quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Convite à Filosofia (Parte II), de Marilena Chaui

Editora: Ática

ISBN: 978-850808935-2

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 424

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: Ver Parte I



Finalmente, desde o final do século XX, o pós-modernismo vem ganhando relevância. Seu alvo principal, como vimos há pouco, é a crítica de todos os conceitos e valores que, até hoje, sustentaram a filosofia e o pensamento dito ocidental: razão, saber, sujeito, objeto, história, espaço, tempo, liberdade, necessidade, acaso, natureza, homem etc.

Vimos que o otimismo racionalista da modernidade foi constatado no decorrer do século XX: a crítica das ideologias, a descoberta freudiana do inconsciente, a crítica da história, da unidade da cultura ou de sua pluralidade nacional, dos benefícios das ciências e das técnicas foram contestando os valores e ideias modernos.

Já no início dos anos 20, com as obras dos filósofos Wittgenstein e Heidegger, a ideia da metafísica como conhecimento da realidade última dos seres foi contestada e acabou cedendo lugar ao papel da linguagem na invenção dos próprios seres e dos objetos de conhecimento.

Também, entre os anos 1915 e 1960, com as filosofias de Husserl e de Merleau-Ponty, surgiu a ideia de que a concepção moderna de razão era insuficiente para dar conta de todo o pensamento humano, das experiências e vivências corporais, da linguagem e das artes.

Da mesma maneira, os filósofos do chamado Círculo de Viena afirmaram, no início do século XX, os limites da filosofia e das ciências para conhecer as próprias coisas e consideraram a ciência apenas “uma linguagem bem feita”.

Entre os anos 1960 e 1980, a obra do filósofo francês Michel Foucault expressava todas as críticas que o século XX vinha fazendo ao racionalismo moderno, à sua concepção de metafísica, história, ciência e cultura.

Com isso, podemos dizer que o pós-modernismo veio sendo gestado no interior da filosofia até o momento em que, nos anos 1960, pôde finalmente expressar-se como uma posição filosófica.

Quais são os campos próprios em que se desenvolve a reflexão filosófica nestes 26 séculos? São eles:

Ontologia ou metafísica: conhecimento dos princípios e fundamentos últimos de toda a realidade, de todos os seres.

Lógica: conhecimento das formas e regras gerais do pensamento correto e verdadeiro, independentemente dos conteúdos pensados; regras e critérios que determinam a forma dos discursos ou dos argumentos tanto para a demonstração científica verdadeira como para os discursos não científicos; regras para a verificação da verdade ou falsidade de um pensamento ou de um discurso etc.

Epistemologia: análise crítica das ciências, tanto as ciências exatas ou matemáticas quanto as naturais e as humanas; avaliação dos métodos e dos resultados das ciências; compatibilidades e incompatibilidades entre as ciências, formas de relações entre as ciências etc.

Teoria do conhecimento ou estudo das diferentes modalidades de conhecimento humano: o conhecimento sensorial ou sensação e percepção; a memória e a imaginação; o conhecimento intelectual; a ideia de verdade e falsidade; a ideia de ilusão e realidade; formas de conhecer o espaço e o tempo; formas de conhecer relações; conhecimento ingênuo e conhecimento científico; diferença entre conhecimento científico e filosófico etc.

Ética: estudo dos valores morais (as virtudes), da relação entre vontade e paixão, vontade e razão; finalidades e valores da ação moral; ideias de liberdade, responsabilidade, dever, obrigação etc.

Filosofia política: estudo sobre a natureza do poder e da autoridade; ideia de direito, lei, justiça, dominação, violência; formas dos regimes políticos e suas fundamentações; nascimento e formas do Estado; ideias autoritárias, conservadoras, revolucionárias e libertárias; teorias da revolução e da reforma; análise e crítica das ideologias.

Filosofia da história: estudo sobre a dimensão temporal da existência humana como existência sociopolítica e cultural; teorias do progresso, da evolução e teorias da descontinuidade histórica; significado das diferenças culturais e históricas, suas razões e consequências.

Filosofia da arte ou estética: estudo das formas de arte, do trabalho artístico; ideia de obra de arte e de criação; relação entre matéria e forma nas artes; relação entre arte e sociedade, arte e política, arte e ética.

Filosofia da linguagem: a linguagem como manifestação da humanidade do homem; signos, significações; a comunicação; passagem da linguagem oral à escrita, da linguagem cotidiana à filosófica, à literária, à científica; diferentes modalidades de linguagem como diferentes formas de expressão e de comunicação.

História da filosofia: estudo dos diferentes períodos da filosofia; de grupos de filósofos segundo os temas e problemas que abordam; de relações entre o pensamento filosófico e as condições econômicas, políticas, sociais e culturais de uma sociedade; mudanças ou transformações de conceitos filosóficos em diferentes épocas; mudanças na concepção do que seja a filosofia e de seu papel ou finalidade.”

 

 

Por identificar razão e certeza, a filosofia afirma que a verdade é racional; por identificar razão e lucidez (não ficar ou não estar louco), a filosofia chama nossa razão de luz e luz natural (pois a palavra lucidez vem de luz); por identificar razão e motivo, por considerar que sempre agimos e falamos movidos por motivos, a filosofia afirma que somos seres racionais e que nossa vontade é racional; por identificar razão e causa e por julgar que a realidade opera de acordo com relações causais, a filosofia afirma que a realidade é racional.”

 

 

“A intuição é uma compreensão global e completa de uma verdade, de um objeto, de um fato. Nela, de uma só vez, a razão capta todas as relações que constituem a realidade e a verdade da coisa intuída. É um ato intelectual de discernimento e compreensão, como, por exemplo, quando um médico, graças ao conjunto de conhecimentos que possui, faz um diagnóstico em que apreende de uma só vez a doença, sua causa e o modo de tratá-la. Os psicólogos se referem à intuição usando o termo insight, descrevendo-o como o momento em que temos uma compreensão total, direta e imediata de alguma coisa, ou o momento em que percebemos, num só lance, um caminho para a solução de um problema prático, científico, filosófico, moral ou vital.”

 

 

Por que ainda falamos em razão?

Diante das concepções descontinuístas da razão e do pós-modernismo, podemos fazer duas perguntas:

1. Se em cada época, por motivos históricos e teóricos determinados, a razão muda inteiramente, o que queremos dizer quando continuamos empregando a palavra razão?

2. Se, em cada ciência, filosofia, teoria ou expressão do pensamento nada há em comum com as anteriores e as posteriores, por que dizemos que algumas são racionais e outras não o são? À razão não seria, afinal, um mito que nossa cultura inventou para si mesma, como dizem os pós-modernos?

Podemos responder à primeira pergunta dizendo que continuamos a falar em razão, apesar de haver muitas e diferentes “razões”, porque mantemos uma ideia que é essencial à noção ocidental de razão. Que ideia é essa? A de que a realidade, o mundo natural e cultural, os seres humanos, suas ações e obras têm sentido e esse sentido pode ser conhecido. A atitude racional de conhecer a realidade não é senão o trabalho do pensamento para apreender, compreender e interpretar o sentido das coisas, dos fatos, das ideias, ações e valores humanos. É esse ideal do conhecimento que é conservado quando continuamos a falar em razão.

Com relação à segunda pergunta, podemos dizer que, em cada época, os membros da sociedade e da cultura ocidentais julgam a validade da própria razão como capaz ou incapaz de realizar o ideal do conhecimento. Esse julgamento pode ser realizado de duas maneiras.

A primeira maneira ou o primeiro critério de avaliação da capacidade racional é o da coerência interna de um pensamento ou de uma teoria. Ou seja, quando um pensamento ou uma teoria se propõem a oferecer um conhecimento, simultaneamente também oferecem os princípios, os conceitos e os procedimentos que sustentam a explicação apresentada. Quando não há compatibilidade entre a explicação e os princípios, os conceitos e os procedimentos oferecidos, dizemos que não há coerência e que o pensamento ou a teoria não são racionais. A razão é, assim, o critério de que dispomos para a avaliação, o instrumento para julgar a validade de um pensamento ou de uma teoria, julgando, ela mesma, sua coerência ou incoerência.

A segunda maneira é diferente da anterior. Agora, pergunta-se se um pensamento ou uma teoria contribuem ou não para que os seres humanos conheçam e compreendam as circunstâncias em que vivem, contribuem ou não para alterar situações que os seres humanos julgam inaceitáveis ou intoleráveis, contribuem ou não para melhorar as condições em que os seres humanos vivem. Assim, a razão, além de ser o critério para avaliar os conhecimentos, é também um instrumento crítico para compreendermos as circunstâncias em que vivemos, para mudá-las ou melhorá-las. A razão tem um potencial ativo ou transformador e por isso continuamos a falar nela e a desejá-la.”

 

 

Com os filósofos gregos, estabeleceram-se alguns princípios gerais do conhecimento verdadeiro:

·        a determinação das fontes e formas do conhecimento: sensação, percepção, imaginação, memória, linguagem, raciocínio e intuição intelectual;

·        a distinção entre o conhecimento sensível e o conhecimento intelectual;

·        o papel da linguagem no conhecimento;

·        a diferença entre opinião e saber ou conhecimento verdadeiro;

·        a diferença entre aparência e essência;

·        a definição dos princípios do pensamento verdadeiro (identidade, não contradição, terceiro excluído), da forma do conhecimento verdadeiro (ideias, conceitos e juízos) e dos procedimentos para alcançar o conhecimento verdadeiro (indução, dedução, intuição);

·        o estabelecimento de procedimentos corretos que orientam a razão na busca do conhecimento e asseguram sua chegada a conhecimentos verdadeiros (em Platão, esse procedimento é a dialética, em Aristóteles, a lógica ou o que ele chama de analítica);

·        a distinção dos campos do conhecimento verdadeiro segundo os objetos conhecidos em cada um deles, distinção que foi sistematizada por Aristóteles em três ramos: teorético (referente aos seres que apenas podemos contemplar ou observar, sem agir sobre eles ou neles interferir); prático (referente às ações humanas: ética, política e economia); e técnico (referente à fabricação de instrumentos e de objetos e ao trabalho humano, o qual pode interferir no curso da natureza — como a agricultura e a medicina —, e fabricar instrumentos ou artefatos — como os artesanatos, a arquitetura, a escultura, a poesia, a retórica, etc.).

 

 

“As diferenças entre racionalismo e empirismo não impedem que haja um elemento comum a todos os filósofos a partir da modernidade, qual seja, tomar o entendimento humano como objeto da investigação filosófica.

Tomar o entendimento objeto para si próprio, tomar o sujeito do conhecimento objeto de conhecimento para si mesmo é a grande tarefa que a modernidade filosófica inaugura ao desenvolver a teoria do conhecimento. Como se trata da volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se, ou do sujeito do conhecimento colocando-se como objeto para si mesmo, a teoria do conhecimento é a reflexão filosófica.

O pressuposto da teoria do conhecimento como reflexão filosófica é o de que somos seres racionais conscientes.

O que a teoria do conhecimento entende por consciência?

A capacidade humana para conhecer, para saber que conhece e para saber que sabe que conhece. A consciência é um conhecimento (das coisas e de si) e um conhecimento desse conhecimento (reflexão).

Do ponto de vista da teoria do conhecimento, a consciência é uma atividade sensível e intelectual dotada do poder de análise e síntese, de representação dos objetos por meio de ideias e de avaliação, compreensão e interpretação desses objetos por meio de juízos. É o sujeito do conhecimento. Este se reconhece como diferente dos objetos, cria e/ou descobre significações, institui sentidos, elabora conceitos, ideias, juízos e teorias. Por ser dotado de reflexão, isto é, da capacidade de conhecer-se a si mesmo no ato do conhecimento, o sujeito é um saber de si e um saber sobre o mundo, manifestando-se como sujeito percebedor, imaginante, memorioso, falante e pensante. É o entendimento propriamente dito, uma estrutura racional e uma capacidade de conhecimento que é a mesma em todos os seres humanos. Por sua universalidade, o sujeito do conhecimento distingue-se da consciência psicológica, pois esta é sempre individual.

Que entendemos por “consciência psicológica”?

Do ponto de vista psicológico, a consciência é o sentimento de nossa própria identidade: é o eu. O eu é o centro ou a unidade de todos os nossos estados psíquicos e corporais, ou aquela percepção que permite a alguém dizer “meu corpo”, “minha razão”, “minhas lembranças”.

A consciência psicológica ou o eu é formada por nossas vivências. O eu é a consciência de si como o ponto de identidade e de permanência de um fluxo temporal interior que retém o passado na memória, percebe o presente pela atenção e espera o futuro pela imaginação e pelo pensamento.

