quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Convite à Filosofia (Parte I), de Marilena Chaui

Editora: Ática

ISBN: 978-850808935-2

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 424

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Sinopse: Um marco no ensino da Filosofia no Brasil, de uma das mais prestigiadas intelectuais brasileiras. Por meio de uma linguagem acessível, trata de forma contextualizada os temas importantes da reflexão filosófica, conduzindo à profundidade dos grandes pensadores. Um exuberante exercício do pensamento que fomenta a reflexão crítica e amplia os horizontes do leitor. Principais diferenciais da obra: o livro discute os grandes temas da Filosofia, como razão, verdade, conhecimento, ciência, lógica, ética, política, arte, religião e metafísica; a autora contempla questões relacionadas à cidadania, à democracia, aos direitos humanos, às novas tecnologias e às posturas éticas de seu tempo.



“Conhecendo as coisas

Na briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que digam o que realmente viram ou que sejam “objetivas”, ou quando falamos dos namorados como incapazes de ver as coisas como são ou como sendo “muito subjetivos”, também temos várias crenças silenciosas.

De fato, acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferência, uma opinião e é até capaz de brigar por isso, pode “perder a objetividade” e deixar-se guiar apenas pelos seus sentimentos e não pela realidade. Da mesma maneira, acreditamos que os apaixonados se tornam incapazes de ver as coisas como são, de ter uma “atitude objetiva”, e que sua paixão os faz ficar “muito subjetivos”. Em que acreditamos, então?

Acreditamos que ter objetividade é ter uma atitude imparcial que percebe e compreende as coisas tais como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo). Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como ainda acreditamos que são diferentes, sendo que a primeira percebe perfeitamente a realidade e não a deforma, enquanto a segunda não percebe adequadamente a realidade e, voluntária ou involuntariamente, a deforma.

Ao dizermos que alguém “é legal” porque tem os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as outras pessoas — família, amigos, escola, trabalho, sociedade — nos faz semelhantes ou diferentes em decorrência de normas e valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.

Achamos óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito. Isso significa que acreditamos que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio.

Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação de coisas e ideias que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos na existência do espaço e do tempo, na realidade exterior e na diferença entre realidade e sonho, assim como na diferença entre sanidade mental ou razão e loucura. Cremos na existência das qualidades e das quantidades. Cremos que somos seres racionais capazes de conhecer as coisas e por isso acreditamos na existência da verdade e na diferença entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade. Cremos na existência da vontade e da liberdade e por isso cremos na existência do Bem e do Mal, crença que nos faz aceitar como perfeitamente natural a existência da moral e da religião. Cremos também que somos seres que naturalmente precisam de seus semelhantes e por isso tomamos como um fato óbvio e inquestionável a existência da sociedade com suas regras, normas, permissões e proibições. Haver sociedade é, para nós, tão natural quanto haver Sol, Lua, dia, noite, chuva, rios, mares, céu e florestas.”

 

 

“Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é filosofia?” poderia ser: “A decisão de não aceitar como naturais, óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido”.

Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.

Podemos dizer que a filosofia surge quando os seres humanos começam a exigir provas e justificações racionais que validem ou invalidem as crenças cotidianas.

Por que racionais? Por três motivos principais: em primeiro lugar, porque racional significa argumentado, debatido e compreendido; em segundo, porque racional significa que, ao argumentar e debater, queremos conhecer as condições e os pressupostos de nossos pensamentos e os dos outros; em terceiro, porque racional significa respeitar certas regras de coerência do pensamento para que um argumento ou um debate tenham sentido, chegando a conclusões que podem ser compreendidas, discutidas, aceitas e respeitadas por outros.”

 

 

“A atitude crítica

A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um “dizer não” aos “pré-conceitos”, aos “pré-juízos”, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido. Numa palavra, é colocar entre parênteses nossas crenças para poder interrogar quais são suas causas e qual é seu sentido.

A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê e o como disso tudo e de nós próprios. “O que é”, “Por que é”, “Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.

A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica. Por que “crítica”?

Em geral, julgamos que a palavra crítica significa ser do contra, dizer que tudo vai mal, que tudo está errado, que tudo é feio ou desagradável. Crítica é mau humor, coisa de gente chata ou pretensiosa que acha que sabe mais que os outros. Mas não é isso que essa palavra quer dizer.

A palavra crítica vem do grego e possui três sentidos principais: 1) “capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente”; 2) “exame racional de todas as coisas sem preconceito e sem pré-julgamento”, 3) “atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma obra artística ou científica”. A atitude filosófica é uma atitude “crítica” porque preenche esses três significados da noção de crítica, a qual, como se observa, é inseparável da noção de racional, que vimos anteriormente.

A filosofia começa dizendo “não” às crenças e aos preconceitos do dia a dia para que possam ser avaliados racional e criticamente, admitindo que não sabemos o que imaginávamos saber.”

 

 

“A filosofia inicia sua investigação num momento muito preciso: naquele instante em que abandonamos nossas certezas cotidianas e não dispomos de nada para substituí-las ou para preencher a lacuna deixada por elas. Em outras palavras, a filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a realidade histórico-social (o mundo dos homens) tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando as opiniões estabelecidas disponíveis já não nos podem satisfazer. Ou seja, a filosofia volta-se preferencialmente para os momentos de crise no pensamento, na linguagem na ação, pois é nesses momentos críticos que se manifesta mais claramente a exigência de fundamentação das ideias, dos discursos e das práticas.

Assim como cada um de nós, quando possui desejo de saber, vai em direção à atitude filosófica ao perceber contradições, incoerências, ambiguidades ou incompatibilidades entre nossas crenças cotidianas, assim também a filosofia tem especial interesse pelos momentos de crise ou momentos críticos, quando sistemas religiosos, éticos, políticos, científicos e artísticos estabelecidos se envolvem em contradições internas ou contradizem-se uns aos outros e buscam transformações e mudanças cujo sentido ainda não está claro e precisa ser compreendido.”

 

 

Essa pergunta, “Para que filosofia”, tem a sua razão de ser. Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática muito visível e de utilidade imediata, de modo que, quando se pergunta “Para quê?” o que se quer saber é: “Qual a utilidade?” “Para que serve isso?” “Que uso proveitoso ou vantajoso posso fazer disso”.

Eis por que ninguém pergunta “Para que as ciências?” pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação dos conhecimentos científicos para criar instrumentos de uso, desde o cronômetro, o telescópio e o microscópio até a luz elétrica, a geladeira, o automóvel, o avião, a máquina de lavar roupa ou louça, o telefone, o rádio, a televisão, o cinema, a máquina de raios X, o computador, os objetos de plástico, etc.

Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte (tidas como mais importantes quanto mais altos forem seus preços no mercado), como porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade (ao mesmo tempo que, paradoxalmente, nossa sociedade é capaz de rejeitá-los e maltratá-los se suas obras forem verdadeiramente revolucionárias e inovadoras, pois, nesses casos, não são “úteis” para o estabelecido). Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a filosofia, donde dizer-se: “Não serve para coisa alguma”.

Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, por meio de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.

Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas admitem a existência da verdade, a necessidade de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, o estabelecimento da tecnologia como aplicação prática de teorias, e, sobretudo, que elas confiam na racionalidade dos conhecimentos, isto é, que eles são válidos não só porque explicam os fatos, mas também porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.

Verdade, pensamento racional, procedimentos especiais para conhecer fatos, aplicação prática de conhecimentos teóricos, correção e acúmulo de saberes: esses objetivos e propósitos das ciências não são científicos, são filosóficos e dependem de questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a filosofia quem as formula e busca respostas para elas.”

 

 

A reflexão filosófica

A palavra “reflexão” é empregada na física para descrever o movimento de propagação de uma onda luminosa ou sonora quando, ao passar de um meio para outro, encontra um obstáculo e retorna ao meio de onde partiu. É esse retorno ao ponto de partida que é conservado quando a palavra é usada na filosofia para significar “movimento de volta sobre si mesmo” ou “movimento de retorno a si mesmo”. A reflexão filosófica é o movimento pelo qual o pensamento, examinando o que é pensado por ele, volta-se para si mesmo como fonte desse pensado. É o pensamento interrogando-se a si mesmo ou pensando-se a si mesmo. É a concentração mental em que o pensamento volta-se para si próprio para examinar, compreender e avaliar suas ideias, suas vontades, seus desejos e sentimentos.

A reflexão filosófica é radical porque vai à raiz do pensamento, pois é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para pensar-se a si mesmo, para conhecer como é possível o próprio pensamento ou o próprio conhecimento.

Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os fatos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem e dos gestos como por meio de ações, comportamentos e condutas. A reflexão filosófica também se volta para compreender o que se passa em nós nessas relações que mantemos com a realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos.

A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:

1. “Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos?” Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?

2. “O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos?” Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?

3. “Para que pensamos que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos?” Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões têm como objetos de indagação o pensamento, a linguagem e a ação e podem ser resumidas em o que é pensar, falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: “O que pensamos, dizemos e fazemos em nossas crenças cotidianas constitui ou não um pensamento verdadeiro, uma linguagem coerente e uma ação dotada de sentido?”

Como vimos, a atitude filosófica inicia-se indagando “O que é”, “Como é?” “Por que é? dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência (O que é?), a significação ou estrutura (Como é?), a origem (Por que é?) e a finalidade (Para que é?) de todas as coisas. É um saber sobre a realidade exterior ao pensamento.

Já a reflexão filosófica, ou o “Conhece-te a ti mesmo”, indaga “Por quê?” “O quê?” “Para quê?” e se dirige ao pensamento, à linguagem e à ação, ou seja, volta-se para os seres humanos. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade para conhecer, falar e agir, próprias dos seres humanos. É um saber sobre o homem como ser pensante, falante e agente, ou seja, sobre a realidade interior dos seres humanos.”

 

 

“Filosofia: um pensamento sistemático

As indagações fundamentais da atitude filosófica e da reflexão filosófica não se realizam ao acaso, segundo preferências e opiniões de cada um de nós. À filosofia não é um “eu acho que” ou um “eu gosto de”. Não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação de massa. Não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores com a finalidade de montar uma estratégia de propaganda.

As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático.

Que significa isso?

A palavra sistema vem do grego, significa “um todo cujas partes estão ligadas por relações de concordância interna”. No caso do pensamento, significa “um conjunto de ideias internamente articuladas e relacionadas, graças a princípios comuns ou a certas regras e normas de argumentação e demonstração que as ordenam e as relacionam num todo coerente”.

Dizer que as indagações filosóficas são sistemáticas significa dizer que a filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou ideias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer “eu acho que”, mas de poder afirmar “eu penso que”.

O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de ideias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente.”

 

 

Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas.

Fundamento é uma palavra que vem do latim e significa “uma base sólida” ou “o alicerce sobre o qual se pode construir com segurança”. Do ponto de vista do conhecimento, significa “a base ou o princípio racional que sustenta uma demonstração verdadeira”. Sob esta perspectiva, fundamentar significa “encontrar, definir e estabelecer racionalmente os princípios, as causas e condições que determinam a existência, a forma e os comportamentos de alguma coisa, bem como as leis ou regras de suas mudanças”.

Teoria vem do grego, no qual significava “contemplar uma verdade com os olhos do espírito”, isto é, uma atividade puramente intelectual de conhecimento. Sob esta perspectiva, uma fundamentação teórica significa “determinar pelo pensamento, de maneira lógica, metódica, organizada e sistemática o conjunto de princípios, causas e condições de alguma coisa (de sua existência, de seu comportamento, de seu sentido e de suas mudanças)”.

Como vimos há pouco, crítica também é uma palavra grega, que significa “a capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente”, “o exame racional de todas as coisas sem preconceito e sem pré-julgamento” e a “atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma obra artística ou científica”. Sob essa perspectiva, fundamentação crítica significa “examinar, avaliar e julgar racionalmente os princípios, as causas e condições de alguma coisa (de sua existência, de seu comportamento, de seu sentido e de suas mudanças)”.

