A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Bíblia Sagrada – Livros Sapienciais: Salmos

Editora: Paulus
ISBN: Bíblia do Peregrino (BPe) – 978-85-349-2005-6 / Bíblia de Jerusalém (BJ) – 978-85-349-4282-9 / Bíblia Pastoral (BPa) 978-85-349-0228-1
Tradução, introdução e notas (BPa): Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin
Tradução (BPe): Ivo Storniolo e José Bortolini
Notas (BPe): Luís Alonso Schökel
Opinião: N/A
Páginas: BPe – 262 / BJ – 161 / BPa – 156


“Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?
Apesar de meus gritos, minha prece não te alcança!
Meus Deus, eu grito de dia, e não me respondes,
de noite, e nunca tenho descanso.
E tu habitas no santuário, onde Israel te louva!

Nossos antepassados confiavam em ti;
confiavam, e tu os salvavas;
gritavam a ti, e ficavam livres,
confiavam em ti, e não se desapontaram.

Quanto a mim, eu sou verme1, e não homem,
riso dos homens e desprezo do povo.
Todos os que me veem zombam de mim,
abrem a boca e balançam a cabeça:
“Ele recorreu a Javé... Pois que Javé o salve!
Que o liberte, se é que o ama de fato!”

És tu quem me tirou do ventre
e me confiou aos peitos da minha mãe.
Fui entregue a ti desde o nascimento,
desde o ventre materno tu és o meu Deus.
Não fiques longe de mim, que a angústia está perto,
e não há ninguém para me socorrer.

Cercam-me touros numerosos,
touros fortes de Basã me rodeiam.
Contra mim escancaram a boca
os leões que dilaceram e rugem.

Estou como água derramada,
e meus ossos todos se desconjuntam.
Meu coração está como cera,
derretendo-se dentro de mim.
Minha força secou como argila,
e minha língua colou-se ao maxilar.
Tu me colocas na poeira da morte.
Cães numerosos me rodeiam,
e um bando de malfeitores me envolve,
como para retalhar minhas mãos e meus pés.
Posso contar todos os meus ossos.
As pessoas me observam e me encaram,
entre si repartem minhas vestes,
e sorteiam a minha túnica.2

Tu, porém, Javé, não fiques longe!
Força minha, vem socorrer-me depressa!
Salva meu pescoço da espada,
e a minha pessoa, das patas do cão!
Arranca-me da goela do leão,
faze-me triunfar dos chifres do búfalo!

Vou contar tua fama aos meus irmãos,
vou louvar-te no meio da assembleia:
“Vocês que temem a Javé, louvem a Javé!
Glorifique-o, descendência toda de Jacó!
Tema-o, descendência toda de Israel!”
Sim, porque ele não desprezou,
não desdenhou a desgraça do pobre,
nem lhe ocultou a sua face:
quando gritou por socorro, ele o escutou.

De ti vem o meu louvor na grande assembleia.
Cumprirei meus votos na presença dos que o temem.
Os pobres comerão e ficarão saciados,
e os que buscam o Senhor o louvarão:
“Que o coração de vocês viva para sempre!”
Todos os confins da terra se lembrarão,
e voltarão para Javé.
Todas as famílias das nações
se prostrarão na presença dele.
Pois a realeza pertence a Javé,
é ele quem governa as nações.
Sim, só diante dele
todos os poderosos da terra se prostrarão,
perante ele se curvarão todos os que descem ao pó.

Javé me fará viver para ele,
minha descendência o servirá,
falará do Senhor para a geração futura,
contará a justiça dele ao povo que vai nascer:
tudo o que o Senhor realizou!
(Sl 22 – BPa / BJ / BPe)
1: “Verme”: não pela condição humana (Jó 25,6) ou pela conjuntura política (Is 41,14), mas por sua situação social. “Desprezado”: como o servo de Is 49,7; 52,14; 53,3. (BPe)
2: Tomam posse até da roupa do condenado. Mantos e vestes podiam fazer parte dos despojos de guerra: Jz 5,30; Js 7,21; 2Rs 7,15.


“Eu te exalto, Javé, porque me livraste,
não deixaste que os inimigos se rissem de mim.
Javé, meu Deus, eu gritei para ti,
e tu me curaste.
Javé, tiraste do túmulo a minha vida,
fizeste-me reviver dentre os que baixam à cova.

Toquem para Javé, fiéis seus,
celebrem sua memória sagrada.1
Sua ira dura um momento,
e seu favor pela vida inteira.
Pela tarde vem o pranto,
e pela manhã, gritos de alegria.
Quanto a mim, eu dizia tranquilo:
“Nada, jamais, me fará tropeçar!”
Javé, o teu favor
me firmara sobre fortes montanhas
mas escondeste a tua face,
e eu fiquei abalado.
Para ti, Javé, eu gritei,
ao meu Deus eu supliquei:
“O que ganhas com minha morte,
com minha descida à cova?
Acaso te louva o pó,
ou proclama tua fidelidade?
Javé, escuta-me, e tem piedade de mim!
Sê meu socorro, Javé!”
Transformaste o meu luto em dança,
e minha roupa de luto em roupa de festa.
Por isso, o meu ser canta para ti,
e jamais se calará.
Javé, meu Deus,
eu te louvarei para sempre.”2
(Sl 30 BPa / BJ)
1: O agradecimento é feito em público, e a comunidade é convidada a participar. A alegria da cura relativiza a doença e faz experimentar o amor de Deus. A “memória sagrada” relembra a libertação do êxodo. (BPa)
2: O salmista conta para a comunidade a sua experiência. Certamente era uma pessoa de posição que, diante da doença, ficou completamente abalada e acabou descobrindo que o sentido da vida é louvar a Deus, proclamando e vivendo o seu projeto, que é liberdade e vida. (BPa)


“Mostra-me o meu fim, Iahweh,
e qual é a medida dos meus dias,
para eu saber quão frágil sou.

