quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A quem pertence o amanhã? Ensaios sobre o neoliberalismo (Parte I) – Manoel Luiz Malaguti, Marcelo D. Carcanholo e Reinaldo A. Carcanholo (org.)

Editora: Loyola
ISBN: 978-85-1501-598-6
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 266
Sinopse: Esta coletânea pretende constituir-se em um espaço de divulgação de ideias críticas ao neoliberalismo. A ortodoxia liberal radicalizada impõe-se hoje como a única expressão possível das práticas sociais e as políticas econômicas condizentes com a modernidade. É bem verdade que seu sucesso deve-se muito mais a apatia das elites, das universidades e dos meios de comunicação do que ao conteúdo e à propriedade de suas propostas. Na realidade, os novos liberais apenas ratificam acriticamente as imposições do mercado: para melhor impulsionar suas potencialidades, o funcionamento do mercado tem sido libertado de todos os “entraves”, de todo e qualquer mecanismo regulador, de tudo que possa impedir sua livre expressão.



“Há duas décadas novas Tábuas da Lei de Deus impõem-se progressivamente ao conjunto da humanidade: uma aliança foi feita. Na civilização cristã, a “antiga” aliança estabeleceu um pacto entre Deus e o Homem, centrado na ideia do amor entre Deus (o Criador, o Pai) e o Homem (sua criatura, o filho), e entre os próprios seres humanos (“Amarás teu próximo como a ti mesmo”). Por seu lado, o homem mantinha toda a sua liberdade. Ele podia pecar; o Pai, misericordioso, podia perdoar.
As Tábuas da Lei dos dias atuais consagram a aliança entre o mercado (e também a tecnologia) e o conjunto da humanidade. O mercado é o grande regulador da vida econômica, o guia dos homens e da sociedade, os quais devem a ele se adaptar por toda a eternidade, Impõe-se “dedicar toda nossa fé aos mecanismos do mercado”1, cujo motor principal é o preço, submetido constantemente às mudanças induzidas pelo progresso científico e técnico, assim como às inovações tecnológicas, cujas exigências e imposições não permitem que nenhum indivíduo e nenhuma sociedade possam escapar. Nesse contexto, a única liberdade que o mercado oferece ao homem é a de submeter-se. Se ele não o fizer, se cair em tentação e pecar, ele não será perdoado. Será simplesmente eliminado do mercado de trabalho, do mercado de bens, do mercado de capitais... As novas Tábuas da Lei exaltam a ideia da competitividade entre todos os homens, entre todos os grupos sociais constituídos e entre todas as comunidades territoriais (cidades, regiões, países), pois, proclamam elas, a saúde individual e coletiva passa pela conquista de partes do mercado, especialmente do mercado mundial2.”
1: Groupe Bangemann. “L’Europe et la société de l’information planétaire, recommandations au Conseil européen”. Relatório de Martin Bangemann. Bruxelas, Comission Européenne, 26 de maio de 1994.
2: Cf. Ricardo Petrella. “L’évangile de la compétitivité”. Le Monde Diplomatique, setembro de 1991.
(Ignacio Ramonet)


“A história dos séculos XIX e XX foi, fundamentalmente, a da redução, até mesmo da eliminação, dos excessos perversos do capitalismo e de suas pretensões de governar a sociedade. Contra a tendência do capitalismo de criar estruturas oligopólicas ou monopólicas, foram votadas as leis antitruste, limitando as concentrações financeiras e industriais. Contra sua lógica de exploração do trabalho humano, foram estabelecidas legislações proibindo o trabalho infantil, um máximo de horas de trabalho cotidiano foi fixado, um salário mínimo vital garantido etc. Contra sua inclinação natural a deixar por conta própria os inaptos para o trabalho, os excluídos ou os desafortunados, foram instaurados sistemas de proteção social. Contra sua propensão a tudo transformar em valor mercantil, foram afirmados os princípios de igualdade, de justiça social e de solidariedade e foi posta a primazia do político e, ainda mais, da ética. Hoje em dia, a mundialização da economia de mercado, privatizada, desregulamentada e liberalizada, está “liberando” o capitalismo das regras, procedimentos e instituições que permitiram, em escala nacional, que fosse construído o “contrato social” (o Estado de bem-estar ou Welfare State)6.”
6: Cf. Christian de Brie, “Feu sur l’etat-providence”, e os artigos de Corinne Gobin e Seumas Mine em Le Monde Diplomatique, janeiro de 1994.
(Ricardo Petrella)


“Citemos cinco (iniciativas que a OMC poderia adotar):
— reintroduzir, em bases coordenadas em escala mundial, medidas nacionais, europeias e internacionais de controle dos movimentos de capitais, lado a lado com a eliminação do sigilo bancário e a proibição dos paraísos fiscais;
— conceber um novo sistema de Bretton Woods (reforma do Fundo Monetário Internacional [FMI] do Banco Mundial e, eventualmente, da Organização Mundial do Comércio, chamada a tomar o lugar do GATT) com o objetivo de orientar a riqueza do mundo para a satisfação das necessidades básicas da população mundial mais desfavorecida;
— estabelecer um novo sistema fiscal que desloque o eixo predominante da taxação atual sobre o trabalho para o capital, os recursos energéticos, as matérias-primas, os equipamentos, com o objetivo de pôr a tecnologia a serviço da valorização dos saberes e das capacidades humanas e não de sua substituição pelas máquinas;
— interromper o crescimento irresponsável e suicida das grandes cidades, notadamente nos países da Ásia, da América Latina e da África, que estão se tornando “buracos negros” ingovernáveis e destruidores da sociedade;
— finalmente, revalorizar — em todos os níveis e de maneira difusa — o papel do legislativo diante do crescimento imperial das tecnocracias e da nova classe mundial da aristocracia da competência e da excelência.”
(Ricardo Petrella)


“O capitalismo industrial, simbolizado de 1850 a 1950 pela usina, suas chaminés de fumaça, seus ritmos de atividade, sua disciplina do trabalho, começa a desaparecer em face de uma nova realidade. E assim tende também a desaparecer a classe operária, o sindicalismo operário e certa forma de conflito e de relações sociais. Não é, por isso, um acaso se, com o passar do tempo, pereça toda uma concepção do socialismo: aquela que foi forjada na luta contra a exploração capitalista na indústria, que tinha feito da classe operária a força principal de emancipação humana e do proletariado industrial o messias dos tempos modernos.
Claro, os ideais fundadores do socialismo solidariedade, equidade, justiça social, fraternidade — sobrevivem6, mas duplamente enfraquecidos: fragilizados por ter perdido sua dinâmica de lutas e por ter de se recompor em capitalismos enfraquecidos pela crise. Mas recompor-se em relação a quê? Essa nova sociedade emergente foi classificada de diversas formas pelos mais variados analistas: terciária, pós-industrial, de serviço, da informação, da comunicação... Mas está aqui o essencial? A dinâmica maior de nosso tempo é a extensão das relações mercantis a quase todos os domínios: à diversão e ao bem-estar dos homens, assim como ao funcionamento das empresas e das organizações, à dinâmica dos sistemas de informação, à decisão como gestão do político e aos sistemas sociais e de gestão do meio ambiente e talvez mesmo de controle do planeta. É então uma nova fase da divisão do trabalho e da esfera das mercadorias, marcada pela multiplicação das mercadorias complexas, produzidas principalmente por grupos capitalistas ou instituições sob seu controle. Lembremos, ainda, que essa produção exige tanto a disponibilidade de um trabalho fundamentado em competências profissionais (jurídicas, médicas, financeiras, de gestão), como materiais e tecnologias quase sempre sofisticadas. Essas “mercadorias complexas” não se reduzem nem a objetos individualizáveis, nem a simples serviços. Elas são combinações do material e do imaterial, de intervenções diretas de competências e do uso de bens com forte conteúdo técnico implicando, então, investimentos pesados, tanto em pesquisa e na produção de equipamentos, quanto na formação de homens. De onde se deduz o papel central dos grandes grupos (como na informática, nas comunicações, nas telecomunicações, nos complexos de informação, nas biotecnologias, no espacial, nos lazeres, na antipoluição etc.) e o papel secundário da sociedade como simples auxiliar do mercado.
Assim, atrás da aparência de uma passagem da indústria para o terciário, o fenômeno decisivo é, segundo pensamos, a emergência de um capitalismo generalizado. Seu campo é a generalização da mercadoria, a mercantilização do próprio homem (saúde, comércio de sangue, de órgãos, da procriação e com a perspectiva da gestão genética de toda sua existência), das funções sociais (educação e informação, conhecimento e gestão da opinião e, provavelmente, com a perspectiva de gestão da decisão política, das tensões e dos conflitos), das atividades humanas superiores (pesquisa científica, elaboração dos saberes, das obras do intelecto e artísticas, com a perspectiva da gestão dos princípios e dos valores sociais), das relações com a natureza (antipoluição, produção e urbanização não-poluentes, com a perspectiva da gestão do planeta) etc.
Em domínios nos quais a reprodução não encontra resistências do mundo material (informação, conhecimento, cultura, criação) a abundância estava ao alcance de uma humanidade que teria hierarquizado seus fins e controlado suas necessidades. Mas as firmas souberam impor seus monopólios, exacerbar e multiplicar as necessidades, criar uma nova escassez. E estamos outra vez presos, em quase todos os momentos de nossas vidas, pela dependência de novos materiais, de novos programas de computador, de novas necessidades de informação, de novas esperas, de novas esperanças, novas alienações...”
6. Cf. Michel Beaud, “Le Socialisme à l’Epreuve de l'Histoire”, Le Seuil, Paris, 1982.
(Michel Beaud)