Por seu turno, a consciência de si reflexiva ou o sujeito do conhecimento forma-se como atividade de análise e síntese, de representação e de significação voltadas para a explicação, descrição e interpretação da realidade e das outras três esferas da vida consciente (vida psíquica, moral e política), isto é, da posição do mundo natural e cultural e de si mesma como objetos de conhecimento. Apoia-se em métodos de conhecer e buscar a verdade ou o verdadeiro. É o aspecto intelectual e teórico da consciência.

Ao contrário do eu, o sujeito do conhecimento não é uma vivência individual, uma estrutura cognitiva dotada de universalidade, ou seja, a capacidade de conhecimento é idêntica em todos os seres humanos e tem a mesma validade para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Assim, por exemplo, a ideia de círculo ou a de triângulo, elaboradas pelo geômetra enquanto sujeito do conhecimento, possuem o mesmo sentido, as mesmas características e propriedades, seguem as mesmas leis geométricas em todos os tempos e lugares, não dependendo de nossos gostos e desejos. Da mesma maneira, o princípio de identidade e o de não contradição exprimem a estrutura universal do modo de pensar do sujeito do conhecimento e são válidos em todos os tempos e lugares. O sujeito do conhecimento se ocupa com noções como as de espaço e tempo, causa e efeito, princípio e consequência, verdadeiro e falso, matéria e forma, signo e significação, etc., entendidas como condições universais e necessárias do conhecimento.”

 

 

Inteligência e pensamento

A inteligência colhe, recolhe e reúne os dados oferecidos pela percepção, pela imaginação, pela memória e pela linguagem, formando redes de significações com as quais organizamos e ordenamos nosso mundo e nossa vida, recebendo e dando sentido a eles. O pensamento, porém, vai além do trabalho da inteligência: abstrai (ou seja, separa) os dados das condições imediatas de nossa experiência e os elabora sob a forma de conceitos, ideias e juízos, estabelecendo articulações internas e necessárias entre eles pelo raciocínio (indução e dedução), pela análise e pela síntese. Formula teorias, procura prová-las e verificá-las, pois está voltado para a verdade do conhecimento.

Um conceito ou uma ideia é uma rede de significações que nos oferece: o sentido interno e essencial daquilo a que se refere; os nexos causais ou as relações necessárias entre seus elementos, de sorte que por eles conhecemos a origem, os princípios, as consequências, as causas e os efeitos daquilo a que se refere. O conceito ou ideia nos oferece a essência-significação necessária de alguma coisa, sua origem ou causa, suas consequências ou seus efeitos, seu modo de ser e de agir.

Assim, por exemplo, vejo rosas, margaridas, girassóis. Mas concebo pelo pensamento o conceito ou a ideia universal de flor. Sinto corpos quentes, mornos, frios, gelados, sinto o frio da neve, o calor do Sol, a tepidez agradável da água do mar ou da piscina. Mas concebo pelo pensamento o conceito ou a ideia de temperatura. Vejo uma bola, no conjunto musical toco um triângulo, escrevo sobre uma mesa cujo tampo tem quatro lados iguais. Mas pelo pensamento concebo o conceito ou a ideia de esfera ou círculo, de triângulo, de quadrado. Vou além: pelo puro pensamento, formulo o conceito de figura geométrica e das leis que a regem, elaborando axiomas, postulados e teoremas.

Os conceitos ou ideias são redes de significações cujos nexos ou ligações são expressos pelo pensamento por meio dos juízos15, pelos quais estabelecemos os elos internos e necessários entre um ser e as qualidades, as propriedades, os atributos que lhe pertencem, assim como aqueles predicados que lhe são acidentais e que podem ser retirados sem que isso afete o sentido e a realidade de um ser.

Um conjunto de juízos constitui uma teoria, quando:

·        estabelece-se com clareza um campo de objetos e os procedimentos para conhecê-los e enunciá-los;

·        organizam-se e ordenam-se os conceitos;

·        articulam-se e demonstram-se os juízos, verificando seu acordo com regras e princípios de racionalidade e demonstração.

Teoria é explicação, descrição e interpretação geral das causas, formas, modalidades e relações de um campo de objetos, conhecidos graças a procedimentos específicos, próprios da natureza dos objetos investigados.

O pensamento elabora teorias, ou seja, uma explicação ou interpretação intelectual de um conjunto de fenômenos e significações (objetos, fatos, situações, acontecimentos), que estabelece a natureza, o valor e a verdade de tais fenômenos. Por isso falamos em teoria da relatividade, teoria genética, teoria aristotélica, teoria psicanalítica, etc.

