terça-feira, 14 de junho de 2011

Em busca do tempo perdido: No Caminho de Swann, de Marcel Proust

Editora: Ediouro

ISBN: 978-85-0002-553-2

Tradução: Fernando Py

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 331

Sinopse: Em 1907, Marcel Proust começa a escrever sua obra prima: Em Busca do Tempo Perdido, composta por 7 volumes diferentes. O volume No Caminho de Swan foi publicado em 1913, após ter sido recusado por quatro editoras. Em 1918 publica-se À Sombra das Moças em Flor, romance que obteve o Prêmio Goncourt de 1919 – única láurea conseguida pelo autor em vida. Nos anos seguintes são publicados os demais títulos: O Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra e A Prisioneira. O volume A Fugitiva foi publicado em 1925 com o título de Albertina Desaparecida e O Tempo Recuperado foi dado ao público em 1927.

Nos sete romances que compõem o ciclo de Em Busca do Tempo Perdido o autor perpassa não somente a vida exterior, episódica e histórica de personagens e da própria França, com alguns ecos de fatos ocorridos na Europa e no mundo inteiro, mas, acima de tudo, a vida interior, as sensações, paixões, sentimentos e emoções do narrador e demais personagens, todos envoltos numa atmosfera de análises psicológicas minuciosas e implacáveis.

Embora a realidade do ciclo se baseie na vida de Proust, a sua transposição para o plano ficcional obedece a leis internas da narrativa e, sobretudo, à imaginação criadora do autor, afastando-se muito da realidade factual. Os principais temas do ciclo são o Tempo e a Memória. Proust analisa a passagem do tempo em seus personagens, mostrando como eles apresentam aspectos diversos no decorrer da narrativa, mudam de ideias, de gostos, de sentimentos e, às vezes, até de personalidade.

E é a memória, não a memória comum, mas a memória involuntária, aquela que não depende do esforço consciente de recordar, mas que está adormecida em nós, que nos restitui o passado já remoto, fazendo com que o narrador possa enfim recuperar o Tempo Perdido e realizar a obra literária que tanto almejava construir.

“O hábito! arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, a gente se sente bem feliz ao encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento.”

 

 

“Já adulto pela covardia, eu fazia o que todos fazemos, quando somos grandes, e há diante de nós sofrimentos e injustiças: não queria vê-los.”

 

 

“Acho bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós até o dia, que para muitos não chega jamais, em que ocorre passarmos perto da árvore, ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido o encanto se quebra. Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco.

O mesmo se dá com o nosso passado. É trabalho baldado procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência serão inúteis. Está escondido, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria), que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende apenas do acaso que o reencontremos antes de morrer, ou que o não encontremos jamais.”

 

 

“– Mas estou fazendo você perder seu tempo, minha filha.

– Ora, não, senhora Octave. Meu tempo não é assim tão caro. Quem fez o tempo não o vendeu para a gente.”

 

 

“– Adoro os artistas – respondeu a dama cor-de-rosa –, só eles é que compreendem as mulheres...”

 

 

“Depois desta crença central que, durante a leitura, executava movimentos incessantes de dentro para fora, no sentido da descoberta da verdade, vinham as emoções que me dava a ação na qual tomava parte, pois as tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que, muitas vezes, uma vida inteira. Eram os acontecimentos que ocorriam no livro que estava lendo; é verdade que as personagens a quem interessavam não eram “reais”, como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que nos fazem experimentar a alegria ou a desgraça de uma personagem real só ocorrem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou dessa desgraça; a engenhosidade do primeiro romancista consistiu em compreender que, no aparelho das nossas emoções, sendo a imagem o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele, em grande parte só o percebemos através dos sentidos, isto é, permanece opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não consegue erguer. Se uma desgraça o atinge, esta só poderá nos comover numa pequena parte da noção global que temos dele, e ainda mais, só numa pequena parte da noção total que tem de si mesmo é que sua própria desgraça poderá comovê-lo. O achado do romancista foi ter tido a ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade idêntica de partes materiais, isto é, que nossa alma pode assimilar. Desde então, que importa que as ações, as emoções desses seres de um novo tipo nos pareçam verdadeiras, visto que fizemo-las nossas, que é dentro de nós que se produzem, que mantêm sob seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar. E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados exclusivamente interiores, toda emoção é duplicada, e onde seu livro vai perturbar-nos, à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos ao dormir, e cuja lembrança vai durar mais, então, eis que ele deflagra em nós, durante uma hora, todas as fortunas e todas as desgraças possíveis, algumas das quais iríamos levar a vida inteira para conhecer, ao passo que outras, as mais intensas, jamais nos seriam reveladas porque a lentidão com que se produzem impede que as percebamos. (Assim vai mudando o nosso coração, durante a vida, e esta é a pior das dores; porém só a conhecemos através da leitura, pela imaginação: na realidade o coração se transforma da mesma maneira como se produzem certos fenômenos da natureza, tão vagarosamente que, embora possamos verificar de modo sucessivo seus estados diferentes, em compensação nos foge a própria sensação da mudança.)”

