segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline

Editora: Companhia de bolso

ISBN: 978-85-359-1455-9

Tradução: Rosa Freire D’Aguiar

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 536

Sinopse: Obra-prima de Louis-Ferdinand Céline, romancista genial mas até hoje maldito, esse monumento da literatura do século XX denuncia com rara virulência o sofrimento de viver e a fragilidade da condição humana.

“O romance é pensado e realizado como um panorama do absurdo da vida, de suas crueldades, seus embates e suas mentiras, sem saída nem luz de esperança. Um suboficial atormentando os soldados antes de sucumbir junto com eles; uma ricaça americana que passeia sua futilidade pelos hotéis europeus; funcionários coloniais franceses animalizados pela cupidez; Nova York e sua indiferença automática pelos indivíduos sem dólares, sua arte de sugar os homens até o último centavo; de novo Paris: o mundinho mesquinho e invejoso dos eruditos, a morte lenta, humilde e resignada de um garotinho de sete anos; a tortura de uma menina; pequenos aposentados virtuosos que por economia matam a mãe; um padre de Paris e um padre dos confins da África dispostos, um e outro, a vender o próximo por algumas centenas de francos - um, aliado a aposentados civilizados, o outro, a canibais... De capítulo em capítulo, de página em página, fragmentos de vida se juntam num absurdo imundo, sangrento e digno de um pesadelo. Uma visão passiva do mundo com uma sensibilidade à flor da pele, sem desejo do futuro.” (Liev Trótski, 10 de maio de 1933).



“A raça, o que você chama de raça, não passa dessa grande corja de fodidos de minha espécie, catarrentos, pulguentos, espezinhados, que vieram parar aqui perseguidos pela fome, pela peste, pelas doenças e pelo frio, os vencidos dos quatro cantos do mundo. Não podiam ir mais longe por causa do mar. A França é isso e os franceses são isso.”

 

 

“O amor é o infinito posto ao alcance dos cachorrinhos.”

 

 

“Por toda a estrada e tão longe quanto se podia enxergar havia dois pontos pretos, no meio, feito nós, mas eram dois alemães empenhadíssimos em atirar, já fazia uns bons quinze minutos.

Ele, nosso coronel, vai ver que sabia por que que aquelas duas pessoas estavam atirando, os alemães vai ver que também sabiam, mas eu realmente não sabia. Tão longe quanto eu escavava na minha memória, nunca tinha feito nada contra os alemães. Sempre fui muito amável e bem-educado com eles. Eu os conhecia um pouco, os alemães, tinha até estado na escola na terra deles, quando era pequeno, nos arredores de Hanover. Tinha falado a língua deles. Eram então uma cambada de boboquinhas barulhentos, com olhos pálidos e furtivos como os dos lobos; íamos juntos bolinar as garotas depois da escola, nos bosques das redondezas, onde também atirávamos com balestra e pistola que comprávamos por quatro marcos. Bebíamos cerveja açucarada. Mas daí a, agora, nos atirarem nas fuças, sem nem virem conversar primeiro e bem no meio da estrada, havia uma distância, e até mesmo um abismo. Diferença demais.

A guerra em suma era tudo aquilo que a gente não compreendia. Isso não podia continuar.

Quer dizer que alguma coisa de extraordinário teria acontecido com aquelas pessoas? Que não teria acontecido comigo? Não devo ter percebido...

Meus sentimentos em relação a eles nunca haviam mudado nada. Eu tinha apesar de tudo vontade de tentar compreender a brutalidade deles, mas eu tinha ainda mais vontade de ir embora, tremendamente, imensamente, de tal forma tudo aquilo me parecia de repente como o resultado de um fantástico erro.”

 

 

“Na época eu era uma criança, ela me metia medo, a prisão. É que eu ainda não conhecia os homens.”

 

 

“Logo depois, pensei no segundo-sargento Barousse que acabava de explodir, conforme o outro nos informara. Era uma boa notícia. Antes isso! foi o que imaginei na mesma hora, assim: “É um canalha de menos no regimento!”. Ele quis que eu fosse julgado pelo Conselho por causa de uma lata de conserva. “Cada um com sua guerra!”, pensei com meus botões. Quanto a isso, é preciso reconhecer, de vez em quando ela parecia servir para alguma coisa, a guerra!”

 

 

“Quando não se tem imaginação, morrer não é nada; quando se tem, morrer é demais. É essa minha opinião. Nunca eu compreendera tantas coisas ao mesmo tempo.”

 

 

“No entanto, tínhamos de estar em algum lugar enquanto esperávamos pela manhã, em algum lugar na noite. Não podíamos evitar tudo. Desde essa época sei o que devem sentir os coelhos soltos no mato.”

 

 

“É difícil chegar ao essencial, mesmo no que diz respeito à guerra, a fantasia resiste muito tempo.

Os gatos ameaçados demais pelo fogo acabam mesmo é se jogando n’água.”

 

 

“A pé, os retardatários atrás da forja e do pão e prisioneiros nossos, deles também, algemados, condenados a isso, a aquilo, misturados, presos pelos pulsos ao estribo dos guardas, alguns para serem fuzilados amanhã, não mais tristes do que os outros. Também comiam, esses aí, suas rações daquele atum tão difícil de digerir (não daria tempo), à espera de que o comboio tornasse a partir, no acostamento da estrada – e o mesmo último pão com um civil acorrentado neles, que diziam ser um espião, e que não sabia de nada. Nós tampouco.

A tortura do regimento continuava então sob a forma noturna, às cegas pelas ruelas de calombos do vilarejo sem luz e sem rosto, curvando-se debaixo de sacos mais pesados do que homens, de uma granja desconhecida para outra, repreendidos, ameaçados, de uma à outra, abestalhados, positivamente sem esperança de acabarem de outra maneira senão sob ameaça, na bosta e com o horror de terem sido torturados, enganados até o sangue por uma horda de loucos depravados subitamente incapazes de outra coisa, já que ali estavam, a não ser matarem e serem retalhados sem saber por quê.”

 

 

“A maioria das pessoas só morre no último instante; outras começam e a isso se dedicam com vinte anos de antecedência e até mais. São os infelizes da terra.”

 

 

“Quanto a mim, eu não era dos mais ajuizados, não, mas me tornara bastante prático, porém, para ser irremediavelmente covarde. Eu devia dar, por causa dessa resolução, a impressão de grande calma. O fato é que inspirava, tal como era, uma confiança paradoxal a nosso capitão, o Ortolan em pessoa, que decidiu naquela noite me confiar uma missão delicada. Tratava-se, explicou-me confidencialmente, de ir trotando antes da aurora a Noirceur-sur-la-Lys, cidade de tecelões, situada a catorze quilômetros da aldeia onde estávamos acampados. Eu devia me certificar no próprio local sobre a presença do inimigo. A esse respeito, desde a manhã os enviados só conseguiam se contradizer. O general Des Entrayes andava impaciente. Por ocasião desse reconhecimento, permitiram-me escolher um cavalo entre os menos purulentos do pelotão. Fazia um bom tempo que eu não ficava sozinho. De repente, pareceu-me sair de viagem. Mas a libertação era fictícia.

Quando peguei a estrada, por causa do cansaço não consegui imaginar direito, por mais que tentasse, minha própria morte com suficientes pormenores e exatidão. Eu ia avançando de árvore em árvore, com minha barulheira de ferragens. Só o meu belo sabre equivalia, pelo latão, a um piano. Talvez eu inspirasse pena, mas seja como for certamente eu era grotesco.