“Doravante, a economia domina a sociedade. Para numerosas questões que em outros tempos eram tratadas em termos políticos ou éticos, primam agora os argumentos econômicos. A melhoria das condições de vida de cada um, a elevação do nível de vida, a própria existência e até mesmo a felicidade parecem depender essencialmente da vitalidade da economia. No universo da Ciência Econômica, correntes cada vez mais poderosas pretendem trazer respostas a tudo, e isso graças ao simples cálculo econômico. Pois tudo, seria apenas um negócio de maximização ou de otimização11. Assim, a dominação crescente da economia sobre nossas sociedades tende a desdobrar-se em uma dominação crescente do raciocínio econômico sobre nossas mentalidades, nossas formas de pensar, nossos julgamentos e nossas decisões.
Ora, sociedades nacionais e sociedades humanas são cada vez mais dominadas pela esfera monetária e financeira que se desenvolve com a multiplicação das operações de câmbio, o inchaço das atividades financeiras e da bolsa de valores, as especulações incessantes e as arbitragens cada vez mais finas e precisas sobre as taxas de juros e as taxas de câmbio, os jogos cada vez mais etéreos sobre os “futuros”, os diferenciais, as opções...
Essa esfera monetária/financeira começa a inflar-se poderosamente e tende a autonomizar-se em relação ao funcionamento das economias produtivas e mercantis. As trocas nos mercados monetários, financeiros e na bolsa de valores, que representam duas vezes as trocas de mercadorias no tempo de Keynes, representam hoje cinquenta vezes seu valor12. Essa esfera monetária e financeira realiza, de uma forma espetacular, a tendência contemporânea à globalização; ela constitui o meio ideal para as atividades dos especuladores internacionais, das oligarquias e ditadores (enriquecidos em detrimento de seus países13), das finanças de todas as máfias e de todos os tráficos. Agitada pelas relações complexas entre moedas nacionais, finanças públicas dos Estados, estratégias financeiras das multinacionais e contas exteriores das nações, essa esfera também está sujeita a impulsos e lógicas que lhe são próprias; seus efeitos, que se transmitem em tempo real para toda a Terra, arriscam, em caso de crise14, levar na tormenta as moedas e as economias nacionais, com as sociedades humanas que, doravante, delas dependem.
Finalmente, com o duplo processo da mercantilização e da globalização, aparece no cenário uma situação completamente nova na história das sociedades: as sociedades cada vez mais dependentes da economia; economias cada vez mais tributárias das tensões e dos sobressaltos de uma esfera monetária e financeira mundial que nada nem ninguém está em condições de controlar sua dinâmica ou de impedir a espiral de uma crise.”
11. Pensa-se notadamente em Gary Becker. Cf. Michel Beaud e Gilles Dostaler, La Pensée Economique depuis Keynes. Paris, Seuil, 1995, pp. 16ss; pp. 238ss.
12. Outra avaliação: a relação entre o conjunto das compras e das vendas de moedas nos mercados de câmbio e o conjunto das operações ligadas ao comércio mundial eram de seis em 1979 e de vinte em 1986. Ct Michel Beaud, L'Economie Mondiale dans les Années 80. Paris, La Découverte, 1989, pp. 129-129.
13. Nos anos 80, para treze países fortemente endividados do Terceiro Mundo, os haveres no estrangeiro estimados como correspondendo a fugas de capitais representavam 40% a 50% do estoque da dívida externa desses países (United nations Conference on Trade and Development), International Monetary and Financial Issues for the 1990's. ONU, Nova York, vol. III, 1995, p, 66).
14. Dois alertas sérios apoiam nossa afirmação: a crise da bolsa de valores do outono de 1987, por um lado, e os ataques especulativos contra as moedas do sistema monetário no primeiro semestre e no verão de 1995, por outro. Os otimistas podem assim pensar que se poderá sempre evitar o pior; os pessimistas podem temer que uma outra vez todos os diques sejam arrastados pela cheia.
(Michel Beaud)


“Com valores desgastados, coerências fragilizadas, as sociedades contemporâneas não têm mais projetos globais: o crescimento econômico tornou-se sua principal finalidade. Nos países ricos, apresentado por longo tempo como meio de aumentar o bem-estar, o crescimento é, hoje, considerado o principal remédio para o desemprego e a pobreza — alguns preferem não refletir sobre as razões pelas quais, depois de um ou dois séculos de crescimento, os países capitalistas ainda sofrem desses males.”
(Michel Beaud)


“Mas quem não vê a trágica distorção entre a amplitude dos desafios de nosso tempo e a incapacidade de nossas sociedades para enfrentá-los? Não estaríamos entrando numa era de irresponsabilidade ilimitada? Porque, uma vez que o mercado provê tudo, é o consumidor que deve fazer sua escolha; desde que os mercados, principalmente o financeiro, são mundiais, os dirigentes nacionais encontram boas desculpas para o laissez-faire. Firmas, governos, profissionais (da saúde ou das finanças) ou especialistas não são indiferentes em relação aos apelos, às declarações, aos códigos (de boa conduta ou de ética): comprova-se isso, se necessário for, com a conferência do Rio de Janeiro. Mas, diante dos processos em curso que desestruturam nossas sociedades, põem em perigo a Terra, ameaçam a humanidade, nenhum lugar elabora ou põe em prática a estratégia pluridimensional da qual temos necessidade.
Assim, o pior está, talvez, preparando-se: que uma humanidade mais rica do que nunca aceita que um bilhão dos seus mergulhem na miséria; a intolerável desigualdade que caracteriza nosso tempo, nascida da combinação das diversas sociedades e do fosso existente entre elas, atingindo seus limites visto que, em todos os lugares, domina o dinheiro. Para a população mundial considerada em seu conjunto, os 20% mais pobres dispõem de 0,5% do rendimento mundial e os 20% mais ricos, de 79%16. Algumas famílias muito ricas têm como rendimentos o equivalente monetário ao que recebem centenas de milhares de famílias muito carentes. Ninguém ousa dizê-lo, mas o que está sendo instaurado, em estrito silêncio, é um novo apartheid de escala planetária.
O pior é também o sacrifício imposto às próximas gerações pela rapacidade e pelas omissões de hoje, por meio dos recursos desperdiçados e pilhados: água poluída, solos destruídos, lixo químico e radioativo lançados nas terras e nas águas, áreas nucleares (civis ou militares) a controlar. Eles serão vários bilhões a mais (outra irresponsabilidade daqueles que se opõem ao controle demográfico) e terão de gerir os estragos, os riscos e as carências que nós lhes teremos legado. Em vez de conhecer uma nova etapa da emancipação humana, eles estarão submetidos à pressão de novos limites e novas necessidades.
Levando em conta o poder das dinâmicas em curso, a força de aceleração que caracteriza praticamente todos os aspectos da evolução de nosso mundo e a ausência de alternativa crível, só resta o apego firme, é verdade — a umas poucas trincheiras. Assim fazendo, devemos 1) procurar impedir a dominação geral da mercadoria; 2) salvaguardar ou recriar espaços públicos gratuitos e vinculados à pequena produção familiar ou comunitária; 3) redefinir em todos os níveis (locais e mundiais) um espaço de bens públicos de responsabilidade dos poderes constituídos; 4) bloquear a emergência de um apartheid mundial; 5) interromper o agravamento das desigualdades e trabalhar para reduzi-las; 6) reafirmar, restaurar ou instaurar sistemas múltiplos de solidariedade, de redistribuição e de proteção social e, enfim, 7) conceber e colocar em prática estratégias que sejam respostas a necessidades urgentes (água, habitação, saúde) e que suscitem o desenvolvimento de atividades e de empregos, contribuindo para promover formas de produção e de vida não-destruidoras dos recursos e dos equilíbrios de nossa Terra.
Tudo isso na expectativa de que um ímpeto humanístico, ético, político permita melhores perspectivas.”
16. Programa das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento (PNUD). Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento Humano, 1992. Paris, Econômica, 1992, P. 40.
(Michel Beaud)


“A partir do começo dos anos 80, uma grande parte das dívidas das grandes sociedades e bancos foi eliminada e transformada em dívida pública. Esse fenômeno de “conversão” é um elemento central da crise: as perdas foram sistematicamente transferidas para o Estado. Além disso, boa parte das subvenções públicas, em vez de estimular a criação de empregos, foi utilizada para financiar a concentração de empresas, tecnologias limitadoras de mão-de-obra, deslocamentos para o Terceiro Mundo. As despesas do Estado favoreceram desse modo a concentração da propriedade e uma diminuição sensível da força de trabalho industrial, enquanto o desaparecimento de médias e pequenas empresas e a produção de desemprego entre os assalariados (que também são contribuintes) aceleravam a diminuição dos ingressos fiscais6. A crise da dívida ainda favoreceu o estabelecimento de sistemas fiscais regressivos, que também contribuíram para o agravamento... da dívida. Enquanto baixava a imposição sobre as empresas, os impostos (entre eles a TVA, Taxe à la ValeurAjoutée (Imposto sobre valor adicionado]) que atingem a população assalariada eram utilizados para o pagamento da dívida pública. A crise fiscal também foi agravada pela transferência, favorecida pelas novas técnicas bancárias, de lucros de empresas para paraísos fiscais como Suíça, Luxemburgo, Bahamas etc. As ilhas Cayman, colônia caribenha da coroa britânica, constituem o quinto centro bancário do planeta em termos de depósitos anônimos ou de depósitos provindos de empresas de fachada7.
Desse modo, o agravamento do déficit americano está diretamente ligado a uma evasão fiscal maciça e à fuga de lucros não declarados. Em compensação, uma boa parte dos fundos depositados nas ilhas Cayman e nas Bahamas — alguns deles controlados por organizações criminosas — serve para o financiamento de investimentos nos Estados Unidos. Um círculo vicioso foi assim estabelecido. Os destinatários dos subsídios governamentais tornaram-se credores do Estado. Os bônus emitidos pelo Tesouro para financiar as grandes firmas são adquiridos pelos bancos e pelas instituições financeiras, que também são beneficiados pelos subsídios estatais. Movemo-nos no absurdo completo: o Estado financia, desse modo, seu próprio endividamento, subsídios são utilizados para a compra da dívida pública. Assim, o governo está imprensado entre ambientes de negócios que fazem pressão para obter subvenções e serem seus credores. E, como uma grande parte da dívida pública está nas mãos de instituições financeiras privadas, estas últimas estão em posição de influenciar os governos com o objetivo de controlar ainda mais os recursos públicos...
Além disso, em muitos países membros da OCDE, as práticas dos bancos centrais foram modificadas com o objetivo de responder às exigências dos mercados. Essas instituições tornaram-se cada vez mais “independentes” e foram “postas ao abrigo das influências políticas”. Com efeito, isso significa que o Tesouro está cada vez mais à mercê dos credores privados. Na verdade, o Banco Central (que não é responsável nem diante do governo, nem diante dos parlamentares) opera como burocracia autônoma sob a tutela dos interesses financeiros privados. São estes, mais que o governo, que determinam a política monetária. Um exemplo: os fortes aumentos das taxas de juros americanas em 1994-1995 foram ditadas por Wall Street, provocando um inchaço no pagamento de juros da dívida pública e cortes correspondentes nos gastos sociais, que também tinham sido solicitados pelos meios financeiros. A política monetária como meio de intervenção do Estado já existiu um dia; doravante, ela será em parte domínio do banco privado. Contrastando com a raridade crescente dos fundos públicos, a “criação de moeda” (que implica um controle dos recursos reais) é realizada no coração do sistema bancário internacional, com o único fim de enriquecer a ordem privada. Poderosos atores financeiros têm, além da possibilidade de criar e de fazer circular moeda, a de manipular as taxas de lucro e de precipitar a queda de divisas maiores, como aconteceu com a libra esterlina em setembro de 1992.”
6. A contribuição das firmas americanas nos ingressos federais passou de em 1980 para 8,3% em 1992. Cf. US Statistical Abstract, 1992.
7. Estimativas apresentadas por Jack A. Blum em Journées sur les drogues, Le développement et L'état de droit. Bilbao, outubro de 1994. Cf. também Alain Labrousse e Alain Wallon (sob a direção de), La Planite des Drogues. Le Seuil, Paris, 1995; e La Drogue, Nouveau Désordre Mondial. Observatoire Géopolitique des Drogues. Hachette, Paris, 1995.
(Michel Chossudovsky)


