Editora: Ática
ISBN: 978-850808935-2
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 424
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Sinopse: Ver Parte
I
“Finalmente, desde o final do século XX, o pós-modernismo vem ganhando
relevância. Seu alvo principal, como vimos há pouco, é a crítica de todos os
conceitos e valores que, até hoje, sustentaram a filosofia e o pensamento dito
ocidental: razão, saber, sujeito, objeto, história, espaço, tempo, liberdade,
necessidade, acaso, natureza, homem etc.
Vimos que o otimismo racionalista da
modernidade foi constatado no decorrer do século XX: a crítica das ideologias,
a descoberta freudiana do inconsciente, a crítica da história, da unidade da
cultura ou de sua pluralidade nacional, dos benefícios das ciências e das
técnicas foram contestando os valores e ideias modernos.
Já no início dos anos 20, com as obras dos
filósofos Wittgenstein e Heidegger, a ideia da metafísica como conhecimento da
realidade última dos seres foi contestada e acabou cedendo lugar ao papel da
linguagem na invenção dos próprios seres e dos objetos de conhecimento.
Também, entre os anos 1915 e 1960, com as
filosofias de Husserl e de Merleau-Ponty, surgiu a ideia de que a concepção
moderna de razão era insuficiente para dar conta de todo o pensamento humano,
das experiências e vivências corporais, da linguagem e das artes.
Da mesma maneira, os filósofos do chamado
Círculo de Viena afirmaram, no início do século XX, os limites da filosofia e das
ciências para conhecer as próprias coisas e consideraram a ciência apenas “uma
linguagem bem feita”.
Entre os anos 1960 e 1980, a obra do filósofo
francês Michel Foucault expressava todas as críticas que o século XX vinha
fazendo ao racionalismo moderno, à sua concepção de metafísica, história,
ciência e cultura.
Com isso, podemos dizer que o pós-modernismo
veio sendo gestado no interior da filosofia até o momento em que, nos anos
1960, pôde finalmente expressar-se como uma posição filosófica.
Quais são os campos próprios em que se
desenvolve a reflexão filosófica nestes 26 séculos? São eles:
Ontologia ou metafísica:
conhecimento dos princípios e fundamentos últimos de toda a realidade, de todos
os seres.
Lógica: conhecimento das formas e regras gerais do
pensamento correto e verdadeiro, independentemente dos conteúdos pensados;
regras e critérios que determinam a forma dos discursos ou dos argumentos tanto
para a demonstração científica verdadeira como para os discursos não
científicos; regras para a verificação da verdade ou falsidade de um pensamento
ou de um discurso etc.
Epistemologia: análise crítica das ciências, tanto as
ciências exatas ou matemáticas quanto as naturais e as humanas; avaliação dos
métodos e dos resultados das ciências; compatibilidades e incompatibilidades
entre as ciências, formas de relações entre as ciências etc.
Teoria do conhecimento ou estudo das
diferentes modalidades de conhecimento humano: o conhecimento sensorial ou
sensação e percepção; a memória e a imaginação; o conhecimento intelectual; a
ideia de verdade e falsidade; a ideia de ilusão e realidade; formas de conhecer
o espaço e o tempo; formas de conhecer relações; conhecimento ingênuo e
conhecimento científico; diferença entre conhecimento científico e filosófico
etc.
Ética: estudo dos valores morais (as virtudes), da
relação entre vontade e paixão, vontade e razão; finalidades e valores da ação
moral; ideias de liberdade, responsabilidade, dever, obrigação etc.
Filosofia política: estudo sobre a natureza do
poder e da autoridade; ideia de direito, lei, justiça, dominação, violência;
formas dos regimes políticos e suas fundamentações; nascimento e formas do
Estado; ideias autoritárias, conservadoras, revolucionárias e libertárias;
teorias da revolução e da reforma; análise e crítica das ideologias.
