terça-feira, 27 de setembro de 2016

Confissões / De Magistro (Parte I) – Santo Agostinho

Editora: Nova Cultural
ISBN: 85-13-00848-6
Tradução: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina (Confissões) e Ângelo Ricci (De Magistro)
Consultor da Introdução: José Américo Motta Pessanha
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 416
Sinopse: As Confissões de Santo Agostinho estão entre os textos mais importantes da literatura cristã. Marcadamente espiritual, mas profundamente filosófica e teológica, a obra reflete a travessia pessoal de Agostinho rumo à sua libertação e ao encontro com Deus. É obra referencial na mística cristã, escrita por um dos autores de maior relevância e influência na história cristã e ocidental.



Confissões

“Na verdade, os que O buscam, encontrá-Lo-ão, e aqueles que O encontram hão de louvá-Lo.”


“E como invocarei o meu Deus — meu Deus e meu Senhor —, se, ao invocá-Lo, O invoco sem dúvida dentro de mim? E que lugar há em mim, para onde venha o meu Deus, para onde possa descer o Deus que “fez o céu e a terra”?¹ Pois será possível, Senhor meu Deus, que se oculte em mim alguma coisa que Vos possa conter? É verdade que o céu e a terra que criastes e no meio dos quais me criastes Vos encerram?
Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contêm? E assim, se existo, que motivo pode haver para Vos pedir que venhais a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis? Não estou no inferno, e, contudo, também Vós lá estais, pois “se descer ao inferno, aí estais presente”².
Por conseguinte, não existiria, meu Deus, de modo nenhum existiria, se não estivésseis em mim. Ou antes, existiria eu se não estivesse em Vós, “de quem, por quem e em quem todas as coisas subsistem”? Assim é, Senhor, assim é. Para onde Vos hei de chamar, se existo em Vós? Ou donde podereis vir até mim? Para que lugar, fora do céu e da terra, me retirarei, a fim de que venha depois a mim o meu Deus, que disse: “Encho o céu e a terra”?”
1: Gên 1, 1. / 2:  Sl 138,8


“Ó Deus tão alto, tão excelente, tão poderoso, tão onipotente, tão misericordioso e tão justo, tão oculto e tão presente, tão formoso e tão forte, estável e incompreensível, imutável e tudo mudando, nunca novo e nunca antigo, inovando tudo e cavando a ruína dos soberbos, sem que eles o advirtam; sempre em ação e sempre em repouso; granjeando sem precisão; conduzindo, enchendo e protegendo, criando, nutrindo e aperfeiçoando, buscando, ainda que nada Vos falte.
Amais sem paixão; ardeis em zelos sem desassossego; arrependeis-Vos sem ato doloroso; irais-Vos e estais calmo; mudais as obras, mas não mudais de resolução; recebeis o que encontrais, sem nunca o ter perdido.
Nunca estais pobre e alegrais-Vos com os lucros; jamais avaro, e exigis com usura. Damo-Vos mais do que pedis, para que sejais nosso devedor; mas quem é que possui coisa alguma que não seja vossa? Pagais as dívidas, a ninguém devendo, e perdoais as dívidas, sem nada perder. Que dizemos nós, meu Deus, minha vida, minha santa delícia, ou que diz alguém quando fala de Vós?... Mas ai dos que se calam acerca de Vós, porque, embora falem muito, serão mudos!”


“A minha alma é estreita habitação para Vos receber; dilatai-a, Senhor. Ameaça ruína, restaurai-a. Tem manchas que ferem o vosso olhar. Eu o reconheço e o confesso. Quem há de purificá-la? A quem hei de clamar, senão a Vós? “Purificai-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoai ao vosso servo os alheios¹!” Creio, e por isso falo. Vós o sabeis, Senhor. Não confessei contra mim os meus crimes, e não “me perdoastes, meu Deus, a impiedade do meu coração²”? “Não entro em razões convosco”, que sois a mesma Verdade. Não me quero iludir “para que a minha iniquidade não se minta a si mesma”³. Não quero entrar em razões convosco, porque, “se atendeis à iniquidade, Senhor, Senhor, quem permanecerá?”4.”
1: Sl 13, 14. / 2: Sl 31,5. / 3: Sl 26, 12. / 4: Sl 129,3.


“Donde podia vir semelhante criatura, se não de Vós, Senhor? Alguém pode ser artífice de si mesmo? Ou pode derivar-se doutra parte algum manancial por onde corram até nós o ser e a vida, diferentes dos que nos dais, Senhor — Vós, em quem o ser e a vida se equivalem, porque sois o Ser supremo e a suprema Vida?”


“Neste período da infância, cujo perigo temiam menos para mim do que o da adolescência, não gostava do estudo, e tinha horror de ser a ele obrigado. Por meio desta coação faziam-me um bem — embora eu procedesse mal —, pois não aprenderia se não fosse constrangido. Todavia, contra a vontade, ninguém procede bem, ainda que a ação em si mesma seja boa. (...)
Para aprender, é mais eficaz uma curiosidade espontânea do que um constrangimento ameaçador.”


“Não Vos amava. “Prevaricava longe de Vós¹” e em toda parte ressoavam aos meus ouvidos de luxurioso estas palavras: “Bravo! Coragem!” A amizade deste mundo é adultério contra Vós. Proferem-se as palavras “Bravo! Coragem!” para que o homem não se envergonhe de ser pecador. Não chorava essas faltas, mas pranteava “a morte de Dido, que se suicidara com uma espada²”. Segui atrás dos ínfimos objetos da vossa criação, abandonando-Vos; como era terra, tendia para a terra.”
1: Sl 72, 27 / 2: Eneida, VI, 457.


“Como se, na realidade, se persuadisse haver um inimigo mais molesto que o próprio ódio com que se irrita contra si mesmo; ou como se alguém prejudicasse mais gravemente, a outrem, com perseguições, do que ao próprio coração, com essa inimizade!”


“Foi então que os espinhos das paixões me sobrepujaram a cabeça, sem haver mão que os arrancasse. Bem pelo contrário: meu pai, durante o banho, vendo-me entrar já na puberdade e revestido da adolescência inquieta, contou-o todo alegre a minha mãe, como se tal verificação o fizesse saltar de prazer com a ideia de ter netos. Era uma alegria, aliás, proveniente da embriaguez produzida pelo vinho invisível da sua vontade perversa e inclinada às coisas baixas — embriaguez com que este mundo esquece o Criador, para, em vez de Vós, Senhor, amar as criaturas. Porém, já tínheis começado a edificar em minha mãe o vosso templo e os fundamentos da vossa santa habitação. Meu pai era simples catecúmeno, recente ainda. Por isso, minha mãe, com tal nova, agitou-se, levada de piedosa perturbação e temor. Apesar de eu ainda não ser batizado, receou que enveredasse por caminhos tortuosos, por onde andam “os que Vos voltam as costas e não o rosto¹”.
Ai de mim! Como me atrevo a dizer que estáveis calado, quando continuamente me ia afastando de Vós! Guardáveis, porventura, silêncio diante de mim? De quem eram, senão de Vós, aquelas palavras que, por meio de minha mãe, vossa fiel serva, pronunciastes aos meus ouvidos? Nenhuma delas, porém, desceu ao meu coração, para cumprir o que ela me aconselhava. Lembro-me que, um dia, querendo que me abstivesse da luxúria e sobretudo não cometesse adultérios, avisou-me em particular e com grande solicitude.
Envergonhava-me de seguir tais conselhos, por me parecerem só próprios de mulheres. Porém eram vossos, e eu sem o saber! Julgava que nada me dizíeis, que só ela me falava; mas Vós dirigíeis-Vos a mim, por sua boca. Éreis desprezado na sua pessoa por mim, sim, por mim, pelo filho da vossa escrava, pelo vosso servo. Mas eu não sabia! Ignorante, precipitava-me tão cegamente que, entre os companheiros da minha idade, me envergonhava de ser menos infame do que eles. Ouvia-os jactarem-se de suas ignomínias, e tanto mais se gloriavam quanto mais depravados eram. Assim, praticava o mal não só pelo deleite da ação, mas ainda para ser louvado.
Que haverá mais digno de vitupério do que o vício? E eu, para não ser vituperado, fazia-me cada vez mais vicioso! Se não cometesse pecado com que igualasse os mais corrompidos, fingia ter cometido o que não praticara, para que não parecesse mais abjeto quanto mais inocente, e mais vil quanto mais casto.”
1: Jer 2, 27


