavras” (p. 14). Outros exemplos poderiam ser colhidos em Adolf Hitler, de Hans Bernd Gisevius, ed. Rütten & Loening (2ª edição), Munich, 1963; e em Mussolini piccolo borghese, de P. Monelli, Milano, 1954.

79 A advertência de Horkheimer serve tanto para os que superestimam a significação das qualidades quanto para os que atribuem importância exagerada aos defeitos pessoais dos líderes. Ernest Niekisch, por exemplo, num livro escrito na década de 1930 e publicado em 1953 (Das Reich der niederen Dämonen), impressiona-se demais com a cara de gigolô de Hitler (p. 110) e com a morfinomania de Goering...

80 Um exemplo se acha na primeira biografia importante de Hitler, escrita quando o ditador ainda vivia. O biógrafo explica que Hitler não era uma criatura do grande capital (he is no creature of money) é que ele havia se achegado ao capital, mas “não como um lacaio” e sim “como um chantagista” (he did approach big capital – though as a blackmailer, not as a lackey) [Der Fuehrer. Hitler’s rise to power, Konrad Heiden, Boston, 1944, p. 264.]. Konrad Heiden não percebe que as “qualidades políticas” que levaram Hitler a liderar com êxito o Partido Nazista e a merecer o apoio maciço do grande capital excluíam a possibilidade de ele se apresentar ante os grandes capitalistas como um “lacaio”: caso lhe faltassem a audácia e o cinismo de um “chantagista”, o capital financeiro alemão deixaria de ter interesse em apoiá-lo, em servir-se dele.

 

 

“Boa parte da crítica feita ao fascismo de um ângulo mais ou menos conservador-liberal e influenciada pela doutrina do “totalitarismo” se fixa na revoltada contemplação dos “excessos”. O crítico Wolfgang Fritz Haug examinou os textos que os professores universitários alemães-ocidentais dedicaram ao tema do fascismo entre 1964 e 1966, numa série de conferências patrocinadas pelas Universidades de Berlim, Tübingen e Munique, e observou a frequência com que neles apareciam as palavras “excesso”, “exagero”, “radicalismo”, “unilateralidade” e “desmesurado”. Haug notou que a repulsa dos professores ao fascismo hitleriano se exprimia em adjetivos de forte impacto emocional, mas carecia de uma bem definida dimensão substantiva. Concentrando-se nos aspectos “desmedidos”, a crítica deixava a entender que um fascismo eventualmente “moderado” não lhe inspiraria disposições negativas... E Haug definiu com acerto o sentido político da sua retórica: “Sempre que o antifascismo se reduz a mera fraseologia, ajuda a perpetuar alguma coisa do fascismo” (“Wo der antifaschismus eine phrase ist, perpetuiert er faschistisches”).84

84 Der hilflose antifaschismus, Wolfgang Fritz Haug ed. Suhrkamp, Frankfurt/Main, 1967, p. 24.

 

 

“A morte de Stalin em 1953, a realização do 20º Congresso do PC da URSS e o tumultuado início da “desestalinização” criaram condições desfavoráveis para a difusão da teoria do “totalitarismo”. As proporções assumidas pelo conflito sino-soviético a partir de 1959, por outro lado, revelam no movimento comunista um quadro mais complexo do que aquele que a “demonização” promovida pelo anticomunismo tinha sido capaz de reconhecer.

Além disso, a equiparação do fascismo ao comunismo, que se encontrava na própria raiz da doutrina do “totalitarismo”, pressupunha no Ocidente a vigência generalizada de um capitalismo liberal, capaz de se contrapor tanto às ditaduras “totalitárias” fascistas quanto às ditaduras “totalitárias” comunistas, mas as condições sociais e políticas existentes nos países ocidentais, em sua maioria, desautorizavam claramente a contraposição.

Nos Estados Unidos, a imagem do “liberalismo” tinha perdido boa parte da sua credibilidade, no plano interno, por causa da “caça às bruxas” desencadeada pelo senador Joseph McCarthy (e, no plano internacional, por causa da política neocolonialista e intervencionista posta em prática, por exemplo, na Guatemala, em 1954, em São Domingos e no Vietnã). Na França, a imagem do “liberalismo” saíra gravemente danificada após a guerra colonialista que o governo francês travara, com imensa brutalidade, contra o povo argelino, até 1962. Em outros países da área capitalista ocidental, o prestígio dos princípios liberais achava-se ainda mais prejudicado que nos Estados Unidos ou na França. Motivo de especial constrangimento entre os defensores do capitalismo liberal na Europa era o fato de eles se verem levados a trabalhar com aliados como os regimes então vigentes em Portugal e em Espanha, sobreviventes do fascismo “clássico”.

Salazar, ministro das Finanças em 1928, primeiro-ministro em 1932, havia instituído em Portugal um regime fascista influenciado pelo “corporativismo” de Mussolini e pelo “austro-fascismo” do ditador Dolfuss (assassinado pelos hitleristas em Viena em 1934). Em 1936, quando o general Francisco Franco se insurgiu contra a República Espanhola, Salazar apoiou-o ativamente: voluntários fascistas portugueses – os “Viriatos” – lutaram na Espanha (6 mil deles morreram) ao lado dos falangistas, dos voluntários fascistas italianos e dos voluntários fascistas alemães contra os republicanos.