Como fundamentação teórica e critica, a filosofia ocupa-se com os princípios, as causas e condições do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos, religiosos, artísticos e culturais; com a compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e coletivo; com os princípios, as causas e condições das transformações históricas dos conceitos, das ideias, dos valores e das práticas humanas.

Por isso, a filosofia volta-se para o estudo das várias formas de conhecimento (percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão) e dos vários tipos de atividades interiores e comportamentos externos dos seres humanos como expressões da vontade, do desejo e das paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos dessas formas de conhecimento e desses tipos de atividade e comportamento como relação do ser humano com o mundo, consigo mesmo e com os outros.

Para realizar seu trabalho, a filosofia investiga e interpreta o significado de ideias gerais como: realidade, mundo, natureza, cultura, história, verdade, falsidade, humanidade, temporalidade, espacialidade, qualidade, quantidade, subjetividade, objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, necessidade, possibilidade, probabilidade, etc.

A atividade filosófica é, portanto, uma análise (das condições e princípios do saber e da ação, isto é, dos conhecimentos, da ciência, da religião, da arte, da moral, da política e da história), uma reflexão (volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se como capacidade para o conhecimento, a linguagem, o sentimento e a ação) e uma crítica (avaliação racional para discernir entre a verdade e a ilusão, a liberdade e a servidão, investigando as causas e condições das ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das ilusões e dos enganos das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas, dos preconceitos religiosos e sociais, da presença e difusão de formas de irracionalidade contrárias ao exercício do pensamento, da linguagem e da liberdade).

Essas três atividades (análise, reflexão e critica) estão orientadas pela elaboração filosófica de ideias gerais sobre a realidade e os seres humanos. Portanto, para que essas três atividades se realizem, é preciso que a filosofia se defina como busca do fundamento (princípios, causas e condições) e do sentido (significação e finalidade) da realidade em suas múltiplas formas, indagando o que essas formas de realidade são, como são e por que são, e procurando as causas que as fazem existir, permanecer, mudar e desaparecer.

A filosofia não é ciência: é uma reflexão sobre os fundamentos da ciência, isto é, sobre procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão sobre os fundamentos da religião, isto é, sobre as causas, origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é uma reflexão sobre os fundamentos da arte, isto é, sobre os conteúdos, as formas, as significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder e suas mudanças. Não é história, mas reflexão sobre o sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo.”

 

 

“A filosofia surgiu quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos naturais e as coisas da natureza, os acontecimentos humanos e as ações dos seres humanos podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma.

Em suma, a filosofia surgiu quando alguns pensadores gregos se deram conta de que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso que precisasse ser revelado por divindades a alguns escolhidos, mas que, ao contrário, podia ser conhecida por todos por meio das operações mentais de raciocínio, que são as mesmas em todos os seres humanos. Esses pensadores descobriram também que a linguagem respeita as exigências do pensamento e que, por esse mesmo motivo, os conhecimentos verdadeiros podem ser transmitidos e ensinados a todos.”

 

 

“Um dos legados mais importantes da filosofia grega é, portanto, a diferença entre o necessário (o que não pode ser senão como é) e o contingente (o que pode ser ou não ser, o que pode ser de uma maneira ou da maneira oposta), bem como a diferença, no interior do contingente, entre o acaso e o possível. O contingente é o que pode ou não acontecer na natureza ou entre os homens; o acaso é a contingência nos acontecimentos da natureza; o possível é a contingência nos acontecimentos humanos. Dessa maneira, os filósofos gregos nos deixaram a ideia de que podemos diferenciar entre o necessário, o acaso e o possível em nossas ações: o necessário é o que não está em nosso poder escolher, pois acontece e acontecerá sempre, independentemente de nossa vontade (não depende de nós que o Sol brilhe, que haja dia e noite, que a matéria se transforme em energia quando sua velocidade é o quadrado da velocidade da luz); o acaso é o que também não está em nosso poder escolher (não escolho que aconteça uma tempestade justamente quando estou fazendo uma viagem de navio ou de avião, nem escolho estar num veículo que será destruído por um outro, dirigido por um motorista embriagado); o possível, ao contrário do necessário e do acaso, é exatamente o que temos poder de escolher e fazer, é o que está em nosso poder.

Essas diferenciações legadas pela filosofia grega nos permitem evitar tanto o fatalismo — “tudo é necessário, temos que nos conformar com o destino e nos resignar com o nosso fado” —, como também evitar a ilusão de que podemos tudo quanto quisermos, pois a natureza segue leis necessárias que podemos conhecer e nem tudo é possível, por mais que o queiramos.”

 

 

As principais características da cosmologia (o período pré-socrático da filosofia) são:

·        É uma explicação racional e sistemática sobre a origem, ordem e transformação da natureza, da qual os seres humanos fazem parte, de modo que, ao explicar a natureza, a filosofia também explica a origem e as mudanças dos seres humanos.

·        Busca o princípio natural, eterno, imperecível e imortal, gerador de todos os seres. Em outras palavras, a cosmologia não admite a criação do mundo a partir do nada, mas afirma a geração de todas coisas por um princípio natural de onde tudo vem e para onde tudo retorna. Esse princípio é uma natureza primordial e chama-se physis, sendo ele a causa natural contínua e imperecível da existência de todos os seres e de suas transformações. A physis não pode ser conhecida pela percepção sensorial (esta só nos oferece as coisas já existentes), mas apenas pelo pensamento. Em outras palavras, ela é aquilo que o pensamento descobre quando indaga qual é a causa da existência e da transformação de todos os seres percebidos. A physis é a natureza tomada em sua totalidade, isto é, a natureza entendida como princípio e causa primordial da existência e das transformações das coisas naturais (os seres humanos aí incluídos) e entendida como o conjunto ordenado e organizado de todos os seres naturais ou físicos.

