quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal (Parte II) – Dany-Robert Dufour

Editora: Companhia de Freud
ISBN: 978-85-8571-793-3
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 216
Sinopse: Ver Parte I



“A pós-modernidade não me parece analisável, pois, como a época do esclarecimento em relação aos ídolos imaginários, mas como a do desaparecimento da instância que, no sujeito, lhe diz: “Tu não tens o direito de...”. Digamos que, na pós-modernidade, o Pai é morto sem que se sigam a culpabilidade e a condenação do assassinato graças ao qual se constitui alguma figura do Outro. A pós-modernidade produz assim sujeitos sem consistência superegóica verdadeira, insensíveis à injunção simbólica, mas extremamente vulneráveis a todas as formas de trauma. Não recalcando mais, eles se tornam imunes à culpabilidade, mas sujeitos à vergonha. Esse desaparecimento da culpabilidade é hoje tão profundo que alcançou o meio dos responsáveis políticos – lembramo-nos da histórica e aterradora fala de um ministro da Saúde dos anos 1980 a propósito da questão do sangue contaminado: “responsável, mas não culpado”.
O universo simbólico do sujeito pós-moderno não é mais o do sujeito moderno: sem grande Sujeito, isto é, sem marcos em que possam se fundar uma anterioridade e uma exterioridade simbólicas, o sujeito não chega a se desdobrar numa espacialidade e numa temporalidade suficientemente amplas. Ele fica engolido num presente dilatado no qual tudo transcorre. A relação com os outros se torna problemática na medida em que sua sobrevivência pessoal se encontra assim sempre em causa.”


“O que acontece com a forma sujeito hoje, em período neoliberal? (...) Do lado da consciência reflexiva (processos ditos secundários), o neoliberalismo quer absolutamente acabar com o sujeito crítico (...). E do lado do inconsciente (processos ditos primários) o neoliberalismo não tem mais o que fazer com o velho sujeito herdado da modernidade, exposto por Freud, classicamente neurótico e assaltado pela culpabilidade. Ao invés desse sujeito duplamente determinado, ele quer dispor de um sujeito a-crítico e, tanto quanto possível, psicotizante. Isto é, um sujeito disponível para todas as conexões, um sujeito incerto, indefinidamente aberto aos fluxos de mercado e comunicacionais, em carência permanente de mercadorias para consumir. Um sujeito precário em suma, cuja precariedade mesma é exposta à venda no Mercado, que pode aí encontrar novos escoadouros, tornando-se grande provedor de kits identitários e de imagens de identificação.”