Franco, líder da insurreição de 1936, chegou ao poder graças a uma traição e se manteve nele graças a outra. Em 23 de junho de 1936, um mês antes de sublevar-se, Franco havia escrito ao presidente do Conselho de Ministros, Casares Quiroga, uma carta na qual proclamava sua fidelidade de soldado ao regime e assegurava: “Faltan a la verdad quienes presentan al Ejército como desafecto a la República”. Depois, acabou com a república, desencadeando uma guerra civil que afogou a Espanha em sangue (alegando: “no hay redención sin sangre”). Sem o apoio maciço que lhe deram Hitler e Mussolini, Franco não poderia ter vencido a guerra que moveu contra a república. Quando o marechal De Bono lhe entregou o colar da Ordem della Annunziata, que Mussolini lhe enviara, Franco agradecera, referindo-se a “la afinidad de nuestros credos” (outubro de 1941). E, quando, começada a guerra, Hitler o pressionara no sentido de ajudar os países do Eixo, seus protetores, Franco escreveu ao Fuehrer uma carta (26/2/1942) na qual dizia: “Estoy por completo a su lado, a su entera disposición y unido en un común destino histórico, cuya deserción significaría mi suicídio y el de la causa que he representado y conducido en España. No necesito reiterarle mi fe en el triunfo de su Causa, repitiendo que seré siempre un leal seguidor de la misma”.85 No entanto, apesar das palavras expressarem uma ardente solidariedade, o caudillo cometeu sua segunda grande traição: limitou-se a enviar um punhado de soldados espanhóis (a “Divisão Azul”) para lutarem na frente oriental, contra a União Soviética, sob o comando dos alemães. Mas se absteve, prudentemente, de entrar realmente na guerra.86

Terminada a guerra, em 1945, derrotados Hitler e Mussolini, Salazar e Franco puseram-se imediatamente a manobrar no sentido de assegurar a sobrevivência de seus respectivos regimes, aproveitando-se do fato de não se terem envolvido na guerra. Salazar rebatizou seu “Estado Novo” como “democracia orgânica”, dispôs-se a encenar a farsa de eleições políticas no seu país e conseguiu, em 1949, ingressar na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), recebendo ajuda estadunidense de mais de 50 milhões de dólares, então, através do Plano Marshall.87 Para Franco, as coisas não eram tão fáceis: por força de suas ligações com o Duce e o Fuehrer, ele se viu, no final da guerra, isolado e submetido a um bloqueio por parte da maioria dos países que integravam a ONU. Mas em outubro de 1950, os Estados Unidos conseguiram da ONU uma resolução que suspendia o bloqueio e, em setembro de 1953, firmaram com Franco um acordo que lhes permitiu construírem bases militares em território espanhol. Em abril de 1956, recebendo o ministro do Exterior da Espanha em Washington, John Foster Dulles elogiou a contribuição da Espanha para a defesa do mundo livre. Incentivado por tanta “compreensão”, Franco passou a sustentar: “En España no existe una dictadura” (entrevista com Hearst Jr., 1961). “Somos el baluarte más firme de todo Occidente” (Discurso de 28/5/1962). E: “Yo desafío a que nos presente un país tan solo en el mundo que pueda ofrecer una muestra más clara, más firme y más leal de la democracia” (Discurso de 17/9/1962).

A desenvoltura do caudillo só conseguia, porém, impressionar a extrema direita. Nos meios conservadores-liberais, ela causava certo constrangimento. E contribuía para desacreditar as abordagens do fascismo baseadas no conceito de “totalitarismo”.”

85 Citações extraídas de El pequeno libro pardo del general, ed. Ruedo Ibérico, Paris, 1972.

86 O que é interessante é ver como, depois dessas duas traições, o caudillo ainda é capaz de dizer, com absoluta tranquilidade: “todos sabéis de sobra como hevenido cumpliendo siempre mi palabra” (Discurso, 12/12/1966).

87 Em 27 de outubro de 1938, Salazar prestava homenagem ao “gênio político” de Mussolini (Discursos e notas políticas, vol. III, Coimbra Editora, p. 105). Antes disso, já havia dito às forças colonialistas portuguesas que, na África, tratassem de “organizar cada vez mais eficazmente e melhor a proteção das raças inferiores” (Discursos..., vol. I, p. 241). Durante os anos em que recebeu os dólares do Plano Marshall, foi mais discreto. Porém, mais tarde voltou a manifestar sua admiração pela obra “moralizadora” de Mussolini (Salazar, Jacques Ploncard D’Assac, ed. La Table Ronde, Paris, 1967).

 

 

“Paralelamente à interpretação do fascismo baseada na teoria do “totalitarismo”, desenvolviam-se, entre autores não marxistas, outras concepções, menos influentes, que aproveitavam, muitas vezes, velhas teses apresentadas para explicar o fascismo em sua época “clássica”. Por exemplo, Seymour Martin Lipset retoma88 de Rudolf Heberle uma visão do fascismo89 que Heberle, por sua vez, teria encontrado numa série de artigos que Paul Sering dedicara ao tema de 1935-1936,90 isto é, torna a lançar em circulação a ideia de que o fascismo (como, de maneira geral, todos os “extremismos”) seria uma expressão dos descontentes e dos psicologicamente desenraizados, das frustrações pessoais, dos seres socialmente isolados, dos economicamente inseguros, dos indivíduos incultos, estúpidos e autoritários das diversas classes e camadas da sociedade.

Entre a formulação original de Paul Sering (pseudônimo do social-democrata Richard Löwenthal) e a de Martin Lipset, entretanto, há uma diferença que não pode ser desprezada: Sering, como marxista, não viu na sua tese da “comunidade dos falidos” nenhum motivo para abandonar a discussão em torno da classe social que, em última análise, estaria por trás do fenômeno do fascismo. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça “inocentar” o grande capital na gênese dos regimes de Hitler e de Mussolini. Martin Lipset, porém, segue outro caminho: reassume, juntamente com a ideia da “comunidade dos falidos”, a tese do caráter pequeno-burguês do fascismo. De acordo com o esquema proposto pelo sociólogo estadunidense, existiriam três tipos de movimentos extremistas de massas: o comunismo (apoiado no operariado), o autoritarismo tradicional (apoiado nas classes “altas”) e o fascismo (apoiado nas classes “médias”). O autoritarismo tradicional seria a verdadeira expressão do “extremismo de direita”: poderia ser encontrado no regime de Salazar, em Portugal, nos regimes de Horthy e Dolfuss, na Hungria e na Áustria, bem como nos movimentos monarquistas. No plano mundial, atualmente, o “extremismo de direita” não apresentaria, portanto, risco maior para a democracia representativa.

Implicitamente, Lipset propõe a mobilização dos “democratas” contra os movimentos “extremistas” das “classes médias” e do proletariado. O mínimo que se pode dizer desses valores “democráticos” é que eles são bem estranhos: representam uma “democracia” que se define numa atitude de acentuada desconfiança ante a esmagadora maioria da população (constituída pelo proletariado e pelas “classes médias”) e ignora a existência do grande capital, reduzindo a ação dos poderosos interesses conservadores atuantes em nossa sociedade à presença de uns tantos grupos passadistas insignificantes. A enfatização do “primarismo” da consciência das massas por Lipset sugere, aliás, que o sociólogo estadunidense apreciaria, mesmo, uma democracia sem povo... E esse ideal de uma democracia sem povo ainda aparece mais claramente em William Kornhauer, que combina ecleticamente a linha de Lipset, a teoria do “totalitarismo” e as velhas posições apaixonadamente antipopulares de Emil Lederer (The state of the masses, 1940), para concluir, afinal, que o fascismo, como todas as formas de “totalitarismo”, não passaria de um movimento das camadas inferiores da sociedade.91 Se as elites não se descuidassem e soubessem sempre controlar os impulsos “totalitários” vindos “de baixo”, a história não estaria pontilhada de episódios fascistas e/ou socialistas. Christian K. Werner explica a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha em função da falta de energia repressiva do governo: “A República de Weimar caiu, afinal, porque era tolerante demais” (dass sie zu tolerant war).92

Ao lado do relançamento de teses como a do fascismo-comunidade-dos-falidos, ou como a do caráter pequeno-burguês do fascismo, ou como a do fascismo-insurreição-dos-plebeus ou revolta-da-classe-média, reativou-se, nos últimos tempos, o interesse por duas antigas interpretações do fascismo, desenvolvidas no final dos anos de 1920: pela tese do fascismo-militarismo e pela tese do fascismo-bonapartismo. A primeira foi formulada pela primeira vez, de maneira consequente, pelo crítico liberal M. J. Bonn, em 1928. Bonn encara o militarismo como um sistema político,93 que encarnaria, por sua própria natureza, a contraposição ao parlamentarismo,94 já que nesse último o bom funcionamento do sistema depende do debate e do confronto de posições diversas, ao passo que a disciplina essencial ao primeiro exige um rigoroso controle das controvérsias. Para Bonn, o fascismo, convencido de que a nação se acha em um período de crise aguda, exige a militarização da vida política e a supressão do parlamentarismo.

A observação é inegavelmente correta e ajuda a explicar um aspecto essencial da forma do fascismo: o regime fascista depende de um aparelho repressivo tão amplo que pressupõe, de fato, a militarização da atividade policial, e implica uma tendência interna ao policiamento militar de todos os aspectos significativos da vida do país. Não há fascismo sem apoio militar. Mas é impossível esclarecer os problemas do conteúdo a partir da forma. Por imprescindível que seja o apoio militar a um governo, seria insensato pretender ver nas Forças Armadas o suporte social capaz de manter o sistema em funcionamento. Uma sociedade pressupõe uma determinada estrutura, um determinado modo de produzir e consumir: as Forças Armadas não podem substituir as forças produtivas, nem podem ocupar o lugar de uma classe social na transformação das relações de produção. Um processo inflacionário, uma depressão econômica, uma crise no mercado não são problemas que possam ser resolvidos por deslocamentos de tropas. Como dizia Talleyrand, é possível conseguir muitas coisas com as baionetas, mas não é possível ficar sentado em cima delas. Os limites da concepção de M. J. Bonn (e de seus simpatizantes modernos) se acham no fato de que ela ignora sistematicamente a dependência em que se encontram os militares ante as classes sociais, quando se trata de encaminhar uma solução para os problemas da produção e da economia, em geral.

88 “Der ‘Faschismus’, die Linke, die Rechte und die Mitte”, artigo publicado no Kölner Zeitschrift für Soziologie und Sozialpsychologie, 1959.

89 From democracy to nazism, Louisiana State University Press, 1945.

90 Cf. final do capítulo VIII da 2ª parte do presente livro.

91 The politics of mass society, W. Kornhauer, Londres, 1960. Uma boa refutação da tese de Kornhauer se encontra em Gesellschaftlich Ursprünge des faschismus, M. Clemenz, Frankfurt, 1972.

92 Rechts-links. Bemerkungen über den politischen Radikalismus in Deutschland, Bad Godesberg, 1963, p. 6.

93 Internationaler faschismus, C. Landauer, H. Honegger e outros, ed. Braun, Karlsruhe, 1928, p. 142.

94 Internationaler faschismus, op. cit., p. 137.

Introdução ao fascismo (Parte I), de Leandro Konder

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ISBN: 978-85-7743-118-2

Opinião: ★★★☆☆

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Sinopse: Leandro Konder nos alerta, logo no início de seu livro sobre o tema, que a compreensão do fascismo é um dos “temas quentes” da ciência social e aquele que se aventura na “selva de papel” – composta pelas inúmeras produções que tentaram compreender suas origens e determinações, para defendê-lo, combatê-lo ou utilizá-lo para seus fins próprios, – corre o risco de sofrer graves queimaduras, ou, ainda, de perder-se na selva de palavras que desorientam a percepção e impedem que se veja o horizonte.



Nosso guia na floresta de papel: o artífice da palavra clara (Mauro Luis Iasi)

 

“Contrariando as previsões mais otimistas da breve ordem pós-moderna, que, apregoando o reino da diversidade, imaginava ter superado os nacionalismos chauvinistas, o mundo contemporâneo se afoga em um revigoramento de nacionalismos conservadores e reacionários alimentado pelos renovados interesses interimperialistas em disputa, como se demonstrou na Guerra dos Bálcãs e em outros trágicos exemplos. A xenofobia alimenta a direita europeia e é indisfarçável a paternidade fascista do Patriotic Act quando determina a possibilidade de prisão sem acusação formal ou qualquer julgamento de qualquer um que “pareça árabe”.

Presos à incapacidade de compreensão da distinção entre forma e conteúdo, os mais preocupados espíritos atormentados de liberais democratas, ou seus jovens aliados recém-liberais e tardiamente democratas, ficam a espera de uniformes marrons, camisas negras, suásticas e facios, e deixam escapar manifestações muito mais substanciais. O culto pós-moderno do irracionalismo combinado com a ostensiva retomada de um cientificismo neopositivista, o elogio dos sentimentos e instintos contra a razão, o pragmatismo renovado da realpolitik, a negação da teoria pela revigorada ofensiva daqueles que Zizek batizou de “agnósticos da new age”, e, principalmente, o brutal anticomunismo, o cínico preconceito de classe contra os trabalhadores e sua mais sofisticada e sutil, mas nem por isso menos brutal, expressão acadêmica na tese do “fim do mundo do trabalho” e a suposta impropriedade do conceito de classe social como instrumento explicativo da sociedade contemporânea, nos alertam que os cadáveres enterrados na Itália e Alemanha tiveram tempo de liberar sua alma.”

 

 

“Quem viu o presidente Bush, esse produto exemplar de uma época de decadência, no Senado estadunidense quando da declaração da guerra contra o terror que preparou a ofensiva no Iraque, pode não ter notado ali ao fundo, incrustado na parede daquela respeitável casa de leis que Arendt considerava o paradigma da democracia moderna, um indisfarçável fascio, símbolo inconteste de impérios e do fascismo. Pode ser não mais que uma coincidência, nem tudo que tem um feixe de varas amarrado em torno de um machado é fascista, assim como nem tudo que ostenta uma foice e martelo é comunista, mas as coincidências nunca são totalmente casuais.

O que substancialmente Konder nos alerta é que o fundamento do fascismo como expressão política da direita mais conservadora deve ser encontrado em suas determinações de classe. No entanto, aqui também, as coisas não são tão simples. Parece ser evidente, e para mim esta é uma constatação de grande importância, que o fascismo inicialmente se apoia na pequena burguesia que, como sempre, ambiciona estar acima das classes fundamentais em luta e é a legítima proprietária do mito da nação. Mas a pequena burguesia não poderia explicar a dimensão do fenômeno fascista na sua expressão clássica e em sua sobrevida. O empreendimento da guerra, a combinação eficiente de métodos de propaganda e agitação política e a rápida ascensão do nazifascismo só podem ser compreendidos se associarmos o método e fundamento político da pequena burguesia à adesão do grande capital monopolista, financeiro e imperialista.3

Boa parte das análises conservadoras sobre o fascismo posteriores à Segunda Guerra, procura distanciar-se da constatação, por si mesma evidente, a respeito do comprometimento dos grandes empresários e do capital monopolistas com o projeto fascista,4 seja identificando o nazifascismo com a alternativa socialista e comunista sob a categoria de “totalitarismo” como dissemos, seja isolando o fenômeno como expressão de desvios de personalidade de líderes de massa, seja condenando o fenômeno aos arquivos de história.

Para nós, o essencial, seguindo as pistas da introdução de Konder, é o caráter de classe do projeto fascista, sua intrínseca relação com a fase monopolista e imperialista e sua inseparável vinculação com o irracionalismo pragmático. Por isso, não nos espanta as novas formas que escondem velhos espíritos que se acreditavam exorcizados. Adorno afirmou que os Estados Unidos entraram na guerra não para derrotar o nazismo, mas para aprender com ele. Weber, deprimido pela derrota Alemã naquela que ele havia considerado “apesar de tudo, uma grande e maravilhosa guerra” (referia-se à Primeira Guerra Mundial), vai aos Estados Unidos, mas quando olha para a jovem democracia americana sentencia de forma pessimista, como era de seu feitio, que o que via era a escolha entre uma democracia fundada em partidos burocráticos sem liderança ou líderes carismáticos acima de partidos. De uma forma ou de outra, Weber arremata concluindo que estaríamos diante de uma “manipulação emocional das massas para fins absolutamente racionais”, antecipando, sem o saber, o que viria a ocorrer em sua própria terra.

O que Weber não podia saber, e que Konder nos revela, é o que há de comum na base material e nas expressões ideológicas dessas situações aparentemente tão distintas. A forma capitalista desenvolvida em monopólios que dão o salto ao imperialismo e que necessitam do Estado como síntese abstrata possível da sociabilidade incontrolável do capital.

