sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Era das Revoluções (1789-1848) (Parte I), de Eric J. Hobsbawm

Editora: Paz e Terra

ISBN: 978-85-7753-099-1

Tradução: Marcos Penchel e Maria L. Teixeira

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 534

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Sinopse: Nesta obra, Eric Hobsbawm discorre acerca de duas revoluções: a Francesa e a Industrial (inglesa). Contemporâneas, causaram importantes modificações na sociedade europeia do fim do século 18 a meados do 19. Aborda também as transformações ocorridas em grande parte do mundo a partir de uma “base europeia” ou “franco-britânica”.

Dividida em duas partes, sua narrativa é instigante. Na primeira, trata dos principais desenvolvimentos históricos do período em questão. Na segunda, esboça o tipo de sociedade produzida pelas “revoluções”. O livro fala sobre o surgimento de termos utilizados até hoje como industrial, classe média, nacionalismo, cientista, utilitário.

As ilustrações mostram como era a cultura cotidiana do período: transporte, vestimenta, armas, alimentação, trabalho, arquitetura, personagens famosos da época etc.


 

“Economicamente, entretanto, a sociedade rural ocidental era muito diferente. O camponês típico tinha perdido muito da sua condição de servo no final da Idade Média, embora ainda frequentemente guardasse muitas marcas amargas da dependência legal. A propriedade típica já de há muito deixara de ser uma unidade de iniciativa econômica e tinha-se tornado um sistema de cobrança de aluguéis e de outros rendimentos monetários. O camponês mais ou menos livre, grande, médio ou pequeno, era o lavrador típico. Se de alguma forma arrendatário, pagava aluguel ao senhor das terras (ou, em algumas áreas, uma quota da safra). Caso fosse tecnicamente um livre proprietário, provavelmente ainda devia ao senhor local uma série de obrigações que podiam ou não ser convertidas em dinheiro (como por exemplo, a obrigação de enviar seu trigo para o moinho do senhor), assim como devia impostos ao príncipe, dízimos à Igreja, e algumas obrigações de trabalho forçado, todas elas em contraste com a isenção relativa das camadas sociais mais altas. Mas se estes vínculos políticos fossem retirados, uma enorme parte da Europa surgiria como uma área de agricultura camponesa; uma área na qual, geralmente, uma minoria de camponeses abastados tendesse a se tornar de fazendeiros comerciais, vendendo ao mercado urbano um excedente permanente da safra, e uma maioria de pequenos e médios camponeses vivesse de suas propriedades mais ou menos de forma autossuficiente, a menos que elas fossem tão pequenas que os obrigassem a trabalhar parte do tempo na agricultura ou na manufatura, em troca de salários.”

 

 

“A alimentação da Europa era essencialmente regional. Os produtos de outros climas eram ainda raridades próximas do luxo, exceto talvez o açúcar, o mais importante alimento importado dos trópicos e cuja doçura provocou mais amargura humana do que qualquer outro.”

 

 

“Pois, de fato, o “iluminismo”, a convicção no progresso do conhecimento humano, na racionalidade, na riqueza e no controle sobre a natureza – de que estava profundamente imbuído o século XVIII – derivou sua força primordialmente do evidente progresso da produção, do comércio e da racionalidade econômica e científica que se acreditava estar associada a ambos. E seus maiores campeões eram as classes economicamente mais progressistas, as que mais diretamente se envolviam nos avanços tangíveis da época: os círculos mercantis e os financistas e proprietários economicamente iluminados, os administradores sociais e econômicos de espírito científico, a classe média instruída, os fabricantes e os empresários. (...)

Estes homens se organizavam por toda parte em lojas de franco-maçonaria, onde as distinções de classe não importavam e a ideologia do iluminismo era propagada com um desinteressado denodo.

É significativo que os dois principais centros dessa ideologia fossem também os da dupla revolução, a França e a Inglaterra; embora de fato as ideias iluministas ganhassem uma voz corrente internacional mais ampla em suas formulações francesas (até mesmo quando fossem simplesmente versões galicistas de formulações britânicas). Um individualismo secular, racionalista e progressista dominava o pensamento “esclarecido”. Libertar o indivíduo das algemas que o agrilhoavam era o seu principal objetivo: do tradicionalismo ignorante da Idade Média, que ainda lançava sua sombra pelo mundo, da superstição das igrejas (distintas da religião “racional” ou “natural”), da irracionalidade que dividia os homens em uma hierarquia de patentes mais baixas e mais altas de acordo com o nascimento ou algum outro critério irrelevante. A liberdade, a igualdade e, em seguida, a fraternidade de todos os homens eram seus slogans. No devido tempo se tornaram os slogans da Revolução Francesa.

O reinado da liberdade individual não poderia deixar de ter as consequências mais benéficas. Os mais extraordinários resultados podiam ser esperados – podiam de fato já ser observados como provenientes – de um exercício irrestrito do talento individual num mundo de razão. A apaixonada crença no progresso que professava o típico pensador do iluminismo refletia os aumentos visíveis no conhecimento e na técnica, na riqueza, no bem-estar e na civilização que podia ver em toda a sua volta e que, com certa justiça, atribuía ao avanço crescente de suas ideias. No começo do século XVIII, as bruxas ainda eram queimadas; no final, os governos do iluminismo, como o austríaco, já tinham abolido não só a tortura judicial mas também a escravidão. O que não se poderia esperar se os remanescentes obstáculos ao progresso, tais como os interesses estabelecidos do feudalismo e da Igreja, fossem eliminados?

Não é propriamente correto chamarmos o “iluminismo” de uma ideologia da classe média, embora houvesse muitos iluministas – e foram eles os politicamente decisivos – que assumiram como verdadeira a proposição de que a sociedade livre seria uma sociedade capitalista. Em teoria seu objetivo era libertar todos os seres humanos. Todas as ideologias humanistas, racionalistas e progressistas estão implícitas nele, e de fato surgiram dele. Embora na prática os líderes da emancipação exigida pelo iluminismo fossem provavelmente membros dos escalões médios da sociedade, embora os novos homens racionais o fossem por habilidade e mérito e não por nascimento, e embora a ordem social que surgiria de suas atividades tenha sido uma ordem capitalista e “burguesa”.

É mais correto chamarmos o “iluminismo” de ideologia revolucionária, apesar da cautela e moderação política de muitos de seus expoentes continentais, a maioria dos quais – até a década de 1780 – depositava sua fé no despotismo esclarecido. Pois o iluminismo implicava a abolição da ordem política e social vigente na maior parte da Europa. Era demais esperar que os anciensrégimes se abolissem voluntariamente. Ao contrário, como vimos, em alguns aspectos eles estavam se fortalecendo contra o avanço das novas forças econômicas e sociais. E suas fortalezas (fora da Grã-Bretanha, as Províncias Unidas e alguns outros lugares onde já tinham sido derrotados) eram as próprias monarquias em que os iluministas moderados depositavam sua fé.”

 

 

“O que significa a frase “a revolução industrial explodiu”? Significa que a certa altura da década de 1780, e pela primeira vez na história da humanidade, foram retirados os grilhões do poder produtivo das sociedades humanas, que daí em diante se tornaram capazes da multiplicação rápida, constante, e até o presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços.”

 

 

“Sob qualquer aspecto, a revolução industrial foi provavelmente o mais importante acontecimento na história do mundo, pelo menos desde a invenção da agricultura e das cidades.”

