quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Chaves bíblicas para a prosperidade financeira – Kenneth E. Hagin

Editora: Graça Editorial

ISBN: 8575434368

Tradução: Rogério Lima Clavello

Opinião: ★☆☆☆☆

Páginas: 176

Sinopse: O Senhor Deus deseja que Seu povo prospere financeiramente. Mas muitos cristãos enxergam apenas uma parte da vontade do Pai em relação a esse assunto.

Em Chaves bíblicas para a prosperidade financeira, o Rev. Kenneth E. Hagin proporciona ao cristão uma visão panorâmica sobre prosperidade. Em seu estudo abrangente, o irmão Hagin explica, com detalhes, os seguintes tópicos:

Como "comer" o melhor da terra? (Is 1.19 ARA).

Sua autoridade em Cristo em relação às finanças.

Como liberar sua fé para a vida financeira.

Honre seu pastor e seja próspero.

As imutáveis leis da semeadura e colheita.

Muitos cristãos jamais experimentaram a prosperidade na dimensão que Deus planejou para eles. Existem razões para isso. O irmão Hagin afirmou: "Se você quer andar na perfeita vontade de Deus - o melhor de Deus para cada área de sua vida - terá de fazer a perfeita vontade de Deus". Chaves bíblicas para a prosperidade financeira lhe mostrará como fazer isso.



“O motivo pelo qual o Senhor me incentivou a reivindicar o que eu necessitava, chegou a meu entendimento. O Senhor me ordenando a crer e exercitar minha autoridade espiritual na área das finanças.

O Senhor me havia dito: “O dinheiro de que você necessita não está aqui em cima, no céu. Não tenho dinheiro algum aqui em cima. O dinheiro que você precisa está aí embaixo. Satanás que o está segurando, não Eu”. (...)

O Senhor me orientou: “Não ore por dinheiro, como você tem feito. Seja qual for sua necessidade, reivindique-a em Nome de Jesus. Diga: ‘Satanás, tire suas mãos do meu dinheiro’. Depois, fale: “Espíritos ministradores*, tragam o dinheiro necessário”.”

*: anjos.

A Autoridade do Crente, de Kenneth E. Hagin

Editora: Graça Editorial

ISBN: 978-85-7343-052-3

Tradução: Lilian Nascimento

Opinião: ★☆☆☆☆

Páginas: 112

Sinopse: Você sabe como usar a sua autoridade como um crente? Kenneth E. Hagin, inspirado nas sagradas escrituras, ensina isto ao leitor de maneira muito esclarecedora no livro autoridade do crente.

Entre os temas abordados nesta obra, Hagin dedica um capítulo para explicar o que é autoridade. Ele ressalta que o valor da autoridade está no poder que existe por trás dela. “o próprio deus é o poder por trás de nossa autoridade. O crente que compreende de forma plena que o poder de deus está a seu favor pode exercitar sua autoridade e enfrentar o inimigo destemidamente”, ressalta.

Hagin explica que a autoridade do crente é revelada de forma mais ampla no livro de efésios do que em qualquer outra epístola escrita às igrejas. Ele ressalta que há orações cheias da unção do espírito no final do primeiro e terceiro capítulos (efésios 1.16-20 e 3: 14-19). “o momento decisivo de minha vida chegou quando repeti essas orações para mim mesmo por mais de mil vezes”, declara.

Dividido em oitos capítulos, esta é uma obra para aqueles que desejam se posicionar contra o diabo usando definitivamente a sua autoridade de crente. Um livro imperdível.

 

“Durante aqueles dias de Depressão havia muito roubo e alguém roubou minhas calças. Foram roubadas numa segunda-feira e eu tinha que pregar na quinta. Na terça-feira orei quando voltava do trabalho: "Senhor, tudo o que me restou são estas calças velhas e não posso pregar com elas. São calças velhas de trabalho". Disse ao Senhor que até quinta-feira esperava ver minhas calças que tinham sido roubadas de volta no mesmo lugar onde estavam antes. Orei pedindo que a pessoa que as tivesse roubado se sentisse tão infeliz que se visse obrigada a trazê-las de volta.

Veja, é um espírito mal que faz com que uma pessoa roube. Estava lidando com aquele espírito e não com a pessoa, porque temos autoridade sobre espíritos. Ordenei ao espírito que interrompesse sua ação.

Quando voltei para casa na quinta de tarde, sabia que as calças estariam lá, e realmente estavam. Portanto, podemos – e devemos – nos levantar contra o diabo.”

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Filosofia e literatura: diálogos, relações e fronteiras – Rafael de Araújo e Viana Leite

Editora: InterSaberes

ISBN: 978-85-443-0320-7

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 276

Sinopse: Como a filosofia se posiciona em relação à literatura? Como essas duas áreas do conhecimento dialogaram em momentos importantes ao longo da história das ideias? Utilizando essas perguntas como fio condutor, a presente obra investiga as relações possíveis entre a filosofia e a literatura. Para isso, o autor apresenta, ao longo de cinco capítulos, recortes históricos e contribuições de filósofos e literatos.