“O futuro terá retomado uma perspectiva positiva? Silêncio, entretanto, sobre o futuro do trabalho e do tempo livre nas sociedades ricas; silêncio sobre a evolução demográfica e os fulgurantes fenômenos de urbanização (incluídos em anexos estatísticos nos relatórios); silêncio sobre as relações entre emprego e modo de desenvolvimento; silêncio sobre os meios políticos para domar os “dragões” especulativos mundiais, que não são estranhos à escalada do desemprego. Por outro lado, podemos nos alegrar com a informação de que vários milhares de assalariados da Microsoft são milionários e de que dois dentre eles são bilionários. Para eles, ao menos, a “dura realidade” pertence em princípio, ao passado.”
(Jacques Decornoy)


“Ao contrário das expectativas de uma transição para a democracia depois das ditaduras militares, a ordem neoliberal tem se caracterizado por um recrudescimento das formas autoritárias de governo.
O efeito político e social dessas mudanças é a tendência a excluir da atividade política regular amplos setores da sociedade por uma das três seguintes vias: limitação do exercício do direito do voto (que não necessariamente é respeitado, sobretudo quando seus resultados não beneficiam os grupos dominantes); severa restrição ou eliminação do exercício da representação das organizações sociais realmente existentes (que só detêm espaços limitados através dos partidos políticos com registro estável); e descrédito geral das funções públicas exercidas pelas representações políticas opositoras.
Nessas condições, é cada vez maior o número de conflitos políticos que carecem de canais de negociação, bem como de formas institucionais estáveis de solução. De maneira superficial, a academia conservadora tende a denominar tal circunstância de “ingovernabilidade”, termo usado pelos estrategistas da segurança nacional norte-americana. Por nossa parte, acreditamos que é necessário referir-se, na verdade, ao predomínio de um regime de exclusão que coloca em risco a sobrevivência da ordem, salvo pelas ações de força que possam ser exercidas pelos aparelhos de poder. De todas as maneiras, tal regime de exclusão serve predominantemente para o objetivo de diminuir ainda mais a soberania nacional (entendida como exercício da capacidade de decisão política sobre uma população em um território determinado), com o consequente incremento do intervencionismo externo.”
(Raquel Sosa Elízaga)

A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal (Parte II) – Dany-Robert Dufour

Editora: Companhia de Freud
ISBN: 978-85-8571-793-3
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 216
Sinopse: Ver Parte I



“A pós-modernidade não me parece analisável, pois, como a época do esclarecimento em relação aos ídolos imaginários, mas como a do desaparecimento da instância que, no sujeito, lhe diz: “Tu não tens o direito de...”. Digamos que, na pós-modernidade, o Pai é morto sem que se sigam a culpabilidade e a condenação do assassinato graças ao qual se constitui alguma figura do Outro. A pós-modernidade produz assim sujeitos sem consistência superegóica verdadeira, insensíveis à injunção simbólica, mas extremamente vulneráveis a todas as formas de trauma. Não recalcando mais, eles se tornam imunes à culpabilidade, mas sujeitos à vergonha. Esse desaparecimento da culpabilidade é hoje tão profundo que alcançou o meio dos responsáveis políticos – lembramo-nos da histórica e aterradora fala de um ministro da Saúde dos anos 1980 a propósito da questão do sangue contaminado: “responsável, mas não culpado”.
O universo simbólico do sujeito pós-moderno não é mais o do sujeito moderno: sem grande Sujeito, isto é, sem marcos em que possam se fundar uma anterioridade e uma exterioridade simbólicas, o sujeito não chega a se desdobrar numa espacialidade e numa temporalidade suficientemente amplas. Ele fica engolido num presente dilatado no qual tudo transcorre. A relação com os outros se torna problemática na medida em que sua sobrevivência pessoal se encontra assim sempre em causa.”


“O que acontece com a forma sujeito hoje, em período neoliberal? (...) Do lado da consciência reflexiva (processos ditos secundários), o neoliberalismo quer absolutamente acabar com o sujeito crítico (...). E do lado do inconsciente (processos ditos primários) o neoliberalismo não tem mais o que fazer com o velho sujeito herdado da modernidade, exposto por Freud, classicamente neurótico e assaltado pela culpabilidade. Ao invés desse sujeito duplamente determinado, ele quer dispor de um sujeito a-crítico e, tanto quanto possível, psicotizante. Isto é, um sujeito disponível para todas as conexões, um sujeito incerto, indefinidamente aberto aos fluxos de mercado e comunicacionais, em carência permanente de mercadorias para consumir. Um sujeito precário em suma, cuja precariedade mesma é exposta à venda no Mercado, que pode aí encontrar novos escoadouros, tornando-se grande provedor de kits identitários e de imagens de identificação.”


“O que produz, pois, o mais difundido desses meios, a televisão, nas crianças? A questão é ainda mais importante de ser levantada na medida em que o achatamento das crianças pela televisão começa muito cedo. As crianças que hoje chegam à escola são frequentemente crianças empanturradas de televisão desde sua mais tenra idade. Está aí um fato antropológico novo, cujo total alcance não se avaliou ainda: doravante os pequeninos frequentemente se encontram diante da tela antes mesmo de falar. Intuitivamente se compreende por quê: é o único instrumento que permite manter as crianças tranquilas sem se ocupar delas. O consumo de imagens, como todas as pesquisas mostram, atinge várias horas por dia. Segundo um estudo da Unesco, “as crianças do mundo passam em média três horas por dia diante da telinha, o que representa pelo menos 50% mais de tempo consagrado a esse meio que a qualquer outra atividade para-escolar, compreendidos aí os deveres, passar tempo com a família, amigos ou ler”4. Esse número, já considerável, é, no entanto, apenas uma média: perto de um terço das crianças olha a televisão 4 horas por dia ou mais (encontra-se, entre esse terço, uma maioria de crianças das classes e das minorias desfavorecidas).
A inundação do espaço familiar por essa torneira sempre aberta de onde corre um fluxo ininterrupto de imagens não deixa de ter, evidentemente, efeitos consideráveis na formação do futuro sujeito falante. Em primeiríssimo lugar, a televisão, pelo lugar preponderante ocupado por uma publicidade onipresente e agressiva, constitui um verdadeiro adestramento precoce para o consumo e uma exortação à monocultura da mercadoria5. Aliás, essa incitação excessiva não é desprovida de visadas ideológicas. Os mais agressivos publicitários entenderam perfeitamente que partido podiam tirar do desabamento pós-moderno de toda figura do Outro: eles também não hesitam em recomendar entranhar-se “na fragilidade da família e da autoridade para instalar marcas, novas referências” (...)
Além da publicidade, há a violência das imagens: em torno dos 11 anos, a criança “média” terá visto cerca de 100.000 atos de violência na televisão e terá assistido a cerca de 12.000 assassinatos8! Certo, as histórias contadas pelas supostas gentis avós de outrora continham uma porção considerável de horríveis histórias de ogros devoradores de crianças que literalmente nada deixam a invejar às usuais imagens gore* difundidas hoje. Mas não se deve esquecer duas diferenças cruciais: 1) a avó, ao mediatizar o horror, o integrava no circuito enunciativo e o tornava, de certo modo aceitável; 2) existe uma nítida dessemelhança entre o universo claramente imaginário do ogro no conto, obrigando a criança a pensar esse universo como um outro mundo (o da ficção) e o universo muito realista dos seriados, com brigas, violências, roubos assassinatos, sem distância do mundo real9. (...)
Assim, esquece-se frequentemente de mencionar que o tempo a mais para a televisão é tempo a menos para a família. De modo que, com a televisão, é a família, como lugar de transmissão geracional e cultural da vida, que se encontra de cara reduzida à porção compatível. Neste sentido, a expressão “filhos da televisão”, tomada ao pé da letra, ao invés de provocar risos, deveria verdadeiramente aparecer como o que ela é: antes patética, de tanto que ela verifica o fato de que a televisão efetivamente roubou o lugar educador dos pais em relação aos filhos, para tornar-se o que estudos quebequenses nomeiam como “terceiro parental” particularmente ativo, suplantando em muito os verdadeiros pais.”
*: Subgênero cinematográfico dos filmes de horror, que é caracterizado pela presença de cenas extremamente violentas, com muito sangue, vísceras e restos mortais de humanos ou animais.
4: Jo Groebel, “The Unesco Global Study on Media Violence”, em Children and Media Violence, Unesco, Stockholm, 1998.
5: Ver o artigo de Paul Moreira em Le Monde diplomatique de setembro de 1995: “Les enfants malades de la publicite”. Segundo a revista Consumer Report, uma criança americana vê em média 40.000 espotes de publicidade por ano. O poder de compra dos kids americanos interessa fortemente o marketing, já que ele é avaliado em cerca de 15 bilhões de dólares – sem contar a influência que eles têm nas compras de seus pais, estimadas em cerca de 130 bilhões de dólares por ano (números de 1991).
8: Wendy Josephson, Television Violence: A Review of the Effects on Children of Different Ages, Patrimoine canadien, 1995.
9: Um estudo conduzido pelo psicólogo Jeffrey Johnson da Columbia University, publicado na revista Science de 29 de março de 2002, nº 295, argumenta com uma nítida correlação entre o comportamento adolescente violento e o tempo passado diante da televisão.


