sábado, 26 de janeiro de 2013

O grande livro dos signos & símbolos: marcas que remontam a história do homem, suas crenças, descobertas e a relação com o universo e seus mistérios (Livro 2) – Mark O’ Connell e Raje Airey

Editora: Escala
ISBN: 978-85-389-0088-7
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 158

O MITO E O COSMOS

     Uma ampla lista tem sido utilizada para descrever as origens do universo. a mitologia da criação geralmente reflete a geografia de uma sociedade, a cultura e as crenças e serve para alinhá-la com a natureza e com as pré-condições da vida. Vários temas típicos estão entrelaçados com as mitologias da criação do mundo. 


O PROCESSO CRIATIVO 

     A criação pode ser descrita como um enorme evento cósmico, um processo dividido em fases, no qual as coisas se tornaram diferenciadas, algumas vezes conduzindo a uma hierarquia natural e, em outras, a um inter-relacionamento sagrado entre os aspectos da natureza. Quer a criação mitológica dos seres humanos tenha coincidido com o evento real da criação ou tenha surgido com o passar do tempo, o homem original e a mulher original sempre serão símbolos centrais da humanidade primitiva.


OS DEUSES CRIADORES 

     A criação é realizada de modo ativo através das ações, sonhos ou reflexões de seres divinos. Os Upanishads, escrituras hindus do século IX a.C, descrevem o Eu Divino ou Ser Supremo que criou o universo através da reflexão do nada e de seu próprio encontro. 
     Este ato de auto consciência levou à primeira palavra: “Isto sou eu”. Na mitologia samoana, o deus supremo Tangaroa criou o mundo do nada, apenas pensando nele. 
     As histórias com mais de 150 mil anos contadas pelos aborígines australianos atribuem a criação aos ancestrais que viviam em um espaço e tempo míticos conhecidos como “Era dos Sonhos”. Viviam igual aos humanos, viajando, caçando, amando, lutando e moldando a paisagem por onde passavam. Os aborígines acreditam que cada ser compartilha uma conexão fundamental com a fonte da criação, refletindo seu profundo respeito pela natureza. 
     O Gênesis descreve Deus realizando a criação. Ele completou sua obra no 6° dia com os seres humanos, que deveriam “dominar” toda a vida existente. A cosmologia judaico-cristã coloca a humanidade num lugar especial abaixo de Deus na hierarquia da natureza.


A CRIAÇÃO A PARTIR DO CAOS OU DO VAZIO 
     O termo grego chaos refere-se à escuridão inicial, o universo sem forma. A partir dessa escuridão, surgiu Eros, uma deidade da fertilidade, mais tarde associada ao amor erótico, mas inicialmente o ímpeto criativo por trás da vida e da natureza. Com Eros veio Gaia, a deusa da terra, e Tartarus o deus do submundo. O Filho de Gaia, Urano, a engravidou dando origem aos Titãs e ao Ciclope e depois aos mares, terra e outras características naturais. 
     Uma vez que os oceanos rodeiam o mundo, em muitos mitos de criação, o universo surge do corpo caótico da água. A criação do mundo egípcio a partir da água se ajusta a uma terra que dependia da inundação periódica do Nilo. A partir de Nu, a água original, uma colina de terra seca emergida, seguida pelo primeiro nascer do sol no novo horizonte e, depois, o restante da criação. 
     Os deuses japoneses Izanagi e Izanami agitaram as águas primitivas com uma lança e as gotas se aglutinaram para formar a ilha de Onokoro. O povo de Arunta, na Austrália Central, fala de um mundo coberto por água salgada que foi gradualmente retirada pelo povo do norte, fazendo aparecer a primeira parte da terra. O mito dos xamãs altaicos, da Ásia Central, conta sobre uma época antes da criação quando não havia terra, somente água, sobre a qual pairava um ganso branco, o deus Kara-han.


A CRIAÇÃO A PARTIR DA SEPARAÇÃO 
     O tema da separação explica as origens da vida. Geralmente isso envolve a divisão de um deus do céu e uma deusa da terra, embora em algumas culturas o masculino esteja associado à terra e o feminino ao céu.
A deusa egípcia do céu, Nut, cujo corpo fica arqueado
sobre a terra, foi separada de Geb, o deus terreno.

     Nos mitos dos Maori e de outros polinésios, o universo originalmente consistia de uma noite ou escuridão eterna. Eventualmente, Rangi, o pai do céu, e Papa, a mãe da terra, se uniram, criando a terra e muitas descendências divinas. Eles viviam na escuridão até que se decidiu separar os pais. Tu Matauenga, o deus da guerra, cortou os tendões, que sangraram a cor sagrada do ocre vermelho juntando seus pais. Porém, foi somente Tane Mahuta, o deus da floresta, que conseguiu separá-los para permitir que a luz e o ar entrassem entre o Céu e a Terra. M um mito egípcio semelhante, a deusa do céu, Nut, e o deus da terra, Geb, foram separados por sua descendência.


CRIAÇÃO ATRAVÉS DO DESMEMBRAMENTO 
     Um tema comum é a criação que surgiu da morte e do desmembramento de um ser primitivo. De acordo com a mitologia nórdica da criação, Odin, Vili e Ve mataram o gigante Ymir, cujo corpo deu origem ao mundo. Sua carne formou a terra; o mar e os rios fluíram de seu sangue, seus ossos se tornaram as montanhas e as árvores cresceram a partir de seus cabelos. O enorme esqueleto de Ymir se tornou os céus. Parecido com o ser primitivo chinês P'an-Ku. Quando morreu, sua respiração se transformou nos ventos, sua voz nos trovões, seu sangue na água e seus músculos na terra fértil. Seu bom humor fez com que o sol brilhasse e sua raiva produziu o trovão e o raio. O épico babilônico Enuma Elish, composto no século XII a.C, fala do deus Marduk que matou e cortou em duas partes o corpo de Tiamat, a deusa do oceano. As duas metades se tornaram o Céu e a Terra. 
     A mitologia da Indonésia conta sobre uma época antes da criação na qual não havia tempo, nem nascimento, nem morte nem sexo. Aconteceu uma enorme dança cósmica durante a qual um único dançarino foi esmagado e seu corpo rasgado em pedaços. O tempo começou com este assassinato e aconteceu a separação dos sexos. Das partes do corpo do dançarino que foram enterradas surgiram as árvores e as plantas. E, assim, a primeira morte simultaneamente produziu o início do tempo, do crescimento e da procriação.


 O PRIMEIRO HOMEM E A PRIMEIRA MULHER 
     A origem da humanidade é simbolizada com as imagens do “primeiro homem” e da “primeira mulher” representando o projeto da humanidade. Porém, com os seres humanos vem a criação das forças de tormento com as quais eles devem lutar.
A ideia dos primeiros seres humanos, um homem e uma
mulher, é comum entre muitas mitologias do mundo.

     Na mitologia sumeriana do 3° milênio a.C, Enki, o deus da sabedoria, amante da diversão, com sua mãe/amante, a deusa terrena Ninhursag, e outras doze deusas, moldaram os primeiros seres humanos com o barro do leito do rio Eufrates. Como criaram pessoas perfeitas, eles fizeram um concurso para criar pessoas para as quais os outros não encontrariam nenhuma tarefa, fazendo surgir a imperfeição humana. 
     Na história bíblica, Adão (cujo nome significa “feito de barro”) é criado a partir do pó da terra por Jeová, o Deus criador, que sopra a vida no homem. Em seguida, ele recebe uma companhia feminina, Eva, que será a mãe de toda a humanidade. 
     Em ambos os mitos os primeiros seres foram criados a partir da substância da terra, mas existem diferenças. Os seres humanos sumerianos foram criados para serem escravos dos deuses, Adão e Eva foram criados por um Deus e a eles foi dado o domínio e sua tarefa era “dominar” a natureza.


O Sol

O sol é um símbolo típico, adorado
como deidade por muitos povos.
     Como nossa única fonte de luz e calor, o sol é crucial para a vida na terra e é um dos símbolos mais importantes em todas as culturas do mundo. Está tipicamente associado com o poder, manifestando-se tanto como uma deidade suprema quanto em imperadores ou reis. Sua energia ativa é usualmente (embora não sempre) considerada como masculina e associada com o conhecimento imediato e intuitivo ou intelecto cósmico. A contraparte do sol nos céus é a lua (geralmente vista como feminina) e o simbolismo solar e lunar é contrastado por quase todas as culturas. O princípio solar está associado com os animais, pássaros e plantas (tais como o leão, a águia e o girassol), com o ouro, e com as cores, como o amarelo, o laranja e o vermelho.


O OLHO DO MUNDO

O Olho de Hórus era um símbolo de realeza e
imortalidade, além de ser um talismã para proteção.
     Em muitas culturas, o sol está ligado a um olho divino que vê todas as coisas. Era o “olho” do deus grego Zeus (e seu equivalente romano, Júpiter), o deus egípcio Hórus, o hindu Varuna, o nórdico Odin e o islâmico Alá. O povo Samoano da região ártica considera o sol e a lua como os dois olhos de Num (os céus), O sol sendo o olho bom e a lua o olho mal. De acordo com o mito do povo Fulani, do oeste da África, quando Gueno (a deidade suprema) havia terminado a obra da criação, ele retirou um de seus olhos e o colocou nos céus, transformando-o no sol. Então, ele se tornou o rei de um só olho, um que era suficiente para ver e o outro que proporcionava luz e calor. Em muitas tradições o sol é poeticamente mencionado como “o olho do dia”.


DEIDADES SOLARES

Apolo, o deus do sol da antiguidade clássica,
conduz sua carruagem solar pelo céu.
     A ligação entre o sol e a divindade é típica e muitas culturas cultuam as deidades solares, incluindo Shamash (Babilônia), Ra (Egito), Mitra (Pérsia) e Apolo (Grécia e Roma). Nas tradições orientais, o sol é o emblema do deus hindu Vishnu e de Buda, a quem alguns escritores chineses se referem como “Buda-Sol” ou “Homem Dourado”. O Alto Sacerdote Judeu usava um disco dourado em seu peito como um símbolo do sol divino e Cristo é, algumas vezes, comparado com o sol espiritual no coração do mundo e é chamado de Sol Justitiae (Sol da Justiça) ou Sol Invictus (Sol Invencível), com os doze discípulos comparados aos raios do sol.
Uma auréola de raios de sol
ao redor de Amaterasu, a
deusa do sol do Japão.
     Embora o sol geralmente seja considerado como masculino, em algumas culturas (africana, nativo americana, maori, aborígine australiana, japonesa e germânica) a deidade solar é feminina, porque o princípio feminino é visto como ativo através de seus poderes revigorantes. A deusa do sol do Japão, Amaterasu, se recolhe em uma caverna em protesto pela negligência de seu irmão, o deus da tempestade, em cumprir suas tarefas e é induzida a sair por outros deuses que fazem muito barulho. Na cosmologia do povo Dogon, de Mali, o sol é descrito como o pote de cerâmica aquecido (um símbolo do útero) rodeado por uma espiral de cobre vermelho, representando sêmen que o tornará fértil.


  PODER TEMPORAL
      Muitas culturas e seus governantes têm reclamado a descendência do sol, incluindo os Incas, os faraós do antigo Egito, os chineses e os japoneses. Dizem que a família imperial japonesa é descendente direta da deusa do sol Amaterasu e o sol nascente (representado por um disco vermelho) não é somente o emblema nacional japonês, mas também o nome do país (Nihon). 
     O sol nascente geralmente é considerado um símbolo de esperança e novos começos em contraste com o sol raiado que significa iluminação. Na China, o sol era um símbolo do imperador que usava um desenho do sol (um círculo contendo um corvo de três pernas) em seus mantos. O simbolismo do sol é um tema comum em toda a realeza. Ele aparece nos tronos do povo Kubu, no sudeste da África, ao passo que o povo Ashanti, do oeste da África, usa um disco dourado para representar a alma do rei. Espelhando-se no deus do sol, Apolo, o rei francês Luís XIV (1638-1715) era conhecido como o “Rei do Sol” e a vida da corte acontecia em torno dele, assim como os planetas ao redor do sol, em seu palácio opulento em Versalhes.


 O NASCER E O PÔR DO SOL
O pôr do sol simboliza a velhice, o
fim e a morte em muitas culturas.

     O desaparecimento do sol em cada noite e seu aparente renascimento na manhã seguinte o torna um potente símbolo da morte, da ressurreição e da imortalidade. Isso forma a base de muitos mitos e rituais sagrados. No antigo Egito, o deus sol Ra fazia uma terrível jornada todas as noites para o submundo, encontrando seu inimigo mortal, a cobra monstro Apophis, antes de sair novamente no leste. Se Apophis alguma vez derrotasse Ra, o sol não nasceria e a terra seria inundada pela escuridão. Na tradição cherokee nativa americana, o sol é feminino e, quando sua filha morre de uma mordida de cobra, o sol cobre o rosto dela de tristeza e o mundo fica escuro. Para consolá-la, o povo dança e canta, quando ela descobre seu rosto e o mundo se torna claro. A Dança do Sol dos Índios das Planícies está ligada a esse simbolismo.


O SOL PRETO
Em muitas tradições, um eclipse solar era visto com
assombro e medo, como símbolo de má sorte.

     Algumas culturas mencionam um sol preto. Os astecas o mostravam sendo carregado nas costas do deus do submundo, enquanto os maias o descreviam como um jaguar. Assim como a antítese do sol do meio-dia no auge do poder criativo que garante a vida, o sol preto está associado à morte e à destruição, prenunciando o desencadeamento do desastre. Os eclipses solares são, portanto, quase universalmente considerados como maus presságios, introduzindo eventos cataclísmicos que encerram um ciclo; por exemplo, no momento da crucificação de Cristo, o sol escureceu. Na alquimia, um sol preto representa uma matéria primitiva, não desenvolvida, que ainda deve ser refinada. Para o psicólogo, é um símbolo de inconsciência elementar.

 SIMBOLISMO PSICOLÓGICO
O leão é um símbolo solar, um sinal de poder e liderança.

     O sol é frequentemente associado com o princípio da autoridade, da qual o pai é a primeira personificação. Está ligado à individualidade, ao desejo, ao ego e à personalidade; no nível mais alto, lutando pela integração psíquica ou iluminação e no nível inferior cedendo à egomania, ao orgulho excessivo e ao autoritarismo.
     O sol também está ligado à energia criativa, à saúde e à vitalidade, influenciando tanto o desenvolvimento físico quanto o psicológico. Como personificação da energia masculina, ele pode ser visto como representação da intenção e pode aparecer em sonhos e mitos como um imperador, um rei, deus ou figura de herói.


HIERARQUIA ANGELICAL

Uma multidão celestial de anjos se preparando
para a batalha. Muitas religiões falam sobre a
batalha entre as forças angelicais do bem
e as forças demoníacas do mal.

     Os teólogos medievais descreveram uma hierarquia celestial de anjos. Na primeira esfera, estão os conselheiros celestiais: serafim, querubim e tronos. Na segunda esfera estão os anjos que trabalham como governadores celestiais: domínios, virtudes e poderes. Na ordem mais baixa dos anjos, mais familiar aos seres humanos, estão os mensageiros celestiais, encontrados na terceira esfera: principados, arcanjos e anjos.
     Os serafins, cujo nome significa “queimar” em hebraico, são anjos que literalmente queimam com a paixão pelo criador, envolvendo Deus com suas asas e nunca revelando Sua presença. Eles continuamente cantam suas orações e regularizam os céus com a música das esferas. Os querubins, cujo nome pode ser derivado de uma palavra assíria que significa “estar próximo”, são os guardiões da luz que brilha dos céus e toca a vida dos seres humanos. Depois da queda, dizem que Deus colocou os querubins a leste do Jardim do Éden, entre o jardim e o reino humano, para proteger a Árvore da Vida com suas espadas flamejantes.
     Chamados nos textos antigos de “senhores da flama” porque eram formados de pura luz ou energia, os arcanjos são os agentes através dos quais o desejo criativo de Deus é executado. Eles trazem orientação carinhosa, proteção e mensagens divinas para a humanidade. Os nomes dos arcanjos são Uriel, Tzadkiel, Khamel, Rafael, Haniel Miguel e Gabriel.


     “Muitas tradições antigas viam o corpo humano como um microcosmo, contendo uma miniatura de todos os estágios da criação. Os chineses consideravam o corpo como yin e yang, um símbolo de perfeito equilíbrio e totalidade. Em algumas tradições, o corpo é considerado um “templo da alma”, que fica entre o Céu e a Terra, auxiliando cada pessoa a perceber seu propósito divino e potencial único. Outras tradições o consideram um inimigo a ser superado, o repositório dos instintos básicos e paixões que ameaçam reduzir a humanidade ao nível do mundo animal.”

 

     “O anel de casamento surgiu nos tempos dos egípcios, quando as noivas ganhavam círculos de cânhamo ou junco. Os anglo-saxões usavam um anel como símbolo de promessa de amor e o anel de ouro de casamento se tornou um símbolo do amor e da unidade. Os egípcios e os romanos acreditavam que a veia no terceiro dedo (vena amoris) estava conectada ao coração, portanto, usar um anel de casamento neste dedo simboliza a ligação dos corações do casal.”

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os sofrimentos do jovem Werther – Johann Wolfgang von Goethe

Editora: L&PM
ISBN: 978-85-2541-044-3
Tradução: Marcelo Backes
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 216
Sinopse: A literatura alemã divide-se em antes e depois de Os sofrimentos do jovem Werther, que chega às livrarias brasileiras nesta nova e brilhante tradução de Marcelo Backes.
Ao escrever Werther, em 1774, Johann Wolfgang Goethe alcançava sua primeira obra de sucesso e, de quebra, dava início à prosa moderna na Alemanha.
Werther não é, simplesmente, um romance em cartas assim como Nova Heloísa de Rousseau ou Pamela de Richardson. Esta que é uma das mais célebres obras de Goethe é o romance de uma alma, uma história interior. Dilacerante, arrebatada é a história de uma paixão literalmente devastadora. Com enorme repercussão quando do seu lançamento, Werther foi um testemunho de como a literatura tinha poder de agir na sociedade. Não foram poucos os suicídios atribuídos ao romance.
Johann Wolfang von Goethe nasceu em Frankfurt em 1749 e morreu em Weimar em 1832. Poeta, romancista, dramaturgo, crítico, estadista, tornou-se um dos maiores vultos do pensamento alemão, tendo influenciado várias gerações. Em 1775, a convite do Duque Carlos Augusto, foi administrador de Weimar, onde destacou-se brilhantemente como financista e estadista. Deixou vasta obra, onde se destacam, entre outras, Werther, Ifigênia, Elegias romanas (poesia), Fausto, Teoria das cores, Viagem à Itália, Poesia e Verdade.

“Que as crianças não sabem o porquê de desejarem algo, todos os pedagogos estão de acordo. Mas que também homens feitos se arrastem como crianças, titubeando sobre a face da terra, e, exatamente como elas, não saibam de onde vêm e para onde vão, até mesmo que não têm um fim determinado para suas ações, igualmente governados por biscoitos, balas e chibatas, ninguém faz gosto em acreditar. Quanto a mim, parece-me que não há realidade mais palpável do que essa.”


“É natural que, quando um acidente ou um terror súbito nos surpreende no meio do divertimento, a impressão causada seja maior do que em qualquer outra ocasião, um pouco por causa do contraste, outro tanto - e esse viés é mais significativo - por estarem todos os nossos sentidos vivamente excitados e suscetíveis a receber tanto mais rápido uma impressão.”


“Não existe nada mais perigoso do que a solidão.”


“De resto, meu caro, dia a dia vejo com mais clareza quão estúpido é o ato de julgar os outros pelas nossas próprias faculdades”


“E se o cálice se afigurou ao Deus dos céus demasiado amargo quando o levou aos seus lábios de homem, irei eu me fazer de forte e fingir que o acho doce?”

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Contraponto – Aldous Huxley

Editora: Globo
ISBN: 978-85-2500-241-9
Tradução: Erico Verissimo e Leonel Vallandro
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 472
Sinopse: Retrato de uma Inglaterra cínica e anárquica, concebido na frívola efervescência dos anos 20, Contraponto é um dos romances mais ambiciosos de Aldous Huxley. Suas personagens – entre as quais aparecem levemente disfarçados, mas prontamente reconhecíveis os escritores ingleses D. H. Lawrence e Katherine Mansfield, além do próprio Huxley – representam uma sociedade em busca de novos rumos mas sem coragem de romper com os valores decadentes que vigoravam antes do término da Primeira Guerra.



“– Não devemos tomar a arte muito ao pé da letra. E especialmente no que diz respeito ao amor.
– Nem mesmo quando é verdadeira? – perguntara ele.
– A poesia pode ser demasiadamente verdadeira. Pura como água destilada. Quando a verdade não é nada senão a verdade, ela é antinatural; uma abstração que com nada se parece do mundo real. Na natureza há sempre tantas coisas estranhas misturadas à verdade essencial! Eis porque a arte nos comove: precisamente porque está depurada de todas as impurezas da vida real. As orgias verdadeiras nunca são tão excitantes como os livros pornográficos. Num volume de Pierre Louys todas as raparigas são jovens e têm formas perfeitas; não há soluços de bebedeira, nem mau hálito, nem fadiga, nem tédio, nem lembranças súbitas de contas a pagar ou de cartas comerciais a responder; nada disso para interromper os arrebatamentos. A arte nos dá a sensação, o pensamento, o sentimento absolutamente puros – isto é: quimicamente puros. E acrescentara, com uma risada: – Não moralmente.”


“Os silenciosos nunca depõem contra si mesmos.”


“‘Devemos ser leais para com nossos instintos’. Não, não para com todos, não para com os maus: era preciso resistir a estes últimos. Mas eles não se deixavam vencer com facilidade.”


“Marjorie gostava da ideia do amor o que não gostava era dos amantes – exceto à distância e em imaginação.”


“– Eu só queria saber o que Walter poderia ter achado nela, se a mulher é tão deplorável como tu a descreves.
– Mas que é que a gente pode achar em outra pessoa? – John Bidlake falava num tom de voz melancólico. – Nestes assuntos, – acrescentou – todos somos igualmente loucos.”


“Quantos mais somos, mais alegres ficamos.”


“– Mas é lógico – falou Rampion – que se produzam revoluções internas não menos que externas. No Estado, são os pobres contra os ricos. No indivíduo, é o corpo e os instintos oprimidos contra o intelecto. O intelecto foi exaltado, como as classes superiores, no domínio do espírito; as classes inferiores no mesmo domínio se revoltam.”


“O relógio bateu uma hora e, como um cuco libertado pela badalada, Simmons apareceu na biblioteca trazendo uma bandeja. Simmons era um homem maduro e tinha aquela dignidade ministerial de postura que a necessidade de refrear a língua e de manter a calma, de nunca dizer o que verdadeiramente se pensa e de guardar as aparências tende sempre a produzir nos diplomatas, nas personagens reais, nos altos funcionários públicos e nos mordomos.”


“A morte de alguém é uma horrível advertência do futuro.”


“– É jovem ainda. – Foi assim que Spandrell comentou a noite. – Jovem e um pouco insípida. As noites são como seres humanos: só começam a interessar depois que ficam adultas. Lá pela meia-noite elas atingem a puberdade. Um pouco depois da 1 hora chegam à maioridade. A sua plenitude está entre duas e duas e meia. Uma hora mais tarde elas vão ficando cada vez mais desesperadas, como essas mulheres devoradoras de homens e esses homens maduros em declínio que andam por aí a saltitar num pé só mais violentamente do que nunca, na esperança de se convencerem a si mesmos de que não são velhos. Depois das quatro horas, as noites entram em plena decomposição. E a sua morte é horrível. Verdadeiramente horrível, ao nascer do sol, quando as garrafas estão vazias, as pessoas têm um aspecto de cadáveres e o desejo se desfaz em desgosto. Tenho um fraco pelas cenas de leito de morte, confesso – ajuntou Spandrell.”


“Custa tanto escrever um mau livro como um bom; sai com a mesma sinceridade da alma do autor. Mas, sendo a alma do mau autor, pelo menos artisticamente, de qualidade inferior, suas sinceridades serão, senão sempre intrinsecamente desinteressantes, pelo menos desinteressantemente exprimidas, e o trabalho dispensado nessa expressão será malbaratado. A natureza é monstruosamente injusta. Não há  substituto para o talento. A indústria e todas as virtudes são de nenhum proveito.”


“Desconfiai de todos os testemunhos, mesmo dos vossos próprios.”


“Quando refletimos sobre os processos de evolução, sobre a paciência e sobre o gênio humanos, sobre a organização social, sobre tudo que se tornou possível para nós o estar aqui, e os foguistas que se expõem a um ataque de apoplexia em nosso beneficio, e as turbinas de vapor que fazem cinco mil revoluções por minuto, e o mar que é azul, e os raios luminosos que não contornam os obstáculos para que haja sombra, e o sol que nos fornece todo o tempo e energia para viver e pensar – quando pensamos em tudo isso e num milhão de outras coisas, chegamos à conclusão de que nada pode ser mais estranho e que nenhuma descrição, por mais singular que seja, poder fazer justiça aos fatos.”


“– Vocês, jornalistas, são todos os mesmos. Nada de solavancos. A segurança antes de tudo. Literatura sem dor. Nada de preconceitos extraídos a frio ou de ideias pregadas a martelo: é preciso um anestésico. Os leitores devem ser mantidos permanentemente num estado de sono crepuscular. Vocês todos são um caso perdido.”


“– Sabes lá se por acaso a terra não é o inferno de algum outro planeta?”