“A prosa está para a poesia como a caminhada está para a dança.” (Paul Valéry)

 

 

“A filosofia promove um tipo de reflexão, ou melhor, propõe uma investigação e chega a seus resultados por via estritamente racional. Estamos falando de conhecimentos certos e universais, alcançados com base em elementos lógicos que se juntam, legitimando alguma conclusão. No entanto, é preciso lembrar de que a filosofia e a poesia se unem em um aspecto importante, pois ambas representam uma forma de discurso que podemos chamar de não vulgar. Vale a pena ressaltar que vulgar, aqui, nada tem a ver com xingamentos ou conduta questionável. Expliquemos o ponto. Tanto o filósofo quanto o poeta se separam da linguagem cotidiana ou vulgar para desbravar outro reino de possibilidades: o das essências e o da verdade. As conversações cotidianas em forma de prosa — a mesma que o comerciante estabelece com seu comprador, que o político usa durante seus afazeres rotineiros ou que o soldado tem com seus companheiros militares — são exemplos de discursos vulgares: A Filosofia irá diferenciar-se da palavra dos guerreiros e dos políticos porque possui uma pretensão específica, herdada dos poetas [...] não deseja apenas argumentar e persuadir, mas pretende proferir a verdade como aquilo que é o mesmo para todos (Chaui, Introdução à história da filosofia, 2002, p. 44).

O discurso vulgar não se preocupa com o significado último dos termos, sua origem primeira ou a essência das coisas. Imaginemos que alguém pergunte o preço de algum produto vendido pelo hipotético comerciante. Ele não irá questionar o cliente sobre a essência dos números: Eles são entidades existentes por si mesmas ou construções mentais? Um oficial do exército, por sua vez, não entrará em pormenores sobre a essência da virtude caso tenha de punir um soldado por não ter atendido a uma ordem direta proferida por ele. Nenhum deles, nessas circunstâncias, se preocupará com a formação da vida e do mundo. Essas questões que buscam pela essência ultrapassam o terreno da conversação vulgar, mas estão no cerne da preocupação da poesia mitológica e da filosofia.”

 

 

“Para que haja entendimento, é preciso purificar os conceitos, é preciso que saibamos o significado do que dizemos.

Esse é um exercício essencialmente filosófico; de fato, quando pensamos cuidadosamente sobre o assunto, existe a possibilidade de percebermos algo inquietante: que não sabemos de modo preciso o que significam muitas coisas sobre as quais falamos. É o que os diálogos aporéticos colocam em evidência de maneira exemplar. Aporia significa sem saída, algo que termina em impasse. Um diálogo que tenha essa característica é aquele cujo fim não acompanha uma resposta objetiva para a questão investigada. E nem sempre a filosofia chega a respostas inquestionáveis; sua afinidade está mais ligada a um modo rigoroso de questionar.”

 

 

“Nós queremos chamar atenção para a passagem em que Aristóteles compara a poesia* e a história, presente no Capítulo IX da Poética (2011). Ele fala dos objetivos de cada um desses discursos e segue dizendo que não é trabalho do poeta narrar retrospectivamente algo que já aconteceu, porém representar o que poderia acontecer, ou seja, o que é possível, verossímil e também necessário — características que aproximam o poeta do fazer filosófico. Como já adiantamos, não é simplesmente pela estrutura do texto que o historiador e o poeta se diferenciam, ou seja, pelo modo como o discurso se apresenta: em prosa ou em verso. Poderíamos, vale repetir, colocar a obra de Heródoto em versos que isso não faria dele um poeta. Mas no que, então, o poeta e o historiador se diferem exatamente? Vejamos o que esse longo e famoso trecho do livro diz:

Do que foi dito, também fica evidente que não é função do poeta realizar um relato exato dos eventos, mas sim daquilo que poderia acontecer e que é possível dentro da probabilidade ou da necessidade. O historiador e o poeta não se diferenciam pelo fato de um usar a prosa e o outro, versos. A obra de Heródoto poderia ser versificada, o que não seria menos obra de história, estando a métrica presente ou não. A diferença está no fato de o primeiro relatar o que aconteceu realmente, enquanto o segundo, que poderia ter acontecido. Consequentemente, a poesia é mais filosófica e mais séria do que a história, pois a poesia se ocupa mais do universal ao que a história se restringe ao particular. (Aristóteles, 2011, p. 55)