 

 

“Até as mulheres que pretendem avaliar um homem só pelo físico, veem neste físico a emanação de uma vida especial. É por isso que amam os militares, os bombeiros; o uniforme as faz menos exigentes para o rosto; julgam beijar, por baixo da couraça, um coração diferente, aventuroso e suave; e um jovem soberano, um príncipe herdeiro, para efetuar as conquistas mais lisonjeiras nos países estranhos que visita, não precisa ter o perfil regular que talvez fosse indispensável a um corretor da Bolsa.”

 

 

“Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças, não as fizeram nascer, não as destroem; podem infligir-lhes os desmentidos mais constantes sem enfraquecê-las, e um aluvião de desgraças ou de doenças, sucedendo-se ininterruptamente numa família, não a fará duvidar da generosidade de seu Deus ou do talento de seu médico.”

 

 

“A indiferença pelos sofrimentos que causamos e que, mesmo com os mais diversos nomes que se lhe deem, é a forma terrível e constante da crueldade.”

 

 

“De todas as formas de produção do amor, de todos os agentes de disseminação do mal sagrado, um dos mais efetivos é esse turbilhão agitado que por vezes passa por nós. Então, o ser com quem nos divertimos nesse instante – a sorte está lançada – há de ficar sendo a pessoa amada. Nem há necessidade que até aquele momento nos tenha agradado mais que as outras. Precisava era que o nosso gosto por ela se tornasse exclusivo. E semelhante condição se realiza quando – no momento em que ela nos fez falta – a busca de prazeres que sua convivência nos trazia é de repente substituída em nós por uma necessidade angustiosa, que tem por objeto essa mesma pessoa, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam de satisfação impossível e de difícil cura: a precisão insensata e dolorosa de possuí-lo.”

 

 

“– Sim, a poesia... Não tenho dúvidas de que não haveria nada mais belo se fosse verdadeira, se os poetas pensassem tudo aquilo que dizem. Porém, muitas vezes, não existe ninguém mais interesseiro do que eles. Sei disso, eu tinha uma amiga que se apaixonou por um tipo de poeta. Nos seus versos ele só falava do amor, do céu e das estrelas. Ah, que de nada adiantou a ela! Ele lhe roubou mais de trezentos mil francos.”

 

 

“E que verdade dolorosa assumiam para ele estas linhas do Diário de um Poeta de Alfred de Vigny, que antigamente havia lido com indiferença: “Quando a gente se apaixona por uma mulher, devemos dizer: De que forma ela está cercada? Qual foi a sua vida? Toda a felicidade da vida se apoia nisto”.”

 

 

“Não sabia eu então que o que sentia por ela não dependia nem de seus atos nem de minha vontade?”

terça-feira, 10 de maio de 2011

O clube dos anjos: gula, de Luis Fernando Verissimo

Editora: Objetiva

ISBN: 978-85-7302-988-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 144

Sinopse: Não é todo dia que se quer ouvir uma crocante fuga de Bach mas todos os dias se quer comer. A fome é o único desejo reincidente, pois a visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba – mas a fome continua. Sentar-se à mesa com os amigos, saborear o seu prato preferido e se entregar ao prazer de comer, louca e apaixonadamente. Depois? Depois a morte. Mas isso só parecia acentuar a delícia de sabores irrecusáveis, o paladar em estado de exaltação, a bênção de um destino escolhido.

O Clube dos Anjos, de Luis Fernando Verissimo, é uma insólita e bem-humorada celebração da gula. O livro conta a história de dez homens que se entregaram a esta afinidade animal, a fome em bando – sem temer a morte. Na verdade, a perspectiva de morrer só aumentaria, para eles, o prazer na comida, e o desafio filosófico da gastronomia: a apreciação que exige a destruição do apreciado.

 

“As histórias de mistério são sempre tediosas buscas de um culpado, quando está claro que o culpado é sempre o mesmo. Não é preciso olhar a última página, leitor, o nome está na capa: é o autor.”

 

 

“Ele move-se com discrição e faz poucos gestos. Senta com as costas retas e quase não mexe a cabeça. Eu nunca chego, simplesmente, numa cadeira ou mesa, eu atraco. Um processo difícil, na falta de rebocadores. Naquele dia, derrubei um açucareiro e quase derrubei a mesa e deixei cair o vinho antes de encontrar minha posição na cadeira e chamar a garçonete. Minha namorada, a coitada da Lívia, sempre diz que eu nunca sei de quanto espaço preciso, e que isso vem de uma infância de gordo mimado. Algo a ver com ser um filho único que nunca conheceu limites. A coitada da Lívia é psicóloga e nutricionista, há anos que tenta me salvar. Eu não sou o seu amante, sou a sua causa. Já tive três mulheres e as três queriam o meu dinheiro. A Lívia não quer o meu dinheiro. Quer ser a mulher que me recuperará, o que eu acho muito mais interesseiro e assustador. Talvez por isso eu resista tanto a casar com ela, quando não resisti nada a casar com as outras, mesmo sabendo que não me amavam pela minha barriga.”

 

 

“Éramos tão vorazes, no começo, que qualquer coisa menos que o mundo equivaleria a um coito interrompido.”

 

 

“– O que está escrito no plástico?

– É um ideograma japonês, com várias traduções possíveis. Pode ser “Todo desejo é um desejo de morte” ou “A fome é um cocheiro sem ouvidos” ou “O sábio e o louco usam os mesmos dentes”.

– Tudo isso num ideograma?

– Sabe como são os orientais.”

 

 

“Adoro histórias estranhas. Quanto mais improváveis, mais eu acredito.”

 

 

“Depois telefonei para o João, que também relutou. Talvez fosse, talvez não fosse. Estava pensando em deixar o Clube. A reunião do Natal tinha lhe mostrado que estava na hora de parar. “Senão vou acabar dando um soco no Paulo”. Em vinte e um anos, João só faltara às reuniões do Clube durante o tempo em que desaparecera para fugir de pessoas cujo dinheiro tinha perdido e que queriam matá-lo, no que só mostravam, segundo Samuel, uma chocante incompreensão do espírito capitalista. Samuel instruía os credores a quebrar vários ossos do João, menos os que lhe permitiriam recuperar seu dinheiro, em vez de matá-lo. E chegava a oferecer uma lista dos ossos que João não precisaria para ganhar dinheiro e pagar a todos. Mas fora ele quem mais ajudara o João, inclusive escondendo-o dos credores furiosos em sua casa. De onde nos trazia notícias periódicas do asilado. “Está de ótimo humor. Não consigo convencê-lo a se suicidar”. E completava com uma das suas citações obscuras: “Um dos maiores enganos da humanidade a seu próprio respeito é que existe o remorso”.”

 

 

“Voltei para o grupo no velório. Contei que o André estava bem e perguntei se havia alguma novidade, só para não ficar quieto. Não sei ficar quieto. O João respondeu que o morto pulara do caixão, dera alguns passos de tango em volta da capela e se deitara de novo, mas fora isso nada.”

 

 

“Pedro também aparecia pouco. Vivia enclausurado. Não ia à escola, tinha professores particulares, estava sendo preparado para assumir a direção da empresa da família. Além disso, sua mãe, a dona Nina, tinha a psicose do contágio. Sofria com a ideia do seu Pedrinho tendo contato com as impurezas do mundo, entre as quais nos incluía. Principalmente eu, que não trouxera da infância o apelido de Cascão Falante sem merecimento.”

 

 

“O homem é o único animal que sempre quer mais do que precisa. O homem é o homem porque quer mais.”

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Abilolado mundo novo – Carlos Maltz

Editora: Via Lettera
ISBN: 978-85-7636-095-7
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 240
Sinopse: Sem papas na língua – até por que “o pop não poupa ninguém” – o psicólogo, astrólogo, primeiro baterista e fundador dos Engenheiros do Hawaii, Carlos Maltz, canta a pedra fundamental da Filosofia Pop – o diálogo igual pra igual entre diferentes.
Neste livro manifesto, o filósofo-pop-star encarna o auto-profetizado “mensageiro das almas” que, agindo como um juiz de Vale Tudo, se posiciona entre os lutadores, olha nos olhos, sinaliza o momento do embate e fala em tom ao mesmo tempo grave e tranquilo.



“Porque se não soubermos sentir a dor, também não saberemos sentir prazer. (...) Não tem jeito de estarmos vivos e não sentirmos dor. A dor faz parte da vida. A dor é uma de nossas maiores amigas, e o único jeito de não sentirmos dor, é nos anestesiarmos a ponto de não sentirmos nada... Quem se anestesiar não sente dor, mas, em compensação, também não sente mais nada... Fica confortavelmente anestesiado para tudo... Joga fora o bebê junto com a água do banho ou, se você preferir, joga fora a possibilidade de amar, junto com o medo de sofrer... Não existe vida sem a possibilidade do sofrimento... É aquela história do cara que “vive como se nunca fosse morrer, e morre como se nunca tivesse vivido”.”


“Sem dúvida, como eu vinha dizendo, concordo inteiramente com a frase do Gessinger: “Você que tem ideias tão modernas é o mesmo homem que vivia nas cavernas”. O mundo mudou muito, na superfície, na aparência, mas, no fundo, não somos tão diferentes assim dos nossos antepassados... Em termos emocionais a coisa anda muito devagar... O mundo das emoções num tá nem aí pro nosso avanço tecnológico e talz... Veja a internet: milhões de pessoas procurando alguém... Milhões de pessoas diariamente se conectando para encontrar um pouco de algo que elas sentem muita falta, mas não sabem o que é... Mudamos muito pouco mesmo nas coisas que realmente importam... Vejam esses sites de realidade virtual... Forte-apaches dos meninos e das meninas grandes... Multidões de Barbies e Kens em busca de emoções que não vão encontrar e que vão gerar mais ansiedade, e mais horas navegando no mar da ilusão... A indústria da pornografia on-line é uma das que mais crescem nesse mundo rico de coisa e pobre de alma... Um grande neg-ócio...”.


Fuga
(Carlos Maltz)
Você que está parado aí nessa porta
Tentando esquecer que é você que se importa
Com o que eu vivo 
Ou deixo de viver

Você que já fugiu de sua própria vida
Você me fez sentir a dor de sua ferida
Agora, não pode nem me ver

Quanto mais você foge
Mais perto você fica
Do fogo
Que arde em você

Você que já fez tudo que já tinha feito
Você buscou em mim todos os seus defeitos
Ninguém vive a vida por ninguém

Você já teve a chama acesa em sua mão
Você gelou o sopro da sua paixão
Tenho um pedaço
Do resto do teu coração

Quanto mais você foge
Mais perto você fica
Do fogo
Que arde em você


“Tem um amigo meu, compositor lá do Tocantins, o Juraílde da Cruz que escreveu: “Eu tentei correr de mim, mas pra onde eu ia, eu tava”.”