 

 

“A perspectiva tradicional que viu a história da revolução industrial britânica primordialmente em termos de algodão é correta. A primeira indústria a se revolucionar foi a do algodão, e é difícil perceber que outra indústria poderia ter empurrado um grande número de empresários particulares rumo à revolução. Até a década de 1830, o algodão era a única indústria britânica em que predominava a fábrica ou o “engenho” (o nome derivou-se do mais difundido estabelecimento pré-industrial a empregar pesada maquinaria a motor); a princípio (1780-1815), principalmente na fiação, na cardação e em algumas operações auxiliares, depois (de 1815) também cada vez mais na tecelagem. As “fábricas” de que tratavam os novos Decretos Fabris eram, até a década de 1860, entendidas exclusivamente em termos de fábricas têxteis e predominantemente em termos de engenhos algodoeiros. A produção fabril em outros ramos têxteis teve desenvolvimento lento antes da década de 1840, e em outras manufaturas seu desenvolvimento foi desprezível. Nem mesmo a máquina a vapor, embora aplicada a numerosas outras indústrias por volta de 1815, era usada fora da mineração, que a tinha empregado pioneiramente. Em 1830, a “indústria” e a “fábrica” no sentido moderno ainda significavam quase que exclusivamente as áreas algodoeiras do Reino Unido.

Com isto não se pretende subestimar as forças que introduziram a inovação industrial em outras mercadorias de consumo, notadamente outros produtos têxteis, alimentos e bebidas, cerâmica e outros produtos de uso doméstico, grandemente estimuladas pelo rápido crescimento das cidades. Mas, para começar, estas indústrias empregavam muito menos pessoal: nenhuma se aproximava sequer remotamente do milhão e meio de pessoas empregadas diretamente na indústria algodoeira ou dela dependentes em 1833. Em segundo lugar, seu poder de transformação era muito menor: a cervejaria, que era em muitos aspectos um negócio técnica e cientificamente muito mais avançado e mecanizado, e que se revolucionou muito antes da indústria algodoeira, pouco afetou a economia à sua volta, como pode ser provado pela grande cervejaria Guinness em Dublin, que deixou o resto de Dublin e da economia irlandesa (embora não o paladar local) idênticos ao que eram antes de sua construção. As exigências que se derivaram do algodão – mais construções e todas as atividades nas novas áreas industriais, máquinas, inovações químicas, eletrificação industrial, uma frota mercante e uma série de outras atividades – foram bastantes para que se credite a elas uma grande proporção do crescimento econômico da Grã-Bretanha até a década de 1830. Em terceiro lugar, a expansão da indústria algodoeira foi tão vasta e seu peso no comércio exterior da Grã-Bretanha tão grande que dominou os movimentos de toda a economia. A quantidade de algodão em bruto importada pela Grã-Bretanha subiu de 11 milhões de libras-peso em 1785 para 588 milhões em 1850; a produção de tecidos, de 40 milhões para 2,025 bilhões de jardas.

Os produtos de algodão constituíam entre 40 e 50% do valor anual declarado de todas as exportações britânicas entre 1816 e 1848. Se o algodão florescia, a economia florescia, se ele caía, também caía a economia. Suas oscilações de preço determinavam a balança do comércio nacional. Só a agricultura tinha um poder comparável, e, no entanto, estava em visível declínio.”

 

 

“Brevemente as nações esclarecidas colocarão em julgamento aqueles que têm até aqui governado os seus destinos. Os reis fugirão para os desertos, para a companhia dos animais selvagens que a eles se assemelham; e a Natureza recuperará os seus direitos.”
(Saint-Just; Sur La Constitution de Ia France, Discours prononcé à Ia Convention, 24 de abril de 1793.)

 

 

“O exército era uma carreira como qualquer outra das muitas abertas ao talento pela revolução burguesa, e os que nele obtiveram sucesso tinham um interesse investido na estabilidade interna como qualquer outro burguês. Foi isto que fez do exército, a despeito de seu jacobinismo embutido, um pilar do governo pós-termidoriano, e de seu líder Bonaparte uma pessoa adequada para concluir a revolução burguesa e começar o regime burguês. O próprio Napoleão Bonaparte, embora cavalheiro de nascimento pelos padrões de sua bárbara ilha natal da Córsega, era um carreirista típico daquela espécie. Nascido em 1769, ambicioso, descontente e revolucionário, subiu vagarosamente na artilharia, um dos poucos ramos do exército real em que a competência técnica era indispensável. Durante a Revolução, e especialmente sob a ditadura jacobina que ele apoiou firmemente, foi reconhecido por um comissário local em um fronte de suma importância – por casualidade, um patrício da Córsega, fato que dificilmente pode ter abalado suas intenções – como um soldado de dons esplêndidos e muito promissor. O Ano II fez dele um general. Sobreviveu à queda de Robespierre, e um dom para o cultivo de ligações úteis em Paris ajudou-o em sua escalada após este momento difícil. Agarrou a sua chance na campanha italiana de 1796, que fez dele o inquestionado primeiro soldado da República, que agia virtualmente independente das autoridades civis. O poder foi meio atirado sobre seus ombros e meio agarrado por ele quando as invasões estrangeiras de 1799 revelaram a fraqueza do Diretório e a sua própria indispensabilidade. Tornou-se primeiro cônsul, depois cônsul vitalício e Imperador. E com sua chegada, como que por milagre, os insolúveis problemas do Diretório se tornaram solúveis. Em poucos anos a França tinha um Código Civil, uma concordata com a Igreja e até mesmo o mais significativo símbolo da estabilidade burguesa – um Banco Nacional. E o mundo tinha o seu primeiro mito secular.

Os leitores mais velhos ou os de países antiquados conhecem o mito napoleônico tal como ele existiu durante o século em que nenhuma sala da classe média estava completa sem o seu busto, e talentos panfletários podiam afirmar, mesmo como piada, que ele não era um homem mas um deus-sol. O extraordinário poder deste mito não pode ser adequadamente explicado nem pelas vitórias napoleônicas nem pela propaganda napoleônica, ou tampouco pelo próprio gênio indubitável de Napoleão. Como homem ele era inquestionavelmente muito brilhante, versátil, inteligente e imaginativo, embora o poder o tivesse tornado sórdido. Como general, não teve igual; como governante, foi um planejador, chefe e executivo soberbamente eficiente e um intelectual suficientemente completo para entender e supervisionar o que seus subordinados faziam. Como indivíduo parece ter irradiado um senso de grandeza, mas a maioria dos que deram esse testemunho, por exemplo, Goethe, viram-no no auge de sua fama, quando o mito já o tinha envolvido. Foi, sem sombra de dúvidas, um grande homem e – talvez com a exceção de Lênin – seu retrato é o que a maioria das pessoas razoavelmente instruídas, mesmo hoje, reconheceriam mais prontamente numa galeria de personagens da história, ainda que somente pela tripla marca registrada do tamanho pequeno, do cabelo escovado para a frente sobre a testa e da mão enfiada no colete entreaberto. Talvez não tenha sentido fazer uma comparação dele, em termos de grandeza, com candidatos a esse título no século XX.
      Pois o mito napoleônico baseia-se menos nos méritos de Napoleão do que nos fatos, então sem paralelo, de sua carreira. Os homens que se tornaram conhecidos por terem abalado o mundo de forma decisiva no passado tinham começado como reis, como Alexandre, ou patrícios, como Júlio César, mas Napoleão foi o “pequeno cabo” que galgou o comando de um continente pelo seu puro talento pessoal. (Isto não foi estritamente verdadeiro, mas sua ascensão foi suficientemente meteórica e alta para tornar razoável a descrição.) Todo jovem intelectual que devorasse livros, como o jovem Bonaparte o fizera, escrevesse maus poemas e romances e adorasse Rousseau poderia, a partir daí, ver o céu como o limite e seu monograma enfaixado em lauréis. Todo homem de negócios daí em diante tinha um nome para sua ambição: ser – os próprios clichês o denunciam – um “Napoleão das finanças” ou da indústria. Todos os homens comuns ficavam excitados pela visão, então sem paralelo, de um homem comum que se tornou maior do que aqueles que tinham nascido para usar coroas. Napoleão deu à ambição um nome pessoal no momento em que a dupla revolução (industrial e francesa) tinha aberto o mundo aos homens de vontade. E ele foi mais ainda. Foi um homem civilizado do século XVIII, racionalista, curioso, iluminado, mas também discípulo de Rousseau o suficiente para ser ainda o homem romântico do século XIX. Foi o homem da Revolução, e o homem que trouxe estabilidade. Em síntese, foi a figura com que todo homem que partisse os laços com a tradição podia-se identificar em seus sonhos.

Para os franceses ele foi também algo bem mais simples: o mais bem-sucedido governante de sua longa história. Triunfou gloriosamente no exterior, mas, em termos nacionais, também estabeleceu ou restabeleceu o mecanismo das instituições francesas como existem até hoje. Reconhecidamente, a maioria de suas ideias – talvez todas – foram previstas pela Revolução e o Diretório; sua contribuição pessoal foi fazê-las um pouco mais conservadoras, hierárquicas e autoritárias. Mas seus predecessores apenas previram; ele realizou. Os grandes monumentos de lucidez do direito francês, os Códigos que se tornaram modelos para todo o mundo burguês, exceto o anglo-saxão, foram napoleônicos. A hierarquia dos funcionários – a partir dos prefeitos, para baixo –, das cortes, das universidades e escolas foi obra sua. As grandes “carreiras” da vida pública francesa, o exército, o funcionalismo público, a educação e o direito ainda têm formas napoleônicas. Ele trouxe estabilidade e prosperidade para todos, exceto para os 250 mil franceses que não retornaram de suas guerras, embora mesmo para os parentes deles tivesse trazido a glória. Sem dúvida, os britânicos se viam como lutadores pela causa da liberdade contra a tirania; mas em 1815 a maioria dos ingleses era mais pobre do que o fora em 1800, enquanto que a maioria dos franceses era quase que certamente mais rica, e ninguém, exceto os trabalhadores assalariados cujo número era insignificante, tinha perdido os substanciais benefícios econômicos da Revolução. Há pouco mistério quanto à persistência do bonapartismo como uma ideologia de franceses apolíticos, especialmente dos camponeses mais ricos, depois da queda do ditador. Foi necessário um segundo Napoleão menor, entre 1851 e 1870, para dissipá-la.

Ele destruíra apenas uma coisa: a Revolução Jacobina, o sonho de igualdade, liberdade e fraternidade, do povo se erguendo na sua grandiosidade para derrubar a opressão. Este foi um mito mais poderoso do que o dele, pois, após a sua queda, foi isto e não a sua memória que inspirou as revoluções do século XIX, inclusive em seu próprio país.”

 

 

“Não é verdade que a guerra seja determinada por princípio divino; não é verdade que a terra tenha sede de sangue. O próprio Deus amaldiçoa a guerra, como o fazem também os homens que a empreendem e que a suportam em secreto horror.”

(Alfred de Vigny, Servitude et grandeur militaires)

 

 

“A estratégia e a tática militares dos Estados ortodoxos do século XVIII não esperavam nem desejavam a participação civil nas guerras: Frederico, o Grande, disse com firmeza a seus leais berlinenses, que se ofereceram para lutar contra os russos, para deixar a guerra aos profissionais a quem ela pertencia. Mas isto transformou a ação bélica dos franceses de Napoleão e os fez incomensuravelmente superiores aos exércitos do velho regime. Tecnicamente os velhos exércitos eram mais bem treinados e disciplinados, e onde estas qualidades eram decisivas, como na guerra naval, os franceses foram sensivelmente inferiores. Eles eram bons corsários e rápidos incursores, mas não podiam compensar a falta de um número suficiente de marujos treinados e, sobretudo, de oficiais navais competentes, classe que havia sido dizimada pela Revolução, pois constituía-se amplamente de elementos provenientes da pequena nobreza normanda e bretã, e que não podia ser rapidamente improvisada. Em seis grandes e oito pequenas batalhas navais entre os britânicos e os franceses, as baixas francesas foram cerca de dez vezes maiores que as dos ingleses.

Mas no que tange à organização improvisada, mobilidade, flexibilidade e acima de tudo, pura coragem ofensiva e moral de luta, os franceses não tinham rivais. Estas vantagens não dependiam do gênio militar de ninguém, pois o saldo militar dos franceses antes que Napoleão tomasse o poder era bastante impressionante, e a qualidade média do generalato francês não era excepcional. Mas isto deve ter em parte dependido do rejuvenescimento dos quadros militares franceses dentro e fora do país, o que é uma das principais consequências de qualquer revolução. Em 1806, de 142 generais do poderoso exército prussiano, 79 tinham mais de 60 anos de idade, bem como um-quarto de todos os comandantes de regimentos. Mas em 1806 Napoleão, que chegou a general aos 24 anos, Murat, que comandou uma brigada aos 26, Ney, que o fez aos 27, e Davout estavam todos entre 26 e 37 anos de idade. (...)

No mar, entretanto, os franceses estavam por esta época completamente derrotados. Após a batalha de Trafalgar (1805), qualquer chance não apenas de invadir a Grã-Bretanha pelo Canal da Mancha, como também de manter contatos ultramarinos, desapareceu. O único modo que parecia haver para derrotar a Grã-Bretanha era a pressão econômica, e isto Napoleão tentou exercer eficazmente através do Sistema Continental (1806). As dificuldades de impor este bloqueio de maneira eficiente minaram a estabilidade do Tratado de Tilsit e levaram ao rompimento com a Rússia, que foi o ponto decisivo da sorte de Napoleão. A Rússia foi invadida e Moscou ocupada. Se o czar tivesse feito a paz como a maioria dos inimigos de Napoleão tinham feito sob circunstâncias semelhantes, o jogo teria terminado. Mas o czar não estabeleceu a paz, e Napoleão se viu diante da opção entre uma guerra interminável, sem perspectiva clara de vitória, ou a retirada. Ambas eram igualmente desastrosas.

Os métodos do exército francês, como vimos, implicavam rápidas campanhas em áreas suficientemente ricas e densamente povoadas para que ele pudesse retirar sua manutenção da terra. Mas o que funcionou na Lombardia e na Renânia, onde estes processos tinham sido desenvolvidos pela primeira vez, e ainda era viável na Europa Central, fracassou totalmente nos amplos, pobres e vazios espaços da Polônia e da Rússia. Napoleão foi derrotado não tanto pelo inverno russo quanto por seu fracasso em manter o Grande Exército com um suprimento adequado. A retirada de Moscou destruiu o Exército. De 610 mil homens que tinham, num ou noutro momento, atravessado a fronteira russa, 100 mil retornaram aproximadamente.

Nessas circunstâncias, a coalizão final contra os franceses foi formada não só por seus velhos inimigos e vítimas mas também por todos os que se sentiam ansiosos por estar do lado que a esta altura aparecia claramente como o vencedor; só o rei da Saxônia abandonou sua adesão à França tarde demais. Um novo exército francês, largamente imaturo, foi derrotado em Leipzig (1813), e os aliados avançaram inexoravelmente sobre a França, a despeito das brilhantes manobras de Napoleão, enquanto os britânicos avançavam sobre ela a partir da Península. Paris foi ocupada e o Imperador renunciou a 6 de abril de 1814. Ele tentou restaurar seu poder em 1815, mas a batalha de Waterloo (junho de 1815) o liquidou.”