Em que pensava afinal o general Des Entrayes me despachando assim para aquele silêncio, todo vestido de címbalos? Não em mim, obviamente.

Os astecas estripavam correntemente, segundo se conta, em seus templos do sol oitenta mil crentes por semana, oferecendo-os assim ao Deus das nuvens, a fim de que lhes mandasse a chuva. São coisas em que a gente custa a crer antes de ir para a guerra. Mas quando aí estamos, tudo se explica, tanto os astecas quanto seu desprezo pelo corpo alheio, é o mesmo que devia ter por minhas humildes tripas nosso general Céladon des Entrayes, supracitado, que se tornara por causa das promoções uma espécie de deus infalível, ele também uma espécie de pequeno sol de uma exigência atroz.

Só me restava um tiquinho de esperança, a de ser feito prisioneiro. Era minguada essa esperança, um fiapo. Um fiapo na noite, pois as circunstâncias não se prestavam nem um pouco às cortesias preliminares. Um tiro de fuzil chega mais depressa até você do que um gesto de tirar o chapéu numa hora dessas. Aliás, o que eu encontraria para lhe dizer a esse militar hostil por princípio, e vindo expressamente para me assassinar do outro lado da Europa?... Se ele vacilasse um segundo (que me bastaria), o que eu lhe diria?... E para início de conversa, quem seria ele de fato? Um caixeiro de loja? Um realistado profissional? Um coveiro, talvez? Na vida civil? Um cozinheiro?... Os cavalos, esses aí é que têm um bocado de sorte, pois se também sofrem com a guerra, feito nós, ninguém lhes pede para subscrevê-la, para darem a impressão de acreditar nela. Pobres mas livres cavalos! O entusiasmo, que desgraça! é só para nós, esse filho da puta!”

 

 

“As mães, ora enfermeiras, ora mártires, não se separavam mais de seus compridos véus escuros, nem tampouco do pequeno diploma que o ministro mandava lhes entregar a tempo pelo funcionário da Prefeitura. Em suma, as coisas se organizavam.

Nos enterros de luxo a gente também fica muito triste, mas mesmo assim pensa na herança, nas próximas férias, na viúva que é bonitinha e que é muito fogosa, dizem, e em ainda vivermos, nós mesmos, por contraste, muito tempo, em talvez não morrermos nunca... Quem sabe?

Quando acompanhamos o enterro todos nos cumprimentam tirando o chapéu. O que nos alegra. Numa hora dessas temos de nos comportar bem, fazer cara séria, não rir muito alto, nos alegrar apenas por dentro. Isso é permitido. Tudo é permitido por dentro.”

 

 

“Na época de que estou falando, todo mundo em Paris queria ter seu uniformezinho. Só havia mesmo os neutros e os espiões que não tinham um, e estes eram quase os mesmos. Lola tinha o seu uniforme oficial, e um de verdade, muito engraçadinho, realçado por cruzinhas vermelhas por todo lado, nas mangas, em seu quepinho de polícia, marotamente sempre colocado de banda sobre seus cabelos ondulados. Tinha vindo nos ajudar a salvar a França, conforme contava ao gerente do hotel, na medida de suas fracas forças, mas com todo o seu coração! Nos entendemos de cara, não porém de todo, porque os arroubos do coração haviam se tornado para mim tremendamente desagradáveis. Eu preferia os do corpo, mais simplesmente. É preciso desconfiar imensamente do coração, haviam me ensinado, e como!, na guerra. E eu não estava prestes a esquecer.

O coração de Lola era meigo, fraco e entusiasta. O corpo era agradável, muito amável, e tive de julgá-la em seu conjunto, tal como era. Era uma moça simpática, Lola, só que havia a guerra entre nós, essa desgraçada imensa fúria que impelia a metade dos humanos, amantes ou não, a enviar a outra metade para o matadouro. Então, isso atrapalhava as relações, necessariamente, uma mania dessas. Para mim, que esticava minha convalescença tanto quanto possível e que não fazia a menor questão de retomar meu turno no cemitério ardente das batalhas, o ridículo de nosso massacre me aparecia, barulhento, a cada passo que eu dava na cidade. Uma esperteza gigantesca espalhava-se por toda parte.

Entretanto, minhas chances de escapar eram poucas, eu não tinha nenhuma das relações indispensáveis para me safar da guerra. Só conhecia gente pobre, isto é, gente cuja morte não interessa a ninguém. Quanto a Lola, eu não devia contar com ela para me esconder. Enfermeira como era, não se podia imaginar, tirante talvez Ortolan, criatura mais combativa do que essa criança encantadora. Antes de ter eu cruzado a mixórdia lamacenta dos heroísmos, seu jeitinho Joana d’Arc talvez me tivesse excitado, convertido, mas agora, desde meu alistamento da praça Clichy, eu me tornara fobicamente rebarbativo diante de qualquer heroísmo verbal ou real. Estava curado, bem curado.”

 

 

“A França tinha seu lugar em nossas conversas. Para Lola, a França permanecia uma espécie de entidade cavalheiresca, de contornos pouco nítidos no espaço e no tempo, mas naquele momento perigosamente ferida e, por causa disso mesmo, muito excitante. Quanto a mim, quando me falavam da França, eu pensava de maneira irresistível em minhas tripas, então, era inevitável, mostrava-me muito mais reservado no que dizia respeito ao entusiasmo. Cada um com seu terror. Entretanto, sendo ela condescendente no sexo, eu a escutava sem jamais contradizê-la. Mas em matéria de alma, não a contentava nem um pouco. Era todo vibrante, todo radiante que ela gostaria que eu fosse e eu, de meu lado, não via de jeito nenhum por que deveria ficar naquele estado, sublime, ao contrário eu enxergava mil razões, todas irrefutáveis, para ficar de humor exatamente contrário.

Lola afinal apenas divagava sobre a felicidade e o otimismo, como todas as pessoas que estão do lado certo da vida, este dos privilégios, da saúde, da segurança, e que ainda têm muito tempo para viver.”

 

 

“Minha conclusão era que os alemães podiam chegar aqui, massacrar, devastar, incendiar tudo, o hotel, os sonhos, Lola, as Tulherias, os ministros, seus amiguinhos, a Academia Francesa, o Louvre, os Grandes Magazines, despencar sobre a cidade, aprontar um bafafá dos diabos, o fogo do inferno nessa baderna pútrida à qual já não se podia realmente acrescentar nada de mais sórdido, e que eu, eu não tinha porém de verdade nada a perder, nada, e tudo a ganhar. Não se perde muita coisa quando pega fogo a casa do proprietário. Sempre virá um outro, se é que não é sempre o mesmo, alemão ou francês, ou inglês ou chinês, para trazer, é ou não é, seu recibo do aluguel quando se apresentar a ocasião... Em marcos ou francos? Já que é preciso pagar...”

 

 

“Mentir, foder, morrer. Acabava de ser proibido realizar outra coisa. Mentia-se com uma fúria além do imaginário, muito além do ridículo e do absurdo, nos jornais, nos cartazes, a pé, a cavalo, de carro. Todo mundo se pôs a mentir. Cada um mentia mais enormemente do que o outro. Em breve, não houve mais verdade na cidade.

O pouco que dela se encontrava em 1914 era, agora, de dar vergonha. Tudo o que se tocava era adulterado, o açúcar, os aviões, os chinelos, as geleias, as fotografias; tudo o que se lia, engolia, chupava, admirava, proclamava, refutava, defendia, tudo isso não passava de fantasmas execráveis, falsificações e farsas. Os próprios traidores eram falsos. O delírio de mentir e de acreditar se pega como a sarna.”

 

 

“Quem demonstra um belo atrevimento não precisa de mais nada, quase tudo passa a ser permitido para você, absolutamente tudo, temos a maioria a nosso favor e é a maioria que decreta o que é loucura e o que não é.”

 

 

“Adubar os sulcos do lavrador anônimo é o verdadeiro futuro do verdadeiro soldado!”

 

 

“O amor é como o álcool, quanto mais somos fracos e bêbados, mais nos acreditamos fortes e espertos, e convencidos de nossos direitos.”

 

 

“Perdemos a maior parte de nossa juventude por conta das inabilidades. Saltava aos olhos que ela ia me abandonar, minha bem-amada, de vez e em breve. Eu ainda não havia aprendido que existem duas humanidades muito diferentes, a dos ricos e a dos pobres. Precisei, como tantos outros, de vinte anos e da guerra para aprender a me manter na minha categoria, para perguntar o preço das coisas e dos seres antes de tocá-los, e em especial antes de desejá-los.”

 

 

“Existem para o pobre neste mundo duas grandes maneiras de morrer, seja pela indiferença absoluta de seus semelhantes em tempos de paz, seja pela paixão homicida dos mesmos quando chega a guerra. Se se põem a pensar em você, é na sua tortura que pensam logo, os outros, e só nisso. Não os interessamos a não ser sangrando, a esses canalhas!”

 

 

“É verdade que também nada parece mais idiota e irrita mais do que um espectador inerte que sobe ao palco por acaso. Quem está ali em cima, é ou não é?, precisa encontrar o tom, animar-se, representar, se decidir ou então cair fora. As mulheres sobretudo é que exigiam espetáculos e eram implacáveis, as filhas da puta, com os amadores desajeitados. A guerra, é inconteste, mexe com os ovários, elas exigiam heróis, e os que não tinham nada de herói deviam se apresentar como tais ou se prepararem para suportar o destino mais ignominioso.”

 

 

“Quando o ódio dos homens não comporta nenhum risco, a tolice deles deixa-se rapidamente convencer, os motivos surgem sozinhos.”

 

 

“Enquanto o militar não mata, é uma criança. É fácil diverti-lo. Não tendo o costume de pensar, basta você conversar com ele para que seja obrigado, a fim de tentar compreendê-lo, a fazer exaustivos esforços.”

 

 

“Não há vaidade inteligente. É um instinto. Tampouco há homem que não seja antes de mais nada um vaidoso.”

 

 

“A verga acaba por cansar quem a maneja, ao passo que a esperança de se tornarem poderosos e ricos, com a qual os brancos se empanturram, isso não custa nada, rigorosamente nada. Que não nos venham mais louvar o Egito e os tiranos tártaros! Eles não passavam, esses antigos amadores, de pequenos vigaristas pretensiosos na arte suprema de arrancar do animal vertical seu mais belo esforço no batente. Não sabiam, esses primitivos, chamá-lo de “senhor”, o escravo, e fazê-lo votar de vez em quando, nem lhe pagar o jornal, nem sobretudo levá-lo à guerra, para que passassem suas paixões. Um cristão de vinte séculos, e eu sei do que estou falando, já não se contém quando à sua frente calha de passar um regimento. Isso lhe faz brotar ideias demais.”

 

 

“Em alguns dias fiquei sabendo de poucas e boas a respeito do meu próprio diretor! A respeito de seu passado repleto de mais crapulices do que uma prisão de porto de guerra. Descobria-se de tudo no seu passado e inclusive, suponho, magníficos erros judiciários. É verdade que já a cara depunha contra ele, inegável, angustiante figura de assassino, ou melhor, para não acusar ninguém, de homem imprudente, imensamente apressado em se realizar, o que dá no mesmo.”

 

 

“Era por sinal boa pessoa, Alcide, prestativo e generoso e tudo. Compreendi-o mais tarde, um pouco tarde demais. Sua formidável resignação o oprimia, essa qualidade de base que torna os pobres coitados do exército ou de outro lugar tão fáceis de serem mortos quanto de ficarem vivos. Nunca, ou quase nunca, perguntam o porquê, os humildes, de tudo o que suportam. Odeiam-se uns aos outros, isso basta.”

 

 

“Minha mãe, da França, me encorajava a cuidar de minha saúde, como na guerra. Debaixo da lâmina da guilhotina, minha mãe me teria repreendido por eu ter me esquecido do lenço.”

 

 

“Ter confiança nos homens já é se deixar matar um pouco.”

 

 

“Como se eu soubesse aonde ia, dei a impressão de desviar mais uma vez e mudei de caminho, peguei à minha direita uma outra rua, mais bem iluminada, broadway que ela se chamava. O nome eu li numa placa.

Era igual a uma chaga triste a rua que não acabava mais, conosco no fundo, nós, de uma calçada a outra, de um sofrimento a outro, rumo ao fim que nunca se enxerga, o fim de todas as ruas do mundo.

Os carros não passavam, só gente e ainda mais gente.

Era o bairro precioso, foi o que me explicaram mais tarde, o bairro para o ouro: Manhattan. Só se entra ali a pé, que nem na igreja. É o coração propriamente dito em matéria de Banco no mundo de hoje. Mas tem gente que cospe no chão passando por ali. Tem que ser muito descarado.

É um bairro que está abarrotado de ouro, um verdadeiro milagre, e a gente pode até escutá-lo, o milagre, pelas portas com seu barulho de dólares que são amassados, ele sempre muito leve, o Dólar, um verdadeiro Espírito Santo, mais precioso do que sangue.

Tive tempo de ir vê-los e inclusive entrei para falar com eles, com esses funcionários que guardavam as espécies. São tristes e mal pagos.

Quando os fiéis entram no seu Banco, não se pense que podem ir se servindo assim, não, segundo seus caprichos. De jeito nenhum. Falam com Dólar murmurando-lhe coisas através de uma gradezinha, quer dizer, se confessam. Nada de muito barulho, abajures bem suaves, um guichê minúsculo entre os altos arcos, mais nada. Eles não a engolem, a Hóstia. Botam-na em cima do coração.”

 

 

“Eu tinha visto coisas demais suspeitas demais para estar feliz. Eu sabia demais e não sabia o suficiente.”

 

 

“O que é pior é que a gente fica pensando como que no dia seguinte vai encontrar força suficiente para continuar a fazer o que fizemos na véspera e já há tanto tempo, onde é que encontraremos força para essas providências imbecis, esses mil projetos que não levam a nada, essas tentativas para sair da opressiva necessidade, tentativas que sempre abortam, e todas elas para que a gente se convença uma vez mais que o destino é invencível, que é preciso cair bem embaixo da muralha, toda noite, com a angústia desse dia seguinte, sempre mais precário, mais sórdido.

É a idade também que está chegando talvez, a traidora, e nos ameaça com o pior. Já não temos muita música dentro de nós para fazer a vida dançar, é isso. Toda a juventude já foi morrer no fim do mundo no silêncio de verdade. E aonde ir lá fora, pergunto a vocês, quando não temos mais em nós a soma suficiente de delírio? A verdade é uma agonia que não acaba. A verdade deste mundo é a morte. É preciso escolher, morrer ou mentir. Eu, eu nunca pude me matar.

O melhor portanto era sair para a rua, esse pequeno suicídio. Cada um possui seus pequenos dons, seu método para conquistar o sono e comer. Eu tinha de qualquer jeito de conseguir dormir para recuperar forças suficientes e ganhar meu pão no dia seguinte. Reencontrar a energia, só o bastante para achar um trabalho no dia seguinte e transpor imediatamente, enquanto isso, o desconhecido do sono. Não se creia que é fácil adormecer quando se começou a duvidar de tudo, por causa especialmente dos tantos medos que lhe meteram.”

