domingo, 30 de abril de 2017

Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano (Os Pensadores, Parte I) – Gottfried Wilhelm Leibniz

Editora: Nova Cultural
Tradução: Luiz João Baraúna
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 434
Sinopse: Nestes ensaios, publicados somente em 1765, Leibniz combate a teoria empirista de Locke, que considerava o intelecto como uma “tabula rasa” ou uma folha de papel em branco, a receber seu conteúdo da experiência sensível. Leibniz, ao contrário, retoma e reformula o inatismo. Os empiristas, segundo ele, teriam razão ao afirmar que ideias surgem do contato com o mundo sensível, mas errariam ao esquecer o papel do espírito. Por isso, Leibniz completa a fórmula de Locke – “nada há no intelecto que não tenha passado primeiro pelos sentidos” – com o adendo: “a não ser o próprio intelecto”. E esclarece: “As ideias e as verdades estão inatas em nós como inclinações, disposições, hábitos ou virtualidade naturais, e não como ações, embora tais virtualidades sejam sempre acompanhadas de alguma ação, muitas vezes insensíveis, que lhes correspondem”.



“Não posso senão elogiar esta religiosidade modesta do nosso célebre autor, que reconhece que Deus pode ir além daquilo que possamos entender, e que pode haver mistérios inconcebíveis nos artigos da fé; entretanto, não gostaria que fôssemos obrigados a recorrer ao milagre no curso comum da natureza e a admitir poderes e operações absolutamente inexplicáveis. Do contrário, deixaremos excessiva liberdade aos maus filósofos, sob pretexto de tudo aquilo que Deus pode fazer com a sua onipotência; admitindo essas virtudes centrípetas ou essas atrações imediatas de longe, sem que seja possível torná-las inteligíveis, não vejo nada que impediria os nossos Escolásticos de afirmar que tudo se faz simplesmente pelas suas faculdades, e defender as suas “espécies” intencionais que vão dos objetos até nós e encontram meios de penetrar até a nossa alma. Se assim for, Omnia iam fient, fieri quae posse negabam. (Tudo aquilo cuja possibilidade eu negava, realizar-se-á).”


“Dentre todos os homens, as crianças, os iletrados e os selvagens são os que têm o espírito menos alterado e menos corrompido pelo costume e pela impressão das opiniões alheias.”


“– A ciência moral (além dos instintos, como o que nos faz abraçar a alegria e evitar a tristeza) é inata da mesma forma que o é a aritmética, pois ela depende também das demonstrações que a luz interna fornece. E, visto que as demonstrações não saltam imediatamente aos olhos, não é de admirar se os homens não se dão conta sempre imediatamente de tudo aquilo que têm em si, e não leem tão logo os caracteres da lei natural, que Deus, segundo São Paulo, gravou nos seus espíritos. Todavia, visto que a moral é mais importante do que a aritmética, Deus deu ao homem instintos que assinalam imediatamente e sem necessidade de raciocínios algo daquilo que a razão ordena. Da mesma forma, andamos segundo as leis da mecânica sem pensar nessas leis, e comemos, não somente porque isto nos é necessário, mas ainda – e mais ainda – porque isto nos dá prazer. Entretanto, esses instintos não levam à ação de maneira invencível; resistimos a eles pelas paixões, obscurecemo-los por preconceitos, alteramo-los por costumes contrários. Todavia, o mais das vezes concordamos com estes instintos da consciência, e seguimo-los mesmo quando são superados por impressões maiores. A parte maior e mais sadia do gênero humano dá testemunho desses princípios. Nisto concordam os orientais, os gregos, os romanos, a Bíblia e o Corão; a polícia dos maometanos costuma punir o que Baumgarten relata, e seria necessário ser tão abrutalhado como os selvagens americanos para aprovar os seus costumes, eivados de uma crueldade que ultrapassa a dos próprios animais. E, no entanto, estes mesmos silvícolas sentem bem o que é a justiça em outras ocasiões; e, embora não haja talvez nenhuma prática má que não seja permitida em algum lugar e em certas ocasiões, poucas há que não sejam condenadas o mais das vezes, e pela maioria dos homens. Ora, isto não aconteceu sem razão; e, não tendo acontecido só em virtude do raciocínio, deve ser atribuído em parte aos instintos naturais. Mesclou-se a isto o costume, a tradição, a disciplina, mas o instinto natural é responsável pelo fato de que o costume se inclinou na maioria dos casos para o lado bom das coisas. É ainda o natural que é responsável pelo fato de que a tradição da existência de Deus tenha chegado até nós. Ora, a natureza dá ao homem, e mesmo à maioria dos animais, uma afeição e doçura em relação aos membros da sua espécie. O próprio tigre parcit cognatis maculis (O animal poupa os seus): daí vem esta bela palavra de um jurisconsulto romano, quia inter omnes homines natura cognationem constituit, unde hominem homini insidiari nefas esse (Uma vez que a natureza instituiu um parentesco entre todos os homens, não é lícito a um homem atrair outro a uma cilada). Só existem praticamente as aranhas que fazem exceção a isto e se entrecomem, até ao ponto de a fêmea devorar o macho após ter desfrutado dele. Depois deste instinto geral de sociedade, que se pode denominar filantropia no homem, existem outros instintos particulares, como a afeição entre o macho e a fêmea, o amor que o pai e a mãe têm para com as crianças, que os gregos denominam storgén, e outras inclinações semelhantes, que constituem este direito natural, ou melhor, esta imagem de direito, a qual segundo os jurisconsultos romanos a natureza ensinou aos animais. No homem, sobretudo, existe certo cuidado da dignidade e da conveniência, que leva a ocultar as coisas que nos rebaixam, a cuidar do pudor, a ter repugnância pelos incestos, a sepultar os cadáveres, a não comer carne humana nem carne de animais vivos. Somos também levados a cuidar da nossa reputação, mesmo além da necessidade e da vida; a sentir os remorsos da consciência e a sentir esses laniatus et ictus, essas torturas e esses incômodos de que fala Tácito, na esteira de Platão; além do temor de um futuro e de um poder supremo, que também ocorrem com naturalidade. Em tudo isto existe realidade; no fundo, porém, essas impressões naturais, quaisquer que possam ser, são apenas auxílios para a razão e indícios da natureza. O costume, a educação, a tradição, a razão contribuem muito para isto, mas a própria natureza humana não deixa de exercer a sua parte. É verdade que sem a razão esses auxílios não seriam suficientes para dar uma certeza completa à moral. Não se negará que o homem é levado naturalmente, por exemplo, a afastar-se das coisas más, sob pretexto de que há pessoas que só têm prazer em falar de orgias; não se negará que existem outros até, cujo tipo de vida os obriga a lidar com os excrementos. Imagino que, no fundo, partilhais da minha opinião no que concerne a esses instintos naturais que inclinam à honestidade, embora talvez digais – como dissestes do instinto que nos inclina para a felicidade e a alegria – que tais impressões não constituem verdades inatas. Entretanto, já respondi que todo sentimento é a percepção de uma verdade, que o sentimento natural é a percepção de uma verdade inata (ainda que muitas vezes confusa, como o são as experiências dos sentidos externos; assim, podemos distinguir as verdades inatas da luz natural, que não contêm nada que não seja distintamente reconhecível), como o gênero deve ser distinguido da sua espécie, visto que as verdades inatas compreendem tanto os instintos como a luz natural.
– Isto seria considerar as coisas de maneira demasiado teórica. Acontece todos os dias que os homens agem contra o seu conhecimento, escondendo a si mesmos tais princípios quando voltam o espírito para outra direção e para seguir as suas paixões: se não fosse assim, não veríamos as pessoas comerem e beberem coisas que sabem causadoras de doença e até da morte. Não negligenciariam os seus negócios; não fariam o que nações inteiras fizeram sob certos aspectos.”


“Cumpre reconhecer que existem pontos importantes nos quais os bárbaros nos ultrapassam, sobretudo no que concerne ao vigor do corpo; quanto à própria alma, pode-se dizer que sob certos aspectos a sua moral prática é superior à nossa, pois não têm a avareza de acumular bens nem a ambição de dominar. Pode-se mesmo acrescentar que o contato com os cristãos os tornou piores em muitas coisas: ensinaram-lhes a bebedeira (dando-lhes aguardente), os juramentos, as blasfêmias e outros vícios que lhes eram pouco conhecidos. Existe entre nós mais bem e mais mal do que entre eles: um mau europeu é pior do que um mau selvagem, pois é refinado no mal. Todavia, nada impediria os homens de unir as vantagens que a natureza dá a esses povos com as que nos são dadas pela razão.”