“O furto é punido pela vossa lei, ó Senhor, lei que, indelevelmente gravada nos corações dos homens, nem sequer a mesma iniquidade poderá apagar. Ora, que ladrão haverá que suporte com gosto outro ladrão, se até o rico não perdoa ao indigente que foi compelido ao roubo pela miséria? E eu quis roubar; roubei, não instigado pela necessidade, mas somente pela penúria, pelo fastio da justiça e pelo excesso da maldade. Tanto é assim que furtei o que tinha em abundância e em muito melhores condições. Não pretendia desfrutar do furto, mas do roubo em si e do pecado.
Havia, próximo da nossa vinha, uma pereira, carregada de frutos nada sedutores, nem pela beleza nem pelo sabor. Alta noite, pois tínhamos o perverso costume de prolongar nas eiras os jogos até essas horas, eu com alguns jovens malvados fomos sacudi-la para lhe roubarmos os frutos. Tiramos grande quantidade, não para nos banquetearmos, se bem que provamos alguns, mas para os lançarmos aos porcos. Portanto, todo o nosso prazer consistia em praticarmos o que nos agradava, pelo fato de o roubo ser ilícito.
Eis o meu coração, Senhor, eis o meu coração, que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Diga-Vos ele agora o que buscava nesse sorvedouro, sendo eu mau desinteressadamente e não havendo outro motivo para a minha malícia senão a própria malícia. Era asquerosa e amei-a. Amei a minha morte, amei o meu pecado. Amei, não aquilo a que era arrastado, senão a mesma queda. Que alma tão forte que se apartava do vosso firme apoio, para se lançar na morte, apetecendo não uma parcela da desvergonha, mas a própria desvergonha!
Ó podridão, ó monstro da vida e abismo da morte! Como pode agradar-me o ilícito sem outro motivo que o de me ser proibido?”
Que fruto nessa ocasião colhi eu, miserável, das ações que agora, ao recordá-las, me fazem corar de vergonha, nomeadamente daquele roubo, em que amei o próprio roubo e nada mais? Nenhum, pois o furto nada valia, e, com ele, me tornei mais miserável. Sozinho não o faria — lembro-me de que era esta a minha disposição, naquele momento; sim, absolutamente só, não era capaz de o fazer. Portanto, amei também no furto o consórcio daqueles com quem o cometi. Amei, por isso, mais alguma coisa do que o furto. Mas não: não amei mais nada, porque a cumplicidade nada vale.
Que é esta, na realidade? Quem mo ensinará senão Aquele que ilumina o meu coração, rasgando-lhe as sombras? Por que ocorreu ao meu espírito estar aqui a inquirir, discutir e considerar tais particularidades? Se então amasse os pomos que furtei e com eles me apetecesse regalar, poderia tê-los roubado sozinho, se isso bastasse. Poderia ter cometido a iniquidade por onde cheguei ao meu deleite, sem acender, com a fricção de almas cúmplices, o prurido da minha cobiça. Mas porque não experimentava prazer naqueles furtos, este consistia na própria falta que praticavam os pecadores simultaneamente, em cumplicidade.
Que sentimento era aquele da minha alma? Sem dúvida, um sentimento muitíssimo vergonhoso; e ai de mim que o mantinha! Mas, enfim, que era ele? “Quem conhece todos os delitos?¹” Era um riso, como que a fazer-nos cócegas no coração, provocado pelo gosto de enganar os que tinham como impossível o nosso feito e vivamente o detestavam.
Qual o motivo por que me deleitava o não estar sozinho, quando cometia o furto? Seria porque ninguém facilmente se ri, quando está só? É certo que, sozinho, ninguém se ri facilmente. Mas, se alguma coisa demasiado ridícula acode aos sentidos ou à imaginação, o riso vence por vezes o homem, mesmo quando sozinho e sem ter ninguém presente. Ah! sozinho não praticaria tal ação. Se estivesse absolutamente só, não a faria².
Eis perante Vós, ó meu Deus, uma viva lembrança da minha alma. Sozinho, não cometeria aquele furto, em que me não aprazia o que roubava, mas o ato de roubar, porque, completamente só, não sentiria prazer em praticar o furto. Nem sequer o faria. Ó amizade tão inimiga, ó sedução impenetrável da mente, avidez de perpetrar o mal por brincadeira ou gracejo, ó apetite do dano alheio, sem lucro nenhum, sem paixão de vingança, mas só porque sentimos vergonha de não ser desavergonhados, quando nos dizem: “Vamos, façamos”.”
Quem entra em Vós penetra “no gozo do seu Senhor³”, e não só não terá receio, mas também permanecerá soberanamente no bem perfeito. Na adolescência, afastei-me de Vós, andei errante, meu Deus, muito desviado do vosso apoio, tornando-me para mim mesmo uma região de fome.”
1: Sl 18, 13 / 2: Reconhece Santo Agostinho a influência do ambiente na perpetração de crimes. O homem no meio dum grupo ou da multidão deixa-se facilmente sugestionar. É todo receptividade psicológica. A carga efetiva da coletividade galvaniza-o. Não reage como ser independente, mas como parte dum todo. (N. do T.) / 3: Mt 25, 21


“O orgulho imita a altura, mas só Vós, meu Deus, sois excelso sobre todas as coisas. Que busca a ambição senão honras e glória, embora só Vós tenhais direito a ser honrado sobre tudo e glorificado eternamente? A sevícia dos poderosos aspira a fazer-se temer; mas quem deve ser temido senão Deus? Quando, onde, até onde e quem pode tirar ou subtrair alguma coisa ao vosso poder? As carícias dos voluptuosos desejam a reciprocidade do amor; mas nada há mais acariciante que a vossa caridade, nem se pode amar nada mais salutar que a vossa verdade, a mais formosa e resplandecente de todas. A curiosidade parece ambicionar o estudo da ciência, quando só Vós é que conheceis plenamente tudo!
Até a própria ignorância e estultícia se encobrem sob o nome de simplicidade e de inocência. Mas nada se encontra mais simples do que Vós. Quem há mais inocente do que Vós, pois são as próprias obras que prejudicam os pecadores? À preguiça parece apetecer apenas o descanso; mas que repouso seguro há fora do Senhor? A luxúria deseja apelidar-se saciedade e abundância; Vós, porém, sois a plenitude e a abundância interminável da suavidade incorruptível. A prodigalidade cobre-se com a sombra da liberalidade; mas o mais magnânimo dispensador de todos os bens sois Vós. A avareza quer possuir muito; e Vós possuis tudo. A inveja litiga acerca da “excelência”; mas que ser há mais excelente que Vós? A ira procura a vingança; e quem se vinga mais justamente que Vós? O temor, enquanto vigia pela segurança das coisas que ama, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados que lhes sejam adversos; porém, que há de insólito para Vós? Que há de inesperado? Quem separa de Vós o que amais? E onde encontrar a firme segurança senão em Vós? A tristeza definha-se com a perda dos bens em que a cobiça se deleita — porque desejaria que nada, como a Vós, se lhe pudesse tirar.”


“Mas que ações pecaminosas Vos podem afligir, a Vós, a quem a corrupção não atinge? Ou que pecados se podem levantar contra Vós, a quem nada pode prejudicar? Punis o que os homens cometem contra si próprios, porque, ainda mesmo quando Vos ofendem, agem impiamente contra as suas almas. A própria iniquidade, se engana a si mesma, corrompendo-se e pervertendo-se na sua natureza, feita e ordenada por Vós, quer servindo-se imoderadamente das coisas que lhe são lícitas, quer ardendo na concupiscência do ilícito, “no uso daquilo que é contra a natureza¹”.
1: Rom 1, 26.


“Oh! loucura que não sabe amar os homens humanamente! Oh! que louco o homem que sofre, sem conformidade, os reveses humanos! Assim era eu então. Por isso, inquietava-me, suspirava, chorava, perturbava-me sem descanso nem circunspecção.
Trazia a alma despedaçada a escorrer sangue: repugnava-lhe ser por mim conduzida, e eu não encontrava lugar onde a depusesse. Não descansava nos bosques amenos, nem nos jogos e cânticos, nem em lugares suavemente perfumados, nem em banquetes faustosos, nem no prazer da alcova e do leito, nem finalmente nos livros e versos. Tudo me horrorizava, até a própria luz. Tudo o que não era o que ele era (seu amigo recém-falecido) tinha por mau e fastidioso, exceto os gemidos e lágrimas, pois só nestas encontrava algum repouso. Mas apenas de lá arrancava a minha alma, pesava sobre mim o grande fardo da desgraça.
Sabia, ó Senhor, que a devia erguer para Vós a fim de ser curada, mas não queria nem tinha forças, tanto mais que, ao pensar em Vós, não me parecíeis solidamente firme.
O meu Deus não éreis Vós, mas um fantasma irreal e o erro. Se ali tentava colocá-la, para descansar, deslizava pelo vácuo e ruía sobre mim, continuando eu a ser um lugar de infelicidade, onde não podia permanecer e donde não podia afastar-me.
Para onde o meu coração fugiria do meu coração? Para onde fugiria de mim mesmo? Para onde me não seguiria? Por isso fugi da pátria. Os olhos procurariam menos esse amigo lá onde o não costumavam ver. Da cidade de Tagaste vim para Cartago.
O tempo não descansa, nem rola ociosamente pelos sentidos: pois produz na alma efeitos admiráveis. O tempo vinha e passava, dia após dia. Vindo e passando, inspirava-me novas esperanças e novas recordações. Pouco a pouco, reconfortava-me nos antigos prazeres, a que ia cedendo a minha dor. Não se sucediam, é certo, novas dores, mas fontes de novas dores. Mas por que me penetrava tão facilmente e até ao íntimo aquela dor, senão porque derramei na areia a minha alma, amando um mortal como se ele não houvesse de morrer?
Havia nos meus outros amigos prazeres que me seduziam ainda o coração: conversar e rir, prestar obséquios com amabilidade uns aos outros, ler em comum livros deleitosos, gracejar, honrar-se mutuamente, discordar de tempos a tempos, sem ódio, como cada um consigo mesmo, e, por meio desta discórdia raríssima, afirmar a contínua harmonia, ensinar ou aprender reciprocamente qualquer coisa, ter saudades dos ausentes e receber com alegria os recém-vindos. Estes e semelhantes sinais, procedendo do coração dos que se amam e dos que pagam amor com amor, manifestam-se no rosto, na língua, nos olhos e em mil gestos cheios de prazer, como se fossem acendalhas; inflamam-se os corações e de muitos destes se vem a formar um só.”


“Entrega à Verdade tudo o que tens recebido da Verdade, e não só não perderás nada, mas ainda a tua podridão reflorescerá, as tuas fraquezas serão curadas, as tuas frouxidões serão reformadas, rejuvenescidas e estreitamente unidas a ti, sem te colocarem na ladeira por onde descem, mas ficando contigo e permanecendo junto do Deus sempre estável e eterno.
Por que é que tu, perversa, segues a tua concupiscência? Que ela te siga a ti, quando retrocederes. O que por ela sentes constitui partes, e tu ignoras o todo formado por essas partes que ainda te deleitam. Mas se a sensibilidade do teu corpo fosse apta para receber o todo — e se na parte do todo não tivesses recebido, para teu castigo, a justa limitação —, quererias que passasse o que presentemente existe, para que o conjunto mais te deleitasse. Ora, tu ouves pelos mesmos sentidos carnais o que pronunciamos, e certamente não queres que as sílabas parem, mas desejas que voem para outras lhes sucederem, para assim ouvires o conjunto. Do mesmo modo acontece com as partes que formam um todo sem que haja simultaneidade nas partes de que consta o todo. Deleita mais o todo uno, quando pode ser percebido, do que cada uma das partes. Mas quanto melhor que estas coisas é Aquele que as fez todas, o nosso Deus, que não passa porque nada Lhe sucede!”


“Se te agradam as almas, ama-as em Deus porque são também mudáveis, e só fixas n’Ele encontram estabilidade. Doutro modo passariam e morreriam. Ama-as portanto n’Ele, arrebata-Lhe contigo todas as que puderes e dize-lhes: “Amemo-Lo”. Ele, que não está longe¹, foi o criador destas coisas. Não as fez para depois as deixar, mas d’Ele vêm e n’Ele estão. Ele está onde se saboreia a Verdade. Está no íntimo do coração, mas o coração errou longe d’Ele.
“Voltai, ó pecadores, ao coração”², e ligai-vos Àquele que vos criou. Firmai-vos n’Ele e estareis firmes. Descansai n’Ele e descansareis. Para onde ides por caminhos escabrosos? Para onde ides? O bem que amais d’Ele procede. Mas só é bom e suave quando para Ele é dirigido. Pelo contrário, será justamente amargo, se se ama injustamente o que d’Ele provém, abandonando a Deus.
Por que andar de contínuo por caminhos difíceis e trabalhosos? Não há descanso onde o procurais. Procurais a vida feliz na região da morte: não está lá. Como encontrar vida feliz onde nem sequer vida existe?
Ele, a nossa vida, desceu até nós. Suportou a nossa morte e matou-a pela abundância da nossa vida. Com voz de trovão clamou que voltássemos para Ele, para o lugar escondido donde veio a nós, descendo primeiro ao seio da Virgem onde se desposou com Ele a natureza humana, a carne mortal, para não ficar eternamente mortal. E de lá, “como um esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante para percorrer o seu caminho”³. Não se deteve, mas correu clamando com palavras, com obras, com a própria morte, com a vida, com a descida (ao Limbo), com a Ascensão, clamando sempre que a Ele voltássemos.
Fugiu dos nossos olhos para que entremos no coração e aí O encontremos. Sim, separou-se de nós, com relutância, mas ei-Lo aqui. Não quis estar conosco muito tempo, mas não nos abandonou.”
1: At 17,27. / 2: Is 46, 8. / 3: Sl 18, 6.


“Vi claramente que todas as coisas que se corrompem são boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse.
De fato, a corrupção é nociva, e, se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica — o que não é aceitável — ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. Se existissem e já não pudessem ser alteradas, seriam melhores porque permaneciam incorruptíveis. Que maior monstruosidade do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder todo o bem?
Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem, são boas. Portanto, todas as coisas que existem são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e, nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper.”


“A luxúria provém da vontade perversa; enquanto se serve à luxúria, contrai-se o hábito; e, se não se resiste a um hábito, origina-se uma necessidade.”


“Quem sou? Como sou eu? Que malícia não houve nos meus atos; ou, se não a houve nos meus atos, nas minhas palavras; ou, se não a houve nas minhas palavras, na minha vontade!
Vós, porém, Senhor bom e misericordioso, olhastes para a profundeza da minha morte e, com a vossa direita, exauristes do fundo do meu coração o abismo de perversidade. E agora tudo era não querer aquilo que eu queria, e querer o que Vós queríeis.
Mas onde esteve durante tantos anos o meu livre arbítrio? De que profundo e misterioso abismo foi ele chamado num momento a fim de inclinar a minha cerviz ao vosso suave jugo e os meus ombros ao vosso fardo tão leve, ó Cristo Jesus, “minha ajuda e redenção¹”? Quão suave se me tornou de repente carecer de delícias fúteis! Receava perdê-las, e agora já sentia prazer em abandoná-las! Vós, a verdadeira e suprema Suavidade, as afastáveis de mim. Vós as afastáveis, e em vez delas entráveis Vós, mais doce que todo prazer — mas não para a carne e o sangue —, mais resplandecente que toda a luz, mas mais oculto que todo segredo, mais sublime que toda honra, mas não para aqueles que se exaltam em si mesmos.
Já o meu coração estava livre de torturantes cuidados, de ambição, de ganhos, e de se revolver e esfregar na sarna das paixões. Entretinha-me em conversa convosco, minha Claridade, minha Riqueza, minha Salvação, Senhor, meu Deus.”
1: Sl 18, 15.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Watchmen – Alan Moore e Dave Gibbons

Editora: Panini
ISBN: 978-85-7351-549-7
Tradução e adaptação: Jotapê Martins, Helcio de Carvalho, Fábio Fernandes
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 460
Sinopse: O ano é 1985. Os Estados Unidos são uma nação totalitária e fechada, isolada do resto do mundo. A presença de arsenais nucleares e dos chamados super-heróis mantém um certo equilíbrio entre as forças do planeta... até que o relógio do fim do mundo começa a marchar para a meia-noite e a raça humana para um abismo sem-fim.
A sombria e inigualável trama tem início com ilusões paranoicas do supostamente insano herói Rorschach, um dos Watchmen que patrulhavam os EUA décadas atrás. Mas ele estaria realmente insano ou na verdade teria descoberto uma sórdida conspiração para assassinar super-heróis – ou, pior ainda, milhões de civis inocentes? Fugindo da lei, Rorschach junta-se a ex-companheiros do passado em uma desesperada tentativa de salvar suas próprias vidas... e o que acabam descobrindo, além de abalar suas estruturas, poderá alterar o próprio destino do planeta Terra!
Seguindo duas gerações de heróis mascarados, desde a Segunda Guerra até os tensos anos da Guerra Fria, surge esta pioneira epopeia de ódio, amor, reencontros impossíveis, grandes reviravoltas e muita ação, como só a criatividade de Alan Moore e Dave Gibbons poderia conceber!
WATCHMEN foi considerada pela revista TIME uma das cem melhores obras em língua inglesa de todos os tempos.