“A máquina voraz gera produtos e consumo. Quer consumidores. Todos temos que ser consumidores. Essa é nossa identidade nesse admirável mundo novo em que vivemos. Só existimos enquanto consumidores e, se para sermos reais nesse mundo temos que ser consumidores, as pessoas farão qualquer coisa para se enquadrar nisso. Qualquer coisa! A máquina voraz tem uma lógica própria: pessoas que roubam milhões e dão golpes gigantescos são personagens de luxo desse sistema, a menos que deixem rastros escandalosos. Já as pessoas vindas das classes sociais menos favorecidas, que na ânsia e na incompetência de se tornarem consumidores, causarem algum ruído que possa atrapalhar a paz de Muzak dos shopping centers, serão exilados em penitenciárias cada vez mais modernas, superlotadas... Ainda chegaremos a cumprir a profecia de Huxley, criando um outro país, onde os marginalizados e os excluídos vivam em um estado de isolamento que não possam causar ruído, nem contaminar nosso mundo esterelizado. Nossa sociedade está dividida em consumidores e não consumidores, que são eliminados.”


“Bode expiatório é o nome de uma prática judaica antiga. Os Judeus têm o seu tradicional Dia do Perdão, que é um dia em que a pessoa faz uma espécie de avaliação dos erros que cometeu no ano que passou, se limpa desses erros e se compromete a não cometê-los novamente... Antigamente, existia a prática do “bode expiatório”, que era um animal, um bode mesmo, no qual se jogavam todos os pecados... Depois, esse animal era levado ao templo, onde era sacrificado, juntamente com os pecados da galera, que se sentia mais leve para iniciar o ano novo que estava começando.”


Dia novo (pra você)
(Carlos Maltz & Marcos Mesquita)
Pelas ruas da cidade
Procurando encontrar alguém 
Que ainda esteja vivo 
E que se importe se eu estou também 
Pelas ruas da cidade onde eu cresci 
Procurando encontrar alguém que possa me dizer pelo menos: 
“Meu amigo, como vai você?, como tens andado?” 
Vou cruzando com olhares de fachada
Esbarrando em multidões de autistas
Todos eles têm os olhos na estrada
Mas só podem ver a sua própria pista

Pelos prédios da cidade futurista
Eu procuro por alguém que ainda insista
Em manter acesa a chama do seu coração 
Procurando água no deserto da solidão 
Pelas pedras da cidade velha
Onde eu caminhei 
Eu procuro as pegadas
De alguém que eu tanto amei

Eu não quero te perder (me perder)
Nunca mais

Agora, abre os olhos
E vem ver o Sol que já vem nascer 
Amanhecerá um dia novo pra você (amanhã será)
É o que te deseja alguém que te quer bem.


“Henry D. Thoreau escreve em 1854:
Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem em ser enganados pelas aparências, os homens em toda parte estabelecem e confirmam suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias. Crianças, que brincam de viver, discernem com mais clareza que os adultos a verdadeira lei da vida e suas relações, enquanto estas fracassam sem conseguir vivê-la condignamente, embora pensem que a experiência, isto é, o fracasso, os tornou mais sábios.


“Pra que Satanás ia perder tempo com mensagens subliminares, se ela está escancarada em todas as páginas de jornais, estações de televisão, emissoras de rádio? (...) A maioria esmagadora de todos os programas de todas as estações de televisão do mundo, com honrosas exceções... transmitindo mensagens de medo, morte, banalização do sexo, do amor, do corpo humano... Banalização da violência, machismo, sexismo... depravação sexual, como se fosse a coisa mais natural... Drogas, apologia do uso das drogas... O que é isso, meu irmão??? A besta, bestificação do sexo, das amizades, do amor... Tá dominado, véio... Tá tudo dominado... Quero dizer, tudo não. Ainda tem gente que não se rendeu pra besta-coisa... Mas é muuuuito raro, muuuuito raro mesmo! O satanás tá deitando e rolando... É o imperador deste mundo... Dono de quase toda a extensão territorial dos corações humanos, inclusive de muitos que se colocam ingenuamente no lugar de combatê-lo, sem saber com quem estão se metendo... (...) Quer ver a marca da besta? Olhe no espelho. Ela está nos seus olhos, nos meus olhos. Nos nossos olhos esbugalhados e famintos de alma.”