“Muitas opiniões que passam por verdades não são outra coisa senão efeitos do costume e da credulidade.”


“Gostaria também que os homens se assemelhassem mais aos romanos que construíam belas obras públicas do que àquele rei vândalo ao qual a sua mãe recomendou que, não podendo esperar a glória de igualar essas grandes construções, procurasse destruí-las.”


“As verdadeiras potências nunca são meras possibilidades. Existe sempre nelas tendência e ação.”


“– Peca-se de alguma forma contra certos pensamentos espirituais, se os examinarmos com normas severas da verdade e do bom raciocínio.
– Esta observação é boa; é necessário que os pensamentos espirituais tenham algum fundamento, pelo menos aparente, na razão; todavia, não se deve esquadrinhá-los com demasiado escrúpulo, como não se deve olhar um quadro de muito perto.”


“Um louco universal carece de julgamento em quase todas as ocasiões. Todavia, a vivacidade da sua imaginação pode torná-lo agradável.”


“Não somente a presença de um mal atual, mas também o temor de um mal futuro pode tornar-nos tristes.”


“A liberdade de fato consiste ou no poder de fazer o que se quer, ou no poder de querer como se deve. Vós falais da liberdade de fazer: ela tem os seus graus e as suas variedades. Geralmente aquele que tem mais meios é mais livre de fazer o que quiser: todavia, entende-se a liberdade particularmente do uso das coisas que habitualmente estão em nosso poder e sobretudo do livre uso do nosso corpo. Desta forma a prisão e as doenças, que nos impedem de dar ao nosso corpo e aos nossos membros o movimento que queremos e que podemos ordinariamente dar-lhes, derrogam à nossa liberdade: assim, um prisioneiro não é livre, um paralítico não tem o livre uso dos seus membros. A liberdade de querer se toma em dois sentidos diferentes. Um deles ocorre quando opomos a liberdade à imperfeição ou à escravidão do espírito, que é uma coação ou um constrangimento, porém interno, como o que vem das paixões; o outro sentido se verifica quando opomos a liberdade à necessidade. No primeiro sentido, os Estoicos diziam que só o sábio é livre; com efeito, não temos o espírito livre quando ele é tomado por uma grande paixão, pois neste caso não podemos querer como é necessário, isto é, com a deliberação que se exige. Assim sendo, só Deus é perfeitamente livre, e os espíritos criados só o são na medida em que se sobrepõem às paixões: esta liberdade se relaciona propriamente com o nosso entendimento. Contudo, a liberdade do espírito, oposta à necessidade, se relaciona à vontade nua e enquanto se distingue do entendimento. É o que denominamos o livre-arbítrio, o qual consiste no fato de querermos que as razões ou impressões mais fortes que o entendimento apresenta à vontade não impeçam o ato da vontade de ser contingente e não lhe deem uma necessidade absoluta e, por assim dizer, metafísica. É neste sentido que costumo dizer que o entendimento pode determinar a vontade, segundo a prevalência das percepções e razões, de uma forma que, mesmo quando é certa e infalível, inclina sem obrigar.”


“– A meu juízo a questão não é saber se a vontade é livre (isto seria falar de maneira muito imprópria), mas se o homem é livre. Isso assentado, digo que, enquanto alguém pode, pela direção ou pela escolha do seu espírito, preferir a existência de uma ação à não existência desta ação e vice-versa, isto é, pode fazer com que ela exista ou que não exista segundo o quiser, até ali ele é livre.
– Quando refletimos sobre a liberdade da vontade ou sobre o livre-arbítrio, não perguntamos se o homem pode fazer o que quiser, mas se tem suficiente independência na sua própria vontade. Não perguntamos se tem as pernas livres, ou os cotovelos livres, mas se tem o espírito livre, e em que consiste tal liberdade. Sob este aspecto uma inteligência pode ser mais livre que a outra, e a Suprema Inteligência desfrutará de uma liberdade perfeita, liberdade da qual as criaturas são incapazes.”


“Os Areopagitas absolviam efetivamente aquele homem cujo processo haviam achado excessivamente difícil para ser decidido, adiando-o para bem longe e reservando-se cem anos para refletir.”


“Após uma pesquisa exata, vejo-me forçado a concluir que o bem maior, embora julgados e reconhecidos mortais, não determinam a vontade, a menos que, vindo a desejá-los de uma forma proporcionada à sua excelência, este desejo nos torne inquietos pelo fato de estarmos privados deles. Suponhamos que um homem esteja convencido da utilidade da virtude até o ponto de ver que ela é necessária a quem se propõe algo de grande neste mundo, ou espera ser feliz no outro; todavia, até que este homem não sinta fome e sede de justiça, a sua vontade não será jamais determinada para alguma ação que o leve à busca deste excelente bem, e alguma outra inquietação que sobrevenha arrastará a sua vontade a outras coisas. Por outra parte, suponhamos que um homem dado ao vinho considere que, levando a vida que leva, arruína a sua saúde e dissipa o seu bem, perderá a honra no mundo, atrairá para si enfermidades, e finalmente cairá na indigência, até o ponto de não ter com que satisfazer a esta paixão de beber, que o domina de forma tão intensa. Todavia, as inquietações que ressente continuamente, por estar ausente dos seus companheiros de bebida, o arrastam ao cabaré, nas horas em que costuma lá ir, embora tenha diante dos olhos a perda da sua saúde e do seu bem, e talvez até mesmo a perda da felicidade da outra vida: felicidade que não pode considerar um bem sem importância, pois reconhece ser muito mais excelente que o prazer de beber ou que o tagarelar vão de um grupo de desordeiros. Por conseguinte, não é por não ter diante dos olhos o bem supremo que ele persiste na desordem, visto que tem presente este bem supremo e lhe reconhece a excelência, a ponto de, nas horas vagas entre as bebedeiras, resolver entregar-se à busca deste bem supremo; todavia, quando a inquietação de ser privado do prazer habitual de beber o atormenta, o bem que reconhece mais excelente que a bebida não exerce mais força sobre seu espírito, e é essa inquietação atual que determina a sua vontade à ação à qual está habituado, e que por isso, fazendo maior impressão nele, prevalece na primeira ocasião, embora ali mesmo se comprometa por assim dizer com promessas secretas a não repetir a mesma coisa, e imagine que seja a última vez que agirá contra o seu maior interesse. Assim sendo, ele se vê reduzido a dizer, de tempos em tempos: Video meliora proboque, Deteriora sequor. “Vejo o melhor partido, aprovo-o, porém adoto o pior.” Esta sentença, que se reconhece como verdadeira, e que é absolutamente confirmada por uma experiência constante, se compreende facilmente por este caminho, não sendo talvez inteligível em outros sentidos.”