Descrita como sendo mais elevada e mais filosófica do que a história, a poesia ganha um estatuto, como estamos vendo, diferente daquele que encontramos no Livro X da obra A República. Para Aristóteles, o poeta não nos ilumina sobre o passado como o historiador faz muito bem, dizendo como as coisas aconteceram em um momento por vezes remoto. O poeta nos ensina sobre nós mesmos, como indivíduos humanos; ele não fala do ocorrido, mas sobre como as coisas poderiam acontecer, Diferença fundamental. Os personagens da tragédia, desse modo, devem ser encarados como emblemáticos, no sentido em que são arquétipos ou tipos humanos e por isso guardam em si a mesma universalidade que o discurso filosófico. Isso não quer dizer que este discurso seja idêntico ao poético. Longe disso. Nesse ponto, estamos mais uma vez de acordo com Marilena Chaui, quando diz que A poesia, ao contrário da Filosofia, não é um conhecimento teórico da natureza humana, mas imita ações e sentimentos, feitos e virtudes, situações e vícios dos seres humanos (Chaui, 2002, p. 483). A poesia não trabalha com conceitos nem tem afinidades com cosmologias; ela é imitativa, porém, é um tipo de imitação cuja pretensão de universalidade a aproxima da atividade filosófica. Guardada a diferença entre filosofia e poesia, importa insistir sobre o seguinte ponto: a poesia tem, sim, uma pretensão que a aproxima da atividade filosófica – atingir o universal, o que a diferencia do trabalho do historiador. Universal aqui é entendido como manifestação de tipos humanos ou, se preferirmos, uma categoria universal do humano. Uma tragédia como Édipo rei (Sófocles, 2015) por exemplo, ainda que fale do indivíduo Édipo e dele narre as aventuras, trata de algo mais amplo do que a individualidade do personagem, ou seja, do destino humano.

O personagem aparece na poesia como trampolim para que a narração tenha uma forma específica e atinja o público em suas emoções, porém, esse mesmo personagem é o mote para que o universal se manifeste. O historiador, por seu lado, fala simplesmente de indivíduos, isto é, fica restrito ao âmbito particular. Ele nos fala de Alcibíades, Péricles ou Demóstenes, mas somente com base em seus feitos, índole e relevância de cada um deles para a história. Já o poeta usa um homem específico para tratar de algo mais amplo e filosófico. Eis a diferença central entre poesia e história.”

*: Quando nos referimos à poesia na Grécia arcaica isso não quer dizer que falamos de uma atividade poética que se assemelhe àquela que vemos nos dias de hoje. Perceba, por exemplo, que enquanto arte imitativa, a pintura, a música e o teatro também serão considerados por Aristóteles como poesia (poiesis). O teatro usará gestos, a música utilizará o ritmo, a dança tanto o ritmo quanto o gesto e a escultura, por fim, as formas e as cores: tudo isso será tido por poesia.

 

 

“O romance tem uma linguagem e uma verdade que lhes são específicas; ele fala algo que só pode ser transmitido pelas especificidades que lhes são únicas: nunca deixarei de repetir que a única razão de ser do romance é dizer aquilo que apenas o romance pode dizer (Kundera, A arte do romance, 2009, p. 40). Estamos falando de um discurso que se filia à imaginação, se insere na existência ficcional de um personagem ou, de acordo com Milan Kundera, exercita um tipo de meditação que é de caráter hipotético, imaginativo:

Existe uma diferença fundamental entre a maneira de pensar de um filósofo e a de um romancista. Fala-se frequentemente da Filosofa de Tchekhov, de Kafka, de Musil etc. Mas experimente extrair uma Filosofia coerente de seus escritos! Mesmo quando exprimem diretamente suas ideias em seus livros, essas são mais exercícios de reflexões, jogos de paradoxos, improvisações que a afirmação de um pensamento. (Kundera, 2009, p. 77)

Essa parece ser a mesma oposição explicitada por Paul Valéry (Variedades, 1999), ainda que ele não seja adepto dela. Pensamento abstrato de um lado e, no outro polo, o pensamento lírico. O romance, segundo Kundera, não seria lugar para disseminação de ideias filosóficas nem para a defesa de teses teóricas que se pretendam universais. Agora temos argumentos suficientes para dizer que o romanesco enfrenta o mundo como uma ambiguidade, como um modo de explicitar a vivência de um personagem em toda sua contradição: essa é sua especificidade. Não temos uma atmosfera propícia para a argumentação inequívoca que esperamos, como é natural no caso da filosofia, por uma conclusão apoiada em premissas previamente aceitas.

Kundera, ademais, é radicalmente contra a literatura como ferramenta política. No seu dicionário de termos, de fato, podemos ler no verbete ideia: A aversão que experimento por aqueles que reduzem uma obra a suas ideias. O horror que tenho de ser arrastado ao que se denomina ‘debates de ideias’. O desespero que me inspira a época obscurecida pelas ideias, indiferente às obras (Kundera, 2009, p. 123). Note que a afirmação citada não usa argumentação lógica para defender algum ponto. O autor recorre repetidamente a sentimentos particulares para expor sua posição: ele fala em aversão, horror e até mesmo desespero, termos usados para mostrar como ele percebe a intromissão de teses que podemos chamar de filosóficas em uma obra romanesca.

O adversário do autor, por assim dizer, parece ser a perspectiva daquele que percebe na literatura algum grau de engajamento legítimo que a lançaria para além da arte. Ainda segundo o dicionário de termos de Kundera, especificamente no verbete misomusa, lemos que sujeitar a arte à política seria um modo de manifestação de ódio para com ela; em outras palavras, seria uma forma de reduzi-la. A doutrina da arte engajada: a arte como meio de uma política. Professores para quem uma obra de arte não é senão um pretexto para o exercício de um método (psicanalítico, semiológico, sociológico etc.) (Kundera, 2009, p. 131).

Preservar o aspecto estético da linguagem romanesca é evitar sujeitá-la à prática política, é deixá-la aberta para a imaginação e o sonho que, de fato, em muitos casos pode mesmo preceder e motivar o sentido de uma obra de romance. O leitor não pode exigir da investigação existencial romanesca quaisquer respostas argumentadas ou passos lógicos que orientaram de modo rígido a exposição de alguma tese universal. O caso é outro: É preciso, portanto, ler essa narrativa (a romanesca) deixando-se transportar pela imaginação. Sobretudo não como um enigma a decifrar. Foi esforçando-se para decifrá-lo que os kafkólogos mataram Kafka (Kundera, 2009, p. 124). Esse assassinato simbólico não foi da pessoa, naturalmente, mas do romancista. Os especialistas dos textos de Kafka constrangeram sua produção literária e acabaram por reduzi-la a uma mera exposição de ideias, algo que ela não poderia comportar e, segundo a maneira de ver de Kundera, essa aproximação com a filosofia significa o aniquilamento do romance.”

 

 

“O filósofo posiciona-se como um juiz e confere valor, articula conceitualmente a realidade e tem um olhar sistemático sobre o mundo. O poeta trabalha com o ambíguo, é criador de fantasias e não se insere em um sistema. Caberia à literatura o papel do entretenimento estético, sem a sistematicidade exigida em um discurso lógico universalizante.

Razão de um lado e imaginação de outro: eis o que separaria inequivocamente esses dois tipos de discurso. Citando Antoine Compagnon (2012, Literatura para quê? p. 64): A Literatura desconcerta, incomoda, desorienta, desnorteia mais que os discursos filosófico, sociológico ou psicológico porque ela faz apelo às emoções e à empatia. O esquema a seguir mostra as diferenças estruturais, segundo a perspectiva disjuntiva, entre esses dois termos.”

Quadro 3.1 – Características específicas segundo a perspectiva disjuntiva

Filosofia

Literatura

Universalidade

Particularidade

Razão

Imaginação

Conceitos

Figuras de linguagem

 

 

“3.5 – Caio Prado Junior e o objeto da filosofia

Caio Prado Junior, no livro O que é filosofia?, apesar de aceitar a relação entre filosofia e literatura, separa as duas ciências. A primeira, para ser mais pura, deveria investigar o que ele chama de objeto último e profundo da especulação filosófica para o qual converge e onde se concentra a variegada problemática de que a Filosofia vem através dos séculos e em todos os lugares se ocupando (Prado Junior, 1991, p. 8). Que objeto é esse com o qual deveria se ocupar a Filosofia? O conhecimento do conhecimento. Devemos nos explicar melhor. O objetivo dessa atividade, para o autor, seria uma investigação conceitual, tendo como enfoque o mesmo objeto das ciências, mas, diferente da física ou da química, é predominantemente teórico e busca ele mesmo explicitar em sua completude ideias que orientam nossa experiência e mesmo o fazer científico.

Se o historiador se interessa por um acontecimento que tomou lugar em certo tempo, o filósofo, diferentemente, se perguntará sobre o estatuto do tempo. Se o físico e o químico estudam os componentes da natureza, para Caio Prado Junior, o filósofo voltará sua atenção para o modo como chegamos ao conhecimento das coisas. Estamos diante de um olhar que se interessa pelo essencial, o originário. Se o poeta, enfim, fala do amor tal qual ele entende, talvez até de maneira contraditória, o filósofo, como estamos vendo, terá preferência pela origem das emoções. Esses seriam exemplos de questões filosóficas por excelência. Características que limitam a produção desse ramo do conhecimento a um estudo eminentemente conceitual epistemológico. Não à toa, ética e filosofia política não são contempladas suficientemente pelo livro citado.”

 

 

“Já para o filósofo francês Jean-Paul Sartre, a literatura não poderia ficar isolada de seu contexto sociopolítico. Vejamos brevemente sua posição, pois, ao que parece, se contrapõe diretamente àquela de Milan Kundera. No ensaio Que é literatura?, Sartre (2004) estabelece sua posição sobre o tema. (...)

Seria mesmo difícil, para Sartre, falar em literatura não engajada, isso porque todos estaríamos, de alguma maneira, comprometidos com a realidade que nos cerca: O homem é o ser em face de quem nenhum outro ser pode manter a imparcialidade, nem mesmo Deus. Pois Deus, se existisse; estaria, como bem viram certos místicos, em situação em relação ao homem (Sartre, 2004, p. 21). Toda pessoa, portanto, uma vez inserida em certo ambiente sociocultural, se engaja em uma relação com outras pessoas. O mesmo se passa com a literatura.