Giselle Beckham diz:
O que é um mito? É tipo uma parada que é mentira.
C. Maltz diz:
Não, não... Isso já é uma utilização deturpada da palavra. As pessoas dizem mito quando querem dizer que algo é inventado, que é falso... Na origem a palavra quer dizer uma coisa totalmente diferente. (...) O mito é uma história original. Ninguém sabe quem escreveu, quando escreveu. O mito sempre existiu e não existe no tempo. (...) O mito está além dos limites da razão, explica sem explicar... Se tentarmos entender racionalmente, não vamos entender nada... Temos que nos deixar levar pelo mito... Temos que tentar ser vividos pela narrativa...”


“O James Hillman, aquele junguiano sobre o qual falei pra vocês, esse cara tem umas sacações interessantes, vejam o que ele diz sobre esse assunto (HILLMANJames. Entre-vistas. S. Paulo: Summus, 1989, p. 171):
Sem dúvida, uma cultura tão maníaca e materialista como a nossa gera comportamentos materialistas, principalmente naqueles que só estiveram sujeitos à destruição da imaginação através do que a cultura chama de educação, à destruição da autonomia através do que ela chama de trabalho e à destruição da atividade através do que ela considera diversão. “Educação”, “trabalho” e “diversão” (enfocando unicamente a matéria) criam um comportamento que servirá para justificar as noções dessa cultura. É um eficiente círculo vicioso. Não me admira que tanta gente tolhida por esse comportamento desde o nascimento esteja, em todos os níveis da sociedade, voltando-se para as drogas. Por que usam drogas? Para quebrar o rigor do ambiente corporativamente programado de “educação”, “trabalho” e “diversão”, em outras palavras, para satisfazer a ânsia que elas têm de uma experiência não material. Usam Ácido Lisérgico para ter visões, Heroína e Maconha para ter a sensação de outros mundos, a Cocaína e o Crack para uma injeção de energia que é sugada pelo sifão do meio ambiente...


“Veja a situação desesperadora em que nos encontramos, e me responda você mesmo... A técnica e a ciência vão até certo ponto... Mas é muito raso. Somos basicamente emoções e água. Não temos objetividade nenhuma... Jung dizia que nós somos todos “míopes” e que o máximo que podemos fazer é nos conhecer a ponto de sabermos qual é o “grau de nossa miopia”, ou seja, para que lado a gente distorce a realidade e o quanto a gente distorce... Só o fato de o cara saber que isso existe, segundo o próprio Jung, já não é pouca coisa... O projeto modernista é bem intencionado, mas é ingênuo demais... Simplório, reducionista... O que mais me impressiona é que, mesmo depois da loucura coletiva do povo alemão, sob a batuta de Adolf Hitler, ainda existam pessoas com esse tipo de ilusão... O povo tem memória curta mesmo... Gosta de ser enganado... Como o velho Freud já bem sabia e dizia: “o povo não aguenta viver sem a ilusão... Exige ser iludido”... Veja no que é que as eleições, por exemplo, se transformaram... “Quem mente mais diz a verdade”, como bem já dizia o Gessinger... E não é só aqui no Brasil, não... Veja o sucesso impressionante que fazem esses livros de autoajuda, prometendo milagres... Sabem qual é o item que mais consome dinheiro no mundo hoje? Em primeiro lugar, guerra. E em segundo, pornografia.”


“Veja a situação do superaquecimento global, por exemplo. Somos uma civilização mimada, mal-acostumada, que consome uma quantidade burral de energia e matéria-prima para manter os seus mimos e maus costumes. Pegue uma pessoa qualquer, um empregado qualquer dos Estados Unidos de hoje... Esse cara não suportaria dois dias vivendo nas condições materiais de um nobre da corte de Luís XIV... Ele não aguentaria... Eu não aguentaria, você não aguentaria. Nós nos rebelaríamos.”


C. Maltz diz:
Saí do rock, mas o rock não saiu de mim. O rock é o grito de agonia de uma civilização que está morrendo. É o grito de morte da civilização-coisa. É raiva, lágrima, suicídio, demolição. Era a única coisa que fazia sentido para mim até encontrar o Jung e a porta que a leitura de seus livros me abriu. Foi como encontrar uma tábua num naufrágio. Saber que tinha outro mundo começando, além daquele agonizante que eu estava podendo enxergar.
el escama diz:
AHHH... Não... Você também acha que o rock está morrendo... Não concordo, cara. Sempre estarão nascendo novos “reis” que irão salvar o rock... Como diz aquela música do Neil Young.
C. Maltz diz:
Acho que o Kurt Cobain foi o último e sua morte é bem sintomática... Ele era um esteta da destruição... Foi fiel à sua arte até o fim... Fez a única coisa que poderia ter feito... Se não quisesse ser apenas mais um picareta que se vendeu pelos confortos e mimos da civilização-coisa. Mais um que começa a sua caminhada jogando pedras no Titanic, e que depois é seduzido pelo canto da sereia materialista. Cobain não se deixou seduzir, não virou dono de grife chique. Era um cara de verdade, era aquilo que ele cantava. Por isso, tantos garotos até hoje usam camiseta com a sua imagem estampada. Mas Cobain é destruição pura, morte. Não há saída para ele e seu canto, a não ser a morte e a autodestruição. Cobain era o que os caras do Heavy Metal fazem de conta que são, mas não têm coragem existencial para ser.
el escama diz:
Hehehe, como assim?
C. Maltz diz:
Todos esses garotinhos com cara de mau e voz de ogro... Roupas pretas, papo satânico. Pobres criancinhas. O sistemão nem se coça. Mal botam a cabecinha pra fora e são devorados pelo moedor de carne. Dopados até a morte, confortavelmente anestesiados até a morte. Esse sim é Heavy Metal, esse sim é metal pesado, Death, Trash, Suicide e o que mais você quiser. E ele se chama: Sistema capitalista pós-industrial. A sociedade do espetáculo, como dizia o Debord, a máquina de moer gente, a civilização-coisa... Coisifica tudo... Liquidaram o “rei” de tanta coisa... Elvis morreu de overdose de coisa... Entupido de coisa... Cara, quer apagar a chama de um roqueiro rebelde? Transforme-o num roqueiro rico... Cheio de coisa... Logo, logo o cara tá cheio de coisa pra cuidar... Escravo da coisa e eleitor de gente como o Bush.
Agente Smith diz:
E você, Maltz? Se ficar rico com esse livro, votaria num político como o Bush também? Hehehehe...
C. Maltz diz:
Eu sou um típico eleitor de Obama... Mas... Se eu ficar rico com esse livro, prepare-se... O FIM está próximo, mesmo...
el escama diz:
Hehehehe...
C. Maltz diz:
E aí... Não vai ter muita coisa pra fazer com a grana... Quando o navio está afundando, tanto faz a marca do salva-vidas que você está usando...
el escama diz:
E o Lennon? Se vendeu também?
C. Maltz diz:
Não! John Lennon era um artista de verdade. Sua vida é arte... Podia ter a mulher que ele quisesse. Casou-se com uma japonesa feia e chata... Quero ver qualé desses garotinhos com cara de mau que encara uma dessas... Querem todos comer a mulher-coisa que estiver na moda. Lennon tentou abrir mão de ser um mito. Ficou 8 anos trancado dentro de casa cuidando do seu filho. Aprendendo a ser gente... Mas quando saiu para a rua, o mito veio cobrar a sua taxa: ele já tinha ido longe demais. Não tinha mais para onde voltar. Era um mito e teve de morrer como um mito. Os heróis não morrem de velhice...”


“Consegui juntar o inútil ao desagradável: ser pobre e narcisista.”


“Apesar dos cristãos, Cristo continua vivo em nossos corações.”


Cavaleiro da triste figura diz:
Ah, pra mim aqueles árabes na guerra estão só a fim de grana.
el escama diz:
Você não se venderia?
Cavaleiro da triste figura diz:
Bom... Eu...
Agente Smith diz:
Por um carro? Tu acha que eu sou o que? Se ainda fosse a Daniela Ciccareli... Hehehe..
Mutante diz:
Todo mundo tem um preço?
Cavaleiro da triste figura diz:
Não tenho a menor dúvida...
C. Maltz diz:
E o homem-bomba? Qual é o preço dele?”