“FILALETO – (...) Essas precauções são tanto mais necessárias, pelo fato de que a ideia de um bem ausente não pode contrabalançar o sentimento de alguma inquietação ou de algum desprazer que atualmente nos atormenta, até que este bem excite algum desejo em nós. Quantas pessoas existem, às quais se costuma representar as alegrias indizíveis do paraíso por pinturas vivas que reconhecem como possíveis e prováveis, pessoas que, porém, se contentariam de bom grado com a felicidade de que desfrutam neste mundo. É que as inquietações dos seus desejos presentes, vindo a dominar e a dirigir-se rapidamente rumo aos prazeres desta vida, determinam as suas vontades a procurá-los; e durante todo esse tempo, são completamente insensíveis aos bens da outra vida.
TEÓFILO - Isso deriva em parte do fato de que os homens muitas vezes não estão persuadidos; embora o digam, uma incredulidade oculta reina no fundo da sua alma; pois jamais compreenderam as boas razões que comprovam esta imortalidade das almas, digna da justiça de Deus, que é o fundamento da verdadeira religião, ou então não se recordam mais de havê-las compreendido. Poucas pessoas concebem sequer que a vida futura, tal como a verdadeira religião e até a verdadeira razão a ensinam, seja possível; muito menos concebem a sua probabilidade, para não falar da sua certeza. Tudo o que pensam sobre ela não passa de psitacismo ou imagens grosseiras e vãs à la maometana, nas quais eles mesmos enxergam pouco atrativo: pois estão longe de serem estimulados por elas como o estavam – segundo se conta – os soldados do príncipe dos Assassinos, senhor da Montanha. Esses soldados eram transportados, quando estavam profundamente adormecidos, a um lugar repleto de delícias, onde, acreditando estarem no paraíso de Maomé, eram imbuídos, por anjos ou santos disfarçados, de opiniões tais como eram desejadas por esse príncipe. Dali eram, ao depois, reconduzidos ao lugar de onde tinham vindo; isso os estimulava depois a empreender tudo, até a morte dos príncipes inimigos do seu senhor. Não sei se não se fez injustiça a este senhor ou Sênior (Ancião) da Montanha; pois não assinalamos muitos grandes príncipes que ele fez assassinar, embora se possa ver nos historiadores ingleses a carta que se lhe atribui, para escusar o Rei Ricardo I do assassinato de um conde ou príncipe da Palestina, que este senhor da Montanha confessa ter feito matar, por ter sido ofendido por ele. Como quer que seja, a razão seja talvez porque, por um grande zelo pela sua religião, esse príncipe dos Assassinos queria dar às pessoas uma ideia vantajosa do paraíso, ideia que lhes acompanhasse sempre os pensamentos e os impedisse de serem surdos, sem pretender por isso que fossem obrigados a crer que tinham estado no próprio paraíso. Todavia, mesmo supondo que o príncipe tivesse pretendido isso, não se deve estranhar que tais fraudes piedosas tivessem produzido mais efeito do que a verdade maltratada. Entretanto, nada pode ser mais forte do que a verdade, se os homens procurassem conhecê-la bem e fazer-lhe valer os direitos; e haveria sem dúvida meios para conduzir os homens a isso. Quando penso, por menos que seja, de quanto é capaz a ambição e a avareza em todos os que se põem uma vez nesta conduta de vida, quase destituído de atrativos sensíveis e presentes, não desespero de nada, e penso que a virtude produziria infinitamente mais efeito, acompanhada que é de tantos bens sólidos, se alguma feliz revolução do gênero humano a colocasse um dia na moda. É certíssimo que poderíamos habituar os jovens a encontrarem no exercício da virtude o seu maior prazer. Mesmo os adultos poderiam criar para si leis e hábitos de segui-la, hábitos que os levariam a observá-las de maneira tão forte e com tanta inquietação, em caso de se desviarem delas, quanto um beberrão sentiria ao ser impedido de ir ao cabaré. Sinto-me bem à vontade para acrescentar estas considerações sobre a facilidade e até a facilidade de remediar os nossos males, para não contribuir a desencorajar os homens da busca dos verdadeiros bens, expondo apenas as nossas fraquezas.”


“A razão e a vontade nos conduzem à felicidade, ao passo que o sentimento e o apetite só nos levam ao prazer”.


“Também eu sou por esta determinação inteligível da vontade por aquilo que está na percepção e no entendimento. Querer e agir conforme ao último resultado de um exame sincero, é antes uma perfeição do que um defeito da nossa natureza. Não é isso que sufoca ou mitiga a liberdade; pelo contrário, é o que ela possui de mais perfeito e mais vantajoso. Quanto mais deixamos de nos determinar desta maneira, tanto mais nos aproximamos da miséria e da escravidão.”


“É verdade outrossim que honesto deriva o seu nome de honra (honor) ou louvor. Todavia, isso quer dizer, não que a virtude é aquilo que se louva, mas aquilo que é digno de louvor, e isso depende da verdade, não do julgamento dos homens”


“FILALETO – Tendo criado o homem para ser uma criatura sociável, Deus não só lhe inspirou o desejo e o colocou na necessidade de viver com os de sua espécie, mas outorgou-lhe igualmente a faculdade de falar, faculdade que deveria constituir o grande instrumento e o laço comum desta sociedade. É daí que provêm as palavras, as quais servem para representar, e até para explicar as ideias.
TEÓFILO – Alegro-me por constatar que estais longe da opinião do Sr. Hobbes, o qual não concordava com o princípio de que o homem foi feito para a sociedade. Segundo ele o homem é apenas forçado a viver em sociedade em virtude da necessidade e da malícia dos indivíduos da sua espécie. Todavia, o Sr. Hobbes não levava em conta que os melhores homens, isentos de qualquer maldade, se uniriam para melhor atingirem a sua finalidade, da mesma forma que os pássaros se juntam em bandos para melhor viajarem em companhia, da mesma forma que os castores se unem em centenas para construírem grandes diques, coisa que um número reduzido desses animais não lograria realizar; tais diques lhes são necessários para construir desta maneira reservatórios de água ou pequenos lagos, nos quais constroem as suas casas e pescam peixes de que se nutrem. É nisto que reside o fundamento da sociedade entre os animais, e não no medo que têm dos seus semelhantes, o qual não existe nos animais.”


“A linguagem das palavras foi formada e aperfeiçoada progressivamente por pessoas que vivem na simplicidade natural. Todavia, existem povos, por exemplo os chineses, que variam as suas palavras através dos tons e acentos, possuindo apenas um número reduzido de palavras. Em razão disto o célebre matemático e conhecedor de línguas Gólio acreditava que a língua dos chineses é artificial, isto é, inventada por um homem inteligente para estabelecer através das palavras um relacionamento entre muitas nações diferentes que habitavam esse grande país que chamamos China, embora tal língua possa estar hoje alterada, devido ao uso secular.”


“Os grandes, em sua maioria, em geral são excessivamente perturbados pelos prazeres da paz ou pelas preocupações da guerra para avaliarem as coisas que não os atingem de imediato.”


“O nosso conhecimento não vai além das nossas ideias, nem além da percepção da concordância ou discordância das mesmas. Todavia, não duvido de que o conhecimento humano poderia ir muito além, se os homens quisessem procurar com afinco os meios de aperfeiçoar a verdade, com uma completa liberdade de espírito e com toda a diligência e iniciativa que usam para colorir ou para sustentar a verdade, para defender um sistema ao qual aderiram, ou então, certas opiniões e interesses com os quais se comprometeram. Entretanto, ao final o nosso conhecimento não consegue jamais abarcar tudo aquilo que podemos desejar conhecer no tocante às ideias que possuímos.”


“Mostraram a Casaubon a sala de conferências na Sorbonne e lhe disseram: Eis o lugar onde se debateu durante tantos séculos. Ele respondeu: Que é que se concluiu desses debates?”


“Provérbios que estão em uso em todos os povos, via de regra não são outra coisa que máximas com as quais o público concordou.”