Vê: um palmo são os dias que me deste,
minha duração é um nada diante de ti;
todo homem que se levanta é apenas um sopro,
apenas uma sombra o homem que caminha,
apenas sopro as riquezas que amontoa,
e ele não sabe quem vai recolhê-las".
E agora, Senhor, o que posso esperar?
Minha esperança está em ti!
Livra-me de minhas transgressões todas,
não me tornes ultraje do insensato!
Eu me calo, não abro a boca,
pois quem age és tu.
Afasta a tua praga de mim,
eu sucumbo ao ataque de tua mão!
Castigando o erro tu educas o homem
e róis os seus tesouros como a traça.
Os homens todos são apenas um sopro!
(Sl 39,5-12 – BJ)


“Javé meu Deus, de dia eu te peço auxílio,
e de noite eu grito em tua presença.
Que minha prece chegue a ti,
inclina teu ouvido ao meu clamor.
Porque minha alma está cheia de males,
e minha vida está à beira do túmulo.
Sou visto como quem baixa para a cova,
tornei-me homem sem forças,
despedido1 entre os mortos,
como as vítimas que jazem no sepulcro,
das quais já não te lembras,
porque foram arrancadas de tua mão.
Jogaste-me no fundo da cova,
em meio às trevas do abismo.
Tua cólera pesa sobre mim,
derramas sobre mim tuas ondas todas.
Afastaste de mim meus conhecidos,
e me tornaste repugnante para eles:
Trancado, já não posso sair,
e meus olhos se nublam de pesar.
Eu te invoco o dia todo,
estendendo as mãos para ti:
“Farás maravilhas pelos mortos?
As sombras se levantarão para te louvar?
Falarão do teu amor nas sepulturas,
e da tua fidelidade no reino da morte?
Conhecem tuas maravilhas na treva,
e a tua justiça na terra do esquecimento?”
Quanto a mim, Javé, eu grito a ti,
minha prece chega a ti pela manhã.
Javé, por que me rejeitas
e escondes de mim a tua face?
Fui infeliz e moribundo desde a infância,
sofri teus horrores, estou esgotado.
Teus furores passaram sobre mim,
teus terrores me deixaram consumido.
Eles me cercam como água o dia todo,
e todos juntos me envolvem de uma vez.
Tu afastas de mim meus parentes e amigos,
e as trevas são a minha companhia.”
(Sl 88 – BPa / BPe / BJ)
1: Ou “liberto” (grego); no túmulo, o servo está liberto do seu senhor (cf. Jó 3,19). O mesmo acontece com o pobre afligido: ele não tem mais relações com Deus.


Senhor, tu foste o nosso refúgio
de geração em geração.
Antes que os montes nascessem
e a terra e o mundo fossem gerados,
desde sempre e para sempre tu és Deus.
Tu reduzes o homem ao pó, dizendo:
“Voltem, filhos de Adão!”
Mil anos são aos teus olhos
como o dia de ontem, que passou,
uma vigília dentro da noite.
Tu os semeias ano por ano,
como erva que se renova:
de manhã ela germina e brota,
de tarde a cortam, e ela seca.

Sim, tua ira nos consumiu,
e teu furor nos transtornou.
Colocaste nossas faltas à tua frente,
nossos segredos sob a luz da tua face.
Nossos dias passaram sob a tua cólera,
e como suspiro nossos anos se acabaram.1
Setenta anos é o tempo da nossa vida,
oitenta anos, se ela for vigorosa.
E a maior parte deles é fadiga inútil,
pois passam depressa, e nós voamos.
Quem conhece a força da tua ira,
e quem sentiu o peso do teu furor?
Ensina-nos a contar os nossos anos,
para que tenhamos coração sensato!2
Volta-te, Javé! Até quando?
Tem compaixão dos teus servos!
Sacia-nos com o teu amor pela manhã,
e nossa vida será júbilo e alegria.
Alegra-nos, pelos dias em que nos castigaste,
pelos anos em que sofremos desgraças.
Que os teus servos vejam a tua obra,
e os filhos deles o teu esplendor.
Que a bondade do Senhor venha sobre nós
e confirme a obra de nossas mãos.
(Sl 90 – BPa)
1: Do conhecimento da fragilidade humana provém a sabedoria, que é o temor de Deus (Pr 1,7+). (BJ)
2: A vida humana torna-se ainda mais curta por causa do pecado e suas consequências: além de breve, ela se transforma em fadiga inútil. O homem é tão frágil que não pode sequer suportar a força e o peso da ira de Deus, que é castigo pelo pecado. O que fazer? O v. mostra que, diante dessa realidade, só resta pedir que Deus nos dê um coração sábio, para vivermos bem o tempo de que dispomos. (BPa)


“Bendiga a Javé, ó minha alma,
e todo o meu ser ao seu nome santo!
Bendiga a Javé, ó minha alma,
e não esqueça nenhum dos seus benefícios.
Ele perdoa suas culpas todas,
e cura todos os seus males.
Ele redime tua vida da cova,
e te coroa de amor e compaixão.1
Ele sacia seus anos de bens
e sua juventude se renova, como a da águia.

Javé faz justiça
e defende todos os oprimidos.
Revelou seus caminhos a Moisés,
e suas façanhas aos filhos de Israel.
Javé é compaixão e piedade,
lento para a cólera e cheio de amor.2
Ele não vai disputar perpetuamente,
e seu rancor não dura para sempre.
Nunca nos trata conforme os nossos erros,
nem nos devolve segundo as nossas culpas.
Como o céu se ergue por sobre a terra,
seu amor se levanta por aqueles que o temem.
Como o oriente está longe do ocidente,
assim ele afasta de nós as nossas transgressões.
Como um pai é compassivo com seus filhos,
Javé é compassivo com aqueles que o temem:
Porque ele conhece a nossa estrutura,
ele se lembra do pó que somos nós.3

Os dias do homem são como a relva,
ele floresce como a flor do campo.
Roça-lhe um vento, e já não existe,4
e ninguém mais reconhece o seu lugar.5
Mas o amor de Javé existe desde sempre,
e para sempre existirá para aqueles que o temem.6
Sua justiça é para os filhos dos filhos,
para os que observam a sua aliança
e se lembram de cumprir as suas ordens.

Javé pôs no céu o seu trono,
e sua realeza governa o universo.
Bendigam a Javé, anjos seus,
executores poderosos de suas ordens,
obedientes ao som de sua palavra.
Bendigam a Javé, seus exércitos todos,
ministros que cumprem a sua vontade.
Bendigam a Javé, todas as suas obras,
nos lugares todos onde ele governa.
Bendiga a Javé, ó minha alma!”
(Sl 103 – BPa)
1: A experiência fundamental do amor de Deus vem através do perdão, que liberta do mal e refaz a vida. (BPa)
2: O amor de Deus, porém, se expressa através da justiça que defende os que não têm defesa, realizando uma história nova, a partir deles. Estes vv. mostram a dimensão infinita desse amor, que se compara ao de um pai para com seus filhos. Voltado para o homem, esse amor de Deus se realiza na compaixão, que é sofrer junto com os que participam da condição humana. (BPa)
3: Termos de olaria. Ninguém mais que o oleiro conhece o material empregado e o modelo impresso (Gn 65). Nossa fragilidade de cerâmica é nossa maior vantagem, porque nosso oleiro é nosso pai. Ler o desenvolvimento paralelo de Eclo 18,8-14. (BPe)
4: A essa fragilidade da condição humana contrapõem-se o amor e a justiça de Deus para com seus aliados, que se comprometem com o projeto dele. (BPa)
5: O homem de barro tem vida vegetal, de humilde erva e de beleza efêmera e indefesa. Tem um lugar no solo, no mundo; quando parte não volta, e o lugar costumeiro o espera em vão. (BPe)
6: “Temer a Iahweh” torna-se expressão típica da fidelidade à Aliança. Doravante o temor (Ex 20,20+) comporta por sua vez o amor que responde ao amor de Deus (4,37) e obediência absoluta a tudo o que Deus ordena (6,2-5; 10,12-15; cf. Gn 22,12). O conteúdo religioso e moral desse temor vai se purificando sem cessar (Js 24,14; 1Rs 18,3.12; 2Rs 4,1; Pr 1,7+; Is 11,2; Jr 32,39 etc.). (BJ)
O temor de Javé (Dt 8,6) é o conceito básico de todo o livro do Deuteronômio. Insistindo em não esquecer Javé (Dt 8,11.14.19) e lembrar-se de Javé (Dt 8,18), o texto critica a autossuficiência de quem se esquece que Javé é o Senhor da liberdade e da vida e de que é ele quem concede os dons da vida. Quem se esquece disso, acaba transformando a liberdade em poder que gera a opressão, e os bens da vida em posse que, pela exploração e acumulação, gera a riqueza. Temer a Javé é lembrar-se sempre de que o homem não é Deus e nem pode usurpar o lugar de Deus. É estar sempre consciente de que é Javé quem concede a liberdade e os dons da vida a todos, para uma relação livre na partilha e na fraternidade. Esquecê-lo é perverter a consciência (Dt 8,14), tornando-se autossuficiente e absoluto, isto é, fechado em si mesmo. Isso acaba gerando a soberba e o orgulho, que transformam a relação social em ganância pelo poder e cobiça pela posse. (BPa)





“Bendiga a Javé, ó minha alma!1
Javé, meu Deus, como és grande!
Vestido de esplendor e majestade,2
envolto em luz como num manto,3
estendendo os céus como tenda,
construindo sobre as águas tuas altas moradas;
Tomando as nuvens como teu carro,
caminhando sobre as asas do vento.
Tu fazes dos ventos os teus mensageiros,
e das chamas de fogo os teus ministros!

Assentaste a terra sobre suas bases,
inabalável para sempre e eternamente.
Cobriste a terra com o manto do oceano,
e as águas pousaram por cima das montanhas.
Diante da tua ameaça, porém, elas fugiram,
precipitaram-se, ao fragor do teu trovão.
Subiram pelos montes, desceram pelos vales,
para o lugar que tinhas fixado para elas.
Marcaste um limite que elas não podem transpor,
e não voltarão a cobrir a terra.4

Tu fazes brotar fontes de água pelos vales,
e elas correm por entre as montanhas.
Dão de beber a todas as feras do campo,
e os asnos selvagens aí matam a sede.
Junto a elas se abrigam as aves do céu,
desferindo seu canto por entre a folhagem.
De tuas altas moradas regas os montes,
e a terra se sacia com tua obra fecunda.
Tu fazes brotar relva para o rebanho,
e plantas úteis para o homem.
Dos campos ele tira o pão,
e o vinho que alegra seu coração;
o azeite, que dá brilho ao seu rosto,
e o alimento, que lhe dá forças.
As árvores de Javé se saciam,
os cedros do Líbano que ele plantou.
Aí se aninham os pássaros,
no seu topo a cegonha tem sua casa.
As altas montanhas são para as cabras,
e os rochedos um refúgio para as ratazanas.

Tu fizeste a lua para marcar os tempos,
o sol conhece o seu próprio ocaso.
Mandas as trevas e vem a noite,
e nela rondam as feras da selva;
rugem os leõezinhos em busca da presa,
pedindo a Deus o sustento.
Ao nascer do sol se retiram
e se entocam nos seus covis.
O homem sai para sua faina,
para seu trabalho até o entardecer.
Como são numerosas as tuas obras, Javé!
A todas fizeste com sabedoria.
A terra está repleta das tuas criaturas.
Eis o vasto mar, com braços imensos,
onde se movem, inumeráveis,
animais pequenos e grandes.
Aí circulam os navios, e o Leviatã,
que formaste para com ele brincares.

Todos eles esperam de ti
que a seu tempo lhes atires o alimento:
tu o atiras e eles o recolhem,
abres tua mão, e se saciam de bens.
Escondes tua face e eles se apavoram,
retiras deles a respiração, e expiram,
voltando a ser pó.
Envias o teu sopro e eles são criados,
e assim renovas a face da terra.5

Que a glória de Javé seja para sempre;
que ele se alegre com suas obras!
Ele olha a terra e ela estremece,
toca as montanhas e elas fumegam.
Vou cantar para Javé enquanto eu viver,
louvarei o meu Deus enquanto existir.
Que o meu poema lhe seja agradável,
e eu me alegrarei com Javé.

Que os pecadores desapareçam da terra,
e os injustos nunca mais existam.
Bendiga a Javé, ó minha alma! Aleluia!”
(Sl 104 – BPa / BPe)
1: Hino de louvor, cantando a grandeza de Deus, testemunhada no ciclo da natureza. É uma cópia adaptada do hino egípcio ao deus Sol.
2: O Deus criador de Gn está fora da sua criação; o desse salmo está presente nela como soberano. Apresenta-se com vestes régias e construiu para si um palácio nas alturas. Quando sai para percorrer seus domínios, tem uma carruagem de nuvens ou de cavalgaduras aladas de ventos. Envia seus servidores com mensagens e tarefas. Alicerça solidamente a terra. E se uma de suas criaturas, lá embaixo, se rebela ou tenta assaltar outra (o oceano contra a terra), a reprime com um sopro, impõe sua ordem distribuindo regiões e traçando fronteiras. Não há outros deuses em sua corte; não há batalha dramática. (BPe)
3: Como em Gn 1, a primeira criatura mencionada é a luz; mas como é diferente a função! Aqui é um manto que revela a majestade. (BPe)
4: Os hebreus eram fascinados pela misteriosa, branda e segura fronteira entre terra e mar, e os poetas expressaram espanto de formas diversas; um bom exemplo é Jó 38,10s. (BPe)
5: O mistério da vida é visto como o mistério da respiração: sopro de Deus que cria, vivifica e renova. (BPa)


“Iahweh, tu me sondas e conheces:
conheces meu sentar e meu levantar,
de longe penetras o meu pensamento;
examinas meu andar e meu deitar,
meus caminhos todos são familiares a ti.

A palavra ainda não me chegou à língua,
e tu, Iahweh, já a conheces inteira.
Tu me envolves por trás e pela frente,
e sobre mim colocas a tua mão.
É um saber maravilhoso, e me ultrapassa,
é alto demais: não posso atingi-lo!1

Para onde irei, longe do teu sopro?
Para onde fugirei, longe da tua presença?
Se subo aos céus, tu lá estás;
Se me deito no Xeol, aí te encontro.2

Se tomo as asas da alvorada
para habitar nos limites do mar,
mesmo lá é tua mão que me conduz,
e tua mão direita me sustenta.

Se eu digo: “Ao menos as trevas me cubram,
e a luz se transforme em noite ao meu redor”,
mesmo as trevas não são trevas para ti,
tanto a noite como o dia iluminam.

Sim! Pois tu formaste os meus rins,3
tu me teceste no seio materno.
Eu te celebro por tanto prodígio,
e me maravilho com as tuas maravilhas!

Conhecias até o fundo de minha alma:
meus ossos não te foram escondidos
quando eu era modelado, em segredo,
tecido na terra mais profunda.

Teus olhos viam o meu embrião.
No teu livro estão todos inscritos
os meus dias que já estavam calculados
antes mesmo que chegasse o primeiro.

Mas a mim, como são difíceis teus projetos!
Meu Deus , como é grande a soma deles!
Se os conto... são mais numerosos que areia!
E, ao despertar, ainda estou contigo!4  

Ah! Deus, se matasses o ímpio...
Se os assassinos se apartassem de mim!
Eles falam de ti com ironia,
e em vão se rebelam contra ti!

Não odiaria os que te odeiam, Iahweh?
Não detestaria os que se revoltam contra ti?
Eu os odeio com ódio implacável!
Eu os tenho como meus inimigos!

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração!
Prova-me, e conhece minhas preocupações!
Vê se não ando por um caminho fatal
e conduze-me pelo caminho eterno.”
(Sl 139 – BJ / BPa)
1: Examinado por Deus, o salmista descobre que Deus o conhece melhor do que ele próprio. (BPa)
2: Céu e Abismo são dois lugares extremos, nos quais se acha a pura presença invariável de Deus: Am 9,2s. Imagina o Xeol como imenso dormitório onde o homem estende seu leito: Jó 17,13; 21,26. A presença do Senhor no Xeol contradiz as crenças da Mesopotâmia e algumas concepções bíblicas que declaram Yhwh estranho ao mundo dos mortos: ver Eclo 16,18s. (BPe)
Sobre Xeol – cf. também nota 1Sm 22,1-18 em: Livros Históricos.
3: “Rins”: sede de paixões, com frequência unidos a coração. (BPe)
4: É o centro do salmo: Deus conhece e está presente ao homem mais do que este a si próprio. Afinal, Deus é o mistério que está na fonte e no fundo de toda a vida; ele forma, não só o corpo, mas também o interior e até a história pessoal, que ultrapassa a compreensão do próprio homem. E nessa meditação, o acusado adormece, chega a manhã e ele é absolvido. (BPa)

domingo, 6 de agosto de 2017

Bíblia Sagrada – Livros Sapienciais: Jó

Editora: Paulus
ISBN: Bíblia do Peregrino (BPe) – 978-85-349-2005-6 / Bíblia de Jerusalém (BJ) – 978-85-349-4282-9 / Bíblia Pastoral (BPa) 978-85-349-0228-1
Tradução, introdução e notas (BPa): Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin
Tradução (BPe): Ivo Storniolo e José Bortolini
Notas (BPe): Luís Alonso Schökel
Opinião: N/A
Páginas: BPe – 88 / BJ – 60 / BPa – 31
     “Certo dia, os filhos e filhas de Jó comiam e bebiam na casa do irmão mais velho. Um mensageiro chegou à casa de Jó e lhe disse: “Os bois estavam arando e as mulas pastando perto deles. Os sabeus caíram sobre eles, mataram os empregados a fio de espada e levaram o rebanho. Só eu escapei para lhe contar o que aconteceu”.
     Mal acabara de falar, quando chegou outro e disse: “Caiu um raio do céu e queimou e consumiu suas ovelhas e pastores. Só eu escapei para lhe contar o que aconteceu”.
     Mal acabara de falar, quando chegou outro e disse: “Um bando de caldeus, dividido em três grupos, caiu sobre os camelos e os levou embora, depois de matar os empregados a fio de espada. Só eu escapei para lhe contar o que aconteceu”.
     Mal acabara de falar, quando chegou outro e disse: “Seus filhos e filhas estavam comendo e bebendo na casa do irmão mais velho, quando um furacão veio do deserto, atingindo a casa pelos quatro lados, e ela desabou sobre os jovens e os matou. Só eu escapei para lhe contar o que aconteceu”.

     Então Jó se levantou, rasgou a roupa, rapou a cabeça, caiu por terra, e disse: “Nu eu saí do ventre de minha mãe, e nu para ele voltarei. Javé me deu tudo e Javé tudo me tirou. Bendito seja o nome de Javé!”
     E, apesar de tudo, Jó não pecou e não acusou Deus de ter feito alguma coisa injusta.
     Certo dia, os anjos se apresentaram a Javé e, entre eles, foi também Satã. Então Javé perguntou a Satã: “De onde você vem?” Satã respondeu: “Fui dar uma volta pela terra”. Javé lhe disse: “Você reparou no meu servo Jó? Na terra não existe nenhum outro como ele: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e evita o mal. Ele continua firme na sua integridade. E você, a troco de nada, me lançou contra ele para o aniquilar”. Satã respondeu a Javé: “Pele por pele! O homem dá tudo o que tem para manter a vida. Estende, porém, a mão e o atinge na carne e nos ossos. Garanto que ele te amaldiçoará na cara!” Então Javé disse a Satã: “Faça com ele o que você quiser, mas poupe a vida dele”. E Satã saiu da presença de Javé.
     Satã feriu Jó com feridas graves, desde a planta do pé até a cabeça. Então Jó pegou um caco de telha para se coçar, sentado no meio da cinza. Sua mulher lhe disse: “E você ainda continua em sua integridade? Amaldiçoe a Deus e morra de uma vez!” Jó respondeu: “Você está falando como louca! Se aceitamos de Deus os bens, não devemos também aceitar os males?””
(Jó 1,13-2,10 – BPa)
1: A corte celeste, que decide os rumos da história, se reúne no estilo de uma corte oriental. Satã, que significa adversário no tribunal, não é aqui uma personificação do mal, e sim uma espécie de investigador. A grande questão é a seguinte: existe religião gratuita, independente de qualquer interesse? Se o homem perder tudo o que possui, continuará fiel a Deus? (BPa)



     “Então Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento, dizendo:
“Morra o dia em que nasci
e a noite em que se disse:
‘Um menino foi concebido’.1
Que esse dia se transforme em trevas;
que Deus, do alto, não cuide dele
e sobre ele não brilhe a luz.
Que as trevas e as sombras o reclamem para si,
que uma nuvem o cubra
e um eclipse o aterrorize.
Que a escuridão se apodere desse dia,
que ele não se some aos dias do ano
e não entre na conta dos meses.
Que essa noite fique estéril
e fechada aos gritos de alegria.
Que a amaldiçoem os que amaldiçoam o dia,
os que sabem despertar Leviatã.2
Que as estrelas da sua aurora escureçam,
que espere pela luz que não vem,
e não veja as pálpebras da alvorada.
Pois essa noite não fechou as portas do ventre para mim,
e não escondeu da minha vista tanta miséria.
Por que não morri ao sair do ventre de minha mãe,
ou não pereci ao sair de suas entranhas?
Por que um colo me acolheu
e dois peitos me amamentaram?
Agora eu repousaria tranquilo
e dormiria em paz,
junto com os reis e governantes da terra,
que construíram túmulos suntuosos para si,
ou com os nobres que possuíram ouro
e encheram de prata seus mausoléus.
Agora eu seria um aborto enterrado,
uma criatura que não chegou a ver a luz.
Lá embaixo acaba o tumulto dos injustos,
e aí repousam os que estão esgotados.
Com eles descansam os prisioneiros,
e não ouvem mais a voz do capataz.
Lá embaixo3 os pequenos se confundem com os grandes,
e o escravo fica liberto do seu patrão.
Para que dar luz a um infeliz,
e vida para quem a amargura aflige?
Para que dar luz a quem anseia pela morte que não chega,
e que a procura mais do que a um tesouro?
Para que dar luz a quem se alegraria diante de um túmulo
e exultaria ao encontrar a sepultura?
Para que dar luz a um homem que não encontra caminho,
porque Deus o cercou de todos os lados?
Os soluços são meu alimento,
e meus gemidos transbordam como água.
O que eu mais temia aconteceu para mim,
e o que mais me apavorava me atingiu.
Para mim, nem tranquilidade, nem paz,
nem repouso: nada além de tormento!”

Elifaz de Temã tomou a palavra e disse:
“Não sei se você aguentaria se alguém falasse com você.
Contudo, quem poderia permanecer calado?
Veja! Você instruiu pessoas
e fortaleceu braços enfraquecidos.
Com suas palavras, você levantou quem vacilava,
e sustentou joelhos que se dobravam.
Pois bem! Hoje é a sua vez. Você não aguenta?
Você se perturba hoje, quando tudo desaba sobre você?
O temor de Deus não era a sua confiança,
e a sua esperança não era um comportamento íntegro?
Lembre-se bem: quando é que um inocente pereceu,
Onde já se viu que justos fossem exterminados?
Pelo que eu sei, os que cultivam injustiça
e semeiam miséria, são esses que as colhem.
Deus sopra, e eles perecem;
o sopro de sua ira os consome.
Embora o leão ruja e o leopardo também,
os dentes dos filhotes são quebrados:
morre o leão por falta de presa,
e as crias da leoa se dispersam.
Escutei uma palavra fugidia,
meu ouvido apenas captou seu  murmúrio:
numa visão noturna de pesadelo,
quando o torpor cai sobre os homens,
apoderou-se de mim um terror,
e todos os meus ossos estremeceram.
Um vento passou pelo meu rosto
e me provocou arrepios por todo o corpo.
Eu estava em pé, mas não vi quem era.
Uma figura apareceu diante de mim,
houve um silêncio, e depois ouvi uma voz:
‘Pode o homem ter razão diante de Deus?
Ou pode um mortal ser puro diante do seu Criador?
Ele desconfia até de seus servos,
e mesmo em seus anjos descobre defeitos.4
Quanto mais nesses que moram em casas de barro
e que têm alicerces sobre a poeira!
Serão esmagados mais depressa do que a traça,
aniquilados entre o amanhecer e a tarde.
Eles perecem para sempre, pois ninguém os trará de volta.
As cordas de sua tenda são arrancadas,
e eles morrem sem ter aprendido a lição’.
(Jó, 3-4)
1: Duas maldições paralelas, a o dia do nascimento e a da noite da concepção. (BJ)
2: Leviatã (ou também o Dragão, a Serpente Fugitiva – cf. 26,13; 40,25+; Is 27,1; 51,9; Am 9,3; Sl 74,14; 104,26) era, na mitologia fenícia, monstro do caos primitivo (cf. 7,12+); a imaginação popular podia sempre recear que despertasse, atraído por uma eficaz maldição contra a ordem existente. O dragão de Ap 12,3, que encarna a resistência do poder do mal a Deus, reveste determinados traços desta serpente caótica. (BJ) / Leviatã é um monstro mitológico que se opõe à ordem do cosmo e que o Deus orientador há de vencer. Jó pretende que Leviatã devore o dia. (BPe)
3: No Xeol. (BJ) – cf. nota na postagem “Livros históricos”.
4: “Servos de Deus” e anjos são idênticos. Se estes seres, que privam com Deus, conservam, todavia, imperfeição radical, quanto mais o homem carnal e imperecível. (BJ)




“Recusar a misericórdia a seu próximo,
é abandonar o temor de Shaddai.1
(Jó 6,14 – BJ)
1: A bondade para com os outros é sinal de religião autêntica. (BJ)


“Pergunta às gerações passadas
presta atenção ao que descobriram teus pais;
Nós somos de ontem, não sabemos nada;
nossos dias são uma sombra sobre a terra.
Eles, porém, te instruirão e falarão contigo,
e em sua experiência encontrarão palavras adequadas.
Acaso brota o papiro fora do pântano,
cresce o junco sem água?
Verde ainda e sem ser arrancado,
seca antes de todas as ervas.
Tal é o destino daqueles que esquecem a Deus,
assim desvanece a esperança do ímpio.
Sua confiança é um fiapo no ar,
uma teia de aranha sua segurança:
se alguém se apoia nela, esta cairá;
quando nela se agarrar, ela não resistirá.”
(Jó 8,8-15 – BJ/BPe)


“Então Jó respondeu:
“Eu sei muito bem que é assim.
Como pode um homem ter razão diante de Deus?
Se alguém quisesse disputar com Deus,
este não lhe responderia uma só vez entre mil.
Qual o sábio ou forte
que se opôs a ele, e saiu ileso?
Ele desloca as montanhas sem que elas percebam
e, na sua ira, as arranca do lugar.
Ele abala os alicerces da terra,
e as colunas dela estremecem.
Ele manda que o sol não se levante,
e esconde as estrelas.
Ele sozinho estende o céu,
e caminha sobre as ondas do mar.
Ele criou a Ursa e o Órion,
as Plêiades e constelações do Sul.
Ele faz prodígios insondáveis
e maravilhas sem conta.

Ele passa junto a mim, e eu não o vejo.
Roça em mim, e eu nem sinto.
Se apanha uma presa, quem a tirará dele?
Quem poderá dizer-lhe: ‘O que estás fazendo?’
Deus não reprime a sua própria ira,
e debaixo dele se curvam as legiões de Raab1.

Muito menos eu lhe poderei responder,
ou escolher argumentos contra ele.
Mesmo que eu tivesse razão, não receberia resposta,
e teria que implorar misericórdia ao meu juiz.
Mesmo que eu o convocasse e ele me respondesse,
não creio que me daria atenção.
Pelo contrário: ele me esmagaria no furacão,
e sem motivo multiplicaria as minhas feridas;
não me deixaria sequer respirar,
e me encheria de amargura.

Recorrer à força? Ele é o mais forte!
Recorrer ao tribunal? Quem o convocará?
Mesmo que eu fosse inocente,
sua boca me condenaria;
mesmo que eu fosse inocente,
ele me declararia culpado.
Será que sou inocente?
Já nem sei mais! Desprezo a vida.
Garanto a vocês que tudo é a mesma coisa:
ele extermina tanto o inocente como o injusto.

Se uma catástrofe semeia morte repentina,
ele zomba da desgraça do inocente.
Ele entrega o país na mão do injusto
e fecha os olhos de seus juízes:
se não for ele, quem é que faz isso?

Meus dias correm mais depressa que um atleta,
e fogem sem ter provado a felicidade;
deslizam como barcas de papiro,
como águia que cai em cima da presa.
Se penso: ‘Vou esquecer o meu sofrimento e ficar de rosto alegre’,
fico com medo de todo tipo de desgraça,
pois eu sei que ele não me absolverá.
E se por acaso sou culpado,
por que me cansar à toa?
Ainda que eu me esfregasse com sabão,
e lavasse minhas mãos com soda,2
tu me atirarias na lama,3
e minhas roupas teriam nojo de mim.
É que Deus não é um homem como eu, para que eu possa dizer-lhe:
‘Vamos comparecer juntos no tribunal’.
Se houvesse entre nós um árbitro,
que pusesse as mãos sobre nós dois!
Ele afastaria de mim a vara de Deus,
para que eu não enlouquecesse com seu terror.
Então eu poderia falar sem medo;
do contrário, não sou dono de mim mesmo.”
(Jó 9 – BPa/BPe)
1: Raab, monstro do Caos, alternando com Leviatã ou Tannin, é a personificação mítica das águas primitivas, o Mar (Tiammat). Para afirmar o domínio criador de Iahweh, a imaginação popular e poética celebrava-o como vencedor ou destruidor de Raab (cf. 7,12+ e 26,12+; Sl 89,11; Is 51,9). Em contexto histórico, Raab personifica o Mar Vermelho e, a seguir, o Egito (cf. Is 30,7; Sl 87,4). (BJ)
2: Só Deus pode apagar o pecado; o pecador não tem poder para isso, mas encontra uma saída apelando para a misericórdia divina, como no Sl 51. Jó, que não tem consciência de haver pecado, partilha desse sentimento de impotência sem poder partilhar desse recurso. (BJ)
3: Jó não quer reconhecer uma culpabilidade de que não está convencido. (BJ)



“Pretendes sondar a profundeza de Deus,
ou abranger a perfeição do Todo-poderoso?
É mais alto que o céu: que poderás fazer?
Mais profundo que o Xeol: que poderás saber?
É mais vasto que a terra
e mais extenso que o mar.
Se ele se apresenta, prende e intima a julgamento,
quem pode impedi-lo?
Ele conhece os homens falsos:
Se vê a maldade, não vai prestar atenção?
É mais fácil um asno selvagem ser domesticado,
do que um idiota criar juízo.
Se dirigires teu coração a Deus
e estenderes as mãos para ele,1
se afastares das tuas mãos a maldade
e não alojares a injustiça em tua tenda,
poderás levantar teu rosto sem mácula,
serás inabalável e nada temerás.
Esquecerás tuas desgraças
ou se lembrará delas como águas passadas.
Tua vida ressurgirá como o meio-dia,
e a escuridão será para você como a aurora.
Terás confiança, porque agora há esperança;
vivias perturbado, deitar-te-ás tranquilo.
Repousarás sem sobressaltos
e muitos procurarão os seus favores.
Mas os olhos dos perversos ficam cegos,
Não encontram escapatória,
sua esperança é um alento que se extingue.”
(Jó 11,7-20 – BJ/BPe/BPa)
1: Era o gesto da oração de súplica (cf. Ex 9,29.33; 1Rs 8,38; Is 1,15). (BJ)


“Você (Jó) se dilacera com sua própria raiva.
Será que a terra vai ficar desabitada por sua causa?
Ou será que as rochas vão mudar de lugar?
A luz do injusto se apagará,
e o fogo do seu lar não brilhará mais.
A luz de sua tenda se escurecerá,
e a lâmpada que está sobre ele se apagará.
Os seus passos vigorosos ficarão curtos,
e os seus próprios projetos o derrubarão.
Com seus próprios pés ele cai numa rede
e caminha sobre uma armadilha.
Um laço o prende pelo calcanhar, e o segura firme.
A corda está escondida no chão,
e a armadilha no seu caminho.
Os terrores o rodeiam e amedrontam,
perseguindo-o em cada passo.
A sua prosperidade se transformará em carestia,
e a desgraça estará de pé a seu lado.
A doença devora sua pele,
e a peste1 rói seus membros.
Será arrancado de sua tenda na qual confiava
e será arrastado à presença do rei dos terrores.2 e 3
Já se pode habitar na tenda que não pertence mais a ele, espalhando-se enxofre na sua moradia.
Em baixo, suas raízes secarão e,
no alto, seus ramos serão cortados.
Sua lembrança desaparecerá da terra,
e seu nome será esquecido na vizinhança.
Será expulso da luz para as trevas,
e exilado para fora do mundo.
Não terá família nem filhos entre seu povo,
e não deixará sobrevivente em seu território.
O ocidente se espantará com o destino dele,
e o oriente ficará horrorizado.
Esse é o destino do injusto,
a situação de quem não reconhece a Deus.”
(Jó 18,4-21 – BPa)
1: “O Primogênito da Morte” que, sem dúvida, se refere a mais grave das enfermidades: a peste. (BJ)
2: Personagem da mitologia grega e oriental (Nergal, Plutão etc.) que parece imperar aqui a espíritos infernais, espécies de Fúrias que se encarniçam contra os criminosos, ainda em vida. (BJ)
3: A morte personificada como Deus. Ver Sl 49,5. (BPe)



“Você não sabe que desde sempre,
desde quando o homem foi posto na terra,
o triunfo dos injustos é passageiro
e a alegria do perverso dura apenas um instante?
Embora sua ambição se eleve até o céu
e toque com sua cabeça as nuvens1,
ele perecerá para sempre como esterco
e os que o viam, agora perguntam: ‘Onde está ele?’
Ele se desfaz como um sonho, e não o encontram;
ele desaparece como visão noturna.
Os olhos que o viam, não o verão mais,
e a sua morada não mais o reconhecerá.
Seus filhos terão que indenizar os pobres;
suas próprias mãos terão de restituir suas riquezas.
Seus membros ainda cheios de juventude
se deitarão com ele no pó.
O mal era doce na sua boca,
e ele o escondia debaixo da língua;
ele o saboreava sem o engolir,
segurando-o no céu da boca.
Pois bem! Esse alimento apodrecerá no seu ventre
e se transformará em veneno de cobra.
Vomitará as riquezas que engoliu,
Deus as faz regurgitar do ventre dele.
Sugará veneno de serpente,
e as presas da víbora o matarão.
Nunca mais verá as fontes de óleo,
nem os rios de leite e mel.
Terá que devolver, sem usar, os frutos do seu trabalho,
e não desfrutará da prosperidade de seus afazeres:
porque explorou e desamparou os pobres,
e se apropriou de casas que não tinha construído.
Porque não soube acalmar sua cobiça,
não salvará nenhum de seus tesouros.
Nada escapava de sua voracidade e,
por isso, sua prosperidade não durará.
Da abundância cairá na miséria,
e os golpes da desgraça cairão sobre ele.
Para lhe encher o ventre,
Deus lhe enviará o incêndio de sua ira,
e sobre ele fará chover suas flechas.2
Caso escape das armas de ferro,
uma flecha de bronze o atravessará;
a ponta da flecha sai brilhando de suas costas,
depois de ter atravessado o fígado,
enchendo-o de pavor.
Todas as trevas serão reservadas para ele,
e um fogo não aceso por homens o devorará,
consumindo tudo o que resta de sua tenda.
O céu revelará a injustiça dele
e contra ele a terra se erguerá.
Um dilúvio arrastará sua casa,
como as cataratas no dia da ira de Deus.
Essa é a parte que Deus reserva para o injusto,
essa é a herança que Deus lhe prepara”.

Então Jó respondeu:
“Escutem com atenção as minhas palavras.
Deem pelo menos esse conforto para mim.
Tenham paciência enquanto falo.3
E quando eu terminar, vocês poderão zombar de mim.
Estou por acaso me queixando de algum homem?
Estou perdendo a paciência sem motivo?
Olhai para mim e empalidecei,
e colocarão a mão na boca.4
Só de pensar nisso, fico desconcertado,
um pavor apodera-se do meu corpo.
Por que os injustos continuam vivos,
e envelhecem cada vez mais ricos?
Sua descendência está segura na companhia deles,
e eles veem os seus filhos crescer.
Suas casas são tranquilas e sem temor;
o bastão de Deus não os atinge.
Seus touros reproduzem sem falhar,
e suas vacas dão cria sem abortar.
Eles deixam suas crianças correr como cabritos,
e seus pequenos saltam alegremente.
Cantam ao som de cítaras e pandeiros,
e se divertem ao som da flauta.
Suas vidas transcorrem docemente,
e eles descem tranquilos à sepultura.
Eles diziam a Deus: ‘Passa longe de nós,
pois não nos interessa conhecer os teus caminhos.
Quem é o Todo-poderoso para que o sirvamos?
O que é que ganhamos rezando a ele?’
Pois bem! Eles têm na mão a felicidade,
e os projetos do injusto estão longe de Deus.
Quantas vezes a lâmpada dos injustos se apaga,
ou a desgraça cai sobre eles,
ou a ira de Deus os castiga com sofrimentos?
Por acaso, eles se tornam como folha seca ao vento,
ou como palha levada pelo furacão?
Dizem que Deus castiga os filhos do injusto!5
Ora, faça que o injusto mesmo pague e aprenda:
que seus próprios olhos vejam a sua ruína,6
e ele mesmo beba a ira do Todo-poderoso.
Pois, o que lhe importa a sua família depois de morto,
quando o tempo de sua vida tiver chegado ao fim?
Pode-se por acaso dar lições a Deus?
Deus governa só no céu.
Uma pessoa chega à morte em pleno vigor,
sempre tranquila e próspera,
Seu sexo cheio de vigor
e com a medula dos ossos cheia de energia.
Outra pessoa morre cheia de amargura,
sem nunca ter provado a felicidade.
E, contudo, se deitam juntas no mesmo pó,
cobrem-se ambas de vermes.
Eu sei muito bem o que vocês estão pensando,
e conheço os maus pensamentos que vocês remoem contra mim.
Eu sei que vocês dizem:
‘Onde está a casa do poderoso,
onde está a moradia dos injustos?’
Por que vocês não fazem perguntas aos viajantes
e não acreditam no que eles dizem?7
O perverso é poupado no dia da catástrofe,
e no dia da ira consegue escapar.
Quem vai reprovar a conduta dele?
Quem vai pedir contas do que ele fez?
Ele será solenemente acompanhado à sepultura,
montarão guarda no seu túmulo,
e a terra será leve para ele.
Todos os homens o acompanham
e uma incontável multidão vai à frente dele.
E vocês me querem consolar com banalidades?
As respostas de vocês são puro engano.”
(Jó 20,4-21,34 – BPa/ BPe / BJ)
1: A Bíblia faz muitas alusões ao titânico prometeico expresso pelo homem nas origens (cf. Gn 11,4; Is 14,13-14; Ez 28,2.17). Esta tradição, de cunho antes mitológico, confere com a tradição de Gn 3 na explicação da queda do homem pelo orgulho. (BJ)
2: As mesmas imagens descrevem o castigo coletivo de Israel ou dos povos. O Deus guerreiro empunha as armas (cf. Dt 32,41; Sb 5,18-20), envia doenças e flagelos diversos, e a terra abalada pela ira divina, associa-se a esta obra de destruição como quando do julgamento escatológico (cf. Is 24,18). (BJ)
3: Quem sofre não está disposto a ouvir aqueles que não partilham e nem sabem compreender a sua dor. Seu conforto é falar e ser ouvido. Na dor do justo que sofre, há uma luta com o próprio Deus que apavora tanto o sofredor como aqueles que o escutam. (BPa)
4: A atitude expressiva do silêncio, quando toda palavra parece vã ou imprudente. (BJ)
5: Opinião antiga e autorizada (Ex 34,7; Dt 5,9), posteriormente corrigida (Dt 24,16; Jr 31,29; Ez 18; cf. Jó 9,1-3). Jó mostra a insuficiência dela: o ímpio não sofrerá e não saberá disso (cf. 14,21-22). (BJ)
6: Outro fato desconcertante: o capricho com que a morte fere. (BJ)
7: Jó, exemplo de probidade e retidão, oferecia abrigo aos viajantes.



