quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A sujeição das mulheres – John Stuart Mill

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-8285-046-6
Tradução: Paulo Geiger
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 162

“Enquanto uma opinião se enraizar fortemente nos sentimentos, ela ganha mais do que perde em estabilidade, e ao ter contra si argumentos de um peso considerável. Porque, se fosse aceita como resultado de argumentação, a refutação do argumento poderia abalar a solidez da convicção; mas, quando só se apoia no sentimento, quanto pior seu desempenho numa disputa de argumentos, mais persuadidos ficam seus adeptos de que seu sentimento deve ter um fundamento mais profundo, que os argumentos não alcançam; e, enquanto o sentimento permanecer, estará sempre abrindo uma nova trincheira argumentativa para reparar toda brecha que se tenha aberto na antiga. E há tantas causas que tendem a fazer os sentimentos relacionados com este tema os mais intensos e os mais profundamente enraizados de todos os que cercam e protegem velhas instituições e costumes, que não devemos nos admirar de ainda os encontrar menos do que quaisquer outros solapados e afrouxados pelo progresso da grande e moderna transição espiritual e social; nem supor que as barbaridades às quais os homens se atêm mais longamente sejam menos bárbaras do que aquelas das quais se livraram antes.”


“Apesar de os escravos não serem parte da comunidade, foi nos Estados livres que primeiro se chegou ao sentimento de que os escravos tinham direitos como seres humanos. Os estoicos foram, creio eu, os primeiros (exceto na medida em que a lei judaica constitui uma exceção) a pensar, como parte da moralidade, que os homens eram sujeitos a obrigações morais para com seus escravos. Ninguém, depois da ascensão do cristianismo, poderia jamais ser alheio, em teoria, a essa crença; nem, depois do surgimento da Igreja católica, lhe faltaram pessoas que defendessem isso. Mas impô-la foi a tarefa mais árdua que o cristianismo teve de realizar. Por mais de mil anos a Igreja manteve em destaque essa luta, com quase nenhum sucesso perceptível. Não foi por falta de poder sobre as mentes humanas. Seu poder era prodigioso. Podia fazer com que reis e nobres abrissem mão de suas posses mais valiosas para enriquecer a Igreja. Podia fazer com que milhares, no melhor da vida e no ponto mais elevado de suas vantagens terrenas, se encerrassem em conventos para buscar a salvação através da pobreza, do jejum e da oração. Podia enviar centenas de milhares através da terra e do mar, na Europa e na Ásia, para dar suas vidas pela libertação do Santo Sepulcro. Podia fazer com que reis renunciassem a esposas que eram objeto de uma relação apaixonada, porque a Igreja declarara que estavam dentro do sétimo (por nosso cálculo, o décimo quarto) grau de parentesco. Tudo isso ela fez; mas não pôde fazer os homens lutarem menos uns com os outros, nem exercerem menos cruelmente a tirania sobre seus servos e, quando podiam, sobre os burgueses. Não pôde fazê-los renunciar às aplicações da força — força militante, ou força triunfante. Isso nunca puderam ser induzidos a fazer até serem eles mesmos, por sua vez, submetidos a uma força superior. Foi somente com o crescimento do poder dos reis que se pôs um fim às lutas, exceto as que se travavam entre reis, ou entre os que competiam pelo reinado; foi somente com o crescimento de uma rica e combativa burguesia nas cidades fortificadas, e de uma infantaria plebeia que se provou no campo de batalha mais poderosa do que uma cavalaria indisciplinada, que a insolente tirania dos nobres sobre a burguesia e o campesinato foi trazida para certos limites. Ela persistiu não somente até que, mas muito depois que, os oprimidos obtiveram um poder que frequentemente lhes possibilitou obterem conspícua vingança; e no continente muito dela continuou até a época da Revolução Francesa, embora na Inglaterra uma anterior e melhor organização das classes democráticas lhe tenha posto um fim mais cedo, estabelecendo leis igualitárias e instituições nacionais livres.”


“Houve alguma vez qualquer dominação que não parecesse natural a quem a exercia?”


“Com todo o fanatismo os homens se agarram a teorias que justificam suas paixões e legitimam seus interesses pessoais.”


“Deve-se lembrar também que nenhuma classe escravizada reivindicou liberdade imediatamente. É lei política natural que aqueles que estão sob qualquer poder de origem antiga nunca começam por reclamar do poder em si, mas de seu exercício opressivo.”


“Todas as causas, sociais e naturais, concorrem para fazer com que seja improvável que as mulheres se rebelem coletivamente contra o poder dos homens. Elas estão numa posição muito distante daquela das outras classes subjugadas, seus senhores requerem delas algo mais do que seu serviço. Os homens não querem somente a obediência das mulheres, querem seus sentimentos. Todo homem, exceto os mais brutais, quer ter na mulher mais proximamente ligada a ele não uma escrava pela força, mas uma escrava voluntária, não meramente uma escrava, mas uma favorita. Eles, portanto, puseram em prática tudo que escravizasse suas mentes. Para manter a obediência, os senhores de todos os outros escravos se baseiam no medo; ou medo deles mesmos ou medos de natureza religiosa. Os senhores das mulheres queriam mais que simples obediência, e dirigiram toda a força da educação para alcançar seu propósito. Todas as mulheres são levadas, desde seus primeiros anos de vida, à crença de que o ideal de seu caráter é exatamente o oposto do ideal do homem; nem vontade própria, nem governo por autocontrole, mas submissão e rendição ao controle de outros. Todos os conceitos morais lhes informam que é dever das mulheres, com todo o sentimentalismo corrente que é de sua natureza, viver para os outros; abdicar completamente de si mesmas, e não ter uma vida a não ser em suas afeições. E são entendidas como suas afeições somente aquelas que lhes são permitidas — pelos homens aos quais são ligadas, ou pelos filhos, que constituem um laço adicional e irrevogável entre uma mulher e um homem. Quando juntamos três coisas — primeiro, a atração natural entre sexos opostos; segundo, a total dependência de uma mulher a seu marido, sendo que todo privilégio ou prazer desfrutados por ela sejam considerados presentes dele, ou atos dependentes inteiramente de sua vontade; e por fim, que o principal objetivo do empenho humano, a consideração, e todos os objetos de ambição social geralmente só possam ser buscados ou obtidos por ela por intermédio dele —, seria um milagre que o objetivo principal de ser atraente para um homem não se tornasse o norte da educação feminina e da formação de seu caráter. E, uma vez assimilado esse grande agente de influência na mentalidade das mulheres, um instinto egoísta fez os homens se valerem disso a um limite extremo, como meio de manter as mulheres sob sujeição, ao lhes venderem a ideia de que a docilidade, a submissão e a resignação de toda a vontade individual da mulher aos desígnios do homem é parte essencial da atratividade sexual. Pode haver dúvida de que qualquer dos outros jugos que a humanidade conseguiu quebrar teriam subsistido até hoje se os mesmos meios tivessem existido e sido diligentemente usados para submeter a eles as mentalidades? Se tivesse sido colocado como objetivo de vida de cada jovem plebeu agradar pessoalmente algum patrício — e de cada jovem servo em relação a seu senhor dele obter favores —; se familiarizar-se com ele e compartilhar suas afeições particulares fossem um prêmio que todos procurassem obter, os mais talentosos e ambiciosos podendo contar com os prêmios mais valiosos; e se, uma vez obtido esse prêmio, eles ficassem isolados por uma parede de bronze de todos os interesses não centrados nele, de todos os sentimentos e desejos a não ser aqueles que partilhou ou lhes foram inculcados; não seriam então servos e senhores, plebeus e patrícios, tão amplamente diferenciados entre si em nossos dias quanto são homens e mulheres? E não acreditariam todos, com a exceção de um pensador aqui e outro ali, que essa diferenciação é um fato fundamental e inalterável da natureza humana?”


“Na tirania doméstica, assim como na política, o caso de monstros absolutos é o que ilustra, principalmente, esse aspecto da instituição, mostrando que quase não há horror que não possa ocorrer se assim aprouver ao déspota, o que põe sob uma luz forte aquilo que deve ser a terrível frequência de fatos que são só um pouco menos atrozes. Demônios absolutos são tão raros quanto anjos, talvez mais; contudo, selvagens ferozes com ocasionais toques de humanidade são muito frequentes; e, na ampla distância que separa estes de algum representante meritório da espécie humana, quão numerosas são as formas e gradações de animalismo e egoísmo, muitas vezes sob um verniz exterior de civilização, até mesmo refinamento, que convive em paz com a lei, que mantém uma aparência respeitável ao olhar de todos que não estão sob seu domínio, mas com frequência são suficientes para fazer com que a vida daqueles que estão seja um tormento e um fardo! Seria cansativo repetir os lugares-comuns sobre a inaptidão dos homens em geral para o exercício do poder, o que, depois de um debate político que dura séculos, todo mundo sabe de cor, se não fosse o fato de que quase ninguém pensa em aplicar essas máximas ao caso em que, mais do que em todos os outros, elas seriam aplicáveis, o do poder posto não nas mãos de um homem aqui outro acolá, mas oferecido a cada adulto do sexo masculino, baixando o nível até o mais torpe e o mais feroz deles. Não será por não se saber que ele tenha transgredido algum dos Dez Mandamentos, ou por ter preservado um caráter respeitável em seus tratos com aqueles a quem não pode forçar a ter relações com ele, ou porque não se precipita em rompantes violentos de mau gênio contra todos que não são obrigados a suportá-lo, não será por isso que se poderá conjecturar que tipo de comportamento terá no espaço irrestrito do lar. Mesmo o mais comum dos homens reserva as manifestações do lado violento, rabugento, indisfarçadamente egoísta de seu caráter para aqueles que não têm o poder de lhes resistir. A relação de um superior para com seus dependentes é que alimenta esses vícios de caráter, os quais, onde quer que existam, são um transbordamento daquela fonte. Um homem que é irascível ou violento com seus iguais certamente viveu entre inferiores que ele submeteu ameaçando ou atemorizando. Se a família em sua melhor forma é, como muitas vezes se diz, uma escola de empatia, ternura e amorosa acedência de si mesma, é ainda com maior frequência, no que tange a seu chefe, uma escola de voluntariedade, autoritarismo, ilimitada autoindulgência e um pertinaz e idealizado egoísmo, na qual sacrificar a si mesmo só tem uma forma particular: o cuidado com esposa e filhos sendo apenas o cuidado que se tem com partes dos próprios interesses e pertences do homem, a felicidade individual deles sendo imolada de todas as maneiras em função de suas menores preferências. O que de melhor se pode buscar na forma existente dessa instituição? Sabemos que as más propensões da natureza humana só se mantêm nos limites quando não se permite margem de indulgência para com elas. Sabemos que, por impulso e por hábito, quando não por deliberada intenção, quase toda pessoa a quem outros se submetem acaba abusando deles, até chegar a um ponto em que são obrigados a resistir. E que essa é a tendência comum da natureza humana; o poder quase ilimitado que as atuais instituições sociais concedem ao homem sobre pelo menos um ser humano — aquele com quem mora, e que tem sempre presente —, esse poder vai buscar e evocar o germe latente do egoísmo nos cantos mais remotos de sua natureza — reavivando num sopro suas mais tênues fagulhas e brasas quase apagadas — e lhe dá licença para ser indulgente com aqueles aspectos de seu caráter original que em todas as outras relações acharia necessário reprimir e encobrir, e cuja repressão se tornaria com o tempo uma segunda natureza.”


“Leis nunca seriam aprimoradas se não houvesse pessoas cujos sentimentos morais são melhores do que as leis existentes.”


“Na porção mais naturalmente brutal e sem educação moral das classes mais baixas, a escravidão legal da mulher, e de certo modo a sujeição meramente física dela à vontade do homem, como se fosse um instrumento, fazem com que ele sinta uma espécie de desrespeito e desprezo em relação à própria esposa que não sente em relação a nenhuma outra mulher, ou nenhum outro ser humano com quem entra em contato; e que faz com que ela lhe pareça ser um objeto apropriado para todo tipo de indignidade. Que um arguto observador dos sinais que denotam sentimento, tendo as devidas oportunidades, julgue por si mesmo se não é o caso: e, se achar que é, que não se espante com a magnitude de desgosto e indignação que se faz sentir contra instituições que levam naturalmente a esse estado depravado da mente humana.”


“Nos dias de hoje, o poder usa de uma linguagem mais suave e, seja quem for que quer oprimir, sempre finge fazê-lo para o próprio bem dos oprimidos.”


“Pode-se imaginar que tudo isso não perverta todo o modo de existência do homem, tanto como indivíduo quanto como ser social? É o paralelo exato do sentimento de um rei que herdou o trono, de sua superioridade e excelência em relação aos outros por ter nascido rei, ou o de um nobre por ter nascido nobre. A relação entre marido e mulher é muito semelhante à do senhor com o vassalo, exceto que a mulher é obrigada a uma obediência mais ilimitada do que a imposta ao vassalo. Conquanto o caráter do vassalo pode ter sido afetado, para melhor ou pior, por sua subordinação, quem será capaz de ver que o do senhor foi grandemente afetado para pior? Se ele foi levado a crer que seus vassalos eram na verdade superiores, ou a sentir que tinha o comando sobre pessoas tão boas quanto ele mesmo, não por méritos ou esforços seus, mas meramente por ter tido, como dizia Fígaro,26 o trabalho de nascer. A egolatria do monarca, ou do senhor feudal, é análoga à egolatria do homem. Seres humanos não saem da infância na posse de distinções que não conquistou sem se vangloriar delas. Aqueles cujos privilégios não adquiridos por seu próprio mérito, e dos quais não se sentem merecedores, lhes inspiram ainda maior humildade, são sempre a minoria, e a melhor minoria. Os demais só se inspiram no orgulho, e no pior tipo de orgulho, aquele que sentem por usufruir de vantagens acidentais, não conquistadas por eles. Mais do que tudo, quando o sentimento de estar acima de todo o outro sexo se combina com o exercício de autoridade pessoal sobre um indivíduo desse sexo, a situação, se é uma escola de consciência e afetuosa indulgência para aqueles cujos pontos fortes do caráter são consciência e afeto, para homens de outra qualidade é uma estável e constituída Academia ou Ginásio, que os treina na arrogância e no despotismo; e cujos vícios, se coibidos pela certeza de encontrar resistência em sua interação com outros homens, seus iguais, se manifestam para todos que estão em posição de serem obrigados a suportá-los, e com frequência se vingam na pobre mulher pela restrição involuntária a que são obrigados a se submeter alhures.”


“Depois das necessidades primárias de alimentação e vestimenta, a liberdade é a primeira e mais forte carência da natureza humana.”




“Uma mente ativa e enérgica, se a liberdade lhe é negada, irá em busca do poder; se lhe é recusado o comando de si mesma, irá afirmar sua personalidade tentando controlar os outros. Não permitir a um ser humano uma existência própria a não ser no que depende de outros é dar um prêmio demasiadamente alto à submissão dos outros aos próprios propósitos. Onde não se têm perspectivas de liberdade, mas se têm do poder, o poder torna-se o grande objeto do desejo humano; aqueles aos quais outros não permitirão uma condução sem interferências de seus próprios assuntos irão se compensar, se puderem, intrometendo-se, com seus próprios propósitos, nos assuntos dos outros. Daí, também, a paixão das mulheres pela beleza pessoal, a roupa e a apresentação; e todos os males daí emanados, na forma de luxo pernicioso e imoralidade social. O amor ao poder e o amor à liberdade estão em eterno conflito. Onde há menos liberdade, a paixão pelo poder é mais ardente e inescrupulosa. O desejo de exercer poder sobre os outros só deixará de ser um agente de depravação entre os homens quando cada um deles, individualmente, for capaz de abdicar dele; o que só poderá acontecer onde o respeito pela liberdade de cada um e por tudo que lhe diz respeito seja um princípio estabelecido.”

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