Filosofia da história: estudo sobre a
dimensão temporal da existência humana como existência sociopolítica e
cultural; teorias do progresso, da evolução e teorias da descontinuidade
histórica; significado das diferenças culturais e históricas, suas razões e
consequências.
Filosofia da arte ou estética: estudo das
formas de arte, do trabalho artístico; ideia de obra de arte e de criação;
relação entre matéria e forma nas artes; relação entre arte e sociedade, arte e
política, arte e ética.
Filosofia da linguagem: a linguagem
como manifestação da humanidade do homem; signos, significações; a comunicação;
passagem da linguagem oral à escrita, da linguagem cotidiana à filosófica, à
literária, à científica; diferentes modalidades de linguagem como diferentes
formas de expressão e de comunicação.
História da filosofia: estudo dos
diferentes períodos da filosofia; de grupos de filósofos segundo os temas e
problemas que abordam; de relações entre o pensamento filosófico e as condições
econômicas, políticas, sociais e culturais de uma sociedade; mudanças ou
transformações de conceitos filosóficos em diferentes épocas; mudanças na
concepção do que seja a filosofia e de seu papel ou finalidade.”
“Por identificar razão e certeza, a filosofia afirma que a verdade é
racional; por identificar razão e lucidez (não ficar ou não estar louco), a
filosofia chama nossa razão de luz e luz natural (pois a palavra lucidez vem de luz); por identificar
razão e motivo, por considerar que sempre agimos e falamos movidos por motivos,
a filosofia afirma que somos seres racionais e que nossa vontade é racional;
por identificar razão e causa e por julgar que a realidade opera de acordo com
relações causais, a filosofia afirma que a realidade é racional.”
“A intuição é uma compreensão global e
completa de uma verdade, de um objeto, de um fato. Nela, de uma só vez, a razão
capta todas as relações que constituem a realidade e a verdade da coisa
intuída. É um ato intelectual de discernimento e compreensão, como, por
exemplo, quando um médico, graças ao conjunto de conhecimentos que possui, faz
um diagnóstico em que apreende de uma só vez a doença, sua causa e o modo de
tratá-la. Os psicólogos se referem à intuição usando o termo insight, descrevendo-o como o momento em
que temos uma compreensão total, direta e imediata de alguma coisa, ou o
momento em que percebemos, num só lance, um caminho para a solução de um
problema prático, científico, filosófico, moral ou vital.”
“Por que ainda falamos em
razão?
Diante das concepções descontinuístas da
razão e do pós-modernismo, podemos fazer duas perguntas:
1. Se em cada época, por motivos históricos e
teóricos determinados, a razão muda inteiramente, o que queremos dizer quando
continuamos empregando a palavra razão?
2. Se, em cada ciência, filosofia, teoria ou
expressão do pensamento nada há em comum com as anteriores e as posteriores,
por que dizemos que algumas são racionais e outras não o são? À razão não
seria, afinal, um mito que nossa cultura inventou para si mesma, como dizem os
pós-modernos?
Podemos responder à primeira pergunta dizendo
que continuamos a falar em razão,
apesar de haver muitas e diferentes “razões”, porque mantemos uma ideia que é
essencial à noção ocidental de razão. Que ideia é essa? A de que a realidade, o
mundo natural e cultural, os seres humanos, suas ações e obras têm sentido e esse sentido pode ser conhecido. A atitude racional
de conhecer a realidade não é senão o trabalho do pensamento para apreender,
compreender e interpretar o sentido das coisas, dos fatos, das ideias, ações e
valores humanos. É esse ideal do conhecimento que é conservado quando
continuamos a falar em razão.
Com relação à segunda pergunta, podemos dizer
que, em cada época, os membros da sociedade e da cultura ocidentais julgam a
validade da própria razão como capaz ou incapaz de realizar o ideal do
conhecimento. Esse julgamento pode ser realizado de duas maneiras.