“Primeiro, notemos que a exposição maciça à imagem televisiva desvia o sentido secular das relações texto-imagem. Antes da invasão das relações geracionais pela televisão, decerto existiam imagens, mas a iniciação à prática simbólica partia do texto através do qual eram inferidas as imagens. Entendo por “texto” tanto enunciados orais – fala cotidiana, contos, versões de mitos ou lendas – quanto enunciados registrados numa escrita (texto santo, folhetos, romances...). Esse primado do texto pode ser facilmente concebido a partir de certas situações simples. Por exemplo, a audição de um contador de histórias ou a leitura de um romance desencadeiam uma atividade psíquica durante a qual o ouvinte ou o leitor cria imagens mentais das quais ele se torna, de algum modo, o primeiro espectador. Era assim que os feácios, reunidos em torno do aedo que contava as proezas de Ulisses, assistiam “diretamente” e “viam” em seu foro interior as proezas narradas. Essa capacidade de presentificar o que está ausente refere, evidentemente, um ponto chave da simbolização. Aliás é a audição da narrativa de suas próprias proezas que permite a Ulisses “voltar a si” quando chega à ilha de Alkinoos, num retorno a si mesmo tão intenso que ele cobre o rosto, provavelmente para chorar de emoção, como Heidegger conjeturou14. (...)
O narrador grego fazia seus ouvintes penetrarem no mundo das forças vivas da Physis, abrindo-lhes uma janela para um mundo primeiro, um mundo divino, geralmente furtado à visão dos mortais, onde se tecem os acontecimentos do mundo segundo em que estes vivem. O narrador grego é exitoso no prodígio de fazer ver aos que habitam esse mundo das aparências um suposto verdadeiro mundo, um mundo real onde se organizam as coisas. Quanto ao leitor, ele imagina algo do mundo que o autor criou.
Aqui está o estatuto da imagem arcaica, tornada tão inteligível por J.- P. Vernant, e lá o estatuto da fábula, para o qual, segundo Umberto Eco, o leitor é convidado pela interpretação do texto e de seus não-ditos15.
Quanto ao fato de todos os ouvintes ou de todos os leitores verem as mesmas imagens, com certeza não. Aliás, conhecem-se as controvérsias que surgem a partir do momento em que um cineasta propõe-se rodar a adaptação de uma obra literária: como ninguém, nenhum leitor “viu” a mesma coisa, todo mundo protesta pelo escândalo e pela traição.”
14: M. Heidegger, Essais et conférences [1954], Gallimard, Paris, 1958; cf. artigo “Alètheia”.
15: J.-P. Vernant, Religions, histoires, raisons, Maspero, Paris, 1979: cf. cap. 8, “Naissance d’images”; U. Eco, Lector in fabula, Grasset, Paris, 1985.


“Nesse caso, cada vez mais e mais frequente, o uso da televisão é muito pernicioso, já que ele só pode afastar ainda mais o sujeito do domínio das categorias simbólicas de espaço, de tempo e de pessoa. A multiplicidade das dimensões oferecidas pode se tomar um obstáculo a mais para o domínio dessas categorias fundamentais, turvando sua percepção e se acrescentando à confusão simbólica e aos desencadeamentos fantasísticos. E nada menos que a capacidade discursiva e simbólica do sujeito que se encontra então posta em causa.
Sendo impotente para transmitir sozinha o dom da palavra, a televisão dificulta a antropofeitura simbólica dos recém-vindos, ela torna difícil o legado do bem mais precioso, a cultura.
É impossível dizer que não sabíamos. Nós temos sido advertidos do desastre civilizacional em curso. Nos anos 1980, numa obra divertida, nostálgica e visionária, Ginger e Fred, Fellini, como artista da imagem herdeiro da grande cultura, havia feito o balanço previsível da catástrofe em curso. Com a televisão, mostrava-nos ele, séculos de arte e de cultura estão indo rio abaixo num cenário chocante de niilismo mercantilista. Não digo que esse diagnóstico seja inelutável: a televisão pode, dissemos, eventualmente abrir para um mundo ampliado, contanto que a instalação simbólica mínima esteja assegurada. Mas seu uso não pode suprir as fraquezas na simbolização, como se poderia ingenuamente crer. Pior até: ele arrisca barrar mais ainda as vias de acesso a esse mundo.
Evidentemente, essa observação vale para todas as próteses sensoriais, não apenas para a tele-visão, mas para toda tele-mática que joga com a tele-presença, isto é, tudo o que transporta um aqui para acolá e um lá para aqui mesmo (os jogos de vídeo, o telefone celular que acompanha cada um 24 horas por dia, a internet...).
Poderíamos, pois, dizer que o uso das próteses sensoriais só pode permitir o desenvolvimento de novas aptidões para o gozo nos casos em que a função simbólica está quase fixada. Em caso contrário, ele só pode gerar novos sofrimentos. (...)
Vivemos, pois, num mundo no qual estamos vendo certos sujeitos se tornarem seres ubíquos, quase liberados das coações espaço-temporais ancestrais graças às próteses sensoriais, ao preço de ver alguns outros não mais poderem habitar nenhum espaço.”


“Uma violenta repressão de instintos poderosos exercida do exterior nunca traz como resultado a extinção ou a dominação destes, mas ocasiona um recalque que instala a propensão a entrar posteriormente na neurose. A psicanálise frequentemente teve a oportunidade de ensinar a que ponto a severidade indubitavelmente sem discernimento da educação participa da produção da doença nervosa, ou ao preço de qual prejuízo da capacidade de agir e da capacidade de gozar a normalidade exigida é adquirida.” (Freud, L’Intéret de la psychanalyse [1913], Retz, Paris, 1980.)


“É apenas quando essa primeira dominação (ontológica) está posta que se pode dizer que a dominação é também, para o homem, um fato sociopolítico. Marx permitiu compreender o quanto essa dominação sócio-política era complexa e sutil, já que ela se apresenta como uma realidade que se afirma dissimulando-se. Com efeito, a dominação sociopolítica é tanto o conjunto dos meios pelos quais certos grupos de indivíduos exercem um domínio econômico, político e/ou cultural sobre outros grupos quanto o conjunto dos meios pelos quais esses grupos dominantes dissimulam seus interesses particulares, tentando fazê-los passar por interesses universais. Essa segunda dominação apresenta, pois, a particularidade de ser contingente e de funcionar enquanto seus dominados continuem seus “patos”. Quando um grupo humano para de ser enganado pela dissimulação de uma dominação e o rei, como se diz, lhe aparece repentinamente nu, então, geralmente, esse grupo sai, num prazo relativamente curto, dessa dominação, para logo experimentar uma nova.”


“É a mais conquistadora de todas as dominações possíveis na hora atual que arrisca triunfar, o que se chama comumente de neoliberalismo. A enorme novidade do neoliberalismo por relação aos sistemas de dominação anteriores diz respeito a que estes últimos funcionavam com o controle, o reforço e a repressão institucionais, enquanto que o novo capitalismo funciona com a desinstitucionalização13. Provavelmente foi isso que Foucault não viu chegar. Entregue totalmente ao estudo das múltiplas formas de o poder encarregar-se da vida (nos cuidados, na educação, nas formas da punição...), ele não viu que uma novíssima dominação muito progressivamente se instalava após a Segunda Guerra Mundial. Os exemplares estudos de Foucault sobre as sociedades disciplinares vieram, com efeito, num momento em que essas sociedades já entravam em decadência. Com efeito, eles se aplicaram a um objeto já bem fragilizado no momento do estudo14. Foi por isso que, embora os estudos de Foucault sobre as sociedades disciplinares fossem fundados, eles não deixaram de gerar um imenso mal-entendido. Os muito vivos engajamentos militantes da época não perceberam que as instituições que eles tomavam como alvo eram exatamente os aparelhos que a fração mais conquistadora do capitalismo queria destruir. Então já não era mais pelo poder tomar, para si o encargo disciplinar da vida que a dominação queria continuar a impor-se, era por uma forma de dominação toda nova, cuja instalação os anos 1960 no mundo (na Califórnia, na Itália, na Inglaterra, na França em maio de 68...) precipitaram. O novo capitalismo estava descobrindo e impondo uma maneira muito menos constrangedora e menos onerosa de garantir a sua sorte: não mais continuar a reforçar a dominação segunda que produzia sujeitos submissos, mas quebrar as instituições e assim acabar com o tomar o encargo da dominação primeira de maneira a obter indivíduos dóceis, precários, instáveis, abertos a todos os modos e todas as variações do mercado.
É assim que, hoje, “as únicas coações justificáveis são as das trocas de mercadorias”15. O exclusivo e único imperativo admissível é que as mercadorias circulem. De modo que toda instituição, vindo interpor entre os indivíduos e as mercadorias suas referências culturais e morais, é doravante mal vinda. Em suma, o novo capitalismo muito rápido identificou o partido que podia tirar da contestação. É assim que o neoliberalismo promove hoje “um imperativo de transgressão dos interditos” que confere a esse discurso um “perfume libertário”, fundado na proclamação da autonomia de cada um e na “ampliação indefinida da tolerância em todos os campos”16. É por isso que ele porta com ele a desinstitucionalização: é preciso não apenas “menos Estado”, mas menos de tudo o que poderia entravar a circulação da mercadoria.
Ora, o que essa desinstitucionalização imediatamente produz é bem uma dessimbolização dos indivíduos. O limite absoluto da dessimbolizaçao é quando mais nada vem assegurar e assumir o encaminhamento dos sujeitos para a função simbólica encarregada da relação e da busca de sentido. Nunca se chega aí verdadeiramente, mas, enfim, quando a relação de sentido desfalece, é sempre em detrimento do próprio da humanidade, a discursividade, e em proveito da relação de forças. O que o novo capitalismo visa hoje é o núcleo primeiro da humanidade: a dependência simbólica do homem. Não é surpreendente, pois, que nosso espaço social se encontre cada vez mais invadido pela violência comum, pontuada por momentos de hiperviolência, acidentes catastróficos que as condições ambientes tornam, doravante, sempre possíveis. O círculo é assim fechado: a lógica neoliberal produz sujeitos que, funcionando precisamente na lei do mais forte, ainda reforçam essa lógica.”
13: É notável que seja pelas instituições asilares, ali onde o enquadramento era o mais forte, que essa desinstitucionalização tenha começado. O que Robert Castel havia perfeitamente identificado em seus estudos, notadamente em F. Castel, R. Castel, A. Lovell, La Société psychiatrique avance e, le modele américain, Paris, Grasset, 1979.
14: Nos Estados Unidos, o mesmo mal-entendido ocorreu com E. Goffman: tomou-se Asiles (publicado na França em 1968) por um estudo libertador, enquanto que ele se inscrevia num projeto de desinstitucionalização. Aliás, esse projeto foi implantado em 1 996 na Califórnia, depois que um certo Ronald Reagan foi eleito governador...
15: P.-A. Taguieff, Résister au bougisme, Mille et une nuits, Paris, 2001, p. 1 4.
16: Ibid., p. 15.


