Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-7164-243-0
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 88
Link para compra: Clique aqui
Sinopse: Texto virulento, narrado em primeira pessoa e com escassos pontos finais, sobre a relação entre homem e mulher e a oposição entre paixão e racionalidade. De uma potência verbal impressionante, como se a força do conteúdo fosse capaz de dilacerar a tessitura da prosa.
“O corpo antes da roupa”, afirma o personagem de Um copo de cólera ao narrar o que acontece numa manhã qualquer, depois de uma noite de amor, quando a aparente harmonia entre ele e sua parceira se rompe de repente. Por um motivo banal (aparentemente), os dois se atracam num rude bate-boca, as paixões afloram, um palco se ilumina, e aqueles personagens ressurgem de manhã fazendo o mesmo que fizeram à noite: voltam, de certo modo, a tirar a roupa do corpo.
Tensa, contundente, a linguagem de Um copo de cólera alcança tal intensidade e vibração que faz desta narrativa uma obra singular na literatura brasileira, um clássico dos nossos tempos, celebrado por milhares de leitores e estudado por nossa melhor crítica.
““Pra julgar o que digo e o que faço tenho os
meus próprios tribunais, não delego isso a terceiros, não reconheço em ninguém
— absolutamente em ninguém — qualidade moral pra medir meus atos”.”
“Já foi o tempo em que via a convivência como
viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o
tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder
contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência
escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não
tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é
esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora
minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo
estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se
reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências
humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos
valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em
que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a
humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho
medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando
hoje o cinismo dos grandes indiferentes...”.”
““Me sinto hoje desobrigado, é certo que
teria preferido o fardo do compromisso ao fardo da liberdade; não tive escolha,
fui escolhido, e, se de um lado me revelaram o destino, o destino de outro se
encarregou de me revelar: não respondo absolutamente por nada, já não sou dono
dos meus próprios passos, transito por sinal numa senda larga, tudo o que faço,
eu já disse, é pôr um olho no policial da esquina, o outro nas orgias da clandestinidade”
“não posso descuidar que ele logo decola com o verbo... corta essa de solene,
desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito
fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida; não me venha pois
com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa
parafernália enfim que você bizarramente batiza de ‘história’; se o nosso
metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções
racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que
sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob
controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um
— essa questãozinha que vive te fundindo a cuca — o que conta mesmo é mandar a
bola pra frente, se empurra também a história co’a mão amiga dos assassinos;
aliás, teus altíssimos níveis de aspiração, tuas veleidades tolas de
perfeccionista tinham mesmo de dar nisso: no papo autoritário dum reles
iconoclasta — o velho macaco na casa de louças, falando ainda por cima nesse
tom trágico como protótipo duma classe agônica... sai de mim, carcaça!” e logo
ela tachava minha performance de catártica (“pura catarse” ela engrolou),
palavra c’um terrífico poder demolidor e que — pelo uso imprudente, ou pelo
abuso — transformava o próprio cérebro da pilantra num cogumelo nuclear.”
““Desde já é fácil de prever o teu futuro:
além de jornalista exímia, você preenche brilhantemente os requisitos como
membro da polícia feminina; aliás, no abuso do poder, não vejo diferença entre
um redator-chefe e um chefe de polícia, como de resto não há diferença entre
dono de jornal e dono de governo, em conluio, um e outro, com donos de outros
gêneros” “não é comigo, solene delinquente, mas com o povo que você há de se
haver um dia” “pense, pilantra, uma vez sequer nessa evidência, ainda que isso
seja estranho ao teu folclore, ainda que a disciplina das tuas orelhas não se
preste a tanta dissonância: o povo nunca chegará ao poder!” “louquinho da
aldeia!... entrou de vez em convulsão, sabe-se lá o que ainda vem desse transe
paroxístico...” “o povo nunca chegará ao poder! não seria pois com ele que
teria um dia de me haver ofendido e humilhado, povo é só, e será sempre, a
massa dos governados; diz inclusive tolices, que você enaltece, sem se dar
conta de que o povo fala e pensa, em geral, segundo a anuência de quem o
domina; fala, sim, por ele mesmo, quando fala (como falo) com o corpo, o que
pouco adianta, já que sua identidade jamais se confunde com a identidade de supostos
representantes, e que a força escrota da autoridade necessariamente fundamenta
toda ‘ordem’, palavra por sinal sagaz que incorpora, a um só tempo, a
insuportável voz de comando e o presumível lugar das coisas; claro que o povo
pode até colher benefícios, mas sempre como massa de manobra de lideranças
emergentes; por isso vá em frente, pilantra — com o povo na boca, papagueando
sua fala tosca, sem dúvida pitoresca, embora engrossando co’arremedo a
sufocante corda dos cordeiros, exatamente como o impassível ventríloquo que
assenta paternalmente os miúdos sobre os joelhos, denunciando inclusive
trapaças com sua arte, ainda que trapaceando ele mesmo ao esconder a própria
voz; mas não se preocupe, pilantra, você chega lá... montadinha, é claro, numa
revolta usurpada, montadinha numa revolta de segunda mão; quanto a este
tresmalhado, ou delinquente, te digo somente que ninguém dirige aquele que Deus
extravia! não aceito pois nem a pocilga que está aí, nem outra ‘ordem’ que se
instale, olhe bem aqui...” eu disse chegando ao pico da liturgia, e foi
pensando na suposta subida do meu verbo que eu, pra compensar, abaixei
sacanamente o gesto “tenho colhão, sua pilantra, não reconheço poder algum!”
“hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil, rebento do
anarquismo!... há-há-há... dogmático, caricato e debochado... há-há-há...”
“entenda, pilantra, toda ‘ordem’ privilegia” “entenda, seu delinquente, que a
desordem também privilegia, a começar pela força bruta” “força bruta sem
rodeios, sem lei que legitime” “estou falando da lei da selva” “mas que não
finge a pudicícia, não deixa lugar pro farisaísmo, e nem arrola indevidamente
uma razão asséptica, como suporte” “pois vista uma tanga, ou prescinda mesmo
dela, seu gorila” “dispenso a exortação, fique aí, no círculo da tua luz, e me
deixe aqui, na minha intensa escuridão, não é de hoje que chafurdo nas trevas:
não cultivo a palidez seráfica, não construo com os olhos um olhar pio, não
meto nunca a cara na máscara da santidade, nem alimento a expectativa de ver a
minha imagem entronada num altar; ao contrário dos bons samaritanos, não amo o
próximo, nem sei o que é isso, não gosto de gente, para abreviar minhas
preferências; afinal, alguém precisa, pilantra — e uso aqui tua palavrinha
mágica — ‘assumir’ o vilão tenebroso da história, alguém precisa assumi-lo pelo
menos pra manter a aura lúcida, levitada sobre tua nuca; assumo pois o mal
inteiro, já que há tanto de divino na maldade, quanto de divino na santidade; e
depois, pilantra, se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado”.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário