Este blog destina-se a dividir com os companheiros de estrada as impressões e alguns belos trechos deste fantástico universo que é a literatura.
domingo, 22 de junho de 2014
Elogio da Loucura – Erasmo de Roterdã
segunda-feira, 16 de junho de 2014
A Torre Negra: Lobos de Calla, de Stephen King
Editora: Suma de Letras
ISBN: 978–85–81050–25–6
Tradução: Mário Molina
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 744
Sinopse: Depois
de escapar das perigosas entranhas de Blaine, o monotrilho desgovernado, e das
garras do vingativo feiticeiro Randall Flagg, Roland e seu Ka-tet retomam o
caminho do Feixe de Luz que conduz à Torre Negra, centro de todo tempo e todo
espaço.
Nas fronteiras do Mundo Médio, o grupo de pistoleiros é
abordado por um assustado grupo de representantes da cidade de Calla Bryn
Sturgis. Dali a menos de um mês, Calla será atacada pelos Lobos – cavaleiros mascarados
que surgem uma vez a cada geração, para roubar metade das crianças da cidade e
devolvê-las semanas depois, física e mentalmente incapacitadas.
Enquanto isso, na Nova York de 1977, a Corporação Sombra
planeja atacar o terreno baldio na esquina da Segunda Avenida com a Rua
Quarenta e Seis onde floresce uma rosa – na verdade a Rosa, manifestação da
Torre Negra no mundo atual.
Como Roland e seus amigos poderão ao mesmo tempo salvar a
Rosa e combater os Lobos? Somente com a ajuda do Treze Preto, o mais poderoso
dos Globos do Mago, na verdade o próprio olho do Rei Rubro. Mas, para salvar o
mundo do caos, os pistoleiros terão de aprender a confiar nesse objeto sinistro
e traiçoeiro...
Inspirada no universo imaginário de J.R.R. Tolkien, no
poema épico do século XIX Childe Roland a Torre Negra Chegou, e repleta
de referências à cultura pop, às lendas arturianas e ao faroeste, A Torre
Negra mistura ficção científica, fantasia e terror numa narrativa que forma
um verdadeiro mosaico da cultura popular contemporânea.
“Eddie passou no mínimo uma hora contando a Roland
a história de João e Maria, transformando a perversa bruxa comedora de crianças
em Rhea do Coos quase sem pensar nela. Quando chegou a parte em que ela tentava
engordar as crianças, ele se interrompeu e perguntou a Roland: – Conhece esta? Uma
versão desta?
– Não – disse Roland –, mas é uma bela história.
Conte até o fim, por favor.
Eddie contou, acabando com o exigido E viveram
felizes para sempre, e o pistoleiro aquiesceu.
– Ninguém nunca vive feliz para sempre,
mas deixamos as crianças aprenderem isso por conta própria, não é?”
“A mãe de Roland tinha um ditado: O amor tropeça.”
“– Se – disse Roland. – Um velho mestre meu dizia
que esta era a única palavra de mil letras.”
“Havia um ditado em Gilead: Que o mal espere pelo
dia em que deve se abater.”
“– Os que mantêm conversa consigo mesmos viram
triste companhia.”
“Eddie sorriu e nada disse por mais algum tempo,
esperando que Telford mudasse de assunto. Esperando que Telford desse o fora, na
verdade. Não existe tal sorte. Os chatos não desgrudam da gente: isto era quase
uma lei da natureza.”
“Acima de pequenas doses, o álcool é uma toxina,
e Callahan vinha se envenenando todas as noites. Era o veneno em seu sistema, não
o estado do mundo nem o de sua própria alma, que o estava derrubando. Fora isso
sempre tão óbvio assim? Depois (em outra reunião dos AA), ele ouvira um sujeito
referir-se ao alcoolismo e à dependência como o elefante na sala: como era possível
não vê-lo? Callahan não lhe dissera, ainda estava nos primeiros noventa dias de
sobriedade àquela altura (“Tire o algodão dos ouvidos e enfie na boca”, aconselhavam
os dos velhos tempos, e todos agradecemos), mas podia ter-lhe dito, na verdade,
sim. Era possível não ver o elefante se fosse um elefante mágico, se tivesse o poder
de toldar as mentes dos homens. De fazer a gente acreditar mesmo que nossos problemas
eram espirituais e mentais, mas de modo algum etílicos. Meu Bom Jesus, só a perda
do sono REM, relacionada à bebedeira, bastava para nos foder com plena razão, mas
de algum modo a gente nunca pensava nisso quando estava ativo. A pinga transformava
seu processo mental numa coisa semelhante àquele número circense em que todos os
palhaços vêm saltando do carrinho. Quando as revíamos na sobriedade, as coisas que
disséramos e fizéramos nos faziam estremecer (“Eu me sentava num bar resolvendo
todos os problemas do mundo, depois não conseguia encontrar meu carro no estacionamento”,
lembrou um colega na reunião, e todos agradecemos”).”
“– Eu sei como começa a escalada de volta – disse.
