Editora: Ática
ISBN: 978-850808935-2
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 424
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Sinopse: Ver Parte I
“Características
da metafísica em seus períodos
No primeiro período, a metafísica possui as
seguintes características:
·
investiga aquilo que é ou existe, a realidade
em si;
·
é um conhecimento racional apriorístico, isto
é, não se baseia nos dados conhecidos diretamente pela experiência sensível ou
sensorial (nos dados empíricos), mas nos puros conceitos formulados pelo
pensamento puro ou pelo intelecto;
·
é um conhecimento sistemático, isto é, cada
conceito depende de outros e se relaciona com outros, formando um sistema
coerente de ideias ligadas entre si;
·
exige a distinção entre ser e parecer ou entre realidade e aparência, seja porque, para alguns filósofos, a aparência é irreal
e falsa, seja porque, para certos filósofos, a aparência só pode ser
compreendida e explicada pelo conhecimento da realidade que subjaz a ela.
Esse primeiro período da metafísica termina
quando Hume explica que os conceitos metafísicos não correspondem a nenhuma
realidade externa, existente em si mesma e independente de nós, mas são meros
nomes gerais para as coisas, nomes que nos vêm pelo hábito mental ou psíquico
de associar em ideias as sensações, as percepções e as impressões dos sentidos,
quando são constantes, frequentes e regulares.
O segundo período tem seu centro na filosofia
de Kant, que demonstra a impossibilidade dos conceitos tradicionais da
metafísica para alcançar e conhecer a realidade em si das coisas. Em seu lugar,
Kant propõe que a metafísica seja o conhecimento de nossa própria capacidade de
conhecer — seja uma crítica21
da razão pura teórica —, tomando a realidade como aquilo que existe para nós
enquanto somos o sujeito do conhecimento.
A metafísica poderá continuar usando o mesmo
vocabulário que usava tradicionalmente, mas o sentido conceitual das palavras
mudará totalmente, pois não se referem ao que existe em si e por si mas ao que
existe para nós e é organizado por nossa razão. Embora com muitas diferenças
(que veremos mais tarde), Husserl trilhará um caminho próximo ao de Kant.
A metafísica contemporânea é chamada de
ontologia (veremos posteriormente o sentido dessa palavra) e procura superar
tanto a antiga metafísica quanto a concepção kantiana. Considera o objeto da
metafísica a relação originária mundo-homem. Suas principais características
são:
·
investiga os diferentes modos como os entes
ou os seres existem;
·
investiga a essência ou o sentido (a
significação) e a estrutura desses entes ou seres;
·
investiga a relação necessária entre a
existência e a essência dos entes e o modo como aparecem para nossa
consciência, manifestação que se dá nas várias formas em que a consciência se
realiza (percepção, imaginação, memória, linguagem, intersubjetividade,
reflexão, ação moral e política, prática artística, técnicas);
·
alguns consideram que a metafísica ou
ontologia contemporânea deveria ser chamada de descritiva, porque, em vez de
oferecer uma explicação causal da realidade, é uma descrição das estruturas do
mundo e do nosso pensamento.”
“As
três principais concepções de ciência
Historicamente, três têm sido as principais
concepções de ciência ou de ideais de cientificidade: a racionalista, cujo modelo de objetividade é a matemática; a empirista, que toma o modelo de
objetividade da medicina grega e da história natural do século XVII, e a construtivista, cujo modelo de
objetividade advém da ideia de razão como conhecimento aproximativo.
A concepção racionalista — que se estende dos
gregos até o final do século XVII — afirma que a ciência é um conhecimento
racional dedutivo e demonstrativo como a matemática, portanto, capaz de provar
a verdade necessária e universal de seus enunciados e resultados, sem deixar
nenhuma dúvida. Uma ciência é a unidade sistemática de axiomas, postulados e
definições, que determinam a natureza e as propriedades de seu objeto, e de
demonstrações, que provam as relações de causalidade que regem o objeto
investigado.
O objeto científico é uma representação
intelectual universal, necessária e verdadeira das coisas representadas, e
corresponde à própria realidade, porque esta é racional e inteligível em si
mesma. As experiências científicas são realizadas apenas para verificar e
confirmar as demonstrações teóricas, e não para produzir o conhecimento do
objeto, pois este é conhecido exclusivamente pelo pensamento. O objeto
científico é matemático, porque a realidade possui uma estrutura matemática,
ou, como disse Galileu, “o grande livro da natureza está escrito em caracteres
matemáticos”.
A concepção empirista — que vai da medicina
grega e Aristóteles até o final do século XIX — afirma que a ciência é uma
interpretação dos fatos baseada em observações e experimentos que permitem
estabelecer induções e que, ao serem completadas, oferecem a definição do
objeto, suas propriedades e suas leis de funcionamento. A teoria científica
resulta das observações e dos experimentos, de modo que a experiência não tem
simplesmente a função de verificar e confirmar conceitos, mas a de produzi-los.
Eis por que, nesta concepção, sempre houve grande cuidado para estabelecer
métodos experimentais rigorosos, pois deles dependia a formulação da teoria e a
definição da objetividade investigada.
Essas duas concepções de cientificidade
possuíam o mesmo pressuposto, embora o realizassem de maneiras diferentes.
Ambas consideravam que a teoria científica era uma explicação e uma
representação verdadeira da própria realidade, tal como esta é em si mesma. A
ciência era uma espécie de raio X da realidade. A concepção racionalista era hipotético-dedutiva, isto é, definia o
objeto e suas leis e disso deduzia propriedades, efeitos posteriores,
previsões. À concepção empirista era hipotético-indutiva,
isto é, apresentava suposições sobre o objeto, realizava observações e
experimentos e chegava à definição dos fatos, às suas leis, suas propriedades,
seus efeitos posteriores e a previsões.
A concepção construtivista — iniciada em nosso
século — considera a ciência uma construção de modelos explicativos para a
realidade e não uma representação da própria realidade. O cientista combina
dois procedimentos — um vindo do racionalismo, outro vindo do empirismo — e a
eles acrescenta um terceiro, vindo da ideia de conhecimento aproximativo e
corrigível.
Como o racionalista, o cientista
construtivista exige que o método lhe permita e lhe garanta estabelecer
axiomas, postulados, definições e deduções sobre o objeto científico. Como o
empirista, o construtivista exige que a experimentação guie e modifique
axiomas, postulados, definições e demonstrações. No entanto, porque considera o
objeto uma construção lógico-intelectual e uma construção experimental feita em
laboratório, o cientista não espera que seu trabalho apresente a realidade em
si mesma, mas ofereça estruturas e modelos de funcionamento da realidade,
explicando os fenômenos observados. Não espera, portanto, apresentar uma
verdade absoluta, e sim uma verdade aproximada que pode ser corrigida,
modificada, abandonada por outra mais adequada aos fenômenos. São três as
exigências de seu ideal de cientificidade:
1. que haja coerência (isto é, que não haja contradições)
entre os princípios que orientam a teoria;
2. que os modelos dos objetos (ou estruturas dos
fenômenos) sejam construídos com base na observação e na experimentação;
3. que os resultados obtidos possam não só alterar os
modelos construídos, mas também alterar os próprios princípios da teoria,
corrigindo-a.”
“A contribuição do marxismo
O marxismo permitiu compreender que os fatos
humanos são instituições sociais e históricas produzidas não pelo espírito e
pela vontade livre dos indivíduos, mas pelas condições objetivas nas quais a
ação e o pensamento humanos devem realizar-se. Levou a compreender que os fatos
humanos mais originários ou primários são as relações dos homens com a natureza
na luta pela sobrevivência e que tais relações são as de trabalho, dando origem
às primeiras instituições sociais: família (divisão sexual do trabalho),
pastoreio e agricultura (divisão social do trabalho), troca e comércio
(distribuição social dos produtos do trabalho).
Assim, as primeiras instituições sociais são econômicas. Para mantê-las, o grupo
social cria ideias e sentimentos, valores e símbolos aceitos por todos e que
justificam ou legitimam as instituições assim criadas. Também para
conservá-las, o grupo social cria instituições de poder que sustentem (pela
força, pelas armas ou pelas leis) as relações sociais e as ideias-valores-símbolos
produzidos.
Dessa maneira, o marxismo permitiu às
ciências humanas compreender as articulações necessárias entre o plano
psicológico e o social da existência humana; entre o plano econômico e o das
instituições sociais e políticas; entre todas elas e o conjunto de ideias e de
práticas que uma sociedade produz.
Graças ao marxismo as ciências humanas
puderam compreender que as mudanças históricas não resultam de ações súbitas e
espetaculares de alguns indivíduos ou grupos de indivíduos, mas de lentos processos
sociais, econômicos e políticos baseados na forma assumida pela propriedade dos
meios de produção e pelas relações de trabalho. A materialidade da existência
econômica comanda as outras esferas da vida social e da espiritualidade e os
processos históricos abrangem todas elas.
Enfim, o marxismo trouxe como grande
contribuição à sociologia, à ciência política e à história a interpretação dos
fenômenos humanos como expressão e resultado de contradições sociais, de lutas
e conflitos sociopolíticos determinados pelas relações econômicas baseadas na
exploração do trabalho da maioria pela minoria de uma sociedade.”
“O ideal científico
O percurso que fizemos no estudo das ciências
evidencia a existência de um ideal
científico: embora continuidades e rupturas marquem os conhecimentos
científicos, a ciência é a confiança que a cultura ocidental deposita na razão
como capacidade para conhecer a realidade, mesmo que esta, afinal, tenha de ser
inteiramente construída pela própria atividade racional.
A lógica que rege o pensamento científico
contemporâneo está centrada na ideia de demonstração e prova, baseada na
definição ou construção do objeto do conhecimento por suas propriedades e
funções e da posição do sujeito do conhecimento, por meio das operações de
análise, síntese e interpretação. A ciência contemporânea funda-se:
·
na distinção entre sujeito e objeto do
conhecimento, que permite estabelecer a ideia de objetividade, isto é, de
independência dos fenômenos em relação ao sujeito que conhece e age;
·
na ideia de método como um conjunto de
regras, normas e procedimentos gerais, que servem para definir ou construir o
objeto e para o autocontrole do pensamento durante a investigação e, após esta,
para a confirmação ou falsificação dos resultados obtidos. A ideia de método
tem como pressuposto que o pensamento obedece universalmente a certos
princípios internos — identidade, não contradição, terceiro excluído, razão
suficiente — dos quais dependem o conhecimento da verdade e a exclusão do
falso. À verdade pode ser compreendida seja como correspondência necessária
entre os conceitos e a realidade, seja como coerência interna dos próprios
conceitos;
·
nas operações de análise e síntese, isto é,
de passagem do todo complexo às suas partes constituintes ou de passagem das
partes ao todo que as explica e determina. O objeto científico é um fenômeno
submetido à análise e à síntese, que descrevem os fatos observados ou constroem
a própria entidade objetiva como um campo de relações internas necessárias, ou
seja, uma estrutura que pode ser conhecida em seus elementos, suas
propriedades, suas funções e seus modos de permanência ou de transformação;
·
na ideia de lei do fenômeno, isto é, de
regularidades e constâncias universais e necessárias, que definem o modo de ser
e de comportar-se do objeto, seja este tomado como um campo separado dos
demais, seja em suas relações com outros objetos ou campos de realidade. A lei
científica define o que é o fato-fenômeno ou o objeto construído pelas
operações científicas. Em outras palavras, a lei científica diz como o objeto
se constitui, como se comporta, por que e como permanece, por que e como se
transforma, sobre quais fenômenos atua e de quais sofre ação. A lei define o
objeto segundo um sistema complexo de relações necessárias de causalidade,
complementaridade, inclusão e exclusão. A ideia de lei visa marcar o caráter
necessário do objeto e afastar as ideias de acaso, contingência,
indeterminação, oferecendo o objeto como completamente determinado pelo
pensamento ou completamente conhecido ou cognoscível;
·
no uso de instrumentos tecnológicos e não
simplesmente técnicos. Os instrumentos técnicos são prolongamentos de
capacidades do corpo humano e destinam-se a aumentá-las na relação do nosso
corpo com o mundo. Os instrumentos tecnológicos são ciência cristalizada em
objetos materiais, nada possuem em comum com as capacidades e aptidões do corpo
humano; visam intervir nos fenômenos estudados e mesmo construir o próprio
objeto científico; destinam-se a dominar e transformar o mundo e não simplesmente
a facilitar a relação do homem com o mundo. À tecnologia confere à ciência
precisão e controle dos resultados, aplicação prática e interdisciplinaridade.