“Tudo o que remete à esfera transcendente dos princípios e dos ideais, não sendo conversível em mercadorias e em serviços, se vê doravante desacreditado. Os valores “morais” não têm valor (mercadológico). Por não valerem nada, sua sobrevivência não se justifica mais num universo que se tornou integralmente mercantil. Além do mais, eles constituem uma possibilidade de resistência à propaganda publicitária, que exige, para ser plenamente eficaz, um espírito “livre” de todo aprisionamento cultural. A dessimbolização tem, pois, um objetivo: ela quer erradicar, nas trocas, o componente cultural, sempre particular.”


“A dificuldade de inserção num mundo do trabalho cada vez mais hipotético e enigmático, o embaralhamento da referência histórica e geracional reagrupam a juventude em agregações seriais sem de jeito nenhum lhe conferir a estrutura e as bases de uma classe social. Tratar-se-ia, antes, de uma fora de classe, definida negativamente pelo que ela não é. O que, aliás, diz muito bem o termo “exclusão”: uma parte da juventude com efeito se vê excluída de fato da atividade social. É por isso que uma análise da violência juvenil em termos de luta das classes parece inadequada. Essa violência não é uma reviravolta contra a exploração (sem emprego, sem mais-valia), não visa nenhuma emancipação (nenhuma ideologia da salvação está operando), ela adere sem reserva ao consumo e aos valores do mercado, não denuncia nenhuma alienação (entregue a ela mesma, ela mais sofreria de uma dobra identitária e gregária que os fenômenos de “bandos” antagonistas ilustram à porfia). Os ilícitos cometidos não têm, politicamente, sentido, causados que são precisamente pela queda do sentido. “Ter ódio” exprime um humor, tão imperioso quanto vago, não uma reivindicação social. (...)
Nada permite transformar a revulsão em revolta, porque a força do neocapitalismo reside, paradoxalmente, na fraqueza de seus governos. A governança neoliberal é uma vontade de não-governo, segundo a ideia de que a um mínimo de governo político corresponde um máximo de rendimento econômico. Desse estiolamento voluntário e técnico do poder resulta um efeito perverso, que não havia escapado à sagacidade de Hannah Arendt: “todo enfraquecimento do poder é um convite à violência”27. Trata-se aqui do “poder” como expressão de um “querer”. Ora, o poder atual não “quer” mais nada, nada mais que a melhor adaptação possível a uma conjuntura e a uma evolução que o ultrapassem. A “modernização” (das empresas, da escola, das instituições...) se apresenta como um gigantesco tropismo em escala planetária, uma espécie de lei natural, um empurrão surdo e irreprimível da evolução. É aqui a “força das coisas” que exige submissão e adaptação vitais e não os detentores de um poder que se tornou frouxo, mole, secundário e gestionário. A ausência de um verdadeiro governo, isto é, de uma instituição cuja legitimidade é necessariamente exterior aos interesses econômicos, abole a autoridade, ao mesmo tempo que torna oculto o poder. O enfraquecimento do Estado não anuncia, longe disso, o da dominação sociopolítica, mas a passagem para uma nova forma de dominação, dissimulada e maligna, pela qual o poder verdadeiro se torna anônimo, informe e não localizável: “estamos diante de uma tirania sem tirano”28. É, abertamente, a promoção da anomia, a suspensão dos interditos e de tudo o que pode impô-los à pura impetuosidade dos apetites. O esmagamento da cidadania sobre a sociedade civil, constituída apenas do conjunto conflitual dos interesses particulares29, torna impossível a necessária dialética entre o corpo social e sua representação política. Definitivamente, o completamento da antropologia neoliberal, cuja ausência de princípio a célebre palavra de ordem “laissez-faire” confessava antecipadamente, abre um novo espaço societário, completamente depurado, prosaico, trivial, niilista, marca de um novo e poderoso darwinismo social no qual o valor, doravante único, passa de uma mão a outra sem outra forma de processo e quaisquer que sejam as modalidades: os “mais adaptados” podem legitimamente tirar proveito de todas as situações, enquanto os “ menos adaptados” são muito simplesmente abandonados, até mesmo convocados a desaparecer. Está aí um profundo requestionamento da civilização, já que se encontra abandonado o tradicional dever biopolítico, que cabe a todo Estado, de proteção de suas populações.
É esse espaço hiper-realista do valor nu na troca direta que alguns se recusam a integrar. Eles então se engajam na via ditada pelo abandono, que os leva à violência “gratuita”, puramente reativa30. É preciso rebater-se em algum derivativo quando o lugar e os representantes do poder são invisíveis. Xerxes fazia flagelar o mar para puni-lo por suas tempestades, os jovens delinquentes queimam, saqueiam, agridem com a mesma raiva impotente, por não poderem atingir os responsáveis por sua relegação. Estamos diante de um círculo vicioso do niilismo: a anomia como condição de possibilidade do neocapitalismo faz cair no niilismo tanto os que dele se aproveitam quanto os que dele padecem.”
27: Hannah Arendt, Du mensonge à la violence, Calmann-Lévy, Paris, 1972, p. 187.
28: Ibid, p. 181.
29: Definição da sociedade civil lembrada por Bernard Cassen, citando Hegel, em Le Monde diplomatique, n° 567, de junho de 2001, p. 28.
30: A exemplo desses quatro jovens rapazes, com idade de treze a vinte e sete anos, que feriram nove pessoas jogando uma carga de explosivos num salão de festas. Motivo invocado: “Era para chatear as pessoas”. Cf. Le Monde, 4 de janeiro de 2002.


“A pós-modernidade não é a simples queda dos ideais do eu, nem um levante em massa contra os ídolos. Os que creem que vivemos uma época de um abrir de olhos doloroso mas salvador se tranquilizam barato. Com efeito, estamos na época da fabricação de um “novo homem”, de um sujeito a-crítico e psicotizante, por uma ideologia também conquistadora, mas provavelmente muito mais eficaz do que o foram as grandes ideologias (comunistas e nazistas) do século passado. O que o neoliberalismo quer é um sujeito dessimbolizado, que não esteja mais nem sujeito à culpabilidade, nem suscetível de constantemente jogar com um livre arbítrio crítico. Ele quer um sujeito incerto, privado de toda ligação simbólica; ele tende a instalar um sujeito unissexo e “não-engendrado”, isto é, sem o arrimo de seu fundamento exclusivamente no real, o da diferença sexual e da diferença geracional. Sendo recusada toda referência simbólica suscetível de garantir as trocas humanas, há apenas mercadorias que são trocadas num fundo ambiente de venalidade e de niilismo generalizados no qual somos solicitados a tomar lugar. O neoliberalismo está realizando o velho sonho do capitalismo. Não apenas ele estende o território da mercadoria até os limites do mundo (o que está em curso sob o nome de mundialização), no qual tudo se tornou passível de ser mercadoria (a água, o genoma, o ar, as espécies vivas, a saúde, os órgãos, os museus nacionais, as crianças...). Ele também está recuperando velhas questões privadas, até agora deixadas à maneira de cada um (subjetivação, personação, sexuação...), para fazê-las entrar na órbita da mercadoria.
Vivemos, nesse sentido, uma virada capital, porque, se a forma sujeito construída com grande luta pela história é atingida, não serão mais somente as instituições que temos em comum que estarão em perigo, será também, e sobretudo, o que somos. Não é apenas nosso ter cultural que está em perigo, é nosso ser. O que testemunha, com clareza, um grau de gravidade bem superior, já que, se a perda de bens comuns é sempre compensável pela produção de novos bens, a perda de seu ser próprio é praticamente irremediável. Provavelmente é nesse ponto que entram em jogo o possível triunfo absoluto do neoliberalismo e, pois, as grandes batalhas a ocorrer: se a forma-sujeito é debilitada, então mais nada poderá constituir obstáculo para o desdobramento sem limite dessa forma política – estágio último do capitalismo, o do capitalismo-total, no qual tudo, até nosso próprio ser, terá entrado na órbita da mercadoria.”


“Da minha parte, de jeito nenhum estou decidido a empregar esse lazer para praticar uma das numerosas artes da desistência, mas para tentar compreender todos os detalhes da nova ideologia que se instala. Aparece, de ora em diante, que, sob ventos propícios, ela é provavelmente tão virulenta quanto as terríveis ideologias que se desencadearam no Ocidente no século XX. Com efeito, não é impossível que, depois do inferno do nazismo e do terror do comunismo, uma nova catástrofe se perfile. Só teríamos saído de uns para entrar na outra. Porque o neoliberalismo, como as duas ideologias já citadas, também quer fabricar um homem novo. De ora em diante, as mudanças nos grandes campos da atividade humana – a economia de mercado, a economia política, a economia simbólica e a economia psíquica – convergem suficientemente para indicar que um novo homem, subtraído de sua faculdade de julgar e empurrado a gozar sem desejar, está aparecendo.”
A hora não é, para mim, nem para um otimismo idiota, o do impaciente que se regozija muito rápido com a desterritorialização operada pela mercadoria e pela queda dos ídolos, nem para um pessimismo nostálgico pelos tempos definitivamente acabados. Se há um imperativo categórico hoje, é o da resistência diante da instalação do capitalismo total.”

A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal (Parte I) – Dany-Robert Dufour

Editora: Companhia de Freud
ISBN: 978-85-8571-793-3
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 216
Sinopse: Depois do inferno do nazismo e do terror do comunismo, é possível que uma nova catástrofe se perfile no horizonte. Desta vez, é o neoliberalismo que quer, por sua vez, fabricar um “homem novo”. Todas as mudanças em curso, tanto na economia de mercado quanto na economia política, na economia simbólica ou na economia política são testemunhos disso.
O sujeito critico de Kant e o sujeito neurótico de Freud nos tinham fornecido, ambos, a matriz do sujeito da modernidade. A morte desse sujeito já está programada pela grande mutação do capitalismo contemporâneo. Decaído de sua faculdade de juízo, impelido a gozar sem entrave e não mais se referindo a nenhum valor absoluto ou transcendente, o novo “homem novo” começa a aparecer à medida que se entra na era do “capitalismo total” no planeta.
Essa verdadeira mutação antropológica e suas implicações no mínimo problemáticas para a vida dos homens, isto é, o que o autor chama de “a arte de reduzir cabeças”, são o que esta obra analisa. O autor trata, assim como filósofo, das questões práticas com as quais são confrontados hoje sociólogos, os psicanalistas ou os especialistas da educação, interrogando-se muito concretamente sobre o futuro das jovens gerações que está às voltas com novas formas de consumir, de se informar, de se educar, de trabalhar, ou simplesmente, de viver com os outros.


“De que vale ainda esse sujeito crítico quando se trata apenas de vender e comprar mercadoria? Com efeito, para Kant nem tudo é negociável. Tudo tem ou bem um preço, ou bem uma dignidade. Podemos substituir o que tem um preço por seu equivalente; em contrapartida, o que não tem preço e, pois, não tem equivalente é que o possui uma dignidade. Não se pode dizer mais claramente: a dignidade não pode ser substituída, ela não tem preço e não tem equivalente, ela tem como referência apenas a autonomia da vontade e se opõe a tudo o que tem um preço. É por isso que o sujeito crítico não convém à troca mercadológica, é até completamente o contrário do que é requerido na prospecção de mercado, no marketing e na promoção (naturalmente mentirosa) da mercadoria.”


“É claro que não sou o primeiro a pôr em relevo os sinais dessa transformação que afeta as formas de ser-si e de estar-junto na modernidade. A emergência desse novo sujeito corresponde de fato a uma fratura na modernidade que vários filósofos observaram, cada um à sua maneira. Entramos, há algum tempo, numa época naturalmente dita “pós-moderna” – J.-F. Lyotard, um dos primeiros a apontar esse fenômeno, entendia com isso evocar uma época caracterizada pelo esgotamento e pelo desaparecimento das grandes narrativas de legitimação, notadamente a narrativa religiosa e a narrativa política3. Não quero aqui discutir a pertinência dessa expressão; aliás, outras são propostas: o supermoderno, o hipercontemporâneo... Apenas gostaria de observar que efetivamente chegamos a uma época que viu a dissolução, até mesmo o desaparecimento das forças nas quais a “modernidade clássica” se apoiava. A esse primeiro traço do fim das grandes ideologias dominantes e das grandes narrativas soteriológicas acrescentaram-se paralelamente, para completar o quadro, a desaparição das vanguardas, depois, de outros elementos significativos tais como: os progressos da democracia e, com ela, o desenvolvimento do individualismo, a diminuição do papel do Estado, a supremacia progressiva da mercadoria em relação a qualquer outra consideração, o reinado do dinheiro, a sucessiva transformação da cultura, a massificação dos modos de vida combinando com a individualização e a exibição das aparências, o achatamento da história na imediatez dos acontecimentos e na instantaneidade informacional, o importante lugar ocupado pelas tecnologias muito poderosas e com frequência incontroladas, a ampliação da duração de vida e a demanda insaciável de plena saúde perpétua, a desinstitucionalização da família, as interrogações múltiplas sobre a identidade sexual, as interrogações sobre a identidade humana (fala-se, por exemplo, hoje, de uma “personalidade animal”), a evitação do conflito e a desafetação progressiva em relação ao político, a transformação do direito em um juridismo procedimental, a publicização do espaço privado (que se pense na onda dos webcams), a privatização do domínio público... Todos esses traços devem ser tomados como sintomas significativos dessa mutação atual na modernidade. Eles tendem a indicar que o advento da pós-modernidade não deixa de ter relação com o advento do que hoje evocamos com o nome de neoliberalismo.”
3: J.-F. Lyotard, La Condition postmoderne, Paris, Minuit, 1979.


“É precisamente essa mutação que me esforçarei por pensar, na medida em que ela corresponde ao que poderíamos chamar de uma afirmação do processo de individuação há muito tempo iniciado em nossas sociedades. Afirmação que, ao lado dos aspectos positivos, inclusive de gozos novos autorizados pelos progressos da autonomização do indivíduo, não deixa de engendrar sofrimentos inéditos. Se, com efeito, a autonomia do sujeito comporta uma autêntica visada emancipadora, nada indica que essa autonomia seja uma exigência à qual todos os sujeitos podem responder de imediato. Toda a filosofia tenderia a indicar que a autonomia é a coisa mais difícil do mundo de construir e só pode ser obra de toda uma vida. Nada de espantoso em que jovens, que por natureza estão em situação de dependência, sejam expostos diretamente a essa exigência de modo muito problemático, o que cria um contexto novo e difícil para todos os projetos educativos. Com frequência falamos de “perda de referências nos jovens”, mas, nessas condições, o contrário é que seria espantoso. Decerto eles estão perdidos, já que experimentam uma nova condição subjetiva cuja chave ninguém, menos ainda os diretores de Escola, possui. Portanto, de nada serve invocar a perda das referências se com isso se indicar que algumas lições de moral à antiga poderiam bastar para impedir os danos. O que não anda mais é justamente a moral, porque ela só pode ser feita “em nome de...”, enquanto, no contexto de autonomização contínua do indivíduo, justamente não sabemos mais em nome de quem ou de que fazê-la. E, quando não se sabe mais em nome de quem ou de que falar aos jovens, isso é problemático tanto para os que lhes devem falar todos os dias quanto para aqueles a quem se fala. Essa situação nova, a ausência de enunciador coletivo que tenha crédito, cria dificuldades inéditas para o acesso à condição subjetiva e pesa sobre todos, e particularmente sobre os jovens.”


“O homem é uma substância que não tira sua existência de si mesma, mas de um outro ser. As ontologias, múltiplas, que se constituíram relativamente a essa questão propuseram vários nomes possíveis para esse ser: Natureza, as ideias, Deus, a Razão ou... o Ser. Poderíamos inclusive dizer que toda a filosofia é apenas uma sequência de proposições sobre esse princípio primeiro, o ser.”


“Se o “sujeito” é o subjectus*, o que é submetido, então poderíamos dizer que a história aparece como uma sequência de assujeitamentos a grandes figuras instaladas no centro de configurações simbólicas cuja lista podemos bastante facilmente fazer: o sujeito foi submetido às forças da Physis no mundo grego, ao Cosmos ou aos Espíritos em outros mundos, ao Deus nos monoteísmos, ao Rei na monarquia, ao Povo na República, à Raça no nazismo e algumas outras ideologias raciais, à Nação nos nacionalismos, ao Proletariado no comunismo... Ou seja, ficções diferentes que foi preciso a cada vez edificar com grande reforço de construções, de realizações, até mesmo de colocações em cena muito exigentes.
De modo algum digo que todos esses conjuntos são equivalentes, muito pelo contrário: segundo a figura do Outro eleita como centro dos sistemas político-simbólicos, toda a vida econômica, política, intelectual, artística, técnica muda. Todas as coerções, as relações sociais e o estar-junto mudam, mas o que permanece constante é a relação comum com a submissão.”
*: A palavra sujet (assim como “sujeito” em português) permite tanto as construções como “sujeito de” e “sujeito a”; nos dois casos pode-se interpretar a “sujeição a”. (NT)


