domingo, 3 de novembro de 2013

Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo – Mário Magalhães

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-359-2170-0

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 738


“Em tempos de guerra, mentira é como terra.”

 

 

“Um dos mais populares bolcheviques, Nikolai Bukhárin definiu a Rússia soviética como “o primeiro gigantesco laboratório onde se forma o futuro da humanidade”.”

 

 

“O PCB interpretou o confronto de 1932 como uma escaramuça da elite sem mocinhos.”

 

 

“Os comunistas ostentavam a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, arrancada do atraso secular e dos destroços da guerra civil, como exemplo do que o planejamento estatal da economia poderia produzir – mais tarde ficaria claro o custo humano da coletivização forçada do campo e da industrialização acelerada. Contavam histórias de heroísmo: em agosto de 1931, o estivador Herculano de Souza fora baleado pela polícia em um comício do Socorro Vermelho na cidade portuária de Santos, no litoral paulista.

Homenageavam os operários Sacco e Vanzetti, executados na cadeira elétrica dos Estados Unidos. Ferido, Herculano caiu nos braços da escritora e militante comunista Patrícia Galvão. Antes de morrer, ele exclamou:

“Continue o comício! Continue o comício!”

O comício continuou, e Pagu pediu aos presentes para cantar A Internacional. A cavalaria invadiu a praça e a prendeu.”

 

 

“Os comícios que preocupavam Marighella em 1934 atraíam cada vez mais gente. O “foguetão extremista” foi arremessado sobre um deles, da Ação Integralista Brasileira (AIB), versão nacional do fascismo assentada em 1932. Seu líder, Plínio Salgado, deslumbrara-se com o fascio ao visitar a Itália. O chefe das milícias, o germanófilo Gustavo Barroso, apregoava vulgaridades antissemitas. Eles vestiram camisas verdes (os fascistas, pretas) e adotaram a letra grega sigma como emblema (os nazistas, a suástica). Saudavam com o tupi “anauê” (na Alemanha, “heil, Hitler”) e estendiam o braço para o alto (na Itália, à romana, na horizontal). Ultranacionalistas, adotaram a divisa “Deus, Pátria e Família”.

Enxergavam em comunistas e judeus uma coalizão perversa. Extasiaram-se quando o governo brasileiro deportou, em outubro de 1935, a tecelã judia Genny Gleiser, nascida na Bessarábia. Portuários franceses a resgataram e a salvaram do terror. Antiliberais, os integralistas se identificavam com o liberalismo na defesa da propriedade privada. Compartilhavam com o governo a aversão ao comunismo. Mobilizaram 400 mil aderentes em 1.123 núcleos. A posteridade os lembraria como fanfarrões, janotas envaidecidos com suas paradas burlescas. Para a geração do moço Marighella, aparentava uma ameaça do naipe de Hitler e Mussolini.”

 

 

“Afiançado pelas Forças Armadas, Getúlio Vargas deu um golpe e instaurou o Estado Novo. Um colégio eleitoral restrito promulgou a Constituição de 1934 – em 1933, votaram privilegiados 3% dos brasileiros. Os constituintes transformaram o chefe do governo provisório em presidente constitucional sem o submeter ao sufrágio popular. Seria ainda pior: em 1937, as eleições foram canceladas e a Justiça Eleitoral, extinta. A Carta de 1934 foi substituída pela Polaca, assim apelidada porque se inspirava na Constituição do falecido ditador polonês Jósef Pilsudski.

Getúlio se fez ditador sem Legislativo, com o Judiciário manietado pelas cartas marcadas do TSM, partidos banidos, interventores nos estados, polícia sem limites, greves proibidas e sindicatos atrelados ao Ministério do Trabalho. O pretexto para a farra, o “Plano Cohen”, não passara de falsificação. Tratava-se de um estudo datilografado na serie da AIB pelo chefe do seu serviço secreto Olímpio Mourão Filho – que se descrevia como uma “vaca fardada”.”

 

 

“A controvérsia sobre o caráter ideológico de Getúlio, um pragmático, viveria mais que o século. Em 1929, ele interpretou sua diretriz no governo do Rio Grande do Sul: “Assemelha-se ao direito corporativo ou organização das classes promovido pelo regime fascista no período de renovação criadora que a Itália atravessa”. Em junho de 1940, reverenciou os alemães ao argumentar que os povos “fortes têm direito a buscar um lugar ao sol”. Um ano mais tarde, telegrafou a Hitler cumprimentando-o pelo aniversário.

O PCB festejou o fiasco do ataque integralista ao palácio Guanabara em maio de 1938, no Rio. A política de aliança exprimia a determinação da Internacional de despejar a munição no nazifascismo, suando para impedir que o Eixo cooptasse Getúlio. A orientação das sessões nacionais se subordinava à prioridade de defesa da União Soviética, mesmo que isso implicasse compor com uma ditadura anticomunista. O cerco contra o único Estado socialista do planeta apertou. Alemanha e Japão brindaram, em 1936, a um pacto anti-Komintern, ao qual a Itália se uniu. Em setembro de 1938, Hitler, Mussolini, o britânico Neville Chamberlain e o francês Edouard Daladier se acertaram em Monique. As duas maiores democracias liberais europeias aceitaram entregar territórios da Tchecoslováquia aos nazistas, que já haviam abocanhado a Áustria. Os soviéticos se inquietaram.”

 

 

“A engrenagem do anticomunismo se mantinha robusta, e o seu motor era a Igreja. Em Salvador, levaram a imagem do Senhor do Bonfim para uma concentração contra o partido. Uma publicação católica asseverava que os vermelhos se regozijavam currando freiras. No município pernambucano de Triunfo, o padre avistou uma caravana comunista e ordenou que os sinos da matriz dobrassem finados. Em Catende, no mesmo estado, uma procissão com uma boiada à frente atravessou de propósito uma manifestação do PCB. O ex-sargento Gregório Bezerra berrou do palanque:

“Tenham calma, companheiros! Abram alas e deixem passar a Idade Média”.”

 

 

“No capítulo inicial, a 16 de março de 1946, a Tribuna Popular publicou a reportagem “Prestes em sabatina com funcionários da justiça”. Indagaram o senador “sobre qual a posição dos comunistas se o Brasil acompanhasse qualquer nação imperialista que declarasse guerra à União Soviética”. O secretário-geral não hesitou:

Faríamos como o povo da Resistência francesa, o povo italiano, que se ergueram contra Pétain e Mussolini. Combateríamos uma guerra imperialista contra a União Soviética e empunharíamos armas para fazer a resistência em nossa pátria contra um governo desses, retrógrados, que quisesse a volta do fascismo. Mas acredito que nenhum governo tentará levar o povo brasileiro contra o povo soviético, que luta pelo progresso e bem-estar dos povos. Se algum governo cometesse este crime, nós comunistas lutaríamos pela transformação da guerra imperialista em guerra de libertação nacional.”

 

 

“Nem com o reforço dos comunistas Juscelino atraiu muito mais de um terço dos votos: 36%. Para sua sorte, a regra estabelecia turno único. JK somou 466.956 eleitores a mais que Juarez Távora, da UDN, com 30%. Como o pleito não batia chapa contra chapa, era possível escolher para vice um antagonista do chefe do Executivo. Não foi o que ocorreu em 1955, quando Jango sobrepujou o udenista Milton Campos por 203.670 votos. As diferenças estreitas animaram nova ofensiva golpista. Carlos Lacerda já tentara adiar a eleição. O mais anticomunistas dos ex-comunistas divulgou uma carta de um legislador argentino, Antonio Brandi, a João Goulart. Entre outros desvarios, prescrevia a formação de brigadas de choque operárias. A tal Carta Brandi não passava de falsificação, como julgaram os tribunais. A seguir, os golpistas buscaram impugnar os candidatos. Alegaram que JK e Jango incorriam em crime por ter ao lado uma agremiação proibida (comunista). A justiça autorizou as inscrições, porém vetou o Movimento Nacional Popular Trabalhista, a fachada dos comunistas na campanha. Depois de 3 de outubro, os derrotados voltaram à carga, sustentando que o PCB determinara o resultado, que por isso seria ilegítimo.

Em 1945, com um colégio eleitoral menor, contaram-se 569 mil cédulas, ou 10% para o partido. É provável que, em 1955, enfraquecido, o PCB não tenha decidido o embate presidencial, mas tenha sacramentado o triunfo de Goulart. Como a manobra não prosperou, os udenistas reivindicaram a anulação porque os vitoriosos não tinham obtido maioria absoluta, desempenho que a lei não requeria. Com outro insucesso, apelaram ao recurso empregado no Brasil desde a proclamação da República em 1989, o golpe militar.

No dia 1º de novembro, o coronel Jurandir de Bizarria Mamede discursou no enterro do general Canrobert Pereira da Costa. Sugeriu cancelar a posse de JK, marcada para janeiro de 1956. Café Filho sofreu uma crise cardíaca, e o presidente da Câmara, Carlos Luz, ocupou seu lugar. O ministro da Guerra, Henrique Teixeira Lott, quis punir Bizarria Mamede por indisciplina, porém, o presidente em exercício não aceitou. A recusa implicava a queda do general Lott, passo final para bloquear Juscelino. Em 11 de novembro de 1955, o ministro colocou os blindados nas ruas do Rio, depôs Carlos Luz, e a Câmara aprovou a entrega provisória do governo ao vice-presidente do Senado, Nereu Ramos. Marighella se defrontara com o senador catarinense na Constituinte de 1946, mas em 1955 se aliara pela submissão às urnas.

Lott comandou um golpe sui generis para os padrões nacionais, com conteúdo de contragolpe legalista para que prevalecesse a vontade dos eleitores.”

 

 

“Khruschóv arrematou:

“Quando falamos em luta armada, falamos de luta de grandes massas, e não de ações sectárias de alguns comunistas. Porque isto seria uma aventura. A luta armada só de comunistas é sempre uma aventura. Realizar o trabalho de massas é a melhor forma de preparar a insurreição. Não se chega à luta armada sem se passar pelas lutas de massas”.”

 

 

“Enquanto o PCB se entretinha com as idas e vindas do inquilino do Planalto, quem aspirava despejá-lo perseverava. Os militares que malograram em 1954, 1955 e 1961 ensaiavam novo coup de main. Em março de 1963, o general Olímpio Mourão Filho, arraigado integralista, já traçara no papel um roteiro de golpe. Em setembro e outubro daquele ano, foram descobertos ao menos três arsenais de opositores, um deles com dez metralhadoras Thompson, munição para 12 mil tiros e cinquenta granadas. Também se movimentavam conspiradores mais graúdos. No dia 30 de julho de 1962, dois homens haviam conversado no salão da Casa Branca sobre o destino no Brasil. O presidente John Kennedy e seu embaixador no Rio de Janeiro, Lincoln Gordon, trataram do financiamento oculto de 8 milhões de dólares a candidatos que em outubro enfrentariam nas urnas os correligionários de Jango. A dinheirama, ao lado da qual o ouro de Moscou configurava ninharia, cooperou para manter Goulart minoritário – seu PTB saltou de 66 para 104 deputados federais, mas UDN e PSD amealharam 54% das cadeiras. Philip Agee, agente da CIA, estimou que o agrado a candidatos pode ter alcançado 20 milhões de dólares – 149 milhões em 2012, muito mais do que todos os gastos oficiais da campanha vitoriosa à presidência em 2010.”

 

 

“O descontrole dos preços vitaminava demonstrações como a da praça da Sé, mas a popularidade de Jango não era anêmica. Foi o que constatou pesquisa de opinião em oito capitais, de 9 a 26 de março de 1964. Seis em cada dez entrevistados pelo Ibope concordaram com a desapropriação de terras às margens de rodovias, contra a reprovação de 1,9%. Porém, 76% rejeitaram a legalização do PCB – o anticomunismo não pelejara em vão. À indagação sobre se votariam em Jango se ele concorresse, a maioria respondeu positivo em Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre. O sim perdeu, mas oscilou de 39 a 41% em Belho Horizonte e Curitiba. Contribuíram para o desempenho viçoso novidades como o 13º salário, instituído em 1962, coroando a campanha na qual o deputado Marighella se batera. Sem reeleição, entre sete opções, Juscelino Kubitschek venceu em quatro capitais e nas outras foi segundo. Só no Rio Carlos Lacerda passou dos 20%. O governador mineiro, Magalhães Pinto, mal beirou os 6% em Belo Horizonte.”

 

 

“Consumava-se a humilhação suprema de Prestes e do PCB. Em 1924, o capitão tinha 26 anos, havia troteado sua coluna e estabelecera sua legenda; em 1935, aos 37, comandara uma tentativa de revolução; aos 66, em 1964, implorava para resistirem. No levante comunista, o partido “vanguarda da classe operária” fora esmagado, mas pelejara – agora, nem isso; em 1961, a crise encontrou-o perplexo, contudo o desvario janista surpreendera; três anos depois, a gestão do coup de force saltou à vista, e mesmo assim o PCB se prostrou.”

 

 

“Nos estertores da quarta-feira, João Goulart já se conformara com a queda. Com seu governo desenganado, ele viajou de Brasília para Porto Alegre, onde o Avro da FAB pousou pelas três e meia da madrugada de 2 de abril. Disposto a reeditar 1961, Brizola reivindicou sua nomeação para o Ministério da Justiça e a do general Ladário Telles, removido na véspera para o comando do III Exército, para a pasta da Guerra – em vez de envergar o uniforme de campanha, o ministro Jair Dantas Ribeiro, internado no Rio, não tirava o pijama de enfermo. Goulart não atendeu ao cunhado. E foi abordado pelo general Ladário, que um dia antes se mostrara desesperançoso aos sargentos na Vila Militar carioca. Ajudante-de-ordens do presidente, o capitão Ernani Corrêa de Azambuja testemunhou o diálogo dramático:

“Se nós iniciarmos a reação, isso se alastra, e o Rio Grande do Sul se torna uma nova legalidade”, vaticinou Ladário.

Jango se precaveu: “Uma pergunta só: vai correr sangue?”.

“Ah, vai!”, disse o general com sinceridade.

“Então eu não concordo”, encerrou Goulart.

A Câmara acabara de encenar uma pantomina, declarando vaga a presidência e empossando no cargo o deputado Ranieri Mazzilli. Eram golpistas e motivos demais: militares contrariados com a indisciplina nos quartéis; latifundiários com a reforma agrária; empresários com a contestação dos assalariados e o espectro de uma “república sindicalista”; o capital estrangeiro com as restrições à remessa de lucros para o exterior; e os Estados Unidos com a ameaça de uma nova China. O comunismo configurava uma obsessão, porém, o putsch focou no presidente e seu PTB.

A despeito do ódio de certos oligarcas, Goulart seria renegado na posteridade também por segmentos da esquerda. Brizola diria que, em 1964, seu comportamento foi o de quem renunciou. Marighella escreveu: “Estávamos confiados em que o governo resistiria. Nem ao menos denunciamos insistentemente o golpe de direita”. Mário Alves comentou: “Como já ocorrera em 1964 e 1961, o setor nacionalista da burguesia não se dispôs a enfrentar uma eventualidade de uma guerra civil, temendo que ela se convertesse em uma revolução popular”. A leitura marxista podia ter fundamento, mas o coração de Jango influiu: ele não admitia irmão sangrando irmão.”

 

 

“A obsessão com o espectro subversivo estimulou um burocrata de Brasília a interditar o consumo de vodca (o Leste Europeu destilava as supimpas) e o Dops carioca a interrogar sobre o grego Sófocles, tomando-o como um dramaturgo vivo, e não falecido quatro séculos antes de Cristo.”

 

 

“Para gáudio da Casa Branca, Castelo Branco amenizou as restrições à remessa de lucros ao exterior e anulou a encampação das refinarias particulares de petróleo, cancelando medidas de Jango. Com reajustes salariais que esqueciam a inflação, o governo desenvolveu o que os seus economistas difundiam como austeridade e a oposição criticava como arrocho. A Voz Operária, órgão clandestino do PCB calculou: com o salário mínimo de 1964, trabalhavam-se sete horas para comprar um quilo de manteiga; em setembro de 1965, onze horas. Nem por isso pululavam greves: com a intervenção oficial em 433 entidades, o movimento sindical hibernava.”

 

 

“Em “Rondó da liberdade”, poema político publicado em 1966, Marighella conclamou:

É preciso não ter medo

é preciso ter a coragem de dizer.

 

Há os que têm vocação para escravo,

mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Foi o formato em versos para sua prosa inflamável de Por que resisti à prisão, livro de 1965: “Os brasileiros estão diante de uma alternativa. Ou resistem à situação criada com o golpe de 1º de abril ou se conformam com ela. O conformismo é a morte”.”

 

 

“Marighella vaticinou: “A ditadura surgiu da violência empregada pelos golpistas contra a nação, e não pode esperar menos do que a violência por parte do povo”.”

 

 

“O Agrupamento divulgou seus princípios: “São três: o primeiro é que o dever de todo o revolucionário é fazer a revolução; o segundo é que não pedimos licença para praticar atos revolucionários; e o terceiro é que só temos compromisso com a revolução”. Marighella simplificou: “O conceito teórico pelo qual nos guiamos é o de que a ação faz a vanguarda”. E encerrou a conversa: “A mesa das discussões hoje em dia já não une os revolucionários. O que une os revolucionários brasileiros é desencadear a ação, e a ação é a guerrilha”.”

 

 

“No opúsculo A crise brasileira, de 1966, Marighella estimulou “a aliança com os católicos”. Ele acompanhara a pregação do frei Carlos Josaphat, editor do jornal Brasil Urgente. Em 1963, o dominicano escrevera no periódico que “a concentração das riquezas [...], lei inexorável do capitalismo, [...] é abominável e diabólica”. Agora, Marighella aprendia que a encíclica Populorum progressio, emitida pelo papa Paulo VI em março de 1967, admitia a “insurreição revolucionária”, “em caso de tirania evidente e prolongada, que ofendesse gravemente os direitos fundamentais da pessoa”. São Tomás de Aquino, teólogo dominicano do século XII, legitimara o direito de resistir ao governante injusto. Os sacerdotes já tinham um mártir: o padre Camilo Torres, que aderiu à guerrilha socialista na Colômbia em nome do amor ao próximo e morreu combatendo em 1966.

Pouco importava a Marighella que os frades não referendassem as súmulas do socialismo científico. “Nós levávamos muito mais a sério Marx que muita gente do Partido Comunista, porque pelo menos nos dávamos ao trabalho de ler”, cutucou frei Oswaldo. “Descobria-se que não era necessário ser marxista. Poderia ser um bom católico e estar a favor da revolução social.” Que virada em relação à Inquisição medieval, encabeçadas por dominicanos, os “cães do Senhor” em latim, entre os quais o inquisidor-geral, Tomás Torquemada. Marighella pensava na Igreja contemporânea, não nas fogueiras do passado.”

 

 

“Se a proibição imposta pelo governo impediu certos órgãos jornalísticos de cumprir o dever de informar a ação da ALN contra a vinda do governador de Nova York, Nelson Rockefeller ao Brasil, muitos veículos nem chiaram, e outros, mesmo sem o veto, omitiriam o episódio por iniciativa própria, tal seu fervor bajulatório pela ditadura.”

 

 

“Marighella advertiria: “Na luta revolucionária devemos evitar a distorção dessa finalidade política, impedindo que a guerrilha urbana ou rural se transforme em instrumento de banditismo e que nos juntemos aos bandidos ou empreguemos seus métodos. (...) Os atos terroristas revolucionários e a sabotagem não visam inquietar, amedrontar ou matar o povo. Eles devem ser utilizados como tática para combater a ditadura. (...) Ao terrorismo que a ditadura emprega contra o povo nós contrapomos o terrorismo revolucionário”. E prossegue em seu Minimanual do guerrilheiro urbano: “Quanto ao sistema de transporte e comunicações do inimigo (...) o único cuidado (ao fulminá-lo) é não causar mortes e danos fatais aos passageiros”.”

 

 

“Com o pretexto de debelar a herança inflacionária, o governo corroera a remuneração pelos trabalhadores. O poder de compra do salário mínimo despencou 27% de 1964 para 1969. Além de anêmicos pela intervenção oficial, os sindicatos murcharam em número. Nenhum operário se arriscava a abrir faixa de protesto, para não ser demitido pelo patrão, processado pelo Estado, surrado pela polícia e, como aconteceu, torturado e morto. O arrocho tabelava com a pobreza: a mortalidade infantil estacionou, oscilando de 116 por mil bebês nascidos vivos, em 1965, para 115 em 1970. Até que a economia entorpecida despertou: de 1969 a 1973, vitaminou-se ao fabuloso ritmo médio anual de 11,4%. No dito “milagre econômico”, o bolo cresceria, mas poucos devorariam as fatias maiores. Ainda assim, a ditadura capitalizou as novas oportunidades de emprego e renda.”

 

 

“Em dezembro de 1979, ainda sob as nuvens da ditadura, os restos mortais de Marighella foram transferidos para Salvador. No cemitério Quinta dos Lázaros, centenas de velhos companheiros e camaradas se despediram. O arquiteto Oscar Niemeyer desenhou-o na lápide com um braço erguido, cinco balas no peito e a inscrição “Não tive tempo para ter medo”. O deputado cassado Fernando Sant’Anna leu uma mensagem de Jorge Amado:

Atravessaste a interminável noite da mentira e do medo, da desrazão e da infâmia e desembarcas na aurora da Bahia, trazido em mãos de amor e de amizade. Aqui estas e todos te reconhecem como foste e serás para sempre: incorruptível brasileiro, um moço baiano de riso jovial e coração ardente. Aqui estas entre teus amigos e entre os que são tua carne e teu sangue.

Muitos haviam ficado pelo caminho.”

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Shantaram (Parte I), de Gregory David Roberts

Editora: Landscape
ISBN: 978-85-8057-097-7
Tradução: Rosana Telles
Opinião: ★★★★★
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Páginas: 820
Sinopse: Shantaram é um romance baseado na vida do autor, Gregory David Roberts. Em 1978, por causa de seu vício em heroína, Roberts cometeu uma série de roubos e foi condenado a dezenove anos de prisão. Em julho de 1980, em plena luz do dia, ele conseguiu escapar pelo muro da frente da prisão de segurança máxima em Victoria, vindo a ser, nos próximos dez anos, o homem mais procurado da Austrália.
Sua jornada levou-o a Nova Zelândia, Ásia, África e Europa, mas passou a maior parte do tempo em Bombaim – onde montou uma clínica de atendimento médico gratuito para moradores de favela e trabalhou como traficante de armas, falsificador, contrabandista e membro de um dos mais carismáticos ramos da máfia de Bombaim.



“Um longo tempo e viver em boa parte do mundo foram necessários para aprender o que sei sobre o amor, o destino e as escolhas que fazemos, mas a percepção essencial me veio numa fração de segundo, quando eu estava acorrentado a uma parede, sendo torturado. De alguma maneira, percebi, nos gritos que ecoavam em minha mente, que mesmo naquele desamparo agrilhoado e maldito, eu ainda era livre: livre para odiar os homens que me torturavam, ou para perdoá-los. Isto pode não parecer muita coisa, eu sei. Mas enquanto a corrente recuava e mordia a minha pele, quando isto é tudo o que se tem, esta liberdade é um universo de possibilidades. E a escolha que se faz entre o ódio e o perdão define a história de sua vida.
No meu caso, a história é longa e rica. Fui um revolucionário que perdeu seus ideais na heroína; um filósofo que perdeu a integridade no crime; um poeta que perdeu a alma numa prisão de segurança máxima. Quando fugi dessa prisão pelo muro da frente que ficava entre duas torres de vigia, tornei-me o homem mais procurado de meu país. A sorte colocou-se ao meu lado e voou comigo pelo mundo até a Índia, onde me associei à máfia de Bombaim (atual Mumbai). Trabalhei como traficante de armas de fogo, contrabandista e falsário. Fui preso em três continentes, surrado, esfaqueado e entrei em estado de inanição. Fui à guerra. Enfrentei o fogo inimigo. E sobrevivi enquanto outros ao meu redor morreram. Eram grande parte deles homens melhores do que eu. Homens melhores cujas vidas, fragmentadas em erros, foram atiradas para longe pelo átimo do ódio de alguém. Ou pelo amor e indiferença. Eu os enterrei, muitos destes homens. E trouxe suas histórias e suas vidas para o lamento da minha.”


“Eu era um fugitivo. Era um homem procurado, um homem caçado, minha cabeça tinha um preço. E ainda assim, eu estava um passo adiante deles. Eu era livre. Quando você é fugitivo, cada dia é toda a sua vida. Cada minuto livre é uma pequena história com final feliz.”


““Falando sério, Ulla”, Karla disse com carinho, “Você atrai os loucos”.
“Já, leider. O que posso fazer? Os loucos me adoram”.
“Não dê ouvidos à Karla, Ulla querida”, Didier consolou-a. “A loucura é a base de qualquer relacionamento saudável!”.
“Didier”, suspirou Ulla, pronunciando o nome dele com um sorriso extremamente doce, “eu já lhe mandei tomar no cu, hoje?”
“Não!”, riu ele, “Mas eu perdoo você pelo esquecimento. Cá entre nós, minha querida, essas coisas estão sempre subentendidas”.”


“O homem sem pressa chega a lugar nenhum rapidamente.”


““Então, me conte, Didier, o que o prende a Bombaim?”.
“Sou francês”, respondeu ele, admirando o orvalho que cobria a metade do seu copo. “Homossexual, judeu e criminoso, mais ou menos nesta ordem. Bombaim foi a única cidade que encontrei que me permite ser estas quatro coisas ao mesmo tempo”.”


“Normalmente, eu não me envolvo com as baixezas da política, ou com a arena dos grandes negócios. A única força mais sórdida e brutal que os negócios da grande política é a política dos grandes negócios.”


“Uma civilização se define muito mais na base do que é proibido do que na base do que é permitido.”


“Quando estou de baixo astral, penso que o melhor que se pode dizer é que um amigo é alguém que você não despreza.”


“A verdade é uma tirana de quem todos fingimos gostar.”


“Hoje em dia existe muita pose e pouco estilo. Sinais dos tempos. Em vez da pose se transformar em estilo, o estilo se transformou em pose.”


“Fanáticos religiosos. Todos eles têm o mesmo olhar parado e purificado. Têm o olhar típico das pessoas que nunca se masturbam, mas que passam o tempo todo pensando nisto.”


“Eu odeio a tristeza. Acho insuportável. Prefiro não ter nada a ter que enfrentar a tristeza, mesmo que seja mínima. Acho que por isto que gosto tanto de dormir, na? É impossível ficar totalmente triste quando se dorme. Você pode ficar alegre, com medo ou irritado em seus sonhos, mas precisa estar bem acordado para ficar triste, não é verdade?”


“Na verdade, vocês estão fazendo com que as coisas pareçam mais difíceis do que são, ou precisam ser. No começo, sentíamos medo de tudo – dos animais, do clima, das árvores, e do céu noturno – tudo, a não ser uns dos outros. Agora, sentimos medo uns dos outros e de quase tudo. Ninguém sabe porque os outros fazem o que fazem. Ninguém diz a verdade. Ninguém é feliz. Ninguém está seguro. Considerando tudo o que está errado no mundo, a pior coisa que se pode fazer é sobreviver. Ainda assim, você precisa sobreviver. É esse dilema que nos dá esperanças e faz com que nos agarremos à mentira de termos uma alma e de que exista um Deus para cuidar do nosso destino.”


“Quando o desejo e o medo são exatamente iguais, chamamos o sonho de pesadelo.”


“Podemos induzir os homens a serem maus, mas não podemos forçá-los a serem bons.”


“Não existe ato de fé mais belo do que a generosidade dos pobres.”


“Algumas vezes o leão precisa rugir, só para mostrar ao cavalo que ele deve sentir medo.” (ditado persa)


“Um político é alguém que promete uma ponte até onde não existe rio.”


“Talvez eu não possa odiar o amor, mas com certeza posso ficar cheia dele. Amar alguém é uma arrogância enorme e o pior é que existe muito disso por aí. Existe muito amor no mundo. Algumas vezes chego a pensar que o paraíso é um lugar onde todos são felizes porque ninguém ama ninguém, nunca.”


“O que você tem a dizer sobre o sofrimento?”
“Sei que o sofrimento é a verdade. Sei que o sofrimento é a ponta afiada de um chicote e o não sofrimento é o lado do cabo – o cabo que o patrão segura nas mãos.”


“A dor e o sofrimento estão ligados, mas não são a mesma coisa. A dor pode existir sem o sofrimento, sendo também possível sofrer sem sentir dor. A diferença entre eles é, eu acho, o que aprendemos com a dor – por exemplo, que o fogo queima e é perigoso – é sempre individual, somente para nós mesmos, mas o que aprendemos com o sofrimento é o que nos une como raça humana. Se não sofremos com a nossa dor, não teremos aprendido nada sobre nós mesmos. A dor sem sofrimento é como uma vitória sem esforço. Não somos capazes de aprender com ele o que nos faz mais fortes, melhores ou mais próximos de Deus.”


“Quando somos jovens pensamos que o sofrimento é alguma coisa que nos fazem. Quando envelhecemos – quando, de uma maneira ou de outra, as portas de aço se fecham – sabemos que o verdadeiro sofrimento é medido pelo que tiram de nós.”


“Você não se torna um bom homem até que, de forma livre e desimpedida, dê amor a uma criança. E você não se torna um bom homem até que receba, também de forma livre e desimpedida, o amor de uma criança.” (ditado pashto)


“Um rei é um mau inimigo, um amigo ainda pior e uma relação familiar fatal.”


“As pessoas dizem que o dinheiro é a raiz de todo o mal. Acho que é o contrário. O mal é que é a raiz de todo o dinheiro.”


“Karla certa vez me disse que os homens revelam o que pensam quando desviam o olhar e o que sentem quando hesitam. Com as mulheres, disse ela, funciona ao contrário.”


“Se todos nós aprendêssemos o que deveríamos aprender da primeira vez, não haveria necessidade de amor.”


“Jihad”, disse Ahmed, com sorriso sinistro e quase amedrontado.      “Guerra Santa – este é nosso dever sagrado: resistir aos invasores russos e libertar a terra muçulmana”.
“Não dê corda a ele, Lin”, Khaled piscou. “Ahmed é comunista. A próxima coisa que fará será golpeá-lo com Mao e Lênin”.
“Você não se sente um pouco... comprometido?, perguntei, provocando o destino. “Lutando contra o exército socialista?”.
“Que socialistas?”, retorquiu ele furiosamente, apertando os olhos. “Que comunistas? Por favor, não me compreenda mal – os russos fizeram algumas coisas boas no Afeganistão...”
“Ele tem razão”, Khaled o interrompeu. “Eles construíram muitas pontes, todas as principais rodovias, e muitas escolas e faculdades”.
“E represas para gerar água fresca e estações de energia – muitas coisas boas. E eu os apoiei, quando fizeram essas coisas para ajudar o povo. Mas quando eles invadiram o Afeganistão para mudar o país pela força, jogaram fora todos os princípios nos quais deveriam acreditar. Eles não são marxistas verdadeiros, nem leninistas. Os russos são imperialistas e eu luto contra ele em nome de Marx, Lênin, Mao...”
“E Alá”, sorriu Khaled.
“Sim, e Alá”, concordou Ahmed, mostrando seus dentes brancos num sorriso e batendo no banco com a palma da mão.
“Por que eles fizeram isso”, perguntei-lhe.
“O Afeganistão é um prêmio”, começou Khaled. “Lá não existem grandes reservas de petróleo, ouro, ou qualquer coisa que possa interessar as pessoas, mas continua sendo um grande prêmio. Os russos (soviéticos) querem tomar o país porque faz divisa com eles. Tentaram controlá-lo de maneira diplomática, com pacotes de ajuda e programas de assistência. Depois, colocaram seus homens no poder de um governo que não passava de um fantoche. Os americanos odiaram o fato por causa da guerra fria e de toda a merda de manipulação política envolvida, então resolveram desestabilizar o lugar e passaram a dar apoio aos únicos caras que ficaram realmente putos com os fantoches russos – os mestres da lei religiosa muçulmana. Aqueles caras de barba comprida perderam a cabeça com a maneira como os russos estavam mudando o país – permitindo que as mulheres trabalhassem, frequentassem as universidades e se mostrassem em público sem a burca. Quando os americanos lhes ofereceram dinheiro, armas e bombas para atacarem os russos, eles não recusaram. Depois de algum tempo, os russos decidiram parar de fingir e efetivamente invadiram o país. Agora estamos em guerra”.”


“Os afegãos, desde Mazer-i-Sharif até Kandahar sabiam que se os americanos lhes fornecessem mísseis Stinger durante a deflagração da guerra, os mujaheddin venceriam o inimigo em questão de meses. Com Stingers, os odiados e mortalmente eficazes helicópteros russos poderiam ser esmagados nos ares. Até os formidáveis caças Mig eram vulneráveis aos mísseis de mão Stinger. Sem a insuperável vantagem aérea, os russos e os soldados do exército afegão seriam forçados a lutar em terra contra a resistência mujaheddin – uma guerra que nunca ganhariam por terra.
Os mais cínicos entre os afegãos acreditavam que, durante os sete primeiros anos de conflito, os americanos se recusaram a fornecer-lhes Stingers porque eles queriam que a Rússia se tornasse vitoriosa o bastante para tomarem a dianteira do comprometimento. Assim, quando os Stingers finalmente chegasse, todo o Império Soviético poderia entrar em colapso por causa das perdas consideráveis de homens e recursos impostas aos russos.
Independente de os cínicos estarem certos ou não, o jogo mortal desenrolou-se exatamente assim. Quando finalmente foram introduzidos, alguns meses depois de nossa viagem ao Afeganistão, os mísseis Stingers realmente mudaram o curso do conflito. Os russos ficaram tão enfraquecidos pelas guerrilhas de resistência, montadas pelos aldeões afegãos e milhares de pessoas como eles, que seu império monstruoso desfez-se em pedaços. A vitória sobre os russos teve um preço alto; custou um milhão de vida afegãs. Causou a evasão de um terço da população, que abandonou suas terras. Causou um dos maiores fluxos de imigração forçada da história humana – três milhões e meio de refugiados passando pela passagem de Kyber com destino a Peshawar, e mais um milhão de exilados que se dirigiram ao Irã, à Índia e às repúblicas muçulmanas da União Soviética. Teve um custo de cinquenta mil homens, mulheres e crianças com um ou mais membros amputados por causa das explosões de minas terrestres. Custou o coração e a alma do Afeganistão.”


“Khader me explicou como o elaborado ritual de matrimônio afegão já vinha se desenrolando há meses antes da nossa chegada. As visitas de cerimônia entre as famílias do noivo e da noiva já haviam acontecido. Em ambos os casos, pequenos presentes como lenços de mão ou docinhos perfumados foram trocados, e gentilezas específicas observadas. O extravagante dote da noiva – tecidos ricamente bordados, sedas importadas, perfumes e joias –, já de posse da família do noivo, fora publicamente exibido para que todos pudessem admirá-lo. Em segredo, o noivo já havia visitado sua futura esposa, ofertando-lhe presentes pessoais enquanto falava com ela. De acordo com o costume, era estritamente proibido que, durante a visita, ele fosse visto pelos homens da família da noiva, mas a tradição exigia que fosse ajudado pela mãe dela. Khader me assegurara que, enquanto os noivos se falavam pela primeira vez, a mãe zelosa permanecera ao lado da filha. Depois de tudo isso, o casal estava pronto para a culminância do matrimônio propriamente dito, que deveria durar três dias.”


“A história do universo é a história do movimento”, começou Khader, ainda olhando os barcos que se batiam uns contra os outros como cavalos atrelados. “O universo, como o conhecemos nesta, entre suas muitas vidas, começou numa expansão tão rápida e gigantesca que, apesar de podermos falar sobre isto, não existe maneira de verdadeiramente entendermos ou imaginarmos tal coisa. Os cientistas chamam esta grande expansão de Big Bang, mesmo que não tenha havido explosão real no sentido de uma bomba ou coisa do tipo. Os primeiros momentos após esta expansão, nas primeiras frações de segundo, o universo era como uma rica sopa feita de pedacinhos de coisas simples. Estes pedacinhos eram tão simples que ainda nem eram átomos. À medida em que o universo se expandiu e esfriou, esses pedacinhos se uniram para formar as partículas. Depois, as partículas se fundiram para formar os primeiros átomos. E os átomos se juntaram para formar as moléculas. As moléculas, unidas, formaram as primeiras estrelas. Essas estrelas cumpriram seu ciclo de vida e explodiram numa chuva de novos átomos que, uma vez novamente unidos, criaram mais estrelas e planetas. Todos nós somos feitos da matéria dessas estrelas agonizantes. Somos feitos de estrelas, você e eu.
Nenhuma dessas coisas, nenhum desses processos ou movimentos de união podem ser considerados eventos aleatórios. O universo tem natureza própria, algo parecido com a natureza humana, se você preferir, e sua natureza é combinar, construir e se tornar mais complexo. É sempre assim que funciona. Se as circunstâncias forem apropriadas, pedacinhos de matéria sempre se juntam para formar arranjos mais complexos. Essa maneira pela qual o universo trabalha, esse movimento em direção à ordem e às novas combinações dessas coisas ordenadas tem um nome. Na ciência ocidental, é chamada de tendência para a complexidade, ou seja, a maneira pela qual o universo trabalha.
O universo, como o conhecemos e com tudo o que ainda podemos aprender sobre ele, tem se tornado, desde o início, cada vez mais complexo. Isto é parte de sua natureza. A tendência para a complexidade levou o universo e sua simplicidade quase perfeita à complexidade que hoje vemos à nossa volta. O universo faz isto incessantemente. Está sempre se movendo do simples para o complexo. Começou com sua simplicidade quase absoluta e nos últimos quinze bilhões de anos tem se tornado cada vez mais complexo. Dentro de um milhão de anos, ficará ainda mais complexo. Em cinco, dez milhões de anos – mais e mais complexo. Está se movendo a direção a alguma coisa... Está se movendo em direção a uma complexidade final, definitiva. Pode ser que nós não cheguemos lá. Um átomo de hidrogênio pode não chegar lá. Uma folha, um homem, e mesmo o planeta pode não alcançar esta complexidade final. Mas estamos todos indo em direção a ela – tudo no universo caminha para isso.
E a complexidade final, para onde nos dirigimos, é o que eu chamo de Deus. Se você não gosta da palavra Deus, pode substituí-la por Complexidade Final. Seja qual for o nome, todo o universo está indo para lá.”
“Será que o universo não é bem mais aleatório do que isso?” perguntei, percebendo o rumo que tomava a conversa e tentando desviá-lo. “E os grandes asteroides e coisas do tipo? Nós, quer dizer, nosso planeta, podemos ser esmagados pelos fragmentos de um asteroide gigante. Na verdade, existe uma probabilidade estatística de que irão ocorrer impactos maiores. E se nosso sol estiver morrendo – e um dia morrerá – isto não seria o oposto da complexidade? Como isto se encaixa com o movimento de complexidade, se o nosso sol morrer e todo o planeta complexo for reduzido a átomos?”
“Boa pergunta. Pode ser que o nosso planeta seja esmagado, é verdade, e um dia nosso belo sol morrerá. E de acordo com o que conhecemos, somos, na pequena porção de universo que ocupamos, a mais desenvolvida expressão da complexidade. Seria uma grande perda, caso fôssemos aniquilados. Uma perda terrível para o desenvolvimento. Mas o processo, esse continuaria, e nós somos a expressão deste processo. Nossos corpos são filhos de todos os sóis e estrelas que morreram antes de nós, formando os átomos dos quais somos feitos. Se formos destruídos por um asteroide ou por nossas próprias mãos, bem, em algum outro lugar no universo, nosso nível de complexidade, este nível de complexidade, com uma consciência capaz de entender o processo, seria duplicado. Eu não me refiro a pessoas exatamente como nós. O que quero dizer é que seres pensantes, tão complexos quanto nós se desenvolveriam em outro universo. Nós deixaríamos de existir, mas o processo continuaria. Pode ser que, enquanto estamos aqui, isto esteja acontecendo em outros mundos. Na verdade, é bastante provável que esteja acontecendo, por todo o universo, porque é isso o que o universo faz.”
“Tudo bem, tudo bem. E você quer dizer – deixe-me adivinhar – que tudo o que contribua para que isto aconteça é caracterizado como bem, e tudo o que leve à direção contrária caracteriza o mal, na?
“Em essência, você está certo. Qualquer coisa que aumente, promova, ou acelere esse movimento em direção à Complexidade Final é bem. Qualquer coisa que iniba, impeça, ou atrase esse movimento em direção à Complexidade Final, pode ser considerado mal. O mais fantástico sobre essa definição de bem e de mal é que é tanto objetiva quanto universalmente aceita.”
“Como você decide como alguma coisa pode ser definida como bem ou mal?”
“Primeiro você precisa responder a minha pergunta. Por que matar é errado?”
“Bem, eu não acho que seja sempre errado.”
“Bem, devo dizer-lhe que é sempre errado. Em nossa discussão, isto ficará claro, mais cedo ou mais tarde. Por enquanto, vamos nos concentrar no tipo de assassinato que você considera errado e na razão porque considera errado.”
“Bem, é contra a lei tirar a vida de alguém.”
“Contra a lei de quem?”
“A lei da sociedade. A lei da terra”, arrisquei, sentindo que o sentido filosófico me escapava.
“Quem faz essa lei?” perguntou Khader com delicadeza.
“Os políticos. As leis criminais foram herdadas da civilização. As leis contra os assassinatos existem desde – talvez desde os homens das cavernas.”
“E por que matar era considerado errado por eles?”
“Eu diria... que é porque existe apenas uma vida. Cada um de nós tem apenas uma vida, e tirá-la de alguém é uma coisa terrível.”
“Uma tempestade de raios também é uma coisa terrível. E será que isto a torna uma coisa errada ou má?”
“Não, claro que não. Veja, eu não sei porque você precisa saber o que está por trás das leis contra o assassinato. Nós temos apenas uma vida e se você a tirar sem uma boa razão, estará fazendo algo errado”.
“Sim, mas por que é errado?”
“Porque sim”.
“Este é um ponto ao qual todos chegamos”, concluiu Khader, mais sério. Se você perguntar às pessoas por que o assassinato, ou qualquer tipo de crime está errado, elas lhe dirão que é porque contrariam a lei, a Bíblia, o Upanixade, o Alcorão, ou os oito caminhos de Buda, ou seus pais, ou qualquer outra autoridade. Mas não sabem porque está errado. O que elas dizem pode ser verdade, mas  sabem porque é verdade.
Para que possamos saber sobre qualquer ato, intenção ou consequência precisamos, primeiro, fazer duas perguntas. Uma, o que aconteceria se todos cometessem tal ato? Duas, isso ajudaria ou impediria o movimento em direção à complexidade? No caso do assassinato, o que aconteceria se todos matassem as pessoas? Isso ajudaria ou impediria? Diga-me”.
“Obviamente, se todos matassem, nós nos dizimaríamos. Então... isso não ajudaria.”
“Sim. Nós, seres humanos somos o mais complexo arranjo de matérias que conhecemos, mas não somos a última conquista do universo. Nós também vamos nos desenvolver e mudar com o resto do universo. Mas se matarmos indiscriminadamente, não chegaremos lá. Aniquilaremos nossa espécie e todo o desenvolvimento que alcançamos através de milhões de anos – bilhões de anos – será perdido. O mesmo pode ser dito em relação ao roubo. O que aconteceria se todos roubassem? Isso nos ajudaria ou impediria nosso desenvolvimento?”
“Sim, entendo. Se todos roubassem de todos, ficaríamos tão paranoicos e desperdiçaríamos tanto tempo e dinheiro que nos tornaríamos mais lentos, e nunca conseguiríamos...”
“Chegar à complexidade final”, ele completou meu pensamento. “É por isso que não é certo matar e roubar – não porque um livro nos diz que não é certo, ou uma lei, ou guia espiritual, mas porque se todos praticassem tais ações, não avançaríamos, com o resto do universo, em direção à complexidade final que é Deus. O oposto disso também é verdade. Por que o amor é bom? Bem, o que aconteceria se todos amassem a todos? Será que isso nos ajudaria ou atrapalharia?”
“Ajudaria”, concordei, sorrindo de dentro da armadilha que ele armara para mim.
“Sim. Na verdade, esse amor universal aceleraria bastante o movimento em direção a Deus. O amor é bom. A amizade é boa. A lealdade, a liberdade e a honestidade também. Nós sabíamos que essas coisas eram boas antes – sempre soubemos, em nossos corações e todos os grandes ensinamentos sempre nos disseram isto – mas agora, com a definição de bem e de mal, podemos ver porque eles são bons. Do mesmo modo, como podemos ver, porque roubar, mentir e matar constituem o mal.”
“Mas, algumas vezes...”, protestei, “você sabe, e com relação à defesa pessoal? E se tivéssemos que matar para nos proteger?”
“Bem lembrado, Lin. Quero que imagine uma cena para mim. Você está numa sala, de pé em frente a uma escrivaninha. Sua mãe está do outro lado da sala. Um homem perverso segura uma faca na garganta da sua mãe. Ele vai matá-la. Na mesa à sua frente existe um botão. Se você pressioná-lo, o homem morrerá. Se não pressioná-lo, ele matará sua mãe. Essas são as únicas possibilidades. Se você não fizer nada, sua mãe morre. Se apertar o botão ele morre e sua mãe se salva. O que você faria?”
“O cara já virou história”, respondi, sem hesitar.
“Correto”, suspirou ele, talvez desejando que eu tivesse passado por um período maior de indecisão, antes de apertar o botão. “E se você fizesse isso, se salvasse sua mãe do assassino perverso, você estaria agindo certo ou errado?”
“Certo”, respondi, também rapidamente.
“Não, Lin, acho que não”, ele franziu o cenho. “Acabamos de ver que, em termos desta nova e objetiva definição de bem e de mal, matar está sempre errado porque, se alguém fizer isso, seremos impedidos de nos mover em direção a Deus, a complexidade final, com o resto do universo. Então, matar é errado. Mas seus motivos são válidos. Então, a verdade dessa decisão é que você fez a coisa errada pelos motivos certos. Algumas vezes é necessário fazer a coisa errada pelo motivo certo. O mais importante é ter certeza de que os nossos motivos estejam certos e que admitamos estar fazendo a coisa errada – que não tenhamos que mentir para nós mesmos, convencendo-nos de que fazemos a coisa certa”.
(...)
“Posso fazer uma pergunta? Existem coisas no mundo, como as pedras, que não têm vida e coisas vivas como árvores, peixes e pessoas. Sua cosmologia não explica de onde vêm a vida e a consciência. Se as pedras são feitas da mesma matéria que as pessoas, como é possível que elas não tenham vida e as pessoas sim? Afinal, de onde vem a vida?”
“Você conhece o filósofo inglês, Bertrand Russel? Já leu algum dos seus livros? Nem sempre eu concordo com suas conclusões, mas gosto da maneira como chega a elas. Enfim, disse ele, tudo o que pode ser colocado na casca de uma noz deve permanecer ali. E eu concordo com ele. Agora, a resposta para a sua pergunta é: a vida é uma característica de todas as coisas. Cada átomo do universo tem uma característica de vida. Quanto mais complexa a maneira como os átomos se agrupam, mais complexa a expressão da característica devida. A pedra é constituída de um arranjo muito simples de átomos, o que faz com que a vida na pedra seja tão simples que não podemos vê-la. Um gato é um arranjo muito complexo de átomos, o que torna a vida no gato bastante óbvia. Mas existe vida em tudo, mesmo numa pedra e mesmo quando não somos capazes de vê-la”.
“De onde você tirou essa ideia? Do Alcorão?”
“Na verdade, é um conceito que, de um modo ou de outro, aparece em todas as religiões. Fiz algumas pequenas alterações para adaptá-lo ao que temos aprendido sobre o mundo, nos últimos séculos. Mas é o Alcorão sagrado que me dá inspiração para realizar este tipo de estudo porque o Alcorão ordena que devemos estudar e aprender tudo, para melhor servirmos Alá.”
“Mas de onde vem essa característica da vida?, insisti, certo de, pelo menos tê-lo encurralado num beco sem saída reducionista.”
“No início dos tempos, como a conhecemos, a vida e todas as características de todas as coisas do universo, como a consciência, o livre-arbítrio, a tendência rumo à complexidade e até mesmo o amor, foram dados ao universo pela luz”.
“Durante o Big Bang? É isto o que está dizendo?”
“Sim. A expansão do Big Bang aconteceu de um ponto chamado singularidade, que tem densidade e calor quase infinitos e, ainda assim, não ocupam espaço ou tempo, como os conhecemos. O ponto é um caldeirão em ebulição de energia de luz. Alguma coisa fez com que se expandisse – ainda não sabemos o que – e todos os átomos e partículas vieram a existir da luz, assim como do espaço, do tempo e de todas as forças que conhecemos. Assim, no início do universo a luz deu a cada pequena partícula um conjunto de características e à medida que essas partículas se combinam de maneiras mais complexas, as características se mostram também de modo mais complexo.
O que acabei de lhe dizer trata do relacionamento entre a consciência e a matéria. Você sabe muito bem que isto é um tipo de teste. Você deve aplicá-lo em todos os homens que lhe disserem conhecer o sentido da vida. Todos os gurus e professores, todos os profetas e filósofos que encontrar devem responder-lhe estas duas perguntas: Qual é a definição objetiva, universalmente aceita, para o bem e o mal? E, qual é a relação entre a consciência e a matéria? Se eles não tiverem, como eu tive, uma resposta para essas duas perguntas, não terão passado no teste”.
“Como você aprendeu tanto sobre física? Tudo o que sabe sobre partículas, singularidade e Big Bangs?”
“Existe um ditado – quando o aluno está pronto, o professor aparece”.