A literatura tem uma função social, e a produção resultante dela pode ser caracterizada como uma forma de apelo, um comunicado, e justamente por isso é uma forma de engajamento. O escritor deve confrontar sua própria época colocando-se, dessa maneira, em relação ao seu tempo. Sem tirar todas as implicações do pensamento de Sartre, podemos dizer que o escritor, no momento mesmo em que se dispõe a escrever algo, que se coloca na situação de comunicante, enfim, é revestido de engajamento político. Mesmo deixar de dizer, nesse quadro, é tomar uma posição em relação ao mundo: Mas desde já podemos concluir que o escritor decidiu desvendar o mundo e especialmente o homem para os outros homens, a fim de que estes assumam em face do objeto, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade (Sartre, 2004, p. 21).

Sartre segue dizendo, duas páginas adiante da citação anterior, marcando ainda mais sua posição, que arte pura e arte vazia seriam sinônimas. Ninguém escreve um livro para não falar de nada. O caso é que não podemos fugir do engajamento com o mundo; à força ou de bom grado todo escritor está engajado (Sartre, 2004, p. 53). A ele, portanto, cabe o enfrentamento de sua tarefa. O autor não pode escapar para o reino do lirismo, fingindo que não precisa se comprometer com a realidade e os outros homens. Em uma sentença lapidar, Sartre afirma como escritor e para os escritores que Nosso papel está definido: enquanto negatividade, a Literatura questionará a alienação do trabalho; enquanto criação e superação, apresentará o homem como ação criadora e o acompanhará em seus esforços para superar a alienação presente, rumo a uma situação melhor (Sartre, 2004, p. 173).”

 

 

“Quem nunca ouviu alguém dizer que sobre religião, política e futebol não se discute? Contudo, essa postura não parece filosófica, pois se esconde sem dar a chance de conhecer o diferente, sem promover uma autocrítica motivada pelo que é distinto de nós mesmos.”

 

 

“É pelo olhar do outro que a verdade melhor pode irromper para mim mesmo.”

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Teoria e prática em antropologia – Alessandra Stremel Pesce Ribeiro

Editora: InterSaberes
ISBN: 978-85-5972-250-5
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 252
Sinopse: Aquele que se aventura nos caminhos da antropologia tem suas percepções de mundo e de si mesmo alteradas, ampliando e renovando seu olhar em relação ao desconhecido, ao outro e ao diferente. Com base em um estudo sobre cultura, etnocentrismo, identidade, alteridade e fronteiras culturais, veremos que tomar consciência de diferentes costumes e crenças pode desfazer a ideia do indivíduo de que seus valores e modos de vida são unânimes. Portanto, por meio da reflexão crítica sobre nossa realidade, esta obra pretende desfazer preconceitos, estereótipos e mitos.



“Um dos principais objetivos da antropologia é demonstrar que todos os indivíduos e grupos sociais, nos mais variados tempos e lugares, significam suas ações e dão sentido ao mundo. A espécie humana não vive apenas uma, mas múltiplas realidades. Por muito tempo, o conceito de cultura foi a resposta para equacionar a diversidade humana e, ao mesmo tempo, a unidade da espécie.”


“Em seu livro Cultura: um conceito antropológico, o antropólogo Roque Laraia (2002) desconstruiu a ideia de que os instintos ou o ambiente são determinantes para o comportamento humano. Esse autor fez diversos questionamentos ao leitor, por exemplo: De que modo é possível falar em instinto de sobrevivência em face de fenômenos como o suicídio? Como falar em instinto materno se, em várias sociedades, a morte de recém-nascidos portadores de características específicas pode ser provocada? Como é possível afirmar que o homem é determinado pelo ambiente se, ao compararmos sociedades distintas vivendo em ambientes semelhantes, verificamos respostas e estratégias diferentes de adaptação?


“De modo geral, o dualismo entre natureza e cultura perpassou toda a obra de Lévi-Strauss. Em As estruturas elementares do parentesco (1982), esse mesmo autor argumentou que a passagem da natureza para a cultura ocorre no estabelecimento da primeira regra: a proibição do incesto, que consiste em interditar o ato sexual com algumas pessoas de acordo com a relação de parentesco entre elas.
A importância de tal proibição, para Lévi-Strauss, é emblemática, por forçar o estabelecimento de relações (alianças) fora das fronteiras do grupo. As trocas entre grupos, sendo a troca matrimonial a mais poderosa, revelam semelhança com a linguagem, pois ambas são tidas como processos comunicativos.
Mesmo reconhecendo a interdependência entre os planos da natureza e da cultura, Lévi-Strauss considerava que o aparato conceitual da cultura permitiria organizar o plano da natureza. Segundo o antropólogo, são os processos lógicos de classificação do mundo que dão forma e coerência à realidade. Para esse autor (1989; O pensamento selvagem, 1982), o que transformaria o homem em um ser social — isto é, quando ele escapa às determinações impostas pela natureza — seria a criação do universo das regras.”


“Segundo o antropólogo britânico Edward Tylor (1832-1917), a cultura (e a civilização) seria “um conjunto complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e as outras capacidades ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade” (Tylor, 1871, p. 1, citado por Denys Cuche, A noção de cultura nas ciências sociais, 1999, p. 35).
Embora outros etnólogos já tivessem utilizado o termo cultura antes de Tylor, ele o utilizou como um conceito. A cultura, para o autor, adquire um status coletivo, capaz de abarcar a totalidade do social. Nota-se que o conceito de Tylor é amplo o bastante para envolver o homem em várias dimensões. A cultura, ao ser tratada como algo adquirido, escapa às determinações biológicas.”


“Segundo Denys Cuche (1999), havia em Durkheim uma profunda preocupação com os aspectos simbólicos, os quais aproximaram o sociólogo de uma abordagem antropológica da sociedade. Ao menos dois aspectos do pensamento durkheimiano indicam sua preocupação com questões antropológicas:
1. a explicação de como o vínculo social é estabelecido, ou seja, como se dá a relação entre indivíduo e sociedade;
2. a ênfase nas representações coletivas — a ideia de consciência coletiva consistia em um conjunto de valores, ideais e sentimentos compartilhados impostos ao indivíduo.
Durkheim concebia a sociedade como uma totalidade orgânica, na qual todos os aspectos da vida social seriam interdependentes. A metáfora da sociedade como organismo foi inspiradora para vários pensadores. A noção da sociedade como totalidade orgânica teve grande impacto sobre os antropólogos ingleses, os quais, no início do século XX, estavam realizando seus primeiros trabalhos de campo. As ideias de Durkheim, quando confrontadas com outras sociedades, pareciam oferecer conceitos poderosos para se analisar a totalidade do social, objetivo último dos funcionalistas. Grosso modo, o conceito de função, desenvolvido por autores como Bronislaw Malinowski (1884-1942) e Alfred Radcliffe-Brown (1881-1955), considerava que todas as instituições sociais estavam interligadas e desempenhavam um papel específico (ou seja, tinham uma função) para a manutenção da coesão social.”


“O etnocentrismo é produzido quando o encontro entre grupos diferentes acontece. Ao nos depararmos com as diferenças, que podem ser as mais variadas (éticas, estéticas, religiosas etc.), ocorre um esforço para darmos sentido ao diferente este é o momento da tradução. No etnocentrismo, a tradução se dá ao interpretarmos as coisas do outro de nosso ponto de vista.”


“Se foi difundida uma visão de uma democracia racial à brasileira, foi porque a valorização do caráter miscigenado camuflou os processos históricos de conflitos e a dominação do sistema colonial. Apesar de hierárquico e conservador, o Brasil se pensa tolerante, liberal e igualitário.”


“Dumont foi um antropólogo francês que propôs uma interpretação da ideologia moderna de modo comparativo, partindo do seu oposto, a hierarquia. Em sua obra, o estudo da sociedade indiana mostrou ser uma importante ferramenta, pois permitiu um distanciamento do Ocidente, para olhar de modo analítico aquilo que antes era natural. Dumont (Homo Hierarchicus, 2008) estabeleceu dois modelos sociais e ideológicos* distintos:
1. Hierárquico — É o modelo predominante em sociedades tradicionais, em especial, na sociedade indiana. De modo geral, podemos afirmar que a hierarquia pressupõe que a ênfase é dada à totalidade, não às partes. Cada pessoa ou grupo ocupa um lugar definido na ordem social. As partes não ocupam os mesmos lugares, isto é, estes são diferentes, e é na relação entre os homens que a sociedade (o todo) adquire sentido.
2. Individualista — Trata-se de um modelo historicamente construído no Ocidente, e sua ênfase, ao contrário da hierarquia, não está no todo, mas nas partes (indivíduos ou grupos sociais). Nesse modelo, todos os indivíduos são considerados iguais, pois cada um é concebido como uma encarnação da sociedade inteira. A ideologia individualista pressupõe que a sociedade é constituída por um conjunto de indivíduos.
Roberto DaMatta aplicou o modelo de Dumont para analisar a sociedade brasileira. Segundo DaMatta (A casa e a rua, 1985), enquanto países como os Estados Unidos e a França obedeciam à lógica individualista, o Brasil seria um híbrido, combinando elementos individualistas e hierárquicos. Formalmente, no Brasil, o Estado, a Constituição e todos os modelos oficiais foram elaborados seguindo valores ocidentais — modernos e individualistas.
No entanto, as relações entre as pessoas são hierárquicas e tradicionais. O resultado é a navegação do brasileiro entre esses dois modelos, para os quais DaMatta (1985) utilizou a metáfora da rua e da casa.
A rua representa esse modelo impessoal e individualista, ao passo que a casa encarna o universo da rede de relações pessoais no interior da qual o sentido de pertencimento ao todo é possível. Nessa leitura do Brasil, o mundo da rua não é confortável, tanto que as redes de relações às quais pertencemos são acionadas sempre que possível. Daí as estratégias de aproximação com estranhos, procurando-se elementos de afinidade.
A valorização das relações pessoais no Brasil tem raízes históricas, sendo um dos únicos modos de navegação social possíveis na sociedade colonial. Aqui, ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos, a mobilidade foi atrelada não à igualdade de condições, mas às relações da pessoa com aqueles mais bem posicionados social e economicamente. Não é por acaso que, em nosso país, o compadrio se tornou uma instituição poderosa e que, por muito tempo, ser apadrinhado por um político ou coronel era um dos poucos caminhos para a ascensão social.
O compadrio consistia em um parentesco espiritual, com base no qual o padrinho do indivíduo assume uma responsabilidade moral pelo afilhado — uma espécie de paternidade. No Nordeste, por exemplo, os coronéis, donos de engenho, fazendeiros, eram muito requisitados para serem padrinhos de seus empregados. Ter essas pessoas como compadres possibilitava constituir laços sociais com alguém em posição privilegiada. E, para o padrinho, qual era a vantagem? A lealdade adquirida em troca, garantindo, assim, seu prestígio e poder na região. Ocorre que o compadrio, ao mesmo tempo que era hierárquico, era personalizado e implicava relações de amizade e confiança. Embora as distinções sociais entre os compadres fossem mantidas, elas eram sustentadas pela cordialidade.
Agora, é possível entender melhor por que, ao tratarmos do racismo no Brasil, afirmamos que ele também era hierárquico, de tal forma que até a classificação racial das pessoas podia variar segundo vários critérios, entre os quais sua rede de relações sociais ou situação econômica. O próprio mito da democracia racial implica hierarquia, pois, segundo a lógica moderna, igualitária, o único modo de atribuir a igualdade de condições é reconhecer a diferença entre elas.”
*: Para Dumont (2008), a ideologia é um conjunto de ideias e valores.