“O que produz, pois, o mais difundido desses meios, a televisão, nas crianças? A questão é ainda mais importante de ser levantada na medida em que o achatamento das crianças pela televisão começa muito cedo. As crianças que hoje chegam à escola são frequentemente crianças empanturradas de televisão desde sua mais tenra idade. Está aí um fato antropológico novo, cujo total alcance não se avaliou ainda: doravante os pequeninos frequentemente se encontram diante da tela antes mesmo de falar. Intuitivamente se compreende por quê: é o único instrumento que permite manter as crianças tranquilas sem se ocupar delas. O consumo de imagens, como todas as pesquisas mostram, atinge várias horas por dia. Segundo um estudo da Unesco, “as crianças do mundo passam em média três horas por dia diante da telinha, o que representa pelo menos 50% mais de tempo consagrado a esse meio que a qualquer outra atividade para-escolar, compreendidos aí os deveres, passar tempo com a família, amigos ou ler”4. Esse número, já considerável, é, no entanto, apenas uma média: perto de um terço das crianças olha a televisão 4 horas por dia ou mais (encontra-se, entre esse terço, uma maioria de crianças das classes e das minorias desfavorecidas).
A inundação do espaço familiar por essa torneira sempre aberta de onde corre um fluxo ininterrupto de imagens não deixa de ter, evidentemente, efeitos consideráveis na formação do futuro sujeito falante. Em primeiríssimo lugar, a televisão, pelo lugar preponderante ocupado por uma publicidade onipresente e agressiva, constitui um verdadeiro adestramento precoce para o consumo e uma exortação à monocultura da mercadoria5. Aliás, essa incitação excessiva não é desprovida de visadas ideológicas. Os mais agressivos publicitários entenderam perfeitamente que partido podiam tirar do desabamento pós-moderno de toda figura do Outro: eles também não hesitam em recomendar entranhar-se “na fragilidade da família e da autoridade para instalar marcas, novas referências” (...)
Além da publicidade, há a violência das imagens: em torno dos 11 anos, a criança “média” terá visto cerca de 100.000 atos de violência na televisão e terá assistido a cerca de 12.000 assassinatos8! Certo, as histórias contadas pelas supostas gentis avós de outrora continham uma porção considerável de horríveis histórias de ogros devoradores de crianças que literalmente nada deixam a invejar às usuais imagens gore* difundidas hoje. Mas não se deve esquecer duas diferenças cruciais: 1) a avó, ao mediatizar o horror, o integrava no circuito enunciativo e o tornava, decerto modo aceitável; 2) existe uma nítida dessemelhança entre o universo claramente imaginário do ogro no conto, obrigando a criança a pensar esse universo como um outro mundo (o da ficção) e o universo muito realista dos seriados, com brigas, violências, roubos assassinatos, sem distância do mundo real9. (...)
Assim, esquece-se frequentemente de mencionar que o tempo a mais para a televisão é tempo a menos para a família. De modo que, com a televisão, é a família, como lugar de transmissão geracional e cultural da vida, que se encontra de cara reduzida à porção compatível. Neste sentido, a expressão “filhos da televisão”, tomada ao pé da letra, ao invés de provocar risos, deveria verdadeiramente aparecer como o que ela é: antes patética, de tanto que ela verifica o fato de que a televisão efetivamente roubou o lugar educador dos pais em relação aos filhos, para tornar-se o que estudos quebequenses nomeiam como “terceiro parental” particularmente ativo, suplantando em muito os verdadeiros pais.”
*: Subgênero cinematográfico dos filmes de horror, que é caracterizado pela presença de cenas extremamente violentas, com muito sangue, vísceras e restos mortais de humanos ou animais.
4: Jo Groebel, “The Unesco Global Study on Media Violence”, em Children and Media Violence, Unesco, Stockholm, 1998.
5: Ver o artigo de Paul Moreira em Le Monde diplomatique de setembro de 1995: “Les enfants malades de la publicite”. Segundo a revista Consumer Report, uma criança americana vê em média 40.000 espotes de publicidade por ano. O poder de compra dos kids americanos interessa fortemente o marketing, já que ele é avaliado em cerca de 15 bilhões de dólares – sem contar a influência que eles têm nas compras de seus pais, estimadas em cerca de 130 bilhões de dólares por ano (números de 1991).
8: Wendy Josephson, Television Violence: A Review of the Effects on Children of Different Ages, Patrimoine canadien, 1995.
9: Um estudo conduzido pelo psicólogo Jeffrey Johnson da Columbia University, publicado na revista Science de 29 de março de 2002, nº 295, argumenta com uma nítida correlação entre o comportamento adolescente violento e o tempo passado diante da televisão.


“Primeiro, notemos que a exposição maciça à imagem televisiva desvia o sentido secular das relações texto-imagem. Antes da invasão das relações geracionais pela televisão, decerto existiam imagens, mas a iniciação à prática simbólica partia do texto através do qual eram inferidas as imagens. Entendo por “texto” tanto enunciados orais – fala cotidiana, contos, versões de mitos ou lendas – quanto enunciados registrados numa escrita (texto santo, folhetos, romances...). Esse primado do texto pode ser facilmente concebido a partir de certas situações simples. Por exemplo, a audição de um contador de histórias ou a leitura de um romance desencadeiam uma atividade psíquica durante a qual o ouvinte ou o leitor cria imagens mentais das quais ele se torna, de algum modo, o primeiro espectador. Era assim que os feácios, reunidos em torno do aedo que contava as proezas de Ulisses, assistiam “diretamente” e “viam” em seu foro interior as proezas narradas. Essa capacidade de presentificar o que está ausente refere, evidentemente, um ponto chave da simbolização. Aliás é a audição da narrativa de suas próprias proezas que permite a Ulisses “voltar a si” quando chega à ilha de Alkinoos, num retorno a si mesmo tão intenso que ele cobre o rosto, provavelmente para chorar de emoção, como Heidegger conjeturou14. (...)
O narrador grego fazia seus ouvintes penetrarem no mundo das forças vivas da Physis, abrindo-lhes uma janela para um mundo primeiro, um mundo divino, geralmente furtado à visão dos mortais, onde se tecem os acontecimentos do mundo segundo em que estes vivem. O narrador grego é exitoso no prodígio de fazer ver aos que habitam esse mundo das aparências um suposto verdadeiro mundo, um mundo real onde se organizam as coisas. Quanto ao leitor, ele imagina algo do mundo que o autor criou.
Aqui está o estatuto da imagem arcaica, tomada tão inteligível por J.- P. Vernant, e lá o estatuto da fábula, para o qual, segundo Umberto Eco, o leitor é convidado pela interpretação do texto e de seus não-ditos15.
Quanto ao fato de todos os ouvintes ou de todos os leitores verem as mesmas imagens, com certeza não. Aliás, conhecem-se as controvérsias que surgem a partir do momento em que um cineasta propõe-se rodar a adaptação de uma obra literária: como ninguém, nenhum leitor “viu” a mesma coisa, todo mundo protesta pelo escândalo e pela traição.”
14: M. Heidegger, Essais et conférences [1954], Gallimard, Paris, 1958; cf. artigo “Alètheia”.
15: J.-P. Vernant, Religions, histoires, raisons, Maspero, Paris, 1979: cf. cap. 8, “Naissance d’images”; U. Eco, Lector in fabula, Grasset, Paris, 1985.


“Nesse caso, cada vez mais e mais frequente, o uso da televisão é muito pernicioso, já que ele só pode afastar ainda mais o sujeito do domínio das categorias simbólicas de espaço, de tempo e de pessoa. A multiplicidade das dimensões oferecidas pode se tomar um obstáculo a mais para o domínio dessas categorias fundamentais, turvando sua percepção e se acrescentando à confusão simbólica e aos desencadeamentos fantasísticos. E nada menos que a capacidade discursiva e simbólica do sujeito que se encontra então posta em causa.
Sendo impotente para transmitir sozinha o dom da palavra, a televisão dificulta a antropofeitura simbólica dos recém-vindos, ela torna difícil o legado do bem mais precioso, a cultura.
É impossível dizer que não sabíamos. Nós temos sido advertidos do desastre civilizacional em curso. Nos anos 1980, numa obra divertida, nostálgica e visionária, Ginger e Fred, Fellini, como artista da imagem herdeiro da grande cultura, havia feito o balanço previsível da catástrofe em curso. Com a televisão, mostrava-nos ele, séculos de arte e de cultura estão indo rio abaixo num cenário chocante de niilismo mercantilista. Não digo que esse diagnóstico seja inelutável: a televisão pode, dissemos, eventualmente abrir para um mundo ampliado, contanto que a instalação simbólica mínima esteja assegurada. Mas seu uso não pode suprir as fraquezas na simbolização, como se poderia ingenuamente crer. Pior até: ele arrisca barrar mais ainda as vias de acesso a esse mundo.
Evidentemente, essa observação vale para todas as próteses sensoriais, não apenas para a tele-visão, mas para toda tele-mática que joga com a tele-presença, isto é, tudo o que transporta um aqui para acolá e um lá para aqui mesmo (os jogos de vídeo, o telefone celular que acompanha cada um 24 horas por dia, a internet...).
Poderíamos, pois, dizer que o uso das próteses sensoriais só pode permitir o desenvolvimento de novas aptidões para o gozo nos casos em que a função simbólica está quase fixada. Em caso contrário, ele só pode gerar novos sofrimentos. (...)
Vivemos, pois, num mundo no qual estamos vendo certos sujeitos se tornarem seres ubíquos, quase liberados das coações espaço-temporais ancestrais graças às próteses sensoriais, ao preço de ver alguns outros não mais poderem habitar nenhum espaço.”


“Uma violenta repressão de instintos poderosos exercida do exterior nunca traz como resultado a extinção ou a dominação destes, mas ocasiona um recalque que instala a propensão a entrar posteriormente na neurose. A psicanálise frequentemente teve a oportunidade de ensinar a que ponto a severidade indubitavelmente sem discernimento da educação participa da produção da doença nervosa, ou ao preço de qual prejuízo da capacidade de agir e da capacidade de gozar a normalidade exigida é adquirida.” (Freud, L’Intéret de la psychanalyse [1913], Retz, Paris, 1980.)


“É apenas quando essa primeira dominação (ontológica) está posta que se pode dizer que a dominação é também, para o homem, um fato sociopolítico. Marx permitiu compreender o quanto essa dominação sócio-política era complexa e sutil, já que ela se apresenta como uma realidade que se afirma dissimulando-se. Com efeito, a dominação sociopolítica é tanto o conjunto dos meios pelos quais certos grupos de indivíduos exercem um domínio econômico, político e/ou cultural sobre outros grupos quanto o conjunto dos meios pelos quais esses grupos dominantes dissimulam seus interesses particulares, tentando fazê-los passar por interesses universais. Essa segunda dominação apresenta, pois, a particularidade de ser contingente e de funcionar enquanto seus dominados continuem seus “patos”. Quando um grupo humano para de ser enganado pela dissimulação de uma dominação e o rei, como se diz, lhe aparece repentinamente nu, então, geralmente, esse grupo sai, num prazo relativamente curto, dessa dominação, para logo experimentar uma nova.”


“É a mais conquistadora de todas as dominações possíveis na hora atual que arrisca triunfar, o que se chama comumente de neoliberalismo. A enorme novidade do neoliberalismo por relação aos sistemas de dominação anteriores diz respeito a que estes últimos funcionavam com o controle, o reforço e a repressão institucionais, enquanto que o novo capitalismo funciona com a desinstitucionalização13. Provavelmente foi isso que Foucault não viu chegar. Entregue totalmente ao estudo das múltiplas formas de o poder encarregar-se da vida (nos cuidados, na educação, nas formas da punição...), ele não viu que uma novíssima dominação muito progressivamente se instalava após a Segunda Guerra Mundial. Os exemplares estudos de Foucault sobre as sociedades disciplinares vieram, com efeito, num momento em que essas sociedades já entravam em decadência. Com efeito, eles se aplicaram a um objeto já bem fragilizado no momento do estudo14. Foi por isso que, embora os estudos de Foucault sobre as sociedades disciplinares fossem fundados, eles não deixaram de gerar um imenso mal-entendido. Os muito vivos engajamentos militantes da época não perceberam que as instituições que eles tomavam como alvo eram exatamente os aparelhos que a fração mais conquistadora do capitalismo queria destruir. Então já não era mais pelo poder tomar, para si o encargo disciplinar da vida que a dominação queria continuar a impor-se, era por uma forma de dominação toda nova, cuja instalação os anos 1960 no mundo (na Califórnia, na Itália, na Inglaterra, na França em maio de 68...) precipitaram. O novo capitalismo estava descobrindo e impondo uma maneira muito menos constrangedora e menos onerosa de garantir a sua sorte: não mais continuar a reforçar a dominação segunda que produzia sujeitos submissos, mas quebrar as instituições e assim acabar com o tomar o encargo da dominação primeira de maneira a obter indivíduos dóceis, precários, instáveis, abertos a todos os modos e todas as variações do mercado.
É assim que, hoje, “as únicas coações justificáveis são as das trocas de mercadorias”15. O exclusivo e único imperativo admissível é que as mercadorias circulem. De modo que toda instituição, vindo interpor entre os indivíduos e as mercadorias suas referências culturais e morais, é doravante mal vinda. Em suma, o novo capitalismo muito rápido identificou o partido que podia tirar da contestação. É assim que o neoliberalismo promove hoje “um imperativo de transgressão dos interditos” que confere a esse discurso um “perfume libertário”, fundado na proclamação da autonomia de cada um e na “ampliação indefinida da tolerância em todos os campos”16. É por isso que ele porta com ele a desinstitucionalização: é preciso não apenas “menos Estado”, mas menos de tudo o que poderia entravar a circulação da mercadoria.
Ora, o que essa desinstitucionalização imediatamente produz é bem uma dessimbolização dos indivíduos. O limite absoluto da dessimbolizaçao é quando mais nada vem assegurar e assumir o encaminhamento dos sujeitos para a função simbólica encarregada da relação e da busca de sentido. Nunca se chega aí verdadeiramente, mas, enfim, quando a relação de sentido desfalece, é sempre em detrimento do próprio da humanidade, a discursividade, e em proveito da relação de forças. O que o novo capitalismo visa hoje é o núcleo primeiro da humanidade: a dependência simbólica do homem. Não é surpreendente, pois, que nosso espaço social se encontre cada vez mais invadido pela violência comum, pontuada por momentos de hiperviolência, acidentes catastróficos que as condições ambientes tornam, doravante, sempre possíveis. O círculo é assim fechado: a lógica neoliberal produz sujeitos que, funcionando precisamente na lei do mais forte, ainda reforçam essa lógica.”
13: É notável que seja pelas instituições asilares, ali onde o enquadramento era o mais forte, que essa desinstitucionalização tenha começado. O que Robert Castel havia perfeitamente identificado em seus estudos, notadamente em F. Castel, R. Castel, A. Lovell, La Société psychiatrique avance e, le modele américain, Paris, Grasset, 1979.
14: Nos Estados Unidos, o mesmo mal-entendido ocorreu com E. Goffman: tomou-se Asiles (publicado na França em 1968) por um estudo libertador, enquanto que ele se inscrevia num projeto de desinstitucionalização. Aliás, esse projeto foi implantado em 1 996 na Califórnia, depois que um certo Ronald Reagan foi eleito governador...
15: P.-A. Taguieff, Résister au bougisme, Mille et une nuits, Paris, 2001, p. 1 4.
16: Ibid., p. 15.


“Tudo o que remete à esfera transcendente dos princípios e dos ideais, não sendo conversível em mercadorias e em serviços, se vê doravante desacreditado. Os valores “morais” não têm valor (mercadológico). Por não valerem nada, sua sobrevivência não se justifica mais num universo que se tornou integralmente mercantil. Além do mais, eles constituem uma possibilidade de resistência à propaganda publicitária, que exige, para ser plenamente eficaz, um espírito “livre” de todo aprisionamento cultural. A dessimbolização tem, pois, um objetivo: ela quer erradicar, nas trocas, o componente cultural, sempre particular.”


“A dificuldade de inserção num mundo do trabalho cada vez mais hipotético e enigmático, o embaralhamento da referência histórica e geracional reagrupam a juventude em agregações seriais sem de jeito nenhum lhe conferir a estrutura e as bases de uma classe social. Tratar-se-ia, antes, de uma fora de classe, definida negativamente pelo que ela não é. O que, aliás, diz muito bem o termo “exclusão”: uma parte da juventude com efeito se vê excluída de fato da atividade social. É por isso que uma análise da violência juvenil em termos de luta das classes parece inadequada. Essa violência não é uma reviravolta contra a exploração (sem emprego, sem mais-valia), não visa nenhuma emancipação (nenhuma ideologia da salvação está operando), ela adere sem reserva ao consumo e aos valores do mercado, não denuncia nenhuma alienação (entregue a ela mesma, ela mais sofreria de uma dobra identitária e gregária que os fenômenos de “bandos” antagonistas ilustram à porfia). Os ilícitos cometidos não têm, politicamente, sentido, causados que são precisamente pela queda do sentido. “Ter ódio” exprime um humor, tão imperioso quanto vago, não uma reivindicação social. (...)
Nada permite transformar a revulsão em revolta, porque a força do neocapitalismo reside, paradoxalmente, na fraqueza de seus governos. A governança neoliberal é uma vontade de não-governo, segundo a ideia de que a um mínimo de governo político corresponde um máximo de rendimento econômico. Desse estiolamento voluntário e técnico do poder resulta um efeito perverso, que não havia escapado à sagacidade de Hannah Arendt: “todo enfraquecimento do poder é um convite à violência”27. Trata-se aqui do “poder” como expressão de um “querer”. Ora, o poder atual não “quer” mais nada, nada mais que a melhor adaptação possível a uma conjuntura e a uma evolução que o ultrapassem. A “modernização” (das empresas, da escola, das instituições...) se apresenta como um gigantesco tropismo em escala planetária, uma espécie de lei natural, um empurrão surdo e irreprimível da evolução. É aqui a “força das coisas” que exige submissão e adaptação vitais e não os detentores de um poder que se tornou frouxo, mole, secundário e gestionário. A ausência de um verdadeiro governo, isto é, de uma instituição cuja legitimidade é necessariamente exterior aos interesses econômicos, abole a autoridade, ao mesmo tempo que torna oculto o poder. O enfraquecimento do Estado não anuncia, longe disso, o da dominação sociopolítica, mas a passagem para uma nova forma de dominação, dissimulada e maligna, pela qual o poder verdadeiro se torna anônimo, informe e não localizável: “estamos diante de uma tirania sem tirano”28. É, abertamente, a promoção da anomia, a suspensão dos interditos e de tudo o que pode impô-los à pura impetuosidade dos apetites. O esmagamento da cidadania sobre a sociedade civil, constituída apenas do conjunto conflitual dos interesses particulares29, torna impossível a necessária dialética entre o corpo social e sua representação política. Definitivamente, o completamento da antropologia neoliberal, cuja ausência de princípio a célebre palavra de ordem “laissez-faire” confessava antecipadamente, abre um novo espaço societário, completamente depurado, prosaico, trivial, niilista, marca de um novo e poderoso darwinismo social no qual o valor, doravante único, passa de uma mão a outra sem outra forma de processo e quaisquer que sejam as modalidades: os “mais adaptados” podem legitimamente tirar proveito de todas as situações, enquanto os “ menos adaptados” são muito simplesmente abandonados, até mesmo convocados a desaparecer. Está aí um profundo requestionamento da civilização, já que se encontra abandonado o tradicional dever biopolítico, que cabe a todo Estado, de proteção de suas populações.
É esse espaço hiper-realista do valor nu na troca direta que alguns se recusam a integrar. Eles então se engajam na via ditada pelo abandono, que os leva à violência “gratuita”, puramente reativa30. É preciso rebater-se em algum derivativo quando o lugar e os representantes do poder são invisíveis. Xerxes fazia flagelar o mar para puni-lo por suas tempestades, os jovens delinquentes queimam, saqueiam, agridem com a mesma raiva impotente, por não poderem atingir os responsáveis por sua relegação. Estamos diante de um círculo vicioso do niilismo: a anomia como condição de possibilidade do neocapitalismo faz cair no niilismo tanto os que dele se aproveitam quanto os que dele padecem.”
27: Hannah Arendt, Du mensonge à la violence, Calmann-Lévy, Paris, 1972, p. 187.
28: Ibid, p. 181.
29: Definição da sociedade civil lembrada por Bernard Cassen, citando Hegel, em Le Monde diplomatique, n° 567, de junho de 2001, p. 28.
30: A exemplo desses quatro jovens rapazes, com idade de treze a vinte e sete anos, que feriram nove pessoas jogando uma carga de explosivos num salão de festas. Motivo invocado: “Era para chatear as pessoas”. Cf. Le Monde, 4 de janeiro de 2002.


“A pós-modernidade não é a simples queda dos ideais do eu, nem um levante em massa contra os ídolos. Os que creem que vivemos uma época de um abrir de olhos doloroso mas salvador se tranquilizam barato. Com efeito, estamos na época da fabricação de um “novo homem”, de um sujeito a-crítico e psicotizante, por uma ideologia também conquistadora, mas provavelmente muito mais eficaz do que o foram as grandes ideologias (comunistas e nazistas) do século passado. O que o neoliberalismo quer é um sujeito dessimbolizado, que não esteja mais nem sujeito à culpabilidade, nem suscetível de constantemente jogar com um livre arbítrio crítico. Ele quer um sujeito incerto, privado de toda ligação simbólica; ele tende a instalar um sujeito unissexo e “não-engendrado”, isto é, sem o arrimo de seu fundamento exclusivamente no real, o da diferença sexual e da diferença geracional. Sendo recusada toda referência simbólica suscetível de garantir as trocas humanas, há apenas mercadorias que são trocadas num fundo ambiente de venalidade e de niilismo generalizados no qual somos solicitados a tomar lugar. O neoliberalismo está realizando o velho sonho do capitalismo. Não apenas ele estende o território da mercadoria até os limites do mundo (o que está em curso sob o nome de mundialização), no qual tudo se tornou passível de ser mercadoria (a água, o genoma, o ar, as espécies vivas, a saúde, os órgãos, os museus nacionais, as crianças...). Ele também está recuperando velhas questões privadas, até agora deixadas à maneira de cada um (subjetivação, personação, sexuação...), para fazê-las entrar na órbita da mercadoria.
Vivemos, nesse sentido, uma virada capital, porque, se a forma sujeito construída com grande luta pela história é atingida, não serão mais somente as instituições que temos em comum que estarão em perigo, será também, e sobretudo, o que somos. Não é apenas nosso ter cultural que está em perigo, é nosso ser. O que testemunha, com clareza, um grau de gravidade bem superior, já que, se a perda de bens comuns é sempre compensável pela produção de novos bens, a perda de seu ser próprio é praticamente irremediável. Provavelmente é nesse ponto que entram em jogo o possível triunfo absoluto do neoliberalismo e, pois, as grandes batalhas a ocorrer: se a forma-sujeito é debilitada, então mais nada poderá constituir obstáculo para o desdobramento sem limite dessa forma política – estágio último do capitalismo, o do capitalismo-total, no qual tudo, até nosso próprio ser, terá entrado na órbita da mercadoria.”


“Da minha parte, de jeito nenhum estou decidido a empregar esse lazer para praticar uma das numerosas artes da desistência, mas para tentar compreender todos os detalhes da nova ideologia que se instala. Aparece, de ora em diante, que, sob ventos propícios, ela é provavelmente tão virulenta quanto as terríveis ideologias que se desencadearam no Ocidente no século XX. Com efeito, não é impossível que, depois do inferno do nazismo e do terror do comunismo, uma nova catástrofe se perfile. Só teríamos saído de uns para entrar na outra. Porque o neoliberalismo, como as duas ideologias já citadas, também quer fabricar um homem novo. De ora em diante, as mudanças nos grandes campos da atividade humana – a economia de mercado, a economia política, a economia simbólica e a economia psíquica – convergem suficientemente para indicar que um novo homem, subtraído de sua faculdade de julgar e empurrado a gozar sem desejar, está aparecendo.”
A hora não é, para mim, nem para um otimismo idiota, o do impaciente que se regozija muito rápido com a desterritorialização operada pela mercadoria e pela queda dos ídolos, nem para um pessimismo nostálgico pelos tempos definitivamente acabados. Se há um imperativo categórico hoje, é o da resistência diante da instalação do capitalismo total.”

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