 

 

“O longo período de melhoria econômica que antecedeu a 1789 fez com que a fome e suas companheiras, a peste e a praga, não acrescentassem muito às devastações das batalhas e dos saques, pelo menos até depois de 1811. (O principal período de fome ocorreu depois das guerras, em 1816-17.) As campanhas militares tendiam a ser curtas e impetuosas, e os armamentos usados – de artilharia relativamente leve e móvel – não eram muito destrutivos segundo os padrões modernos. Os cercos não eram comuns. Os incêndios eram provavelmente os maiores perigos para as habitações e os meios de produção, e as pequenas casas ou fazendas eram facilmente reconstruídas. A única destruição material realmente difícil de reparar rapidamente em uma economia pré-industrial é a das florestas ou plantações de azeitonas e frutas, que levam muitos anos para crescer, e não parece ter havido muita destruição desse tipo na época.

Consequentemente, as perdas puramente humanas devidas a estas duas décadas de guerra não parecem ter sido, pelos padrões modernos, assustadoramente altas, embora, na verdade, nenhum governo tenha tentado avaliá-las e todas as modernas estimativas sejam vagas e não passem de puras conjecturas, exceto as que se referem às baixas francesas e a alguns casos especiais. Um milhão de mortos nas guerras de todo o período seria um índice favorável se comparado às perdas isoladas de qualquer um dos principais países beligerantes nos quatro anos e meio da Primeira Guerra Mundial ou mesmo aos aproximadamente 600 mil mortos da Guerra Civil Americana de 1861-5. Até mesmo dois milhões, para mais de duas décadas de guerra generalizada, não pareceria um índice particularmente assassino, quando nos lembramos da extraordinária capacidade mortífera da fome e da epidemia naqueles tempos: ainda em 1865, na Espanha, uma epidemia de cólera, segundo estimativas, fez 236.744 vítimas.

De fato, nenhum país indica uma desaceleração acentuada do crescimento populacional durante este período, com exceção talvez da França. Para a maioria dos habitantes da Europa, exceto os combatentes, a guerra provavelmente não significou mais do que uma interrupção direta ocasional do cotidiano, se é que chegou a significar isto. As famílias do interior nos romances de Jane Austen seguiam seus afazeres como se a guerra não existisse. Os Mecklenburgers, de Fritz Reuter, recordam-se da ocupação estrangeira como anedota e não como um drama; o velho Herr Kuegelgen, lembrando-se de sua infância na Saxônia (uma das “rinhas da Europa”, cuja situação política e geográfica atraía exércitos e batalhas como igualmente apenas a Bélgica e a Lombardia o faziam), só relembrou das poucas semanas em que os exércitos marcharam sobre Dresden ou ali se aquartelaram. Reconhecidamente, o número de homens armados envolvidos era muito maior do que tinha sido comum em guerras anteriores, embora não fosse extraordinário pelos padrões modernos. Até mesmo o recrutamento não implicava a convocação de mais que uma parte dos homens capacitados: o departamento francês da Costa do Ouro, durante o reinado de Napoleão, forneceu somente 11 mil homens de seus 350 mil habitantes, ou seja, 3,15%, e entre 1800 e 1815 não mais que 7% da população da França foi recrutada, contra os 21% durante o período bem mais curto da Primeira Guerra Mundial. Ainda assim, em números absolutos, a quantidade era muito grande. O levée en masse de 1793-4 colocou talvez 630 mil homens em armas (de um recrutamento teórico de 770 mil); a força militar de Napoleão durante o período de paz de 1805 era de mais ou menos 400 mil homens, e, no início da campanha contra a Rússia, em 1812, o Grande Exército se constituía de 700 mil homens (300 mil dos quais não eram franceses), sem contar as tropas francesas no resto do continente, principalmente na Espanha. As mobilizações permanentes dos adversários da França eram muito menores, ainda que somente devido ao fato de que eles estivessem muito menos continuamente no campo de batalha (com a exceção da Grã-Bretanha) ou porque os problemas financeiros e de organização tornavam muitas vezes difícil a mobilização total (por exemplo, para os austríacos, que em 1813 foram autorizados, pelo tratado de paz de 1809, a manter um exército de 150 mil homens, mas que mantinham apenas 60 mil realmente preparados para uma campanha). Os britânicos, por outro lado, mantinham um número surpreendentemente alto de homens mobilizados. No seu auge (1813-14), com bastante dinheiro empenhado num exército regular de 300 mil homens e mais 140 mil marinheiros e fuzileiros navais, devem ter tido uma carga proporcionalmente mais pesada com suas forças militares do que os franceses.

As perdas eram pesadas, embora não excessivamente, novamente segundo os aniquiladores padrões do nosso século; mas curiosamente poucas dessas perdas deveram-se realmente ao inimigo. Somente 6 ou 7% por cento dos marinheiros britânicos que morreram entre 1793 e 1815 sucumbiram diante dos franceses; 80% morreram devido a doenças e acidentes. A morte no campo de batalha era um risco pequeno; somente 2% das baixas em Austerlitz e talvez 8 ou 9% das de Waterloo corresponderam de fato às mortes em combate. Os riscos realmente aterradores da guerra eram a negligência, a sujeira, a má organização, os serviços médicos deficientes e a ignorância em termos higiênicos, que massacravam os feridos, os prisioneiros e, em propícias condições climáticas, como nos trópicos, praticamente todos. As operações militares propriamente ditas matavam pessoas, direta ou indiretamente, e destruíam equipamento produtivo, mas como vimos, nada faziam à ponto de interferir seriamente no curso normal da vida e do desenvolvimento de um país. As exigências econômicas da guerra e a guerra econômica tinham consequências muito maiores. Pelos padrões do século XVIII, as guerras revolucionárias e napoleônicas eram excessivamente caras, e de fato seus custos chegavam a impressionar os contemporâneos, talvez mais do que as perdas humanas que provocavam. Certamente a queda no ônus financeiro da guerra na geração pós-Waterloo foi muito mais notável do que a queda nas perdas de vidas humanas: estima-se que enquanto as guerras entre 1821 e 1850 custaram uma média de menos de 10% por ano do valor equivalente em 1790-1820, a média anual de mortes causadas pela guerra permaneceu a um nível um pouco menor que 25% do período anterior.”

 

 

“Fora da Europa, é difícil falar de nacionalismo. As muitas repúblicas latino-americanas que substituíram os velhos impérios espanhol e português (para sermos exatos, o Brasil se tornou uma monarquia independente e assim permaneceu de 1816 a 1889), com suas fronteiras frequentemente refletindo pouco mais do que a distribuição das propriedades dos nobres que tinham apoiado essa ou aquela rebelião local, começaram a adquirir interesses políticos estáveis e aspirações territoriais. O ideal pan-americano original de Simon Bolívar (1783- 1830) na Venezuela e San Martin (1778-1850) na Argentina foi impossível de realizar, embora persistisse como uma poderosa corrente revolucionária em todas as regiões unidas pela língua espanhola, exatamente como o pan-balcanismo, o herdeiro da unidade ortodoxa contra a islâmica, persistiu e pode ainda persistir hoje em dia. A grande extensão e variedade do continente, a existência de focos de rebelião independentes no México (que deram origem à América Central), na Venezuela e em Buenos Aires, e o especial problema do centro do colonialismo espanhol no Peru, que foi libertado a partir de fora, impunham uma fragmentação automática. Mas as revoluções latino-americanas foram obra de pequenos grupos de aristocratas, soldados e elites afrancesadas “evoluídas”, deixando a massa da passiva população branca, católica e pobre, e dos índios, indiferente ou hostil. Só no México a independência foi conquistada pela iniciativa de um movimento de massa agrário, isto é, indígena, que marchou sob a bandeira da Virgem de Guadalupe; e por isso o México trilhou desde então um caminho diferente e politicamente mais avançado que o resto da América Latina continental. Entretanto, mesmo entre a minúscula camada dos latino-americanos politicamente decisivos, seria anacrônico falarmos nesse período de algo mais que o embrião da “consciência nacional” colombiana, venezuelana, equatoriana etc.”