“Se o Outro efetivamente se apresenta sob diferentes figuras, então haveria formas diferentes do inconsciente. Admitindo-se que eu saiba o que é o inconsciente hoje, tenho razão, em suma, de me perguntar o que ele era antes da modernidade, no que se convencionou-se de sociedades tradicionais. Marcel Gauchet fez, nesse sentido, uma proposição forte: “o mundo da personalidade tradicional é um mundo sem inconsciente na medida em que se trata de um mundo no qual o simbólico reina de maneira explicitamente organizadora”21. De fato, essas sociedades são constituídas pela hegemonia exclusiva de um grande Sujeito, que determina por si só todas as maneiras de viver (falar, contar, trabalhar, comer, amar, morrer...) em vigor nessa sociedade. Com efeito, a grande característica desses mundos tradicionais é que a submissão ao Outro é maciça. Mas trata-se, por isso, de sociedades sem inconsciente?
Para responder a essa pergunta, parece-me que devemos distinguir dois tipos de sociedades tradicionais, muito diferentes: aquele em que existe um Outro monolítico, como nas sociedades monoteístas, e aquele em que existe um Outro múltiplo, como nas sociedades politeístas. (...) O segundo caso introduz uma nuance importante: o indivíduo das sociedades arcaicas se encontra igualmente dominado por um jogo de forças superiores que o ultrapassam absolutamente, mas a dependência com relação a esse poder se encontra transformada por sua multiplicidade. O indivíduo das sociedades politeístas apresenta, assim, a particularidade de se revelar, através de suas narrativas, como estando constantemente às voltas com um Outro múltiplo, mal apreensível. Em última instância, como mostram as grandes narrativas gregas A ilíada e A odisseia, é preciso ao sujeito nada menos que o recurso incessante aos adivinhos e pitonistas para interpretar por oráculos os sinais divinos e para se orientar num mundo regido por forças múltiplas e eventualmente contraditórias.
Essas forças, que podem ser, como diz Vernant, “agrupadas, associadas, opostas, diferenciadas”22, intervêm diretamente nos negócios humanos seja por manifestações exteriores (desencadeamento de elementos naturais, tempestades, ventos, tremores de terra, aparições de animais, doenças...), seja por manifestações interiores (ideias que assaltam o espírito, sonhos premonitórios, elãs amorosos, ardores guerreiros, pânico, vergonha...). O trágico decorre precisamente dessa concepção religiosa de um mundo dilacerado por forças em conflito: “o destino”, como diz Vernant a propósito do homem grego, “é ambíguo e opaco”. Nenhum plano recobre o outro, de modo que o sujeito é sempre dilacerado e ultrapassado por forças contraditórias a ponto de não poder mais nem agir, nem não agir. Em caso nenhum ele pode escapar ao destino incessantemente lido e interpretado, mas sempre cifrado e encriptado, que o espera. Como Édipo fugindo para Corinto após o oráculo de Delfos lhe revelar que ele mataria seu pai e esposaria sua mãe, é ao tentar escapar de sua funesta sorte que ele encontra seu destino.
O traço dessas sociedades tradicionais com respeito ao inconsciente me parece poder ser caracterizado assim: se esse mundo parece sem inconsciente, como sugere Marcel Gauchet, é porque o inconsciente não é constituído por recalques internalizados por um sujeito: ao contrário, é constituído como inteiramente dado a ver pelos oráculos e pelas narrativas das pitonistas, dos rapsodos, dos aedos e dos poetas inspirados, testemunhando os planos do Outro.”
21: M. Gauchet La Démocratie contre elle-même, Gallimard, Paris, 2002, cf. “Essai de psychologie contemporaine I”, p. 251.
22: J.-P. Vernant, Mythe et société en Grèce ancienne. Paris, Maspero, 1974, “La société des dieux”.
23: Numa notação capital, Vernant marca assim que “o mito põe em jogo uma forma lógica [...] do ambíguo [...] que não seria a da binaridade, do sim e do não”. J.-P. Vernant, Mythe et société en Grèce ancienne, Maspero, Paris, 1974, cf. Conclusions.


“Após a definição das sociedades tradicionais, caracterizadas pela hegemonia exclusiva de um grande Sujeito, simples ou múltiplo, a definição das sociedades modernas é mais fácil: a modernidade é um espaço coletivo no qual o sujeito é definido por várias dessas ocorrências do Outro. Nesse ponto, minha tipologia seria, portanto, a seguinte: existem sociedades com Outro múltiplo (como nos politeísmos), sociedades com Outro único (como nos monoteísmos), sociedades com vários Outros. Estas últimas correspondem ao advento da época moderna. A partir de então, não estamos mais regidos por um grande Sujeito, mas por vários. A modernidade corresponderia, pois, ao fim da unidade dos espíritos reunidos em torno de um único grande Sujeito.
Seria isso a “modernidade”: a coexistência, não necessariamente pacífica, de vários grandes Sujeitos.
Quando fixar a entrada de nosso mundo na modernidade? Braudel responde, não sem humor: “em algum lugar entre 1400 e 1800”. Se fosse verdadeiramente preciso fixar um marco, eu faria a modernidade remontar ao momento em que começaram as trocas de toda natureza (culturais, comerciais, mas também guerreiras, colonizadoras) entre a Europa e a América, por um lado, ou seja, 1492, data da conquista da América por Colombo, e entre a Europa e o Oriente, ou seja, 1517, data da chegada dos portugueses à China, no Cantão. Poderíamos então dizer que a virada do século XV para o século XVI na Europa corresponde ao início da modernidade, que remete, no caso, ao início da mundialização das trocas e do contato, frequentemente violento, das diferentes populações do mundo. (...)
A modernidade é um espaço no qual, não parando de mudar o referente universal, todo o espaço simbólico se torna complexo. Há, pois, grande Sujeito na modernidade, Outro e até muitos Outros, ou, pelo menos, muitas figuras do Outro.
Com a modernidade, o espaço e o tempo do pensamento saíram de suas determinações locais: não estamos mais no tempo imemorial do mito, no tempo referencial da manifestação de Deus aos homens, no tempo crônico e rural dos trabalhos e dos dias, no tempo histórico da sucessão dos reinados ou em algum outro tempo possível, estamos em todos os tempos ao mesmo tempo.”


“A modernidade consagrou o desenvolvimento de modalidades de dominação novas extremamente violentas (como a colonização e a escravidão) colocadas em operação pela Europa contrariamente a outras civilizações. Essas modalidades são caracterizadas por esse traço que J.-F. Lyotard chama de diferendo. O diferendo não vem do assujeitamento imposto por tal ou qual grande Sujeito, mas de um terror de exceção, sem contestação, porque vindo de alhures, de um mundo diferente determinado por um grande Sujeito diferente, que porta um julgamento e uma sanção indiscutíveis e prévios, sempre sumariamente executáveis, que quebram o princípio de encadeamento discursivo.
Paralelamente à generalização do diferendo no exterior da Europa, a modernidade presenciou a criação de um novo espaço discursivo caracterizado pela crítica no interior. Tal é o paradoxo da modernidade: ter engendrado formas discursivas tão radicalmente opostas. Essa antinomia já havia retido a atenção de J. M. G. Le Clézio, em seu belo livro sobre a conquista do Novo Mundo: no instante em que o Ocidente [...] inventava as bases de uma nova república, ele iniciava a era de uma nova barbárie37. O desdobramento sem precedente do espaço discursivo crítico no Ocidente é assim correlato a um silêncio ensurdecedor: o silêncio do mundo indígena sem nenhuma dúvida é um dos maiores dramas da humanidade.”
37: J. M. G. Le Clézio, Le rêve mexicain ou lapenséc interrompue, Gallimard, Paris, 1988, pp. 228.


“Com efeito, o sujeito moderno é crítico na medida em que não pode ser mais que um sujeito que lida com várias referências que incessantemente entram em concorrência, até mesmo em conflito.”


“Que descontinuidade, que mudança fundamental poderíamos identificar entre o espaço moderno e o espaço dito pós-moderno?
Por que essa definição dupla do sujeito moderno como neurótico e crítico se estilhaçou? Muito simplesmente porque mais nenhuma figura do Outro, mais nenhum grande Sujeito vale verdadeiramente na nossa pós-modernidade. Que grande Sujeito se imporia hoje às jovens gerações? Que Outros? Que figuras do Outro haveria hoje, na pós-modernidade? Parece que todos os antigos grandes Sujeitos, todos os da modernidade, estão ainda disponíveis, mas que mais nenhum dispõe do prestígio necessário para se impor. Com efeito, todos parecem atingidos pelo mesmo sintoma de decadência. Não se parou de registrar o declínio da figura do Pai na modernidade ocidental – o próprio Lacan, já em seu primeiro trabalho publicado, sobre os complexos familiares, falava do declínio da imago paterna, isto é, do Pai em sua dimensão simbólica, certamente, mas também de todas as figuras do Pai tal como se apresentam com o Pai Celeste, com a Pátria e com todas as outras formas de celebração do Pai. (...)
O diferendo, o que quebra o princípio de encadeamento discursivo, outrora característico das situações de colonização, se instalou, com Auschwitz, no coração da cultura europeia. Mais nenhuma forma de grandes Sujeitos é possível. A civilização que produziu esses grandes Sujeitos sucessivos, presumidos como nossos salvadores, se autodevorou. Auschwitz desfez qualquer lei possível – fracasso ontológico cuja fórmula mais mordaz e mais concisa possível foi dada pelo poeta Ghérassim Luca: Como condenar em nome da lei / o crime cometido em nome da lei?51. Enquanto o crime cometido em nome da lei (o genocídio dos índios, por exemplo, ou o tráfico dos negros) permaneceu exterior ao território europeu, ele não feria em nada a autoridade dos grandes Sujeitos do Ocidente, muito pelo contrário; mas, quando o crime foi cometido no interior e conduziu à autodestruição da civilização europeia, esses grandes Sujeitos se encontraram deslegitimados em bloco. Todos de repente apareceram apenas como terríveis ilusões sabiamente construídas que por fim nos conduziam apenas à mais desconcertante das antinomias, a que transforma inverte, poderíamos dizer a lei em crime e o crime em lei. Desde então estamos irremediavelmente entregues a nós mesmos, todavia sem poder verdadeiramente assumi-lo.
Em suma, na pós-modernidade não há mais Outro no sentido do Outro simbólico: um conjunto incompleto no qual o sujeito possa verdadeiramente enganchar uma demanda, formular uma pergunta ou apresentar uma objeção. Nesse sentido, é idêntico dizer que a pós-modernidade é um regime sem Outros ou que a pós-modernidade é repleta de semblantes de Outros, que imediatamente mostram o que são: tão cheios de presunção quanto as tripas.
Nada mais virá nos salvar, não há mais, na pós-modernidade, narrativas soteriológicas, enquanto a modernidade delas era farta.
51: G. Luca, Herós-Limite, Gallimard, 2001, cf. “Cedipe Sphinx” [1976], p. 206.