“Esta manhã, no beco, havia um cão morto com marcas de pneu no ventre rasgado. A cidade tem medo de mim. Eu vi o rosto dela.
As ruas são sarjetas dilatadas e essas sarjetas estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos irão se afogar.
A imundice acumulada de todo o sexo e matanças que praticaram vai espumar até suas cinturas e todos os políticos e rameiras olharão para cima, gritando “salve-nos”... e, do alto, eu vou sussurrar: “não”.
Eles tiveram escolha. Todos eles. Podiam ter seguido os passos de homens honrados, como meu pai (...). Homens decentes, que acreditavam no suor do trabalho honesto.
Em vez disso, seguiram os excrementos de devassos sem perceber, até ser tarde demais, que a trilha levava a um precipício.
Não me digam que eles não tiveram opção.
Agora o mundo todo está na beira do abismo, contemplando os liberais, intelectuais e sedutores de fala macia, que ardem no inferno... e, de repente, ninguém mais sabe o que dizer.”


“Muita coisa maluca acontece numa cidade desse tamanho.
Nem todas precisam de motivo.”


“Sexta à noite, morreu um comediante na cidade.
Foi arremessado da janela e, quando atingiu a calçada, sua cabeça entrou no abdômen.
Ninguém liga.
Ninguém além de mim.
Será que é isso? Tudo inútil? Logo vai haver guerra. Milhões vão queimar. Milhões vão morrer na miséria e na doença. Por que uma morte pesa mais do que outras?
Porque existe o bem e existe o mal. O mal deve ser punido. Mesmo no Dia do Juízo Final isso não vai mudar.
Mas tem muitos merecendo pagar... e tão pouco tempo.”


“Moe Vernon era um homem com seus cinquenta e cinco anos e tinha um daqueles antigos rostos nova-iorquinos que não se veem mais. É engraçado, mas certos rostos parecem entrar e sair de moda. Quando olhamos fotos antigas, todo mundo tem uma determinada aparência, quase como se fossem parentes. Veja foto de dez anos mais tarde e você vai notar que há um novo tipo de rosto começando a predominar, e os antigos estão desaparecendo para nunca mais serem vistos.”


“Uma das coisas que meu avô sempre se esmerou em transmitir era que as pessoas do campo tinham mais saúde moral do que o povo da cidade grande e que as cidades não passavam de fossas sépticas para onde toda a desonestidade, ganância, luxúria e ateísmo do mundo escorriam e ficavam para apodrecer sem restrição. Obviamente, à medida em que fui envelhecendo e me dando conta exatamente de quanto alcoolismo, violência doméstica e abuso infantil se escondiam por trás da fachada tranquila de algumas fazendas isoladas de Montana, compreendi que os elogios de meu avô haviam sido um tanto quanto unilaterais. Não obstante, alguma das coisas que vi durante meus primeiros anos na cidade me causaram uma espécie de repulsa moral da qual não pude me desvencilhar. Sob certos aspectos, ainda não posso.
Os gigolôs, os pornógrafos, os criminosos que cobram proteção. Os senhorios que atiçam cães sobre inquilinos idosos quando os querem fora do caminho para negociar contratos mais lucrativos. Os homens que acariciam crianças pequenas e os jovens e insensíveis estupradores que mal têm idade para se barbear. Eu via todas essas pessoas ao meu redor e me sentia enojado do mundo e daquilo em que ele havia se transformado.
Quando o hiato entre a realidade e o mundo que meu avô me apresentou como justo e bom ficava grande e depressivo demais para suportar, eu me recolhia a minha grande paixão: as ficções e aventuras das revistas pulp. Embora meu avô, Hollis Mason Sênior, só pudesse expressar críticas e aversão a todas aquelas publicações extravagantes e violentas, havia uma espécie de moralidade prevalente nelas que, na certa, ele teria aprovado. O mundo de Doc Savage e do Sombra era caracterizado por valores absolutos, onde o que era bom jamais suscitava a menor das dúvidas e onde o que era mal inevitavelmente sofria algum castigo apropriado. A noção de bem e justiça advogada por Lamont Cranston, com seu chapéu inclinado e automáticas reluzentes, parecia muito distante da nutrida pelo austero e taciturno ancião que, nas minhas lembranças, estava sempre sozinho noite adentro em Montana acompanhado apenas de sua bíblia. Entretanto, não posso evitar a sensação de que se alguma vez se encontrassem, os dois certamente teriam sobre o que conversar. Da minha parte, todos aqueles detetives e heróis brilhantes e capacitados ofereciam o vislumbre de um mundo perfeito onde a moralidade funcionava do jeito que devia. Ninguém no mundo de Doc Savage jamais se suicidou a não ser os enlouquecidos assassinos kamikazes ou os espiões inimigos munidos de cápsulas de cianureto. Em que mundo você preferiria viver se pudesse escolher?”


“A idade dá uma perspectiva diferente. O que é grande parece menor.”


“Laurie, eu tenho 65 anos, a cada dia que passa o futuro parece mais sombrio, mas o passado, mesmo as piores partes... bom, ele vai ficando cada vez mais e mais brilhante.”


“– Você fala com amargura. Exibe uma postura estranha diante da vida e da guerra.
– Estranha? Olha aqui, quando cê sacar que tudo é uma piada, a única coisa que vai fazer sentido é o comediante.
– As vilas carbonizadas, as crianças usando colares de orelhas humanas... isso faz parte da piada?
– Ei! Quem disse que a piada é boa? Eu só danço conforme a música...”


“No cemitério, cruzes brancas se enfileiram como marcas de giz numa lousa gigante. Faço a última visita com tranquilidade.
Edward Morgan Blake. Nascido em 1924. Comediante por 45 anos. Falecido em 1985, enterrado na chuva.
É o que acontece conosco? Uma vida de conflito sem tempo pra amigos, pra no fim, só nossos inimigos deixarem rosas.
Vidas violentas terminando violentamente. Dollar Bill, Silhouette, Capitão Metrópole... Nós nunca morremos na cama. Não é permitido.
Algo na nossa personalidade, talvez? Algum impulso animal, para lutar e se debater, fazendo de nós o que somos? Não importa. Nós fazemos o que deve ser feito.
Outros enterram a cabeça entre as tetas inchadas da indulgência e da gratificação, leitões se contorcendo por abrigo debaixo de uma porca... mas não há abrigo...
E o futuro aparece correndo como um trem expresso.
Blake entendia. Tratava tudo como piada, mas entendia. Ele viu as rachaduras na sociedade, viu os homenzinhos mascarados tentando manter as coisas juntas... Ele viu a verdadeira face do século 20 e decidiu se tornar um reflexo, uma paródia desses tempos. Ninguém mais sacou a piada. Daí sua solidão.
Me contaram uma piada: Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto.
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animar você”.
O homem se desfaz em lágrimas. E diz “Mas doutor... Eu sou o Pagliacci”.”


“Eu leio tudo quanto é primeira página. Bebo informação. Não perco nadinha.”


“Crianças passam fome enquanto botas custando milhares de dólares deixam sua marca sobre a superfície da lua. Nós nos esforçamos tanto para erguer um paraíso, apenas para descobrir que ele se povoaria de horrores.”


“– Essa guerra é coisa séria, faz a gente pensar numa rota de fuga, sabe? O meu pai, quando a barra pesou na Alemanha dos anos trinta, ele se mandou.
– Na segunda guerra, tudo bem. Na terceira, vai se mandar pra onde?”