 

 

“Na Índia a terra pertencia – de jure ou de facto – a coletividades autogovernadas (tribos, clãs, comunas de aldeias, irmandades, etc.), e o governo recebia uma percentagem de sua produção. Embora algumas terras fossem de certa forma alienáveis, e algumas relações agrárias pudessem ser interpretadas como arrendamentos e alguns pagamentos rurais como renda, não havia de fato nem senhores feudais, nem arrendatários, nem propriedade individual da terra ou arrendamento no sentido inglês. Era uma situação totalmente desagradável e incompreensível para os governantes e administradores britânicos, que então trataram de inventar a organização rural com que estavam familiarizados.”

 

 

“As massas de novos proletários tinham que se adaptar ao ritmo industrial de trabalho por meio da mais cruel disciplina ou então eram largadas para apodrecerem caso não a aceitassem. E ainda assim, até hoje, o coração se contrai ante a visão do panorama construído por aquela geração: Esta sombria devoção ao utilitarismo burguês, que os evangelistas e puritanos partilhavam com os agnósticos “filósofos radicais” do século XVIII, que a verbalizaram em termos lógicos para eles, produziu sua própria beleza funcional nas estradas de ferro-pontes e armazéns, e seu horror romântico nas infindáveis fileiras de casinhas cinzentas ou avermelhadas envoltas em fumaça e dominadas pelas fortalezas das fábricas.

A nova burguesia vivia fora dessa paisagem (se tivesse acumulado dinheiro suficiente para se mudar), ministrando autoridade, educação moral e assistência ao esforço missionário entre os pagãos negros no exterior. Seus homens personificavam o dinheiro, que provava seu direito de dominar o mundo; suas mulheres, que o dinheiro dos maridos privava até da satisfação de realmente executar o trabalho doméstico, personificavam a virtude da classe: ignorantes (“seja boa, doce donzela, e deixe quem quiser ser inteligente”), sem instrução, pouco práticas, teoricamente assexuadas, sem patrimônio e protegidas, elas foram o único luxo a que se permitiu a era da frugalidade e do cada um por si.”

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A Viagem, de Virginia Woolf

Editora: Novo Século

ISBN: 978-85-7679-174-4

Tradução: Lya Luft

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 552

Sinopse: Publicado em 1915, A viagem é o primeiro romance de Virginia Woolf e também um dos mais brilhantes e difíceis livros de sua carreira. Embora a autora tenha sofrido consideráveis perdas familiares durante a redação da obra, nela já estão presentes as magníficas características de sua linguagem e de seu estilo.

Apesar de ter sido uma crítica ferina tanto da romantização, quanto da caracterização pseudo-realista dos enredos e personagens, Virginia Woolf deixa transparecer aqui elementos e dados mais imediatos de sua vida pessoal, familiar e social. Pode se dizer que Rachel Vinrace é ela própria, assim como Helen e Ridley são seus pais. No entanto, já em seu primeiro romance, o que interessa a Virginia Woolf não é apenas a elaboração de um interessantíssimo enredo – basta dizer que uma das regiões desta viagem é a boca do Amazonas. É, antes de tudo, transformar o texto num espaço em que o leitor descubra que a experiência literária consiste em libertar-se da vida cotidiana e viajar para além de seus constrangimentos e limites.



 

“Sentir qualquer coisa intensamente era criar um abismo entre si mesma e outros, que sentem intensa mas talvez diferentemente. (...) Era como se ninguém jamais dissesse algo que fosse realmente sincero, ou jamais falasse de uma emoção que sentia, mas para isso existia a música. Com a realidade residindo no que se via ou se sentia, mas não se comentava, era possível aceitar um sistema em que as coisas giravam de modo bastante satisfatório para outras pessoas, sem se perturbar em pensar sobre elas com frequência, exceto como algo superficialmente estranho.”

 

 

“– É preferível ser um assassino a um chato.”

 

 

“– Ah, mas a esta altura concordamos em que a natureza é um erro. Ou é muito feia, espantosamente desconfortável, ou absolutamente aterradora. Não sei o que me deixa mais alarmado: uma vaca ou uma árvore. Uma vez encontrei uma vaca no campo à noite. A criatura me olhava. Acreditem, fiquei de cabelo branco. É uma desgraça permitirem animais assim à solta.

– E o que foi que a vaca pensou dele? – murmurou Venning para Susan.”

 

 

“– Acho que é preciso entender uma coisa. Nunca haverá no mundo mais do que cinco pessoas com quem valha a pena falar.

– Cinco pessoas? – comentou Helen. – Eu diria que há mais do que cinco.

– Então a senhora tem muita sorte – disse Hirst. – Ou talvez eu tenha azar.”

 

 

“Quando duas pessoas estão casadas há anos, parecem tornar-se inconscientes da presença corporal uma da outra, de modo que se movem como se estivessem sozinhas, falam alto coisas que não esperam respostas, e em geral parecem experimentar todo o conforto do isolamento sem a solidão.”

 

 

“– Eu quero escrever um romance sobre o silêncio – disse Hewet –, as coisas que as pessoas não dizem. Mas a dificuldade é imensa. Porém, a senhorita não se importa – continuou ele. Olhava-a quase com severidade. – Ninguém se importa. Só se lê um romance para ver que tipo de pessoa é o escritor e, se é conhecido, para ver quais de seus amigos ele colocou no livro. Quanto ao romance em si, toda a concepção, a maneira como se vê a coisa, como se sente, como se relaciona com outras coisas, nem uma pessoa num milhão se interessa por isso. Mas às vezes fico imaginando se há alguma coisa no mundo inteiro que valha tanto a pena ser feita. Essas outras pessoas – ele apontou o hotel – estão sempre querendo algo que não conseguem ter. Mas há uma extraordinária satisfação em escrever, mesmo em tentar escrever. O que a senhorita acaba de dizer é verdade: não queremos ser coisas; queremos apenas poder vê-las. (...) Parece-me tão complicado e confuso. Não se pode tomar decisão alguma; e somos cada vez menos capazes de fazer um julgamento. Você acha isso? E depois, nunca sabemos o que sentimos. Estamos todos no escuro. Tentamos descobrir, mas pode imaginar algo mais ridículo do que a opinião de uma pessoa acerca de outra pessoa? Achamos que sabemos, mas na verdade não sabemos.”

 

 

“– Graças a Deus, não sou como você, Helen! Às vezes acho que você não pensa, nem sente, nem se importa, nem faz nada senão existir! Você é como Mr. Hirst. Vê que as coisas estão ruins e orgulha-se de dizer isso. É o que chama de ser honesta; na verdade isso é ser preguiçosa, ser chata, ser nada. Você não ajuda; liquida com as coisas.”

 

 

“Quando se cria expectativas, sempre há desapontamentos.”

 

 

“– É tão raro pensarmos em algo além de nós mesmos que uma ferroada de vez em quando é até agradável.”