·
na criação de uma linguagem específica e
própria, distante da linguagem cotidiana e da linguagem literária. À ciência
procura afastar os dados qualitativos e perceptivo-emotivos dos objetos ou dos
fenômenos para guardar ou construir apenas seus aspectos quantitativos e
relacionais.
A linguagem cotidiana e a literária são
conotativas e polissêmicas, o que significa que nelas as palavras possuem
múltiplos significados simultâneos, subentendidos, ambiguidades e exprimem
tanto o sujeito quanto as coisas, ou seja, exprimem as relações vividas entre o
sujeito e o mundo qualitativo de sons, cores, formas, odores, valores,
sentimentos, etc.
Nas ciências, porém, sons e cores são
explicados como variação no comprimento das ondas sonoras e luminosas,
observadas e medidas no laboratório. Valores e sentimentos são explicados pelas
análises do corpo vivido e da consciência, feitas pela psicologia, pelas
análises da estrutura e organização da sociedade, feitas pela sociologia e pela
antropologia.
A linguagem científica destaca o objeto das
relações com o sujeito, separa-o da experiência vivida cotidianamente e
constrói uma linguagem puramente denotativa para exprimir sem ambiguidades as
leis do objeto. O simbolismo científico rompe com o simbolismo da linguagem
cotidiana construindo uma linguagem própria, com símbolos unívocos e
denotativos, de significado único e universal. A ciência constrói o algoritmo e
fala por meio deles ou de uma combinatória de estilo matemático.
Justamente por serem estes os principais
traços do ideal científico, podemos compreender por que existem os problemas
epistemológicos examinados nos capítulos precedentes. Em outras palavras, o
ideal de cientificidade impõe às ciências critérios e finalidades que, quando
impedidos de se concretizarem, forçam rupturas e mudanças teóricas profundas,
fazendo desaparecer campos e disciplinas científicos ou levando ao surgimento
de objetos, métodos, disciplinas e campos de investigação novos.”
“Cultura
e antropologia
A palavra antropologia
é composta de duas palavras gregas: antropos,
que significa “homem”, e logía, “estudo”
(palavra derivada de lógos, que
significa “pensamento ou razão”, “linguagem ou discurso”). A antropologia
estuda os seres humanos na condição de seres culturais. O antropólogo procura,
antes de mais nada, determinar em que momento e de que maneira os humanos
instituem sua diferença em relação à natureza, fazendo assim surgir o mundo
cultural.
Os filósofos, a partir do século XVIII,
consideraram que os humanos diferem da natureza graças ao pensamento, à
linguagem, ao trabalho e à ação voluntária livre.
Os antropólogos, a partir do século XX, sem
negar a afirmação dos filósofos, procuram aquela ação com a qual os seres
humanos instituem a cultura propriamente dita. Ou seja, como os filósofos, os
antropólogos também consideram que as condições para que haja cultura são o
pensamento, a linguagem, o trabalho e a ação voluntária, porém julgam que não
basta apontar essas condições e que é preciso dizer que ação os homens
praticaram ou que decisão tomaram que os fizeram passar da possibilidade da cultura
à realidade efetiva dela.
Se, para muitos historiadores, essa ação foi
o trabalho, para muitos antropólogos a cultura foi instituída quando os humanos
marcaram simbolicamente sua diferença com relação à natureza, decretando uma
lei que não poderia ser transgredida e, se o fosse, a comunidade exigiria
reparação com a morte do transgressor. A diferença entre homem e natureza, que
dá origem à cultura, surge com a lei da proibição do incesto, lei inexistente
entre os animais. Essa lei dá início à sexualidade propriamente humana, que não
é apenas a satisfação imediata de uma necessidade biológica, mas é definida por
regras que instituem o proibido e o permitido na expressão do desejo. Os seres
humanos dão sentido à sexualidade.
Para alguns antropólogos, além dessa lei, a
diferença entre homem e natureza também é estabelecida quando os humanos
definem uma outra lei que, se transgredida, causa a ruína da comunidade e do
indivíduo: a lei que separa o cru e o cozido, lei também inexistente entre os
animais. À separação entre o cru e o cozido e a exigência de que os humanos
comam alimentos que passaram pelo fogo colocam a culinária no ponto inicial da
cultura. Assim como a sexualidade humana, também a alimentação humana não é
apenas a satisfação de uma necessidade biológica de sobrevivência, mas está ligada
a regras que lhe dão um sentido propriamente humano.
Essas duas primeiras leis estruturam o mundo
humano a partir da oposição entre puro (permitido) e impuro (proibido),
oposição inexistente para todo o restante da natureza. Sexualidade e culinária
introduzem a dimensão simbólica da vida humana.
A cultura como ordem simbólica
A cultura é instituída no momento em que os
humanos determinam para si mesmos regras e normas de conduta que asseguram a
existência e conservação da comunidade e por isso devem ser obedecidas sob pena
de punição (que pode ir desde um castigo ou a expulsão para longe do grupo de
origem até a morte).
O que é a lei humana? À lei humana é um
mandamento social que organiza toda a vida dos indivíduos e da comunidade,
tanto porque determina o modo de estabelecimento dos costumes e de sua transmissão
de geração a geração como porque preside as ações que criam as instituições
sociais (religião, família, formas de trabalho, guerra e paz, distribuição das
tarefas, formas de poder, etc.). A lei não é uma simples proibição para certas
coisas e obrigação para outras, mas é a afirmação de que os humanos são capazes
de criar uma ordem de existência que não é simplesmente natural (física,
biológica). Essa ordem é a ordem
simbólica.
A ordem simbólica consiste na capacidade
humana para dar às coisas um sentido que está além de sua presença material,
isto é, na capacidade de atribuir significações e valores às coisas e aos
homens, distinguindo entre bem e mal, verdade e falsidade, beleza e feiura;
determinando se uma coisa ou uma ação é justa ou injusta, legítima ou
ilegítima, possível ou impossível. É essa dimensão simbólica que é instituída
com a lei da proibição do incesto e a lei da proibição do cru.
Graças à linguagem e ao trabalho, os seres
humanos tomam consciência do tempo e das diferenças temporais (passado,
presente, futuro), tomam consciência da morte e lhe dão um sentido; organizam o
espaço, humanizando-o (isto é, dando sentido ao próximo e ao distante, ao alto
e ao baixo, ao grande e ao pequeno, ao visível e ao invisível). A diferenciação
temporal e espacial permite que os seres humanos se relacionem com o ausente
diferenciando não só o presente do passado e do futuro e o próximo do distante,
mas também distinguindo o sagrado do profano e os deuses dos homens.
Podemos, então, definir a cultura como tendo
três sentidos principais:
1. criação da ordem simbólica da lei, isto é,
de sistemas de interdições e obrigações estabelecidos a partir da atribuição de
valores às coisas (boas, más, perigosas, sagradas, diabólicas), aos humanos e
suas relações (diferença sexual, significado da virgindade, fertilidade,
virilidade; diferença etária e forma de tratamento das crianças, dos mais
velhos e mais jovens; formas de tratamento dos amigos e dos inimigos; formas de
autoridade e formas de relação com o poder, etc.), aos acontecimentos
(significado da guerra, da peste, da fome, do nascimento e da morte, obrigação
de enterrar os mortos, etc.);
2. criação de uma ordem simbólica da
sexualidade, da linguagem, do trabalho, do espaço, do tempo, do sagrado e do
profano, do visível e do invisível. Os símbolos surgem tanto para representar
como para interpretar a realidade, dando-lhe sentido pela presença do humano no
mundo;
3. conjunto de práticas, comportamentos,
ações e instituições pelos quais os humanos se relacionam entre si e com a
natureza e dela se distinguem, agindo sobre ela ou através dela, modificando-a
(rituais do trabalho, rituais religiosos, construção de habitações, fabricação
de utensílios e instrumentos, culinária, tecelagem, vestuário, formas de guerra
e de paz, dança, música, pintura, escultura, formas de autoridade, etc.).
Na realidade, não existe a cultura, no singular, mas culturas, no
plural, pois os sistemas de proibição e permissão, as instituições sociais,
religiosas, políticas, os valores, as crenças, os comportamentos variam de
formação social para formação social e podem variar numa mesma sociedade no
decorrer do tempo. A esse sentido amplo podemos acrescentar um outro, restrito,
proveniente do antigo sentido de cultivo do espírito: a cultura como criação de
obras da sensibilidade e da imaginação — as obras de arte — e como criação de
obras da inteligência e da reflexão — as obras de pensamento, isto é, a ciência
e a filosofia.
É esse segundo sentido que leva o senso comum
a identificar cultura e escola (educação formal), de um lado, e, de outro, a
identificar cultura e belas-artes (música, pintura, escultura, dança,
literatura, teatro, cinema, etc.). É também esse sentido que leva à distinção
entre cultos e incultos, entendida respectivamente como “escolarmente
instruídos” e “sem instrução escolar”.”
“O pecado
Há religiões da exterioridade e religiões da interioridade.
As religiões da exterioridade são aquelas em que os deuses possuem forma
visível (humana, animal, vegetal ou mineral) e se dirigem às ações externas e
visíveis dos seres humanos; nela, as ordens e os mandamentos se referem a
comportamentos divinos e humanos extemos e visíveis e a relação dos homens com
os deuses se exprime nos ritos e nas cerimônias. As religiões da interioridade
são aquelas em que a divindade é concebida como puro espírito, invisível para
os olhos de nosso corpo, e se dirige ao coração, ao espírito, à alma do crente,
falando à sua consciência e julgando os atos humanos a partir das intenções
interiores do agente. Além de cultuar a divindade com ritos e cerimônias, na
religião da interioridade a relação fundamental do homem com o(s) deus(es) é de
espírito para espírito.
Em algumas religiões da exterioridade, o
pecado é uma ação externa visível, cometida voluntária ou involuntariamente
contra a divindade pela violação de um tabu ou pela má realização de um rito. A
falta é irreverência, sentida na
forma da vergonha, trazendo como
consequência uma impureza que
contamina o faltoso e o grupo, exigindo rituais de purificação ou sacrifícios
expiatórios. Em outras religiões da exterioridade (como as dos babilônios,
celtas, budistas, chineses, gregos, hindus), o pecado não é apenas uma
irreverência vergonhosa, mas também uma culpa
causada seja porque o pecador está possuído por demônios, enfeitiçado por maus
espíritos, seja porque o pecador se torna desmedido, diz o que não deve, faz o
que não deve, deseja o que não pode desejar nem ter. Nesses casos, além dos rituais
de purificação e de sacrifícios expiatórios, tornam-se necessários os
exorcismos (que os sacerdotes praticam sobre os endemoniados e os enfeitiçados)
e purificações individuais (autoflagelação, jejum, abstinência sexual).
Nas religiões da interioridade, como por
exemplo o judaísmo e o cristianismo, a falta ou pecado é uma ofensa cometida
contra Deus por meio de uma ação interna invisível — a intenção —, que se
manifesta num ato externo visível, tendo como causa ou uma vontade má ou um
entendimento equivocado. Quando causado por uma vontade má, o pecado é um crime; quando causado por um
entendimento equivocado, é um erro. É
uma transgressão experimentada na
forma de culpa, exigindo expiação
individual. Nas religiões da exterioridade, o perdão depende exclusivamente de
uma graça divina, isto é, a divindade pode ou não perdoar, independentemente
dos rituais de purificação realizados pelo indivíduo ou pelo grupo. Nas
religiões da interioridade, o perdão — que também virá na forma de uma graça
divina — exige uma experiência interior precisa, o arrependimento, isto é, o reconhecimento da falta (a confissão na
forma de “eu pequei") e a prática de ações que manifestem externamente a
disposição interior do arrependido, seja por meio de preces e orações, seja por
meio de sacrifícios infligidos a si mesmo (autoflagelação, jejum, abstinência
sexual, entrega de bens na forma de esmolas, etc.).
Na maioria das religiões da exterioridade, a
falta ou pecado é uma fatalidade. O fatum
(“destino”, em latim; “fado”, em português) ou a moira (“destino fatal”, em grego) determinou desde sempre que ele
seria cometido por alguém, para desgraça sua e de seu grupo. À falta não
depende da vontade do agente, mas de uma decisão divina, ou da possessão e
enfeitiçamento do pecador, ou do fato de que ele perdeu a medida do que é
permitido aos humanos. Nas religiões da interioridade — como é o caso do
judaísmo e do cristianismo —, a falta nasce da liberdade do agente, que,
conhecendo o bem e o mal (a lei divina), transgride consciente e voluntariamente
o decreto de Deus.
No judaísmo, o pecado é a infração à Torah,
isto é, à lei divina revelada. Como o pecado contamina o grupo, o pecador deve
não só aceitar, mas pedir a Deus punição e sofrimentos pelos quais expie a
culpa, purifique a si mesmo e ao grupo. Dessa maneira, o judaísmo enfatiza as
ideias de confissão, arrependimento e penitência.
No islamismo, o Grande Pecado é a idolatria
(fazer imagens de Alá) e o politeísmo. Os demais pecados são os mesmos do
judaísmo, uma vez que o Islã reconhece a lei divina revelada a Moisés. O crente
é salvo, apesar de seus pecados, pela constância, pela fé, pelas obras e acima
de tudo por seu arrependimento e penitência.
O cristianismo, com São Paulo e Santo
Agostinho, introduz a ideia de pecado
original. Esse pecado não é apenas o primeiro pecado nem apenas o pecado
cometido nas origens, quando Adão e Eva viviam no Paraíso. Ele é original no
sentido de que designa o estado de pecado
que marca a natureza humana em consequência de sua origem, ou seja, de membro
de um gênero de seres (o gênero humano) cuja origem encontra-se no pecado
cometido pelo ancestral, pois o pecado do primeiro homem e da primeira mulher
foi o pecado dos pais e poluiu para sempre toda a descendência humana.
Sem dúvida, para cristianismo, o pecado é um
problema teológico insolúvel, pois o Deus cristão é onipotente e onisciente,
sabendo tudo desde a eternidade e, portanto, conhecendo previamente o pecador.
Se pune o pecado, mas sabia que seria cometido, não seria injusto, por não
impedir que seja cometido? Se conhece eternamente quem pecará e quem não
pecará, não será Deus como o fatum e
a moira? E como falar na liberdade e
no livre-arbítrio do pecador, se desde a eternidade Deus sabia que ele
cometeria o pecado?”

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