– Tinha tomado suficientes drinques de fundo, ido a suficientes reuniões dos AA
no East Side, Deus sabe. Portanto, quando me deixaram sair, encontrei os AA em Topeka
e passei a ir todo dia. Nunca olhava para a frente, nunca olhava para trás. “O passado
é história, o futuro é um mistério”, dizem. Só que desta vez, em vez de me sentar
no fundo da sala e não dizer nada, eu me obrigava a ir direto para a frente, e durante
as apresentações dizia: “Sou Don C. e não quero beber mais.” Eu queria, sim, todo
dia sentia falta, mas nos AA eles têm ditados para tudo, e um deles é: “Finja até
conseguir.” E aos pouquinhos eu consegui mesmo. Acordei um dia no outono de 1982
e compreendi que realmente não queria mais beber. A compulsão, como eles dizem,
se fora.”
“– As promessas são feitas para serem quebradas.”
“– Jack Kennedy não era um homem mau – disse Susannah
calmamente. – Jack Kennedy era um homem bom. Um grande homem.
– Talvez. Mas sabe de uma coisa? Eu acho que é
preciso ser um grande homem para cometer um grande erro.”
“Meu
pai e o pai de Cuthbert tinham uma regra entre eles: primeiro chegam os sorrisos,
depois, as mentiras. Por último, o tiroteio.”
“Em Calla Bryn Sturgis (como na maioria dos lugares),
os homens em estado de sobriedade não gostavam muito de falar sobre seus corações.”
“Susannah pôs a mão no quadril dele e virou-o
para ela.
– Mas as coisas podem dar errado, por isso eu
quero lhe dizer uma coisa enquanto estamos só nós dois, Eddie. Quero dizer o quanto
amo você. – Falou simplesmente, sem drama.
– Eu sei que me ama – disse ele –, mas diabos
me levem se eu souber por quê.
– Porque você me faz sentir inteira. Quando eu
era mais jovem, vacilava entre achar que o amor era esse grande e glorioso mistério
e que era apenas uma coisa que um bando de produtores de Hollywood inventou pra
vender mais ingressos na Depressão, quando tudo deu errado – Eddie riu.
– Agora acho que todos nós nascemos com um buraco
em nossos corações, e andamos por aí à procura da pessoa que possa enchê-lo. Você
– Eddie, você o encheu até em cima.”
“Um amigo do padre Callahan dera-lhe uma blasfema
mostra de tapeçaria que o fizera soltar rajadas de risada horrorizada na época,
mas que foi parecendo mais verdadeiro e menos blasfemo com o passar dos anos: Deus
me conceda a SERENIDADE para aceitar o que não posso mudar, a TENACIDADE para mudar
o que posso e a BOA SORTE para não foder tudo com muita frequência.”
sábado, 14 de junho de 2014
10 dias que abalaram o mundo – John Reed
terça-feira, 10 de junho de 2014
A Torre Negra: Mago e Vidro, de Stephen King
Editora: Suma de Letras
ISBN: 978-85-81050-24-9
Tradução: Mário Molina
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 810
Sinopse: A
estranha e inesquecível odisseia de Roland de Gilead em busca da Torre Negra
continua. No quarto volume da série imaginada por Stephen King, novos perigos
ameaçam o ka-tet de Roland – formado por Jake, Eddie Dean, Sussanah e Oi.
Mago e Vidro retoma a eletrizante narrativa interrompida em As Terras Devastadas. Depois de enfrentar a terrível ameaça do monotrilho Blaine, o último
pistoleiro e seus seguidores desembarcam na cidade de Topeka, no Kansas, e
retomam o caminho do Feixe de Luz que conduz à Torre Negra. Roland revela então
aos companheiros a história de seu passado, e a trágica perda de seu grande
amor de juventude, a bela Susan Delgado.
Prosseguindo em sua jornada, o ka-tet chega a um palácio
de vidro verde onde encontra ninguém menos do que o antigo nêmesis de Roland:
Marten Broadcloak, conhecido em alguns mundos como Randall Flagg, em outros
como Richard Fannin, e em outros ainda como John Farson, o Homem Bom. E Roland
e seus companheiros descobrem então uma pavorosa verdade sobre o passado do
pistoleiro...
Inspirada no universo imaginário de J.R.R. Tolkien, no
poema épico do século XIX Childe Roland a Torre Negra Chegou, e repleta
de referências à cultura pop, às lendas arturianas e ao faroeste, A Torre
Negra mistura ficção científica, fantasia e terror numa narrativa que forma
um verdadeiro mosaico da cultura popular contemporânea.
“Em Gilead, antes que o mundo seguisse
adiante, a lua cheia do Fim do Ano fora chamada de Lua do Demônio, e as pessoas
achavam que dava azar olhar diretamente para ela. Agora, contudo, isso não
tinha importância. Agora havia demônios por toda parte.”
“– A vida é azeite, não óleo de rícino.”
“Deus odeia os covardes.”
“– Quando Eddie fica mesmo fodido, é capaz de
convencer o diabo a tocar fogo no próprio corpo.”
“Tentou dizer que estava bem, que podiam
ficar tranquilos, ele estava ótimo, mas não conseguiu pronunciar uma só
palavra; aquele terrível som ondulante o transportara para o desfiladeiro
retangular a oeste de Hambry tantos e tantos anos atrás. Depape, Reynolds e o
velho coxo Jonas. Acima de tudo, no entanto, era a mulher da colina que ele odiava,
e das profundezas mais negras de sentimentos que só um homem muito jovem podia
atingir. Ah, mas como poderia ter feito outra coisa a não ser odiá-los? Seu
coração fora partido. E agora, tantos e tantos anos mais tarde, parecia-lhe que
o fato mais horrível da existência humana era que corações partidos saram.”
“– Acho que o serviço das putas tende a ser
superestimado pelos jovens.”
“Ela deu uma risada. Os homens eram
engraçados, sim, é claro que eram, e o que havia de mais divertido era que
praticamente eles não tinham a menor consciência disso. Homens, com nomes que
lhes pareciam tão valentes, tão capazes de impor respeito. Homens, tão
orgulhosos de seus músculos, suas aptidões para a bebida, suas aptidões para a
comida; tão incessantemente orgulhosos de suas picas. Sim, mesmo naqueles
tempos em que um número imenso deles não conseguia soltar nada além do sêmen
estranho e corrompido que produzia crianças que só serviam para ser afogadas no
poço mais próximo. Ah, mas a culpa jamais era deles, certo, meu caro? Não, era
sempre a mulher – seu útero, sua falha. Homens eram tão covardes. Tão
francamente covardes. Aqueles três não tinham fugido da regra geral. O velho
que mancava sabia olhar de frente – sim, sabia, um par de olhos claros e
francamente curiosos tinha partido daquela cabeça e se fixado nela –, mas a
mulher não viu nada naqueles olhos com que não soubesse lidar, a verdade foi
essa. Homens! Não conseguia entender por que tantas mulheres os temiam. Não
tinham os deuses criado os homens com a parte mais vulnerável de seus órgãos
pendendo fora dos corpos, como um pedaço deslocado de tripa? Chutem aquilo e
eles se curvarão como caracóis. Acariciem aquilo e seus cérebros se
derreterão.”
“Quando não há alternativa, a hesitação é
sempre um erro.”
“Os bobos são as únicas pessoas da Terra que
acreditam que vão conseguir o que merecem.”
“Roland virou para o outro lado, fechou os
olhos e caiu no sono. O descanso foi leve, iluminado pelos sonhos cruamente
poéticos que só garotos adolescentes têm, sonhos onde a atração sexual e o amor
romântico se juntam e ressoam com mais força do que jamais conseguirão ter.”
“O diabo que se conhece é sempre preferível
ao que não se conhece.”
“Frequentemente é melhor o silêncio, o pai
lhe dissera quando, com cerca de dez anos, ela lhe perguntara por que estava
sempre tão calado. Na época, a resposta a deixara confusa, mas agora tinha mais
compreensão.”
“Seria possível lembrar a angústia e doçura
daqueles primeiros anos? Recordamos nosso primeiro amor verdadeiro tão
claramente quanto as ilusões provocadas pelo delírio de uma febre alta.”
“Como acontece com qualquer outra droga
forte, o primeiro amor verdadeiro só é realmente interessante para aqueles que
se tornaram seus prisioneiros.”
“E como ninguém suspeitava, podia continuar.
De que outra forma seria possível suportar o idiota do irmão? A idiota daquela
cidade? E, é claro, o conhecimento de que todos os rancheiros da Associação dos
Cavaleiros, e pelo menos metade dos grandes proprietários de terra, eram traidores?
– Foda-se a Confederação – ela sussurrou. – Melhor um pássaro na mão... Mas
teria realmente um pássaro na mão? Alguém ali teria? Manteria Farson suas
promessas? Promessas feitas por um homem chamado Latigo e passadas adiante pelo
inimitável Kimba Rimer... Coral tinha suas dúvidas se seriam cumpridas;
déspotas tinham modos muito convenientes de esquecer as promessas, assim como
pássaros na mão tinham uma irritante mania de beliscar os dedos, fazer cocô na
palma e depois voar. Não que isso ainda importasse; ela, pelo menos, tinha onde
dormir. Além do mais, as pessoas sempre bebem, jogam e trepam,
independentemente do sujeito para quem devem curvar os joelhos ou em cujo nome
os impostos são cobrados.”
“– A única coisa que tenho para me orientar é
o suor da minha testa.”
“– Talvez tenhamos de ver uma matança por
aqui. Quem sabe? De qualquer modo, são as perguntas sem resposta que fazem
valer a pena acordar de manhã.”
“Acordar para a verdade quando é tarde demais
é uma coisa terrível.”
“A voz do pai era a mais severa das vozes, a
voz que frequentemente ouvia em sonhos agitados, a voz que queria tanto agradar
e tão raramente conseguia.”