Hábil operador da bússola dialética, Konder não se descuida das mediações. A mesma base econômica não implica na inevitabilidade da forma política. O capital monopolista/imperialista pode servir-se de outras formas para atingir os mesmos fins. Não nos surpreende que a atual “guerra contra o terror” seja feita em nome da defesa da “democracia”, que ditadores como Franco, Salazar, Pinochet, assim como os ditadores tupiniquins, tenham sido acolhidos com um caloroso abraço no campo do “mundo livre” e democrático contra o perigo do comunismo, enquanto Fidel é sempre incluído na lista dos “ditadores”.

Capital monopolista em crise, imperialismo, ofensiva anticomunista, criminalização de movimentos sociais, decadência cultural, hegemonia da política pequeno-burguesa em detrimento da política revolucionária do proletariado, irracionalismo, neopositivismo, misticismo, chauvinismos nacionalistas acompanhados ou não de racismo... Não se enganem. Só posso alertar, como certa feita o fez Marx, que “esta fábula trata de ti”!”

3 Identificando corretamente a característica pequeno-burguesa na concepção fundante do fascismo e a importância do apoio efetivo do grande capital, existe na análise de Konder, ao meu ver, uma certa relativização exagerada do papel que desempenha o apoio, passivo ou não, de setores consideráveis das massas operárias e da classe trabalhadora em geral. Konder diz literalmente que “A classe operária foi, evidentemente, menos envolvida pela demagogia ‘nacionalisteira’ dos fascistas do que a pequena burguesia e as chamadas camadas médias da população. Mas mesmo alguns trabalhadores chegaram a se entusiasmar com a ideia de pertencerem à ‘comunidade popular’ (Volksgemeinschaft) dos alemães, à superior ‘raça ariana’; ou então – na Itália de Mussolini – chegaram a se entusiasmar com a ideia de serem os herdeiros do antigo império romano, de César e de Augusto, e de ajudarem a relançar as bases da grandeza italiana no mundo, partindo do conceito religioso da ‘italianidade’.” Creio que o fascismo e o nazismo lograram conquistar um apoio na classe trabalhadora, o que exige por nossa parte uma reflexão bastante séria, até porque o apoio do grande capital aos representantes da pequena burguesia fascista se explica, em parte, por sua capacidade de orientar os trabalhadores e dirigi-los para um projeto que não o socialismo revolucionário. Acredito que algumas pistas contidas nas reflexões de Reich em seu Psicologia de massas do fascismo, que Konder trabalha ligeiramente, poderiam aqui ser muito úteis.

4 Hoje sabemos com grande certeza da íntima relação entre monopólios – não só alemães, como a Volkswagen, mas também estadunidenses como a IBM – e o nazismo.

 

Fim do prefácio de Mauro Iasi

 

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“Em sua essência, a ideologia da direita representa sempre a existência (e as exigências) de forças sociais empenhadas em conservar determinados privilégios, isto é, em conservar um determinado sistema socioeconômico que garante o estatuto de propriedade de que tais forças são beneficiárias. Daí o conservadorismo intrínseco da direita.

O conteúdo conservador de uma concepção não implica que ela se exteriorize necessariamente numa política de resistência passiva à mudança. Os conservadores sabem que, para uma política ser eficaz, ela precisa ser levada à prática através de iniciativas concretas, manobras, concessões, acordos, golpes de audácia, formas de arregimentação das forças disponíveis que transcendem da mera atitude doutrinária. A efetiva conservação dos privilégios depende menos de esforços lógicos do que de energia material repressiva: para o responsável pela prisão é mais importante que os guardas sejam de confiança e as portas das celas sejam sólidas do que persuadir os presos da excelência do sistema penal vigente. (...)

O próprio sistema em cuja defesa as classes dominantes se acumpliciam – um sistema que gravita em torno da competição obsessiva pelo lucro privado – impede que as forças sociais em que consiste a direita sejam profundamente solidárias: elas só se unem para os objetivos limitados da luta contra o inimigo comum.”

 

 

“Mas o empenho político pragmático e radical do fascismo na luta contra a revolução exclui um relativismo absoluto. O relativismo é incapaz de armar os homens para o combate, ele impede a formação de bases suficientemente sólidas para as convicções apaixonadas que devem mover ao engajamento. Mussolini compreendia que o fascismo se beneficiaria da mais extrema flexibilidade ideológica e definia o fascismo como “um movimento super-relativista” (Opera Omnia, vol. XVII, p. 268), porém não lhe escapava também a necessidade de indicar aos seus liderados uma direção clara e permanente para a canalização das energias deles. “Negar o bolchevismo é necessário”, dizia o Duce, e completava: “mas alguma coisa deve ser afirmada” (Opera Omnia, vol. XIII, p. 29). Era imprescindível um princípio sagrado, posto acima de qualquer discussão, imune a qualquer dúvida, capaz de funcionar como bússola quando o barco tivesse de manobrar em meio à tempestade, um valor supremo que nunca se degradasse e pudesse alimentar incessantemente a chama da fé no coração dos combatentes.

Mussolini percebeu logo no começo da guerra de 1914-1918 qual poderia ser esse valor supremo, esse mito: a pátria. Ele próprio o diz, com sua franqueza habitual: “Criamos o nosso mito. O mito é uma fé, é uma paixão. Não é preciso que seja uma realidade. [...] O nosso mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação! [Opera Omnia, vol. XVIII, p. 457].”