“Fiquei na rua assistindo (o assassino da criança) queimar. Imaginei torsos de feltro sem membros lá dentro; mamas se escurecendo; ventre fumegando; ardendo em chamas um à um. Assisti por uma hora. Ninguém saiu. Fiquei à luz das chamas, encharcado de suor. O sangue no peito como mapa de um novo e violento continente. Me senti limpo. Senti o planeta sombrio rodopiando e me dei conta do que faz os gatos gritarem, à noite, feito bebês. Olhei pro céu além da fumaça cheia de gordura humana e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante prossegue eternamente e a gente está sozinho. Levamos a vida sem nada melhor pra fazer. A razão, inventamos depois. Nascemos do nada, temos filhos condenados ao inferno como nós, voltamos ao nada. Só existe isso. A existência é aleatória. Sem padrão, a não ser o que imaginamos depois de ficar olhando por muito tempo. Sem sentido, a não ser o que decidimos dar. Não são forças metafísicas vagas que moldam este mundo. Não é Deus quem mata as crianças. Não é o destino que as trucida ou a sina que as dá de comer aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas fediam a fogo. O vazio soprou áspero no meu peito, gelando e esmigalhando minhas ilusões. Renasci, então. Livre pra traçar meu próprio destino neste mundo amoral. Como Rorschach. Isso responde suas perguntas, doutor?”


“– Minha percepção do tempo a incomoda?
– Pra que a pergunta? Você já sabe a resposta. É tão absurdo. Quando te larguei… e a new express fez as denúncias, você ficou surpreso. Por que… se já sabia o que ia acontecer?
– Tudo é predeterminado. Até minhas reações.
– E você só segue a partitura, executando as notas? É isso que você é? O ser mais poderoso do universo e não passa de uma marionete seguindo um script?
– Nós todos somos marionetes, Laurie. A diferença é que eu enxergo minhas cordas.”


P.S.: Watchmen é um romance gráfico.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Crítica da filosofia do direito de Hegel – Karl Marx

Editora: Boitempo
ISBN: 978-857-559-333-2
Tradução: Rubens Enderle e Leonardo de Deus
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 176
Sinopse: Publicado originalmente em 1843, a Crítica da filosofia do direito de Hegel é um divisor de águas na obra marxiana: marca a transição da chamada fase “juvenil” para a fase adulta e a consolidação dos pressupostos que irão orientar a produção do seu pensamento até sua maturidade. Ao investigar Hegel, Marx associaria definitivamente a compreensão das relações jurídicas na sociedade com as suas condições materiais; o pensar em função do ser e a alienação do povo; o “Estado real” em relação ao Estado moderno que o segrega e o burocratiza na qualidade de “sociedade civil”.
O autor também repensa o papel da teoria crítica, estabelecendo que esta não se completa apenas no campo teórico das filosofias da religião e da ciência, mas tem um indispensável campo prático na política. Se por um lado visava superar os fundamentos estabelecidos por Hegel para o Estado alemão, por outro visava, através da associação entre a reflexão e a prática, ir além do trabalho teórico de crítica da religião de Feuerbach, uma forte influência neste trabalho.
Marx provoca um salto sobre os debates da época em torno da obra de Hegel, para uma visão mais ampla dos fundamentos do direito na Alemanha, seu anacronismo que não permite concessões, suas relações com as classes sociais e com o estágio de desenvolvimento nacional. Uma defesa radical da verdadeira democracia, da máxima generalização do Estado, com a participação de cada cidadão para superar a divisão entre política e sociedade.
No seu próximo trabalho, nos Anais franco-alemães, Marx identificaria a origem da alienação na propriedade privada. Como escreve Enderle na apresentação: “A gênese da alienação política será detectada no seio da sociedade civil, nas relações materiais fundadas na propriedade privada. Consequentemente, não se tratará mais de buscar uma resolução política para além da esfera do Estado abstrato, mas sim uma resolução social para além da esfera abstrata da política.
Na Crítica, Marx encontrou seu objeto. Faltava desvendar sua “anatomia”.

§ 262. A Ideia real, o Espírito, que se divide ele mesmo nas duas esferas ideais de seu conceito, a família e a sociedade civil, como em sua finitude, para ser, a partir da idealidade delas, Espírito real e infinito para si, divide, por conseguinte, nessas esferas, a matéria dessa sua realidade, os indivíduos como a multidão, de maneira que, no singular, essa divisão aparece mediada pelas circunstâncias, pelo arbítrio e pela escolha própria de sua determinação.
Racionalmente, as sentenças de Hegel significam apenas que:
A família e a sociedade civil são partes do Estado. Nelas, a matéria do Estado é dividida “pelas circunstâncias, pelo arbítrio e pela escolha própria da determinação”. Os cidadãos do Estado são membros da família e membros da sociedade civil.
“A Ideia real, o Espírito, que se divide ele mesmo nas duas esferas ideais de seu conceito, a família e a sociedade civil, como em sua finitude” (portanto: a divisão do Estado em família e sociedade civil é ideal, isto é, necessária, pertence à essência do Estado; família e sociedade civil são partes reais do Estado, existências espirituais reais da vontade; elas são modos de existência do Estado; família e sociedade civil se fazem, a si mesmas, Estado. Elas são a força motriz. Segundo Hegel, ao contrário, elas são produzidas pela Ideia real. Não é seu próprio curso de vida que as une ao Estado, mas é o curso de vida da Ideia que as discerniu de si; e, com efeito, elas são a finitude dessa Ideia; elas devem a sua existência a um outro espírito que não é o delas próprio; elas são determinações postas por um terceiro, não autodeterminações; por isso, são também determinadas como “finitude”, como a finitude própria da “Ideia real”. A finalidade de sua existência não é essa existência mesma, mas a Ideia segrega de si esses pressupostos “para ser, a partir da idealidade delas, espírito real e infinito para si”, quer dizer, o Estado político não pode ser sem a base natural da família e a base artificial da sociedade civil; elas são, para ele, conditio sine qua non. Mas a condição torna-se o condicionado, o determinante torna-se o determinado, o produtor é posto como o produto de seu produto. A Ideia real só se degrada, rebaixa-se à “finitude” da família e da sociedade civil, para, por meio da suprassunção destas, produzir e gozar sua infinitude); ela divide, por conseguinte (para alcançar sua finalidade), nessas esferas, a matéria dessa sua realidade finita (dessa qual? Essas esferas são, de fato, a “sua realidade finita”, sua “matéria”?), os “indivíduos como a multidão” (“os indivíduos, a multidão” são aqui matéria do Estado, “deles provém o Estado”, essa sua procedência se expressa como um ato da Ideia, como uma “distribuição” que a Ideia leva a cabo com sua própria matéria. O fato é que o Estado se produz a partir da multidão, tal como ela existe na forma dos membros da família e dos membros da sociedade civil. A especulação enuncia esse fato como um ato da Ideia, não como a ideia da multidão, senão como o ato de uma ideia subjetiva e do próprio fato diferenciada), “de maneira que essa divisão, no singular (antes, o discurso era apenas o da divisão dos singulares nas esferas da família e da sociedade civil), pelas circunstâncias, pelo arbítrio etc. aparece mediada”. A realidade empírica é, portanto, tomada tal como é; ela é, também, enunciada como racional; porém, ela não é racional devido à sua própria razão, mas sim porque o fato empírico, em sua existência empírica, possui um outro significado diferente dele mesmo. O fato, saído da existência empírica, não é apreendido como tal, mas como resultado místico. O real torna-se fenômeno; porém, a Ideia não tem outro conteúdo a não ser esse fenômeno. Também não possui a Ideia outra finalidade a não ser a finalidade lógica: “ser espírito real para si infinito”. Nesse parágrafo, encontra-se resumido todo o mistério da filosofia do direito e da filosofia hegeliana em geral.”


“O importante é que Hegel, por toda parte, faz da Ideia o sujeito e do sujeito propriamente dito, assim como da “disposição política”, faz o predicado.”


“A democracia é a verdade da monarquia, a monarquia não é a verdade da democracia. A monarquia é necessariamente democracia como inconsequência contra si mesma, o momento monárquico não é uma inconsequência na democracia. Ao contrário da monarquia, a democracia pode ser explicada a partir de si mesma. Na democracia nenhum momento recebe uma significação diferente daquela que lhe cabe. Cada momento é, realmente, apenas momento do dêmos inteiro. Na monarquia, uma parte determina o caráter do todo. A constituição inteira tem de se modificar segundo um ponto fixo. A democracia é o gênero da constituição. A monarquia é uma espécie e, definitivamente, uma má espécie. A democracia é conteúdo e forma. A monarquia deve ser apenas forma, mas ela falsifica o conteúdo.
Na monarquia o todo, o povo, é subsumido a um de seus modos de existência, a constituição política; na democracia, a constituição mesma aparece somente como uma determinação e, de fato, como autodeterminação do povo. Na monarquia temos o povo da constituição; na democracia, a constituição do povo. A democracia é o enigma resolvido de todas as constituições. Aqui, a constituição não é somente em si, segundo a essência, mas segundo a existência, segundo a realidade, em seu fundamento real, o homem real, o povo real, e posta como a obra própria deste último. A constituição aparece como o que ela é, o produto livre do homem; poder-se-ia dizer que, em um certo sentido, isso vale também para a monarquia constitucional, mas a diferença específica da democracia é que, aqui, a constituição em geral é apenas um momento da existência do povo e que a constituição política não forma por si mesma o Estado.
Hegel parte do Estado e faz do homem o Estado subjetivado; a democracia parte do homem e faz do Estado o homem objetivado. Do mesmo modo que a religião não cria o homem, mas o homem cria a religião, assim também não é a constituição que cria o povo, mas o povo a constituição. A democracia, em um certo sentido, esta para as outras formas de Estado como o cristianismo para as outras religiões. O cristianismo é a religião χατεξοχην (preferencialmente), a essência da religião, o homem deificado como uma religião particular. A democracia é, assim, a essência de toda constituição política, o homem socializado como uma constituição particular; ela se relaciona com as demais constituições como o gênero com suas espécies, mas o próprio gênero aparece, aqui, como existência e, com isso, como uma espécie particular em face das existências que não contradizem a essência. A democracia relaciona-se com todas as outras formas de Estado como com seu velho testamento. O homem não existe em razão da lei, mas a lei existe em razão do homem, é a existência humana, enquanto nas outras formas de Estado o homem é a existência legal. Tal é a diferença fundamental da democracia.
Todas as demais formas estatais são uma forma de Estado precisa, determinada, particular. Na democracia, o princípio formal é, ao mesmo tempo, o princípio material. Por isso ela é, primeiramente, a verdadeira unidade do universal e do particular. Na monarquia, por exemplo, na república como uma forma de Estado particular, o homem político tem sua existência particular ao lado do homem não político, do homem privado. A propriedade, o contrato, o matrimônio, a sociedade civil aparecem, aqui (Hegel desenvolve de modo bastante correto estas formas abstratas de Estado, mas ele crê desenvolver a ideia de Estado), como modos de existência particulares ao lado do Estado político, como o conteúdo com o qual o Estado político se relaciona como forma organizadora, como entendimento que determina, limita, ora afirma, ora nega, sem ter em si mesmo nenhum conteúdo. Na democracia, o Estado político na medida em que ele se encontra ao lado desse conteúdo e dele se diferencia, é ele mesmo um conteúdo particular, como uma forma de existência particular do povo. Na monarquia, por exemplo, este fato particular, a constituição política, tem a significação do universal que domina e determina todo o particular. Na democracia o Estado, como particular, é apenas particular, como universal é o universal real, ou seja, não é uma determinidade em contraste com os outros conteúdos. Os franceses modernos concluíram, daí, que na verdadeira democracia o Estado político desaparece. O que está correto, considerando-se que o Estado político, como constituição, deixa de valer pelo todo.
Em todos os Estados que diferem da democracia o que domina é o Estado, a lei, a constituição, sem que ele domine realmente, quer dizer, sem que ele penetre materialmente o conteúdo das restantes esferas não políticas. Na democracia, a constituição, a lei, o próprio Estado é apenas uma autodeter minação e um conteúdo particular do povo, na medida em que esse conteúdo é constituição política.
Ademais, é evidente que todas as formas de Estado têm como sua verdade a democracia e, por isso, não são verdadeiras se não são a democracia.
Nos Estados antigos o Estado político constituiu o conteúdo estatal por exclusão das outras esferas; o Estado moderno é um compromisso entre o Estado político e o não político.
Na democracia o Estado abstrato deixou de ser o momento preponderante. A luta entre monarquia e república é, ela mesma, ainda, uma luta no interior do Estado abstrato. A república política é a democracia no interior da forma de Estado abstrata. A forma de Estado abstrata da democracia é, por isso, a república; porém, aqui, ela deixa de ser a constituição simplesmente política.
A propriedade etc., em suma, todo o conteúdo do direito e do Estado é, com poucas modificações, o mesmo na América do Norte assim como na Prússia. Lá, a república é, portanto, uma simples forma de Estado, como o é aqui a monarquia. O conteúdo do Estado se encontra fora dessas constituições. Por isso Hegel tem razão, quando diz: O Estado político é a constituição; quer dizer, o Estado material não é político. Tem-se, aqui, apenas uma identidade exterior, uma determinação recíproca. Dentre os diversos momentos da vida do povo, foi o Estado político, a constituição, o mais difícil de ser engendrado. A constituição se desenvolveu como a razão universal contraposta às outras esferas, como algo além delas. A tarefa histórica consistiu, assim, em sua reivindicação, mas as esferas particulares não têm a consciência de que seu ser privado coincide com o ser transcendente da constituição ou do Estado político e de que a existência transcendente do Estado não é outra coisa senão a afirmação de sua própria alienação. A constituição política foi reduzida à esfera religiosa, à religião da vida do povo, o céu de sua universalidade em contraposição à existência terrena de sua realidade. A esfera política foi a única esfera estatal no Estado, a única esfera na qual o conteúdo, assim como a forma, foi o conteúdo genérico, o verdadeiro universal, mas ao mesmo tempo de modo que, como esta esfera se contrapôs às demais, também seu conteúdo se tornou formal e particular. A vida política, em sentido moderno, é o escolasticismo da vida do povo. A monarquia é a expressão acabada dessa alienação. A república é a negação da alienação no interior de sua própria esfera. Entende-se que a constituição como tal só é desenvolvida onde as esferas privadas atingiram uma existência independente. Onde o comércio e a propriedade fundiária ainda não são livres nem independentes, também não o é a constituição política. A Idade Média foi a democracia da não liberdade.
A abstração do Estado como tal pertence somente aos tempos modernos porque a abstração da vida privada pertence somente aos tempos modernos. A abstração do Estado político é um produto moderno.
Na Idade Média havia servos, propriedade feudal, corporações de ofício, corporações de sábios, etc.; ou seja, na Idade Média a propriedade, o comércio, a sociedade, o homem são políticos; o conteúdo material do Estado é colocado por intermédio de sua forma; cada esfera privada tem um caráter político ou é uma esfera política; ou a política é, também, o caráter das esferas privadas. Na Idade Média, a constituição política é a constituição da propriedade privada, mas somente porque a constituição da propriedade privada é a constituição política. Na Idade Média, a vida do povo e a vida política são idênticas. O homem é o princípio real do Estado, mas o homem não livre. É, portanto, a democracia da não-liberdade, da alienação realizada. A oposição abstrata e refletida pertence somente ao mundo moderno. A Idade Média é o dualismo real, a modernidade é o dualismo abstrato.”


“O momento objetivo para a sua destinação àquelas tarefas (a saber, as tarefas do Estado) é o conhecimento (o arbítrio subjetivo carece deste momento) e a demonstração de sua aptidão – demonstração que assegura ao Estado aquilo de que ele necessita e, como única condição, assegura simultaneamente, a cada cidadão, a possibilidade de se dedicar ao estamento universal.
Essa possibilidade de cada cidadão se tornar servidor público é, portanto, a segunda relação afirmativa entre sociedade civil e Estado, a segunda identidade. Ela é de natureza muito superficial e dualística. Todo católico tem a possibilidade de se tornar padre (isto é, de separar-se dos leigos, do mundo). Com isso, o clero, como potência externa, opõe-se menos ao católico? Que cada um tenha a possibilidade de adquirir o direito de uma outra esfera, demonstra apenas que sua própria esfera não é a realidade desse direito.”


“Não se deve condenar Hegel porque ele descreve a essência do Estado moderno como ela é, mas porque ele toma aquilo que é pela essência do Estado. Que o racional é real, isso se revela precisamente em contradição com a realidade irracional, que, por toda parte, é o contrário do que afirma ser e afirma ser o contrário do que é.”


“O mais profundo em Hegel é que ele percebe a separação da sociedade civil e da sociedade política como uma contradição. Mas o que há de falso é que ele se contenta com a aparência dessa solução e a faz passar pela coisa mesma, enquanto as “tais teorias”, por ele desprezadas, exigem a “separação” entre estamentos sociais e políticos, e com razão, pois elas exprimem uma consequência da sociedade moderna: nesta, o elemento político-estamental não é, precisamente, outra coisa senão a expressão fática da relação real de Estado e sociedade civil, a sua separação.”


“A constituição estamental, quando não é uma tradição da Idade Média, é a tentativa de lançar, em parte, o homem, dentro da própria esfera política, na limitação de sua esfera privada; de fazer da sua particularidade a sua cons ciência substancial e, como a distinção estamental existe politicamente, de também fazê-la novamente uma distinção social.
O homem real é o homem privado da atual constituição do Estado.
O estamento tem, geralmente, o significado de que a distinção, a separação, é a existência do indivíduo. O modo de vida, atividade etc. deste último, em lugar de fazer dele um membro, uma função da sociedade, faz dele uma exceção da sociedade, é o seu privilégio. Que essa distinção não seja apenas uma distinção individual, mas se concretize como comunidade, estamento, corporação, isso não apenas não suprime a sua natureza exclusiva, como é, antes, somente sua expressão. Em vez de ser função da sociedade, a função individual se converte em uma sociedade para si.
O estamento não só se baseia, como lei geral, na separação da sociedade, como também separa o homem de seu ser universal, faz dele um animal que coincide imediatamente com sua determinidade. A Idade Média é a história animal da humanidade, sua zoologia.
A era moderna, a civilização, comete o erro inverso. Ela separa do homem o seu ser objetivo, como um ser apenas exterior, material. Ela não toma o conteúdo do homem como sua verdadeira realidade.”


“Hegel, que tudo inverte, faz do poder governamental o representante, a emanação do príncipe. Porque, na Ideia, cuja existência tem de ser o príncipe, Hegel vê não a ideia real do poder governamental, não o poder governamental na sua idealidade, mas sim o sujeito que é a Ideia absoluta, que existe corporeamente no príncipe; então o poder governamental se torna um prolongamento místico da alma existente em seu corpo – no corpo do príncipe.
O príncipe deveria, por conseguinte, fazer-se, no poder legislativo, de termo médio entre o poder governamental e o elemento estamental; porém, o poder governamental é justamente o termo médio entre ele e a sociedade estamental, e esta é o termo médio entre ele e a sociedade civil! Como deveria ele mediar aqueles de quem ele tem necessidade, como seu termo médio, para não ser um extremo unilateral?
Aqui se evidencia todo o absurdo desses extremos, que desempenham alternadamente ora o papel de extremos, ora o de termo médio. São cabeças de Jano, que ora se mostram de frente, ora de costas, e que de frente têm um caráter diverso do de costas. Aquilo que se determina primeiramente como termo médio entre dois extremos comporta-se, então, ele mesmo, como extremo, e um dos dois extremos, que através daquele era mediado com o outro, mostra-se, agora, como extremo (porque em sua distinção com o outro extremo) entre o seu extremo e o seu termo médio. É uma complementação recíproca. Tal como um homem que se encontra entre dois litigantes e, então, um destes, por sua vez, coloca-se entre o intermediário e o outro litigante. É a história do homem e da mulher que brigavam e do médico que queria servir de conciliador entre eles, com o que, então, a mulher devia se colocar entre o médico e o marido e, este, entre a mulher e o médico. Tal como o leão no Sonho de uma noite de verão, que exclama: “Eu sou um leão e não sou um leão, eu sou Marmelo”. Assim, cada extremo é, aqui, ora o leão da oposição, ora o Marmelo da mediação. Quando um extremo grita: “agora eu sou o meio”, os outros dois não podem tocar nele, mas apenas golpear aquele que, antes, era o extremo. Trata-se de uma sociedade belicosa em seu âmago, mas que tem muito medo das manchas roxas para se bater realmente, e os dois, que querem brigar, se ajustam de tal modo que o terceiro, que se encontra entre eles, deva receber as pancadas; mas, então, um dos dois apresenta-se novamente como o terceiro, e, diante de tamanha precaução, eles não chegam a qualquer decisão. Esse sistema também é feito de tal forma que o mesmo homem que quer espancar seu oponente deve, por outro lado, protegê-lo das pancadas do outro oponente, e, nessa dupla ocupação, não atinge a realização de sua tarefa. É notável que Hegel, que reduz esse absurdo da mediação à sua expressão abstrata, lógica, por isso não falseada, intransigível, o designe, ao mesmo tempo, como o mistério especulativo da lógica, como a relação racional, como o silogismo racional. Extremos reais não podem ser mediados um pelo outro, precisamente porque são extremos reais. Mas eles não precisam, também, de qualquer mediação, pois eles são seres opostos. Não têm nada em comum entre si, não demandam um ao outro, não se completam. Um não tem em seu seio a nostalgia, a necessidade, a antecipação do outro. (Mas quando Hegel trata a universalidade e a singularidade, os momentos abstratos do silogismo, como opostos reais, é esse precisamente o dualismo fundamental da sua lógica. O resto sobre isso pertence à crítica da lógica hegeliana.)”


“A falsa identidade, a identidade fragmentária, parcial, entre natureza e espírito, corpo e alma, aparece como encarnação. Como o nascimento só dá ao homem a existência individual e o põe, em primeiro lugar, apenas como indivíduo natural e, todavia, já que as determinações do Estado, como o poder legislativo, etc. são produtos sociais, nascidos da sociedade e não do indivíduo natural, então o chocante, o milagre é precisamente a identidade imediata, a coincidência imediata entre o nascimento individual e o indivíduo como individuação de uma determinada posição e função sociais, etc. Nesse sistema, a natureza faz, imediatamente, reis, ela faz, imediatamente, pares, etc., assim como faz olhos e narizes. O chocante é ver como produto imediato do gênero físico o que é somente produto do gênero autoconsciente. Eu sou humano por nascimento, sem o consentimento da sociedade; mas é apenas por meio do consentimento geral que esse nascimento determinado se torna nascimento de um par ou de um rei. Somente o consentimento faz do nascimento dessa pessoa o nascimento de um rei; assim, é o consenso e não o nascimento que faz o rei. Se é o nascimento, diferentemente das outras determinações, que dá imediatamente ao homem uma posição, então é seu corpo que faz dele este funcionário social determinado. Seu corpo é seu direito social. Nesse sistema, a dignidade corporal do homem ou a dignidade do corpo humano (o que pode, em pormenor, ser assim concebido: a dignidade do elemento natural, físico, do Estado) aparece de modo que as dignidades determinadas e, em verdade, as mais altas dignidades sociais, são as dignidades de corpos determinados, predestinados por nascimento. Por isso, é natural, na nobreza, o orgulho do sangue, da ascendência, em suma, da biografia de seu corpo; e é naturalmente essa concepção zoológica que tem na heráldica a sua ciência correspondente. O segredo da nobreza é a zoologia.”


“Na Alemanha, a crítica da religião esta, no essencial, terminada; e a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica.
O homem, que na realidade fantástica do céu, onde procurava um super-homem, encontrou apenas o reflexo de si mesmo, já não será tentado a encontrar apenas a aparência de si, o inumano, lá onde procura e tem de procurar sua autêntica realidade.
Este é o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o autossentimento do homem, que ou ainda não conquistou a si mesmo ou já se perdeu novamente. Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido.
A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo.
A supressão da religião como felicidade ilusória do povo é a exigência da sua felicidade real. A exigência de que abandonem as ilusões acerca de uma condição é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe, a crítica do vale de lágrimas, cuja auréola é a religião.
A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem suporte grilhões desprovidos de fantasias ou consolo, mas para que se desvencilhe deles e a flor viva desabroche. A crítica da religião desengana o homem a fim de que ele pense, aja, configure a sua realidade como um homem desenganado, que chegou à razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo, em torno de seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não gira em torno de si mesmo.
Portanto, a tarefa da história, depois de desaparecido o além da verdade, é estabelecer a verdade do aquém. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é, depois de desmascarada a forma sagrada da autoalienação humana, desmascarar a autoalienação nas suas formas não sagradas. A crítica do céu transforma-se, assim, na crítica da terra, a crítica da religião, na crítica do direito, a crítica da teologia, na crítica da política.”


“O moderno ancien régime alemão é apenas o comediante de uma ordem mundial cujos heróis reais estão mortos. A história é sólida e passa por muitas fases ao conduzir uma forma antiga ao sepulcro. A última fase de uma forma histórico-mundial é sua comédia. Os deuses da Grécia, já mortalmente feridos na tragédia Prometeu acorrentado, de Ésquilo, tiveram de morrer uma vez mais, comicamente, nos diálogos de Luciano. Por que a história assume tal curso? A fim de que a humanidade se separe alegremente do seu passado.”


“A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas. A teoria é capaz de se apoderar das massas tão logo demonstra ad hominem, e demonstra ad hominem tão logo se torna radical. Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã, portanto, de sua energia prática, é o fato de ela partir da superação positiva da religião. A crítica da religião tem seu fim com a doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem, portanto, com o imperativo categórico de subverter todas as relações em que o homem é um ser humilhado, escravizado, abandonado, desprezível. Relações que não podem ser mais bem retratadas do que pela exclamação de um francês acerca de um projeto de imposto sobre cães: “Pobres cães! Querem vos tratar como homens!”.”


“Sem dúvida, Lutero venceu a servidão por devoção porque pôs no seu lugar a servidão por convicção. Quebrou a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Transformou os padres em leigos, transformando os leigos em padres. Libertou o homem da religiosidade exterior, fazendo da religiosidade o homem interior. Libertou o corpo dos grilhões, prendendo com grilhões o coração.”


“A teoria só é efetivada num povo na medida em que é a efetivação de suas necessidades.”


“O sonho utópico da Alemanha não é a revolução radical, a emancipação humana universal, mas a revolução parcial, meramente política, a revolução que deixa de pé os pilares do edifício. Em que se baseia uma revolução parcial, meramente política? No fato de que uma parte da sociedade civil se emancipa e alcança o domínio universal; que uma determinada classe, a partir da sua situação particular, realiza a emancipação universal da sociedade. Tal classe liberta a sociedade inteira, mas apenas sob o pressuposto de que toda a sociedade se encontre na situação de sua classe, portanto, por exemplo, de que ela possua ou possa facilmente adquirir dinheiro e cultura.
Nenhuma classe da sociedade civil pode desempenhar esse papel sem despertar, em si e nas massas, um momento de entusiasmo em que ela se confraternize e misture com a sociedade em geral, confunda-se com ela, seja sentida e reconhecida como sua representante universal; um momento em que suas exigências e direitos sejam, na verdade, exigências e direitos da sociedade, em que ela seja efetivamente o cérebro e o coração sociais. Só em nome dos interesses universais da sociedade é que uma classe particular pode reivindicar o domínio universal. Para alcançar essa posição emancipatória e, com isso, a exploração política de todas as esferas da sociedade no interesse de sua própria esfera, não bastam energia revolucionária e autossentimento espiritual. Para que a revolução de um povo e a emancipação de uma classe particular da sociedade civil coincidam, para que um estamento se afirme como um estamento de toda a sociedade, é necessário que, inversamente, todos os defeitos da sociedade sejam concentrados numa outra classe, que um determinado estamento seja o do escândalo universal, a incorporação das barreiras universais; é necessário que uma esfera social particular se afirme como o crime notório de toda a sociedade, de modo que a libertação dessa esfera apareça como uma autolibertação universal. Para que um estamento seja par excellence o estamento da libertação é necessário, inversamente, que um outro estamento seja o estamento inequívoco da opressão. O significado negativo-universal da nobreza e do clero francês condicionou o significado positivo-universal da classe burguesa, que se situava imediatamente ao lado deles e os confrontava.
Na Alemanha, porém, faltam a todas as classes particulares não apenas a consistência, a penetração, a coragem e a intransigência que delas fariam o representante negativo da sociedade. A todos os estamentos faltam, ainda, aquela grandeza de alma que, mesmo que por um momento apenas, identifica-se com a alma popular, aquela genialidade que anima a força material a tornar-se poder político, aquela audácia revolucionária que lança ao adversário a frase desafiadora: não sou nada e teria de ser tudo. A cepa principal da moralidade e da honradez alemãs, não apenas das classes como dos indivíduos, é formada por aquele modesto egoísmo que afirma sua estreiteza e deixa que ela seja afirmada contra si mesmo. A relação entre as diferentes esferas da sociedade alemã não é, portanto, dramática, mas épica. Cada uma delas começa a conhecer a si mesma e a se estabelecer ao lado das outras com suas reivindicações particulares, não a partir do momento em que é oprimida, mas desde o momento em que as condições da época, sem qualquer ação de sua parte, criam um novo substrato social que ela pode, por sua vez, oprimir. Até mesmo o autossentimento moral da classe média alemã assenta apenas sobre a consciência de ser o representante universal da mediocridade filistina de todas as outras classes. Por conseguinte, não são apenas os reis alemães que sobem ao trono inoportunamente; cada esfera da sociedade civil sofre uma derrota antes de alcançar sua vitória, cria suas próprias barreiras antes de ter superado as barreiras que ante ela se erguem, manifesta sua essência mesquinha antes que sua essência generosa tenha conseguido se manifestar e, assim, a oportunidade de desempenhar um papel importante desaparece antes mesmo de ter existido, de modo que cada classe, tão logo inicia a luta contra a classe que lhe é superior, enreda-se numa luta contra a classe inferior. Por isso, o principado entra em luta contra a realeza, o burocrata contra o nobre, o burguês contra todos eles, enquanto o proletário já começa a entrar em luta contra os burgueses. A classe média dificilmente ousa conceber a ideia da emancipação a partir de seu próprio ponto de vista, e o desenvolvimento das condições sociais, assim como o progresso da teoria política, já declaram esse ponto de vista como antiquado ou, no mínimo, problemático.”


“Onde se encontra, então, a possibilidade positiva de emancipação alemã? Eis a nossa resposta: na formação de uma classe com grilhões radicais, de uma classe da sociedade civil que não seja uma classe da sociedade civil, de um estamento que seja a dissolução de todos os estamentos, de uma esfera que possua um caráter universal mediante seus sofrimentos universais e que não reivindique nenhum direito particular porque contra ela não se comete uma injustiça particular, mas a injustiça por excelência, que já não possa exigir um título histórico, mas apenas o título humano, que não se encontre numa oposição unilateral às consequências, mas numa oposição abrangente aos pressupostos do sistema político alemão; uma esfera, por fim, que não pode se emancipar sem se emancipar de todas as outras esferas da sociedade e, com isso, sem emancipar todas essas esferas – uma esfera que é, numa palavra, a perda total da humanidade e que, portanto, só pode ganhar a si mesma por um reganho total do homem. Tal dissolução da sociedade, como um estamento particular, é o proletariado.”
O que constitui o proletariado não é a pobreza naturalmente existente, mas a pobreza produzida artificialmente, não a massa humana mecanicamente oprimida pelo peso da sociedade, mas a massa que provém da dissolução aguda da sociedade e, acima de tudo, da dissolução da classe média.
Quando o proletariado anuncia a dissolução da ordem mundial até então existente, ele apenas revela o mistério de sua própria existência, uma vez que ele é a dissolução fática dessa ordem mundial. Quando o proletariado exige a negação da propriedade privada, ele apenas eleva a princípio da sociedade o que a sociedade elevara a princípio do proletariado, aquilo que nele já está involuntariamente incorporado como resultado negativo da sociedade. Assim, o proletário possui em relação ao mundo que está a surgir o mesmo direito que o rei alemão possui em relação ao mundo já existente, quando este chama o povo de seu povo ou o cavalo de seu cavalo. Declarando o povo como sua propriedade privada, o rei expressa, tão somente, que o proprietário privado é rei.
Assim como a filosofia encontra suas armas materiais no proletariado, o proletariado encontra na filosofia suas armas espirituais, e tão logo o relâmpago do pensamento tenha penetrado profundamente nesse ingênuo solo do povo, a emancipação dos alemães em homens se completará.”