A primeira maneira ou o primeiro critério de
avaliação da capacidade racional é o da coerência
interna de um pensamento ou de uma teoria. Ou seja, quando um pensamento ou
uma teoria se propõem a oferecer um conhecimento, simultaneamente também
oferecem os princípios, os conceitos e os procedimentos que sustentam a
explicação apresentada. Quando não há compatibilidade entre a explicação e os
princípios, os conceitos e os procedimentos oferecidos, dizemos que não há
coerência e que o pensamento ou a teoria não são racionais. A razão é, assim, o
critério de que dispomos para a avaliação, o instrumento para julgar a validade
de um pensamento ou de uma teoria, julgando, ela mesma, sua coerência ou
incoerência.
A segunda maneira é diferente da anterior.
Agora, pergunta-se se um pensamento ou uma teoria contribuem ou não para que os
seres humanos conheçam e compreendam as circunstâncias em que vivem, contribuem
ou não para alterar situações que os seres humanos julgam inaceitáveis ou
intoleráveis, contribuem ou não para melhorar as condições em que os seres
humanos vivem. Assim, a razão, além de ser o critério para avaliar os
conhecimentos, é também um instrumento crítico para compreendermos as
circunstâncias em que vivemos, para mudá-las ou melhorá-las. A razão tem um
potencial ativo ou transformador e por isso continuamos a falar nela e a
desejá-la.”
“Com os filósofos gregos, estabeleceram-se alguns princípios gerais do
conhecimento verdadeiro:
·
a determinação das fontes e formas do
conhecimento: sensação, percepção, imaginação, memória, linguagem, raciocínio e
intuição intelectual;
·
a distinção entre o conhecimento sensível e o
conhecimento intelectual;
·
o papel da linguagem no conhecimento;
·
a diferença entre opinião e saber ou
conhecimento verdadeiro;
·
a diferença entre aparência e essência;
·
a definição dos princípios do pensamento
verdadeiro (identidade, não contradição, terceiro excluído), da forma do
conhecimento verdadeiro (ideias, conceitos e juízos) e dos procedimentos para
alcançar o conhecimento verdadeiro (indução, dedução, intuição);
·
o estabelecimento de procedimentos corretos
que orientam a razão na busca do conhecimento e asseguram sua chegada a
conhecimentos verdadeiros (em Platão, esse procedimento é a dialética, em
Aristóteles, a lógica ou o que ele chama de analítica);
·
a distinção dos campos do conhecimento
verdadeiro segundo os objetos conhecidos em cada um deles, distinção que foi
sistematizada por Aristóteles em três ramos: teorético (referente aos seres que apenas podemos contemplar ou
observar, sem agir sobre eles ou neles interferir); prático (referente às ações humanas: ética, política e economia); e
técnico (referente à fabricação de
instrumentos e de objetos e ao trabalho humano, o qual pode interferir no curso
da natureza — como a agricultura e a medicina —, e fabricar instrumentos ou
artefatos — como os artesanatos, a arquitetura, a escultura, a poesia, a
retórica, etc.).
“As diferenças entre racionalismo e empirismo
não impedem que haja um elemento comum a todos os filósofos a partir da
modernidade, qual seja, tomar o entendimento humano como objeto da investigação
filosófica.
Tomar o entendimento objeto para si próprio,
tomar o sujeito do conhecimento objeto de conhecimento para si mesmo é a grande
tarefa que a modernidade filosófica inaugura ao desenvolver a teoria do
conhecimento. Como se trata da volta do pensamento sobre si mesmo para
conhecer-se, ou do sujeito do conhecimento colocando-se como objeto para si
mesmo, a teoria do conhecimento é a reflexão filosófica.
O pressuposto da teoria do conhecimento como
reflexão filosófica é o de que somos seres racionais conscientes.
O que a teoria do conhecimento entende por
consciência?