Uma teoria pode ou não nascer diretamente de uma prática e ter ou não uma aplicação prática direta, mas não é a prática que permite determinar a verdade ou falsidade teórica e sim critérios internos à própria teoria (seja sua correspondência com as coisas teorizadas, seja a coerência interna de seus argumentos, seus raciocínios, suas demonstrações e suas provas, seja, enfim, a consistência lógica de suas significações). A prática orienta o trabalho teórico, verifica suas conclusões, mas não determina sua verdade ou falsidade.

O pensamento propõe e elabora teorias e cria métodos.

 

A necessidade do método

Usar um método é seguir regular e ordenadamente um caminho através do qual um certo objetivo é alcançado. No caso do conhecimento, é o caminho ordenado que o pensamento segue por meio de um conjunto de regras e procedimentos racionais, com três finalidades:

1. conduzir a descoberta de uma verdade até então desconhecida;

2. permitir a demonstração e a prova de uma verdade já conhecida;

3. permitir a verificação de conhecimentos para averiguar se são ou não verdadeiros.

O método é, portanto, um instrumento racional para adquirir, demonstrar ou verificar conhecimentos.

Por que se sente a necessidade de um método? Porque, como vimos, o erro, a ilusão, o falso, a mentira rondam o conhecimento, interferem na experiência e no pensamento. Para dar segurança ao conhecimento, o pensamento cria regras e procedimentos que permitem ao sujeito cognoscente aferir e controlar todos os passos que realiza no conhecimento de algum objeto ou conjunto de objetos. (...)

O método, nas várias formulações que recebeu no correr da história da filosofia e das ciências, sempre teve o papel de um regulador do pensamento, isto é, de verificador e avaliador das ideias e teorias: guia o trabalho intelectual (produção das ideias, dos experimentos, das teorias) e avalia os resultados obtidos.

Desde Aristóteles, a filosofia considera que, ao lado de um método geral que todo e qualquer conhecimento deve seguir, tanto para a aquisição como para a demonstração e verificação de verdades, outros métodos particulares são necessários, pois os objetos a serem conhecidos também exigem métodos que estejam em conformidade com eles e, assim, haverá diferentes métodos conforme a especificidade do objeto a ser conhecido. Dessa maneira, são diferentes entre si os métodos da geometria e da física, da biologia e da sociologia, da história e da química, e assim por diante.”

15. Como já vimos, o juízo relaciona positiva ou negativamente um sujeito S e um predicado ou conjunto de predicados P: S é P:S não é P. Também relaciona S e P necessariamente: “Sócrates é mortal”; acidentalmente: “Sócrates é pequeno”; possivelmente: “Sócrates poderá vir à praça”, “Se não chover, Sócrates virá à praça”, etc.

 

 

Como funciona o pensamento conceitual

O pensamento conceitual ou lógico opera de maneira diferente e mesmo oposta à do pensamento mítico. À primeira e fundamental diferença está no fato de que enquanto o pensamento mítico opera por bricolage (associação e reunião de fragmentos heterogêneos), o pensamento conceitual opera por método (procedimento lógico para a articulação racional entre elementos homogêneos). Dessa diferença resultam outras:

·        um conceito ou uma ideia não é uma imagem nem um símbolo, mas uma descrição e uma explicação da essência ou natureza própria de um ser, referindo-se a esse ser e somente a ele;

·         um conceito ou uma ideia não são substitutos para as coisas, mas a compreensão intelectual delas;

·         um conceito ou uma ideia não são formas de participação ou de relação de nosso espírito em outra realidade, mas são o resultado de uma análise ou de uma síntese dos dados da realidade ou do próprio pensamento;

·         um juízo e um raciocínio não permanecem no nível da experiência, nem organizam a experiência nela mesma, mas, partindo dela, a sistematizam em relações racionais que a tornam compreensível do ponto de vista lógico;

·        um juízo e um raciocínio buscam as causas universais e necessárias pelas quais uma realidade é tal como é, distinguindo o modo como ela nos aparece do modo como é em si mesma, as causas e os efeitos são homogêneos, quer dizer, são de mesma natureza;

·         um juízo e um raciocínio estudam e investigam a diferença entre nossas vivências subjetivas, pessoais e coletivas, e os conhecimentos gerais e objetivos, que são de todos e de ninguém em particular. Estabelecem a diferença entre vivências subjetivas e a estrutura objetiva do pensamento em geral; «» o pensamento lógico submete seus procedimentos a métodos, isto é, a regras de verificação e de generalização dos conhecimentos adquiridos; a regras de ordenamento e sistematização dos procedimentos e dos resultados, de modo que um conhecimento novo não pode simplesmente ser acrescentado aos anteriores (como na bricolage), mas só se junta a eles se obedecer a certas regras e princípios intelectuais.

O pensamento lógico ou racional (ou o pensamento objetivo) opera de acordo com os princípios de identidade, contradição, terceiro excluído, razão suficiente e causalidade; distingue verdades de fato e verdades de razão; diferencia intuição, dedução, indução e abdução; distingue análise e síntese; diferencia reflexão e verificação, teoria e prática, ciência e técnica.

Se relermos o capítulo 2 da Unidade 1, perceberemos melhor a diferença entre as duas modalidades de pensamento vendo a diferença entre a explicação cosmogônica (mítica) e a cosmológica (conceitual) da realidade, tais como foram elaboradas na Grécia.

O pensamento cosmogônico narrava a origem da natureza por meio de genealogias divinas: as forças e os seres naturais estavam personalizados e simbolizados pelos deuses, titãs e heróis, cujas relações sexuais davam origem às coisas, aos homens, às estações do ano, ao dia e à noite, às colheitas, à sociedade. Suas paixões não correspondidas se exprimiam por raios, trovões, tempestades, tufões, desertos. Seus amores e desejos realizados manifestavam-se na abundância da primavera, das colheitas, da procriação dos animais.

O pensamento cosmológico explicava a origem da natureza pela existência de um ou alguns elementos naturais (terra-seco, água-úmido, ar-frio, fogo-quente), a physis, que, por sua força interna natural, se transformava, dando origem a todas as coisas e aos homens. Os primeiros filósofos consideravam os elementos originários como forças divinas, mas já não eram personalizadas nem sua ação explicada por desejos, paixões e furores.

Aristóteles sistematizou lógica e racionalmente as cosmologias ou teorias sobre a natureza numa física, isto é, numa teoria ou ciência sobre a matéria e a forma dos seres naturais e sobre as causas de seus movimentos.

Para os gregos, como vimos, movimento (kinesis) significa:

·        toda mudança qualitativa de um ser qualquer (por exemplo, uma semente que se torna árvore, um objeto branco que amarelece, um animal que adoece, algo quente que esfria, algo frio que esquenta, o duro que amolece, o mole que endurece, etc.);

·        toda mudança ou alteração quantitativa (por exemplo, um corpo que aumente e diminua, que se divida em outros menores, que encompride ou encurte, alargue ou estreite, etc.);

·        toda mudança de lugar ou locomoção (subir, descer, cair, a trajetória de uma flecha, o deslocamento de um barco, a queda de uma pedra, o levitar de uma pluma, etc.);

·        toda geração ou nascimento e toda corrupção ou morte dos seres.

Esses movimentos, diz Aristóteles, possuem causas, pois tudo o que existe possui causa e o conhecimento verdadeiro é o conhecimento das causas. São quatro as causas dos movimentos:

1. causa material — a matéria de que alguma coisa é feita (madeira, pedra, metal, líquido);

2. causa formal — a forma que alguma coisa possui e que a individualiza e a diferencia das outras (a mesa é causa formal da madeira, a estátua é causa formal da pedra, a taça é causa formal do metal, o vinho é causa formal do líquido);

3. causa motriz ou eficiente — aquilo que faz uma matéria receber uma forma determinada (no caso dos objetos artificiais ou artefatos, a causa eficiente é o artesão — o carpinteiro que faz a mesa, o escultor que faz a estátua, o ferreiro que faz a taça, o vinicultor que faz o vinho; no caso dos seres naturais, a causa eficiente também é uma coisa natural — por exemplo, o calor derrete o metal, o sol esquenta um corpo e lhe dá outra consistência ou forma, etc.);

4. causa final — o motivo ou finalidade para a qual a coisa existe, se transforma e se realiza (a mesa existe para que possamos usá-la para refeições, escrever, depositar objetos, etc.; a estátua, para o culto de um deus; a taça, para colocarmos bebidas; o vinho, para bebermos.

Com a física aristotélica vemos a natureza tornar-se inteligível ao pensamento, que pode explicá-la, descrevê-la, compreendê-la e interpretá-la conceitualmente.”

Nenhum comentário: