Editora: Ática
ISBN: 978-850808935-2
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 424
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Sinopse: Um marco
no ensino da Filosofia no Brasil, de uma das mais prestigiadas intelectuais
brasileiras. Por meio de uma linguagem acessível, trata de forma
contextualizada os temas importantes da reflexão filosófica, conduzindo à
profundidade dos grandes pensadores. Um exuberante exercício do pensamento que
fomenta a reflexão crítica e amplia os horizontes do leitor. Principais
diferenciais da obra: o livro discute os grandes temas da Filosofia, como
razão, verdade, conhecimento, ciência, lógica, ética, política, arte, religião
e metafísica; a autora contempla questões relacionadas à cidadania, à
democracia, aos direitos humanos, às novas tecnologias e às posturas éticas de
seu tempo.
“Conhecendo as coisas
Na
briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que digam o que
realmente viram ou que sejam “objetivas”, ou quando falamos dos namorados como incapazes
de ver as coisas como são ou como sendo “muito subjetivos”, também temos várias
crenças silenciosas.
De
fato, acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de
vista, uma preferência, uma opinião e é até capaz de brigar por isso, pode
“perder a objetividade” e deixar-se guiar apenas pelos seus sentimentos e não
pela realidade. Da mesma maneira, acreditamos que os apaixonados se tornam
incapazes de ver as coisas como são, de ter uma “atitude objetiva”, e que sua
paixão os faz ficar “muito subjetivos”. Em que acreditamos, então?
Acreditamos
que ter objetividade é ter uma atitude imparcial que percebe e compreende as
coisas tais como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitude
parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo).
Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como
ainda acreditamos que são diferentes, sendo que a primeira percebe perfeitamente
a realidade e não a deforma, enquanto a segunda não percebe adequadamente a
realidade e, voluntária ou involuntariamente, a deforma.
Ao
dizermos que alguém “é legal” porque tem os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita
ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e costumes muito parecidos
com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as outras pessoas
— família, amigos, escola, trabalho, sociedade — nos faz semelhantes ou
diferentes em decorrência de normas e valores morais, políticos, religiosos e
artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.
Achamos óbvio que todos os seres humanos
seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos,
políticos, artísticos, vivem na companhia de seus semelhantes e procuram
distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em
conflito. Isso significa que acreditamos que somos seres sociais, morais e
racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos
por seres conscientes e dotados de raciocínio.
Como se pode notar, nossa vida cotidiana é
toda feita de crenças silenciosas, da aceitação de coisas e ideias que nunca
questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos na existência do
espaço e do tempo, na realidade exterior e na diferença entre realidade e
sonho, assim como na diferença entre sanidade mental ou razão e loucura. Cremos
na existência das qualidades e das quantidades. Cremos que somos seres
racionais capazes de conhecer as coisas e por isso acreditamos na existência da
verdade e na diferença entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e
na diferença entre ela e a subjetividade. Cremos na existência da vontade e da
liberdade e por isso cremos na existência do Bem e do Mal, crença que nos faz
aceitar como perfeitamente natural a existência da moral e da religião. Cremos
também que somos seres que naturalmente precisam de seus semelhantes e por isso
tomamos como um fato óbvio e inquestionável a existência da sociedade com suas
regras, normas, permissões e proibições. Haver sociedade é, para nós, tão
natural quanto haver Sol, Lua, dia, noite, chuva, rios, mares, céu e florestas.”
“Assim, uma primeira resposta à pergunta “O
que é filosofia?” poderia ser: “A decisão de não aceitar como naturais, óbvias
e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os
comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes
havê-los investigado e compreendido”.
Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para
que filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às
coisas, sem maiores considerações”.
Podemos dizer que a filosofia surge quando os
seres humanos começam a exigir provas e justificações racionais que validem ou
invalidem as crenças cotidianas.
Por que racionais? Por três motivos
principais: em primeiro lugar, porque racional significa argumentado, debatido
e compreendido; em segundo, porque racional significa que, ao argumentar e
debater, queremos conhecer as condições e os pressupostos de nossos pensamentos
e os dos outros; em terceiro, porque racional significa respeitar certas regras
de coerência do pensamento para que um argumento ou um debate tenham sentido,
chegando a conclusões que podem ser compreendidas, discutidas, aceitas e respeitadas
por outros.”
“A atitude crítica
A primeira característica da atitude
filosófica é negativa, isto é, um “dizer não” aos “pré-conceitos”, aos “pré-juízos”,
aos fatos e às ideias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e
pensa”, ao estabelecido. Numa palavra, é colocar entre parênteses nossas
crenças para poder interrogar quais são suas causas e qual é seu sentido.
A segunda característica da atitude
filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os
comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê e o como disso tudo e de nós próprios. “O que é”, “Por que é”, “Como é?
Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude
filosófica constituem o que chamamos de atitude
crítica. Por que “crítica”?
Em geral, julgamos que a palavra crítica
significa ser do contra, dizer que tudo vai mal, que tudo está errado, que tudo
é feio ou desagradável. Crítica é mau humor, coisa de gente chata ou
pretensiosa que acha que sabe mais que os outros. Mas não é isso que essa
palavra quer dizer.
A palavra crítica vem do grego e possui três
sentidos principais: 1) “capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente”;
2) “exame racional de todas as coisas sem preconceito e sem pré-julgamento”, 3)
“atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um
costume, um comportamento, uma obra artística ou científica”. A atitude
filosófica é uma atitude “crítica” porque preenche esses três significados da
noção de crítica, a qual, como se observa, é inseparável da noção de racional,
que vimos anteriormente.
A filosofia começa dizendo “não” às crenças e
aos preconceitos do dia a dia para que possam ser avaliados racional e
criticamente, admitindo que não sabemos o que imaginávamos saber.”
“A filosofia inicia sua investigação num
momento muito preciso: naquele instante em que abandonamos nossas certezas
cotidianas e não dispomos de nada para substituí-las ou para preencher a lacuna
deixada por elas. Em outras palavras, a filosofia se interessa por aquele
instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a realidade
histórico-social (o mundo dos homens) tornam-se estranhas, espantosas,
incompreensíveis e enigmáticas, quando as opiniões estabelecidas disponíveis já
não nos podem satisfazer. Ou seja, a filosofia volta-se preferencialmente para
os momentos de crise no pensamento,
na linguagem na ação, pois é nesses momentos críticos que se manifesta mais claramente
a exigência de fundamentação das ideias, dos discursos e das práticas.
Assim como cada um de nós, quando possui
desejo de saber, vai em direção à atitude filosófica ao perceber contradições,
incoerências, ambiguidades ou incompatibilidades entre nossas crenças
cotidianas, assim também a filosofia tem especial interesse pelos momentos de
crise ou momentos críticos, quando sistemas religiosos, éticos, políticos,
científicos e artísticos estabelecidos se envolvem em contradições internas ou
contradizem-se uns aos outros e buscam transformações e mudanças cujo sentido
ainda não está claro e precisa ser compreendido.”
“Essa pergunta, “Para que filosofia”, tem a sua razão de ser. Em nossa
cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o
direito de existir se tiver alguma finalidade prática muito visível e de
utilidade imediata, de modo que, quando se pergunta “Para quê?” o que se quer
saber é: “Qual a utilidade?” “Para que serve isso?” “Que uso proveitoso ou
vantajoso posso fazer disso”.
Eis por que ninguém pergunta “Para que as
ciências?” pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da
técnica, isto é, na aplicação dos conhecimentos científicos para criar
instrumentos de uso, desde o cronômetro, o telescópio e o microscópio até a luz
elétrica, a geladeira, o automóvel, o avião, a máquina de lavar roupa ou louça,
o telefone, o rádio, a televisão, o cinema, a máquina de raios X, o computador,
os objetos de plástico, etc.
Todo mundo também imagina ver a utilidade das
artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte (tidas como mais
importantes quanto mais altos forem seus preços no mercado), como porque nossa
cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da
humanidade (ao mesmo tempo que, paradoxalmente, nossa sociedade é capaz de
rejeitá-los e maltratá-los se suas obras forem verdadeiramente revolucionárias
e inovadoras, pois, nesses casos, não são “úteis” para o estabelecido).
Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a filosofia, donde dizer-se:
“Não serve para coisa alguma”.
Parece, porém, que o senso comum não enxerga
algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos
verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem
agir sobre a realidade, por meio de instrumentos e objetos técnicos; pretendem
fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências
pressupõem que elas admitem a existência da verdade, a necessidade de
procedimentos corretos para bem usar o pensamento, o estabelecimento da
tecnologia como aplicação prática de teorias, e, sobretudo, que elas confiam na
racionalidade dos conhecimentos, isto é, que eles são válidos não só porque
explicam os fatos, mas também porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento racional, procedimentos
especiais para conhecer fatos, aplicação prática de conhecimentos teóricos,
correção e acúmulo de saberes: esses
objetivos e propósitos das ciências não são científicos, são filosóficos e
dependem de questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já
respondidas, mas é a filosofia quem as formula e busca respostas para elas.”
“A
reflexão filosófica
A palavra “reflexão” é empregada na física
para descrever o movimento de propagação de uma onda luminosa ou sonora quando,
ao passar de um meio para outro, encontra um obstáculo e retorna ao meio de
onde partiu. É esse retorno ao ponto de partida que é conservado quando a
palavra é usada na filosofia para significar “movimento de volta sobre si
mesmo” ou “movimento de retorno a si mesmo”. A reflexão filosófica é o
movimento pelo qual o pensamento, examinando o que é pensado por ele, volta-se
para si mesmo como fonte desse pensado. É o pensamento interrogando-se a si
mesmo ou pensando-se a si mesmo. É a concentração mental em que o pensamento
volta-se para si próprio para examinar, compreender e avaliar suas ideias, suas
vontades, seus desejos e sentimentos.
A reflexão
filosófica é radical porque vai à
raiz do pensamento, pois é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo
para pensar-se a si mesmo, para conhecer como é possível o próprio pensamento
ou o próprio conhecimento.
Não somos, porém, somente seres pensantes.
Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres
humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os fatos e acontecimentos, e
exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem e dos gestos como por
meio de ações, comportamentos e condutas. A reflexão filosófica também se volta
para compreender o que se passa em nós nessas relações que mantemos com a
realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos.
A reflexão filosófica organiza-se em torno de
três grandes conjuntos de perguntas ou questões:
1. “Por que pensamos o que pensamos, dizemos
o que dizemos e fazemos o que fazemos?” Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos,
dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. “O que queremos pensar quando pensamos, o
que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos?” Isto é,
qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou
fazemos?
3. “Para que pensamos que pensamos, dizemos o
que dizemos, fazemos o que fazemos?” Isto é, qual é a intenção ou a finalidade
do que pensamos, dizemos e fazemos?
Essas três questões têm como objetos de
indagação o pensamento, a linguagem e a ação e podem ser resumidas em o que é pensar, falar e agir? E elas
pressupõem a seguinte pergunta: “O que pensamos, dizemos e fazemos em nossas
crenças cotidianas constitui ou não um pensamento verdadeiro, uma linguagem
coerente e uma ação dotada de sentido?”
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se
indagando “O que é”, “Como é?” “Por que é? dirigindo-se ao mundo que nos rodeia
e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre
a essência (O que é?), a significação
ou estrutura (Como é?), a origem (Por
que é?) e a finalidade (Para que é?)
de todas as coisas. É um saber sobre a realidade
exterior ao pensamento.
Já a reflexão filosófica, ou o “Conhece-te a
ti mesmo”, indaga “Por quê?” “O quê?” “Para quê?” e se dirige ao pensamento, à
linguagem e à ação, ou seja, volta-se para os seres humanos. São perguntas
sobre a capacidade e a finalidade para conhecer, falar e agir, próprias dos seres humanos. É um
saber sobre o homem como ser pensante, falante e agente, ou seja, sobre a realidade interior dos seres humanos.”
“Filosofia: um pensamento sistemático
As indagações fundamentais da atitude
filosófica e da reflexão filosófica não se realizam ao acaso, segundo
preferências e opiniões de cada um de nós. À filosofia não é um “eu acho que”
ou um “eu gosto de”. Não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de
comunicação de massa. Não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos
consumidores com a finalidade de montar uma estratégia de propaganda.
As indagações filosóficas se realizam de modo
sistemático.
Que significa isso?
A palavra sistema
vem do grego, significa “um todo cujas partes estão ligadas por relações de
concordância interna”. No caso do pensamento, significa “um conjunto de ideias
internamente articuladas e relacionadas, graças a princípios comuns ou a certas
regras e normas de argumentação e demonstração que as ordenam e as relacionam
num todo coerente”.
Dizer que as indagações filosóficas são
sistemáticas significa dizer que a filosofia trabalha com enunciados precisos e
rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos
ou ideias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a
fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão
filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e
opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer “eu
acho que”, mas de poder afirmar “eu penso que”.
O conhecimento filosófico é um trabalho
intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as
questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em
segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre
si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de ideias e
significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente.”
“Fundamentação
teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas.
Fundamento é uma palavra que vem do latim e significa
“uma base sólida” ou “o alicerce sobre o qual se pode construir com segurança”.
Do ponto de vista do conhecimento, significa “a base ou o princípio racional
que sustenta uma demonstração verdadeira”. Sob esta perspectiva, fundamentar significa “encontrar,
definir e estabelecer racionalmente os princípios, as causas e condições que
determinam a existência, a forma e os comportamentos de alguma coisa, bem como
as leis ou regras de suas mudanças”.
Teoria vem do grego, no qual significava
“contemplar uma verdade com os olhos do espírito”, isto é, uma atividade
puramente intelectual de conhecimento. Sob esta perspectiva, uma fundamentação teórica significa
“determinar pelo pensamento, de maneira lógica, metódica, organizada e
sistemática o conjunto de princípios, causas e condições de alguma coisa (de
sua existência, de seu comportamento, de seu sentido e de suas mudanças)”.
Como vimos há pouco, crítica também é uma palavra grega, que significa “a capacidade
para julgar, discernir e decidir corretamente”, “o exame racional de todas as
coisas sem preconceito e sem pré-julgamento” e a “atividade de examinar e
avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma
obra artística ou científica”. Sob essa perspectiva, fundamentação crítica significa “examinar, avaliar e julgar
racionalmente os princípios, as causas e condições de alguma coisa (de sua
existência, de seu comportamento, de seu sentido e de suas mudanças)”.
Como fundamentação teórica e critica, a
filosofia ocupa-se com os princípios, as causas e condições do conhecimento que
pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a forma e o conteúdo dos
valores éticos, políticos, religiosos, artísticos e culturais; com a
compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano
individual e coletivo; com os princípios, as causas e condições das
transformações históricas dos conceitos, das ideias, dos valores e das práticas
humanas.
Por isso, a filosofia volta-se para o estudo
das várias formas de conhecimento (percepção, imaginação, memória, linguagem,
inteligência, experiência, reflexão) e dos vários tipos de atividades
interiores e comportamentos externos dos seres humanos como expressões da
vontade, do desejo e das paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos
dessas formas de conhecimento e desses tipos de atividade e comportamento como
relação do ser humano com o mundo, consigo mesmo e com os outros.
Para realizar seu trabalho, a filosofia
investiga e interpreta o significado de ideias gerais como: realidade, mundo,
natureza, cultura, história, verdade, falsidade, humanidade, temporalidade,
espacialidade, qualidade, quantidade, subjetividade, objetividade, diferença,
repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, necessidade,
possibilidade, probabilidade, etc.
A atividade filosófica é, portanto, uma análise (das condições e princípios do
saber e da ação, isto é, dos conhecimentos, da ciência, da religião, da arte,
da moral, da política e da história), uma reflexão
(volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se como capacidade para o
conhecimento, a linguagem, o sentimento e a ação) e uma crítica (avaliação racional para discernir entre a verdade e a
ilusão, a liberdade e a servidão, investigando as causas e condições das
ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das ilusões e dos enganos
das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas, dos preconceitos
religiosos e sociais, da presença e difusão de formas de irracionalidade
contrárias ao exercício do pensamento, da linguagem e da liberdade).
Essas três atividades (análise, reflexão e
critica) estão orientadas pela elaboração filosófica de ideias gerais sobre a
realidade e os seres humanos. Portanto, para que essas três atividades se
realizem, é preciso que a filosofia se defina como busca do fundamento
(princípios, causas e condições) e do sentido (significação e finalidade) da
realidade em suas múltiplas formas, indagando o que essas formas de realidade
são, como são e por que são, e procurando as causas que as fazem existir, permanecer,
mudar e desaparecer.
A filosofia não é ciência: é uma reflexão
sobre os fundamentos da ciência, isto é, sobre procedimentos e conceitos
científicos. Não é religião: é uma reflexão sobre os fundamentos da religião,
isto é, sobre as causas, origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é
uma reflexão sobre os fundamentos da arte, isto é, sobre os conteúdos, as
formas, as significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é
sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos
conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas
interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do
poder e suas mudanças. Não é história, mas reflexão sobre o sentido dos
acontecimentos enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio
tempo.”
“A filosofia surgiu quando alguns gregos,
admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a
tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas,
demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos naturais e as
coisas da natureza, os acontecimentos humanos e as ações dos seres humanos
podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de
conhecer-se a si mesma.
Em suma, a filosofia surgiu quando alguns
pensadores gregos se deram conta de que a verdade do mundo e dos humanos não
era algo secreto e misterioso que precisasse ser revelado por divindades a
alguns escolhidos, mas que, ao contrário, podia ser conhecida por todos por
meio das operações mentais de raciocínio, que são as mesmas em todos os seres
humanos. Esses pensadores descobriram também que a linguagem respeita as exigências
do pensamento e que, por esse mesmo motivo, os conhecimentos verdadeiros podem
ser transmitidos e ensinados a todos.”
“Um dos legados mais importantes da filosofia
grega é, portanto, a diferença entre o necessário
(o que não pode ser senão como é) e o contingente
(o que pode ser ou não ser, o que pode ser de uma maneira ou da maneira
oposta), bem como a diferença, no interior do contingente, entre o acaso e o possível. O contingente é
o que pode ou não acontecer na natureza ou entre os homens; o acaso é a contingência nos
acontecimentos da natureza; o possível
é a contingência nos acontecimentos humanos. Dessa maneira, os filósofos gregos
nos deixaram a ideia de que podemos diferenciar entre o necessário, o acaso e o
possível em nossas ações: o necessário é o que não está em nosso poder
escolher, pois acontece e acontecerá sempre, independentemente de nossa vontade
(não depende de nós que o Sol brilhe, que haja dia e noite, que a matéria se
transforme em energia quando sua velocidade é o quadrado da velocidade da luz);
o acaso é o que também não está em nosso poder escolher (não escolho que
aconteça uma tempestade justamente quando estou fazendo uma viagem de navio ou
de avião, nem escolho estar num veículo que será destruído por um outro,
dirigido por um motorista embriagado); o possível, ao contrário do necessário e
do acaso, é exatamente o que temos poder de escolher e fazer, é o que está em
nosso poder.
Essas diferenciações legadas pela filosofia
grega nos permitem evitar tanto o fatalismo — “tudo é necessário, temos que nos
conformar com o destino e nos resignar com o nosso fado” —, como também evitar
a ilusão de que podemos tudo quanto quisermos, pois a natureza segue leis
necessárias que podemos conhecer e nem tudo é possível, por mais que o queiramos.”
“As principais características da cosmologia (o período pré-socrático da
filosofia) são:
·
É uma explicação racional e sistemática sobre
a origem, ordem e transformação da natureza, da qual os seres humanos fazem
parte, de modo que, ao explicar a natureza, a filosofia também explica a origem
e as mudanças dos seres humanos.
·
Busca o princípio natural, eterno,
imperecível e imortal, gerador de todos os seres. Em outras palavras, a
cosmologia não admite a criação do mundo a partir do nada, mas afirma a geração
de todas coisas por um princípio natural de onde tudo vem e para onde tudo
retorna. Esse princípio é uma natureza primordial e chama-se physis, sendo ele a causa natural
contínua e imperecível da existência de todos os seres e de suas transformações.
A physis não pode ser conhecida pela
percepção sensorial (esta só nos oferece as coisas já existentes), mas apenas
pelo pensamento. Em outras palavras, ela é aquilo que o pensamento descobre
quando indaga qual é a causa da existência e da transformação de todos os seres
percebidos. A physis é a natureza
tomada em sua totalidade, isto é, a natureza entendida como princípio e causa
primordial da existência e das transformações das coisas naturais (os seres
humanos aí incluídos) e entendida como o conjunto ordenado e organizado de todos
os seres naturais ou físicos.
·
Afirma que, embora a physis (o princípio ou o elemento primordial eterno) seja
imperecível, ela dá origem a todos os seres infinitamente variados e diferentes
do mundo, seres que, ao contrário do princípio gerador, são perecíveis ou
mortais. A physis é imortal e as
coisas físicas são mortais.
·
Afirma que, embora a physis seja imutável, os seres físicos ou naturais gerados por ela,
além de serem mortais, são mutáveis ou seres em contínua transformação, mudando
de qualidade (por exemplo, o branco amarelece, acinzenta, enegrece; o negro
acinzenta, embranquece; o novo envelhece; o quente esfria; o frio esquenta; o
seco fica úmido; o úmido seca; o dia se torna noite; a noite se torna dia; a
primavera cede lugar ao verão, que cede lugar ao outono, que cede lugar ao
inverno; o saudável adoece; o doente se cura; a criança cresce; a árvore vem da
semente e produz sementes, etc.) e mudando de quantidade (o pequeno cresce e
fica grande; o grande diminui e fica pequeno; o longe fica perto se eu for até
ele ou se as coisas distantes chegarem até mim, um rio aumenta de volume na
cheia e diminui na seca, etc.). Portanto, o mundo está numa mudança contínua,
sem por isso perder sua forma, sua ordem e sua estabilidade.
A mudança — nascer, mudar de qualidade ou de
quantidade, perecer — se diz em grego kínesis,
palavra que significa “movimento”. Por movimento, os gregos não entendem apenas
a mudança de lugar ou a locomoção, mas toda e qualquer alteração ou mudança qualitativa
e/ou quantitativa de um ser, bem como seu nascimento e seu perecimento. Às coisas
naturais, isto é, todos os seres existentes, se movem ou são movidos por outros
seres e o mundo está em movimento ou transformação permanente. O movimento das
coisas e do mundo chama-se devir e o devir segue leis rigorosas que o
pensamento conhece. Essas leis são as que mostram que toda mudança é a passagem
de um estado ao seu contrário: dia-noite, claro-escuro, quente-frio,
seco-úmido, novo-velho, pequeno-grande, bom-mau, cheio-vazio, um-muitos,
vivo-morto, etc., e também no sentido inverso, noite-dia, escuro-claro, frio-quente,
muitos-um, etc. O devir é, portanto, a passagem contínua de uma coisa ao seu
estado contrário e essa passagem não é caótica, mas obedece a leis determinadas
pela physis ou pelo princípio
fundamental do mundo.
Embora todos os pré-socráticos afirmassem as
ideias que acabamos de expor, nem por isso concordaram ao determinar o que era
a physis, e cada filósofo encontrou
motivos e razões para determinar qual era o princípio eterno e imutável que
está na origem da natureza e de suas transformações. Assim, Tales dizia que a physis era a água ou o úmido;
Anaximandro considerava que era o ilimitado, sem qualidades definidas;
Anaxímenes, que era o ar ou o frio; Pitágoras julgava que era o número
(entendido como estrutura e relação proporcional entre os elementos que compõem
as coisas); Heráclito afirmou que era o fogo; Empédocles, que eram quatro
raízes (úmido, seco, quente e frio); Anaxágoras, que eram sementes que
continham os elementos de todas as coisas; Leucipo e Demócrito disseram que
eram os átomos.”

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