·        Afirma que, embora a physis (o princípio ou o elemento primordial eterno) seja imperecível, ela dá origem a todos os seres infinitamente variados e diferentes do mundo, seres que, ao contrário do princípio gerador, são perecíveis ou mortais. A physis é imortal e as coisas físicas são mortais.

·        Afirma que, embora a physis seja imutável, os seres físicos ou naturais gerados por ela, além de serem mortais, são mutáveis ou seres em contínua transformação, mudando de qualidade (por exemplo, o branco amarelece, acinzenta, enegrece; o negro acinzenta, embranquece; o novo envelhece; o quente esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; o dia se torna noite; a noite se torna dia; a primavera cede lugar ao verão, que cede lugar ao outono, que cede lugar ao inverno; o saudável adoece; o doente se cura; a criança cresce; a árvore vem da semente e produz sementes, etc.) e mudando de quantidade (o pequeno cresce e fica grande; o grande diminui e fica pequeno; o longe fica perto se eu for até ele ou se as coisas distantes chegarem até mim, um rio aumenta de volume na cheia e diminui na seca, etc.). Portanto, o mundo está numa mudança contínua, sem por isso perder sua forma, sua ordem e sua estabilidade.

A mudança — nascer, mudar de qualidade ou de quantidade, perecer — se diz em grego kínesis, palavra que significa “movimento”. Por movimento, os gregos não entendem apenas a mudança de lugar ou a locomoção, mas toda e qualquer alteração ou mudança qualitativa e/ou quantitativa de um ser, bem como seu nascimento e seu perecimento. Às coisas naturais, isto é, todos os seres existentes, se movem ou são movidos por outros seres e o mundo está em movimento ou transformação permanente. O movimento das coisas e do mundo chama-se devir e o devir segue leis rigorosas que o pensamento conhece. Essas leis são as que mostram que toda mudança é a passagem de um estado ao seu contrário: dia-noite, claro-escuro, quente-frio, seco-úmido, novo-velho, pequeno-grande, bom-mau, cheio-vazio, um-muitos, vivo-morto, etc., e também no sentido inverso, noite-dia, escuro-claro, frio-quente, muitos-um, etc. O devir é, portanto, a passagem contínua de uma coisa ao seu estado contrário e essa passagem não é caótica, mas obedece a leis determinadas pela physis ou pelo princípio fundamental do mundo.

Embora todos os pré-socráticos afirmassem as ideias que acabamos de expor, nem por isso concordaram ao determinar o que era a physis, e cada filósofo encontrou motivos e razões para determinar qual era o princípio eterno e imutável que está na origem da natureza e de suas transformações. Assim, Tales dizia que a physis era a água ou o úmido; Anaximandro considerava que era o ilimitado, sem qualidades definidas; Anaxímenes, que era o ar ou o frio; Pitágoras julgava que era o número (entendido como estrutura e relação proporcional entre os elementos que compõem as coisas); Heráclito afirmou que era o fogo; Empédocles, que eram quatro raízes (úmido, seco, quente e frio); Anaxágoras, que eram sementes que continham os elementos de todas as coisas; Leucipo e Demócrito disseram que eram os átomos.”

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Um copo de cólera, de Raduan Nassar

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-7164-243-0

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 88

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Sinopse: Texto virulento, narrado em primeira pessoa e com escassos pontos finais, sobre a relação entre homem e mulher e a oposição entre paixão e racionalidade. De uma potência verbal impressionante, como se a força do conteúdo fosse capaz de dilacerar a tessitura da prosa.

“O corpo antes da roupa”, afirma o personagem de Um copo de cólera ao narrar o que acontece numa manhã qualquer, depois de uma noite de amor, quando a aparente harmonia entre ele e sua parceira se rompe de repente. Por um motivo banal (aparentemente), os dois se atracam num rude bate-boca, as paixões afloram, um palco se ilumina, e aqueles personagens ressurgem de manhã fazendo o mesmo que fizeram à noite: voltam, de certo modo, a tirar a roupa do corpo.

Tensa, contundente, a linguagem de Um copo de cólera alcança tal intensidade e vibração que faz desta narrativa uma obra singular na literatura brasileira, um clássico dos nossos tempos, celebrado por milhares de leitores e estudado por nossa melhor crítica.



 

““Pra julgar o que digo e o que faço tenho os meus próprios tribunais, não delego isso a terceiros, não reconheço em ninguém — absolutamente em ninguém — qualidade moral pra medir meus atos”.”

 

 

“Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes...”.”

 

 

““Me sinto hoje desobrigado, é certo que teria preferido o fardo do compromisso ao fardo da liberdade; não tive escolha, fui escolhido, e, se de um lado me revelaram o destino, o destino de outro se encarregou de me revelar: não respondo absolutamente por nada, já não sou dono dos meus próprios passos, transito por sinal numa senda larga, tudo o que faço, eu já disse, é pôr um olho no policial da esquina, o outro nas orgias da clandestinidade” “não posso descuidar que ele logo decola com o verbo... corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida; não me venha pois com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você bizarramente batiza de ‘história’; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um — essa questãozinha que vive te fundindo a cuca — o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co’a mão amiga dos assassinos; aliás, teus altíssimos níveis de aspiração, tuas veleidades tolas de perfeccionista tinham mesmo de dar nisso: no papo autoritário dum reles iconoclasta — o velho macaco na casa de louças, falando ainda por cima nesse tom trágico como protótipo duma classe agônica... sai de mim, carcaça!” e logo ela tachava minha performance de catártica (“pura catarse” ela engrolou), palavra c’um terrífico poder demolidor e que — pelo uso imprudente, ou pelo abuso — transformava o próprio cérebro da pilantra num cogumelo nuclear.”

 

 

““Desde já é fácil de prever o teu futuro: além de jornalista exímia, você preenche brilhantemente os requisitos como membro da polícia feminina; aliás, no abuso do poder, não vejo diferença entre um redator-chefe e um chefe de polícia, como de resto não há diferença entre dono de jornal e dono de governo, em conluio, um e outro, com donos de outros gêneros” “não é comigo, solene delinquente, mas com o povo que você há de se haver um dia” “pense, pilantra, uma vez sequer nessa evidência, ainda que isso seja estranho ao teu folclore, ainda que a disciplina das tuas orelhas não se preste a tanta dissonância: o povo nunca chegará ao poder!” “louquinho da aldeia!... entrou de vez em convulsão, sabe-se lá o que ainda vem desse transe paroxístico...” “o povo nunca chegará ao poder! não seria pois com ele que teria um dia de me haver ofendido e humilhado, povo é só, e será sempre, a massa dos governados; diz inclusive tolices, que você enaltece, sem se dar conta de que o povo fala e pensa, em geral, segundo a anuência de quem o domina; fala, sim, por ele mesmo, quando fala (como falo) com o corpo, o que pouco adianta, já que sua identidade jamais se confunde com a identidade de supostos representantes, e que a força escrota da autoridade necessariamente fundamenta toda ‘ordem’, palavra por sinal sagaz que incorpora, a um só tempo, a insuportável voz de comando e o presumível lugar das coisas; claro que o povo pode até colher benefícios, mas sempre como massa de manobra de lideranças emergentes; por isso vá em frente, pilantra — com o povo na boca, papagueando sua fala tosca, sem dúvida pitoresca, embora engrossando co’arremedo a sufocante corda dos cordeiros, exatamente como o impassível ventríloquo que assenta paternalmente os miúdos sobre os joelhos, denunciando inclusive trapaças com sua arte, ainda que trapaceando ele mesmo ao esconder a própria voz; mas não se preocupe, pilantra, você chega lá... montadinha, é claro, numa revolta usurpada, montadinha numa revolta de segunda mão; quanto a este tresmalhado, ou delinquente, te digo somente que ninguém dirige aquele que Deus extravia! não aceito pois nem a pocilga que está aí, nem outra ‘ordem’ que se instale, olhe bem aqui...” eu disse chegando ao pico da liturgia, e foi pensando na suposta subida do meu verbo que eu, pra compensar, abaixei sacanamente o gesto “tenho colhão, sua pilantra, não reconheço poder algum!” “hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil, rebento do anarquismo!... há-há-há... dogmático, caricato e debochado... há-há-há...” “entenda, pilantra, toda ‘ordem’ privilegia” “entenda, seu delinquente, que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta” “força bruta sem rodeios, sem lei que legitime” “estou falando da lei da selva” “mas que não finge a pudicícia, não deixa lugar pro farisaísmo, e nem arrola indevidamente uma razão asséptica, como suporte” “pois vista uma tanga, ou prescinda mesmo dela, seu gorila” “dispenso a exortação, fique aí, no círculo da tua luz, e me deixe aqui, na minha intensa escuridão, não é de hoje que chafurdo nas trevas: não cultivo a palidez seráfica, não construo com os olhos um olhar pio, não meto nunca a cara na máscara da santidade, nem alimento a expectativa de ver a minha imagem entronada num altar; ao contrário dos bons samaritanos, não amo o próximo, nem sei o que é isso, não gosto de gente, para abreviar minhas preferências; afinal, alguém precisa, pilantra — e uso aqui tua palavrinha mágica — ‘assumir’ o vilão tenebroso da história, alguém precisa assumi-lo pelo menos pra manter a aura lúcida, levitada sobre tua nuca; assumo pois o mal inteiro, já que há tanto de divino na maldade, quanto de divino na santidade; e depois, pilantra, se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado”.”

sábado, 20 de dezembro de 2025

Modelo vivo, de Laerte

Editora: Barricada

ISBN: 978-85-7559-523-7

Organização: Toninho Mendes

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 88

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Sinopse: A Laerte que emerge dessa abertura para novas questões e desafios está presente nos desenhos baseados em modelos humanos, produzidos no decorrer de um curso livre organizado em 2013, junto com o filho Rafael Coutinho. Neles, Laerte retorna às origens, antes da profissionalização, e deixa de lado vários procedimentos que consolidaram seu lugar na história gráfica, como o uso de personagens e o traço ‘humorístico’. O livro também remete a um retrato histórico, por trazer uma seleção de histórias em quadrinhos – algumas já publicadas, outras muito pouco conhecidas e uma inédita – publicadas nas décadas de 1980 e 1990, em fanzines e revistas icônicas da Circo Editorial, como Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Geraldão, Circo e Cachalote. Desenhos do passado e do presente se intercalam, revelando ao mesmo tempo um forte contraste e a possibilidade de uma imersão criativa na obra da artista. O volume é organizado por Toninho Mendes, ex-editor das revistas da Circo Editorial.


Comentário: Modelo vivo é um compilado de tirinhas e desenhos. Os 5 desenhos que mais gostei estão logo abaixo. 







quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Peter Pan, de J. M. Barrie

Editora: Zahar

ISBN: 978-85-378-0890-0

Notas: Thiago Lins

Tradução: Júlia Romeu

Ilustrações: F. D. Bedford

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 224

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Sinopse: “Todas as crianças crescem, menos uma.” Como pó de fada, há cem anos estas palavras transportam os leitores para um mundo mágico, povoado pela família Darling e pelos habitantes da Terra do Nunca - Peter Pan, os meninos perdidos, Sininho, crocodilos, sereias, o Capitão Gancho e seus piratas...

Um dos mais populares clássicos infantis, Peter Pan é uma história que, como Alice no País das Maravilhas, une gerações, contagiando também adultos com sua energia, imaginação e um enredo que permite diversos níveis de interpretação.

Essa edição comentada e ilustrada traz o texto integral de J.M. Barrie, notas explicativas de Thiago Lins, apresentação da escritora Flávia Lins e Silva e ilustrações originais de F.D Bedford para a primeira edição de Peter Pan, em 1911. A versão impressa apresenta ainda capa dura e acabamento de luxo.


 

“A sra. Darling ouviu falar de Peter pela primeira vez quando estava organizando as mentes de seus filhos. À noite, todas as boas mães esperam seus filhos irem dormir para remexer suas mentes e arrumar tudo para a manhã seguinte, recolocando nos locais certos os diversos itens que saíram do lugar ao longo do dia. Se você conseguisse ficar acordado (mas é claro que não consegue), ia ver sua mãe fazendo isso, e ia achar muito interessante observá-la. É igualzinho a arrumar gavetas. Você a veria de joelhos, imagino eu, olhando divertida para parte do conteúdo, perguntando-se onde você arrumara aquilo, fazendo descobertas doces e outras nem tão doces, apertando as primeiras contra o rosto como se fossem tão lindas quanto um gatinho e escondendo as outras bem depressa num canto onde ninguém vai ver. Quando você acorda de manhã, as traquinagens e má-criações com as quais foi dormir foram dobradas até ficarem bem pequenas e guardadas no fim da pilha da sua mente; na parte de cima, bem arejados, estão espalhados seus pensamentos mais bonitos, prontinhos para você usar.

Não sei se você já viu o mapa da mente de alguém. Os médicos às vezes fazem mapas de outras partes de você, e o seu mapa pode se tornar bastante interessante. Mas olhe o que acontece quando eles tentam fazer um mapa da mente de uma criança, que, além de ser confusa, dá voltas sem parar. O mapa tem linhas em zigue-zague iguais às dos gráficos de temperatura, e elas provavelmente são as estradas da ilha, pois a Terra do Nunca11 é sempre mais ou menos uma ilha, com pinceladas maravilhosas de cor aqui e ali, e recifes de coral e barcos velozes prontos para zarpar, e esconderijos selvagens e secretos, e gnomos que quase sempre são alfaiates, e cavernas atravessadas por rios, e príncipes com seis irmãos mais velhos, e uma cabana caindo aos pedaços, e uma velhinha bem baixinha com um nariz de gavião. Seria um mapa fácil se só tivesse isso; mas também tem o primeiro dia de aula, as rezas, os pais, o laguinho, as lições de costura, os assassinatos, os enforcamentos, os verbos transitivos diretos, o dia que tem sobremesa de chocolate, os primeiros suspensórios, o diga trinta e três, uma moeda se você arrancar seu dente sozinho, e por aí vai; e isso ou faz parte da ilha ou de outro mapa que aparece por baixo. E é tudo muito confuso, principalmente porque nada para quieto.

É claro que as Terras do Nunca variam muito. A de João, por exemplo, tinha uma lagoa com flamingos voando em cima, nos quais ele atirava. Já a de Miguel, que era muito pequeno, tinha um flamingo com lagoas voando em cima. João morava num barco emborcado sobre a areia, Miguel numa oca de índio e Wendy numa casa de folhas muito bem costuradas. João não tinha amigos, Miguel tinha amigos à noite, Wendy tinha um lobo de estimação que havia sido abandonado pelos pais. Mas, em geral, as Terras do Nunca têm semelhanças entre si como os membros de uma família e, se elas ficassem paradas uma do lado da outra, você ia poder dizer que têm o mesmo nariz e coisas assim. Nessas praias mágicas as crianças sempre irão ancorar seus barquinhos. Nós também já estivemos lá; ainda podemos ouvir o barulho das ondas, mas nunca mais vamos desembarcar.”

11. “Never-Never” (Nunca-Nunca) era o modo como se descreviam algumas das regiões inabitadas da Austrália no século XIX. Nos primeiros esboços da peça, a ilha de Peter Pan era chamada “Never Never Never Land”, em vez de apenas Neverland (Terra do Nunca)”

 

 

Peter não entendeu nada, mas Wendy, sim. E ela ficou só um pouquinho desapontada quando ele admitiu que havia se aproximado da janela do quarto das crianças não para vê-la, mas para ouvir as histórias.

– Sabe, não conheço história nenhuma. Nenhum Menino Perdido conhece história nenhuma.

– Que coisa mais horrível! – disse Wendy.

– Você sabe por que as andorinhas fazem ninho nos beirais dos telhados das casas? É para ouvir as histórias. Ah, Wendy, sua mãe estava lhe contando uma história tão linda!”

 

 

Wendy, João e Miguel ficaram nas pontas dos pés no ar para poderem ver a ilha pela primeira vez. É estranho, mas eles todos a reconheceram no mesmo segundo. E, até começarem a ter medo dela, não sentiram o que a gente sente quando vê ao vivo algo com que já sonhamos muitas vezes, mas o que sentimos quando reencontramos um amigo querido que não vemos há muito tempo.”

 

 

– O que eu mais quero na vida – disse Gancho, veemente – é o capitão deles, Peter Pan. Foi ele que cortou minha mão – continuou ele, brandindo ameaçadoramente o gancho de ferro. – Faz tempo que espero para apertar a mão dele com isso aqui. Ah, mas eu vou acabar com ele.

– Mas eu já ouvi o senhor dizer muitas vezes que esse gancho vale mais do que mil mãos – disse Barrica –, para pentear o cabelo e outros afazeres domésticos.

– Sim – respondeu o capitão. – Se eu fosse uma mãe, ia rezar para que meus filhos nascessem com isto em vez disso.

E ele olhou orgulhosamente para sua mão de ferro e com desprezo para a outra. Depois, voltou a franzir o cenho.

– Peter jogou a minha mão para um crocodilo que por acaso estava passando – disse Gancho, contraindo-se de raiva.

– Eu já notei o estranho medo que o senhor tem de crocodilo – disse Barrica.

– De crocodilo, não – corrigiu Gancho. – Daquele crocodilo.

Ele continuou, falando mais baixo:

– Ele gostou tanto da minha mão, Barrica, que me segue desde aquele dia, de mar em mar e de terra em terra, lambendo os beiços e querendo o resto de mim.

– Não deixa de ser um elogio – disse Barrica.

– Não quero um elogio desses! – rosnou Gancho com petulância. – Quero Peter Pan, que deu o primeiro gostinho de mim para a fera.

Ele se sentou num enorme cogumelo, e sua voz ficou trêmula.

– Barrica – disse Gancho roucamente –, esse crocodilo já teria conseguido me comer, se não fosse a sorte de ele ter engolido um relógio que faz tic-tac dentro da barriga dele. Com isso, antes de ele conseguir chegar perto de mim, ouço o tic-tac e saio correndo – ele riu, mas sem alegria.

– Um dia a corda do relógio vai acabar, e aí ele vai pegar o senhor – disse Barrica.

Gancho molhou os lábios ressecados.

– É – disse ele. – Esse é o medo que me persegue.”

 

 

– João, vamos acordar a Wendy e pedir para ela fazer um jantar para nós – propôs Miguel.

Mas, quando ele disse isso, alguns dos outros meninos apareceram correndo, trazendo galhos para construir a casa.

– Olhe só para eles! – exclamou Miguel.

– Caracol – disse Peter em seu tom mais capitanesco –, mande esses meninos ajudarem na construção da casa.

– Sim, senhor.

– Construção da casa? – disse João.

– Para a Wendy – disse Caracol.

– Para a Wendy? – disse João, escandalizado. – Ora, mas ela é só uma menina!

– É por isso que nós somos os empregados dela – explicou Caracol.

– Vocês? Empregados da Wendy?!

– Isso – disse Peter. – E vocês também. Andem logo!

Os aturdidos irmãos foram arrastados e obrigados a cortar, serrar e carregar madeira.

– Primeiro, a gente faz as cadeiras e o guarda-fogo da lareira – mandou Peter. – Depois, construímos a casa em volta deles.

– Isso – disse Magrelo. – É assim que uma casa é construída. Acabei de me lembrar.

Peter pensava em tudo.

– Magrelo, vá buscar um médico – mandou ele.

– Sim, senhor – disse Magrelo imediatamente.

Ele saiu dali, coçando a cabeça. Mas Magrelo sabia que Peter tinha que ser obedecido e logo voltou, usando a cartola de João e fazendo uma cara muito séria.

– Com licença, senhor – disse Peter, se aproximando dele. – O senhor é médico?

A diferença de Peter para os outros meninos em momentos como aquele é que eles sabiam que aquilo era faz de conta, enquanto para Peter faz de conta e realidade eram exatamente a mesma coisa. Isso às vezes perturbava os meninos, como quando eles tinham que fazer de conta que já tinham jantado. Se parassem a brincadeira no meio, Peter dava palmadas nas mãos deles.

– Sim, rapazinho – respondeu ansiosamente Magrelo, que já tinha a mão esfolada de tanto levar palmada.”

 

 

O que a perturbava, às vezes, era que João só lembrava vagamente dos pais, como pessoas que havia conhecido um dia, enquanto Miguel sempre se confundia e achava que Wendy era sua mãe de verdade. Isso deixava Wendy um pouco assustada e, com o nobre propósito de fazer a coisa certa, ela tentava ajudá-los a lembrar melhor da vida antiga obrigando-os a fazer provas sobre o assunto, muito parecidas com aquelas que costumava fazer na escola. Os outros meninos achavam isso tudo muito interessante, e insistiam em participar. Eles arrumavam um lugar onde pudessem anotar as respostas e sentavam à mesa, escrevendo e quebrando a cabeça com as perguntas que Wendy escrevia num caderno improvisado e passava de mão em mão. Eram as perguntas mais fáceis do mundo: “Qual era a cor dos olhos da mamãe? Quem era mais alto, o papai ou a mamãe? A mamãe era loura ou morena? Responda todas as três, se possível.” Ou: “(A) Escreva uma redação de não menos de 40 palavras sobre o tema ‘Como eu passei meu último Natal’ ou o tema ‘Uma comparação das personalidades do papai e da mamãe’. É preciso escolher um dos temas.” Ou: “(1) Descreva a risada da mamãe; (2) Descreva a risada do papai; (3) Descreva o vestido de festa da mamãe; (4) Descreva a casinha de cachorro e quem dorme nela.” (...)

Peter não participava da brincadeira. Em primeiro lugar, ele desprezava todas as mães, com exceção de Wendy; e, em segundo lugar, era o único menino da ilha que não sabia ler nem escrever; nem a menor palavrinha. Ele estava acima dessas coisas.

Aliás, as perguntas sempre eram escritas no passado. Qual era a cor dos olhos da mamãe e por aí vai. Pois Wendy também estava esquecendo.

As aventuras, como nós vamos ver a seguir, aconteciam todos os dias na ilha; mas nessa época Peter, com a ajuda de Wendy, inventou uma brincadeira nova que o deixou inteiramente fascinado até que, de repente, ele perdeu o interesse por ela, que, como você já sabe, era o que sempre acontecia com as brincadeiras dele. A brincadeira era fingir que não existiam aventuras e fazer o tipo de coisa que João e Miguel tinham feito a vida toda: sentar em bancos, jogar uma bola para cima, empurrar uns aos outros, sair para dar uma caminhada e voltar sem ter matado nem mesmo um urso. Ver Peter sentadinho num banco sem fazer nada era muito engraçado; ele às vezes não conseguia se controlar e fazia uma cara muito séria, pois achava que não fazer nada era uma coisa hilária. E se gabava que tinha ido dar uma caminhada pelo bem de sua saúde como quem estivesse contando uma vantagem. Durante muitos sóis, essa foi a aventura mais diferente do mundo para ele; e João e Miguel tinham que fingir estar adorando aquilo também, ou levavam a maior bronca.

Peter muitas vezes saía sozinho e, quando voltava, os outros nunca tinham certeza absoluta se havia ou não tido uma aventura. Ele às vezes esquecia tão completamente dela que não falava nada; e aí alguém saía de casa e encontrava o corpo. Por outro lado, às vezes falava muito da aventura, mas ninguém encontrava corpo nenhum. Em outras ocasiões, Peter chegava em casa com um curativo na cabeça, e Wendy o mimava e lavava o ferimento com água morna enquanto ele falava sobre seu impressionante feito. Porém ela nunca tinha certeza se aquilo acontecera de verdade.

Mas muitas aventuras Wendy sabia que haviam acontecido mesmo, pois ela própria participara delas. E outras que eram verdade pelo menos em parte, pois os outros meninos haviam participado e diziam que eram completamente verdade. Para descrever todas, seria necessário um livro tão grande quanto um dicionário de latim, e o máximo que eu posso fazer é dar uma como exemplo de uma hora como qualquer outra na Terra do Nunca. A dificuldade é qual escolher. A briga com os peles-vermelhas na Ravina Magrelo? Foi uma batalha sangrenta e especialmente interessante, pois mostra uma das peculiaridades de Peter, que era que, no meio de uma briga, ele às vezes trocava de lado de repente. Na Ravina, quando ainda não era possível saber qual dos dois lados ia ganhar, sendo que ora um, ora outro parecia estar levando vantagem, ele gritou:

– Eu sou pele-vermelha hoje! E você, Firula?

E Firula respondeu:

– Pele-vermelha! E você, Bico?

E Bico disse:

– Pele-vermelha! E você, Gêmeo?

E por aí foi. Todos eles viraram peles-vermelhas, e é claro que isso teria acabado com a briga se os verdadeiros peles-vermelhas, fascinados com os métodos de Peter, não houvessem concordado em ser meninos perdidos só daquela vez. Assim, tudo recomeçou, mais violento do que nunca.

O extraordinário resultado dessa aventura foi que… mas eu ainda não decidi se essa vai ser a aventura que vou narrar. Talvez seja melhor contar aquela sobre o ataque noturno dos peles-vermelhas à casa debaixo da terra, quando diversos deles ficaram entalados nas árvores ocas e tiveram que ser arrancados de lá como rolhas. Ou eu posso contar como Peter salvou a vida de Princesa Tigrinha na Lagoa das Sereias, transformando-a numa aliada.

Ou eu posso falar do bolo que os piratas fizeram para que os meninos comessem e morressem; e sobre como o colocaram em diversos lugares diferentes, cada um mais estratégico do que outro; mas Wendy sempre arrancava o bolo das mãos de seus filhos e, após algum tempo, ele perdeu sua suculência e ficou duro como uma pedra. O bolo acabou sendo usado numa catapulta, e Gancho tropeçou nele no escuro e caiu.

Quem sabe eu falo dos pássaros que eram amigos de Peter, particularmente da fêmea de Pássaro do Nunca, que fez seu ninho numa árvore que se debruçava sobre a lagoa. O ninho caiu na água, mas mesmo assim ela continuou chocando seus ovos, e Peter ordenou que os meninos perdidos não a incomodassem. Essa é uma história bonita, e o final mostra quanta gratidão um pássaro é capaz de sentir; mas, se eu for contar, tenho que contar logo toda a aventura da lagoa, o que, é claro, faria com que estivesse contando duas aventuras em vez de uma. Uma aventura menor, mas tão arrepiante quanto essa, foi a vez em que Sininho, com a ajuda de algumas fadas bandidas, se aproveitou do fato de Wendy estar dormindo para colocá-la em cima de uma folha enorme e tentar fazer com que esta fosse boiando para longe da ilha. Felizmente a folha afundou e Wendy acordou, achando que estava na hora do banho, e nadou de volta. Ou eu posso falar também do dia em que Peter desafiou os leões, usando uma flecha para desenhar um círculo em torno de si no chão e perguntando quem tinha coragem de pisar ali dentro. Ele passou horas esperando, com os outros meninos e Wendy observando apavorados de cima das árvores, mas ninguém ousou aceitar o desafio.

Qual dessas aventuras a gente vai escolher? O melhor jeito é tirar cara ou coroa.

Já tirei, e a aventura da lagoa ganhou. Isso quase me faz desejar que a aventura da ravina, do bolo ou de Sininho houvesse ganhado. É claro que eu poderia jogar a moeda de novo e fazer melhor de três; mas acho que é mais justo ficar com a da lagoa mesmo.”

 

 

Estranhamente, não foi na água que eles se encontraram. Gancho subiu na pedra para dar uma respirada e, ao mesmo tempo, Peter escalou o outro lado. A pedra estava escorregadia como uma bola, e eles tinham que subir nela engatinhando. Nenhum dos dois sabia que o outro estava logo ali. Ao tatearem, procurando um lugar para se agarrar, encontraram o braço um do outro. Surpresos, ergueram as cabeças; seus rostos estavam quase encostando. Foi assim que eles ficaram frente a frente.

Alguns dos maiores heróis da História já confessaram que, logo antes de entrar numa briga, sentiram medo. Se isso houvesse acontecido com Peter naquele momento, eu admitiria. Afinal, aquele era o único homem que botava medo no Long John Silver. Mas Peter não sentiu medo, só sentiu uma coisa: júbilo. E rangeu seus lindos dentinhos com alegria. Rápido como um raio, ele arrancou uma faca do cinto de Gancho e estava prestes a enfiá-la no pirata quando viu que estava mais para cima da pedra que seu inimigo. E isso não teria sido justo. Assim, Peter ofereceu a mão a Gancho para ajudá-lo a subir.

Foi aí que Gancho o feriu.

Peter ficou atordoado não por causa da dor, mas por causa da injustiça. Aquilo o deixou completamente indefeso. Ele só conseguiu olhar para Gancho, horrorizado. Toda criança se sente assim da primeira vez que é tratada com injustiça. Quando a criança se aproxima de você, querendo se entregar a você, a única coisa que ela pensa que merece é um tratamento justo. Depois que você for injusto com ela, ela vai voltar a amá-lo, mas nunca mais vai voltar a ser a mesma criança. Ninguém nunca se recupera da primeira injustiça; ninguém, exceto Peter. Ele sempre sofria injustiças, mas sempre as esquecia. Acho que essa era a verdadeira diferença entre ele e todos os outros.”