A capacidade humana para conhecer, para saber
que conhece e para saber que sabe que conhece. A consciência é um conhecimento
(das coisas e de si) e um conhecimento desse conhecimento (reflexão).
Do ponto de vista da teoria do conhecimento,
a consciência é uma atividade sensível e intelectual dotada do poder de análise
e síntese, de representação dos objetos por meio de ideias e de avaliação,
compreensão e interpretação desses objetos por meio de juízos. É o sujeito do
conhecimento. Este se reconhece como diferente dos objetos, cria e/ou descobre
significações, institui sentidos, elabora conceitos, ideias, juízos e teorias.
Por ser dotado de reflexão, isto é, da capacidade de conhecer-se a si mesmo no
ato do conhecimento, o sujeito é um saber de si e um saber sobre o mundo,
manifestando-se como sujeito percebedor, imaginante, memorioso, falante e
pensante. É o entendimento propriamente dito, uma estrutura racional e uma
capacidade de conhecimento que é a mesma em todos os seres humanos. Por sua
universalidade, o sujeito do conhecimento distingue-se da consciência
psicológica, pois esta é sempre individual.
Que entendemos por “consciência psicológica”?
Do ponto de vista psicológico, a consciência
é o sentimento de nossa própria identidade: é o eu. O eu é o centro ou a unidade de todos os nossos estados
psíquicos e corporais, ou aquela percepção que permite a alguém dizer “meu
corpo”, “minha razão”, “minhas lembranças”.
A consciência psicológica ou o eu é formada
por nossas vivências. O eu é a consciência de si como o ponto de
identidade e de permanência de um fluxo temporal interior que retém o passado
na memória, percebe o presente pela atenção e espera o futuro pela imaginação e
pelo pensamento.
Por seu turno, a consciência de si reflexiva
ou o sujeito do conhecimento forma-se como atividade de análise e síntese, de
representação e de significação voltadas para a explicação, descrição e
interpretação da realidade e das outras três esferas da vida consciente (vida
psíquica, moral e política), isto é, da posição do mundo natural e cultural e
de si mesma como objetos de conhecimento. Apoia-se em métodos de conhecer e
buscar a verdade ou o verdadeiro. É o aspecto intelectual e teórico da
consciência.
Ao contrário do eu, o sujeito do conhecimento não é uma vivência individual, uma
estrutura cognitiva dotada de universalidade, ou seja, a capacidade de
conhecimento é idêntica em todos os seres humanos e tem a mesma validade para
todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Assim, por exemplo, a
ideia de círculo ou a de triângulo, elaboradas pelo geômetra enquanto sujeito
do conhecimento, possuem o mesmo sentido, as mesmas características e
propriedades, seguem as mesmas leis geométricas em todos os tempos e lugares,
não dependendo de nossos gostos e desejos. Da mesma maneira, o princípio de
identidade e o de não contradição exprimem a estrutura universal do modo de
pensar do sujeito do conhecimento e são válidos em todos os tempos e lugares. O
sujeito do conhecimento se ocupa com noções como as de espaço e tempo, causa e
efeito, princípio e consequência, verdadeiro e falso, matéria e forma, signo e
significação, etc., entendidas como condições universais e necessárias do
conhecimento.”
“Inteligência
e pensamento
A inteligência colhe, recolhe e reúne os
dados oferecidos pela percepção, pela imaginação, pela memória e pela
linguagem, formando redes de significações com as quais organizamos e ordenamos
nosso mundo e nossa vida, recebendo e dando sentido a eles. O pensamento,
porém, vai além do trabalho da inteligência: abstrai (ou seja, separa) os dados
das condições imediatas de nossa experiência e os elabora sob a forma de
conceitos, ideias e juízos, estabelecendo articulações internas e necessárias
entre eles pelo raciocínio (indução e dedução), pela análise e pela síntese.
Formula teorias, procura prová-las e verificá-las, pois está voltado para a
verdade do conhecimento.
Um conceito
ou uma ideia é uma rede de
significações que nos oferece: o sentido interno e essencial daquilo a que se
refere; os nexos causais ou as relações necessárias entre seus elementos, de
sorte que por eles conhecemos a origem, os princípios, as consequências, as
causas e os efeitos daquilo a que se refere. O conceito ou ideia nos oferece a
essência-significação necessária de alguma coisa, sua origem ou causa, suas
consequências ou seus efeitos, seu modo de ser e de agir.
Assim, por exemplo, vejo rosas, margaridas,
girassóis. Mas concebo pelo pensamento o conceito ou a ideia universal de flor.
Sinto corpos quentes, mornos, frios, gelados, sinto o frio da neve, o calor do
Sol, a tepidez agradável da água do mar ou da piscina. Mas concebo pelo
pensamento o conceito ou a ideia de temperatura. Vejo uma bola, no conjunto
musical toco um triângulo, escrevo sobre uma mesa cujo tampo tem quatro lados
iguais. Mas pelo pensamento concebo o conceito ou a ideia de esfera ou círculo,
de triângulo, de quadrado. Vou além: pelo puro pensamento, formulo o conceito
de figura geométrica e das leis que a regem, elaborando axiomas, postulados e
teoremas.
Os conceitos ou ideias são redes de
significações cujos nexos ou ligações são expressos pelo pensamento por meio
dos juízos15, pelos quais
estabelecemos os elos internos e necessários entre um ser e as qualidades, as
propriedades, os atributos que lhe pertencem, assim como aqueles predicados que
lhe são acidentais e que podem ser retirados sem que isso afete o sentido e a
realidade de um ser.
Um conjunto de juízos constitui uma teoria, quando:
·
estabelece-se com clareza um campo de objetos
e os procedimentos para conhecê-los e enunciá-los;
·
organizam-se e ordenam-se os conceitos;
·
articulam-se e demonstram-se os juízos,
verificando seu acordo com regras e princípios de racionalidade e demonstração.
Teoria é explicação, descrição e
interpretação geral das causas, formas, modalidades e relações de um campo de
objetos, conhecidos graças a procedimentos específicos, próprios da natureza
dos objetos investigados.
O pensamento elabora teorias, ou seja, uma
explicação ou interpretação intelectual de um conjunto de fenômenos e
significações (objetos, fatos, situações, acontecimentos), que estabelece a
natureza, o valor e a verdade de tais fenômenos. Por isso falamos em teoria da
relatividade, teoria genética, teoria aristotélica, teoria psicanalítica, etc.
Uma teoria pode ou não nascer diretamente de
uma prática e ter ou não uma aplicação prática direta, mas não é a prática que
permite determinar a verdade ou falsidade teórica e sim critérios internos à
própria teoria (seja sua correspondência com as coisas teorizadas, seja a
coerência interna de seus argumentos, seus raciocínios, suas demonstrações e
suas provas, seja, enfim, a consistência lógica de suas significações). A
prática orienta o trabalho teórico, verifica suas conclusões, mas não determina
sua verdade ou falsidade.
O pensamento propõe e elabora teorias e cria métodos.
A necessidade do método
Usar um método é seguir regular e
ordenadamente um caminho através do qual um certo objetivo é alcançado. No caso
do conhecimento, é o caminho ordenado que o pensamento segue por meio de um
conjunto de regras e procedimentos racionais, com três finalidades:
1. conduzir a descoberta de uma verdade até
então desconhecida;
2. permitir a demonstração e a prova de uma
verdade já conhecida;
3. permitir a verificação de conhecimentos
para averiguar se são ou não verdadeiros.
O método é, portanto, um instrumento racional
para adquirir, demonstrar ou verificar conhecimentos.
Por que se sente a necessidade de um método?
Porque, como vimos, o erro, a ilusão, o falso, a mentira rondam o conhecimento,
interferem na experiência e no pensamento. Para dar segurança ao conhecimento,
o pensamento cria regras e procedimentos que permitem ao sujeito cognoscente
aferir e controlar todos os passos que realiza no conhecimento de algum objeto
ou conjunto de objetos. (...)
O método, nas várias formulações que recebeu
no correr da história da filosofia e das ciências, sempre teve o papel de um regulador do pensamento, isto é, de
verificador e avaliador das ideias e teorias: guia o trabalho intelectual
(produção das ideias, dos experimentos, das teorias) e avalia os resultados
obtidos.
Desde Aristóteles, a filosofia considera que,
ao lado de um método geral que todo e qualquer conhecimento deve seguir, tanto
para a aquisição como para a demonstração e verificação de verdades, outros
métodos particulares são necessários, pois os objetos a serem conhecidos também
exigem métodos que estejam em conformidade com eles e, assim, haverá diferentes
métodos conforme a especificidade do objeto a ser conhecido. Dessa maneira, são
diferentes entre si os métodos da geometria e da física, da biologia e da
sociologia, da história e da química, e assim por diante.”
15. Como já vimos, o juízo relaciona positiva ou negativamente um
sujeito S e um predicado ou conjunto de predicados P: S é P:S não é P. Também
relaciona S e P necessariamente:
“Sócrates é mortal”; acidentalmente:
“Sócrates é pequeno”; possivelmente:
“Sócrates poderá vir à praça”, “Se não chover, Sócrates virá à praça”, etc.
“Como
funciona o pensamento conceitual
O pensamento conceitual ou lógico opera de
maneira diferente e mesmo oposta à do pensamento mítico. À primeira e
fundamental diferença está no fato de que enquanto o pensamento mítico opera
por bricolage (associação e reunião
de fragmentos heterogêneos), o pensamento conceitual opera por método (procedimento lógico para a
articulação racional entre elementos homogêneos). Dessa diferença resultam
outras:
·
um conceito ou uma ideia não é uma imagem nem
um símbolo, mas uma descrição e uma explicação da essência ou natureza própria
de um ser, referindo-se a esse ser e somente a ele;
·
um
conceito ou uma ideia não são substitutos para as coisas, mas a compreensão
intelectual delas;
·
um
conceito ou uma ideia não são formas de participação ou de relação de nosso
espírito em outra realidade, mas são o resultado de uma análise ou de uma
síntese dos dados da realidade ou do próprio pensamento;
·
um
juízo e um raciocínio não permanecem no nível da experiência, nem organizam a
experiência nela mesma, mas, partindo dela, a sistematizam em relações
racionais que a tornam compreensível do ponto de vista lógico;
·
um juízo e um raciocínio buscam as causas
universais e necessárias pelas quais uma realidade é tal como é, distinguindo o
modo como ela nos aparece do modo como é em si mesma, as causas e os efeitos
são homogêneos, quer dizer, são de mesma natureza;
·
um
juízo e um raciocínio estudam e investigam a diferença entre nossas vivências
subjetivas, pessoais e coletivas, e os conhecimentos gerais e objetivos, que
são de todos e de ninguém em particular. Estabelecem a diferença entre
vivências subjetivas e a estrutura objetiva do pensamento em geral; «» o
pensamento lógico submete seus procedimentos a métodos, isto é, a regras de
verificação e de generalização dos conhecimentos adquiridos; a regras de
ordenamento e sistematização dos procedimentos e dos resultados, de modo que um
conhecimento novo não pode simplesmente ser acrescentado aos anteriores (como
na bricolage), mas só se junta a eles
se obedecer a certas regras e princípios intelectuais.
O pensamento lógico ou racional (ou o
pensamento objetivo) opera de acordo com os princípios de identidade,
contradição, terceiro excluído, razão suficiente e causalidade; distingue
verdades de fato e verdades de razão; diferencia intuição, dedução, indução e
abdução; distingue análise e síntese; diferencia reflexão e verificação, teoria
e prática, ciência e técnica.