 

 

“O amor parece explicar todas as coisas.”

domingo, 27 de julho de 2014

A Torre Negra: Canção de Susannah, de Stephen King

Editora: Suma de Letras

ISBN: 978-85-81050-26-3

Tradução: Mário Molina

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 408

Sinopse: Penúltimo livro de uma saga de sete volumes, Canção de Susannah é um livro chave para os leitores que acompanham a série, revelando e desenvolvendo alguns dos mistérios que povoam A Torre Negra.

Mia roubou o corpo de Susannah Dean, usando o poder do Treze Preto para transportá-la para a Nova York de 1999, onde pretende dar à luz em segurança ao seu “xapinha”. Mas quem é o pai da criança? E que papel desempenha o Rei Rubro nessa história? Para salvar a Torre Negra, é preciso não apenas resgatar Susannah, mas também manter em segurança o terreno baldio de Calvin Tower, antes que ele perca o local para a Corporação Sombra. Para isso, o restante do katet se une aos Mannis, tentando abrir um portal na Gruta do Vão da Porta. Enquanto Eddie e Rolland aterrissam no Maine dos anos 1970 e Jake, Oi e Callahan perseguem Susanna por Nova York, a trama se arma para um final duplamente explosivo que deixará o leitor ansioso pelo próximo livro.



“Estava olhando para Eddie com um ar de quem pede desculpas e com algum medo. O rapaz estava em terrível aflição, isso era claro. E era um pistoleiro. Um pistoleiro podia se descontrolar e, quando isso acontecia, o golpe nunca era sem alvo.”

 

 

“A coisa está nas mãos do ka (destino) e na minha terra havia um ditado que dizia o seguinte: “O ka não tem coração nem mente”.”

 

 

“– A raiva é a mais inútil das emoções – Henchick entoou –, destrutiva para a mente e prejudicial ao coração.”

 

 

“Como diamantes, a morte é para sempre.”

 

 

“Susannah olhou em volta. Quando seu rosto ficou de frente para o centro do castelo – para o que Susannah achou que era o pátio interno – ela captou um cheiro antigo de podridão. Mia viu-a torcer o nariz e sorriu. – Ié, eles já se foram há muito tempo e as máquinas que os últimos deixaram para trás estão quase todas paradas, mas o cheiro de sua morte permanece, não é? O cheiro da morte sempre se conserva.”

 

 

“Embora a verdade às vezes doa, as mentiras costumam voltar para nos morder, não é?”

 

 

“Ele disse que escrever sobre os aparecidos no oeste do Maine ensinou-lhe algo que jamais esperara aprender numa idade tão avançada: que há coisas em que as pessoas simplesmente não acreditam, mesmo quando você consegue provar que existem. Donnie costumava citar o verso de um poeta grego. “A coluna da verdade tem um buraco no meio”. (...)

Eddie se perguntava se alguém conhecia a profundidade desse buraco.”

 

 

“Na Terra da Memória, o tempo é sempre Agora. No Reino do Passado, o relógio faz tiquetaque... mas seus ponteiros nunca se mexem. Há uma Porta Não-Encontrada (Ah, perdida) e a memória é a chave que a abre.”

sábado, 19 de julho de 2014

Aristóteles: obras completas (introdução geral) – António Pedro Mesquita

Editora: Biblioteca de Autores Clássicos
ISBN: 972-27-1371-X
Opinião: ★☆☆☆☆
Páginas: 752
Sinopse: O presente volume é constituído por quatro secções. A primeira, mais curta, trata da edição das Obras Completas. A segunda corresponde a um breve conspecto da biografia aristotélica, onde se procura reunir a melhor informação disponível e identificar algumas das dúvidas que a este respeito ainda permanecem. A terceira parte é preenchida por quatro estudos. Que tratam sucessivamente da história, estrutura e natureza da coleção aristotélica, da evolução e linhas de força do seu pensamento, de certos problemas de datação das suas obras principais e, finalmente, das dificuldades provocadas pela tradução de alguns conceitos centrais. No final do volume, e como quarta e última secção, encontra-se uma bibliografia selecionada, onde são reunidas as fontes e as obras auxiliares ou instrumentais utilizadas nas versões portuguesas, bem como a literatura secundária mais geral ou mais relevante sobre as obras traduzidas e os temas nelas abordados.



“Platão chamaria a Aristóteles “o leitor”, repetindo frequentemente: “Vamos a casa do leitor”.
O interesse desta tirada, a ser verdadeira, não reside tanto no apontamento de uma idiossincrasia do Estagirita, de um traço da sua personalidade ou de um seu costume absorvente, mas na apreensão de uma profunda alteração nos hábitos de leitura que o filósofo introduziu na cultura grega.
Com efeito, até Aristóteles, os livros não eram lidos, mas sim escutados.
O Grego coevo não lia seguindo ele próprio com os olhos as maiúsculas do texto, ou soletrando em surdina as letras que ia desenrolando no papiro, muito menos, como é evidente, folheando as páginas inexistentes dos volumosos cilindros.
Reclinava-se passivamente para saborear, como numa representação teatral, as frases que um servo educado recitava.
A novidade introduzida por Aristóteles foi a de acumular numa só pessoa a dupla função de recitador e de ouvinte, fazendo assim evoluir a noção arcaica de “leitor” como aquele que lê alto para outrem e fundando a partir dela a noção moderna de “leitor” como alguém que lê baixo, ou em pensamento, para si mesmo.
Neste sentido, chamar a Aristóteles “o leitor”, como fazia Platão, significava assinalar, e quiçá estranhar, esta mudança, senão verberar ironicamente uma excentricidade de meteco.
Com efeito, no regime cultural em que cobra sentido, o leitor é um escravo e ler uma ocupação servil. (...)
A partir de Aristóteles, deparamo-nos com um modo inteiramente novo de investigar, de fazer ciência e de produzir cultura. E a anedota relativa ao dito platônico surpreende justamente esta revolução in fieri.
Há, pois, razão em declarar que, com Aristóteles, o mundo grego passou do ensino oral para o hábito de ler.
Ora, este lance produzirá toda uma catadupa de mudanças radicais na atividade científica.
Não é exagero dizer-se que, com ela, é a própria noção moderna de investigador que surge.
Em Aristóteles, a institucionalização de rotinas de pesquisa, a atenção à recolha de dados, o pendor para o colecionismo histórico ou erudito, a criação da transmissão escolar e da prosa científica, o interesse sistemático pela tradição das disciplinas, são diretamente devedores desta primeira inovação.
Não devemos esquecer que, num tratado de tanta relevância metodológica como o primeiro livro dos Tópicos, ele próprio recomenda a prática de sublinhar e anotar os manuscritos à margem, de os transcrever e de elaborar fichas de trabalho, rotinas indissociáveis da leitura direta dos textos e, ao mesmo tempo, condições indispensáveis daqueles feitos.
E há mesmo bons motivos para pensar que a enorme produção de Aristóteles, tanto em termos absolutos como comparativos, deriva desta nova facilidade no acesso aos livros e das técnicas que ela permite.”