“– Mas isso é tão tolo, todas estas disputas políticas – disse Rampion, com a voz esganiçada pela exasperação, – tão supinamente tolo! Bolcheviques e fascistas, radicais e conservadores, comunistas e Ingleses Livres – por que diabos estão se batendo eles? Eu lhes digo. Estão lutando para decidir se nós vamos para o inferno pelo trem expresso comunista, ou pelo auto de corrida dos capitalistas, ou pelo ônibus dos individualistas ou pelo bonde coletivista que rola sobre os trilhos do controle do Estado. O destino é o mesmo em qualquer dos casos. Todos eles vão direito ao inferno, precipitam-se todos no mesmo impasse psicológico e no colapso social que resulta do colapso psicológico. O único ponto em que eles diferem é neste: “Como chegarmos até lá?”. É simplesmente impossível a um homem de bom senso interessar-se por semelhantes disputas. Para o homem sensato a coisa importante é o inferno, e não o meio de transporte que deve ser empregado para chegar até lá. A questão que se depara ao homem sensato é: “Queremos ou não queremos ir para o inferno?”. E a resposta é: “Não, não queremos.” E se a resposta é esta, então esse homem não dará ouvidos a políticos de espécie alguma. Porque eles, no fim de contas, nos querem levar para o abismo. Todos, sem exceção. Lenine e Mussolini, Mac Donald e Baldwin. Estão todos igualmente ansiosos por nos levarem para o abismo, e discutem apenas a respeito dos meios de nos carregarem...
– Alguns deles nos poderão levar um pouco mais devagar do que os outros – sugeriu Philip.
Rampion deu de ombros.
– Mas tão pouco mais devagar que não faria nenhuma diferença apreciável. Eles acreditam todos no industrialismo sob uma forma ou outra, acreditam todos na americanização. Pense no ideal bolchevista. É a América fortemente exagerada. A América com serviços governamentais em lugar de trustes, e funcionários em lugar de ricos. E depois o ideal do resto da Europa! É a mesma coisa, apenas ali os ricos são conservados. Dum lado, o maquinismo e os funcionários. Do outro, o maquinismo e Alfred Mond ou Henry Ford. O maquinismo para nos levar à perdição; os ricos ou os funcionários, para dirigi-lo. Pensas que algum desses grupos poderá dirigir mais prudentemente do que os outros? Talvez tenhas razão. Mas não vejo nada a escolher entre eles. Estão todos igualmente apressados. Em nome da ciência, do progresso e da felicidade humana! Amém – e pé no acelerador!
Philip fez um sinal de assentimento com a cabeça.
– E aceleram mesmo! – disse. – A coisa marcha. É o progresso. Mas, como dizes, marcha provavelmente na direção do abismo...
– É o único assunto que os reformadores acham para comentar é a forma, a cor e o mecanismo de direção do veículo. Esses imbecis não veem então que é o rumo tomado o que importa, que estamos absolutamente no caminho errado e que seria preciso fazer meia volta, de preferência a pé, sem essa máquina fedorenta?
– Talvez tenhas razão – disse Philip. – Mas o mal é que, dado o nosso mundo tal como existe, não se pode fazer meia volta, não se pode parar a máquina. Não é possível isso, a menos que estejamos dispostos a exterminar mais ou menos a metade da raça humana. O industrialismo permitiu duplicar a população mundial em cem anos. Se quisermos desembaraçar-nos do industrialismo, é preciso voltar ao ponto de partida. Quer isto dizer que é necessário matar a metade do número existente de homens e de mulheres. O que, sub specie ceternitatis, ou simplesmente historice, seria talvez uma excelente coisa. Mas dificilmente seria uma questão de política prática.
– Por enquanto não é – concordou Rampion. – Mas a próxima guerra e a próxima revolução hão de fazer que a questão se torne bastante prática.
– É possível. Mas não devemos contar com as guerras e as revoluções. Porque, se contamos com elas, elas hão de vir na certa.
– Virão, contemos ou não com elas. O progresso industrial significa superprodução, significa a necessidade de conseguir novos mercados, significa a rivalidade internacional, significa a guerra. E o progresso mecânico significa mais especialização e padronização do trabalho, significa divertimentos despersonalizados, feitos para todo mundo, significa uma queda da iniciativa e das faculdades criadoras, significa mais intelectualismo, e uma atrofia progressiva de todos os elementos vitais e fundamentais da natureza humana, significa mais tédio e agitação, significa enfim uma espécie de loucura individual que não pode ter outro resultado senão a revolução social. Contemos ou não com elas, as revoluções e as guerras são inevitáveis, se permitirmos que as coisas continuem o seu curso atual.
– De sorte que o problema se resolverá por si mesmo...
– Mas somente por sua própria destruição. Quando a humanidade for destruída, está claro que não haverá mais problema. Mas isso me parece uma triste solução... Acredito que possa existir outra, mesmo no quadro do sistema atual. Uma solução provisória, enquanto o sistema fosse sendo modificado na direção duma solução permanente. A raiz do mal está na psicologia individual; de maneira que é por aí, pela psicologia individual, que seria preciso começar. O primeiro passo seria fazer que as pessoas vivessem duma maneira dupla, em dois compartimentos. Num dos compartimentos, como trabalhadores industrializados, no outro, como seres humanos. Como idiotas, como máquinas, durante oito horas dentro das vinte e quatro; e como verdadeiros seres humanos o resto do tempo.
– Elas já não fazem isso?
– Está claro que não. Os homens vivem como idiotas, como máquinas, todo o tempo, tanto nas horas de trabalho como nas horas de folga. Corno idiotas e como máquinas, mas imaginando que vivem como seres humanos civilizados, mesmo como deuses. O primeiro passo a dar é fazê-los reconhecer que eles são idiotas e máquinas durante as horas de trabalho. “Sendo a nossa civilização o que é”, eis o que será preciso dizer-lhes, “vocês devem passar oito horas das vinte e quatro como uma espécie de intermediário entre um imbecil e uma máquina de coser. É muito desagradável, eu sei. É humilhante, é repugnante. Mas aí está... Vocês têm de fazer isso; de outra maneira, toda a estrutura do mundo se fará em pedaços e nós morreremos de fome. Eis por que é preciso que vocês façam esse trabalho bestamente e mecanicamente; e que passem as horas de lazer como homens ou como mulheres verdadeiros e completos. Não misturem as duas vidas; mantenham os compartimentos bem estanques entre elas. O que importa acima de tudo é a vida autenticamente humana das horas de folga. O resto não passa de uma necessidade sórdida que é preciso satisfazer. E não esqueçam nunca que ela é efetivamente sórdida e – a não ser por permitir que vocês se alimentem e conservem intata a sociedade – absolutamente sem importância, sem a menor relação com a verdadeira vida humana. Não se deixem enganar pelos patifes cheios de unção que falam da santidade do trabalho e do serviço cristão que os homens de negócios prestam aos seus semelhantes. Tudo isso são mentiras. O trabalho de vocês não passa duma tarefa repugnante e desagradável, mas que infelizmente é necessária por causa da loucura de nossos antepassados. Eles acumularam uma montanha de lixo, e é preciso que vocês fiquem a trabalhar dia e noite com suas pás procurando remover o monturo, de medo que o fedor dele os envenene e mate; é preciso que vocês trabalhem para respirar, maldizendo a memória daqueles insensatos que lhes deixaram todo esse trabalho ignóbil por fazer. Mas não procurem entregar-se-lhe de coração, fingindo que esse sujo trabalho mecânico é uma necessidade nobre. Não é verdade; e o único resultado que vocês obterão dizendo isso e crendo nisso será abaixar a nossa humanidade ao nível dessa necessidade infecta. Se vocês acreditam nos negócios, como no serviço e na santidade do trabalho, vocês se transformarão simplesmente em idiotas mecanizados durante vinte e quatro horas, das vinte e quatro que tem um dia. Reconheçam que é um trabalho infecto, tapem o nariz, dediquem-se a ele durante oito horas e depois concentrem-se em si mesmos para ser, nas horas de folga, entes humanos verdadeiros. Seres humanos verdadeiros e completos. Não leitores de jornais, nem amadores de jazz, nem maníacos da radiofonia. Os industriais que fornecem às massas divertimentos padronizados e fabricados em serie fazem o possível para torná-los, nas horas de lazer, os mesmo imbecis mecânicos que vocês são durante as horas de trabalho. Mas não permitam isso. É preciso fazer o esforço necessário para ser humano.” Aqui está o que se deve dizer as gentes: eis a lição que devemos ensinar aos moços. É necessário convencer toda a gente de que toda essa magnífica civilização industrial não passa dum mau cheiro, e de que a vida verdadeira, a que significa alguma coisa, não pode ser vivida senão fora dela. Será preciso muito, muito tempo para que uma vida decente e o cheiro industrial se possam conciliar. Talvez sejam mesmo inconciliáveis. É o que ainda está para se ver... Seja como for, por ora é necessário atacar as imundícies de rijo, suportar o cheiro estoicamente, e, nos intervalos, tratar de levar uma vida verdadeiramente humana.
– É um bom programa. Mas não te vejo ganhando muitos votos com ele nas próximas eleições.
– Eis a dificuldade. – Rampion franziu a testa. – Teríamos todos contra nós. Porque a única coisa a cujo respeito todos estão de acordo – conservadores, liberais, socialistas, bolcheviques – é a excelência intrínseca do fedor industrial e a necessidade de suprimir, pela padronização e pela especialização, todo traço de virilidade ou de feminilidade na raça humana. E querem que a gente se interesse pela política! Ora, ora...”


“Pode-se perdoar tudo, menos a ausência.”


“Tenho vagamente a ideia de ir a Madri na semana próxima. Lá há de fazer um calor formidável, é claro. Mas adoro o calor. Desabrocho nos fornos. (Talvez aqui esteja uma indicação significativa do que me reserva a imortalidade...).”


“O ódio, como a bebida, é um estimulante.”


“Desde o instante em que permitimos que a verdade especulativa tomasse, como guia da vida, o lugar da verdade instintivamente sentida, condenamos todas as coisas à ruína. (...) Não permitas que o teu conhecimento teórico influencie a tua vida prática. Duma maneira abstrata sabes que a música existe, e que é bela; mas não partas daí para fingir, ao escutar Mozart, que estas num arrebatamento que não sentes. Se procedes assim, transformas-te num desses esnobes musicais idiotas que se encontram na casa de Lady Edward Tantamount. Incapazes de distinguir Bach de Wagner, mas babando-se de êxtase quando os violinos se fazem ouvir. O mesmo se passa exatamente com Deus. O mundo está cheio de esnobes religiosos perfeitamente ridículos. Pessoas que não estão verdadeiramente vivas, que nunca praticaram um ato verdadeiramente vital, que não têm relação viva com coisa alguma; criaturas que não têm o menor conhecimento pessoal ou prático do que é Deus. Mas andam pelas igrejas, rosnam as suas orações, pervertem e destroem a totalidade de sua existência sem brilho, agindo de acordo com a vontade duma abstração arbitrariamente imaginada a que resolveram dar o nome de Deus. Estes são tão grotescos e desprezíveis como os esnobes musicais da casa de Lady Edward. Mas ninguém tem o bom senso de lhes dizer isso. Os esnobes de Deus são admirados porque são tão bons, tão piedosos, tão cristãos... No entanto, não passam de criaturas mortas, simplesmente mortas. Mereciam levar uns bons pontapés no traseiro e uns puxões de orelhas, para se alertarem e voltarem à vida.”


“– Não há razão para te zangares...
– Pelo contrário, não há quase nada que não possa dar motivo à cólera. Se nos contemos é porque a metade do tempo vivemos de olhos fechados, meio adormecidos. Se estivéssemos sempre acordados, meu Deus! Não ficaria muita louça intacta!”