“Os homens fazem guerra por lucro ou por princípios, mas lutam nelas por terra e por mulheres. Mais cedo ou mais tarde, os outros motivos e razões se afogam em sangue e perdem seu significado. Mais cedo ou mais tarde, a sobrevivência torna-se a única lógica, e a morte a única voz e a única visão. Depois, quando nossos melhores amigos morrem aos gritos, e os homens bons enlouquecem por causa da dor e da fúria perdendo a sanidade em poços de sangue, quando toda a integridade, justiça e beleza do mundo explodem com os braços, pernas e cabeças de irmãos, filhos e pais, então, o que impele um homem a continuar lutando, a morrer, e a continuar morrendo, ano após ano, é a vontade de proteger sua terra e suas mulheres.
Você sabe que isto é verdadeiro quando ouve a conversa deles nas horas que antecedem a batalha. Eles falam de suas casas e das mulheres que amam. E você sabe que é verdade quando os vê morrer. Caso se encontre próximo à terra em seus momentos finais, um homem moribundo estende a mão e pega um punhado de terra. Se possível, ele levantará a cabeça para olhar uma montanha, um vale ou uma planície. Se estiver longe do lar, pensará e falará nele. Falará sobre sua aldeia, sua cidade natal, ou a cidade onde cresceu. No fim, a terra é sempre importante. No momento final, ele não defenderá causa alguma. No momento final, ele murmurará ou gritará o nome de uma irmã, filha, mãe ou amante, mesmo que pronuncie o nome de Deus. O fim derradeiro espelha o início. No final, sobram apenas uma mulher e uma cidade.”


“Eu tinha certeza que, de alguma maneira, teria de existir uma recompensa, pela qual fiquei esperando. Naquele tempo eu não sabia, como sei agora, que o amor é uma via de mão única. O amor, como o respeito, não é algo que se consiga; é algo que se dá.”


“O fim sempre chega adiantado.”


“Não se apresse, Lin”, suspirou Didier, agarrando minha cintura com força. “A melhor vingança, como o melhor sexo, deve ser realizada devagar e com os olhos bem abertos”.


“Lettie uma vez me disse que, ouvir-me descrever criminosos, assassinos e mafiosos como se fossem homens de honra era estranho e incongruente. Sinceramente acho que a confusão era dela, não minha. Ela confundia honra com virtude. A virtude está relacionada com o que fazemos e a honra com a maneira como fazemos. É possível lutar uma guerra de modo honrado – a convenção de Genebra existe exatamente por esta razão – e é possível reforçar a paz sem qualquer tipo de honra. Em sua essência, a honra é a arte de ser humilde. E os gângsteres, como os tiras, políticos, soldados e homens santos, só serão bons no que fazem se puderem manter-se humildes.”


“Simplesmente havia muito dinheiro envolvido. E dinheiro, quando a quantidade é muito grande, acaba sendo como uma grande festa política: causa tanto dano quanto benefício, coloca muito poder em poucas mãos e, quanto mais você se aproxima dele, mais se suja.”


“O destino sempre proporciona duas escolhas: a que você deve escolher e a que acaba escolhendo.”


“O manto do passado é feito de retalhos de sentimentos costurados por meio de associação de ideias, como se fossem fios de rébus. Na maior parte das vezes, tudo que podemos fazer é enrolá-lo no corpo em busca de conforto, ou arrastá-lo atrás de nós enquanto tentamos prosseguir. Mas tudo tem sua causa e seu significado. Cada vida, cada amor, ação, sentimento ou pensamento tem sua razão ou significado: seu início e a parte que desempenha no final. Algumas vezes, nós enxergamos. Algumas vezes enxergamos o passado com clareza e conseguimos entender a lenda de suas partes com tanta precisão que cada ponto do tempo revela seu propósito e um tipo de mensagem intrínseca. Em qualquer vida, bem ou mal vivida, nada é mais sábio que o fracasso, ou mais claro que o sofrimento. E na pequena e preciosa sabedoria que nos proporcionam, até mesmo aqueles inimigos temidos e odiados, o sofrimento e o fracasso, têm sua razão e seu direito de existir.”


“Sorte é o que acontece com você quando o destino se cansa de esperar.”


“É sempre um erro ficar sozinho com alguém que você não deveria amar.”