O IMPÉRIO DE ALEXANDRE
Na dilacerante polêmica acerca da Macedônia que, durante dezenas de anos, dividiu os atenienses em pró e anti, as razões estavam bem distribuídas.
Verdadeiramente, entre os amigos, como eram em geral os filósofos, e os adversários, recrutados sobretudo no partido popular, não havia diferença quanto aos fins, mas sim quanto aos meios.
Para ambos, como em geral para todos os Gregos, o grande, o verdadeiro, o único inimigo estratégico da Hélade era o império persa, em que se corporizava uma secular história sangrenta de contendas e guerras e, principalmente, em que residia, à época, a única ameaça real e consistente (parecia então) ao modo de vida grego.
Os Persas eram os bárbaros – e eram bárbaros perigosos.
E por “bárbaros” entendiam eles: seres inferiores, naturalmente feitos para serem escravos, porque a ignorância culposa da sua humanidade os fazia sofrer sem remorso nem vergonha a indignidade de servirem um amo onde os Gregos obedeciam à neutralidade objetiva da lei e de entregarem a um só a soberania que era originariamente de todos.
Mais do que a estranheza da língua, que relevava sobretudo do simbólico, o que distinguia os Gregos dos bárbaros era, para eles, um modus vivendi, tanto político como espiritual, que os fazia crer acima e antes de tudo no império da lei, na soberania do cidadão e na autonomia da cidade e, portanto, deplorar a visão soturna, para oriente, de extensos territórios lavrados por servos ao ritmo do chicote de um sátrapa, representante corrupto e venal do imperador todo-poderoso, qual deus absconditus no seu casulo distante.
Pelo contrário, os Macedônios eram apenas uma espécie de gregos degenerados, diminuídos da sua condição natural de homens livres à degradante situação de súbditos de um soberano absoluto, “à maneira oriental”.
Ora, o que dividia pró-macedônios e antimacedônios era uma questão tática, não uma questão estratégica: a percepção que cada um deles respectivamente tinha do “inimigo principal”, isto é, daquele que, na circunstância, estava em condições de fazer pior e provocar um dano mais profundo e prolongado ao modus vivendi helênico.
Para os primeiros, entre os quais se encontrava Aristóteles, a Macedônia, como nação grega, e nação grega poderosa – de fato, a única potência grega regional que sobrevivera à hecatombe das lutas fratricidas do século anterior –, era uma prevenção contra os apetites da Pérsia.
Ser pró-macedónio era, portanto, escolher o mal menor, preferindo tolerar as grosserias marciais dos boiardos do Norte, na expectativa de as poder polir pelo convívio, de modo a preservar o que mais importava, a saber, as liberdades e prerrogativas do homem grego, o autogoverno das Cidades e a estrutura criativa da πóλις, de onde havia surgido e em que se condensava toda a grandeza e originalidade, não só material, mas sobretudo espiritual, do gênio grego.
Mas os antimacedônios viam mais longe.
Pressentindo que a cobiça indisfarçável dos reis da Macedônia era o sinal de um espírito ele próprio oriental, desconfiaram, com razão, de que o que os animava não era a simples ambição de manter um ascendente, uma predominância ou mesmo um protetorado sobre as cidades gregas, mas sim a volúpia de mandar sobre elas como senhores absolutos.
Para eles, portanto, diante de uma Pérsia decadente, enfraquecida e sonolenta, a Macedônia era, agora, o verdadeiro perigo.
Mais do que isso, no domínio dos fantasmas noturnos, como, em breve, no das duras realidades da vigília, a Pérsia era agora a Macedônia.
Este um difícil aprendizado que alguns dos ingênuos e bem-intencionados aliados da Macedônia haveriam de fazer dolorosamente à sua custa, como Calístenes de Olinto, mandado executar por Alexandre em 327, por se ter recusado a prostrar-se a seus pés como perante um soberano asiático.
É que os homens como Calístenes haviam-se alistado na causa de Alexandre, não por causa de Alexandre, mas por causa da Grécia. Não tinham aderido ao seu sonho oriental para expandir qualquer território ou para criar qualquer império, mas para destruir um, e com ele a ameaça permanente que pendia sobre as cidades gregas. Não tinham percorrido desertos sem fim até ao fim do mundo conhecido por desejos de conquista, que nunca tinha movido alma grega nenhuma, mas para conservar as suas próprias intactas e incólumes.
Pelo contrário, Alexandre, é lícito pensá-lo, era para si mesmo a sua própria causa e o seu próprio sonho.
Os antimacedônios tinham tido razão: na loucura divina do imperador estava o germe daninho da escravidão oriental. E os Gregos não mais se livrariam dela, até bem próximo dos nossos dias.
É possível que o próprio Aristóteles se tenha dado conta disso, pelo menos após a execução do seu sobrinho e colaborador, com o qual parece ter mantido um permanente contato, recebendo dele notas, observações e amostras para as investigações comuns, se é certo que na carta a Alexandre intitulada Sobre as Colônias, escrita provavelmente por essa altura, criticava o projeto oriental do rei, especialmente no que toca à sua política de miscigenação.
Mas era tarde.
Alexandre tinha de ir até ao fundo do seu destino histórico, ou, o que vinha a ser o mesmo, tinha de ir até ao fundo do Universo.
Por isso, continuava, implacável e imparavelmente, a conquistá-lo.
À data da sua morte precoce, havia construído a pulso, e num tempo recorde, o maior império que a Antiguidade tinha conhecido, estendendo-se do Norte da Grécia à margem do Ganges.
Foi aí que a sua hora chegou, vítima de malária ou de “mão amiga”.
Morreu de febres a 13 de Junho de 323 a. C., com 33 anos incompletos. Alexandre fizera um império – e fizera nascer novos impérios.
Volvidos cinquenta anos, uma nova época de estabilidade se abria, desenhada com sangue pelas espadas dos seus generais.
O que ele criara – uma realidade imperial de matriz grega – e o que eles criaram – os grandes impérios helenísticos – decidiram a sorte da civilização grega clássica.
A sua morte foi a morte da πóλις.
Para lá dele, começara a era da globalização. Era o helenismo, tempo de uma civilização e de uma cultura em que homens como Aristóteles estavam a mais.”


“Quanto ao caráter de Aristóteles, o seu próprio texto dá-nos algumas indicações preciosas.
Podemos reconduzir a cinco as principais informações que os escritos nos fornecem: o horror às generalizações sem contrapartida na experiência; a atenção aos detalhes; o rigor na observância dos procedimentos metodológicos; o otimismo e a confiança no progresso do conhecimento; a tolerância para com a fragilidade humana e a complacência perante o fracasso.
A tradição antiga nem sempre é tão caridosa.
Numerosos testemunhos dão-no como inclinado para o abuso do sarcasmo, o que, aliás, é confirmado por algumas anedotas e por alguns apotegmas conservados, bem como por diversos passos da sua obra.
Outros traços teriam sido o gosto pela solidão, a autoconfiança e a ambição, bem como a capacidade de persuasão.
Mais no sentido dos textos vão a temperança e a moderação consigo mesmo, a dignidade e a firmeza na doença, quiçá mesmo a resignação.”


“A expressão “ecletismo” provém de œklŠgein, “escolher”, e aplica-se para designar a seleção de elementos doutrinários de diferentes filosofias e a sua fusão numa síntese geral. São conhecidas diversas correntes ecléticas na Antiguidade helenística e tardia, nomeadamente o ecletismo estoico, o ecletismo platônico e o ecletismo aristotélico. O segundo, testemunhado especialmente pela IV Academia e pelo platonismo médio, caracteriza-se pela inclusão de elementos de origem estoica numa doutrina matricialmente platônica.”


“Em sentido próprio, o ceticismo se refere a uma corrente filosófica do helenismo, iniciada por Pírron de Élis, que se prolongou, com vários matizes, por toda a Antiguidade. Caracterizam-na a suspensão do juízo, baseada na consciência da inapreensibilidade da natureza das coisas, e, consequentemente, a indiferença perante todas elas, de onde decorre a verdadeira felicidade, entendida como independência em relação aos desejos e às inclinações. O cepticismo das II e III Academias abriu uma forma ontológica e epistemológica, também chamado “probabilismo”, desta corrente.”


“A Escola Cínica foi uma escola socrática dirigida por Antístenes, seu fundador, e especialmente por Diógenes de Sínope (morto, já muito velho, cerca de 322 a. C.), que, pelo seu ensinamento e pela sua vida, de caráter ostensivamente frugal, configurou o modelo lendário do filósofo cínico e justificou o próprio nome atribuído à escola (que provém da palavra “cão”), significando o ideal de retorno à natureza que a norteia. Embora de índole predominantemente ética (onde avulta a sua identificação da felicidade, encarada como fim do homem, com a virtude, por estrita oposição com o prazer), a filosofia cínica contém também uma ontognosiologia, que claramente se opõe à platônica, pela sua postulação exclusiva do individual e do corpóreo e pela sua completa denegação dos universais.
A escola cínica veio a prolongar a sua influência ao longo da época helenística, designadamente através do estoicismo, com que mantém evidentes consonâncias e até uma relação histórica, se, como quer a tradição, é certo que o fundador do estoicismo, Zenão de Cítia, foi discípulo do filósofo cínico Crates de Tebas.”


“Na Escola Cirenaica, como nas demais originadas no ensinamento socrático, com exceção da platônica, há o predomínio da reflexão ética sobre a reflexão metafísica, lógica ou cosmológica. Neste domínio, a especificidade da filosofia cirenaica revela-se pela afirmação do primado da sensação e no apontamento do prazer como fim da ação humana, entendendo-o, no entanto, como o prazer do instante, o qual só é possível pela libertação de todas as emoções e inclinações provenientes das expectativas e dos cálculos de futuro. A influência que exerceu sobre o epicurismo é evidente.”


“O epicurismo é, a par do estoicismo e do ceticismo (pirrônico), uma das três grandes correntes filosóficas que surgem com a cultura helenística e que a vão marcar até ao final da Antiguidade. Se o estoicismo foi profundamente influenciado pela escola cínica, fundada em Atenas pelo discípulo socrático Antístenes, já o epicurismo denota uma evidente relação com a escola cirenaica, também derivada do socratismo, através de Aristipo de Cirene. Todavia, esta última influência verifica-se predominantemente no domínio da ética, em que ambas as escolas adotam uma solução hedonista para o problema do bem supremo, de acordo com a qual a felicidade reside no prazer (ou, mais precisamente, na ausência de dor), através do abandono de todos os desejos, temores e expectativas. Ao invés, em metafísica, o epicurismo optará por uma ontologia materialista baseada no atomismo de Leucipo e Demócrito e por uma epistemologia empirista, para a qual o conhecimento verdadeiro repousa sobre os sentidos.”


“A obra completa de Aristóteles seria constituída por cerca de cento e sessenta e nove escritos, cobrindo a totalidade de seções que determinamos no corpus, dos quais cento e dezoito seriam autênticos, trinta e sete espúrios e catorze duvidosos.
Se nos ficarmos apenas pelos autênticos, a comparação dá vinte e nove títulos para a obra conservada contra cento e dezoito para a obra completa. Conclui-se portanto que a obra conservada representa apenas cerca de um quarto do total e que oitenta e nove obras autênticas de Aristóteles se perderam, no todo ou em parte.”


“Dizer que Aristóteles nunca foi platônico, ou mesmo, como Düring, que “Aristóteles se colocou desde o início em oposição aberta a Platão”, declaração que, tendo em atenção os textos subsistentes, deve ser subscrita ipsissima verba, de modo algum implica que ele começou por formular teorias em oposição a Platão, mas apenas que, desde o início, Aristóteles jamais partilhou das intuições centrais que fazem do platonismo o que ele é, ou, ainda, que as suas próprias estiveram sempre em oposição íntima às de Platão.
O motivo é que existe uma contradição de princípio, ao nível do ponto de vista reitor, entre o pensamento aristotélico e o pensamento platônico, independentemente das zonas de coincidência que, em diversos aspectos, estruturais ou de superfície, se podem achar entre os dois pensamentos.
Neste quadro, pode dizer-se que, ao entrar na Academia, Aristóteles estava já filosoficamente formado, no sentido em que, ao nível do travejamento essencial da sua concepção do mundo, se encontrava dotado de uma identidade própria que o tornava antecipadamente imunizado contra a concepção platônica.
E a razão é simples: o primado que no seu pensamento é conferido ao indivíduo.
Esse o contributo asclepíada da sua personalidade. Mas não por um suposto vezo empirista da sua ideação. Antes pela sensibilidade colhida no convívio com a atividade clínica, cuja vinculação à singularidade tinha sido já, à época, devidamente reconhecida, tanto do ponto de vista prático como do teórico.
Neste sentido, Aristóteles nunca foi platônico – embora também se deva dizer que nunca teria sido Aristóteles se não tivesse havido Platão.
Por quê?
Porque foi no platonismo que Aristóteles se deparou com os desafios que a sua própria natureza lhe impunha fossem superados e descobriu os problemas que a sua intuição própria obrigava a serem resolvidos.
O maior desses desafios e desses problemas é, sem dúvida, a teoria platônica das ideias. E a resposta a ambos podemos encontrá-la na metafísica de Aristóteles, desde uma época tão primitiva quanto a da redação das Categorias.
Mas mais do que isso: Platão e a Academia facultaram-lhe também os meios e os instrumentos para construir a sua própria filosofia.
Já foi frequentemente observado que toda a silogística e a teoria da ciência aristotélica arrancam da dialética. Num certo sentido, é mais do que isso: todo o pensamento de Aristóteles arranca da prática da discussão na Academia e é ela que lhe permite descobrir os grandes conceitos e princípios que estruturam transversalmente o seu pensamento.”


“Podemos reconhecer a unidade do pensamento em cinco grandes características do gênio filosófico de Aristóteles, que constituem simultaneamente cinco aspectos transversais da sua ideação:
1) Na ordem da investigação, o cruzamento da observação (num sentido lato, que engloba a tradição e as opiniões sufragadas pela maioria ou pelos mais sábios) e da análise, subordinados a um modelo aporemático de pesquisa;
2) Na ordem da explicação, a opção finalista. O modelo teleológico de compreensão penetra todas as regiões em que a filosofia aristotélica intervém, da física à ética, da psicologia à política, da biologia à metafísica;
3) Na ordem da compreensão, a recusa da unicidade. Aristóteles é, como provavelmente nenhum outro filósofo anterior, sensível à pluralidade e à complexidade do real, na diversidade das suas manifestações e no caráter incontornavelmente multíplice dos princípios a que, dentro de cada domínio de análise, elas devem ser reconduzidas;
4) Na ordem da exposição, o primado do argumento. A filosofia grega é, por temperamento, uma filosofia em que a argumentação desempenha um papel de relevo. Parmênides, de cujo Poema subsistiram trechos bastante extensos, ou Platão, nos seus diálogos, dão-nos abundante ilustração desse vezo. Mas em nenhum deles se pode dizer que tudo o mais (exemplos, adorno literário, rasgos de eloquência, efeitos retóricos) é, como em Aristóteles, sacrificado à apresentação dos argumentos, sem cedências (não há aqui o proêmio parmenídeo, nem as alegorias e os mitos de Platão) e subordinando tudo a um regime puramente argumentativo de exposição, cuja fórmula típica é: enunciado do problema; posições anteriores; refutação; teses próprias; argumentos; objeções; resposta às objeções. Só raros momentos de ironia e um gosto particular pela citação (especialmente evidente na Ética a Nicômaco) perturbam de vez em quando esta regra;
5) Na ordem da fundamentação, a recondução para o indivíduo como último irregressível em todas as áreas de indagação e para a sua circunscrição ontológica (a teoria da substância) como ponto de referência constante.
Daqui decorre a permanência de determinadas doutrinas, princípios, conceitos e metodologias, que atravessam a obra aristotélica de cabo a cabo.”