“Soçobramos numa autonomia toda ilusória, apenas livres no caso de querer o que a mercadoria não para de oferecer. (...) Nós nos encontramos num espaço que não é nem “autonômico” nem crítico, nem mesmo neurótico, mas num espaço anômico sem referências e sem limite no qual tudo se inverte, isto é, um espaço no qual nem todos os indivíduos se tornam necessariamente psicóticos, mas no qual as solicitações para se o tornar são abundantes.”


“Os amanhãs, sabemos, rápido desencantaram, na medida em que as sociedades de construção da felicidade comunista rapidamente se transformaram em vastas sociedades carcerárias. Nas suas duas versões, russa e chinesa, essa narrativa está hoje muito desvalorizada depois da queda do Muro e da passagem da China para uma economia de mercado desenfreada. O colapso bastante brutal ocorreu após um período de um século de grande explosão (Comuna de Paris, revolução russa, revolução chinesa, movimentos de jovens dos anos 1960 em todos os países, guerrilhas, lutas no terceiro mundo). Em certos países, restam, entretanto, pequenos núcleos, por vezes folclorizados, que continuam a sustentar essa narrativa.
Entretanto, aquilo em que esses grupos esbarram não é a morte política do proletariado. Ele sempre poderia voltar: a história nunca foi avara de aparecimentos e reaparecimentos súbitos (não esqueçamos que se governou um quarto da humanidade, a China, em nome de um proletariado que praticamente nunca existiu!). O verdadeiro problema do proletariado é sua possível morte teórica. Com efeito, na economia dita neoliberal o trabalho não é mais aquilo em que repousa essencialmente a produção do valor. O Capital não é mais constituído pela mais-valia (Mehrwert, em Marx) saída do excesso de produção apropriado no processo de exploração do Proletário. O capital aposta cada vez mais em atividades de alto valor agregado (pesquisa, engenharia genérica, Internet, informação, comunicação), nas quais a parte do trabalho assalariado pouco ou moderadamente qualificado é por vezes extremamente pouco considerável. Mas, sobretudo, o Capital doravante faz vigorar plenamente a gestão das finanças em movimentos especulativos de grande amplitude. Assim, a parte da economia real decresce à medida da financeirização da economia que se desenvolveu consideravelmente durante os últimos vinte e cinco anos a partir do desenvolvimento de novos mecanismos financeiros e ferramentas de gestão do capitalismo.”


“Antes o sujeito era sujeito como referido a tal Deus, a tal terra ou a tal sangue. Era um Ser exterior que conferia seu ser ao sujeito. Com a democracia, essa hétero-referência se transformou em autorreferência. O sujeito de algum modo se transformou em sua própria origem. Entretanto, esse referenciamento levanta muitos problemas. Talvez mais que os que resolva! Talvez fosse doloroso para o homem descobrir que ele só podia ser sujeito sendo sujeito de uma ficção, mas é mais penoso ainda se encontrar sem ficção: o risco é de não mais ser sujeito. Entretanto, essa mutação não levanta apenas problemas ontológicos, ela levanta, também e sobretudo, temíveis problemas políticos – no sentido amplo de governo em geral e de governo de si em particular.”


“Da mesma maneira, vemos tomar forma, em todos os campos, pequenas narrativas de uso local e circunstaciadas (pagãs, dizia Lyotard) que permitem a pequenas redes ternárias (com narrado, narrador e narratário) se constituírem. Assim, vemos muitas tribos aparecerem68: os que lidam com informática, os budistas, os motoqueiros, os internautas, os amantes de ópera, os iniciados do piercing, os adeptos da tatuagem, os músicos de rock ou punk ou rap ou tecno, os navegantes solitários, os esportistas das grandes emoções, os que saltam no elástico... O laço social se dispersa assim em uma multidão de socialidades, cada uma possuindo suas próprias fixações referenciais. Cada confraria dispõe de seu código de honra, seus saberes, suas obrigações contratuais, suas liturgias locais, suas palavras de passe, seus ritos de iniciação, seus rituais, seus totens, seus signos de pertença (vestimenta, penteado, tatuagem, paramentos). Mas o que constitui cada uma é uma certa referência sacrificial em torno da qual o grupo se agrega.
Não sei se a grande narrativa (monoteísta, por exemplo) era mais entusiasmadora, mas ao menos tinha uma vantagem em relação a essas pequenas narrativas atuais: ela havia fixado o sacrifício em uma figura central, o que impedia sua proliferação no corpo social. O sacrifício de Isaac no judaísmo (no qual, após o desvio do golpe, se funda a múltipla transcendência), o sacrifício de Jesus no cristianismo (morto para a redenção dos homens) eram sacrifícios realizados de uma vez por todas, inscritos na Escritura. Eles acolhiam a abjeção humana, que consiste em dever viver para morrer, invertendo-a: o horror assim compartilhado se tornava sagrado. Quando esse grande sacrifício não funciona mais, nada mais resta que retornar a formas locais de sacrifício. Se algo não corre bem na relação social, reunimo-nos localmente, lançamos a prova durante a qual um vai morrer, tomando para si a angústia, o que permitirá acalmar os espíritos até a próxima vez. Os motoqueiros, por exemplo, rodarão até que um deles morra. A seguir eles cantarão as virtudes do defunto, que ousou desafiar os perigos. Mesmo o bravo telespectador que olha, durante horas, os carros de corrida nos circuitos no domingo na televisão só pode esperar uma coisa: que um Ayrton Senna se arrebente na pista! É em torno desses mortos gloriosos, que saíram do lugar comum para escolher a hora ou o meio de sua morte, que a comunidade se reúne. Por vezes, não é diretamente a morte que constitui o objetivo, mas alcançar um ponto de ruptura para além do qual se está certo de estar em perigo. Passada uma certa profundidade para o mergulhador, está-se sob o risco da loucura das profundezas. Passado um certo tempo nos comandos diante da tela para o cibernauta, está-se sob o risco ou de entrar em outros mundos, ou de sérios cortes com esse mundo daqui. Passado um limiar de marcações corporais (escarificações, piercing...), está-se sob o risco de desaparecer por trás de suas tatuagens69.
Tantas formas de sacrifício, tantas narrativas flutuando entre si...
Essas pequenas narrativas de valor local evidentemente provocam um estranho sentimento de dejà vu: são grandes narrativas estilhaçadas em situações marginais. Segundo a fórmula refletida empregada por Gianni Vattimo, elas põem em jogo na pós-modernidade um “imenso canteiro de sobrevivências” que testemunham perfeitamente a persistência “do primitivo em nosso mundo”70.”
68 M. Maffesoli, Le Temps des tribus, Méridien Klincksieck, Paris, 1988. “Tempo de tribos” no qual Maffesoli via, bem irrefletidamente, o declínio do individualismo nas sociedades de massa (subtítulo da obra).
69: Ver o estudo clínico de J.-L. Chassaing, “Élodie au corps peint”, em Le Discours psychanalytique, n° 22, outubro de 1999.
70: G. Vattimo, La fin de la modernité. Nihilisme et herméneutique dans la culture post moderne, Seuil, Paris, 1987, p. 164.


“Nunca se manifestará suficiente estupefação diante de uma instância política (O Estado) que explica inocentemente que ela deve desaparecer como tal, quando é justamente porque tem a pretensão de um império absoluto que o Mercado deve ser constantemente vigiado. Os homens políticos que pedem o desmantelamento do Estado se encontram assim quase que na mesma posição do vigia de uma central nuclear que explicasse por que se deve deixar o reator sem vigilância. Certamente que isso arrisca produzir mais energia, mas também algumas Tchernobyl sociais. Quando o controle externo é relaxado, nada, nenhuma forma social, nem cultura pode se opor ao domínio exclusivo do Mercado. A ponto de uma sociedade idealmente submetida ao Mercado só poder funcionar destruindo em grande parte seu tecido (industrial, social, cultural) de modo a redistribuí-lo segundo as modalidades do fluxo tenso e da organização de urgência. Já que é preciso poder receber capitais que sempre podem ir embora tão rápido quanto chegam, e até ir embora mais rápido do que chegam, em última instância torna-se necessário, em tempo de paz, reorganizar amplos setores da sociedade segundo modalidades análogas às do campo de refugiados.”


“Com efeito, numerosos indivíduos tomam hoje regularmente, em nossas sociedades, antidepressivos, cujo emblema é o Prozac. O fato de que esse medicamento tenha se tornado hoje um nome tão comum quanto a “aspirina” ilustra bem a extensão do fenômeno. Entretanto, não devemos crer que essa situação afeta, de alguma forma que seja, o curso democrático, muito pelo contrário. Com efeito, hoje, tomar Prozac ou qualquer outro medicamento pertencente a essa classe de antidepressivos ditos “confortáveis”, faz parte dessas novas possibilidades “democráticas” que proporcionam ao pequeno sujeito deprimido a capacidade de “trabalhar seu interior mental” para “se sentir melhor”, até mesmo “melhor que si”. Uma das consequências é que a distinção entre se cuidar e se drogar tende a se atenuar em nossas sociedades democráticas pós-modernas. A outra consequência é que se torna difícil, nessas condições de modificação artificial e permanente do humor, dizer o que vem de si mesmo ou da fabricação artificial de si.”


“Quando pensamos num passado recente e nas maneiras que cercavam então o sujeito moderno, só podemos ficar chocados com as diferenças entre este e o sujeito pós-moderno. O sujeito moderno trazia nele algo como a paixão de ser um outro, isto é, o desejo de se produzir como sujeito do Outro. Quantas formas possíveis desse desejo de ser um outro a modernidade inventou? Lembramo-nos dos resplandecentes sujeitos de uma modernidade recente: era preciso tornar-se o sujeito visionário do Poema, o sujeito do proletariado, o sujeito da pura intensidade do inconsciente, o sujeito de culturas outras, longínquas, perdidas, esquecidas...? A esse desejo de ser um outro, portado pela Kulturarbeit da época moderna, o sujeito pós-moderno responde hoje que quer apenas ser ele mesmo, nada mais que ele.”