“Por que o Todo-poderoso não marca tempos de julgamento,
para que os seus fiéis possam presenciar às suas intervenções?
Os injustos mudam as fronteiras,
roubam rebanhos e os levam a pastar.
Apoderam-se do jumento que pertence ao órfão,
e penhoram o boi que é da viúva.1
Empurram os indigentes para fora do caminho,
e os pobres da terra têm que se esconder.
Como asnos do deserto, saem para trabalhar:
desde a madrugada vão em busca de alimentos,
e até a tarde procuram o pão para seus filhos.
Fazem colheita em campo alheio,
e catam os restos na vinha do injusto.
Passam a noite nus,
sem roupa para se protegerem do frio.2
Ensopados com as chuvas das montanhas,
sem abrigo, eles se apertam entre as rochas.
Os injustos arrancam o órfão do peito materno,
e penhoram a roupa do pobre.
Estes andam nus por falta de roupa,
e famintos carregam feixes.
Espremem azeite no moinho
e, sedentos, pisam a uva nos tanques.
Na cidade os moribundos gemem,
e os feridos pedem socorro.
E Deus não faz caso da súplica deles.
Outros são rebeldes à luz,3
não conhecem os caminhos de Deus,
nem frequentam suas estradas.
De madrugada, o assassino se levanta
para matar o pobre e o indigente.
Durante a noite, o ladrão ronda,
cobrindo o rosto com uma máscara.
O olho do adúltero aguarda o anoitecer,
pensando: ‘Ninguém me verá’.
Na escuridão, eles arrombam as casas,
enquanto de dia se escondem
aqueles que não querem nada com a luz.
O amanhecer é escuro para eles,
pois estão acostumados com o medo das trevas”.
(Jó 24,1-17 – BPa / BJ / BPe)
1: Grave pecado num contexto de propriedade rural: Dt 19,14; 27,17; Pr 22,18; 23,10. Órfão e viúva representam as classes fracas, indefesas: Ex 22,21-23; Dt 24,17; 27,19s; Is 1,17.23. (BPe)
2: A roupa tomada do pobre como penhor deve ser devolvida à noite: Ex 22,25. (BPe)
3: Esta diatribe contra os inimigos da luz; quiçá um poema independente aqui retomado pelo autor, chama a atenção para os opressores, que Deus permite agir na sombra. A luz é a luz física, mas o sentido moral está subjacente (cf. Jo 8,12+). (BJ)


“Agora, porém, zombam de mim
pessoas mais jovens que eu,
cujos pais eu não deixaria entre os cães do meu rebanho.
Para que me serviriam os braços deles,
sem forças como estavam?
Consumidos pela fome e miséria,
eles ruminavam as raízes do deserto,
em sombria e desolada solidão.1
Colhiam ervas amargas entre os arbustos,
alimentando-se com raízes de plantas.
Expulsos da sociedade a gritos,
como se fossem ladrões,
moravam em barrancos escarpados,
em cavernas e grutas do rochedo,
rugindo entre as moitas,
agachados debaixo dos espinheiros.
Gente vil, homens sem nome,
expulsos do país!
Pois bem! Agora eu me tornei alvo de suas zombarias
e tema de suas piadas!
Eles me desprezam e se afastam,
e até se atrevem a me cuspir no rosto.
Deus soltou a corda do meu arco e humilhou-me2
e eles se desenfreiam contra mim.
À minha direita, os canalhas se levantam,
olham se estou tranquilo
e me preparam o caminho da destruição.
Desfazem a minha trilha,
e trabalham juntos para a minha ruína,
e ninguém os detém.
Irrompem por uma larga brecha
em avalanche, como tempestade.
Os terrores caem sobre mim,
a minha dignidade se dissipa como vento,
e a minha felicidade se desfaz como nuvem.
Agora quero desafogar-me.
apoderam-se de mim dias de aflição.
De noite, um mal penetra nos meus ossos,
pois não dormem as chagas que me corroem.
Deus me agarra com violência pela roupa
e me segura pela gola da túnica,
me atira no meio da lama,
e eu fico misturado com o pó e a cinza.3
Clamo por Ti, e não me respondes.
Eu insisto, e tu não te importas comigo.
Tu te transformaste em meu carrasco,
e me atacas com o teu braço musculoso.
Tu me levantas e me fazes cavalgar o vento,
sacudindo-me no furacão.
Eu sei muito bem que tu me conduzes para a morte,
para o lugar onde todos os seres vivos se encontram.4
Quem não estende os braços quando afunda?
No desastre, quem não grita por socorro?
Não chorei junto com o oprimido?
Não tive compaixão do pobre?
Esperei felicidade, veio-me a desgraça;
eu esperava a luz, mas veio a escuridão.
As minhas entranhas fervem e não se acalmam,
dias de aflição vêm ao meu encontro.
Eu caminho no luto, longe do sol,
e me levanto na assembleia para pedir auxílio.
Tornei-me irmão dos chacais
e companheiro dos avestruzes.5
Minha pele escurece e cai,
meus ossos queimam de febre.
Minha cítara acompanha o luto,
e minha flauta acompanha o pranto.”
(Jó 30 – BPa / BPe / BJ)
1: O extremo da humilhação é sofrer a zombaria das pessoas mais indignas. Jó descreve aqui, de modo genérico, malfeitores que vagueiam à margem da cultura, gente indesejável expulsa do convívio social. Se Jó foi expulso da comunidade pelo perigo de contágio (cf. Lv 13,46), é mais fácil imaginar que se veja exposto à zombaria dos vagabundos. Essa descrição tem pontos de contato com a de 24,5-8, e alguns comentaristas preferem considerá-la como adição estranha ao texto. (BPe)
2: “Minha corda”: do arco (29,20) ou da tenda. O sujeito é duvidoso. (BPe)
3: Como se houvesse começado a execução do réu: a roupa expressa sua dignidade pessoal, e é empregada para dominar o réu; lama, barro e cinza recordam ao homem sua origem, são sinal de luto e penitência e também símbolo da morte. (BPe)
4: Deus devolve á terra o que é dela, o homem ao pó, Gn 3,19; Sl 9,18 (os perversos); 90,3 (filhos de Adão); Ecl 12,5.7. Mas a vida pertence à morte? Mais bem dizendo, Deus retira seu alento: Sl 104,29. (BPe)
5: Ou seja, companheiro de animais selvagens, habitantes das ruínas e do despovoado: Is 23,21-22; 34,13-15; Mq 1,8. (BPe)