“FILALETO – Ora, se bem que a existência de Deus seja a verdade mais fácil de ser demonstrada pela razão, e embora a sua evidência iguale – se não me equivoco – à das demonstrações matemáticas, ela requer atenção. Basta refletir sobre nós mesmos e sobre a nossa própria existência indubitável. Assim, suponho que cada qual conhece que ele é algo que existe atualmente, e que assim existe um ser real. Se existe alguém que possa duvidar da sua própria existência, declaro que não é a ele que falo. Sabemos também, por um conhecimento de simples vista, que o puro nada não pode produzir um ser real. Daqui segue, com evidência matemática, que algo existiu desde toda a eternidade, visto que tudo aquilo que tem um início deve ter sido produzido por alguma outra coisa. Ora, todo ser que tem a sua existência de outro tem também dele tudo o que possui e todas as suas faculdades. Por conseguinte, a fonte eterna de todos os seres é também o princípio de todas as suas potências, de sorte que este ser eterno deve ser também todo-poderoso. Além disso, o homem encontra em si mesmo conhecimento. Logo, existe um ser inteligente. Ora, é impossível que uma coisa absolutamente destituída de conhecimento e de percepção produza um ser inteligente, e é contrário à ideia da matéria, privada de sentimento, produzir-se a si mesma. Consequentemente, a fonte das coisas é inteligente, e houve um ser inteligente desde toda a eternidade. Um ser eterno, muito poderoso e muito inteligente, é o que se denomina DEUS. Se houvesse alguém suficientemente irracional para supor que o homem é o único ser dotado de conhecimento e de sabedoria, e que teria sido formado por puro acaso, e que é este mesmo princípio cego e destituído de conhecimento que conduz todo o resto do universo, eu o advertiria a examinar a censura inteiramente sólida e cheia de ênfase de Cícero (De Legibus, livro 11). Certamente – diz ele – ninguém deveria ser tão totalmente orgulhoso para imaginar que existe dentro dele um entendimento e a razão, e que sem embargo não existe nenhuma inteligência que governe os céus e todo este vasto universo. Do que acabo de dizer segue claramente que possuímos um conhecimento mais certo de Deus do que qualquer outra coisa que exista fora de nós.
– Talvez venha a propósito insistir um pouco sobre esta questão: se um ser pensante pode provir de um ser não pensante e destituído totalmente de razão e conhecimento, tal como poderia ser a matéria. É até bastante evidente que uma parte da matéria é incapaz de produzir qualquer coisa por si mesma e de dar a si mesma movimento; por conseguinte, é necessário, ou que o seu movimento seja eterno, ou que ele lhe seja dado por um ser mais poderoso. Se este movimento fosse eterno, seria sempre incapaz de produzir conhecimento. Podeis dividi-la em tantas pequenas partes quantas quiserdes, como para espiritualizá-la; dai-lhe todas as formas e todos os movimentos que quiserdes, fazei dela um globo, um cubo, um prisma, um cilindro etc., cujo diâmetro não ultrapasse a milionésima parte de um gry, que corresponde a um décimo de uma linha, que é um décimo de uma polegada, a qual é um décimo de um pé filosófico, o qual é um terço de um pêndulo, do qual cada vibração na latitude de 45 graus é igual a um segundo de tempo, esta partícula de matéria, por menor que seja, não agirá de outra forma sobre outros corpos de uma espessura que lhe seja proporcional que os corpos que têm uma polegada ou um pé de diâmetro agem entre si. E podemos esperar com tanta razão produzir sentimento, pensamentos e conhecimento, juntando grandes partes de matéria de certa forma e de certo movimento quanto mediante as menores partes de matéria que existam no mundo. Estas últimas se chocam, se empurram, e resistem umas às outras justamente como as grandes, sendo isto o que podem fazer. Entretanto, se a matéria pudesse haurir de si mesma o sentimento, a percepção e o conhecimento, imediatamente e sem máquina, ou sem o auxílio das figuras e dos movimentos, neste caso deveria ser uma propriedade inseparável da matéria e de todas as suas partes. A isso se poderia acrescentar que, ainda que a ideia geral e específica que temos da matéria nos leve a falar dela como se fosse uma coisa única em número, sem embargo toda a matéria não é propriamente uma coisa individual, que existe como um ser material ou um corpo singular que conhecemos, ou que podemos conceber. Desse modo, se a matéria fosse o primeiro ser eterno pensante, não existiria um ser único eterno, infinito e pensante, mas um número infinito de seres eternos, infinitos, pensantes, que seriam independentes uns dos outros, e cujas forças seriam limitadas e os pensamentos diferentes, e que por conseguinte jamais poderiam produzir esta ordem, esta harmonia e esta beleza que apreciamos na natureza. Donde se infere necessariamente que este primeiro ser eterno não pode ser a matéria.”


“Pretender limitar o que Deus pode fazer àquilo que nós podemos compreender, equivale a atribuir uma extensão infinita à nossa compreensão, ou então, a fazer de Deus um ser finito.”

Ética (Os Pensadores) – Benedictus de Spinoza

Editora: Nova Cultura
Tradução: Joaquim Ferreira Gomes e Antônio Simões
Tradução e notas: Joaquim de Carvalho
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 214
Sinopse: Obra fundamental de Espinosa, propõe uma nova concepção de verdade: não mais como adequação entre intelecto humano e objeto de conhecimento, mas verdade enquanto índice de si mesma e do que é falso, verdade imanente ao objeto. “Demonstrada à maneira dos geômetras”, a Ética expõe e aplica o racionalismo espinosano, que combate a ideia tradicional de criação das coisas por Deus e afirma que a autoprodução de Deus é o modo de produção do real.



“Diz-se livre* o que existe exclusivamente pela necessidade da sua natureza e por si só é determinado a agir; e dir-se-á necessário, ou mais propriamente, coagido, o que é determinado por outra coisa a existir e a operar de certa e determinada maneira (ratione).”
*: Estas definições são fundamentais. Pode receber-se como paráfrase a seguinte passagem da carta (LVIII) de Espinosa a Shuller: “... Digo ser livre o que existe e age exclusivamente pela necessidade da sua natureza; e coagido o que por algo (ab alio) é determinado a existir e a operar de certa e determinada maneira (ratio). Deus, por exemplo, existe livremente embora exista necessariamente, porque existe pela única necessidade da sua natureza... Note bem: eu não faço consistir a liberdade numa decisão livre, mas na livre necessidade... Desçamos, porém, às coisas criadas, que todas são determinadas por causas externas a existir e a agir de maneira certa e determinada. Para tornar isso claro e inteligível, conceba-se uma coisa muito simples. Por exemplo: uma pedra recebe uma causa externa que a impele certa quantidade de movimento; se vier a cessar a causa externa do impulso ela continuará a mover-se necessariamente. Consequentemente, a permanência da pedra em movimento é coagida, e tem de ser definida não como necessária mas pelo impulso da causa externa...” Como se vê, chama liberdade à necessidade intrínseca, isto é, a determinação que tem por causa a própria essência. Daqui resulta que a noção espinosana de liberdade nada tem que ver com a noção de livre arbítrio e com a de contingência, e que o conceito que lhe é antitético é o da coação, isto é, de determinação extrínseca. Assim entendida, a liberdade não é uma propriedade do sujeito, mas um estado do ser. (N.T.)


“Deus, ou, por outras palavras, a substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente.
(Pois) Existe necessariamente aquilo de que não é dada qualquer razão ou causa que lhe impeça a existência.”


“Não ter poder para existir é impotência, e, pelo contrário, ser capaz de existir é potência. Por conseguinte, se o que agora existe necessariamente é constituído apenas por entes finitos, segue-se que os entes finitos têm mais poder que o ente absolutamente infinito — o que é absurdo. Portanto, ou não existe coisa alguma, ou um ente absolutamente infinito tem necessariamente de existir. Ora, nós existimos ou em nós próprios ou noutra coisa que exista necessariamente; por conseguinte, existe necessariamente um ente absolutamente infinito, isto é, Deus.*”
*: Terceira prova, a posteriori, como Espinosa diz no escólio seguinte, pela qual deduz do finito o infinito: existem serem finitos; se o ser infinito não existisse, os seres finitos ser-lhe-iam superiores em potencialidade; portanto... (N. do T.)


“A ideia de uma coisa singular, existente em ato, tem por causa Deus, não enquanto ele é infinito, mas enquanto é considerado como sendo afetado pela ideia de uma outra coisa singular existente em ato, ideia de que igualmente Deus é causa, enquanto é afetado por uma terceira, e assim até ao infinito.”


“É da natureza da Razão perceber as coisas sob um certo aspecto de eternidade.”


“Certamente que a sorte da humanidade seria muito mais feliz se estivesse igualmente na potência do homem tanto falar como calar-se. Mas a experiência ensina suficiente e superabundantemente que nada está menos em poder dos homens que a sua língua e não há nada que eles possam menos fazer que governar os seus apetites. Daí resulta que a maioria julga que a nossa liberdade de ação existe apenas em relação às coisas que desejamos debilmente, pois o apetite que nos inclina para essas coisas pode ser facilmente contrariado pela recordação de qualquer outra coisa de que nos recordamos muitas vezes; enquanto que julgam que de modo algum somos livres quando se trata de coisas para que somos inclinados com uma afecção violenta que não pode ser acalmada pela recordação de outra coisa. Todavia, se eles não soubessem, por experiência, que muitas vezes lamentamos as nossas ações e que frequentemente, quando somos dominados por afecções contrárias, vemos o melhor e fazemos o pior, nada os impediria de crer que todas as nossas ações são livres. É assim que uma criancinha julga apetecer livremente o leite, um menino irritado a vingança, e o medroso a fuga. Um homem embriagado julga também que é por uma livre decisão da alma que conta aquilo que, mais tarde, em estado de sobriedade, preferiria ter calado. Do mesmo modo, o homem delirante, a mulher tagarela, a criança e numerosos outros do mesmo gênero julgam falar em virtude da livre decisão da alma, enquanto que, todavia, são impotentes para reter o impulso de falar. A experiência faz ver, portanto, tão claramente como a Razão, que os homens se julgam livres apenas porque são conscientes das suas ações e ignorantes das causas pelas quais são determinados.”


“Se imaginamos que alguém ama, ou deseja, ou odeia o que nós próprios amamos, desejamos, ou odiamos, só por esse fato, é com maior força que amaremos, desejemos, odiemos.
Segue-se daí que cada um faz esforço, tanto quanto está em seu poder, para que os outros amem o que ele ama e odeiem o que odeia. (...)
Este esforço para fazer com que cada um aprove o que amamos ou odiamos é, na verdade, ambição; vemos, assim, que cada um, por natureza, deseja que os outros vivam segundo as suas ideias.”


“Na verdade, se alguém começa a odiar a coisa que ama, é reduzido um número maior dos seus apetites do que se ele jamais a tivesse amado. O amor, com efeito, é uma alegria que o homem, tanto quanto pode, se esforça por conservar; e isso considerando a coisa amada como presente, e afetando-a de alegria, tanto quanto pode; e esse esforço é tanto maior quanto o amor é maior, assim como o esforço para fazer com que a coisa amada o ame por sua vez. Mas esses esforços são entravados pelo ódio para com a coisa amada; portanto, aquele que ama será, por essa razão ainda, afetado de tristeza, e de uma tristeza tanto maior quanto o amor tinha sido maior; isto é, além da tristeza que foi causa do ódio, nasce outra do fato de ele ter amado a coisa; e, por consequência, considerará a coisa amada com uma afecção de tristeza maior, isto é, experimentará para com ela um ódio maior do que se nunca a tivesse amado, e tanto maior quanto o seu amor anterior era maior.”


“Odiar alguém é imaginar alguém como causa de tristeza; por consequência, aquele que odeia alguém esforçar-se-á por repeli-lo ou destruí-lo. Mas, se receia que daí resulte para si algo de mais triste, ou (o que vem dar no mesmo) um mal maior, e se julga poder evitá-lo não fazendo àquele que odeia o mal que pensava em fazer-lhe, desejará abster-se de lhe fazer mal; e isso com um esforço maior que aquele que o levava a fazer mal e que, consequentemente, prevalecerá.”


“Por bem entendo aqui todo o gênero de alegria e tudo o que, além disso, a ela conduz, e principalmente tudo o que satisfaz ao desejo, qualquer que ele seja. Por mal, ao contrário, entendo todo o gênero de tristeza, e principalmente o que frustra o desejo. Com efeito, demonstramos que não desejamos uma coisa porque a julgamos boa, mas, ao contrário, chamamos boa à coisa que desejamos; consequentemente, chamamos má à coisa por que temos aversão. Cada um julga, assim, ou estima, segundo a sua afecção, o que é bom, o que é mau, o que é melhor, o que é pior, o que é ótimo, o que é péssimo. Assim, o avaro julga que a abundância de dinheiro é o que há de melhor e a pobreza o que há de pior. O ambicioso nada deseja tanto como a glória e nada teme tanto como a vergonha. Ao invejoso, enfim, nada é mais agradável que a infelicidade de outrem, e nada mais desagradável que a felicidade de outrem. E, assim, cada um julga, segundo a sua afecção, que uma coisa é boa ou má, útil ou inútil.”


PROPOSIÇÃO LV
Quando a alma imagina a sua impotência, só por esse fato fica triste.
DEMONSTRAÇÃO
A essência da alma afirma somente o que a alma é e pode; por outras palavras, é da natureza da alma imaginar somente o que põe a sua capacidade de agir. Portanto, quando dizemos que a alma, enquanto se contempla a si mesma, imagina a sua impotência, não dizemos senão que, enquanto a alma se esforça por imaginar qualquer coisa que põe a sua capacidade de agir, este seu esforço é reduzido; por outras palavras, ela fica triste. Q. e. d.
COROLÁRIO
Essa tristeza é tanto mais favorecida quanto o homem imagina que é censurado pelos outros.
ESCÓLIO
Essa tristeza, acompanhada da ideia da nossa fraqueza, chama-se humildade; ao contrário, a alegria que nasce da contemplação de nós mesmos chama-se amor-próprio ou repouso íntimo. E, como ela se renova sempre que o homem contempla as suas próprias virtudes ou a sua capacidade de agir, daí resulta também que cada um se embriaga a contar os seus altos feitos, e a fazer alarde tanto das suas forças físicas como espirituais, e que, por essa razão, os homens sejam insuportáveis uns para com os outros. E de onde se segue, ainda, que os homens sejam invejosos por natureza, isto é, que se alegrem com a fraqueza dos seus semelhantes e, ao contrário, se entristeçam com as suas virtudes. Na verdade, sempre que cada um imagina as suas próprias ações, é afetado de alegria, e de uma alegria tanto maior quanto essas ações exprimem uma perfeição maior e quanto são imaginadas mais distintamente; isto é, tanto maior quanto ele pode distingui-las das outras e considerá-las como coisas singulares. É por isso que cada um se alegra mais com a contemplação de si mesmo, quando contempla em si mesmo qualquer coisa que pode negar aos outros. Mas se o que ele afirma de si mesmo o refere à ideia geral de homem ou de animal, já se não alegrará tanto, e, ao contrário, ficará triste se imagina que as suas ações, comparadas às dos outros, são de menor importância; esforçar-se-á, todavia, por afastar essa tristeza, e isso interpretando mal as ações dos seus semelhantes ou ornando as suas o mais que puder. Vê-se, portanto, que os homens são inclinados ao ódio e à inveja por natureza, a que se ajunta ainda a educação. Na verdade, os pais têm o hábito de excitar os seus filhos na virtude apenas por meio do aguilhão da honra e da inveja. Resta, porém, talvez ainda um motivo de dúvida, pois não é raro que admiremos as virtudes dos homens e até os veneremos. Para afastar este motivo de dúvida, acrescentarei o corolário seguinte.
COROLÁRIO
Ninguém inveja a virtude de outro, se ele não é seu igual.
DEMONSTRAÇÃO
A inveja é o próprio ódio, isto é, uma tristeza, por outras palavras, uma afecção pela qual a capacidade de agir do homem, ou o seu esforço, é reduzido. Ora, o homem não se esforça por uma ação nem deseja fazê-la, a não ser que ela possa seguir-se da sua natureza tal como é dada. Portanto, o homem não desejará que qualquer capacidade de agir, ou (o que equivale ao mesmo) qualquer virtude, seja afirmada de si, se ela pertence a natureza de um outro e é estranha à sua; por consequência, o seu desejo não pode ser reduzido, isto é, ele não pode ficar triste pelo fato de contemplar qualquer virtude em alguém que lhe é dessemelhante e, consequentemente, não poderá invejá-lo. Mas invejará o seu igual que, por hipótese, é da mesma natureza que ele. Q. e. d.
ESCÓLIO
Portanto, quando dissemos que veneramos um homem porque admiramos a sua prudência, a sua coragem, etc.., isso acontece porque imaginamos que essas virtudes lhe pertencem de uma maneira singular, e não como sendo comuns à nossa natureza; por consequência, não lhas invejamos como também não invejamos às árvores a altura e aos leões a coragem, etc.”


“Todas as ações que se seguem das afecções que se referem à alma, enquanto conhece, refiro-as à fortaleza da alma que distingo em firmeza e generosidade. Por firmeza entendo o desejo pelo qual um indivíduo se esforça por conservar o seu ser, apenas em virtude do ditame da Razão. Por generosidade entendo o desejo pelo qual um indivíduo se esforça por ajudar os outros homens e por se unir a eles pelo laço da amizade, em virtude apenas do ditame da Razão.”


“O orgulho difere, portanto, da estima pelo fato de que esta se refere a um objeto externo e o orgulho ao próprio homem, que tem, acerca de si mesmo, uma opinião mais vantajosa do que seria justo. Além disso, do mesmo modo que a estima é um efeito ou propriedade do amor, o orgulho é um efeito ou propriedade do amor-próprio.”


“O homem livre em nada pensa menos que na morte; e sua sabedoria não é uma meditação da morte, mas da vida.”


“Quem aumenta a ciência, aumenta a dor.” (Eclesiastes I, 18)


“O desejo é a própria essência do homem, isto é, um esforço pelo qual o homem se esforça por perseverar no seu ser.”


“Não sabemos ao certo que nada seja bom, a não ser aquilo que nos leva verdadeiramente a compreender; e, inversamente, que nada seja mau, senão o que pode impedir que compreendamos.”


“Os homens, só na medida em que vivem sob a direção da Razão, fazem necessariamente o que é necessariamente bom para a natureza humana e, consequentemente, para cada homem.”