“O Brasil, como vimos, transita entre o individualismo moderno e os princípios tradicionais da hierarquia, característica que influencia diretamente o modo como concebemos e vivemos a cidadania. Nos últimos anos, com a introdução de políticas mais inclusivas, como as ações afirmativas, temos observado um esboço de sociedade mais igualitária, mas há ainda um longo percurso até alcançarmos uma cidadania mais inclusiva. A noção de igualdade entre indivíduos como princípio da cidadania não pode existir em países onde ainda há distinções e privilégios conforme o grau de instrução e a classe social da pessoa. Como certa vez afirmou DaMatta (O que faz o Brasil, Brasil?, 1984), estipulamos todas as classificações possíveis para estabelecer distinções entre as pessoas: vestimenta; condição econômica; cor da pele; família a que pertencem. Enfim, trata-se de um sistema em que cada integrante sabe o lugar que ocupa.
Marisa Peirano (A teoria vivida e outros casos de antropologia, 2006) revelou como, em duas situações diferentes, a noção de cidadania esteve ligada à posse de determinados documentos oficiais: a carteira de trabalho e o título de eleitor. A vinculação desses documentos a uma ideia de cidadania no Brasil faz distinções entre as relações sociais estabelecidas nos meios urbano e rural.
Segundo essa antropóloga, na década de 1930, a carteira de trabalho se tornou um documento que atribuía ao indivíduo o status de cidadão. Para isso, era necessário que a profissão exercida estivesse na lista das atividades regulamentadas pelo Estado. Já os trabalhadores urbanos e rurais desprovidos do registro em carteira não eram percebidos como cidadãos plenos. A correlação entre profissão e cidadania foi tão saliente que, por algum tempo, as associações profissionais podiam fazer a expedição do documento de identidade. No entanto, essa característica indica que
A carteira profissional, privilégio de uma parcela especifica da população, traz em si uma concepção de cidadania que mostra a face da distinção e a marca de status. Os cidadãos da nação, assim definidos, constituem uma minoria privilegiada. A nação existe como categoria ideológica, sendo composta de indivíduos hierarquizados que se diferenciam pela profissão e pelo lugar que ocupam na sociedade. (Peirano, 2006, p. 125)
Essa noção de cidadania desigual teve múltiplas implicações. O acesso ao sistema de saúde, por exemplo, esteve diretamente relacionado ao registro em carteira. Antes da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) os serviços de saúde ligados ao Ministério da Saúde cobriam praticamente campanhas de vacinação e atendimento em poucos casos de doença, quando se tratava de indigentes.
Em 1974, o governo militar criou o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), destinado apenas àquelas pessoas que contribuíam com a Previdência Social, ou seja, que tinham carteira de trabalho assinada. Talvez por essa razão, várias categorias de profissionais não eram contempladas com o atendimento dos serviços públicos de saúde. A universalização da saúde brasileira foi possível apenas com a homologação da Constituição Federal de 1988 — o SUS foi criado apenas no início dos anos 1990.”


“As relações pessoais na política não são malvistas pelos trabalhadores do interior. Trocar o voto por pequenos favores políticos (ou econômicos) faz a pessoa sentir que tem aliados em esferas às quais normalmente não tem acesso. A lógica local não vê isso como “venda de votos”, mas como ajuda mútua. O político ou comerciante tem acesso a determinados espaços aos quais o habitante local não tem, atuando, assim, como um mediador entre a pessoa e o Estado. Segundo Marisa Peirano (2006, p. 127), essa lógica só pode funcionar em um modelo de “política vinculado a relações personalizadas e hierárquicas que muito se distanciam do ideal universalista”. Trata-se de um modelo de política pelo qual os indivíduos não se percebem como iguais.”