 

 

“O recurso fascista ao mito da nação só pôde ser eficaz porque, em sua evolução, o capitalismo havia ingressado em sua fase imperialista: nos países capitalistas mais adiantados, o capital bancário havia se fundido com o capital industrial, constituindo o capital financeiro; as condições criadas nesses países exigiram deles a exportação sistemática de capitais; acentuou-se a competição em torno da exploração colonialista; e, no bojo da guerra interimperialista de 1914-1918, difundiram-se em alguns países acentuados ressentimentos nacionais, análogos, à primeira vista, às mágoas dos povos explorados.

Havia, porém, uma diferença essencial entre os ressentimentos nacionais cuja difusão as classes dominantes patrocinaram na Itália e na Alemanha (e, em outros termos, também no Japão) e a autêntica revolta nacionalista dos povos submetidos à exploração colonial. O nacionalismo dos povos efetivamente oprimidos e explorados é tendencialmente democrático e se fortalece através da mobilização popular feita “de baixo para cima”. Ele nasce de um movimento cujas raízes se acham nas condições reais da nação e por isso a assume em toda a sua complexidade, em sua contraditoriedade interna, não precisa renegá-la e substituí-la por um mito. O pretenso “nacionalismo” fascista, ao contrário, por seu conteúdo de classe e pelas condições em que é posto em prática, exige a manipulação das massas populares, limita brutalmente a sua participação ativa na luta política em que são utilizadas, impondo-lhes diretivas substancialmente imutáveis “de cima para baixo”.

Na prática, a demagogia fascista assume frequentemente formas “populistas”, lisonjeando o “povo”, prestando-lhe todas as homenagens e contrapondo-o à “massa” (que representa apenas o peso morto da “quantidade”). Mas esse “populismo” pressupõe um “povo” tão mítico como a “nação”, nos quadros da ideologia fascista. E todas as vezes em que alguma tendência no interior do fascismo se mostrou mais sensível a pressões “plebeias” e procurou aprofundar certos aspectos “populistas”, foi sumariamente cortada pelas forças que mantinham a hegemonia no movimento fascista. Basta lembrar aqui a queda de Gregor Strasser, na Alemanha, o afastamento de Farinacci, na Itália, ou a derrota de Kita Ikki, no Japão.6

O nacionalismo que exprime os sentimentos de um povo explorado pelo capital estrangeiro ou que exprime a revolta de um povo contra imposições de outra nação é um nacionalismo essencialmente defensivo: seus valores podem levá-lo a hostilizar circunstancialmente os estrangeiros exploradores, mas ele não se afirma em contraposição à humanidade em geral e não nega os valores das outras nações. A valorização fascista da nação, ao contrário, exatamente porque é inevitavelmente retórica, precisa ser agressiva, precisa recorrer a uma ênfase feroz para disfarçar o seu vazio e tende a menoscabar os valores das outras nações e da humanidade em geral. Isso se verifica, por exemplo, numa frase do Discurso a las juventudes de España (1935), em que o fascista espanhol Ramiro Ledesma proclama: “Nos importan más los españoles que los hombres” (p. 52). No caso dos fascistas alemães, o fenômeno ainda se mostra com maior clareza, por causa da ideologia racista, que veio a fortalecer imensamente o chauvinismo.7

6 Gregor Strasser, farmacêutico bávaro, tornou-se líder nazista no Norte da Alemanha e exerceu forte influência sobre Goebbels até 1926. No livro Kampf um Deutschland, publicado em 1932, insistia em que os nazistas eram socialistas, “inimigos mortais do sistema econômico capitalista”. Hitler mandou matá-lo em 30 de junho de 1934. Roberto Farinacci, líder do fascismo em Cremona, expoente da “linha dura”, assumiu a secretaria-geral do Partido Nacional Fascista para liquidar a oposição antifascista, mas não aceitou as manobras de composição de Mussolini com a Igreja e foi derrubado do cargo em 30 de março de 1927. (Ressurgiu, mais tarde, a serviço da política de Hitler). Kita Ikki, profundamente impressionado pelo movimento revolucionário chinês de Sun Yat Sen, lançou as bases de um movimento de libertação da raça amarela em luta contra a raça branca, num livro publicado em 1919 (Esboço de programa para a reforma do Japão), onde o fascismo assumia tons anti-imperialistas. Em 1937, tentou um putsch que fracassou e foi fuzilado.

7 As proporções assumidas pelo racismo e pelo antissemitismo no caso do fascismo alemão contribuem para que alguns autores – como Leon Poliakov e Josef Wulf, por exemplo – percam de vista o fato de que na ideologia fascista é o chauvinismo que é essencial, e não o racismo. Pode existir um fascismo que não seja racista, mas não pode existir fascismo que não seja chauvinista.

 

 

“As razões para essa eficácia derivam de um conjunto de circunstâncias. No plano cultural, a direita havia preparado terreno para o avanço do fascismo através de um bombardeio constante e prolongado, que destruía não só os princípios do liberalismo como, sobretudo, as convicções democráticas e a confiança nas massas populares, que poderiam constituir a única base suficientemente sólida para a oposição consequente à expansão das tendências fascistas. Em certos círculos intelectuais, ostentava-se acentuado desprezo pela “plebe”, pelas “moscas da praça pública”, como dizia Nietzsche. E essa difusão de preconceitos aristocráticos influiu sobre algumas forças potencialmente progressistas, levando-as a subestimar na prática a necessidade do trabalho político com as massas (Deficientemente preparadas no plano ideológico, deficientemente organizadas, inseguras e confusas, e submetidas a uma pressão que as desagregava internamente, as massas passaram a encontrar crescentes dificuldades para seguir os caminhos das soluções coletivas; suas energias começaram a se dispersar pelos múltiplos caminhos – socialmente ilusórios – das “soluções” individuais).