C. Maltz diz:
Estou tentando fazer o que o pensamento coletivo de nossa civilização desistiu de fazer: procurar uma saída...
Mutante diz:
Por que você acha que ele desistiu?
C. Maltz diz:
Porque ele está cansado... desiludido... Existem pessoas pensando em saídas? Sim... Mas... poucas... Se levarmos em conta a proporção de gente que não vê mais saídas... E a maioria das que ainda não desistiu de procurar... procura saídas onde talvez não existam mais saídas. Estão no porão do navio... Lutando para continuar respirando. Sem saber que a água já invadiu os camarotes de luxo do convés... Estão tentando tapar o rombo do casco, com chiclete... Mas não percebem que o furo é mais embaixo... O buraco é muito maior do que eles imaginam... O crack da bolsa e a eleição de Barack Obama são apenas a pontinha do iceberg que nos acertou...
Mutante diz:
E de que tamanho ele é?
C. Maltz diz:
Do tamanho da nossa falta de amor...”


Mutante diz:
Você acha que é possível encontrar uma saída pacífica para o conflito Árabe-Judeu?
C. Maltz diz:
A ÚNICA saída possível para qualquer conflito é a pacífica... Você nunca conseguirá interromper o ódio com ódio... A política do olho-por olhodente-por dente gera uma matança que nunca terá fim. Aqueles caras lá do Oriente Médio estão nessa há milênios... É a mesma guerra estúpida... Jesus já veio ao mundo... (Lá mesmo) trazendo a solução... Mas não foi ouvido ainda... Mesmo os caras que colocam aqueles adesivos escrito 100% Jesus... tão lá com aquele adesivo no vidro de trás.... e uma arma no coração (quando não é no porta luvas)...”
(...)
euzinha diz:
Acho que a Palestina é aqui mesmo...
C. Maltz diz:
É isso... Quando estoura uma guerra sangrenta o Oriente Médio, na África, um atentado violento que destrói milhares de vidas em alguma cidade europeia, ficamos chocados (Ficamos mesmo? Ainda ficamos?). Mas não percebemos que temos uma Palestina aqui dentro do nosso país, das nossas casas... Não percebemos que temos uma palestina ocupada e confinada em um campo de concentração dentro de nós... Todas essas crianças pobres jogadas nas ruas como se fossem lixo... Todas essas crianças ricas jogadas nas creches de luxo enquanto seus papais e mamães não têm tempo para cuidar delas, pois estão muito ocupados acumulando coisas... Crianças de dois anos de idade que passam o dia inteirinho na creche... Nos braços de pessoas que são pagas para amá-las...”


Farinha do Mesmo Saco
(Carlos Maltz)

Até mesmo quem você odeia pode ser muito importante
Alguém que você usa de espelho pra se ver de trás pra diante

Até mesmo quem você não conhece pode ser pessoa de fé
Alguém que não espera que você não seja o que é

Até mesmo quem te sacaneia também tem o seu papel
Te mostrando o quanto ainda falta pra você bater nas portas do céu

Até mesmo a nossa humanidade pode ter alguma salvação
No dia em que todo mundo reconhecer que todo mundo é irmão

Há cento e cinquenta mil anos atrás
No colo da Mãe África
Éramos todos negros
Sem dinheiro e sem pátria
Uns foram pro norte, outros foram pro sul
Esqueceram do vovô macaco
Mas somos todos farinha do mesmo saco
Nós somos todos farinha do mesmo saco

Até mesmo quem você despreza pode ter o seu valor
Pessoa que não se entrega e não foge da vida por medo da dor

Até mesmo um bêbado e drogado pode ser o porta-voz
Daquele ser iluminado que um dia andou aqui entre nós

Até mesmo a santa ignorância também tem sua importância
Fazendo com que a gente cresça pela doença a dor e a inconsciência

Brancospretosjaponesesárabeshindúsmulatasjudeus
Todos feitos à mesma imagem pelo amor do mesmo Deus.
Há cento e cinquenta mil anos atrás...
E nem entre numas de pensar que você está sozinho
Bem do seu lado pode ter alguém precisando do seu carinho...