 

 

“Quase todos os desejos do pobre são punidos com a prisão.”

 

 

“De onde eu estava (quarto do hotel em andar elevado) podia muito bem gritar para cima deles tudo o que quisesse. Experimentei. Todos me davam nojo. Eu não tinha o topete de lhes dizer durante o dia, quando ficava na frente deles, mas de onde estava não corria nenhum risco, gritei “Socorro! Socorro!”, só para ver qual seria a reação deles. Nada que isso causava. Empurravam a vida e a noite e o dia para a frente, os homens. Ela tudo lhes esconde, a vida, dos homens. No barulho de si mesmos, não ouvem nada. São indiferentes. E quanto maior for a cidade e quanto mais alta for mais são indiferentes. Ouçam o que estou dizendo. Experimentei. Não vale a pena.”

 

 

“Durante a juventude, as mais áridas indiferenças, as mais cínicas grosserias, conseguimos encontrar-lhes desculpas de manias passionais e também sei lá eu de que sinais de um inexperiente romantismo. Mais tarde, porém, quando a vida lhe mostrou muito bem tudo o que é capaz de exigir de cautela, de crueldade, de malícia para ser apenas, mal ou bem, mantida a trinta e sete graus, é que você percebe, você está pronto, bem colocado para compreender todas as porcarias que um passado contém. Basta, no final das contas, se contemplar escrupulosamente, a si mesmo, e aquilo em que nos transformamos em matéria de imundície. Acaba-se o mistério, acaba-se a imbecilidade, toda a nossa poesia foi por nós devorada, já que vivemos até aquele momento.”

 

 

“Enquanto eu discorria assim com o artifício e o convencional, não pude deixar de perceber mais claramente ainda outras razões além da malária para a depressão moral e física que eu sofria. Tratava-se de uma mudança de hábitos, eu tinha que aprender mais uma vez a reconhecer novos rostos num novo ambiente, outros modos de falar e mentir. A preguiça é quase tão forte quanto a vida. A banalidade da nova farsa que você tem de representar o esmaga, e no fundo você ainda precisa de mais covardia do que de coragem para recomeçar. É isso o exílio, o estrangeiro, essa inexorável observação da existência tal como ela é realmente durante essas poucas horas lúcidas, excepcionais na trama do tempo humano em que os hábitos do país anterior o abandonam, sem que os outros, os novos, ainda o tenham embrutecido.

Tudo nesses momentos vem se somar ao seu horrendo desespero para forçá-lo, você, fraco, a ver as coisas, as pessoas e o futuro tais como eles são, isto é, esqueletos, nada a não ser uns nadas, que no entanto será preciso amar, prezar, defender, animar como se existissem.”

 

 

“Era verdade também o que ela dizia de que eu tinha mudado bastante. A existência, ela lhe torce e lhe esmaga o rosto. O dela também tinha sido esmagado, o rosto, mas menos, bem menos. Os pobres são uns privilegiados. A miséria é gigantesca, utiliza para limpar as imundícies do mundo a sua cara, como um pano de chão. Nunca falta.”

 

 

“Os homens se afeiçoam a suas escabrosas recordações, a todas as suas desgraças e não se pode afastá-los delas. Isso lhes ocupa a alma. Vingam-se da injustiça de seu presente remexendo o futuro no fundo de si mesmos junto com a merda. Justos e covardes que são bem no fundo. É a natureza deles.”

 

 

“Os ricos não precisam matar uns aos outros para comer. Botam os outros para trabalhar, como dizem. Não cometem o mal eles mesmos os ricos. Pagam. A gente faz tudo para agradá-los e todos ficam muito felizes. Enquanto suas mulheres são bonitas, as dos pobres são feias. É consequência dos séculos, toaletes à parte. Lindas teteias, bem nutridas, bem lavadas. Desde que dura, a vida só chegou a isso.”

 

 

“Já que não passamos de recintos de tripas mornas e não totalmente podres, sempre teremos dificuldades com os sentimentos. Apaixonar-se não é nada, o difícil é ficar junto. Quanto à imundície, ela não tenta durar nem crescer. Aqui, neste aspecto somos bem mais infelizes do que a merda, essa sanha de perseverarmos em nossa condição constitui a inacreditável tortura.”

 

 

“Com meu diploma eu podia me estabelecer em outro lugar, lá isso era verdade... Mas não seria outra parte nem mais agradável nem pior... Um pouco melhor o lugar no início, fatalmente, porque as pessoas sempre precisam de algum tempo para chegarem a conhecer você e porem mãos à obra e descobrirem a maneira de prejudicá-lo. Enquanto ainda estão procurando o detalhe que o faz sofrer de maneira mais fácil, você tem um pouco de sossego, mas assim que descobrem o segredo, aí tudo volta a ser a mesma coisa, em qualquer lugar. Em suma, é o pequeno lapso de tempo em que somos desconhecidos em cada novo local que é o mais agradável. Depois, é a mesma canalhice que recomeça. É a natureza das pessoas. O importante é não ficar esperando que os companheiros aprendam direitinho a nossa fraqueza. Tem que se esmagar os percevejos antes que voltem para as rachaduras.”

 

 

“Os homens, ele tinha que sobretudo apresentá-los às tolerantes e às apreciadoras para as suas manias apaixonadas. Os clientes tinham amor para dar e vender, para compartilhar, tanto quanto os de madame Herote. Chegava, só pelo carteiro da manhã, à agência Pomone suficiente amor insaciado para extinguir de vez todas as guerras deste mundo. Mas aí é que está, esses dilúvios sentimentais nunca vão mais longe do que a bunda. Isso é que é a desgraça!”

 

 

“Amores contrariados pela desgraça e as grandes distâncias são como amores de marinheiro, não há jeito, são irrefutáveis e são um sucesso. Primeiro, quando a gente não tem ocasião de se encontrar frequentemente, não pode brigar, e isso já é uma grande coisa. Como a vida não passa de um delírio abarrotado de mentiras, quanto mais longe estivermos e quanto mais pudermos botar mentiras ali dentro, mais então ficaremos felizes, é natural e é sempre assim. A verdade não é comestível.”

 

 

“Somos abjetos. Não se pode pôr a culpa em ninguém. Gozar e felicidade em primeiro lugar. É minha opinião. De mais a mais, quando começamos a nos esconder dos outros é sinal de que temos medo de nos divertir com eles. É uma doença em si. Seria preciso saber por que teimamos em não nos curarmos da solidão. Um outro camarada que encontrei durante a guerra no hospital, um cabo, tinha ele me falado um pouco desses sentimentos aí. Pena que nunca mais o revi, esse rapaz! “A terra está morta”, me explicou... “Não passamos de vermes em cima dela, vermes em cima de seu infecto cadáver imenso, a lhe comer o tempo todo as tripas e unicamente seus venenos... Não há o que fazer conosco. Somos todos podres de nascença... E estamos conversados!””

 

 

“A juventude verdadeira, a única, padre, é amar a todos sem distinção, só isso é verdade, só isso é jovem e novo.”

 

 

“Viver sozinho é se exercitar para a morte.”

 

 

“Talvez ainda não se trate de loucura completa no caso do seu amigo... Não! Talvez seja apenas uma convicção exagerada... Mas sou craque em matéria de demências contagiosas... Nada é mais grave do que a convicção exagerada!...”

 

 

“Cada um tem suas razões para fugir da própria miséria íntima e cada um de nós para isso envereda, ao acaso das circunstâncias, por algum engenhoso caminho. Felizes daqueles para quem o bordel é suficiente!”

 

 

“Não era nada mau que Baryton me considerasse no meu conjunto com certo desprezo. Um patrão sempre fica relativamente sossegado diante da ignomínia de seus funcionários. O escravo deve ser, custe o que custar, um pouco e inclusive muito desprezível. Um conjunto de pequenas taras crônicas morais e físicas justifica a sina que o oprime. A Terra gira melhor assim, já que cada um se encontra ali em cima no seu merecido lugar.

A criatura de quem nos servimos deve ser reles, humilde, destinada às decadências, isso é um alívio, tanto mais que ele nos pagava muitíssimo mal, Baryton. Nesses casos de avareza aguda os patrões ficam um pouco desconfiados e inquietos. Fracassado, depravado, desgarrado, dedicado, tudo se explicava, se justificava e se harmonizava, em suma. Não o teria desagradado, a Baryton, que eu fosse meio procurado pela polícia. É isso que torna dedicado.”

 

 

“Das coisas às quais você era mais apegado você resolve um belo dia falar cada vez menos, se esforçando, quando não tem escapatória. Não aguentamos mais nos escutarmos sempre falando... Resumimos... Desistimos... Faz trinta anos que conversamos... Não fazemos mais questão de ter razão. Até a vontade de guardar o lugarzinho que você reservou entre os prazeres o abandona... Nos enfastiamos... Doravante basta comer um pouco, criar um pouco de calor em torno de si e dormir o mais possível no caminho para lugar nenhum. Precisaríamos, para recobrar interesse, descobrir novas caretas a fazer diante dos outros... Mas já não temos força para mudar o repertório. Empacamos. Ainda procuramos uns assuntos e uns pretextos para permanecer ali com eles, os companheiros, mas a morte também está ali, fedorenta, ao nosso lado, o tempo todo agora e menos misteriosa do que uma partida de bisca. Continuam a nos ser preciosas apenas as pequenas tristezas, esta de não termos tido tempo enquanto ele ainda vivia de ir ver o velho tio em Bois-Colombes, cuja musiquinha se apagou para sempre numa noite de fevereiro. Foi tudo o que conservamos da vida. Esse pequeno arrependimento um tanto atroz, o resto vomitamos mais ou menos bem pelo caminho afora, com grandes esforços e sofrimento. Não somos mais do que um velho lampião de lembranças na esquina de uma rua onde já não passa quase mais ninguém.”

 

 

“É segundo o cansaço que percebemos mais ou menos que chegamos.”

 

 

“Nesses momentos, é um pouco desagradável ter se tornado tão pobre e tão duro como nos tornamos. Falta-nos quase tudo o que seria necessário para ajudar alguém a morrer. Só temos dentro de nós coisas úteis para a vida de todos os dias, a vida do conforto, a vida nossa apenas, a patifaria. Perdemos a confiança no meio do caminho. Expulsamos, rejeitamos a piedade que nos restava cuidadosamente no fundo do corpo como uma pílula infecta. Empurramos a piedade para o final do intestino junto com a merda. Ela está bem ali, pensamos.”

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Quem é o povo no Brasil? – Nélson Werneck Sodré

Editoria: Civilização Brasileira
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 66
“Há, evidentemente, em todos os tempos, população e povo. Os dois termos designam a mesma coisa apenas na fase inicial da história humana, a da comunidade primitiva, quando não existem classes: povo é então toda a população. A divisão do trabalho assenta em condições naturais e não em condições sociais; assenta nas condições de sexo e idade: o homem realiza determinado trabalho; a mulher, outro; o velho, outro. É uma divisão natural: não torna alguns elementos mais ricos do que os outros, nem mais poderosos. Mas quando a sociedade se desenvolve, surgem as classes sociais e, com elas, a divisão social do trabalho: uns trabalham, outros usufruem do trabalho alheio. A partir desse momento, povo já não é o mesmo que população: os termos começam a designar coisas diferentes. E não há, a partir de então, critério objetivo para definir o conceito de povo que não esteja ligado ao conceito da sociedade dividida em classes.”


“Em diferentes fases históricas e em diferentes países, portanto, o conceito de povo corresponde a diferentes agrupamentos de forças sociais. Há uma composição específica para cada situação concreta; não uma situação eterna e imutável; povo não é a mesma coisa em diferentes situações históricas. Mas, evidentemente, encontra-se um traço geral, permanente, que atravessa a história e se repete em cada lugar, algo que existe em qualquer tempo e em qualquer lugar, quando se trata de povo e se procura definir o conceito, para compreender o papel dessa força social na vida política. Esse traço é o seguinte: em todas as situações, povo é o conjunto das classes, camadas e grupos sociais empenhados na solução objetiva das tarefas do desenvolvimento progressista e revolucionário na área em que vive.
As classes compreendem as parcelas da população que, por sua situação objetiva, têm interesses comuns a defender, na decorrência do “lugar que ocupam em um sistema de produção social, historicamente determinado pelas relações em que se encontram com respeito aos meios de produção (relações que, em grande parte, ficam estabelecidas e formalizadas nas leis), pelo papel que desempenham na organização social do trabalho e, consequentemente, pelo modo e pela proporção em que percebem a parte da riqueza social de que dispõem”. As classes são produto da história, e o lugar que ocupam é também historicamente condicionado. A história humana não passa do desenvolvimento das classes, das lutas e das mudanças nas relações entre elas. Em cada fase histórica, pois, em condições determinadas, certa classe, ou certas classes, agrupam-se num conjunto que se conhece como povo, e só é válido para tal fase.
Numa sociedade dividida em classes, a população se reparte em classes dominantes, exploradoras, de um lado, e classes dominadas, de outro, aquelas que as primeiras oprimem, exploram e privam de direitos, inclusive e principalmente dos direitos políticos. Realizam essa exploração, entretanto, afirmando sempre que representam o povo. Estão interessadas, pois, em que o conceito de povo seja vago, arbitrário e confuso. Tão confuso que englobe exploradores e explorados.
A essa ambiguidade, que impede distinguir entre população e povo, junta-se outra, que impede distinguir entre nação e povo, conceitos que se referem também a coisas diferentes. Frequentemente, no que se refere a problemas internos, mas também no que se refere a problemas externos, ou de política exterior, as classes dominantes, que se dizem povo, afirmam, ao decidir sobre aqueles problemas segundo os seus interesses de classe, que o fazem em defesa dos interesses “nacionais”, na preservação dos direitos “nacionais”, e repetem amiúde a expressão “tradições nacionais”. Confundem, assim, os seus interesses com os interesses nacionais e supõem encarnar a vontade nacional, isto é, a vontade do povo. As classes dominantes, entretanto, inclusive porque minoritárias, não representam o povo, no geral, e nem sempre representam a nação, embora detenham o poder, dominem o Estado e proclamem a sua identidade com o que é nacional. Existe o deliberado propósito de confundir todas as classes e os seus interesses, como se estes fossem comuns e idênticos em todos os problemas, e a classe que detém a representação política fosse apenas a intérprete de todas as classes porque com interesses idênticos aos de todas elas.
É exato que em alguns casos, — e só o exame de situações concretas permitiria distinguir bem as características de cada um — as classes dominantes realizam o que é do interesse da maioria das classes, ou das classes majoritárias, mas isso não é uma regra e está longe de ser a regra. Acontece sempre, entretanto, quando o interesse da classe dominante é também defendido, preservado ou mantido. A Independência do Brasil foi um problema político que uniu as classes sociais brasileiras: realizando-a, a classe dominante de então representou o desejo e o interesse das demais, mas também o seu particular desejo e interesse. Logo em seguida, entretanto, ao empolgar o poder, deixou de representar o interesse de todas as classes, porque organizou o Estado de acordo com os seus interesses, exclusivamente. Ninguém pode sustentar que o interesse de um senhor de engenho da época fosse idêntico ao de seus escravos. Bastaria o fato de ser, um, proprietário de escravos e os outros, escravos, para tornar claro o antagonismo de interesses. Ao realizar a Abolição, a classe dominante teve também o apoio das classes dominadas, no Brasil, mas realizou-a quando lhe convinha como classe. São casos em que os interesses de um grupo aparecem como interesses comuns, e a classe dominante representa a nação, ao decidir por ela, porque representa, eventualmente, a vontade da maioria, embora seja, em número, minoria, e não tenha a posse do poder por vontade da maioria.
Mas, na maior parte dos problemas, e nos problemas fundamentais, o interesse das classes é divergente, quase sempre antagônico, e as decisões tomadas pela classe dominante e apregoadas como do “interesse nacional” são, na realidade, única e exclusivamente, do seu interesse de classe, ferindo o interesse das classes dominadas, inclusive privadas do direito de protestar contra isso ou, de qualquer maneira, do direito de fazer prevalecer os seus interesses. Há manifesta ambiguidade, politicamente determinada, no fato de investir-se a classe dominante do papel nacional, de defensora do “interesse nacional”.”


“Em política, como em cultura, só é nacional o que é popular. A política da classe dominante não é nacional, nem a sua cultura. Povo e nação não são a mesma coisa, na fase atual da vida brasileira, mas esta é uma situação histórica apenas, diferente de outras, uma situação que se caracteriza pelo fato de que as classes que determinam, politicamente, os destinos do país e lhe traçam os rumos, tomam as decisões em nome da “nação”, mas não pertencem ao povo, não fazem parte do povo.”


“Até os nossos tempos, todas as revoluções, isto é, todos os grandes movimentos que alteraram a situação das classes sociais umas em relação às outras, consistiram em derrocar o domínio de determinada classe, que cumprira a sua missão histórica, substituindo-a por outra, que vinha em ascensão. Eram revoluções que substituíam uma minoria por outra minoria, e esta outra assumia o poder, dominava o Estado e transformava as instituições, amoldando-as aos seus interesses; era o grupo que se capacitara para o domínio e que exercia o domínio, tendo sido chamado ao domínio pelas condições de desenvolvimento econômico. Por isso, e somente por isso, quando da derrocada de uma classe minoritária historicamente superada, a classe minoritária historicamente nova conseguia a cooperação das classes majoritárias, ou, pelo menos, a sua aceitação pacífica. A forma comum dessas revoluções consistia em serem, todas, revoluções de minorias. A maioria se colocava, consciente ou inconscientemente, a serviço da minoria ascensional, e o conjunto novo que forçava a mudança (classe minoritária ascendente mais as classes majoritárias dependentes) constituía, para efeito daquela transformação histórica, o povo. E isso permitia à classe minoritária ascendente a norma de falar, no poder, em nome do povo, como se, realmente, o representasse.
Cada nova classe que passava a ocupar o poder em lugar de outra, também minoritária, via-se obrigada, pela necessidade política, para alcançar os fins a que se propunha, para defender os seus interesses, a apresentar esses interesses não como seus apenas, mas como os interesses comuns de toda a sociedade, os interesses do povo. E expressava esses interesses em termos ideais, apresentava as suas formulações e teorias revestidas do caráter de generalidade, as suas normas como as únicas racionais e dotadas de vigência absoluta e até do condão da eternidade. E moldava a vida social de forma conveniente, definindo como sagrados os seus interesses, fixados como se fossem da totalidade, protegendo-os com a lei e com a força, e tentando protegê-los ainda pelo costume; e definindo como crime tudo o que atentasse contra os seus interesses, punindo e perseguindo os que o cometiam, ou apenas punham em dúvida o seu caráter sagrado e eterno.
Mas, na realidade, nada é eterno, e o sagrado de hoje pode ser o sacrílego de amanhã.”


“Claro que há sempre um pensamento conservador, alimentado pela classe dominante minoritária, em afanosa busca de eternidade para a sua dominação e obrigada a explicá-la e a justificá-la. Isto acontece porque, frequentemente, as ideias se atrasam em relação à realidade: o conhecimento humano é condicionado pela ordem social e, portanto, entravado quando existem forças que buscam eternizar-se no poder. Conservadores são aqueles que não verificam quanto o processo histórico avançou objetivamente e quanto os seus conhecimentos estacionaram em situações precedentes.”


“O Império fora estabelecido como forma de servir a uma classe dominante homogênea, constituída pelos senhores de terras, que o eram também de escravos e de servos. Agora, as condições são outras, e ele já não atendia aos interesses da classe dominante cindida entre latifundiários, senhores de terras e de servos, e burgueses. Não atendia, com mais forte razão, aos interesses da pequena burguesia. Nem aos do reduzido proletariado; nem aos do semiproletariado; muito menos aos dos servos. A tarefa progressista, nas condições brasileiras dos fins do século XIX, consistia em liquidar o Império, não no que representava de formal e exterior, mas no que tinha de essencial: todas as velhas relações econômicas e políticas que entravavam o desenvolvimento do país. Que classes, camadas e grupos estavam interessadas, pelas suas condições objetivas, em liquidar as velhas instituições, tão profundamente ancoradas no período colonial e transferidas ao período autônomo? Se a Independência reunira o apoio de todas elas, com uma participação proporcional à força de cada uma e ao grau de consciência política de seus elementos, já a República não provocaria a unanimidade. As classes interessadas na implantação do novo regime compunham uma ampla frente, encabeçada pela burguesia nascente, a que se somavam a pequena burguesia, o proletariado, o semiproletariado e os servos. Como acontecera com a Independência, a burguesia nascente se mostrava vacilante; a pequena burguesia, que esposara muito antes o ideal republicano, era mais enérgica em suas manifestações; o reduzido proletariado e particularmente o semiproletariado não haviam alcançado ainda o grau de consciência política necessário a uma participação eficiente; e a servidão permanecia estática, isolada no vasto mundo rural. Quem constituía o povo, então? Estas classes, evidentemente, as que estavam interessadas na tarefa progressista, historicamente necessária, de criar a República. A classe latifundiária não fazia parte do povo. Seu último serviço fora a Independência.
Gerada a circunstância em que se consumaria a derrocada do velho regime, a classe média, representada particularmente pelo grupo militar, assumiu a direção dos acontecimentos. Mas a burguesia nascente apressou-se em compor as forças com o latifúndio para poder moldar o novo regime na conformidade com os seus interesses e os das velhas forças sociais. Como por ocasião da Independência, assiste-se a um processo claramente repartido em duas fases: a primeira, em que o povo, representado pelas classes interessadas na realização das tarefas progressistas, opera unido e consuma os atos concretos relativos à transformação historicamente necessária; a segunda, em que a classe dirigente, a que detém a hegemonia na composição que constitui o povo, torna-se a nova classe dominante, e comanda as alterações à medida dos seus interesses, preferindo a retomada da aliança com as forças do atraso à manutenção da aliança com as forças do avanço. A unidade tácita e eventual da primeira fase se desfaz; as contradições e os antagonismos de classe reaparecem.”


“Povo, no Brasil, é o conjunto que compreende o campesinato, o semiproletariado, o proletariado; a pequena burguesia e as partes da alta e da média burguesia que têm seus interesses confundidos com o interesse nacional e lutam por este. É uma força majoritária inequívoca. Organizada, é invencível. Para organizá-la, entretanto, para permitir que seus componentes tomem consciência da realidade, superando o concentrado bombardeio da propaganda imperialista, arrimada em poderosos recursos materiais e detentora do aparelho de difusão do pensamento, faz-se indispensável o regime democrático, de liberdade de pensamento, de reunião e de associação. Estão excluídos do povo, pois, nesta fase histórica, e agora para sempre, enquanto classes, os latifundiários, a alta burguesia e a média comprometidos com o imperialismo, como os elementos da pequena burguesia que o servem. É o conjunto das classes, camadas e grupos.”


“Não era sem razão que a Constituição de 1824 consignava que aos parlamentares cabia o tratamento de “altos e poderosos senhores”. Eles eram, realmente, altos, poderosos e senhores, — senhores de terras e de escravos ou de servos, altos pela distância vertical que os separava dos que não eram senhores, poderosos porque retinham todo o poder, reservavam-se todos os proveitos políticos da Independência e moldavam o Estado à imagem e semelhança de sua classe, faziam dele instrumento adequado à defesa de seus interesses.
Os direitos políticos eram hierárquicos: ficavam excluídos das eleições, preliminarmente, todos os que se compreendiam na faixa dos “cidadãos ativos”, isto é, os que trabalhavam, os criados de servir, os que operavam a jornal, os caixeiros das casas comerciais, todos os que, em suma, auferiam rendimentos líquidos anuais inferiores ao valor de 150 alqueires de farinha de mandioca. E, claro, os escravos, que não eram considerados brasileiros, conforme determinava o artigo 5°, em seu parágrafo primeiro. Mais tarde esse dispositivo foi emendado: os escravos passaram a ser considerados brasileiros; mas não eram considerados cidadãos. Os eleitores do primeiro grau deveriam ter rendimento líquido anual superior ao valor de 150 alqueires de farinha de mandioca; os de segundo grau, que escolhiam os deputados e senadores, deveriam tê-los superiores ao valor de 250 alqueires de farinha de mandioca; aos candidatos a deputados exigia-se rendimento superior ao valor de 500 alqueires de farinha de mandioca; aos candidatos a senadores, superior a 1.000 alqueires. Era a hierarquia da mandioca, padrão da moeda política no novo País. Além disso, aos candidatos a deputados e senadores exigia-se ainda a qualidade de proprietário foreiro ou rendeiro por longo prazo de bem de raiz no campo, de fábrica ou estabelecimento industrial. Ficavam excluídos, assim, os que auferissem renda de atividade mercantil. Eram ou não eram “altos e poderosos senhores”? (...)
Em 1846, reformam a lei eleitoral, tornando-a mais dura do que a anterior e, nela, a pretexto da desvalorização da moeda, fixam os direitos eleitorais em base metálica, dobrando, consequentemente, os mínimos antes exigidos. Não se falava em analfabetos, naquele tempo; não era necessária essa discriminação para afastar o povo dos direitos políticos; o povo era privado desses direitos pelas exigências da renda. A lei era clara: só os “altos e poderosos senhores” podiam ser eleitos.
Mas, em 1850, o Brasil tinha pouco mais de oito milhões de habitantes, dos quais mais de dois e meio milhões eram escravos. Isto é: em cada três brasileiros, um era escravo. Decreto de 5 de julho de 1876 declarou que o País tinha 1.486 paróquias eleitorais e 24.637 eleitores, para uma população de dez milhões de habitantes. O eleitorado, assim, reduzia-se a 0,25% da população. (...)
“As eleições primárias — conta um historiador — sempre foram a turbulência e a pancadaria dentro e fora das igrejas, à pergunta sacramental se alguém tinha que denunciar suborno ou conluio para que a eleição recaísse em determinadas pessoas. Nesses conflitos, venciam os grupos mais poderosos ou mais vantajosamente armados. As eleições secundárias eram a fraude, a assinatura dos eleitores em folhas de papel em branco remetidas aos presidentes das províncias”. João Francisco Lisboa, severo observador dos costumes, depõe assim: “A violência parece ser uma das condições indeclináveis do nosso sistema eleitoral. Durante a crise, e sobretudo no dia da eleição, o espanto e o terror reinam nas cidades, vilas e povoações; os soldados e carcereiros percorrem armados as ruas e praças; há gritos, clamores, tumultos de todo gênero; dir-se-iam os preparativos de uma batalha, não os de um ato pacífico, e a cena do feito termina às vezes com espancamentos, tiros e descargas”. O ensaísta maranhense define adiante as eleições, na época, como “sistema combinado da trapaça, falsidade, traição, imoralidade, corrupção e violência”. (...)
Joaquim Nabuco queria que “o direito de voto fosse extensivo a quantos a lei impõe o dever de morrer pela pátria, de modo que o sistema eleitoral não continuasse a ser uma comédia cheia de incidentes trágicos, ou uma tragédia cheia de incidentes cômicos”. (...)
A eleição direta afetava apenas o formal, porém. Não tocava a essência do problema da representação. Ainda assim, a tramitação do projeto foi lenta, agoniada, tempestuosa. O mal não estava na lei, argumentava-se, mas “na massa ignorante da nação”. Escrevendo ao seu querido Gobineau, o Imperador afirmava, referindo-se ao problema: “Em todo caso, eu não tenho confiança senão na educação do povo”. Pedro II achava que o sufrágio universal era uma calamidade e que novas leis eleitorais “só poderiam ser perfeitamente bem sucedidas quando a educação política for outra que não a do nosso povo”. Era antiga, e peculiar a uma sociedade dominada por “altos e poderosos senhores”, a tendência em atribuir todos os males à “ignorância” do povo, e a admitir que só a “educação” deste permitiria o avanço político. E estava claro que os “altos e poderosos senhores não estavam interessados nem na educação do povo nem em seu avanço político. (...)
Na primeira escolha de Senadores, em 1826, para só falar nos que foram nomeados, o Pará elegeu J. J. Nabuco de Araújo com 94 votos; o Rio Grande do Norte elegeu Afonso de Albuquerque Maranhão com 21 votos; Alagoas elegeu Felisberto Caldeira Brant Pontes com 67 votos; o Espírito Santo elegeu Francisco dos Santos Pinto com 31 votos; Santa Catarina elegeu Lourenço Rodrigues de Andrade com 32 votos; Mato Grosso elegeu Caetano Pinto de Miranda Montenegro com 10 votos; São Paulo elegeu José Feliciano Fernandes Pinheiro com 108 votos; o candidato que alcançou maior votação foi Francisco Carneiro de Campos, na Bahia, com 502 votos. Nos meados do século, o Amazonas, em 1852, levou ao Senado Herculano Ferreira Pena com 45 votos; o Espírito Santo, em 1850, a José Martins da Cruz Jobim com 64 votos; Mato Grosso, em 1854, a José Antônio de Miranda com 65 votos. Nos fins do regime, era ainda possível a escolha de um senador preferido por apenas 158 votos, como aconteceu, no Espírito Santo, em 1879, com Cristiano Benedito Otoni. O senador que alcançou maior votação em todo o período monárquico foi Evaristo Ferreira da Veiga, em 1887, em Minas Gerais, com 10.572 votos, sendo escolhido em detrimento de Manoel José Soares, que alcançara 10.900 votos. Logo após a adoção da eleição direta, e em um dos maiores colégios eleitorais do país, na Bahia, Rui Barbosa foi reconduzido à Câmara com pouco mais de 400 votos. Claro está que o povo não participava dos pleitos eleitorais e, portanto, na época, da atividade política, e, consequentemente, do poder. (...)
O capitalismo brasileiro dava apenas os primeiros passos, e carregava pesadíssimas heranças, a do passado escravista e a da resistência das relações feudais peculiares a uma área colonial. Devia, por tudo isso, apresentar uma fachada que a identificasse com as repúblicas existentes, — com o seu aparato institucional, — e um fundo em que se escondiam as profundas deficiências políticas ligadas ao atraso econômico. O capricho na fachada foi levado a extremo rigor, e adaptou-se, — não houve cópia, como se afirma geralmente, — a mais avançada lei básica, a dos Estados Unidos, para vestir o corpo desigual do País ainda recém-egresso do escravismo. Concederam-se ao povo, formalmente, os direitos democráticos peculiares à revolução burguesa, mas não foram criadas as condições, — nem estava no poder dos indivíduos criá-las, — que permitissem tornar concretos aqueles direitos.
No que diz respeito à representação, e só este aspecto nos interessa aqui, revogou-se de plano o sistema eleitoral fundado na renda para se estabelecer o sufrágio universal. E só então surgiu, porque só então se tornou necessário, o problema do analfabeto. O voto era um direito concedido apenas aos homens maiores, com as exclusões conhecidas dos incapazes; mas apenas aos homens maiores que soubessem ler e escrever. Ficava, assim, excluída a mulher, — uma grande vítima da sociedade burguesa. Ficava excluído também o analfabeto. Se alfabetizar-se fosse um ato de vontade, apenas, isto é, se o regime tivesse condições para oferecer a todos o ensino de alfabetização, ainda assim a discriminação seria discutível. Como não era esse o caso — o Brasil estava longe de atingir uma etapa de desenvolvimento em que a alfabetização se constituísse em objetivo da classe dominante — a discriminação tinha um sentido antidemocrático evidente, e um claro conteúdo de classe. Foi aceita, entretanto, com naturalidade, por todos os motivos ligados ao meio e à época, e ainda porque a inteligência conservava, no Brasil, e ainda conserva, um timbre aristocrático, que classifica o homem culto, ou mesmo aquele rudimentarmente dotado de meios de entendimento e de expressão. (...)
O eleitorado brasileiro compreendia, em 1945, quando o Brasil retomou a fachada democrática, 7.460.000 eleitores. Em 1954, atingiu a 15.105.000. Para as eleições de 1958, foi exigida rigorosa depuração. Preocupava a determinadas forças políticas dominantes a crescente participação popular nas eleições. O objetivo foi excluir os que “mal sabiam assinar o nome” e tinham a ousadia de pretender competir com os doutores, de participar da escolha política. Em todos os países, normalmente, o eleitorado cresce com o tempo, quando menos pela simples força do aumento vegetativo da população adulta. No Brasil, assistiu-se a esse fato singular: a redução do eleitorado que, dos 15.105.000 de 1954 passou aos 13.780.000 de 1958. Mais de um milhão de brasileiros perdeu o direito de votar. (...)
É conhecida a longa história eleitoral de órgãos como o DNOCS e o DNER. Eis um depoimento, entre muitos outros, de como se processam as eleições: “Cabo eleitoral de candidato de bolsa bem recheada, conforme fotocópia existente, escreveu bilhete no verso da chapa de um político cearense, em presença do candidato a vereador da UDN, sr. Pedro Rodrigues, de Porteiras, propondo comprar votos de um a vinte a Cr$ 1.500,00; de vinte em diante a Cr$ 2.000,00. Assinou o proponente com a maior naturalidade do mundo. O original acha-se à disposição da Justiça Eleitoral. O escândalo não ficou só nisso. Na apuração, em Milagres, perante a respectiva Junta Eleitoral, estavam vereadores que tinham vendido votos aos ricaços vindos da Capital, a fim de comprovarem a saída dos mesmos nas urnas para o direito de recepção da segunda parcela do contrato. A primeira fora paga à vista...”
Outro depoimento: “Os negócios de compra e venda de votos, às claras, sem a mínima reserva, assumiram naquele município proporções nunca vistas no interior do Estado. Para deputado federal, houve quem gastasse um milhão e meio de cruzeiros. Para deputado estadual, a despesa de cada um atingiu 350 mil cruzeiros”. Terceiro depoimento: “Ao chegar em Porteiras, verifiquei que candidatos procedentes desta Capital e de outras partes do Estado haviam instalado, no centro da praça principal... seus quartéis-generais e passavam a comprar votos à razão de Cr$ 1.000,00. O eleitor recebia 50% no momento da transação, assinava uma promissória e deixava o título com o candidato ou seus agentes até o momento de votar. Após a votação, recebia o saldo... Mais tarde, porém, surgiu um problema novo: certos candidatos elevaram a cotação do voto para Cr$ 2.000,00. Em face disso, diversos eleitores voltaram à presença daqueles aos quais já haviam vendido os votos, tentando rescindir os contratos... A fim de assegurar a votação comprada, houve candidatos que instituíram o “voto de mochila”. Distribuíam as suas cédulas dentro de minúsculas sacolas de morim, dotadas de um elástico que o eleitor prendia à perna quando ia votar. Isso evitava que a chapa viesse a ser trocada pelos candidatos ou chefetes locais”. (...)
O quadro aparece em todos os seus traços justamente nos episódios que contrastam com a rotina, nos casos de dissenção, de discrepância, de oposição: quando algum candidato não escolhido pelo aparelho oficial tenta o sucesso das urnas, quando isso ocorre no plano nacional, com a substituição do presidente, quando das derrubadas de oligarquias, etc. Contra os insubmissos lança-se a força total do aparelho, desde a polícia até o mecanismo das nomeações, desde o comando dos “coronéis” até o engenhoso sistema das atas falsas. E tudo culmina nos reconhecimentos, quando as comissões especiais, no Congresso, depuram tranquilamente os adversários, nas “degolas” conhecidas, afastando os que ousaram infringir essa curiosa ortodoxia da obediência. As eleições não merecem fé, as apurações não merecem fé, os reconhecimentos não merecem fé. E isto durou até 1930, quando as condições do País impuseram mudança. Foi então que um dos mais sagazes seguidores dos velhos processos disse a conhecida frase: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Traduzida em linguagem corrente, poderia ser entendida assim: “Façamos, nós da classe dominante, as modificações necessárias para que permaneçamos como classe dominante”.”


“Mas chegou, sem a menor dúvida, a fase em que as tarefas progressistas e revolucionárias desta etapa histórica, em nosso País, têm de ser cumpridas, em que o seu cumprimento é inevitável. Se elas se cumprirão por um processo meramente político ou se serão cumpridas por um processo violento, depende das classes dominantes superadas e do imperialismo a que servem, sendo certo que o povo prefere o caminho pacífico. As classes dominantes, no Brasil, assumem cada vez mais o papel de forças subversivas — elas sim — porque desrespeitam a lei, sempre que o cumprimento da lei lhes fere ou ameaça os interesses. São elas que fomentam a agitação no País, pelo uso e abuso da autoridade e da violência, criando situações de intranquilidade e ferindo todos os direitos. São elas as minorias insatisfeitas. São elas que servem a interesses estrangeiros, por eles subvencionadas largamente. São elas a anti-nação, rasgando e negando tudo o que é nacional, o interesse nacional, a riqueza nacional, a cultura nacional.”