Nos planos econômico, social e político, por outro lado, haviam amadurecido tendências destinadas a desempenhar um papel ainda mais importante que o da preparação cultural para a expansão do fascismo. O capitalismo, como sistema, jogara os homens uns contra os outros, numa competição desenfreada onde só uma coisa podia contar: o lucro privado. Desenvolveram-se enormes metrópoles capitalistas, povoadas por multidões de indivíduos solitários, amedrontados, cheios de desconfiança. As condições técnicas da produção industrial aproximavam os seres humanos, socializavam a vida deles, mas as condições privadas, exacerbadamente competitivas, criadas pelo capitalismo para a apropriação da riqueza produzida afastavam-nos uns dos outros. Vítimas da tendência desagregadora que se fortalecia no interior da vida social, reduzidos a uma solidão angustiante, os indivíduos – reconhecendo sua fragilidade – ansiavam por se integrar em comunidades capazes de prolongá-los, de completá-los. O socialismo, apoiado sobre a massa do proletariado industrial, que o próprio capitalismo precisara concentrar em suas fábricas, representava uma perspectiva de atendimento a essa exigência, propondo uma reorganização prática da vida social, uma superação revolucionária das relações capitalistas de produção: por isso, o seu apelo e a sua mensagem encontraram eco nas massas populares em geral, além das fronteiras da classe operária em sentido estrito.

Mas o socialismo, desenvolvendo-se num meio hostil e sob a poderosa pressão de seus inimigos, não podia permanecer imune à influência da ideologia dominante, isto é, à ideologia das classes dominantes: o amadurecimento das contradições da nova fase em que o capitalismo ingressara – a fase imperialista – acabou por se manifestar numa guerra interimperialista (a guerra de 1914-1918) e o movimento socialista, que já estava em crise, acabou por se cindir. E foi precisamente no auge da crise do movimento socialista, quando a cisão tumultuava no espírito de muitos a compreensão do seu sentido, que o fascismo passou a se empenhar a fundo na apresentação do seu mito da nação como algo capaz de satisfazer às exigências de vida comunitária, que os indivíduos, no quadro da sociedade capitalista, são levados a experimentar de maneira intensa porém frequentemente confusa.

A classe operária foi, evidentemente, menos envolvida pela demagogia “nacionalisteira” dos fascistas do que a pequena burguesia e as chamadas camadas médias da população. Mas mesmo alguns trabalhadores chegaram a se entusiasmar com a ideia de pertencerem à “comunidade popular” (Volksgemeinschaft) dos alemães, à superior “raça ariana”; ou então – na Itália de Mussolini – chegaram a se entusiasmar com a ideia de serem os herdeiros do antigo império romano, de César e de Augusto, e de ajudarem a relançar as bases da grandeza italiana no mundo, partindo do conceito religioso da “italianidade” (Mussolini: lançar as bases da grandeza italiana no mundo, a partir do conceito religioso de italianidade”, Opera Omnia, vol. XVI, p. 45).

Na Itália e na Alemanha, países que só realizaram a unificação nacional na segunda metade do século 19, o chauvinismo fascista assumiu tons particularmente histéricos e monstruosos; mas a verdade é que o uso do mito da nação como sucedâneo da autêntica comunidade humana pela qual as pessoas anseiam é uma característica essencial do fascismo e se manifesta em todos os movimentos desse tipo, independentemente dos países em que se realizam e independentemente das formas particulares que assumem. (...)

Aliás, já que mencionamos os aspectos mais “monstruosos” que a demagogia fascista assumiu, ao servir-se do mito da nação, na Itália e na Alemanha, convém alertar os leitores para o erro em que incorrem alguns estudiosos do fascismo hitleriano e do fascismo mussoliniano: eles ficam tão (compreensivelmente) impressionados com a “monstruosidade” do fenômeno que acabam por renunciar à tarefa de esclarecer por que ele chegou a ocorrer. Para esclarecer a eficácia do chauvinismo fascista, convém lembrar que ele conseguiu, às vezes, tirar proveito de críticas bastante bem fundamentadas aos imperialismos rivais. Durante a guerra com os ingleses, em 1940, Hitler lembrou, por exemplo, que a Inglaterra, com 46 milhões de habitantes, havia subjugado 480 milhões de habitantes de outros países e conquistado territórios que, somados, chegavam a ter 40 milhões de km2. E acusou: “A história da Inglaterra é uma sequência de violações, de chantagens, de atos de prepotência, de opressão e de exploração de outros povos” (Discurso de 30/1/1940, em Der Grossdeutsche Freiheitskampf).

 

 

“Outra circunstância que não pode ser esquecida no exame das causas que permitiram os êxitos do fascismo nos anos de 1920 e 1930: o fascismo foi o primeiro movimento conservador que, com seu pragmatismo radical, serviu-se de métodos modernos de propaganda, sistematicamente, explorando as possibilidades que começavam a ser criadas por aquilo que viria a ser chamado de sociedade de massas de consumo dirigido.

No bojo das transformações que lhe eram impostas pelas condições do imperialismo, o sistema capitalista, impelido a expandir-se, deixou de controlar apenas a produção e começou a estender seu controle também ao consumo, promovendo investimentos cada vez mais substanciais na propaganda dos produtos, para influenciar a conduta do consumidor. O fascismo percebeu, agilmente, que esse crescente investimento na propaganda, servindo-se de novas técnicas e de novos meios de comunicação, abria também novas possibilidades para a ação política, e tratou de aproveitá-las. No lugar da imagem dos políticos conservadores tradicionais, com seus fraques e cartolas, muitas vezes apoiando em bengalas seus vultos pálidos e senis, difundiu-se pela Itália inteira a imagem de um Duce cheio de vitalidade, viajando frequentemente de avião e ditando por telefone os artigos diários destinados aos leitores do seu jornal. No lugar da polida oratória parlamentar, impôs-se o discurso enérgico, de agitação,8 pronunciado ao vivo em múltiplos comícios ou então ressoando por todo o país, graças ao uso sistemático (pioneiro) do rádio.

A principal vantagem dessa “imagem”, difundida com eficiência em escala massiva, é que ela disfarçava o conteúdo social conservador do fascismo e fixava a atenção da massa no “estilo novo”, “dinâmico”, nas potencialidades “modernizadoras” do movimento fascista. O movimento foi caracterizado por Goebbels como “tão moderno que o mundo inicialmente não pôde entendê-lo” (Der Faschismus und seine praktischen Ergebnisse, Berlim, 1934. No original: so modern, dass die Welt es nicht begreifen konnte).”

8 Por ter pragmaticamente renunciado a empenhar-se nas formas necessariamente complexas da elaboração teórica, doutrinária, o fascismo, concentrando-se nas formas simples da agitação, levou vantagem sobre as demais forças representativas da direita e explorou com maior proveito que elas as possibilidades oferecidas pelo rádio.

 

 

“Os imponentes investimentos dos fascistas no setor da propaganda nos impõem a pergunta: de onde provinham os fundos que eram investidos? Uma primeira resposta, óbvia, que nos ocorre imediatamente, é a de que o dinheiro só podia ser fornecido por aqueles que o tinham. Mas é preciso tentar esclarecer quais os setores que financiaram o fascismo.

Normalmente, esse esclarecimento apresenta grandes dificuldades. Por sua própria natureza, esse tipo de fornecimento de dinheiro evita deixar-se documentar. Mas os historiadores conseguiram apurar numerosos casos de grande significação. Sabe-se hoje, por exemplo, que, no momento em que Mussolini estava bastante deprimido com a derrota eleitoral que os fascistas italianos sofreram em novembro de 1919, ele recebeu substancial apoio financeiro de alguns grandes industriais, entre os quais Max Bondi, do grupo Ilva, que era o principal grupo siderúrgico da Itália.9 Sabe-se, também, que, durante a crise que se seguiu ao assassinato do deputado socialista Giacomo Matteotti em 10 de junho de 1924, o grande capital poderia ter retirado seu apoio ao Duce e este teria caído, realizando-se a passagem do poder, sem grandes riscos, para uma coalizão de políticos liberais-conservadores recrutados entre os oposicionistas que abandonaram o Parlamento e foram reunir-se sobre uma das colinas de Roma, no Aventino. Mas o grande capital continuou a preferir a ditadura de Mussolini a um governo centrista comandado, digamos, por Giovanni Amendola.

No caso da Alemanha, sabe-se, ainda, de coisas mais sérias. Sabe-se que, em 26 de janeiro de 1932, Hitler fez no Clube da Indústria de Dusseldorf um discurso no qual antecipava seu programa econômico de governo e seu discurso foi calorosamente aplaudido por várias dezenas de grandes industriais e grandes banqueiros. Num artigo publicado no Preussische Zeitung, em 3/1/1937, Emil Kirdorf, proprietário principal da empresa que explorava as minas de Gelsenkirchen, conta como, desde 1927, ele se empenhava em ampliar e aprofundar os contatos entre o Fuehrer e os representantes do capital financeiro. Entre estes, ao lado de Fritz Thyssen (que se orgulhava de financiar Hitler desde 1923), havia muitos que em 1931 já contribuíam com regularidade para o Partido Nacional-Socialista, como Fritz Springorum, da Hoesch (indústria química), Albert Vögler, Ernst Poensgen e Ernst Brandi (das Empresas Unidas do Aço, Vereinigte Stahlwerke), Wilhelm Keppler, Rudolf Bingel (Siemens & Halske), Emil Meyer (Dresdner Bank), Friedrich Heinhardt (Commerz und Privatbank), Kurt von Schroeder (Bankhaus Stein) e diversos outros. Os autos do “Processo contra os principais criminosos de guerra perante o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg (de 14 de novembro de 1945 a 1º de outubro de 1946)” estão cheios de depoimentos e documentos de vários tipos, que comprovam abundantemente a íntima vinculação do nazismo com o capital financeiro. No volume 35, à página 70, catalogado com o título de “Documento D-317”, encontra-se um texto em que o magnata Krupp explica que, quando Hitler desencadeou a guerra, “os empresários alemães empreenderam de todo coração a caminhada pelo novo curso; que eles, com a melhor disposição e conscientemente agradecidos, compreenderam e adotaram como suas as grandes intenções do Fuehrer, reafirmando-se como fiéis seguidores dele”. Outros textos, não menos eloquentes, mostram que, sem o apaixonado empenho da direção da IG-Farben no fabrico de borracha sintética e de produtos de magnésio, teria sido impossível a Hitler lançar-se à guerra.10

9 Cf. Renzo De Felice, Mussolini il Rivoluzionario, ed. Einaudi, Torino, 1965. E também Valerio Castronovo, “Il Potere economico e il fascismo”, em Fascismo e Società Italiana, Quazza e outros, ed. Einaudi, Torino, 1973.

10 Cf. Dieter Halfmann, Der Anteil der lndustrie und Banken an der faschistischen Innenpolitik, Pahl-Rugenstein, Colônia, 1974. Cf. também Eberard Czichon, Wer verhalf Hitler zur Macht?, Pahl-Rugenstein, Colônia, 1967.