“Cada um existe em virtude do direito supremo da Natureza e, consequentemente, é em virtude do supremo direito da Natureza que cada um faz o que se segue da necessidade da sua natureza; e, por conseguinte, é em virtude do supremo direito da Natureza que cada um julga o que lhe é bom e o que lhe é mau e atende à sua utilidade, como lhe convém, e se vinga, e se esforça por conservar o que ama e destruir aquilo a que tem ódio. Se os homens vivessem sob a direção da Razão, cada um usufruiria deste direito sem dano algum para outrem. Mas, como eles estão sujeitos às afecções, que ultrapassam de longe a potência, ou seja, a virtude humana, e por isso são muitas vezes arrastados em sentidos contrários e são contrários uns aos outros, quando têm necessidade de mútuo auxílio. Portanto, para que os homens possam viver de acordo e ajudar-se uns aos outros, é necessário que renunciem ao seu direito natural e assegurem uns aos outros que nada farão que possa redundar em dano de outrem. De que maneira possa isto suceder, quer dizer, que os homens, que estão necessariamente sujeitos às afecções e são inconstantes e mutáveis, possam dar uns aos outros esta segurança mútua e ter confiança mútua isto se dá pelo fato de nenhuma afecção poder ser entravada, a não ser por uma afecção mais forte e contrária à afecção a entravar, e pelo fato de cada um se abster de causar dano pelo temor de um dano maior. Portanto, é sobre esta lei que a sociedade poderá fundar-se, com a condição de ela reivindicar para si o direito que cada um tem de se vingar e de julgar do bem e do mal. Consequentemente, ela deverá ter o poder de prescrever uma regra comum de vida, de fazer leis e de as apoiar não na Razão, que não pode entravar as afecções, mas em ameaças. Tal sociedade, firmada em leis e no poder de se conservar a si mesma, chama-se cidade, e os que são defendidos pelo direito dela, cidadãos. Pelo que precede, facilmente compreendemos que não existe nada no estado natural que seja bom ou mau por consenso de todos; é que qualquer um que se encontre no estado natural atende só à sua utilidade e distingue como lhe convém, e só enquanto tem em conta sua utilidade, o que é bem e o que é mal e não está obrigado por nenhuma lei a obedecer a ninguém, senão a si. Por conseguinte, no estado natural não se pode conceber o pecado; mas sim, no estado civil, em que se distingue pelo consenso comum o que é bom e o que é mau e cada um é obrigado a obedecer à cidade. Assim, o pecado não é outra coisa que a desobediência que, por esta razão, é punida só em virtude do direito da cidade; e, ao contrário, a obediência é contada ao cidadão como mérito, porque, por esta mesma razão, é julgado digno de gozar das vantagens da cidade. Além disso, no estado natural ninguém é senhor de uma coisa por consentimento comum, nem existe nada na Natureza que possa dizer-se que é deste homem e não daquele, mas tudo é de todos; e, por conseguinte, no estado natural não pode conceber-se nenhuma vontade de dar a cada um aquilo que é seu, ou de tirar do outro o que é seu, isto é, no estado natural nada sucede que possa dizer-se justo ou injusto, mas, sim, no estado civil, em que se discerne, por consenso comum, ou que é deste ou que é daquele. Por aqui se vê que justo e injusto, pecado e mérito são noções extrínsecas, não atributos que expliquem a natureza da alma.”


“Por certo, só uma feroz e triste superstição proíbe que nos alegremos. Com efeito, em que é que se encontrará maior conveniência, em apaziguar a fome ou a sede que em expelir a melancolia? Tal é a minha regra, tal é a minha convicção. Nenhuma divindade, nem ninguém, a não ser um invejoso, se compraz com a minha impotência e com o meu mal, nem pode ter na conta de virtude as nossas lágrimas, os nossos soluços, o nosso medo, e outras coisas deste gênero, que são sinais de um espírito impotente; mas, pelo contrário, quanto maior for a alegria de que somos afetados, tanto maior é a perfeição a que passamos, isto é, tanto mais necessário é que nós participemos da natureza divina. Portanto, usar das coisas é deleitar-se nelas (não até a náusea, pois isto não é deleitar-se), quanto possível, é próprio do homem sábio. É próprio do homem sábio – digo – alimentar-se e recrear-se com comida e bebida moderadas e agradáveis, assim como com os perfumes, a amenidade das plantas verdejantes, o ornamento, a música, os jogos desportivos, os espetáculos e outras coisas deste gênero, de que cada um pode usar sem dano algum para outrem.”


“O vulgo é terrível, se não teme. Por isso, não é de admirar que os Profetas, que não cuidaram da utilidade de uns poucos mas da utilidade comum, tenham recomendado tanto a humildade, a penitência e o respeito. E, na verdade, os que estão sujeitos a estas afecções podem ser muito mais facilmente que os outros levados a viver, enfim, sob a direção da Razão, isto é, a serem livres e a gozar da vida dos felizes.”


“Os supersticiosos, que sabem mais censurar os vícios que ensinar as virtudes e que não procuram conduzir os homens pela Razão mas contê-los pelo medo de tal maneira que evitem mais o mal que amem as virtudes, não pretendem outra coisa que tornar os outros tão infelizes como eles; e, por conseguinte, não é de admirar que eles sejam, a maior parte das vezes, insuportáveis e odiosos aos homens.”


“Mas, para conseguir isto (suprir as necessidades do corpo), com dificuldade bastariam as forças de cada um, se os homens não prestassem os seus serviços uns aos outros. Na realidade, o dinheiro tornou-se um instrumento de aquisição de todas as coisas. Daí veio que seja sobretudo a sua imagem que costuma ocupar a alma do vulgo. É que os homens dificilmente podem imaginar uma espécie de alegria, a não ser acompanhada da ideia de dinheiro como causa.
Mas este vício é próprio só daqueles que não procuram o dinheiro por causa da indigência ou das necessidades, mas porque aprenderam a arte de enriquecer e se orgulham de a possuir. Mas os que conhecem o verdadeiro uso do dinheiro e regulam a medida das riquezas só pelas suas necessidades vivem contentes com pouco.”


“Com efeito, a maior parte dos homens parece acreditar que é livre na medida em que lhe é permitido obedecer às suas paixões; e que renunciam ao seu direito na medida em que são obrigados a viver segundo as prescrições da lei divina. Julgam, pois, que a piedade e a religião, e de uma maneira geral tudo o que se refere à força da alma, são fardos, que esperam depor depois da morte, para receber o preço da sua escravidão, a saber: da piedade e da religião. E não é só por esta esperança, mas ainda e sobretudo pelo medo de serem punidos depois da morte por cruéis suplícios, que eles são levados a viver segundo as prescrições da lei divina, tanto quanto o permitem a ligeireza e inconstância do seu espírito. Se os homens não tivessem esta esperança e este medo, mas se, pelo contrário, acreditassem que as almas morrem com o corpo e que não resta aos infelizes, que foram acabrunhados pelo fardo da piedade, uma nova vida, eles voltariam ao seu natural e quereriam regular tudo segundo as suas paixões, e obedecer ao acaso, de preferência a obedecerem a si mesmos. O que não me parece menos absurdo do que, se alguém, por não acreditar que pode alimentar eternamente o seu corpo com bons alimentos, preferisse saciar-se de venenos e substâncias mortíferas; ou que, por ver que a sua alma não é eterna, ou seja, imortal, preferisse ser demente e viver sem Razão; coisas tão absurdas que quase não vale a pena mencioná-las.”

Ensaio Acerca do Entendimento Humano (Os Pensadores) – John Locke

Editora: Nova Cultural
ISBN: 85-13-00906-7
Consultoria: Carlos Estevam Martins e João Paulo Monteiro
Tradução: Anoar Aiex
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 318
Sinopse: Ensaio acerca do Entendimento Humano (em inglês, An Essay Concerning Human Understanding) é um dos principais trabalhos de John Locke, junto com o segundo tratado de Dois Tratados sobre o Governo. Foi publicado originalmente em 1690 e tem como tema o pensamento e conhecimento humano. No livro, Locke afirma que todas as pessoas nascem sem saber absolutamente nada, como se fosse uma “folha em branco” (tabula rasa, embora o autor não tenha usado exatamente essas palavras) preenchida a posteriori através de experiências. Esse ensaio foi uma das principais fontes do empirismo britânico, influenciando muitos filósofos do iluminismo, como David Hume.

“Certamente, o mundo estaria muito mais adiantado se o esforço de homens engenhosos e perspicazes não estivesse tão embaraçado pela erudição e pelo uso frívolo de termos desconhecidos, afetados e ininteligíveis, introduzido nas ciências, e fazendo disso uma arte a tal ponto de a filosofia, que nada mais é do que o verdadeiro conhecimento das coisas, tornar-se imprópria ou incapaz de ser apreciada pela sociedade mais refinada e nas conversas eruditas. Formas vagas e sem significado de falar, e abuso da linguagem, têm por muito tempo passado por mistérios da ciência; palavras difíceis e mal empregadas, com pouco ou nenhum sentido, têm, por prescrição, tal direito que são confundidas com o pensamento profundo e o cume da especulação, sendo difícil persuadir não os que falam como os que os ouvem que são apenas abrigos da ignorância e obstáculos ao verdadeiro conhecimento. Suponho que interromper o santuário da vaidade e da ignorância será de alguma utilidade para o entendimento humano, embora poucos estejam aptos a pensar que enganam ou são enganados pelo uso das palavras, ou que a linguagem da seita a que pertencem tem qualquer defeito que deva ser examinado e corrigido.”