Se relermos o capítulo 2 da Unidade 1,
perceberemos melhor a diferença entre as duas modalidades de pensamento vendo a
diferença entre a explicação cosmogônica
(mítica) e a cosmológica
(conceitual) da realidade, tais como foram elaboradas na Grécia.
O pensamento cosmogônico narrava a origem da
natureza por meio de genealogias divinas: as forças e os seres naturais estavam
personalizados e simbolizados pelos deuses, titãs e heróis, cujas relações
sexuais davam origem às coisas, aos homens, às estações do ano, ao dia e à
noite, às colheitas, à sociedade. Suas paixões não correspondidas se exprimiam
por raios, trovões, tempestades, tufões, desertos. Seus amores e desejos
realizados manifestavam-se na abundância da primavera, das colheitas, da
procriação dos animais.
O pensamento cosmológico explicava a origem
da natureza pela existência de um ou alguns elementos naturais (terra-seco,
água-úmido, ar-frio, fogo-quente), a physis,
que, por sua força interna natural, se transformava, dando origem a todas as coisas
e aos homens. Os primeiros filósofos consideravam os elementos originários como
forças divinas, mas já não eram personalizadas nem sua ação explicada por
desejos, paixões e furores.
Aristóteles sistematizou lógica e
racionalmente as cosmologias ou teorias sobre a natureza numa física, isto é,
numa teoria ou ciência sobre a matéria e a forma dos seres naturais e sobre as
causas de seus movimentos.
Para os gregos, como vimos, movimento (kinesis) significa:
·
toda mudança qualitativa de um ser qualquer
(por exemplo, uma semente que se torna árvore, um objeto branco que amarelece,
um animal que adoece, algo quente que esfria, algo frio que esquenta, o duro
que amolece, o mole que endurece, etc.);
·
toda mudança ou alteração quantitativa (por
exemplo, um corpo que aumente e diminua, que se divida em outros menores, que
encompride ou encurte, alargue ou estreite, etc.);
·
toda mudança de lugar ou locomoção (subir,
descer, cair, a trajetória de uma flecha, o deslocamento de um barco, a queda
de uma pedra, o levitar de uma pluma, etc.);
·
toda geração ou nascimento e toda corrupção
ou morte dos seres.
Esses movimentos, diz Aristóteles, possuem causas, pois tudo o que
existe possui causa e o conhecimento verdadeiro é o conhecimento das causas.
São quatro as causas dos movimentos:
1. causa material — a matéria
de que alguma coisa é feita (madeira, pedra, metal, líquido);
2. causa formal — a forma que
alguma coisa possui e que a individualiza e a diferencia das outras (a mesa é
causa formal da madeira, a estátua é causa formal da pedra, a taça é causa
formal do metal, o vinho é causa formal do líquido);
3. causa motriz ou eficiente —
aquilo que faz uma matéria receber uma forma determinada (no caso dos objetos
artificiais ou artefatos, a causa eficiente é o artesão — o carpinteiro que faz
a mesa, o escultor que faz a estátua, o ferreiro que faz a taça, o vinicultor
que faz o vinho; no caso dos seres naturais, a causa eficiente também é uma
coisa natural — por exemplo, o calor derrete o metal, o sol esquenta um corpo e
lhe dá outra consistência ou forma, etc.);
4. causa final — o motivo ou
finalidade para a qual a coisa existe, se transforma e se realiza (a mesa
existe para que possamos usá-la para refeições, escrever, depositar objetos,
etc.; a estátua, para o culto de um deus; a taça, para colocarmos bebidas; o
vinho, para bebermos.
Com a física aristotélica vemos a natureza
tornar-se inteligível ao pensamento, que pode explicá-la, descrevê-la,
compreendê-la e interpretá-la conceitualmente.”

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