“Tão importantes quanto a coexistência de duas ideologias distintas, ou formas de navegação social, são as analogias que DaMatta fez ao relacionar determinadas festas à realidade brasileira. As festas são importantes pois consistem em um período que escapam ao cotidiano e, por isso, têm a função de reforçar determinados valores. (...)
Podemos afirmar que os estudiosos dividiram os ritos em rituais de coesão social e rituais de rebelião (ou da desordem). Enquanto os primeiros consistem em reforçar para a sociedade valores e normas já existentes, os segundos invertem ou desconstroem a ordem social, ao menos durante o ritual. Os ritos cívicos e o carnaval operam nesses polos opostos, mas, ao mesmo tempo, se complementam para atribuir determinados sentidos à experiência do brasileiro: “cada um desses lados permite esquecer o outro, como as duas faces de uma mesma moeda. E, no entanto, os dois fazem parte e constituem expressões ou reflexões de uma mesma totalidade, uma mesma coisa” (DaMatta, 1984, p. 42, grifo nosso).
Dentre as festas da ordem, a mais conhecida é a parada militar. Na organização espacial da festa, é possível observar uma separação entre a população, o desfile e as autoridades (às últimas é destinado um lugar de destaque). O rito é apresentado ao mesmo tempo ao povo e às autoridades, mas encerra significados diferentes: quanto ao povo, a parada militar tem a função de mostrar a força do Estado, ao qual a população deve estar submetida; já sua apresentação às autoridades demonstra o reconhecimento em relação ao poder estabelecido. Por essas razões, as paradas militares no Brasil têm a função de reforçar as distinções hierárquicas estabelecidas no país.
Essa realidade é muito diferente do que ocorre nas paradas cívicas, por exemplo, nos Estados Unidos, em que o exército não desfila equipado com armas no intuito de enfatizar a força do Estado. Lá, a população é parte do evento e está integrada ao desfile propriamente dito, bem como na condição de quem dele participa efetivamente como espectador.
O carnaval vive situação oposta ao que acontece com os desfiles militares no Brasil. Nessa festividade, durante quatro dias, toda ordem estabelecida se dissolve. Se existe alguma hierarquia, durante o carnaval, ela está às avessas. Quando se trata da avenida por onde desfilam carros alegóricos e pessoas, o espetáculo gira em torno daqueles que, no dia a dia, são hierarquicamente inferiores: pobres, negros, empregadas domésticas, categorias sociais que se apresentam em maior número no carnaval. (...)
Durante os quatro dias de carnaval, talvez exista uma democracia “à brasileira”, pois é durante essa festividade que as redes de relações deixam de ser imperativas para a navegação social da pessoa. Tampouco tem expressão a figura opressora das autoridades que sempre “colocam o pobre no seu devido lugar”. Em outras palavras, ao longo do carnaval, toda e qualquer hierarquia sai de cena.”


“Há um lugar no planeta, no extremo ocidente, onde vive um povo muito interessante, e que há cerca de uns seiscentos anos atrás se achava inteiramente desprovido de cultura. Ele havia perdido toda a sua sabedoria ancestral ao cabo de inumeráveis invasões de bárbaros, de sucessivas catástrofes, pestes, secas, guerras, o diabo. A partir de certo momento, porém, esse povo começou a se reiventar, criando uma cultura artificial: começaram a imitar uma arquitetura de que só conheciam ruínas ou em velhos escritos, faziam traduções vernáculas de textos em línguas mortas a partir de traduções em outras línguas, tiravam conclusões delirantes, inventavam tradições esotéricas perdidas... Como se sabe, esse processo, que se passou na Europa ali mais ou menos entre os séculos XIV a XVI, ganhou o nome de Renascimento. O Ocidente moderno principia ali. O que é o Renascimento? Os europeus – mistura étnica confusa de germânicos e celtas, de itálicos e eslavos, que falam línguas híbridas [...] Refiguram o mundo grego, que não era o mundo grego (ou greco-romano) histórico, mas uma “Antiguidade clássica” feita – como sempre – de fantasias e projeções do presente. Erguem templos, casas, palácios imitativos, escrevem uma literatura que se refere privilegiadamente a esse mundo, uma poesia imitando a poesia grega, esculturas que imitam as esculturas gregas. [...] E Sahlins conclui: pois é, quando se trata dos europeus, chamamos esse processo de Renascimento. Quando se trata dos outros, chamamos de invenção da tradição. Alguns povos têm toda a sorte do mundo.”
(Sahlins, citado por Viveiros de Castro, No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é, 2006, p. 18-19)


“Acreditamos que a antropologia nada mais é do que uma ferramenta para pensar a existência a partir de outra perspectiva, isto é, não mais de forma etnocêntrica, julgando experiências e ideias que diferem das nossas, mas procurando compreendê-las em seus próprios termos.”