Como as regras morais necessitam de prova, elas não são inatas. Outra razão que me leva a duvidar de quaisquer princípios práticos inatos decorre do fato de pensar que nenhuma regra moral pode ser proposta sem que uma pessoa deva justamente indagar a sua razão: o que seria perfeitamente ridículo e absurdo se ela fosse inata, ou sequer evidente por si mesma, coisa que todo princípio inato deve necessariamente ser, sem precisar de qualquer prova para apurar sua verdade, nem necessitar de qualquer razão para obter sua aprovação.”


Todas as ideias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos, pois, que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem nenhuma ideia; como ela será suprida? De onde lhe provém este vasto estoque, que a ativa e ilimitada fantasia do homem pintou nela com uma variedade quase infinita? De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra: da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento. Empregada tanto nos objetos sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por nós mesmos percebidas e refletidas, nossa observação supre nossos entendimentos com todos os materiais do pensamento. Dessas duas fontes de conhecimento jorram todas as nossas ideias, ou as que possivelmente teremos.”


“Quem não quiser se equivocar, deve construir sua hipótese, derivada da experiência sensível, sobre um fato, e não supor um fato devido a essa hipótese.”


A mente não pode formar nem destruir as ideias simples. Elas são os materiais de todo o nosso conhecimento, são sugeridas ou fornecidas à mente unicamente por duas vias: sensação e reflexão. Quando o entendimento já está abastecido de ideias simples, tem o poder para repetir, comparar e uni-las numa variedade quase infinita, formando à vontade novas ideias complexas. Mas não tem o poder, mesmo o espírito mais exaltado ou entendido, mediante nenhuma rapidez do pensamento, de inventar ou formar uma única nova ideia simples na mente, que não tenha sido recebida pelos meios antes mencionados; nem pode nenhuma força do entendimento destruir as ideias que lá estão, sendo o domínio do homem neste pequeno mundo de seu entendimento semelhante ao do grande mundo das coisas visíveis; donde seu poder, embora manejado com arte e perícia, não vai além de compor e dividir os materiais que estão ao alcance de sua mão; mas nada pode quanto à feitura da menor partícula de nova matéria, ou na destruição de um átomo do que já existe. Semelhante inabilidade será descoberta por quem tentar modelar em seu entendimento alguma ideia que não recebera através dos sentidos dos objetos externos, ou mediante a reflexão das operações de sua mente acerca deles. Gostaria que alguém tentasse imaginar um gosto que jamais impressionou seu paladar, ou tentasse formar a ideia de um aroma que nunca cheirou; quando puder fazer isso, concluirei também que um cego tem ideias das cores, e um surdo noções reais dos diversos sons.”


As ideias simples são os materiais de todo o nosso conhecimento. Se estas não são todas, penso que, ao menos, constituem as mais notáveis das ideias simples pertencentes à mente, a partir das quais se formam todos os outros conhecimentos, sendo tudo isso fornecido unicamente pelas duas vias já mencionadas: sensação e reflexão.
Que ninguém pense que estas duas fronteiras limitam a expansão da enorme capacidade da mente do homem, cujo voo vai além das estrelas e não pode ser confinado pelos limites deste mundo; que frequentemente estende seus pensamentos bem além da mais alta expansão da matéria e faz excursões pelo vazio incompreensível. Admito tudo isso; mas ninguém procure apontar qualquer ideia simples que não tenha recebido de uma daquelas entradas mencionadas, ou alguma ideia complexa que não tenha sido formada dessas simples. Nem será estranho pensar que estas poucas ideias simples serão suficientes para empregar o mais rápido pensamento ou a mais ampla capacidade, e para fornecer os materiais de toda esta variedade de conhecimentos e das variegadas fantasias e opiniões de todos os homens, se considerarmos quantas palavras são formadas em função das inúmeras composições das vinte e quatro letras, ou, indo um passo além, se refletirmos acerca da variedade de combinações que podem ser feitas com apenas uma das duas ideias acima mencionadas, por exemplo, a do número, cujo estoque é inesgotável e realmente infinito; e que campo amplo e imenso somente este algarismo oferece aos matemáticos.”


INFINIDADE
Infinidade, em sua intenção original, atribuída ao espaço, duração e número. Para alguém entender que tipo de ideia se designa com o nome infinidade, nada melhor do que mostrar a que a mente atribui imediatamente à infinidade, destacando, a seguir, como a mente a forma.
Parece-me que finito e infinito devem ser assinalados pela mente como modos de quantidade atribuídos primeiramente e em sua designação inicial apenas às coisas dotadas de partes, capazes de aumento ou diminuição mediante adição ou subtração de qualquer parte, por menor que seja, tais como as ideias de espaço, duração e número. Na verdade, não podemos, entretanto, estar seguros de que o poderoso Deus, de quem e para quem são todas as coisas, é incompreensivelmente infinito; apesar disso, quando mediante nossos limitados e fracos pensamentos aplicamos a ideia de infinito a este primeiro e supremo Ser, fazemo-lo, primeiramente, com respeito à sua continuidade e onipresença, e, penso, figurativamente, em relação ao seu poder, sabedoria, bondade e outros atributos, que são propriamente inesgotáveis e incompreensíveis, etc. Quando os denominamos infinitos, não possuímos nenhuma ideia desta infinidade, exceto a decorrente da reflexão e imitação da quantidade ou da extensão dos atos ou objetos derivados do poder de Deus, tais como a sabedoria e a bondade, que jamais pode ser suposto por tão grande, e cujos atributos nem sempre ultrapassamos ou excedemos, multiplicando-os em nossos pensamentos até onde quisermos, com toda a infinidade dos números ilimitados. Não pretendo dizer como esses atributos se encontram em Deus; situado, sem dúvida, infinitamente além do alcance de nossas estreitas capacidades e compreendendo em si toda per feição possível; apenas viso a afirmar em que consiste nosso meio de concebê-los e quais são nossas ideias de sua infinidade.
A ideia de finito apreendida facilmente. Sendo, portanto, finito e infinito vistos pela mente como modificações da expansão e duração, devo considerar a seguir como a mente os apreende. Com respeito à ideia de finito, não há grande dificuldade. As óbvias porções da extensão que impressionam nossos sentidos transportam com elas para a mente a ideia de finito, e os períodos ordinários da sucessão – por meio dos quais medimos tempo e duração, como horas, dias e anos – são comprimentos limitados. A dificuldade consiste em saber como apreendemos essas ideias ilimitadas de eternidade e imensidade, desde que os objetos com os quais nos relacionamos aparecem muito reduzidos em relação a qualquer aproximação ou proporção desta grandeza.”


Essência pode ser tomada como o ser de qualquer coisa, por isso ela é o que é. E, desse modo, embora geralmente desconhecida nas substâncias, a constituição interna real das coisas, às quais suas finalidades descobríveis estão subordinadas, pode ser chamada a essência das coisas. Este é o significado próprio e original da palavra, como é evidente de sua formação, essentia, em sua anotação primária, significando propriamente ser. E neste sentido ela continua sendo usada quando falamos da essência das coisas particulares, sem lhes dar um nome.”


“O uso da linguagem consiste, em resumo, em sons para dar a entender com facilidade e rapidez conceitos gerais, em que não apenas a abundância de pormenores deve ser contida, mas também uma grande variedade de ideias independentes agrupadas em uma complexa.”


“Mesmo a mais desenvolvida noção que temos de Deus consiste apenas em atribuir as mesmas ideias simples que adquirimos pela reflexão acerca do que descobrimos em nós mesmos, e que concebemos ter mais perfeição nelas do que seria em suas abstrações; atribuir, eu digo, essas ideias simples a ele num grau ilimitado. Deste modo, tendo adquirido, mediante a reflexão acerca de nós mesmos, a ideia da existência, do conhecimento, poder e prazer – cada uma das quais achamos melhor ter do que não ter; e quanto mais tivermos de cada é melhor –, reunindo todas, com a infinidade a cada uma delas, temos a ideia complexa de um ser eterno, onisciente, onipotente, infinitamente sábio e feliz.”


“Conhecimento nada mais é que a percepção da conexão e acordo, ou desacordo e rejeição, de quaisquer de nossas ideias.”


“Não questiono que este conhecimento humano, sob as circunstâncias atuais de nossos seres e constituições, possa ser levado bem além do que tem sido, se os homens sinceramente e com liberdade da mente empregassem toda diligência e esforço de pensamento no aperfeiçoamento dos meios para descobrir a verdade, em lugar de o fazerem superficialmente ou apoiando-se na falsidade, para manter um sistema, interesse ou facção com a qual estão comprometidos.”


“Não há verdade mais evidente que esta: alguma coisa deve ser da eternidade. Eu jamais ouvi de alguém tão irracional, ou que poderia supor uma contradição tão manifesta, para afirmar que em certa época não havia perfeitamente nada. Este é de todos os absurdos o maior, pois imaginar o puro nada, a perfeita negação e ausência de todos os seres, jamais poderia produzir nenhuma existência real.”


O ser não-cogitativo não pode produzir um cogitativo. Se, então, deve existir algo eterno, vejamos qual o tipo desse ser. E com respeito a isto é muito óbvio à razão que deve ser necessariamente um ser cogitativo. Pois é impossível conceber que jamais uma pura matéria não-cogitativa possa produzir um ser pensante e inteligente, como se o nada pudesse por si mesmo produzir a matéria. Suponhamos que qualquer porção da matéria eterna, grande ou pequena, fosse descoberta, por si mesma, capaz de nada produzir. Por exemplo, suponhamos a matéria da primeira pedra que encontramos com eternidade, bem unida, e as partes firmemente em repouso unidas; se não houvesse nenhum outro ser no mundo, não deveria conceber que pode adicionar movimento por si mesma, sendo puramente matéria, ou produzir alguma coisa? A matéria, pois, por sua própria força, não pode produzir em si mesma tanto quanto o movimento; o movimento que ela tem deve também ser da eternidade, ou então ser produzido e acrescido à matéria por algum outro ser mais poderoso do que a matéria; a matéria, como é evidente, não tem poder para produzir movimento em si mesma. Mas suponhamos o movimento eterno também: embora a matéria, matéria não-cogitativa e movimento, seja qual for a modificação que pode produzir da figura e grandeza, jamais possa produzir pensamento, o conhecimento ainda estará além do poder do movimento e matéria para produzir, tanto como a matéria está além do poder de nada ou da não-existência para produzir. E faço um apelo para o pensamento de cada um, se não pode facilmente conceber a matéria produzida pelo nada, como o pensamento poderia ser produzido pela matéria pura, quando, antes, não havia tal; coisa como o pensamento ou um ser inteligente existindo? É impossível conceber que esta matéria, com ou sem movimento, poderia ter, originalmente, em e por si mesma, sentido, percepção e conhecimento; como é evidente disto, o então sentido, percepção e conhecimento deve ser uma propriedade eternamente inseparável da matéria em cada partícula dela. Pois, portanto, tudo o que é o primeiro ser eterno deve necessariamente ser cogitativo; e, seja o que for que é inicial de todas as coisas, deve necessariamente contê-lo nele, e atualmente ter, ao menos todas as perfeições que podem existir depois e para sempre; nem pode jamais transmitir a outrem nenhuma perfeição que não tem, quer atualmente em si mesmo, quer, ao menos, em um grau mais alto; segue-se necessariamente que o ser inicial eterno não pode ser matéria.
Portanto, existiu lá uma sabedoria eterna. Se, portanto, é evidente que algo deve necessariamente ter existido desde a eternidade, é também evidente que este algo deve ser necessariamente um ser cogitativo; pois é impossível que uma matéria não-cogitativa pudesse produzir um ser cogitativo, assim como o nada, ou a negação de todo ser, pudesse produzir um ser positivo ou matéria.
Embora esta descoberta da existência necessária de uma mente eterna nos leve suficientemente ao conhecimento de Deus, desde que deriva disto que todos os outros seres cognitivos que têm começo devem depender dele, e não ter nenhum outro meio de conhecimento ou extensão do poder do que ele lhes deu; e, portanto, se ele os fez, fez igualmente as peças menos excelentes do universo, todos os seres inanimados, por meio dos quais sua consciência, poder e providência são estabelecidos, e todos os seus atributos decorrem necessariamente.”


“A razão, como contradistinguida da , assumo que é a descoberta da certeza ou probabilidade de tais proposições ou verdades que a mente alcança por dedução feita de tais ideias, que adquiriu pelo uso de suas faculdades naturais, ou seja, pela sensação ou reflexão.
A , por outro lado, é o assentimento de qualquer proposição, não estabelecida pelas deduções da razão, mas com base na confiança do proponente, como derivada de Deus, em algum meio extraordinário de comunicação. Este meio para desvendar a verdade aos homens denominamos revelação.”


Se os limites não forem estabelecidos entre fé e razão, nenhum entusiasmo ou extravagância em religião pode ser contradito. Se as províncias da fé e da razão não forem distinguidas por estas fronteiras, não haverá em matéria de religião, em absoluto, lugar para a razão; e estas opiniões extravagantes e cerimônias que são descobertas em várias religiões do mundo não merecerão ser censuradas. Pois, para esta exaltação de fé em oposição à razão, podemos, penso, em certa medida assinalar estes absurdos que acumulam quase todas as religiões, os quais dominam e dividem os homens. Uma vez que os homens foram imbuídos com uma opinião, a de que não devem consultar a razão em coisa de religião, por mais aparentemente que sejam contraditórias ao senso comum e aos próprios princípios de todo o seu conhecimento, deixaram soltas suas fantasias e sua superstição natural. E foram por elas levados a opiniões tão estranhas, e extravagantes rituais em religião, que um homem ponderado não pode senão permanecer admirado de suas loucuras, e julgá-los longe de serem aceitos ao grande e sábio Deus, não podendo evitar pensá-los ridículos e ofensivos, em relação a um homem sóbrio e bom. Assim sendo, com efeito, a religião, que mais deveria nos distinguir das bestas, e deveria mais particularmente nos elevar, como criaturas racionais, acima dos brutos, consiste nisso, ou seja, os homens frequentemente, através dela, parecem mais irracionais e menos insensíveis que as próprias bestas. Credo, quia impossibile est: creio, porque é impossível, deve, num bom homem, passar por uma investida de zelo; mas provaria uma regra muito má para os homens basearem a escolha de suas opiniões ou religião.”


“Sendo o conhecimento para ser tido apenas da verdade visível e evidente, o erro não é uma falta de nosso conhecimento, mas um equívoco de nosso julgamento assentindo a algo que não é verdadeiro.”


Os homens não se encontram em tantos erros como se imagina. Mas não obstante, quanto ao grande barulho que é feito no mundo com respeito aos erros e opiniões, devo fazer justiça aos homens ao dizer: não há tantos homens no erro e com opiniões errôneas como é geralmente suposto. Não que eu pense que eles adotam a verdade, mas porque, no que diz respeito a estas doutrinas, eles se mantiveram em tal movimento que não têm pensado, não têm, em absoluto, opinião. Eles estão resolvidos a aferrar-se a um partido que a educação ou o interesse os tem engajado, e lá, como os soldados de um exército, mostram sua coragem e entusiasmo de acordo com a orientação de seus líderes, sem jamais examinar ou conhecer a causa pela qual combatem. Deste modo, os homens tornam-se professores e combatentes, destas opiniões de que nunca estiveram convencidos nem são prosélitos, nem jamais as tiveram em suas cabeças; e, apesar de não se poder dizer que há menos opiniões errôneas ou improváveis no mundo do que se pensa, ainda assim, isto é certo: há poucos que realmente aquiescem com elas, e as confundem com verdades, como se imagina.”


“Isto me parece tanto a primeira e mais geral, como natural, divisão dos objetos de nosso entendimento. Pois um homem pode empregar seus pensamentos acerca de nada, mas também na contemplação das próprias coisas, para a descoberta da verdade; ou acerca de coisas em seu próprio poder, que são suas próprias ações, para a obtenção de seus próprios objetivos, ou nos sinais de que a mente faz uso de ambos em um ou em outro, e na correta ordenação deles, para sua mais clara informação. Todas estas três, a saber, coisas, como elas são em si mesmas cognoscíveis; ações, como elas dependem de nós, com vistas à felicidade; e o uso correto de sinais com vistas ao conhecimento; sendo toto coelo diferentes, parecem-me ser as três grandes províncias do mundo intelectual, totalmente separadas e distintas entre si.”